20
Heero fez tudo que era esperado dele quanto aos preparativos para o casamento. Deu entrada nos papeis e marcou o casamento para o dia escolhido por Relena, requisitando o juiz para realizar a cerimônia no hotel. Estava convencido de que era só o que precisava fazer mais nada, já que os demais detalhes seriam pensados para ele. Ninguém de fato esperava que Heero fosse se mostrar interessado em organizar seu casamento, independente de ser ou não um casamento contra sua vontade. Ele simplesmente não havia sido feito para aquele tipo de ocupação.
Era um ponto a favor ao sigilo sobre o verdadeiro relacionamento entre os noivos.
Relena voltara para Maine inquieta. Havia muitos assuntos para resolver, porém temia que sua mente estivesse aprisionada em somente uma questão e, se continuasse naquele ritmo, todas suas provas finais seriam um desastre.
Todas as decisões que não exigiam a presença física de Relena foram tomadas antes de sua formatura, de modo que Noin a mantinha atualizada por e-mail. Não conseguia passar um dia sem verificar se alguma mensagem havia sido mandada. Pelo menos, até o momento, não havia acontecido nenhum problema. Os cartões de aviso sobre a data estavam prontos e seriam enviados no final do mês, quando a lista de convidados terminasse. Até o momento, quatrocentas pessoas estavam contadas. Relena sempre se pegava pensando que eram pessoas demais, mas com uma careta, convencia-se de que era o mínimo necessário, ciente de que esperavam que ela convidasse várias pessoas, e, levando em conta que os Yuys eram muito respeitáveis, diversos contatos precisavam ser incluídos na lista de modo a não criar nenhum desconforto social.
Athina e Noin estavam trabalhando muito bem juntas. No primeiro mês de preparativos, encontraram-se semanalmente. Athina forçou Heero a estar presente em dois desses encontros, porém a presença dele não fez grande diferença. Qualquer coisa era aprovada para ele, não se interessava em que cores ou flores seriam usadas e qual cardápio seria escolhido. Ele só se queria se certificar de acabasse logo.
Como madrinhas, além de Noin, Relena convidou Akane e mais duas amigas e uma prima. Do lado dos padrinhos, Zechs figurava como principal. Athina incentivou Heero a escolher os demais, visto que Relena lhe dera essa liberdade, e com pouco cuidado, ele mencionou o nome de Duo, Trowa, Quatre e Wu Fei, sem pensar em consultá-los. Até o momento, a cor definida para o vestido das madrinhas era dourado, assim, Athina fingiu que consultava Heero sobre os trajes dos padrinhos. Ela definiu que seriam ternos negros, camisas brancas e a gravata dourada.
Heero olhou os modelos dos cartões, dos convites e dos menus assentindo indiferente para eles.
Relena, através da internet, olhava as fotos e lia as informações que Noin enviava, sempre se preocupando com a harmonia dos detalhes.
Passara uma noite em claro escolhendo as cores. Analisou todas as opções pesquisadas e acabou decidindo por um tom consistente, mas nada vibrante de rosa e um tom suave de creme. O casamento seria no inverno, contudo, ela queria criar um ambiente acolhedor no salão e que combinasse com o estilo do Plaza Hotel. Quanto às flores, acabou optando pelas tulipas em um único tom de rosa mais intenso que o da decoração. Pensava em um arranjo elegante, completado por um pouco de tule dourado.
Athina elogiou o conceito da nora, visualizando prontamente o espaço reservado preenchido pelos tons e flores. Não era uma seleção comum de elementos, entretanto, agradaria a todos, visto que trazia refinamento para a ocasião e não ousadia. E Athina tinha experiência suficiente para prever isto.
No fim de Outubro, com todas as provas feitas e os documentos de estágio entregues, Relena participou da colação de grau. Nem parecia verdade, de repente avaliou que o tempo passara tão rápido! Olhou o jardim de entrada do campus e lembrou vividamente quando o vira pela primeira vez.
Stefans parecia mais feliz do que ela, e Relena não conseguia entender por que. Não estava se formando em medicina e tampouco sentira dificuldades em alcançar sua graduação. Talvez ele estivesse emocionado, lembrando-se de Nora e de sua ausência e de quão contente ela se sentiria ao ver Relena formada. Nora também fizera o mesmo curso de graduação e era a maior responsável pela predileção de Relena pela literatura.
Relena fez as malas definitivamente. Despediu-se dos professores e de vários colegas ciente de que dificilmente os reencontraria, trocou telefones e e-mails, sorriu e abraçou aqueles que por cinco anos foram praticamente da família. A sensação agridoce de que aquela etapa havia se encerrado pairava em cada corredor da universidade, em cada jardim e cada banco na biblioteca, porém, ela não devia se apegar tanto ao que passou diante da perspectiva de uma aventura nova e superior estar por iniciar.
No avião, enquanto regressava para casa com sua família, Relena ainda pensava no seu primeiro dia de aula, na empolgação que sentia, no desejo de coisas novas. A vida era mesmo um ciclo.
_Não vejo a hora de escolhermos seu vestido de noiva! –Noin chilreou, um pouco antes de chegarem à Nova Jersey.
Relena riu, sem graça, lembrada pela amiga da experiência que então a aguardava. A empolgação de Noin era incontrolável, Relena desistira de considerar tal despropositada e sorria com bondade, achando que talvez aquilo lhe fizesse mais bem do que incômodo. A tarefa de madrinha conquistara Noin.
_Você precisa escolher o que houver de melhor, entendeu? –Zechs reforçou, também subitamente envolvido. Só ele sabia o quanto Noin falara dos preparativos do casamento, até consultor ele foi… –Quero que você seja a noiva mais bonita que Nova York já viu.
_Quanta responsabilidade! –Stefans riu, tirando os olhos do jornal e fitando a filha.
Relena riu suavemente ao passo que permitia sua mente se diluir em um pensamento.
_Vou me casar de Vera Wang. –sabia exatamente o que queria.
Noin a encarou, primeiro, um pouco pasmada, mas em seguida mostrou uma expressão encantada:
_Sim, é claro! É perfeito para você. –como não podia ter pensado em tão óbvia escolha? Os vestidos de Vera Wang eram minimalistas, sofisticados e românticos, cheios de leveza e movimento, uma combinação perfeita para vestir a jovem iluminada por serenidade e singeleza.
Relena sorriu, assentindo, e comunicou seu prazer a Zechs através de um olhar. O sorriso dele era igual ao de sua mãe e Relena suspirou fundo associando as imagens. Encostou o cotovelo no braço de sua poltrona e apoiou o rosto, olhando pela pequena janela, apreciando o céu claro e infinito. Enquanto os demais continuaram conversando, ela recolheu-se mentalmente e passou a avaliar que sensação de alegria era aquela em seu peito e que rubor de empolgação era aquele em seu rosto. Não devia experimentar nada daquilo.
Sua face quedou marmórea como a de um belo anjo de cemitério que exibe um semblante puro com olhar distante ao mesmo tempo temperado com confusão que na verdade representava revolta e sofrimento. Relena meneou a cabeça. Era melhor ocupar-se de outra coisa, por isso procurou na bolsa algum livro que estivesse esquecido lá – porque ela sempre tinha um consigo. Eram os amigos que nunca lhe falhavam.
Abriu distraidamente, começou da primeira linha, e quando alcançava quase o final da página, interrompeu bruscamente sua ação. Estava lendo "Persuasão", de Jane Austen. Não podia ser, seu subconsciente lhe pregara uma peça ao optar aquele livro como sua companhia. Ela sorriu diante da ironia. Como é que conseguiria acompanhar outra vez a jornada da doce Anne de volta ao seu noivado perfeito? Quase sentiu lágrimas nos olhos. Uma confusão estava apodrecendo seu senso de julgamento.
Olhou a janela outra vez. Como podia ser capaz de ser absorvida nos preparativos daquele casamento, de escolher seu vestido de noiva dos sonhos, de decidir se casar no local mais mágico de Nova York? Como sabia lidar tão normalmente com aquele anel tradicional da Tiffany's em seu dedo e com as perguntas que ele suscitava, como tinha a audácia de explicar com suavidade risonha que estava comprometida para se casar, que a cerimônia seria em Janeiro?
Só podia estar organizando o casamento para uma boneca. Só podia ser, estava brincando de casinha como fizera na infância, escolhendo tudo de mais especial para o casamento de sua boneca. Suspirava enquanto encarava a capa do livro. A moça da figura a encarava em retorno, inquisitiva. O que ela queria saber, Relena não conseguia decifrar, porém certamente tinha a ver com o futuro.
Mal chegara em casa e sabia precisar preparar-se para ir. Ia passar os dias até o casamento no apartamento de Zechs. Provavelmente Noin iria mudar-se com ela para lá. Descansou uma semana, organizou tudo que foi preciso e mal desmanchara as malas, fizera-as outra vez, rumo à Nova York. Encheu o porta-malas do PT Cruiser, alegre por ele ser um carro preparado para pequenas mudanças.
A partir do momento que pisasse em solo nova-iorquino, Relena tinha certeza de que não o abandonaria por um bom tempo.
Noin a havia informado que Athina decidira dar ao casal seu apartamento no Paterno, o elegante prédio em Riverside Drive. O imóvel era mobilhado, com exceção dos quartos, e já a par do bom gosto da sogra, Relena sabia que não precisaria alterar nada. Também, nem pretendia, visto que acreditava que com o fim do casamento, Heero devolveria o apartamento para mãe.
A questão era que soava um pouco inesperado Heero ter aceitado o presente da mãe, porém ela não sabia com que resistência e amargura ele concordara em morar lá. Provavelmente ele preferiria morar em um hotel ou alugar um apartamento por conta própria. Segundo o juízo dele, ocupar um bem da família significava estar ainda debaixo de seus grilhões.
Ao mesmo tempo, isso significava economia com taxas de moradia. Ele precisava ser sensato, pelo menos uma vez.
_O Paterno! Eu queria morar lá! Será que ainda tem algum apartamento a venda? Poderia me mudar com Akane para lá depois de nos casarmos! Seria maravilhoso sermos vizinhos, não é? –Duo ia provocando.
Os cinco amigos estavam almoçando em um intervalo raro e bastante escasso que conseguiram. Heero mal começar a comer e informou a ideia de sua mãe. Seus olhos azuis dardejaram Duo com projéteis de gelo, mas Duo gargalhou folgazão, voltando a comer.
_É um local tão elegante! Sua mãe é muito generosa… –Quatre observou, brando.
_E fica muito bem localizado. –Trowa pensou, prático.
_Mas como vai ficar depois do divórcio? –Wu Fei adiantou-se muito. Heero deu de ombros, desgostoso.
_Divórcio? Não! Vocês têm de esperar eu e Ane mudar para lá! Só vamos nos casar quando ela se formar.
_Isso vai demorar. –Wu Fei pisou no calo.
_Malvado! –Duo revoltou-se, infantil.
_Desde quando você a pediu em casamento? –Trowa não estava entendendo.
_Quando eu cheguei aqui, não parecia tão sério… –Heero lembrou, entediado.
_Bem, eu ainda não pedi…
_Ele tem medo de enfrentar o juiz. –Wu Fei outra vez atingiu Duo mortalmente.
Duo mordeu o lábio inferior, frustrado.
_Você faz comentários muito apropriados, né, Wu Fei? –e rosnou.
_Obrigado. –ele respondeu, soltando o garfo com descuido no prato.
Quatre franziu as sobrancelhas desanimadamente.
_E o que você vai comprar de presente de casamento para a Relena? –Trowa olhou Heero, mudando de assunto.
_O quê? Ainda tenho que dar mais um presente para ela? –resmungou.
_Seria bastante educado. –Quatre pontuou, persuasivo.
_Pode esquecer! O Heero nunca foi isso aí que vocês falaram. –Duo pilheriou, recebendo outro olhar esfaqueador.
_Eu já comprei o presente para vocês. –Quatre comentou, sorrindo sozinho.
Heero bufou, incrédulo, e Trowa fez muito esforço para esconder a risada.
_Que legal… –Wu Fei disse escarninho.
Quatre olhou para Duo procurando um pouco de apoio, mas o amigo fingia estar escolhendo a sobremesa no menu.
_Tudo bem, eu dou para a Ilya… –e Quatre desistiu.
_Ninguém disse nada! –Trowa anunciou, risonho.
_Guarde para mim e a Ane. Acha que dá? –Duo voltou para a conversa.
Quatre meneou a cabeça e suspirou. Olhou o relógio dourado no pulso com os olhos mais sérios já vistos:
_Tenho de voltar para o trabalho.
Trowa ergueu as sobrancelhas, jocoso, mas não disse nada enquanto Quatre saía e ia pagar sua conta.
_Viu o que vocês fizeram? –Duo condenou.
_E você não fez nada, certo? –Trowa lembrou, felino.
_Quatre está tão animado que devia ele se casar com Relena. –Heero murmurou.
_Dariam um belo casal. –Duo assentiu, despreocupado, e Trowa caiu na gargalhada.
Heero abriu o cardápio e começou a pensar na sobremesa e então lhe ocorreu:
_Vocês vão ser meus padrinhos.
_Eu já sabia. –Duo avisou.
_Como? –Trowa estranhou.
_Akane me disse. Ela vai ser madrinha também.
_Bem, ainda bem que alguém decidiu falar… –Trowa murmurou, um pouco contrariado.
_Me contem fora dessa. –Wu Fei anunciou. –Eu é que não vou querer fazer parte dessa novela mexicana!
_Por que isso agora? –Trowa indagou, com ar de crítica. –Vai se fazer de difícil?
_Você quem sabe. –Heero disse para Wu Fei, distraído, olhando o cardápio de novo.
_Wu Fei, faz uma força aí! A gente é amigo desde que era neném, você tem certeza que vai perder este momento? –Duo apelou com um sorriso brilhante.
_Sabe que para mim não faz a menor diferença… –Heero murmurou, chamando o garçom.
_Está certo! –Wu Fei disse com muito esforço. –Agora tenho que ir, vou ter três reuniões hoje! –Ele dissera sim, mas não queria admitir.
Na segunda semana de Novembro, Relena enviou todos os cartões "Reserve esta data" já do apartamento de Zechs.
Ainda não havia se reencontrado com Heero, mas naquela tarde ia até a mansão Yuy para conversar com Athina. Ali seria inevitável e esperado que os dois se vissem e se falassem.
Ficou tempo planejando suas falas, como uma atriz ensaiando uma cena. Fazia isso mesmo sabendo que era quase inútil, já que a única coisa que poderia prever era que Athina seria muito amável e receptiva. Tê-la ao seu lado era inestimável, visto que jamais poderia depender de Heero para ajudá-la a preparar o casamento.
Ela e Noin foram com o PT Cruiser para aquela área distante que nem parecia Nova York.
Os planos eram tratar os detalhes finais da festa do casamento, conversar sobre o vestido e, depois de tomar o chá, discutir sobre o jantar de ensaio.
_Eu preferiria não ter um jantar de ensaio… –Relena murmurou, olhando Athina de forma obtusa. Começaram a conversar sobre o assunto durante o chá.
_Por quê? –Athina cristalinamente indagou e depois tomou um gole de sua xícara.
_Não vejo necessidade.
_Mas você não vai fazer chá de panela. Deveríamos ter o jantar. –Noin raciocinou.
_Sim, é verdade. –Athina concordou, olhando sua nora com escrutínio.
Relena bebeu um pouco de sua xícara enquanto escolhia o que ia dizer. Não tinha muitas desculpas, só achava que seria agitação demais para si.
_Queria mais tranquilidade na véspera da cerimônia.
Athina abriu luminosamente um sorriso anguloso e arrojado. Assentiu, colocando a xícara e o pires na mesa.
_Realmente, as horas antes do casamento são as mais apreensivas. Entretanto, para mim, o jantar ajuda espairecer um pouco ao invés de sobrecarregar.
_Bem, eu nunca passei por isso… –Noin murmurou pensativa, decidida a não forçar nada em Relena. Athina soltou um risinho divertido.
_Talvez seria bom consultarmos Heero. –Athina lembrou.
_Imagino que ele não vá querer. –Relena disse baixinho. Athina sustentou uma expressão contemplativa.
_Falando nisso, vocês já conversaram sobre a lua de mel? –Noin apresentou, a ideia bateu nela repentinamente.
Relena lançou-lhe um fito praticamente condenatório, sem conseguir refrear-se, chutando a amiga por debaixo da mesa.
_É verdade. –Athina assentiu, ficando ainda mais distante. –Também precisamos consultar Heero quanto a isso.
_Não! –Relena acabou falando alto demais. Athina levantou as sobrancelhas, cheia de suspeita, um olhar divertido. –Quero dizer, não precisa se preocupar com isso, mais tarde eu converso com ele…
_Sim, daqui a pouco ele chega… vocês vão ficar para o jantar, imagino. Já avisei a cozinha sobre a vinda de vocês.
Relena abriu um sorriso descorado e relanceou Noin que leu na expressão da amiga a falta de opção.
_Claro! –e Noin respondeu pelas duas. Não havia nenhuma desculpa para não jantarem lá.
Começaram a conversar sobre outros assuntos, e como ela era uma ávida leitora, passaram a trocar indicações e pontos de vistas sobre suas leituras. Falar sobre outros temas era muito mais agradável para Relena e ali as duas conseguiam entender melhor a personalidade da outra, porque sogra e nora mal se conheciam além das formalidades.
Athina respirava aliviada ao dar-se conta de que conseguiria criar um vínculo com a moça. Quanto melhor conseguissem conviver, mais fácil seria enfrentar o desafio que se levantava diante delas. Athina esperava de fato que Relena sentisse segurança e apoio nela, imaginando quão aflitivo era inserir-se em um círculo familiar sobre o qual pouco se conhece. Se Relena encontrasse um lugar confortável naquela casa poderia levar adiante sua rotina.
Heero não fazia ideia que Relena já havia regressado de Maine, tampouco imaginava que ela já estava em Nova York, e assim não estava em nada preparado para ver o PT Cruiser dela na garagem ao chegar do trabalho.
Ficou sentado dentro do carro um minuto depois de ter tirado a chave do contato e bufou várias vezes, afrontado. Era revoltante para ele pensar que após apenas três meses, era obrigado a encontrar-se com Relena outra vez. Nem a tinha esquecido ainda, e detestava isso. Aqueles olhos encantados o visitavam nos momentos mais inoportunos e improváveis. E mesmo antes de ele sair do carro, eles estavam ali com ele.
Decidiu que ia usar a entrada de serviço e ir direto para o quarto. Iria adiar o encontro o máximo possível.
O que não foi muito.
_Mestre, a senhora Yuy pediu que fosse vê-la assim que chegasse. –Yacob parecia ser uma sombra que saltara da parede. Heero olhou por cima do ombro a poucos passos de alcançar a porta de seu quarto e o mordomo estava lá, cumprindo seu trabalho.
Heero estacou, em pensamentos amaldiçoou o dia que vivia, tirou a gravata, deu meia volta e desceu a escadaria pomposa em direção da sala de visitas.
Naquele dia vestia calças pretas, uma camisa branca e um blazer de tweed xadrezinho em preto e cinza que comprara em Londres. Cada peça o fazia parecer mais alto, mais magro e mais sóbrio do que o usual.
As três amigas estavam bastante entretidas na conversa que tratavam. Relena descobrira que era fácil demais passar tempo ao lado de Athina, exatamente como era passar o tempo ao lado de Akane. Noin também experimentava a mesma impressão, com dificuldades de se lembrar da última vez que se distraíra tanto ao ter uma conversa.
Athina e Relena olharam ao mesmo tempo para entrada e o silêncio adentrou na sala como uma rajada de vento quando Heero apareceu na porta.
Noin, em segundo plano, foi a espectadora das expressões de surpresa pintadas na face de suas companheiras. Talvez ela não quisesse admitir, mas também se sentiu abalada pela aparência do rapaz, mas não tanto quanto Athina e Relena.
Por um intervalo muito rápido, mas impactante, Athina pensou ver Dante trinta anos mais jovem a esperando na porta. Seu rosto plácido acendeu-se com espanto secreto e causou retardo no sorriso acolhedor que ela gostava de usar para cumprimentar o filho:
_Que bom que chegou. –conseguiu dizer apesar do efeito da confusão.
Estas palavras pareceram acionar Heero, porque só depois delas ele deu seus passos para encurtar a distância entre si e a mãe.
Relena não dizia nada, privada de modulações vocais. Seus lábios mostravam-se tais como um botão de rosa perfeito que tardaria em florescer, mas seus olhos, alertas, prendiam-se na figura esguia do rapaz, feito fosse necessário tomar nota de cada movimento.
_Sente-se aqui. –Athina convidou, olhando o filho com uma sagacidade discreta.
Heero encheu o peito de ar para mostra contrariedade. Observou a cadeira vaga que lhe era apontada, sabia-se ali coberto do fito da mãe e do fito de Relena e ambos ardiam sobre sua pele.
Todo o ambiente de puro entrosamento havia ruído e Heero pisoteava os destroços.
Athina colocava olhos de coruja no rapaz:
_Não vai falar nada? –e provocou bem-humorada ao mesmo tempo em que avaliava a situação. Mirou Relena e identificou ansiedade e nervosismo na aura colorida da garota. A integração não podia ser coagida.
Noin entendeu que Athina não seria enganada. Ela sabia também que o casal não se unia por vontade própria. A vantagem que ela tinha sobre Zechs era de estar mais perto do núcleo do segredo, e possivelmente, ela sabia muito mais que Relena sobre o que se passava. Mas o que Noin supunha não era muito mais suposição de fato. Athina olhava o casal na mesa com o coração a se apertar por dentro. Indagava ao destino que decidiu amarrar aqueles dois e não compreendia aquele movimento do caprichoso acaso.
_Queríamos você aqui para tratar de alguns assuntos do casamento. –Noin resolveu quebrar o gelo e apresentar. Heero a olhou impassível.
_Exatamente. O que você acha de realizarmos um jantar de ensaio? –Athina deu prosseguimento.
_Desperdício de tempo. –ele disse prontamente.
Relena baixou os olhos, seus cílios longos e castanhos disfarçando a serenidade de bem-estar. Ergueu uma feição afirmativa para Athina, lembrando-a do que havia dito.
_Que pena. Já havia tido ideias ótimas para a decoração… –a senhora Yuy disse, com desapontamento artificial.
_Melhor assim… –Relena expressou, sua voz um sopro macio, e juntando as duas mãos, esfregou uma na outra em um movimento lento e melancólico. Seu anel de noivado reluziu.
_Lucretzia, me lembrei de uma coisa que queria te mostrar lá na biblioteca. Você me acompanha? –Athina decidiu deixar o casal sozinho. Cheia de requinte, foi explicando, olhando Relena e Noin intercaladamente, e quando se levantou, atirou um fito sobre o filho que mostrava sua face ausente voltada em uma direção aleatória.
_Claro. Já volto, Lena. –e Noin calmamente foi falando e se movendo.
_Está certo. –Relena sorriu angelical e assentiu, olhando as duas saírem da sala. Colocou um pouco de cabelo atrás da orelha.
_O que veio fazer aqui? –ele interrogou.
_Vim conversar com sua mãe sobre o casamento. –e em um movimento cadenciado, ela ergueu a face e baixou a mão. Inclinando a cabeça para um lado, com seu olhar absorveu a figura de Heero. Ele estava muito bonito. –Só faltam dois meses agora. –quase sorriu, mas o resto de autodomínio que andava guardando a impediu. Iria dar uma ideia errada e indesejada para ele se reagisse assim.
Heero sentia, entretanto. Adivinhava que por trás daqueles lábios bem desenhados congelados em constrita reta vivia um sorriso que pegava fogo. Distinguia dentro dos olhos estrelados dela um fito de altivez grácil e principesca que transmitia triunfo e autoconsolação.
_Você acha que vai ser melhor depois que todo esse número acontecer? –e assim ele lançou seu questionamento ferino e esnobe.
_Claro. É o momento em que mais estaremos em evidência, quando demandará de nós total discrição. –e razoável, ela argumentou. –Quando acabar, não haverá muito com que se preocupar.
A cabeça dele pesou em um aceno quase imperceptível. Talvez, este gesto não quisesse dizer aceitação. Ele era calado demais e aquilo colocava Relena em posição de defesa. O problema é que ele não sabia o que dizer. Poucas coisas o silenciavam através de roubar-lhe o espírito de rebeldia, porém avistar Relena dentro daquele contexto era inquietante o suficiente.
Relena não deixou de olhá-lo ali, ao alcance da mão, porém tão longe do toque. Inquieta, ergueu-se e caminhou até a janela, mantendo-se de meio perfil para ele, procurando no jardim alguma coisa para salvá-la daquela tensão.
Vestia uma camisa cor-de-rosa claro, um blazer azul-marinho e uma saia de pregas cinza e calçava um sapato oxford azul-marinho. Os cabelos, soltos e reluzentes, emolduravam a face pouco maquiada, sem defeitos. Heero permitiu-se perder um segundo observando-a. Ela parecia ter dezesseis anos.
_Você emagreceu. –e ele pronunciou sem sentimento.
Ela o olhou igualmente desprovida de emoção, mas a voz dele retiniu em seu interior, criou uma onda longa que arrastou seus pensamentos para uma praia deserta.
_Também temos de falar sobre a lua de mel. –e resolveu mudar de assunto. Aquele tópico a fazia nervosa, mas, para mostrar superioridade, resolveu desafiar seu noivo, abordando-o. Olhou Heero fixamente, interessada na reação.
Ele levantou-se também e foi até ela. Debruçou na janela, era como se o casal estivesse preste a conversar algo especial, o modo como ele se voltou para o rosto dela podia ser tomado por um fito de atenção.
_Que lua de mel? –mas era áspera a voz que escapava de seus lábios.
_A que todos supõem que teremos. –soou surpreendentemente altiva, até para si mesma.
_Meu pai reservou um quarto para nós no Plaza para o sábado e o domingo, para manter as aparências… –Heero comunicou com desprezo.
_Isso serve. –ela murmurou desdenhosa, todavia sua voz e sua figura não combinavam com aquela exposição. Ele a encarou, irritado. A sentiu irônica, a sentiu tão acre.
E depois ela suspirou cansada, voltando a fitar o jardim. Pelo menos uma vez o juiz fez algo para atenuar o sofrimento dela, já que não toleraria viajar para algum lugar como Heero de única companhia.
Ali, eles concordavam, mesmo que sem saber – nenhum dos dois estava disposto a passar com o outro mais tempo do que o mandatório.
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Tudo ia acontecendo em seu devido ritmo, carregado pelo tempo. As horas viravam dias, os dias facilmente formavam semanas, e as semanas, num piscar de olhos, construíam meses. Havia muita ocupação para todos esses momentos e a agitação criava a ilusão de que o tempo encurtava-se.
Relena estava sentada na sala de espera da loja da Vera Wang para experimentar o vestido pela última vez. Noin estava ali conversando com Akane sobre a prova dos vestidos de madrinha que ambas fizeram antes.
Faltavam três dias para a cerimônia. Agilmente, Relena apertava as teclas de seu Blackberry, conferindo a programação, as mensagens, as confirmações dos convidados, certificando-se duas, três, quatro vezes de que tudo estava pronto, de que nada fora esquecido.
_Por favor, Relena! Chega de neurose de noiva! –Noin notou o que a amiga fazia e tomou o aparelho dela.
_Não! Preciso ver se os padrinhos já retiraram as roupas da tinturaria!
_Deixe que Heero cuide dos padrinhos. –Akane ronronou, e estava mexendo em seu próprio Blackberry, tuitando sobre o momento. Ela estava praticamente fazendo uma cobertura sobre o casamento via Twitter, feito fosse o seu próprio.
_Senhorita Darlian. –a atendente a chamou. –Pronta? –e sorriu, elegante e solícita, surgindo então com as mãos juntas.
As três jovens se ergueram em perfeita sincronia.
Em pouco tempo, Relena vestiu-se e subiu no banquinho diante do espelho.
_Perfeito. –Noin opinou, assentindo.
Akane mostrava grandes olhos brilhantes.
_Parece uma princesa… –e agia como criança. Noin riu, sem resistir.
Relena olhou as amigas para ouvir seus comentários e depois voltou a se encarar no espelho, sorrindo sem graça e dando de ombros.
O vestido parecia ter sido feito para Relena. Enquanto se admirava no espelho, lutava contra a vontade de sorrir. Achava espantoso ver a si mesma vestida de noiva, não aceitava que seu reflexo fosse real.
A atendente sorria, satisfeita em ver a peça tão bem utilizada.
_Não há mais nenhum ajuste a ser feito. Como a senhorita Noin disse, está perfeito.
_Realmente. –Relena concordou, mas queria soar mecânica e falhava. Sentiu prazer no timbre de sua voz.
Durante cada processo de preparação para o casamento, ela relutou em ser conquistada pelo encanto da ocasião e pela magia daquele vestido. Só que não fora forjada em aço, era uma garota humana. Resistia paralelamente à cessão da beleza única do momento que vivia.
Saíram da loja com o vestido e foram direto para o apartamento de Zechs.
Toda a família Darlian o estava ocupando então, já que a proximidade do compromisso os obrigava estar em Nova York.
_Acabei de ir pegar o meu terno e o de papai no tintureiro. –Zechs avisou assim que Relena entrou.
_Ótimo. –Relena suspirou levando seu vestido para o quarto, ouvindo Noin indagando:
_Provou? Está tudo certo?
Ele respondia afirmativamente, despreocupado.
_E você, mascote, o que está fazendo aqui? –e ele brincou com Akane, que soltou um riso infantil, porém com fundo malicioso:
_Vim ver você… –e suspirou tão convincentemente apaixonada que sentiu Noin alvejá-la com um fito de contrariedade. –Não sabe como meu dia fica mais brilhante depois que dou uma olhadinha no seu rosto bonitão.
_Akane, vou te defenestrar. –Noin se descontrolou, mas gritou praticamente risonha. Zechs não se intimidava em rir.
_Deixe a menina, deixe… –e provocava Noin também, soberbo.
_Pelo menos vou ter uma morte com nome chique. –Akane pilheriou, em nada afetada pela ameaça. –Vai soar bem nas notícias.
Relena ia rindo sozinha só com o que escutava. Apreciava tanto daquele clima de descontração… contagiava tão fácil, a fazia perdida em uma realidade que infelizmente não era constante.
_Lena, me deixe ver seu vestido. –repentinamente, Zechs surgiu no quarto enquanto ela ajeitava a peça no armário.
_Claro que não. –ela disse docemente, mas final.
_Mas eu não sou o noivo. –ele expôs, persuasivo e razoável.
_Não, quero total efeito surpresa. –ela contrapôs, esperta.
Ele meneou a cabeça, frustrado. Depois, sorriu ternamente para a figura da irmã, que ainda de costas ajeitava as coisas no armário, e sentou-se na cama.
_Não acredito que você vai se casar antes de mim. –e ele murmurou, não conseguia conter a indignação, só a disfarçava com surpresa e melancolia.
Relena virou-se para ele, sorriu timidamente e assentiu:
_Você não está nem um pouco empolgado, certo? –sentou-se ao lado dele, olhando-o no rosto.
_Não. –respondeu acabrunhado.
_Não importa quantas vezes eu disser para você que é isso que eu quero, você não vai se convencer, certo?
_Certo. Desculpa, Lena, eu sei que deve ser horrível para você saber disso.
_Não é não… você é sincero, Zechs, e eu prefiro assim.
_Por que você decidiu se casar tão de repente? Eu não devia ter deixado você ir sozinha naquela festa. –e pareceu divertido e irritado ao mesmo tempo, juntando as mãos.
Relena sustentava o sorriso e meneou a cabeça – não havia nada que Zechs pudesse fazer para impedir, mas ele não podia saber disso.
_Pense comigo: minha vida estava sem objetivo. Depois que eu terminasse a faculdade, o que eu iria fazer? Você e papai jamais permitiriam que eu desse aula em escola pública, iam me incentivar a estudar mais para que, quem sabe, me tornasse uma professora universitária, uma pesquisadora… não sei. Nesse casamento, encontrei a oportunidade de fazer coisas novas. Decidi que era hora de me aventurar. –e sua fala era tão suave e cálida, suspirante, que deixava Zechs sem reação. –E quando eu vi Heero, naquela festa… –e ela pausou mais uma vez, certificando-se do que ia falar. Acabou que se lembrou do que os olhos da inocência mostraram para ela. A imagem dele demandara sua atenção. Os olhos dele fascinaram-na certeiramente. Um arrepio correu lentamente pelo corpo dela. Dentro de Heero vivia um poder secreto, ela duvidava de que ele tinha percepção disto. –Quando vi Heero pela primeira vez, eu soube que precisava dele para me acompanhar. Foi rápido demais, mas do jeito que tinha mesmo de ser. –e ela sentiu ter falado tão pouco que Zechs jamais seria comovido. Entretanto, a mente dela não permitia que mais fosse pronunciado, a impressão que Heero fizera nela era atormentadora.
_Você fala tão apaixonadamente… o que posso dizer? –Zechs sorriu. Foi estranho para ela ouvi-lo falar assim. –Acho que… me sentiria deste jeito de qualquer maneira. Abrir mão de você é uma coisa que nunca esteve em meus planos. Como seu irmão mais velho, estou acostumado demais a cuidar de você e sabê-la perto de mim. Ainda mais depois que mamãe morreu.
Relena alcançou as mãos dele com a sua. Quando sua mãe morrera, ela agiu fortemente todo o tempo, mas sozinha, sentia-se solta no espaço. E Zechs a entendia tão bem, foi o único que conseguiu ir buscá-la, trazê-la de novo para a normalidade da vida. Sofrer acompanhada foi muito melhor que se cercar de uma aparência de resistência só para se desmanchar quando todos a deixam, certos de que estava bem.
Como ela ia agradecer pelo cuidado de Zechs por ela, como ela ia honrar o carinho que ele lhe dedicava?
_Promete uma coisa para mim? –e pediu, doce e infantil. Ele fez um gesto com a cabeça para que ela prosseguisse. –Na manhã de meu casamento, promete estar de coração leve?
Ele ficou meditando que sorte de pedido era aquele.
_Prometo. –e sussurrou.
_Seu coração tem de ficar leve, Zechs, porque eu sei o que estou fazendo. Sei mesmo. –e debruçou-se sobre ele, sorrindo diáfana. Ele assentiu, devolvendo um sorriso caloroso para ela e beijou-lhe a mão.
Quando os dois saíram do quarto, encontraram Akane e Noin conversando na sala.
_Sabe, Lena, eu acho que nós devíamos sair para fazer alguma coisa amanhã. –Akane apresentou, desinibida.
_Como o quê?
_Como uma noite das garotas! Você precisa relaxar…
_O quê? –Relena se fez contrariada e olhou para Zechs.
_Sabe que acho que é uma boa ideia. –e para comoção geral, ele aprovou.
Noin não se manifestava, já tinha sido informada da ideia de Akane.
_Já disse que não quero fazer nada… –Relena resmungou.
_Ora, vamos, deixe de ser chata! Eu chamo as meninas e vamos para algum lugar se divertir um pouquinho, só um pouquinho… –Akane agia desencaminhadora. –Garanto que não será uma despedida de solteiro…
Não era com disposição que Relena encarava os olhinhos de filhotinho suplicante que Akane lhe direcionava.
_Está bem… –mas não resistiu.
_Mas veja lá aonde vai levar a Lena, hã? –Zechs recomendou, rígido.
_Eu também vou, não se preocupe. –Noin avisou.
_Que bom! A Noin vai pagar a conta! –Akane comemorou.
_Eu não disse nada sobre pagar a conta!
_Mas você é a madrinha. –Akane reclamou, como se fosse subentendido que a madrinha devia arcar com todas as despesas possíveis.
_Lembra aquilo que te disse sobre a janela? –Noin ameaçou, mas soava tão fria e segura de si que era como se realmente tivesse intenção de cometer o tal crime.
Akane armou uma expressão perdida. Olhou Zechs:
_Me salva…
Relena caiu na gargalhada, meneando a cabeça. Naqueles momentos, esquecia completamente a gravidade da situação. Olhava as pessoas consigo e desejava que aquela fosse sua vida para sempre. Seria tão feliz se fosse assim…
Boa noite!
Como vocês estão? Fazia tempo que queria postar, mas estava ocupada demais escrevendo mais capítulos, desculpe.
Os últimos momentos antes do casamento. Eu os abreviei o máximo que deu, mas eu prometo uns cinquenta capítulos para essa fic. Vocês aguentam? xD
Nesta fic, eu cometi um monte de inadequações, mas especialmente contra o sistema de ensino americano, que ainda não consegui entender bem e saiu meio improvisado para a história. Não levem a sério, tá?
Também, estou preocupada sobre a integridade dos personagens, sobre tudo Heero e Relena. Acham que estão com a personalidade do animê ou muito OOC?
Estão gostando? Queria saber. Me deixem reviews, por favor.
Quero agradecer do fundo do coração cada review e cada segundo que vocês gastam comigo. É um prazer para mim ler os comentários e fico super motivada pelos seus elogios.
Com certeza continuaria escrevendo só para mim, mas saber que alguém lê e se interessa em deixar sua opinião é precioso demais.
Beijos!
07.08.2011
