Embrasse-moi

I've tried so hard to tell myself that you're gone

But though you're still with me

I've been alone all along

My Immortal – Evanescence

Estava sozinho e o copo de uísque estava inseguro em sua mao, já frouxa pelo consumo excessivo do álcool. O corpo impelia-se para frente e para trás na cadeira de balanço, que era seu último alento naqueles dias difíceis. Os olhos piscavam devagar e quase fechavam completamente e por um longo tempo, imitando olhos que ele vira se fechar para nunca mais abrir. E ele almejava ser novamente visto por aqueles olhos castanhos que eram capazes de extrair cada gota de verdade que havia em seu ser. Queria ser beijado por aquela boca de lábios franceses, sempre tão macia e levemente cítrica como um morango ainda não completamente pronto, mas que amadureceria em contato com a boca dele, explodindo em doçura, cuidado e desejo. Queria estar unido a pele de seda, sempre delicadamente perfumada a fragrâncias francesas raras e sempre refrescante, como água pura bebida numa fonte mineral.

Mas também se sentia como uma queda realmente inesperada, como um tropeço, como algo errado, e perdê-la foi algo tão cruel quanto o despertar de um sonho bom. Assustado, ergueu-se da poltrona num salto. O copo de uísque espatifando-se no carpete. Olhou em volta, esperando vê-la ali, estava tão nítida em seus pensamentos que teve a sensação de tocá-la. Havia algo de seu cheiro no ambiente, talvez o último resquício, afinal, não fazia mais que um mês que ela partira. Estava viva ali, presente em cada detalhe, sobretudo na imagem do vestido marfim largado ao lado da porta do quarto, vestígio daquela noite em que não puderam conter seus impulsos e amaram-se tão desvairada e intensamente que cada centímetro daquela casa vibrou com sua energia.

Dia após dia, noite após noite, madrugada insone após madrugada em estupor alcoólico, ele se forçava a aceitar sua ida, mas aquilo não era justo, e a revolta o acometia, revirava suas entranhas e lavava seu coração em ácido. Ele queria sua Mona ali, queria sua presença, seu riso, sua cor... Queria até mesmo os defeitos ou desvios de caráter, queria seu corpo.

-O corpo... Ah, o corpo...

E deixou-se novamente cair sentado na cadeira, que balançou violentamente, olhos fechados, divagações a respeito de cada centímetro de pele branca que embrulhava o corpo dela, e sentiu algo estranho, mas bem vindo. Sentiu seu corpo responder ao estimulo de suas lembranças, e naquele momento deixou o lado menos ingênuo de seu pesar por ela dominá-lo. Não necessitava nada físico, almejava apenas o toque doce de suas memórias, e para ele foi como se a tivesse ali, o corpo nu, os delicados seios roçando com mamilos intumescidos em sua pele, incitando-o a levá-los aos lábios. Quase pode ouvir o gemido sufocado e algo murmurado em francês que costumava vir dela, quase pode sentir a textura do mamilo em contato com sua língua, que descenderia pelo vale macio formado pelos seios, circundaria o umbigo e mergulharia na delicada fenda, úmida e receptiva. Podia sentir as pequenas mãos entrelaçarem-se em seus cabelos, conduzindo-o da forma que mais a apetecia.

E estaria ela, sentada com uma rainha em seu trono de luxúria, pernas separadas e um homem ajoelhado entre elas, sorvendo sua excitação como se aquele fosse o ultimo líquido que beberia. Agora ele podia escutar, ainda que num eco distante vindo dos confins da sua mente, a voz pedindo por mais, implorando, suplicando...

-Embrasse-moi...

E agora sua boca se mesclaria com a dela e ela o beijaria intensamente, sentindo o gosto do próprio sexo. E durante o beijo ele sentiria as costas delgadas e macias, contornando cada curva da silhueta até prender suas mãos nas nádegas firmes e arredondadas. Ela o abraçaria e o delicioso beijo tardaria a acabar.

-Você se foi... Por quê? –ele perguntou magoado.

-Eu nunca quis ir. –ela garantiu com um sorriso- Nunca. Como eu poderia deixar você de boa vontade, como eu iria sem me despedir?

-Mona... Isso não é real... -ele murmurou, afastando-a alguns centímetros para olhá-la- Isso é uma alucinação, uma coisa criada pela minha saudade...

-Mas é bom, não é? -ela perguntou roçando os lábios no contorno da mandíbula dele, travada na tentativa de desvencilhar-se da ilusão- Você não sente minha falta?

-Mona...

-Eu estou aqui, Severo. -e levou a mão dele ao seio despido- E eu sou sua. Você não me quer mais?

Ele encarou o rostinho fino, delicado de brilhantes olhos castanhos. Ela estava como a primeira vez em que ele a vira, com os longos cabelos negros caindo por suas costas em ondas suaves e as curvas bem marcadas, não o corpinho esquelético que ele abraçara pela ultima vez. Havia um sorriso em seus lábios, inchados pelo beijo recente. Era definitivamente uma ilusão muito realista, que começara apenas com a necessidade latejante da testosterona acumulada.

-Você sabe o que eu quero... –ela disse com sua delicada malicia, potencializada com o toque de sotaque na ultima silaba.

E como ele apenas continuava olhando para ela, gravando a imagem de sua preciosidade na memória, ela agiu, tomando o membro pulsante em suas mãos e conduzindo-o a sua boca. Agora, ela seria sua servente, e cada segundo de saudade que sentira se transformaria em sede ao sugar e massagear cada centímetro dele. E ele estava ali, gritos sufocados antes de vir à tona, sussurros inaudíveis, mãos agarravam o que podiam, e os dedos dos pés estavam insensiveis devido a incessante contração. E então ela se detem, um sorriso libidinoso nos lábios.

-Sabe de uma coisa, meu amor? –pergunta ficando de pé e afastando os cabelos que lhe cobrem os seios- Eu realmente gosto de ver como você se rende quando eu estou de joelhos na sua frente...

-Hum... -ele grunhiu incapaz de qualquer outra coisa, respirando com dificuldade, e olhando para ela como se ela estivesse torturando-o com aquela pausa.

Ágil, sedutora e definitivamente pronta, Mona senta-se em seu colo, suas costas estreitas unidas ao peito musculoso. Seus pequenos pés apoiaram-se na ponta dos arcos que faziam a cadeira balançar. Desequilibrou-se um pouco, mas Severo a segurou, as mãos possessivas prendendo-a pelos seios. E num único movimento, como se encaixa uma chave na sua fechadura, estavam unidos, carne em carne, deslizando, arfando, gemendo. O leve ir e vir da cadeira poupava-lhes o trabalho e os deixava livres pra preocupar-se apenas um com o outro.

Severo a mantinha segura, uma mão agarrava seus cabelos, trazendo sua cabeça para perto, expondo o pescoço fino e alvo, onde ele mergulhava, beijando, mordendo, marcando. A outra mão deslizara pelo baixo ventre, encontrando o ponto exato entre a fenda que ele ocupava e o delicado monte de vênus. E a cadeira balançava cada vez mais urgentemente, mais forte, impelindo aquilo que já estava dentro, ainda mais longe no caminho apertado e resvaloso...

Havia uma melodia no ambiente, o ranger do arco de madeira contra o chão era o plano de fundo para o gemer e resfolegar incessante dos dois amantes. E Mona já não podia mais aguentar, cada momento de fricção fora como uma onda enviada ao amago de seu ser, e agora, com a sensação de que não havia prazer maior que aquele, que já tinha tudo o que era necessário para entregar-se, seu corpo explodiu num orgasmo tórrido, sufocante, delirante e tão longo como podia ser.

Mas Severo ainda não estava satisfeito, e num único movimento, ergueu-se da cadeira, levando-a junto e a pôs no sofá. E ela estava ali, na posição mais exposta a que uma mulher pode se submeter, pernas separadas, sexo a vista, seios descobertos e o rosto aberto na mais pura expressão de desejo. Severo terminou de despir-se, olhando diretamente para ela, que observava seus movimentos, arfando em antecipação.

-O que você quer fazer agora? –ela perguntou- Quer terminar isso de modo romantico ou quer me possuir como se fossemos dois seres primitivos?

-Isso, Mona... –ele arfava- ...ainda está bem longe de acabar.

Ela sorriu maliciosa, apoiando-se nos cotovelos e impelindo-se para frente, fazendo com que seus corpos se unissem por um segundo, que foi tempo mais que o suficiente para Severo segurá-la pelas nádegas no alto e penetrá-la num único movimento, deixando o membro sair só para poder vê-lo entrar novamente. Mona já não abafava mais os gritos de prazer. Ela suplicava por mais.

-Forte... –dizia incoerente- Fundo...

E Severo obedecia, temendo intimamente estar sendo rude de mais, mas ela não parecia se importar, ela só queria mais, e mais fundo, mais forte, mair rápido, de novo... Até que ele sentiu o descontrole inundar-lhe o ser, e parou abruptamente, recuando até a cadeira de balanço e sentando-se. Precisava de um momento, ou teria seu orgasmo ainda não tendo deixado sua pequena completamente saciada.

Mas ela estava ali para ele, por ele, não para si mesma, e indo até o homem arfante, subiu em seu colo, abraçando-o de frente e o colocou novamente dentro de si.

-É aqui, e somente aqui, onde você deve estar. –ela sibilou, beijando-o nos lábios, sugando-os levemente e contraindo a pélvis até o limite, deixando o lugar quente, aconchegante e resvaloso, ainda mais apertado.

Severo a abraçou, as mãos apertando o corpo dela contra o seu, a sensação de orgasmo cada vez mais próxima e o grito de euforia a segundos de explodir em sua garganta.

-Mona, eu vou... –ele balbuciou

-Vá... –ela disse roçando os lábios em sua mandibula.

E ele rendeu-se ao aperto de aço onde ela o prendeu e deixou que a mais sublime das sensaçoes lhe dominasse, saudando-a com um gritou rouco e quase um minuto inteiro de pensamentos incoerentes. Fechou os olhos e relaxou, sua menina abraçando-lhe suave, porém firmemente.

-Eu sempre vou estar com você. –ela sibilou- Não haverá força neste mundo capaz de nos afastar.

-Você me promete? –pediu Severo como um garoto indefeso.

-Eu juro. Agora descanse, eu quero que você esteja completamente recuperado pela manhã, quero que você não se sinta mais sozinho, ou esquecido ou saudoso por minha causa.

-Como eu poderia, Mona? –ele sorriu levemente- Você está aqui...

-E sempre estarei, ainda que... –ela começou com urgência, mas desitiu de continuar- Esqueça, apenas descanse.

-Obrigado por estar aqui...

-Je t'aime…

E ele adormeceu, embalado pelo suave movimento da cadeira de balanço e aconchegado no terno corpo de sua Mona.

Uma fenda na janela de madeira deixava passar um raio de sol que atingia diretamente os olhos do homem adormecido na cadeira de balanço, despertando-o de um sono pesado, porém satisfeito. Abriu os olhos e mirou em volta, em busca da presença adocicada que o embalara na noite anterior, mas não havia nada, nenhum resquício, sequer o cheiro. Olhou para o próprio corpo nu e tomou um leve susto. Sua mão ainda estava em torno do membro, suja com os vestígios de sua saciedade sexual.

Ficou de pé, estava alarmado. Como um sonho pode ter sido tão realista ? E porque aquilo não podia ter sido real ? Porque ele tinha que perder Mona de novo, ainda que apenas em seu pensamento? Mas para sua surpresa e para lhe dar um pouco de conforto, sobre a mesa, escritas com uma caligrafia leve, quase apagada, estavam as palavras :

' Quando sinta minha falta, olhe dentro de si mesmo e… Embrasse-moi.`

Severo encarou a carta, onde as palavras acabavam de dissipar-se e fez o que lhe fora pedido. Levou o papel aos lábios e depositou ali um beijo suave e esperançoso. No papel surgiu a cena que eles protagonizaram na noite anterior, ela sobre ele, abraçados, embalados pela cadeira de balanço, que movia-se para frente e para trás. Ele deixou que a estranha e misteriosa carta detivesse toda sua atenção, e quando a percepção dos acontecimentos estava atingindo-o novamente, escutou um sussurro bem proximo do seu rosto…

-Embrasse-moi…

E sorriu ao contatar que Dumbledore mais uma vez estava correto, um alento, finalmente dentre tantas desilusões.

-Pode estar acontecendo apenas dentro da minha cabeça, mas isso nao quer dizer que nao seja real.

Fim.