Mais uma semana havia se passado e Jenna estava se recuperando do susto que levara ao quase morrer envenenada. Lucas não havia aparecido em Rosewood Hogh desde aquele dia e pelo que ouvi dizer, ele estava "doente". Achei muita coincidência, mas não disse nada à ninguém. Emily estava muito ocupada com seu início de namoro com Maya e Spencer, como sempre, estava mergulhada em livros e cadernos. Mas desta vez, ela estava mergulhada em livros e cadernos comigo.
Estávamos muito mais próximos do que nunca. Na maior parte da semana, depois das aulas, íamos um para a casa do outro estudar ou simplesmente passar o tempo. Passávamos a tarde juntos, só voltando para nossas respectivas casas ao anoitecer. Mas mesmo estando tão próximos, não contei a ela sobre minhas suspeitas quanto à Lucas e nem sobre as mensagens anônimas que estava recebendo de –A. Queria ter certeza se aquelas coisas eram realmente importantes antes de preocupá-la com elas.
Era novamente uma tarde de terça-feira, chuvosa e nublada. Tinha acabado de chegar em casa vindo da carpintaria. Deixei o guarda chuva aberto na varanda para secar, abri a porta e logo fui deixando minha mochila em cima da mesa. A casa estava escura e silenciosa. Olhei as horas no relógio da sala e franzi a testa. Três e meia e Jenna não estava em casa? Havia algo de errado. Fui em todos os cômodos da casa procurar por ela e não a encontrei. Também não encontrei um bilhete dizendo para onde ia. Aquilo só podia significar uma coisa...
"Spencer venha para cá agora. Jenna desapareceu de novo."
Entrei em meu quarto, peguei uma mala velha e comecei a colocar rapidamente minhas coisas dentro dela. Quando terminei, fui tomar banho e me arrumar o mais depressa possível. Quando estava terminando de vestir minha camisa, ouvi a campainha soar. Corri para atender a porta.
- Desculpe a demora, mas quando recebi sua mensagem estava no meio do capítulo 32 de história. Até terminá-lo e arrumar minhas coisas..., disse Spencer com as sobrancelhas arqueadas.
- Tudo bem, foi melhor assim, respondi. Tive mais tempo para me arrumar. Entre, já está tudo pronto.
- Você já sabe para onde ela foi?, perguntou ela enquanto entrava na casa.
- Ela só pode ter ido para Brookheaven. Foi para lá que Jenna havia ido da outra vez.
- Mas você achou alguma prova de que dessa vez ela foi para lá?
- Bem... não, mas...
- Pelo menos procurou?
- Não...
- Então temos que fazer isto! Ela pode ter ido para qualquer outra cidade próxima de Rosewood!
- Tudo bem, mas temos de ser rápidos.
Ela assentiu e corremos direto para o quarto de minha irmã. Enquanto eu abria as cortinas e iluminava o quarto, Spencer já estava vasculhando os armários e as roupas. Abrimos caixas, sacudimos livros, CDs, DVDs, lemos todos os papéis soltos que encontramos e nada.
- Desista, Spence. Vamos logo para Brookheaven antes que fique tarde, resmunguei ofegante.
- Só falta a estante, Toby. Ainda não procuramos nela.
- Tudo bem, cedi. Mas se não acharmos nada nela, vamos para o carro imediatamente.
- Tudo bem, ela assentiu respirando fundo. Mas então vamos com calma.
Fiz que sim com a cabeça e fui para o lado dela ajudá-la na busca. Levantamos cada pequeno enfeite e folheamos cada livro, novamente sem sucesso.
- Toby, eu pensei que acharíamos algo por aqui, lamentou Spencer ao se levantar. E agora, o que faremos?
- Acho que não temos escolha senão Brookheaven, disse calmamente.
- Mas e se ela não estiver lá? Vamos perder tempo à toa!
Spencer choramingou, abrindo os braços. Quando fez isso, sem querer, sua mão esquerda bateu em um pequeno globo de neve da estante, deixando-o cair. Abaixamos-nos para pegá-lo ainda no ar e quando nos levantamos, nossas mãos estavam entrelaçadas, segurando o globo entre elas. Olhamos-nos timidamente nos olhos e sorrimos um para o outro, ela ficando levemente corada. Coloquei o globinho de volta em seu lugar e voltei a fitar Spencer.
- Ei, tenha calma!, disse ainda segurando em sua mão. Eu conheço Jenna, se depender dela, ela nunca mudará de lugar.
- Como sabe?
- Como ela é cega, é mais difícil se adaptar a novos lugares. Ainda mais em tão pouco tempo. Ela não vai para outra cidade tão cedo.
- Espero que esteja certo, suspirou Spencer olhando-me desolada.
Eu também, pensei.
- Só vamos saber se formos para lá, disse com um sorriso.
Ela sorriu de volta e saímos do quarto de Jenna. Peguei minha mala velha, minha mochila e meu guarda chuva na varanda e entrei no carro ao lado de Spencer. Ela deu a partida e começamos nossa viagem.
Já estava entardecendo quando finalmente chegamos ao nosso destino. Eu havia dormido a maior parte do trajeto e ainda estava meio sonolento quando havia acordado. Spencer estacionou o carro e tiramos nossas malas, nos dirigindo para a recepção do Vail Rose Motel.
- Em que posso ajudá-los?, perguntou uma mulher gorda e já mais idosa.
- Nós gostaríamos de nos hospedar aqui esta noite, disse eu com a mala e a mochila nas mãos.
- Tudo bem. Preencham esses papéis primeiro, por favor.
Assentimos e assinamos com nomes falsos todos os documentos requeridos e os entregamos para a senhora.
- Muito obrigada, ela disse. Vocês gostariam de ficar em quartos juntos ou separados?
- Juntos, respondeu Spencer.
- E têm alguma preferência por quarto?
Olhei para Spencer e dei uma piscadela.
- Na verdade, sim. Eu sou muito alérgica, então se fosse possível, eu gostaria de dar uma olhada nos quartos ates de escolher.
- Tudo bem, disse a senhora pegando um molho de chaves e saindo de trás do balcão. Venha comigo, por favor.
Assim que as duas saíram e fiquei sozinho, me pus a procurar, como da outra vez, nos registros do hotel algum sinal de que Jenna estava lá. Como já sabia onde procurar desta vez, não demorei muito para, com alívio, achar o que estava procurando. Minha irmã, para nossa sorte e alegria, estava sim hospedada lá e no mesmo quarto de antes: 386. E por sinal, havia chegado há muito pouco tempo, apenas vinte minutos antes de nós. Mandei rapidamente uma mensagem para Spencer com o número do quarto e guardei os arquivos onde estavam inicialmente, me postando ao lado das malas de novo. A senhora não demorou mais que meia hora para voltar à recepção.
- Sua companheira já escolheu o quarto. Ela está esperando você levar as malas.
- E qual seria o quarto escolhido?, perguntei.
- 385. Já dei as chaves para ela, é só descer as escadas. É em frente ao estacionamento.
- Muito obrigado, disse com um sorriso amável.
Fui carregando as bagagens até onde Spencer estava e com um suspiro me juntei a ela.
- Tem certeza que ela está ai?, perguntou ela baixinho de dentro do quarto.
- Absoluta, respondi.
- Mas não estou ouvindo absolutamente nada!
- Ela pode ter saído para comer alguma coisa ou simplesmente está dormindo, respondi. Vamos esperar. Não acho que ela vá embora daqui tão cedo, chegou aqui não tem nem uma hora.
- Espero que esteja certo..., ela disse suspirando.
Quando Spencer e eu acordamos na manhã seguinte, Jenna já havia deixado o hotel e provavelmente, já deveria estar em Brookheaven, deixando o quarto 386 silencioso. Quando Spencer se deu conta disto, quase caiu em desespero, andando de um lado ao outro do quarto.
- E agora, Toby, o que vamos fazer? Não sabemos onde ela pode ter ido! Mal conhecemos Brookheaven, se é que ela foi mesmo para lá... Não vamos conseguir achá-la nunca! Nós...
- Ei!, exclamei parando-a no meio do quarto. Fique calma! Não é o fim do mundo, ok? Nós vamos encontrar um jeito de descobrir o que Jenna está tramando. Só tenha paciência.
- Mas e se ela nunca mais voltar para cá, Toby? Como vamos saber os planos dela?
- Escute, comecei a dizer, segurando em suas mãos e olhando em seus olhos. Se Jenna nunca mais voltar aqui, não significa que nós não vamos conseguir descobrir o que ela está tramando. Nós podemos fazer isso em Rosewood. Uma hora ou outra ela vai deixar alguma pista escapar. E nós vamos estar lá para pegá-la. Agora se acalme, está bem? Não podemos fazer nada além de sentar e esperar.
Spencer deu um suspiro e me abraçou, sussurrando um tímido "obrigada" pelas minhas costas.
- Na verdade, nós podemos sim fazer alguma coisa, ela disse sorrindo depois de se desvencilhar de mim.
- Spencer...
Ela foi até sua mala e de dentro dela, puxou uma caixa quadrada média e colorida.
- Podemos jogar!, exclamou ela mostrando a caixa de palavras cruzadas.
Ela se sentou na cama com um pulo e abriu o jogo enquanto eu ria, incrédulo, e ia me juntar a ela. Só Spencer pensaria em trazer um jogo de palavras cruzadas para um lugar como aquele. Sentei-me de frente à ela e peguei algumas letras de madeira da sacola. Ela fez o mesmo.
- Pode começar, disse ela sorrindo.
Ficamos jogando a manhã e a tarde inteira, só parando para irmos ao banheiro ou almoçar. Spencer estava super empolgada porque eu estava ganhando de três partidas a duas e ela não queria parar por nada até virar o jogo. Aposto até que já tinha se esquecido de Jenna. Quando já eram cinco e meia da tarde, pedi uma pausa para que eu tomasse banho. Ela consentiu e enquanto arrumava o jogo, fui para o banheiro me despir. Tirei os sapatos e deixei-os debaixo da pia junto com as meias. Tirei a camisa e, quando olhei para o lado, vi que a porta estava um pouco aberta. Olhei para Spencer sentada na cama e por um segundo, podia jurar que ela também estava me olhando. Dei de ombros. Fechei a porta e continuei a tirar o restante da roupa, indo para debaixo do chuveiro.
Quando terminei, abri a porta novamente e vi que Spencer estava adormecida na cama sobre o jogo meio guardado. Já estava escurecendo e achei melhor acordá-la para que tomasse um banho rápido e fosse se deitar.
- Spence..., sussurrei balançando-a de um lado para o outro. Acorde, Spence. Vá tomar um banho para dormir logo.
-Hã... o qu... O jogo, eu preciso guardar o jogo primeiro, ela balbuciou ainda sonolenta.
- Eu guardo para você, vá tomar um banho, você está cansada.
Ela esfregou os olhos com as mãos e bocejou. Levantou-se da cama e foi para o banheiro. Enquanto ela se banhava, coloquei todas as letrinhas de madeira dentro da pequena sacola e fechei o tabuleiro, colocando-os dentro da caixa. Tampei-a e coloquei com muito cuidado em cima da mala de Spencer. Com a cama arrumada e a noite caindo, comecei a ficar com sono e fui logo me deitar. Não estava com muita paciência ou vontade de esperar Jenna voltar para o hotel.
Estava tão cansado que nem percebi quando Spencer se deitou ao meu lado. Só sei que de manhã, antes mesmo de ela acordar, meus olhos se abriram repentinamente e quando me dei conta, Spencer estava abraçada comigo, seu braço envolvendo meu corpo. Olhei para o lado e vi seus olhinhos fechados. Sua respiração estava lenta e calma. Sorri ao ver sua expressão inocente e logo me virei novamente, ficando imóvel e de olhos fechados. Resolvi que ficaria deitado até Spencer se levantar. Quando isso de fato aconteceu, senti seu braço se levantando delicadamente de cima de mim e a cama fazendo um leve movimento. Ouvi seus passos pelo quarto e a porta se abrindo, deixando um vento frio entrar. Quando a porta se fechou novamente, eu estava sozinho. Peguei minha blusa de frio na mochila e a vesti, esperando um pouco até sair do quarto.
Quando finalmente saí, vi Spencer parada entre dois carros no estacionamento, de braços cruzados olhando para o céu azul acima de sua cabeça.
- Dia lindo, não é?, perguntei atrás dela.
- Toby?, ela perguntou com um sobressalto, se virando rapidamente para trás. Desculpe-me se te acordei.
- Não, não me acordou, menti enquanto caminhava até ela. Levantei sozinho.
- Ah...
Postei-me ao seu lado e ela olhou-me nos olhos com um leve sorriso nos lábios rosados. Seus cabelos marrons estavam com um cacheado lindo que lhe caía sobre os ombros e sua expressão era serena e não menos bonita. Dei outro sorriso em resposta.
- Acho que hoje poderíamos esquecer Jenna e passar o dia jogando palavras cruzadas, que por sinal, eu estava ganhando de você...
Ela começou a falar e percebi seus lábios se tocavam de modo que parecia uma flor desabrochando. Era lindo. Na verdade, tudo em Spencer era bonito. Engoli em seco e me aproximei de seu rosto. Quando dei por mim, estava segurando-o delicadamente nas mãos enquanto nossos lábios se entrelaçavam em um beijo. Era a melhor sensação do mundo. A pele quente do rosto de Spencer era macia sob meus dedos rudes e eu tinha a impressão de que, por mais que tentasse, nunca conseguiria soltá-la de minhas mãos.
Quando nos desvencilhamos enfim, ela deu uma risada meiga e gostosa e eu ri em resposta. Olhamos-nos nos olhos novamente e minhas mãos escorregaram para seus braços e deles, para suas mãos. Uma brisa fria percorreu nossos corpos e me fez querer voltar para dentro do quarto quentinho. Com muito pesar me separei de Spencer e abri a porta, parando na soleira e me virando para ela.
- Eu estava ganhando, Spence, disse por fim com um sorriso antes de fechar a porta.
