Data: 04/01/2013

História: Perímetro

Vencendo o seu cansaço, Sasuke acordou antes mesmo de o sol nascer. Continuava deitado da mesma maneira que havia adormecido: com as costas no chão duro da caverna, e a cabeça de Sakura no seu peito – a única diferença era a perna da moça que se enrolou com a sua.

Ele olhou para baixo para o cocuruto dela, vendo o movimento que a cabeça dela fazia quando ele inspirava e expirava. Antes que pudesse se controlar os seus dedos foram para o rosto dela, afastando uma mecha de cabelo rosa que ali tinha caído. Ela parecia tranquila, como se eles não estivessem no meio de uma densa floresta, fugindo de homens que, caso os encontrassem, não hesitariam em matá-los para vingar a morte do líder.

Na noite anterior Sasuke havia planejado saírem para retomarem a viagem assim que acordassem. Queria chegar ao lugar previamente designado o mais cedo possível para aumentar ainda mais a distância entre os Mãos Limpas e eles. Porém, a posição em que se encontrava com Sakura adormecida calmamente em seu peito era agradável demais para que fosse interrompida – além do mais, assim, ele tinha um ótimo acesso à pele das costas de Sakura usando a mão do braço no qual ela se deitava.

Portanto, ele ficou deitado ali, permitindo que Sakura continuasse a dormir por mais alguns minutos até que os primeiros raios de sol atravessassem as vidreiras que cobriam a entrada da caverna. Com a mão nas costas dela dentro da blusa ele a sacudiu e a chamou pelo nome. Ela murmurou algo ininteligível e se acomodou sobre o corpo dele – o que, para os planos de Sasuke de continuarem a viagem assim se levantassem, não era nada bom. Com um pouco mais de força ele a chamou e, desta vez, ela acordou.

"Bom dia," ela murmurou e se sentou lentamente, coçando os olhos.

Ele respondeu se colocando de pé e fazendo um rápido cafuné na cabeça dela para depois verificar uma vez mais os arredores pela entrada da caverna. Tudo parecia tranquilo, exatamente como previra. Aquela caverna, também presente no mapa dos Uchiha, era longe das estradas mais movimentadas, isolando-os de emboscadas. Ali eles estavam completamente protegidos, pois a entrada era camuflada pelas plantas e só poderia ser aberta com o mesmo jutsu específico que queimara as folhas que cobriam a escotilha.

Ele não se assustou quando sentiu dois braços rodeando a sua cintura por trás e um beijo foi depositado no meio das suas costas.

"Para onde vamos hoje?" Sakura perguntou com a boca colada na camisa dele.

Ele se virou para ficar de frente para ele e lhe tascou um beijo, segurando o rosto dela com ambas as mãos. "Vamos para a vila mais próxima."

"Que é...?"

"A da Formiga."

Sakura franziu o cenho, acariciando as costas dele por debaixo da blusa como ele tinha feito enquanto ela dormia. "Nunca estive nesta vila."

"Ela é pequena. Pretendo comprar suprimentos e passar no máximo duas noites lá antes de seguirmos para o Sul."

Ela beijou o peito dele e fez uma expressão estranha.

"O que é isso?" ela perguntou ao sentir uma umidade no exato local onde beijou-o. Quando observou bem a camisa dele percebeu uma mancha escura nela.

Levantou o rosto para o do Uchiha, e ele tinha um sorriso bastante debochado a esperá-la.

"Procuraremos um babador para você na Vila da Formiga," ele brincou, ganhando um sonoro tapa na boca do estômago.

Xxxx

Viajaram durante todo o dia em um ritmo um pouco menos acelerado do que o do dia anterior. A cada passo que davam Sasuke estava mais convicto de que a distância entre eles e os Mãos Limpas aumentaram, dando-lhes um pouco mais de tranquilidade para viajar. Pararam duas vezes apenas: uma para o almoço – que consistia de comidas enlatadas trazidas da ex-geladeira de Sasuke acompanhada de uma água quente – e outra para um descanso, o que não deu a Sakura motivos para reclamar.

Chegaram na Vila da Formiga no início da tarde, ainda mais cedo do que Sasuke previra. Sem delongas eles se registraram na única pousada da cidade com os devidos nomes falsos. Eles acompanharam o desanimado recepcionista escada acima até chegarem no quarto de número 14, onde lhes foi entregue a chave.

"Até que enfim," Sakura suspirou, jogando-se na cama. Estava acostumada a percorrer distâncias maiores do que estas, mas a sua falta de chackra prejudicava a sua resistência, cansando-a mais rapidamente.

"Compraremos suprimentos amanhã," Sasuke anunciou, sentando-se ao lado da moça deitada. "Teremos tempo de sobra para descansar."

Sakura se apoiou nos cotovelos. "O que acha de sairmos para jantar hoje à noite?"

Ele encarou-a e ponderou. Se os seus cálculos e suposições estiverem corretos, a distância entre os Mãos Limpas e eles aumentava a cada segundo, já que corriam em direções completamente diferentes. Porém, não sabia se ainda era seguro saírem em publico em uma vila pequena. O número de habitantes ali era pequeno e eles não eram acostumados a receber turistas. Estranhos ali eram fáceis de ser identificados, especialmente estranhos de cabelo rosa. Talvez o mais sensato fosse permanecerem em posições mais discretas, ficando no hotel o máximo de tempo possível.

Entretanto, a sua racionalidade duelava seriamente com o sorriso e os olhos iluminados de Sakura.

Ele assentiu, não muito convicto. "Podemos ir, mas não conheço restaurantes aqui."

"Basta perguntarmos o recepcionista. Ele pode nos dar informações deste tipo," ela disse, voltando a se deitar.

Ele deu de ombros e se levantou da cama, tirando a sua blusa. "Vou tomar um banho." E foi em direção ao banheiro da suíte.

Parou na porta ao ver que Sakura continuava deitada com um braço sobre os olhos, as pernas para fora da cama.

"Sakura."

"Sim?"

"Vou tomar banho."

Ela deslocou o braço que tampava os olhos para olhá-lo. "Tudo bem."

Ele ergueu uma sobrancelha, e ela compreendeu. Sorrindo, rapidamente se levantou da cama e entrou com ele no banheiro.

Xxxx

"Pergunto-me se eles nos perseguirão pelo resto da vida," Sakura refletiu quando já estavam sentados na mesa de um pequeno restaurante; nada sofisticado, porém, bastante arrojado e confortável. "Quero dizer, se o desejo de vingança deles for igual ao seu eles provavelmente não descansariam até ceifarem as nossas almas."

Sasuke estreitou os olhos, mas ela manteve um meio sorriso. "Eventualmente eles se cansarão. Independente do que seja, eles tem que trabalhar. Não é a primeira vez que um membro do grupo é assassinado, e se fossem perseguir todos os assassinos teriam de desistir do negócio e se dedicarem exclusivamente à isso."

"Mas eles não nos esquecerão, certo?" ela perguntou, tomando um gole d'água. "Se por acaso nos encontrarem meses, anos mais tarde, tentariam nos matar."

"É muito provável que sim."

"E você estará sozinho."

Sasuke sabia que aquelas palavras diziam muito mais do que a aparente simplicidade delas. Você estará sozinho, longe de Konoha, sem ninguém para te proteger caso seja atacado por homens de um poderoso grupo mercenário.

Sasuke suspirou, passando a mão pelos cabelos. "Sei me cuidar."

"A situação é diferente," Sakura disse, inclinando-se para ficar mais perto dele, que estava do seu outro lado da mesa. "Sabe que não consegue se defender contra muitos dos Mãos Limpas. O que faria se eles o interceptassem sozinho?"

"Sei me defender."

"Se soubesse, não teria insistido tanto em fugirmos!" A voz dela se alterava, desesperada para convencê-lo. "Para o seu próprio bem seria melhor se retornasse à Konoha –"

"Eu te deixarei lá, Sakura, mas não vou voltar," ele disse em um tom definitivo que ela ignorou.

"O que faria se fosse interceptado sozinho pelos Mãos Limpas? Sabe que as chances de sair vivo são mínimas."

"Você conseguiu."

"Consegui porque dei muita sorte de lutar com apenas dois deles, e eventualmente o sobrevivente teria me alcançado se eu não tivesse encontrado a sua casa, e então eu estaria morta – o que por muito pouco não aconteceu."

"Darei o meu jeito."

"Mas o seu jeito pode não ser suficiente –"

"Sakura." Ela se obrigou a calar pela seriedade com que ele se pronunciou. "Não vou voltar. Te levarei até o mais perto de Konoha que conseguir, mas não pisarei nesta vila."

"Por que não?" ela murmurou.

"Porque ela não me quer, e eu não a quero," ele respondeu.

Ela balançou a cabeça e descansou as costas no encosto da cadeira. "Eu não consigo te compreender. Você foi embora de Konoha em busca de poder, mas jamais demonstrou tamanho ódio para com ela quando éramos mais jovens. Antes, desprezava o seu irmão, e agora coloca as nossas vidas em risco para conseguir um anel dele. O que foi que aconteceu, Sasuke? O que te fez mudar tanto?"

"Você não quer saber, Sakura," ele respondeu. "Se soubesse o que sei, talvez sentisse um desgosto similar ao meu por Konoha."

"Eu não consigo imaginar o que Konoha fez a você para ter sentimentos tão radicais."

"Bom para você. Espero que continue desta forma," ele disse, mais calmo. "Pedi para que não conversasse sobre Konoha."

"Não estou falando de Konoha, e sim, da sua segurança," ela retrucou, nem mesmo olhando para o garçom enquanto ele colocava o prato de comida na sua frente. "Preocupo- com você, Sasuke. Só isso."

"Pois não o faça. Sei me virar sozinho. Se não quiser ser detectado, não serei. Há anos não tem notícias minhas não por coincidência, mas porque eu quis que assim fosse."

Ele viu a tristeza no rosto dela, e quase se arrependeu do que disse – não por achar que estava enganado. Apenas pensava que pouparia-a de ouvir fatos duros.

"Não quero que abomine o local onde nasceu, como eu," ele continuou, tentando remendar a sua falha. "Quero que volte para Konoha e sinta como se lá pertencesse. Não sei se isso jamais voltará acontecer para mim em qualquer lugar, muito menos em Konoha."

Os olhos dela se encheram de lágrimas, não por ela, mas por ele. Perderia a vida por sua vila, que era o lugar onde ela mais gostava de ser. O vazio que ele deve existir dentro dele por não poder sentir o mesmo seria agonizante para ela, caso os papéis fossem invertidos.

"Algum dia me dirá o que aconteceu?" ela murmurou. "Algum dia me dirá por que não considera voltar para os seus amigos, para o lugar onde jaz as memórias da sua família, para a vila que descreve toda a sua história?"

Ele balançou a cabeça e mexeu na sua comida para evitar de olhá-la nos olhos. "Um dia saberá. Espero que não seja eu o responsável por lhe dizer."

Um canto da mente dele gritava-lhe para contar a Sakura todas as atrocidades que a sua família sofreu nas mãos dos governantes em Konoha. Quem sabe, assim, ela desista de voltar e permanecesse ao lado dele?

Gosto de tê-la ao meu lado.

Mas ele não faria. Finalmente conseguia admitir a si mesmo que se preocupava com ela e, muito provavelmente, gostava dela, e era justamente esse o motivo que o fizera manter o segredo para si. A dor que ela sentiria se soubesse a verdade a devastaria, e ele não mais queria ver no rosto dela uma expressão desolada.