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Vampira respirou fundo assim que as portas do Pássaro Negro se abriram. Sua cabeça rodava com a mudança repentina. Sentira ter sido arrancada abrupta e friamente de sua vida. A praia, que no início lhe parecera um sonho, agora parecia ser sua vida real, pois não reconhecia aquele lugar frio e acinzentado tampouco todos os rostos pálidos que em breve a estariam encarando.

Ingenuamente achara que saber que todos na mansão estavam a salvo faria com que o peso sobre seus ombros fosse amainado quando na realidade pareceu aumentar. Havia tantas perguntas sem respostas, que o pensamento de fazê-las em voz alta lhe causava um frio doloroso na barriga.

Ela virou o rosto para Remy ao sentir sua mão quente passar pelas suas costas e parar no seu ombro a convidando para chegar mais perto, fazendo-a se sentir segura. Ela, entretanto, não conseguiu retribuir o sorrido dele.

Pisou com os pés descalços e ainda sujos no chão metálico, duro e gelado, ao deixar o Pássaro Negro. Só então percebeu que fazia muito frio. Há quanto tempo ela não sentia os pelos no seu braço se eriçaram ao toque do vento frio. Ela costumava gostar dessa sensação; agora percebia amargamente que até mesmo isso mudara.

Ciclope, Wolverine e Lince Negra foram na frente a guiando até a sala de estar onde todos se apinhavam esperando pela sua chegada. Sentiu-se desconfortável e exposta por ser alvo de tantos olhares. Mesmo a presença de Gambit não pareceu causar nenhum estranhamento; era para ela que todos os olhos se voltavam. Vampira estava acostumada a ser encarada, mesmo pelos mutantes que moravam no Instituto. Olhares de pena, de medo. Ela puxou a manta mais apertado.

Entre vários olhares, ela encontrou os olhos de Kurt, que hesitava. Era claro que queria se aproximar, mas manteve distância. À frente ela viu Xavier lhe acenar sutilmente com a cabeça e Tempestade lhe sorrir. Achou que viriam falar com ela, mas para sua surpresa, ela e Gambit foram imediatamente guiados para os vestiários, onde poderiam tomar banhos quentes.

No vestiário feminino, Vampira evitou seu reflexo como pôde; não desejava ver o que os outros encaravam. Largou a manta em qualquer lugar do chão e se despiu sem pressa. Trancou-se na cabine estreita e, com os dedos entorpecidos, girou o registro do chuveiro, deixando que a água quente caísse sobre o corpo dolorido. Não se moveu por vários minutos. Seus olhos ora fechados, ora sem foco. A sensação era boa, ela pensou, porém não o suficiente para aliviar o aperto no seu peito. Não conseguiu lavar seus pensamentos. Ela fechou os olhos apertados e então se sobressaltou ao ouvir uma batida de leve na porta.

"Anna?" apenas uma pessoa a chamava assim. "Tá tudo bem aí?"

Só então ela percebeu que sua pele branquíssima estava salpicada de vermelho. Emergiu de seus devaneios e começou a esfregar os cabelos sujos. "E-está, sim. Me dá mais alguns minutos."

Quando ela terminou, Gambit já não estava mais lá. Sobre o banco longo no centro do vestiário ela encontrou calças e blusa de moletom, uma camiseta, roupas de baixo, meias, tênis, até mesmo uma escova de cabelo e as antes indispensáveis luvas esperando por ela. Sorriu com a gentileza de Kitty. Apenas ela teria sido tão prestativa.

Vampira deixou o vestiário e encontrou Remy, que, de braços cruzados e apoiado contra a parede, conversava alegremente com Kitty. Ele também vestia moletom cinza e preto, o uniforme padrão para alguns dos treinamentos.

"O Dr. está nos esperando" ele disse, colocando o braço em torno da cintura dela assim que Vampira se aproximou. Ela mantinha as mãos nos bolsos da blusa tentando aquecê-las, no mesmo lugar onde guardara as luvas.

"Você já parece bem melhor, Vampira" disse Kitty. Pedindo licença ela então se retirou com um sorriso travesso como se não quisesse passar por vela. Vampira sabia que seria bombardeada por perguntas mais tarde.

"Ela tá mentindo, né?" perguntou Vampira assim que a outra garota se afastou o suficiente para não ouvi-la.

Gambit sorriu, debochado. "Tá, sim."

Ela lhe cotovelou as costelas. "Era pra você mentir também" mas continuou, séria "Sobre o que vocês conversavam?"

"Kitty estava me explicando sobre... o que ela achou que eu deveria saber" respondeu relembrando Kitty tagarelando sobre vários assuntos, sem parar para respirar. "Acho que ela está contando que a minha estadia aqui seja longa."

Vampira não pôde deixar de se sentir alentada por esse pensamento.

Chegando à enfermaria, o Dr. McCoy os cumprimentou com um caloroso sorriso. Seus olhos azuis claros, entretanto, não estavam tão brilhantes quanto de costume, parecendo ansiosos.

Os dois foram examinados; os pequenos cortes nos seus pés foram cuidados, assim como a mão machucada de Remy. Foram também submetidos a vários testes, uma vez que haviam entrado ilegalmente em um país estrangeiro, sem quaisquer precauções e cuidados. Hank os questionou sobre o que comeram, onde dormiram e tudo o mais que pudesse saber sobre suas rotinas que pudesse ser relevante.

"Sua saúde parece impecável" garantiu Hank, dirigindo-se aos dois, cada um sentado em uma maca. "Assim que eu cuidar dos resultados dos demais exames poderei trazer mais informações, mas como eu disse, tudo parece estar normal."

"Mas..." começou Vampira, hesitante. "Mas e os meus poderes?"

Hank chacoalhou a cabeça coberta de pelos azuis. "Não sei dizer o que houve com os seus poderes, Vampira. Você não parece ter sofrido nenhuma mudança física."

"Talvez esteja na minha cabeça" ela chutou.

Hank chacoalhou a cabeça novamente, desta vez afirmativamente. "Por isso vou chamar o Professor. Ele talvez possa dar mais respostas. Bem, vou trabalhar nestas amostras" disse, com os frascos de sangue nas mãos.

"Hank?" ele se voltou. Vampira hesitou por alguns instantes "E Apocalipse?"

"Nós te contaremos tudo, Vampira" ele respondeu evasivamente, parecendo pouco confortável. "Agora, procure descansar" e retirou-se.

Gambit se sentou ao lado dela. "São todos muitos simpáticos" ele disse, mas Vampira estava cansada demais para decidir se fora ou não deboche.

"Estou tão exausta."

Ele tocou o rosto dela com a mão com o curativo, passando o polegar sobre a bochecha dela. Ela segurou a mão dele com as duas mãos. "Está doendo?"

"Non."

Então viraram os rostos em direção à porta ao ouvir o Professor se aproximar. "Espero não estar interrompendo nada" disse à guisa de desculpas, com o sorriso sempre bondoso no rosto. "Como estão se sentindo?" perguntou, passando os olhos de um para o outro.

"Cansados e famintos" ela respondeu pelos dois, olhando para as mãos agora caídas sobre o colo.

"Sinto que terei que a segurar aqui mais um pouco. Queira se deitar, Vampira" ela o fez sem questionar. Xavier voltou-se para Gambit, que se pusera de pé. "Não precisa ficar, isso pode demorar."

"Eu fico" Gambit disse, com mais firmeza que o necessário, cruzando os braços.

Xavier assentiu, sabendo que aquela seria a resposta. Voltou-se mais uma vez para a garota, entretanto, tentava não lhe olhar nos olhos. "Vampira, eu preciso que você relaxe e feche os olhos."

"Para quê?" perguntou Gambit, com rispidez.

Xavier tampouco se ofendera, sorriu para o rapaz e respondeu em tom amigável. "Vampira absorvera duas dezenas de personalidades enquanto em transe" parou um instante. Apenas deduzira que Vampira já soubesse de tudo. Como não encontrou reação de que estava errado, continuou. "Então ela perdeu todos os poderes. Gostaria de fazer uma varredura mental para saber como as personalidades estão se comportando."

"Não sinto a presença de ninguém" ela disse para o Professor.

"Um método tão invasivo não é necessário, é só perguntar" disse Gambit, rispidamente.

Vampira não percebeu, mas Gambit, que era um ótimo leitor, notou como as feições do Professor se enrijeceram com as palavras dela. Não disse nada, haveria momentos mais oportunos.

Claramente poderia ter perguntado, pensou o Professor amargamente. Na realidade, precisava se certificar de que não havia resquícios de Apocalipse na mente da garota. Nada que pudesse ser usado contra eles. Reprimindo o que quer que estivesse sentindo, Xavier se recobrou. "Podemos começar, Vampira?"

"Claro, Professor" ela respondeu e fechou os olhos.

Gambit permaneceu de pé e não mais se manifestou, mesmo achando haver algo de errado naquela situação.

Pelos próximos dez minutos, com os braços cruzados e o queixo rígido, o rapaz não retirou os olhos da cena que se desdobrava. O máximo que se moveu foi ao passar o peso do corpo de uma perna para a outra.

Vampira não se movia e mal respirava. Não parecia adormecida; parecia morta. Xavier também permanecia imóvel, com os olhos fechados e o sobrolho enrugado.

Quando Vampira afinal abriu os olhos, Gambit soube que finalmente havia terminado.

Ela pareceu despertar dos mortos, respirando profundamente. Claramente não era fácil para ela. Gambit se recordou de quando Xavier invadira sua mente, do quão doloroso havia sido.

"E então?" ela perguntou com a voz fraca e a garganta seca.

"Não encontrei vestígios de personalidades se não a sua" respondeu o homem mais velho, pensativo e, de certa forma, aliviado.

"E os seus poderes?" Gambit perguntou, ainda não deixando a postura defensiva. Vampira ficou aliviada por ele ter perguntado no lugar dela.

"Não os encontrei."

Ela se lembrou de um dos primeiros dias na praia quando Gambit sugerira que Apocalipse pudesse ter arrancado os seus poderes como fizera com os demais que habitavam sua mente. Nenhum outro perdera os poderes, todavia, ela havia sido o receptáculo. Talvez algo houvesse dado errado.

"O que isso quer dizer?" indagou o cajun.

"Ainda não sei" Xavier respondeu, pensativo e cansado.

Gambit percebeu que Xavier desejava se retirar, mas havia mais perguntas. "Por que o senhor invadiu a minha mente? Aquilo quase me matou."

"Não havia tempo para pedir permissão. Entrei em sua mente de forma nada sutil, pois estava ciente dos seus bloqueios mentais, Gambit. Foi a única forma. Vocês precisavam ser avisados" sua voz ia ficando cansada.

Gambit insistiu. "Se foi possível encontrar a minha cabeça," ele ironizou "por que não fomos resgatados antes?"

Xavier massageou as têmporas doloridas e se pôs a se retirar. "Vamos esclarecer tudo a seu tempo" respondeu em tom de quem não iria mais ser questionado e se retirou.

Vampira nunca vira o professor se evadir de tal forma. Poderia jurar que vira suas mãos tremer. O professor sempre lhe pareceu calmo e sábio, alguém em quem poderia se confiar e aconselhar em qualquer situação. Agora, parecia confuso, como se lutasse para tomar uma decisão. Achou que Gambit fora injusto em colocá-lo contra a parede, mas não seria sensato repreendê-lo, pois suas perguntas não foram, de forma alguma, infundadas. Gambit não tinha razão para confiar cegamente em Xavier.

Gambit permaneceu alguns instantes em silêncio, ponderando sobre a situação. Decidiu que, por ora, guardaria seus pensamentos para si. Não queria preocupar Vampira.

Entrando em um personagem, Remy lhe estendeu as mãos e a impulsionou a se levantar, puxando-a para um abraço. "Vamos... vou arranjar algo para a gente comer" disse, beijando-a nos lábios.

Encontraram Kitty no caminho da cozinha, que prometeu levá-los algo no quarto.

"Finalmente vou conhecer o seu quarto, hã?" ele murmurou no ouvido dela.

"E onde você vai dormir, cajun?"

Ele deu de ombros novamente, desta vez acompanhado por um sorriso travesso.

Vampira respirou fundo ao entrar e se jogou na cama feita, desejando apenas poder dormir. Remy se sentou e colocou os pés dela sobre seu colo. Ouviram um som oco e sentiram um cheiro forte de enxofre. Não tardou para Kitty entrar através da porta e Kurt abri-la logo após. A garota segurava uma bandeja enorme.

"Eu não sabia o que vocês iam querer, então eu trouxe—"

"Tudo que havia na geladeira?" Vampira completou com um sorriso, que Kitty retribuiu.

"Eu falei que era demais" cochichou Kurt.

"Não enche, Kurt" Kitty depositou a bandeja sobre a cama. "Vamos, elfo" ele, porém, hesitou.

Vampira foi até o irmão e o abraçou. "Estou feliz em ver você, Kurt."

"Eu também, Vampira" ele respondeu, com carinho fraternal e lágrimas, que tentou disfarçar.

"Vamos, Kurt" disse Kitty mais uma vez, já deixando o quarto através da porta fechada e puxando o elfo com ela.

"Acho que eu poderia dormir aqui" disse Gambit, com a boca cheia, apoiando a cabeça nos braços cruzados. Ela se deitou ao lado dele para ser levada em um beijo. Sentiu a barriga roncar e se sentou para comer.

Kitty voltou minutos mais tarde, novamente através da porta. Então parou com os olhos arregalados, percebendo que deveria ter usado a porta, como era esperado. Vendo que não interrompera nada, voltou ao seu normal.

"Me pediram para te mostrar os seus aposentos, Gambit. E, Vampira, o Professor pediu para te avisar que amanhã de manhã ele quer conversar com você pra esclarecer o que você precisar."

Gambit franziu o cenho. Vampira fez a pergunta que ele queria fazer: "Por que esperar até amanhã?" ainda era fim de tarde, restava tempo o suficiente.

Kitty deu de ombros sinceramente. Realmente não sabia de nada.

Dando-lhe um beijo de despedida, Gambit acompanhou a garota mais nova. "Petite, será que você poderia me levar até o seu professor?" indagou à medida que caminhavam pelo corredor. "É importante que eu fale com ele ainda hoje" Kitty gentilmente lhe guiou.


Vampira permaneceu escondida no seu quarto, deitada confortavelmente na cama. Sua cabeça ainda girava com indagações. Achara que assim que retornasse à mansão todas as suas dúvidas seriam sanadas; todavia, permanecia tão no escuro quanto antes. Talvez Kitty pudesse ajudar.

"Em qual quarto ele está?" perguntou, assim que viu a outra garota entrar através da porta. Às vezes se perguntava por que alguém intangível preferia correr através das portas ao invés das paredes. Deixando o pensamento de lado, esperou por uma resposta.

Kitty deu risadinhas. "Segunda porta à direita na ala dos meninos" murmurou, à guisa de quem conta um segredo.

"Valeu, Kitty."

"De nada" então pareceu ficar sem jeito. "Então... vocês então juntos? Parece ser bem sério."

Vampira estava pronta para isso. "Estamos."

"Bom..." começou a outra garota "preciso estudar" disse, indo para a escrivaninha.

"Kitty?" a garota girou nos calcanhares "E Apocalipse?" perguntou gravemente.

"O Professor disse que vai te contar tudo amanhã. Fica tranquila, não há perigo iminente" Vampira abriu a boca, mas fechou-a sem sair som. Kitty sorriu, em entendimento. "Ninguém te culpa pelo que aconteceu, Vampira."

Vampira sentiu os olhos marejarem e acenou como quem agradece.


Vampira não precisou de esforço para não cair no sono. Questionava-se por que Gambit não retornara desde que Kitty lhe mostrara seu quarto. Enganara-se achando que seria bombardeada por perguntas inconvenientes. Kitty se manteve anormalmente silenciosa. Será que estava ficando paranoica ou todos estavam agindo estranhamente ao seu redor?

Olhando para a cama ao lado, na qual Kitty dormia profundamente, Vampira chutou as cobertas e sorrateiramente se levantou e, com cuidado, abriu a porta do quarto. Se Gambit não viera vê-la, ela iria atrás dele. Segunda porta à direita, recitou mentalmente.

Ainda era cedo, mas a mansão estava silenciosa. Não havia necessariamente um toque de recolher, porém, dificilmente alguém passava da meia noite em um dia normal. Havia sempre muitas responsabilidades na manhã seguinte.

"Aonde pensa que vai, guria?"

Vampira deu um pulo tão grande, que se sentiu como um personagem de desenho animado cuja pele saltara para fora do corpo. "Caralho, Logan! Você quase me matou do coração" ela praguejou, com a mão no peito, como se se certificasse de que seu coração disparado não iria sair pela boca.

"Olha a boca suja, guria" o tom paternal autoritário de Logan sempre a deixava desconcertada. "Então? Não vai me responder?" insistiu ele, saindo das sombras.

"Estava indo comer alguma coisa" ela respondeu sem paciência. Sentia-se furiosa por Wolverine estar obviamente a vigiando. Sentiu-se idiota ao ter sido tão previsível.

"É mesmo? Por que eu não te acompanho então? Estou louco por um hambúrguer" ela cruzou os braços, irritada. "Estava indo ver o Acólito" não era uma pergunta.

"Dá pra parar de chamá-lo assim? E, é claro que eu estava indo vê-lo."

Logan respirou fundo e sonoramente, como um touro. "Você está em casa, Vampira. Não precisa mais dele. Não precisa mais se sentir presa àquele Acólito. Qualquer dívida que você acha ter com ele—"

"Dívida?" ela ecoou, furiosa. "É disso que você acha se tratar, Logan?"

Ele fez um esforço sobre-humano para não se exaltar. "Eu conheço o tipo dele, Vampira. Sei o efeito que ele causa em garotas ingênuas."

"E você acha que é isso que eu sou?" ela já não se importava mais, quase berrava.

"É assim que você está agindo."

"Você não sabe nada do que aconteceu naquela praia."

"E o que aconteceu então, Vampira?"

"Não é óbvio?" assim que as palavras saíram de sua boca, ela percebeu que eram as erradas.

Os olhos de Logan brilharam tão mordazes que ela quase teve medo. "Se ele forçou você a—"

"Logan!" ela exclamou em desaprovação. "Para de me tratar como seu eu fosse uma garotinha apaixonada."

"Então pare de agir assim! Pare de agir como se estivesse agradecida."

"Eu estou agradecida!" os olhos dela ficaram marejados. "Ele salvou a minha vida. Poderia ter me dado as costas e me deixado morrer naquela praia, mas ele não fez isso" ela fungou. "Eu não sou idiota, Logan" ele, enfim, percebeu que a ofendera. "Não aproveitei a chance de tocar. Eu tive muito tempo para pensar e é por isso que eu sei que o amo."

Não era a resposta que Wolverine esperava. Mesmo não estando realmente convencido, baixou a guarda. Poucas semanas não pareciam ser o suficiente para isso. Ela estava agindo como uma adolescente fraca e ele não gostava disso.

"Eu tenho medo" ela confessou, se escorando na parede e se encolhendo de leve. "Eu tenho tanto medo de os meus poderes voltarem."

"Por que assim ele iria embora?"

"Não" ela respondeu, voltando os olhos para Wolverine. "Eu não tenho medo de perdê-lo por isso. Tenho medo de não poder mais tocá-lo, de perder ter uma vida normal ao lado dele."

"Nós não temos uma vida normal, Vampira. Você deveria saber disso."

Ela chacoalhou a cabeça em desaprovação. "Você realmente não entende, Logan."

"Eu não quero que você se machuque."

"Tarde demais pra isso" ela se pôs ereta. "Posso ir agora?"

"Pode ir de volta para o seu quarto."


Vampira acordara antes de amanhecer. Para variar, dormira pouco. De certa forma, poderia respirar aliviada ao perceber que sobrevivera a uma noite terrível. Ainda assim, continuava furiosa com Logan. E por que Remy não viera vê-la? Ele devia saber que Wolverine estava rondando, mas se alguém pudesse passar por Wolverine seria Gambit. O olfato desse era aguçado, mas um ladrão poderia facilmente adentrar pela janela.

Levantou-se e foi diretamente ao banheiro. Tomou banho e vestiu moletom novamente. Ao deixar o quarto, cruzou com Kitty e Kurt conversando em voz baixa. Quando a viram lhe disseram que o Professor a esperava em sua sala.

Vampira desceu as escadas e seguiu pelo longo corredor. Mais uma vez a mansão parecia silenciosa demais. Chegou ao escritório do Professor e bateu duas vezes na porta. Os murmúrios que ouvia cessaram repetidamente. A porta se abriu e ela entrou vagarosamente, olhando ao redor. Apenas os mais velhos se encontravam ali, o que incluía Magneto.

Para a sua surpresa, Gambit estava lá, de pé em um canto, com o rosto fechado. Ela lhe lançou um olhar indagador, mas ele não retribuiu. No outro canto, havia uma mulher que Vampira desconhecia. Como ninguém a apresentou, Vampira não teve a coragem de perguntar.

Sentou-se, com as mãos nuas, estalando os dedos nervosamente. Sempre se sentia oprimida pelas imponentes estantes de livros e a cadeira enorme na qual agora parecia afundar. Mais uma vez olhou para Remy, procurando apoio, mas ele olhava em outra direção. Nunca vira seu rosto tão sombrio. Queria falar com ele, perguntar por que desaparecera durante a noite. Mas não havia propósito em fazer indagações que poderiam logo ser respondidas. O arrepio que sentiu repentinamente subir pela espinha pareceu um mau presságio.

"Chamamos você aqui, Vampira, porque queremos colocá-la a par da situação" o Professor começou a dizer. "Desde que Magneto tolamente enfrentara Apocalipse sozinho, fato do qual você tem conhecimento, como Gambit confirmou, este pareceu enfraquecer consideravelmente e não mais deixou sua pirâmide. Isso aconteceu há quase um mês, durante o qual tememos retaliação. Não sabemos se Apocalipse está tramando um ataque. A verdade é que não temos certeza de nada. Planejamos todos os nossos passos com cautela."

"Para de enrolação, Chuck" fez-se ouvir a voz cortante de Wolverine. "Conta pra ela o que aquela lunática falou."

"Quem?" Vampira não conseguiu refrear a pergunta óbvia.

"Sina."

"Não a vejo há anos" ela murmurou para si mesma. Se Sina estava envolvida, não a terem resgatado antes começava a fazer sentido. Se visse a mulher agora, fragilizada e precocemente envelhecida pela responsabilidade, talvez não a reconhecesse.

"Ela estava preocupada com você" continuou Xavier. "Afirmou ter enxergado dois futuros distintos. No melhor deles, você ficaria longe daqui até Apocalipse ser derrotado" aos poucos as coisas começavam a fazer sentido. "Por isso tivemos que ficar longe. Entretanto, você está aqui agora e tememos que Apocalipse tente chegar até você."

"Por que ele faria isso?" ela perguntou com a voz mórbida.

"Porque ele precisa de você para se reabastecer com mais poderes" disse Xavier sem cerimônias. Quando ele a mandou para longe, não sabia que precisaria de você novamente. Desconfiamos que ele já saiba disso agora, e tememos que ele descubra sua presença aqui. É claro que o fato de termos Mesmero prisioneiro desde o início nos deixa confiantes."

"Prisioneiro, hã? Achei que vocês fossem os mocinhos" ironizou Gambit.

"Não estamos confortáveis com essa situação" defendeu-se Xavier. "Mesmero é perigoso. Não havia outra escolha."

"Poderíamos matá-lo" disse Magneto. "Mas fui o único a favor" disse como se confirmasse que eles eram de fato os mocinhos.

Gambit não estava convencido, não depois de saber o que estava prestes a acontecer.

"Bem," continuou Xavier "não sabemos quem mais trabalharia para Apocalipse. Por isso não temos tempo. Precisamos derrotá-lo de uma vez por todas. Teremos apenas uma chance. Se perdemos essa batalha, perderemos também a guerra."

"Eu não vou me esconder" Vampira afirmou, travava uma batalha interna. Saber que poderia ser novamente um títere nas mãos de Apocalipse lhe causava um medo congelante.

"Não esperávamos nada diferente, Vampira."

"Eu quero fazer o que for preciso para derrotar esse monstro que eu ajudei a se erguer" ela falou, buscando reafirmação, tentando não sucumbir ao medo.

"Sua culpa é infundada, Vampira" disse Tempestade, falando pela primeira vez.

"Não tem a ver com culpa" disse Vampira. "Eu fui importante na ascensão dele, isso é fato. O que eu posso fazer? Vocês têm um plano?"

Xavier respirou fundo antes de responder. "Temos. E não lhe pediríamos para fazer isso se houvesse outro jeito, mas nós precisamos de você."

Vampira ficava cada vez mais aflita. O suspense a estava matando. "Precisam de mim como?"

O silêncio que caiu sobre todos era mórbido. Havia alguma coisa errada.

Vampira olhava de um lado para o outro, apavorada. Pareciam tê-la esquecido ali. "Será que alguém pode me dizer o que está acontecendo?" ela foi obrigada a aumentar o tom de voz.

"O nosso plano" disse Xavier "envolve você atrair Apocalipse para a câmara onde ele será aprisionado. Precisamos que você o coloque para dormir novamente."

McCoy se manifestou pela primeira vez. "Existe uma profecia... descobrimos três anéis que unidos a um determinado mutante, o tornará forte o bastante para se aproximar de Apocalipse. Com as próprias mãos esse mutante será capaz de enfraquecê-lo e assim aprisioná-lo."

Ela fechou os olhos, juntando o quebra-cabeça. Não poderia significar o que ela achava. Não poderia.

"Você é a peça, Vampira" disse Xavier. "Você é o mutante da profecia."

Remy baixou a cabeça e fechou os olhos, se amaldiçoando pela sua impotência.

Xavier apanhou uma pequena caixa de madeira e a abriu. "Estes são os anéis."

Vampira segurou a caixa e viu que cada um dos anéis tinha um formato diferente. Eram um escaravelho, um escorpião e uma serpente. Seus dedos flutuaram sobre eles, não ousando tocá-los. Ela fechou a caixa com um estrondo.

"Talvez não seja eu" disse, negando o que já sabia.

"É você."

"Como vou enfraquecer Apocalipse com as mãos nuas se não tenho os meus poderes? Esses anéis são mágicos, por acaso?" ela perguntou se agarrando a esta desculpa frouxa antes que a rachadura que se formara no chão abrisse e ela fosse engolida.

"Vocês não podem fazer isso com ela!" Remy gritou. Ele se mantivera tão silencioso, que todos se sobressaltaram. Logan deixou suas garras escaparem. No primeiro instante, Vampira achou que ele fosse atacar Gambit, mas percebeu que era porque concordava com o cajun e essa era sua maneira de se expressar.

"Fazer o que comigo?" ela perguntou furiosamente, entre os dentes.

No canto, a mulher desconhecida, que parecia um manequim de tão imóvel, pareceu ganhar vida magicamente. "Seus poderes seriam despertados" falou com uma voz rouca e baixa.

Vampira ergueu os olhos para ela; havia se esquecido da sua presença ali. Observou-a por alguns instantes. Tinha cabelos negros e olhos azuis gelados. Um sotaque sutil e difícil de precisar. Sua aparência altiva transmitia arrogância e petulância, seus movimentos eram quase robóticos.

"Esta é a Sábia" disse o Professor. "Sábia tem o poder de, entre outros, impulsionar poderes mutantes latentes."

Vampira olhou para as mãos; sua cabeça rodava. "Eu... eu preciso pensar" disse, pondo-se de pé.

"É claro, Vampira, não estamos exigindo uma resposta imediata. Apenas lembre-se de que tempo é algo de que não dispomos. Sua vida está em risco a cada minuto que Apocalipse permanece vivo. Você tem até amanhã para decidir" finalizou como em um último suspiro.

"Deixe-a em paz" Gambit cuspiu antes de sair atrás de Vampira. Logan também não conseguiu permanecer.

Com a mão sobre a testa, Xavier baixou a cabeça, cansado e cheio de dúvidas. "Está errado" murmurou. "Vampira quem pagará o preço... quem terá mais a perder. Sinto-me como um general enviando inocentes à guerra" afastando-se da mesa, ele se dirigiu até a janela. "Será que posso ficar sozinho?" sua voz era incisiva.

Vampira terá de se sacrificar por todos, pensou ele, remoendo os eventos que culminaram neste momento. Se algo sair errado, talvez não sobreviva.

Fora um joguete nas mãos de Apocalipse e agora seria nas suas.

Continua…

xXxXx

N\A: E este é o início do fim. Faltam poucos capítulos para a conclusão. Será que a Vampira sobreviverá? (sem querer a transformei na Katniss ¬¬).

Obrigada pelos comentários dos capítulos anteriores. Como sempre, espero que tenham gostado. E se gostaram, deixem um review. Até a próxima.