Mil perdões!
Aliás... três anos pedindo perdão todos os dias, hehehe
A faculdade me abduziu... Eu não consegui equilibrar na balança Vida Social + Boas notas + Estágio + Bolsa + Fics... algumas coisas caíram fora, e Um Uivo foi ficando. Até que um dia, na semana passada, de saco cheio de tanto estudar, eu coloquei uns CDs velhos pra ouvir enquanto lia o material de diagnóstico por imagem... e tocou Julho de 83, do Nenhum de Nós... e eu lembrei de uma song Remo x Tonks que eu havia escrito... e fui reler... e acabei relendo toda Um Uivo. Daí a ter um xilique e escrever o último capítulo foram três provas e algumas noites digitando enlouquecidamente.
Eu sem dúvida perdi o jeito, mas achei o resultado relativamente bom. Foi em cima do que estava planejado há anos para o término da fic. Espero mesmo que gostem! Um Uivo na Noite, depois de um hiatus de três anos, acaba aqui.
Num capítulo beeeeeeeeem longo, hehehe
PS.: percebi que Keane, apesar de ser excelente... consegue ser menos romântica que Linkin Park xD Então o último capítulo foi regado a muito Bryan Adams... vocês vão entender...!
UmUivonaNoite
CAPÍTULO19 – Finaldecena
I've been down, I've been beat – Eu estive pra baixo, e acabado
I've been so tired that I could not speak – Tão cansado que não podia falar
I've been so lost that I could not see – Estava tão perdido que não conseguia ver
I wanted things that were out of reach – Eu queria coisas que estavam fora do meu alcance
Then I found you and you helped me through – Então encontrei você, e você me ajudou através disso tudo
And you showed me what to do – E você me mostrou o que fazer
And that's why I'm coming back to you... – E é por isso que estou voltando pra você...
O ataque do vampiro foi interrompido e ele caiu no chão, gritando horrivelmente, um guincho de ódio e desespero... sua carne tornando-se pó ao redor do furo no peito, e essa transformação se irradiou rapidamente do ferimento até o final dos membros; em poucos segundos, o maior de todos os vampiros tornara-se pó.
Tonks observou o evento, trêmula. Quando tudo acabou, suspirou e deixou o arco cair.
O silêncio caiu sobre o casebre.
-Vocês estão bem? – perguntou Tonks, ainda de joelhos.
Ouviu-se um gemido de Sirius vindo de algum lugar.
Remo limitou-se a ficar olhando para a parede a sua frente.
Rufus resmungou "Mamãe" baixinho de onde estava.
Remo ouviu um rebuliço e de repente era virado bruscamente para cima; viu o teto e então o rosto pálido de Jhonny, que pareceu aliviado quando o encarou.
-Por um momento pensei que você tinha morrido também. Dá próxima vez responde.
-Não vai haver próxima vez – Remo sorriu torto para o filho, cuja face voltara a ser humana e demonstrava cansaço e a irritação habitual. – Como você está?
-Melhor do que você – ele olhou ao redor, tentando achar os outros.
O casebre estava completamente detonado; o sol entrava pelos buracos nas paredes e no teto.
Sirius apareceu, apoiando-se na parede, o nariz sangrando completamente quebrado, a boca rasgada indicando que alguns dentes poderiam estar faltando e um olho ficando preto rapidamente.
-Benzadeus – Tonks olhou o primo. – Levei um soco também, não me diga que também fiquei assim.
-Assim como? – ele olhou para ela sem entender.
-Relaxa, você está bem – falou Jhonny, olhando para ela.
Sirius sacudiu a cabeça e observou o pó no chão.
-Pó de Drácula... caramba, eu quero fumar isso.
Tonks se engasgou e começou a rir, Jhonny e Remo deram uma gargalhada.
-Ei, não fume tudo... essa parada deve ser boa. – ouviu-se a voz de Rufus vinda de atrás de algum escombro.
-Ei... consegue levantar? – Sirius perguntou olhando para Remo.
-Eu não sei – falou do chão. Não estava realmente disposto a descobrir.
-Eu não consigo – falou Rufus de onde estava.
Sirius revirou os olhos.
-Ei... não sinto minhas pernas – falou Rufus baixo.
Jhonny levantou a foi até o caçador.
-Ei, acho que ele está falando sério – disse, o garoto, inclinando a cabeça enquanto olhava para o caçador. – As costas dele estão legais.
-Fico imaginando o que "legal" deve significar para os jovens de hoje – divagou Sirius, indo até o caçador. Alguns gestos de varinha e Rufus estava em uma padiola. – Acho que você quebrou as costas. E você? – Sirius olhou para Remo, que estava sentado. O ex prisioneiro estendeu a mão e Remo a segurou e usou como apoio para levantar. Sirius suspirou. – Estamos um lixo.
-Definitivamente – sorriu Tonks, cansada. Ela pegou o arco e se levantou, sorrindo. – Mas acabou.
-Pelo menos isso acabou – concordou Sirius, ficando sério. – Espero que ao voltarmos, Harry esteja lá também.
Poucos minutos depois, Sirius havia guardado as cinzas de Drácula em um frasquinho ("Mercado negro... ei, estou só brincando!" acrescentara rapidamente, quando Tonks ameaçou prendê-lo) e eles se preparavam para desaparatar de volta à Ordem quando um rosnado alto cortou o silêncio.
-Que droga foi essa? – perguntou Rufus de olhos arregalados, na padiola.
Mais rosnados se fizeram ouvir. Remo olhou ao redor – pelas frestas e buracos na parede era possível ver que todo o casebre estava cercado de lobos – grandes lobos – lobisomens.
-Podemos desaparatar logo? – perguntou Jhonny angustiado, enquanto todos instintivamente se agrupavam em torno da padiola.
-Espera – falou Remo, quando três lobos saltaram para o corredor onde o grupo estava. Ele olhou para as três figuras, que pararam de rosnar, e sorriu. – Eles não vão nos fazer mal.
A frente deles estavam Silver, Logan e Bruce.
-Lupin – Bruce sorriu – sentimos a presença de Drácula aqui, o cheiro dele está por tudo... mas onde ele está?
Sirius olhou de esguelha para Remo e afundou o frasquinho no bolso.
-Ele está acabado – falou, tentando não rir – vocês perderam toda a diversão.
Os três lobisomens os olharam boquiabertos.
-Seu filho de um trasgo bêbado! – xingou Logan, antes de virar as costas e sair.
Houve um momento de espanto coletivo, e Silver começou a rir.
-Coitado do velho Logan, lutou, lutou, e no final você não deixou ele dar nenhuma mísera mordida nem em Greyback, nem em Lestat, e nem em Drácula. Que golpe duro nele, Remo!
-Então, parece mesmo que acabou – concordou Bruce, sorrindo. – com os três mortos, e... aquele ali fora é o Rômulo, não?
Remo confirmou com a cabeça. Não estava sorrindo.
-Ótimo – falou Silver, animado. – vou voltar para minha terra. Remo, Bruce – a gente se esbarra por aí.
Os outros dois acenaram com a cabeça. O lobisomem voltou à forma de lobo prateado e disparou para a floresta, um grande bando de lobos o seguindo. O grupo os observou partindo; então Bruce se voltou para eles.
-Suponho... que você vá voltar para a cidade?
´-Sim – respondeu, quando Sirius, Tonks, Jhonny e Rufus resmungaram incisivamente diversos "ah ele vai sim". Remo olhou para o lobisomem negro que os observava com um misto de respeito e algo que lembrava saudade. – Por que você não tenta?
-Não – ele sacudiu a cabeça – eu não me habituaria. Além disso – ele indicou os lobos do lado de fora com a cabeça. – eles precisam de mim. Não há espaço para tantos lobos na cidade.
-Vai viver nas florestas então?
-Vou... não é tão ruim – Bruce colocou as mãos nos bolsos rasgados. – vou à cidade de vez em quando para comprar uns sabonetes, acho...
-Isso seria ótimo – Remo riu, e olhou para os amigos. – Bom... vamos ir? Bruce, se precisar de alguma coisa, você sabe onde me encontrar.
-O mesmo vale para você – sorriu o lobisomem negro. – Adeus, Remo.
Remo acenou com a cabeça. O grupo desaparatou.
Bruce observou o casebre vazio por alguns minutos. Era possível ver os raios de sol entrando pelas janelas e buracos; o cheiro da vegetação estava forte e ouvia-se o canto de pássaros perto dali. Ele sorriu. Viver na natureza não era tão ruim assim.
UmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivo
Aparataram na sala, e antes que pudessem suspirar e olhar em volta adequadamente, passos apressados se fizeram ouvir e Molly Weasley irrompeu pelo corredor que levava à cozinha.
-Ah, são vocês... graças a Deus, e... mas o que aconteceu com vocês? – ela olhou de rosto sangrando a rosto sangrando, e então para Rufus na padiola.
-Está tudo bem, Molly – falou, sentando-se em uma poltrona e fechando os olhos por alguns segundos, sentindo a cabeça latejar. Fazia anos que não apanhava daquela forma.
-Os vampiros e lobisomens estão acabados – sorriu Tonks para a bruxa – agora só falta encontrarmos o Harry e eliminarmos o...
-Acharam o Harry – falou Molly rapidamente, e todos a olharam preocupados. – Moody, Quim e os meninos foram tentar resgatá-lo...
-Como assim resgatar? – perguntou Sirius, ficando tenso.
-Ele conseguiu – a deu um sorrisinho pálido e seu queixo tremeu. Ela parecia apavorada. – Ele conseguiu derrotar Vo-Voldemort. O corpo dele apareceu no ministério, com um bilhete com a letra e a assinatura de Harry para o ministro... mas o Harry não voltou, e logo em seguida Draco Malfoy nos avisou que após o combate Harry foi capturado por um grupo de comensais que não fugiu, e nos deu a localização. Todos saíram para tentar resgatá-lo.
Sirius e Tonks empertigaram-se e puxaram as varinhas. Remo se levantou com a mesma intenção, mas sentiu-se tonto; quando vacilou, Jhonny o segurou.
-Onde é, Molly? – perguntou Sirius.
-Nós também vamos – acrescentou Tonks, muito séria.
-Eu não sei – lamentou-se a Sra. Weasley. – Todos foram por um portal, que foi feito por Snape. É em uma das diversas bases dos comensais, mas não sei em qual delas...
-Como vamos chegar lá? – perguntou Tonks, olhando para Sirius. Os olhos de Rufus e Jhonny iam de um para o outro.
Sirius esfregou o rosto, pensando. Sua mão tremia.
-Eu não sei... Fawkes também não está em condições de nos levar, ainda é muito jovem... Ahhh, eles devem ter acabado com o Harry...
-Não diga isso, Sirius – protestou a bruxa ruiva, embora sem firmeza na voz e mordendo o lábio.
-Rony levou o espelho de duas faces? – perguntou Remo, tentando raciocinar.
Todos o olharam.
-Harry levou com ele. – respondeu Sirius. – A outra face está com Snape.
-Eu vou para o ministério – falou Tonks, decidida. – Os outros aurores devem saber de alguma coisa, Quim deve ter lhes dado um sinal para localizar o lugar.
-Tonks, você está em condições...? – perguntou Molly.
-Já estive melhor, mas eu posso ajudar. – a aurora caminhou em direção à saída.
-Nos avise onde é, Tonks – falou Sirius.
-Pra quê? – ela olhou para trás e deu um sorriso frustrado para o primo. – Se vocês aparecerem por lá, serão presos na hora.
-E no estado em que vocês estão, não poderiam fazer muita coisa – acrescentou Molly, olhando de Remo, apoiado em Jhonny e bastante ferido, para Sirius, com um grande hematoma na cabeça e parecendo um pouco torto.
Sirius olhou para as duas bruxas e, percebendo que elas estavam certas, largou-se em uma poltrona com um gemido angustiado. Ele estava desesperado.
Tonks hesitou.
-Ei, vai ficar tudo bem...
-Claro que vai – falou o ex prisioneiro, esfregando o rosto com as mãos, preocupado e tentando convencer a si mesmo. Então ele ergueu os olhos para Tonks, e disse, muito sério. – Mas se a situação estiver feia lá... nos chame de qualquer forma.
-Sim – Tonks concordou. Olhou do primo para Remo, e saiu.
Houve alguns momentos de um silêncio perturbador entre eles quando a porta do Largo bateu, denunciando que Tonks havia saído.
-Agora... só nos resta esperar. – falou Molly, olhando-os, entre o preocupada e o pesarosa.
Remo sentou-se novamente; estivera se apoiando em Jhonny, suas pernas se recusavam a sustentá-lo por mais tempo. Precisava de uma poção fortificante, e um analgésico, ou não conseguiria caminhar sozinho tão cedo.
-Molly, por favor, contate a Pomfrey... – pediu. – Com certeza teremos mais feridos, em breve.
-Ela deve vir a qualquer momento, eu já a chamei... ela precisava terminar alguns tratamentos no e viria para cá logo em seguida.
Eles aguardaram por longos minutos. Sirius permanecia em pé, nervoso demais para se sentar. Jhonny sentou-se numa poltrona ao lado de Remo, silencioso. A parte vampira em seu sangue cumprira seu papel – os ferimentos causados por Drácula haviam desaparecido, restando apenas a sujeira das quedas e o sangue seco. A caçula dos Weasley se juntou a eles na espera. Quando Molly foi se adiantar para tentar ajudar Rufus, inerte na padiola, ouviram-se batidas na porta.
-Mas, será que a Tonks...? – a bruxa se adiantou e foi atender. Sirius foi atrás dela e parou no topo da escada do saguão.
-É Pomfrey – ele avisou a Remo e aos outros.
A enfermeira bruxa chegou, com uma maleta de remédios sob o braço e os avaliou criticamente; cumprimentou Sirius. Ela e Molly flutuaram a padiola de Rufus para o quarto mais próximo. Sirius, Remo e Jhonny permaneceram na sala, imóveis e calados, esperando qualquer coisa – uma chamado da lareira, batidas na porta, aparatações repentinas, corujas, patronos... qualquer coisa...
Os segundos se arrastaram. Após algum tempo, Rufus entrou na sala, caminhando, e se sentou também, sem dizer uma palavra. Pomfrey elegeu Remo como o próximo paciente; deu-lhe algumas poções e fechou alguns ferimentos com encantamentos. Após uma boa poção fortificante, os pensamentos do lobisomem se clarearam, e ele se sentiu infinitamente melhor e mais alerta. A enfermeira avaliou Jhonny criticamente, reclamando que o garoto estava "pálido como um vampiro", e foi até Sirius, que permitiu, de má vontade, que ela remendasse algumas costelas quebradas e os ossos da face; alguns feitiços e o rosto do bruxo adquirira o formato normal, com o inchaço decorrente da fratura tendo desaparecido. Após isso, a enfermeira sentou-se também.
O ponteiro dos segundos deu ainda algumas voltas no relógio. Onde estava um bendito sinal de Tonks ou de qualquer outro? Não importava naquele momento se Voldemort estava morto mesmo ou não – só acreditariam com Harry dizendo aquilo, e, para isso, ele, e quase toda a Ordem da Fênix, deveriam voltar.
Quando bateram 17:40hs, Héstia Jones chegou. Molly abriu a porta apressadamente e todos a acompanharam, achando que poderiam ser os outros.
-Você sabe de alguma coisa? – perguntaram várias vozes a ela.
-Quase todo o batalhão dos aurores foi para lá – respondeu ela, parecendo preocupada. – Parece que Quim e Moody enviaram a localização, e pediram reforços em caráter urgente... foi quase todo mundo. Mas eles não me permitiram ou a outros bruxos irem para lá, somente aurores. Não sei o que está acontecendo lá. Eu esperei um pouco, mas nada aconteceu, ninguém retornou, só foram recebidas mensagens rápidas que indicavam que estava ocorrendo batalha com muitos comensais... então eu achei melhor vir para cá e ver se vocês – ela encarou-os um a um – sabiam de alguma coisa.
Eles apenas negaram.
-Héstia, você chegou a ver o corpo...? – perguntou Gina.
O rosto da bruxa revelou um sorriso.
-Sim... mas eu ainda não consigo acreditar direito. Sem dúvida era ele... mas isso é tão irreal, que eu quero ver o próprio Harry confirmar a história...
Porém antes que alguém pudesse falar mais alguma coisa, eles escutaram o som de uma aparatação. Todos ergueram-se puxando as varinhas.
Era Arthur.
-Arthur! – exclamou Molly, e correu para abraçar o marido, que tinha o queixo sangrando e um ferimento na cabeça.
-Ah, desculpe assustar vocês – ele sorriu cansado ao ver que todos naquele ambiente estavam próximos de um ataque de nervos. – Calma, Molly querida, estão todos vivos... Harry também.
-O que houve, Arthur? – perguntou Remo apressado. – Onde está todo mundo?
-Eles devem estar vindo em alguns minutos, eu só voltei para trazer notícias a vocês. – respondeu o , que se sentou em uma poltrona e tirou os óculos para apertar os olhos. Parecia exausto. – Aquilo lá estava um inferno, mas os aurores chegaram em boa hora... capturamos praticamente todos os comensais do círculo íntimo de Lord Voldemort – ele sorriu – e encontramos Harry. Ele está péssimo, mas está vivo... foi levado para o . Snape e Malfoy também, eles foram descobertos enquanto nos avisavam sobre a localização de Harry... mas chegamos em tempo de impedir que eles fossem mortos.
Era tão maravilhoso que parecia impossível – Remo trocou um olhar descrente com Sirius, que parecia chocado demais para dizer qualquer coisa. Voldemort estava morto. Harry estava vivo. Os comensais foram capturados. A Ordem da Fênix não sofrera perdas. Greyback, Lestat e Drácula estavam mortos. A guerra acabara.
-Então, nós perdemos toda a diversão? – Rufus cortou os pensamentos de Remo.
-E que diversão – riu o , divertido. – Eu nunca vi tanta gente duelando ao mesmo tempo. Nós fechamos o cerco; os comensais estavam desesperados. Acho que pegaram o Harry na esperança de obrigá-lo a revelar alguma forma de trazer Voldemort de volta, porque se fosse apenas vingança, o teriam matado antes... ele estava há horas sob tortura.
-E como ele estava, Arthur? – perguntou a .
-Quando eu consegui chegar até ele, ele já estava apagado, mas parece que antes disso Rony e Mione conseguiram falar com ele. Os dois foram junto para o ... e eu vou pra lá agora. – ele se levantou. – Vou tentar conseguir a transferência dele para cá o mais rápido possível. Mas fiquem tranqüilos; os outros já devem estar voltando, e vocês terão bastante trabalho para remendar todo mundo.
-Mas Arthur, você está bem? – perguntou a , vendo os ferimentos no rosto do marido.
-São apenas arranhões, Molly querida... Madame Pomfrey – ele voltou-se para a enfermeira. – Posso usar o seu nome como curandeira responsável pelo Harry, para tentar transferi-lo para cá?
-Claro que sim – respondeu a bruxa, agitada. – Eu irei para lá assim que ver como estão os outros garotos...
-Você já pode ir, Papoula – disse Molly, sorrindo, aliviada. – Nós cuidamos dos outros, eles não devem estar muito feridos.
-Nós damos conta do recado – sorriu Remo. – Vá para lá, para trazer Harry logo e nos permitir comemorar isso direito.
A bruxa assentiu, e ela e o bruxo ruivo saíram.
De repente, todos estavam sorrindo e olhando uns para os outros sem saber o que dizer.
Ainda parecia um sonho.
UmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivoUmUivo
Todos os garotos Weasley exceto Rony, chegaram alguns minutos depois, feridos mas muito felizes. Percy estava entre eles, o que surpreendeu a todos e reduziu a às lágrimas e aos berros enquanto ela não sabia se batia ou abraçava o filho, que pareceu muito constrangido e envergonhado. Todos apresentavam ferimentos superficiais, exceto Gui e Carlinhos, que exigiram cuidados maiores. Os gêmeos imediatamente abriram uma garrafa de whisky, que não terminava nunca, e todos brindaram, sem saber exatamente a quem ou a que.
Algum tempo depois Tonks, Quim e Moody chegaram. Tonks e Quim haviam pedido folga aquela noite, uma vez que tinham horas de trabalho extra acumuladas; mas Moody, sendo um dos chefes do batalhão dos aurores, não pôde se liberar. Brindou novamente e bebeu um pouco com os outros, e logo voltou para o ministério; estava abarrotado de relatórios e pedidos de envio provisório a Azkaban até a organização dos julgamentos dos comensais capturados. Ele iria tentar, juntamente com McGonagall, interceder por Snape e Malfoy e impedir a prisão dos dois.
Remo fora tomar um merecido banho, e quando saiu do quarto e retornou à sala, encontrou o que poderia ser considerado uma verdadeira festança. Entre cálices de bebida e comida, os membros da Ordem conversavam e riam, comentando sobre a batalha e sobre tudo que vinha acontecendo nos últimos meses; havia uma ligeira histeria na alegria de todos. Hagrid chegara em algum momento; ele tinha alguns hematomas velhos visíveis no rosto onde os cabelos e a barba não escondiam; estivera lidando com gigantes nos últimos tempos.
É... ninguém havia ficado parado nos últimos tempos. Todos ali tinham, de uma forma própria cada um, lutado e trabalhado com afinco para conseguir resultados contra algum segmento do exército de Voldemort. Percy vinha repassando informações para Harry e os aurores há algum tempo, infiltrado no alto escalão do ministério. Os gêmeos, envolvidos com o comércio e com a produção de uma linha de produtos de defesa mágica, amplamente utilizados por funcionários do ministério e de outras instituições, obtinham com freqüência informações sobre carregamentos de itens negros para dentro do país, e também mantinham-se observando a Travessa do Tranco. Sua loja havia sido atacada diversas vezes, mas eles sempre conseguiam se salvar e fugir no último momento. Hagrid mobilizara os gigantes, e conseguira com isso evitar grandes catástrofes, impedindo os gigantes que se aliaram a Voldemort de causarem maiores transtornos. Outros, como Gui, Carlinhos e Héstia, haviam trabalhado de seu próprio jeito, obtendo informações, indo em missões específicas. Todos haviam arriscado suas vidas inúmeras vezes.
Era como se fossem todos uma grande família feliz.
-Aluado, eu ainda não acredito... – falou Sirius, sentado junto com Quim, Rufus, Héstia e Tonks, quando Remo se juntou a eles. Imediatamente um cálice cheio surgiu a frente dele. – ... nós perdemos TODA a diversão. Eu não lutei com nenhum comensal desde que voltei...
-É vergonhoso, eu sei – admitiu, rindo. Voldemort morrera e ele não pudera ver, nem a batalha, nem o corpo.
-Ahh, pára, eu me diverti um bocado nos últimos dias – riu Rufus. – Nunca matei tanto bicho em tão pouco tempo...
Eles beberam e conversaram por muito tempo... Enfim, acontecia a bebedeira pós-guerra que os marotos haviam prometido. Ah, acordaria com a maior ressaca do mundo no outro dia... fazia anos que não bebia assim.
Hermione e Arthur chegaram cansados por volta das 21hs e dizendo que Harry estava bem, mas ficaria internado até sair do estado crítico... quando poderia ser movido para o Largo. Rony ficaria lá de vigília durante a noite, e ela o substituiria durante o dia.
Quando o dia seguinte amanheceu, flagrou a sede da Ordem da Fênix parecendo uma república de estudantes após festa de formatura.
Harry foi transferido para o Largo, sob os cuidados de Madame Pomfrey, no final daquele dia; não conseguia ficar em pé ou acordado por muito tempo e tinha várias lesões doloridas, mas estava feliz. Pomfrey ameaçou metade dos membros da Ordem de estuporamento caso alguém mais resolvesse abraçar ou dar tapinhas no garoto – o abraço de Hagrid foi o suficiente para quase interná-lo no novamente.
Os jornais publicavam nas manchetes grandes notícias sobre o fim da guerra – o Profeta Diário exibiu na capa a imagem do corpo morto de Voldemort e do resgate de Harry; uma lista de nomes dos comensais capturados naquele dia e nos meses anteriores ocupou toda a segunda página. As edições seguintes passaram a exibir, em notas pequenas, notícias sobre eventos estranhos como fogos de artifício em formatos diversos, garrafas de bebida flutuantes e diversos outros sinais de comemoração bruxa que estavam apavorando os trouxas.
-Todos os nossos fogos acabaram – riram Fred e Jorge Weasley. – nosso estoque, e também todo o estoque de Filibusteiro estão zerados. E também todas as nossas poções com qualquer tipo de efeito alucinógeno acabaram.
Embora Remo, Sirius e Rufus ficassem encarcerados no Largo o dia todo, todos os outros tinham intenso trabalho a fazer; o ministério da magia inglês estava uma loucura, com prisões, julgamentos e novas medidas de pós-guerra impedindo os funcionários de descansar. Mas todos trabalhavam com ânimo novo.
No terceiro dia pós-guerra McGonagall entrou no Largo e encontrou os Weasley, Harry, Hermione, Sirius, Rufus, Remo e Jhonny na cozinha. Ela largou um punhado de cartas na mesa.
-Hogwarts reabrirá – ela sorriu. – As aulas começarão em duas semanas.
-São as listas de materiais? – perguntou Hermione se adiantando, sorridente. Ela pegou todas as cartas e começou a passá-las para os destinatários. Ela e Rony receberam dois envelopes cada, sendo um gordo e pesado. Dentro havia distintivos de Monitores.
-Espera aí! – Fred olhou boquiaberto – o Rony...? Monitor-Chefe?
Rony pareceu assustado.
-Mione já vai me enlouquecer com o estudo atrasado para os N.I.E.M.s... e tem o quadribol – ele contou nos dedos – mais monitoria... eu vou enlouquecer!
-Isso o manterá ocupado e longe de aprontar – os olhos da professora faiscaram. A deu um abraço apertado no filho e o arrepiou os cabelos, parabenizando-o, mas ele ainda parecia preocupado demais para esboçar reação.
Harry recebeu dois envelopes também, um deles contendo um crachá.
-Capitão novamente? – perguntou Rony, com pouco interesse, despertando do transe. Harry sorriu.
Gina recebeu um envelope também, assim como... Jhonny.
-Eu? – ele olhou para a professora.
-Claro que sim, se você e seu pai concordarem. – ela olhou para Remo. – Lobisomens não são permitidos em Durmstrang, de forma que o garoto foi expulso. A menos que ele pretenda ficar sem estudos, Hogwarts está de portas abertas para ele.
-O que você acha? – perguntou para Jhonny, que parecia ainda muito surpreso. – Gostaria de terminar seus estudos em Hogwarts?
-Bem – ele engoliu em seco, olhando para eles. – Não é como se eu tivesse opção não é? Além disso... – ele riu – eu odiava aquela escola.
-Então você será transferido para o sexto ano de ensino, uma vez que Durmstrang tem as matérias básicas um ano adiantadas em relação a Hogwarts. – falou a professora. – O conteúdo que faltará a você é Defesa Contra as Artes das Trevas, e você terá que fazer provas extras desta disciplina no final do ano letivo. Mas suponho que você não terá problemas para recuperar o conteúdo perdido... – ela sorriu e olhou para Remo.
O lobisomem mais velho havia recebido um envelope das mãos de Hermione e parecia muito surpreso.
-Já faz algum tempo que eu me formei em Hogwarts, professora... – comentou, vendo que o envelope estava endereçado a ele.
-Eu sei disso, Lupin – falou a professora, séria. – Esta é sua carta contratual.
Houve um momento de silêncio absoluto, em que todos olharam para ela ou Remo. McGonagall não era sutil como Dumbledore.
-Então você quer...? – Remo olhou para o contrato.
-Se você aceitar, espero que assuma novamente o cargo de professor de Defesa Contra as Artes das Trevas. – confirmou a professora.
Os gêmeos e o trio de grifinórios soltaram exclamações alegres.
-Sem mais Snape naquela matéria, maravilha – riu Rony.
-É meio tarde para termos aulas excelentes de Defesa, mas vai ser ótimo para os N.I.E.M.s – concordou Hermione, feliz.
-Você? – Jhonny o olhou, parecendo a cada momento mais surpreso. – Professor em Hogwarts?
-Sim, e um dos melhores – confirmou Harry.
Remo estava ainda surpreso demais. Mas sorriu.
-Claro que aceito, professora... mas ainda sou um foragido.
-Estamos agilizando isso – a professora assentiu com a cabeça. – Você deve ser chamado a julgamento em breve; imediatamente depois do tribunal de Potter.
-Ah, isso vai ser divertido... – Harry pareceu ligeiramente frustrado, ainda olhando o envelope – Há um milhão de coisas que eu vou ter que contar pra conseguir limpar a minha barra e a de vocês.
-É melhor já ir preparando a sua lábia, Potter – concordou a professora, embora sorrisse. – Preciso dos meus professores em Hogwarts em duas semanas.
McGonagall trabalhou muito para reabrir Hogwarts tão rápido quanto gostaria; era necessário antes inocentar alguns de seus professores – Snape e Lupin – e alunos – Malfoy, o próprio Harry, e outros – e, além disso, não havia material escolar imediatamente disponível no Beco Diagonal para os estudantes – houvera ataques ao lugar e muitos materiais não foram recebidos; Olivaras só retornara ao trabalho na segunda semana após o fim da guerra, recuperado de um ataque e seqüestro que sofrera.
Os aurores da Ordem da Fênix, juntamente com a diretora de Hogwarts, se empenharam inicialmente para conseguir a inocência de Harry. Foram dois dias inteiros de julgamento, em que o garoto relatou grande parte do mistério que envolvia o sumiço e retorno de Voldemort, a morte dos Potter, o trabalho de Dumbledore com as horcruxes e o trabalho da própria Ordem da Fênix nos últimos dois anos. Não foram permitidos repórteres no tribunal; a corte estava repleta, e inevitavelmente boatos e notícias se espalhariam, mas o público geral não teria acesso a maiores detalhes. Harry se submeteu ao Veritasserum em alguns momentos, como quando falou sobre a a história da inocência e fuga de Sirius e o trabalho duplo de Snape e Malfoy. Houve polêmica quando ele relatou os crimes que cometera; mas argumentou que não podia compartilhar as informações que tinha com o ministério porque era sabido que Voldemort tinha espiões importantes lá dentro, de forma que fora necessário invadir e roubar o que precisava; também garantiu que devolveria todos os itens – a herança de Dumbledore, o material roubado da biblioteca grega, a espada de Griffyndor, o cajado de Ravena, e todos os outros – após o julgamento. McGonagall, Flitwick, Slughorn, Madame Pomfrey, e diversas pessoas do ministério que estiveram de alguma forma relacionadas com os delitos cometidos por Harry testemunharam. Ao final do segundo dia, tendo Harry relatado tudo que podia e até mais do que queria, houve uma pequena discussão sobre se ele deveria ser punido pelos crimes; porém, a maioria das pessoas na corte se deixou levar pela alegria do pós-guerra e respeito pelo garoto que derrotou o Lord das Trevas, e, por maioria dos votos, Harry foi inocentado e tornado livre, e todos os delitos foram arquivados. Porém, deixaram um aviso: se ele voltasse a cometer crimes, a Lei não o perdoaria novamente.
O passo seguinte foi inocentar Remo; o lobisomem, ao chegar escoltado por aurores (Moody, Quim e Tonks) no ministério, teve de deixar a varinha com um auror à entrada do tribunal e entrar desarmado. Não pôde deixar de ficar nervoso; eles tinham uma carta na manga para permitir sua fuga caso a situação desandasse, mas isso irremediavelmente iria levantar suspeitas contra os aurores. Foi questionado sobre sua presença nas tropas de Greyback, e relatou sobre a Traição. Quando questionado sobre Drácula, afirmou que sabia de seu retorno e que o mesmo já havia sido eliminado (mas negaria até a morte qualquer participação sua no caso – e ficou eternamente agradecido por não ter sido submetido ao soro da verdade). Harry, McGonagall e – para sua surpresa – Tonks testemunharam a seu favor. Quando questionada sobre estar negando suas tarefas como aurora ao acobertar criminosos, Tonks respondera, humildemente:
-Eu fiz o que eu julguei ser o melhor para a guerra... se tivesse cumprido todos os meus deveres como aurora, metade da Ordem da Fênix estaria presa, e a guerra continuaria ocorrendo, assim como os ataques dos lobisomens e vampiros de Voldemort às vilas.
Houve um burburinho na corte; diversos bruxos sorriram para Tonks, enquanto que alguns questionavam a confiabilidade das tropas de aurores do ministério. Do outro lado, Quim se remexeu, ansioso.
Remo foi questionado sobre o ano em que trabalhou em Hogwarts, e se havia dado cobertura para Sirius na época. Negou e recontou a história sobre a revelação de Sirius, a traição de Pedro e a fuga do mesmo; as informações fecharam com as que Harry havia fornecido, e pareceu convencê-los.
Em determinado momento, um bruxo ao lado de Rufus Scrimgeour perguntou, irritado, ao lobisomem:
-E depois de tudo isso, você espera voltar para Hogwarts e ensinar crianças? Espera que os pais aprovem que seus filhos tenham aulas com um lobisomem que deliberadamente cometeu tantos crimes e matou tantos indivíduos?
Remo teria achado graça se não estivesse concentrado pensando em responder algo à altura para o homem; agora lobisomens e vampiros eram chamados de "indivíduos". Antes que pudesse falar, McGonagall exclamou, irritada:
-Eu espero, assim como qualquer pessoa sensata presente aqui hoje, que os pais aprovem sim que seus filhos tenham aula com um homem que lutou tanto contra Lord Voldemort quanto qualquer auror aqui hoje, e até mais do que a maioria. Lupin foi um dos melhores professores que passou por Hogwarts nos últimos anos, e, se você quiser, Sr. Gregory – ela olhou com azedume para o bruxo que fizera a questão. – posso lhe trazer dezenas de estudantes para testemunharem.
-Eu já estou aqui, se quiser que eu testemunhe algo a respeito – falou Harry, rindo.
Houve barulho de conversa na corte; algumas pessoas ainda olhavam em dúvida para o lobisomem; outras pareciam revoltadas com a situação, e alguns ainda pareciam questionar algumas coisas.
-Não duvido da honestidade dele como alguém que lutou contra Você-Sabe-Quem na guerra – falou uma bruxa corpulenta, que Remo reconheceu com Amélia Bones. Sua voz era forte e silenciou o tribunal. – Para mim, a liberdade dele está garantida, desde que sob observação – ela acrescentou, e houve murmúrios de concordância por todo o tribunal. Ela continuou: – O que parece estar em cheque é se é seguro permitir a um lobisomem lecionar em Hogwarts.
-O único incidente que houve com Remo, tanto em seus sete anos como aluno quanto no ano que atuou como professor – falou McGonagall, que obviamente achava o incidente com Snape no quinto ano dos marotos insignificante demais para ser citado – já teve as circunstâncias esclarecidas aqui hoje. Há a poção Mata-Cão, e Lupin mesmo sem ela sempre foi relativamente tranqüilo. Vocês se esquecem que um lobisomem somente é um lobisomem durante três ou quatro noites da semana de lua cheia; durante todo o restante do tempo ele é uma pessoa, e, no caso de Lupin, uma das mais equilibradas e gentis que eu já tive o prazer de conhecer.
Remo lançou um olhar agradecido à professora. Aguardou em silêncio.
-O que faz essa poção Mata-Cão? – perguntou uma bruxinha jovem, sentada em uma das fileiras mais altas. Todos olharam para Remo.
-Mantém a consciência. Com ela, após a transformação, continuo sendo eu mesmo e permaneço racional e controlado durante toda a noite. – "ou pelo menos tão racional quanto é possível um lobo ser" pensou, após responder. Estava nervoso. Nunca na vida havia sido questionado por tantas pessoas.
-Você já mordeu alguém? – perguntou outra bruxa, ao lado da primeira.
-Nunca mordi nenhum bruxo, somente vampiros ou outros lobisomens em combate. – falou, sentindo-se meio bestial. Detestava isso.
-De fato, não há ocorrências no número de registro dele – comentou um auror mais velho, sentado perto de Scrimgeour e conferindo papéis antigos. – É um lobisomem manso.
-Lupin provou seu valor inúmeras vezes durante a primeira guerra – falou Moody repentinamente, de pé próximo à porta. – Trabalhou durante muito tempo em companhia dos aurores. Os aurores mais velhos devem se lembrar disso, e muitos devem suas vidas a ele.
Alguns aurores concordaram. Moody sorriu seu sorriso torto para o lobisomem, o olho mágico indo de rosto a rosto na corte.
-Bom, então fica evidente para todos – Amélia Bones lançou um olhar incisivo para Scrimgeour e os bruxos próximos a ele – que este homem não é um risco para a sociedade e que pode e deve ser libertado e tratado com todo o respeito que um ser humano merece?
Houveram exclamações positivas, e Remo ficou aliviado; elas eram a maioria. Um bruxo velho ao lado de Scrimgeour se pronunciou:
-E onde você esteve após a primeira guerra, quando parou de trabalhar para o ministério? Não há registros seus após essa época.
-Eu fiquei vagando pela Europa, tentando trabalhar. – falou simplesmente. Não queria dar detalhes dessa época; era humilhante.
-E por que você não fez como todos os outros lobisomens? Por que não ficou pelas florestas e subúrbios? – perguntou uma bruxa, interessada.
Remo suspirou.
-Porque eu tive bons amigos que me convenceram de que eu era um ser humano normal, e eu tentei viver como tal. Mas confesso que isso ainda é difícil atualmente.
Houve um silêncio e então novo burburinho. Mas Amélia Bones não esperou mais tempo.
-Então, se ninguém mais tiver objeções... Remo John Lupin, suas acusações serão arquivadas e você está livre. – o martelo bateu. Algumas pessoas bateram palmas. – Mas fique avisado, diante de qualquer crime que você cometer, a Corte pode revogar a decisão. – avisou Amélia, embora sorrisse.
Remo se levantou e saiu, meio desconsertado e sorrindo; vários aurores lhe deram tapinhas nas costas; Tonks lhe abraçou.
-Você é louca – sorriu para ela. – Poderia ter perdido o seu emprego.
-É um risco que valeu a pena – ela sorriu e lhe deu um beijo na bochecha. – Agora eu preciso ir.
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O julgamento de Sirius foi pouco depois. Remo tinha poucas lembranças de ter visto Sirius tão nervoso. Por mais que tentasse disfarçar, o ex-prisioneiro estava em pânico com a perspectiva de ir desarmado perante um tribunal cheio; novamente eles fizeram os preparativos para uma fuga, mas todos estavam confiantes de que Sirius seria inocentado.
-Acalme-se homem – falou Remo a ele, rindo. – Você finalmente vai ter seu julgamento.
Houve diversos testemunhos, inclusive de Remo, Harry e Rony – que fora dono de Perebas durante muito tempo. O fato de que Pettigrew havia morrido poucos meses antes complicava o julgamento, pois todos queriam uma prova de que Pedro estivera vivo por todo aquele tempo. Por fim, submeteram Sirius ao Veritasserum. A corte estava estupefata com tudo o que ouviu – o feitiço Fidellius, a tática de Pedro, a forma com que Sirius manteve a lucidez e fugiu da prisão, a vida como foragido, a queda no arco-véu e como saiu de lá. Houve breve balbúrdia quando ele assumiu que era um animago ilegal, embora não tenha dito desde quando o era e nem como se tornara um. Após tudo isso, muitos ficaram envergonhados por enviarem um inocente à prisão; tudo teria sido evitado se tivesse havido um julgamento justo à época.
Após seis horas de julgamento ininterrupto, o martelo de Amélia Bones trouxe novamente uma boa notícia.
-Inocente de todas as acusações. Constará em sua ficha criminal apenas a condição de animago ilegal, embora as condições de guerra da época atenuem o delito. O Ministério da Magia deverá indenizá-lo por danos físicos e morais. A sua licença como auror será readmitida – isto, obviamente, se você ainda quiser trabalhar para o ministério.
Mas Sirius não respondeu; havia pessoas demais cumprimentando-o, e ele parecia aliviado demais para dizer qualquer coisa.
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Nos dias seguintes, Snape e Draco Malfoy foram julgados. Harry e McGonagall compareceram novamente; até mesmo Arthur testemunhou, admitindo ser um membro da Ordem da Fênix. As fichas dos dois ex-comensais da morte não ficaram tão limpas; mas foi permitido a eles ficarem livres, cumprindo penas alternativas no caso de Malfoy; e, para Snape, foi permitido voltar a lecionar em Hogwarts, mas sob intensa observação.
No dia seguinte ao julgamento de Sirius, quando ele e o lobisomem já estavam inocentados e livres, Jhonny sentou-se do lado de Remo.
-E então... – ele perguntou. Remo o olhou, sem esperar o que viria. – Quando você vai dar um jeito de arrumar o meu nome?
-Ahh... suponho que você quer tirar o "Hawkins"? – perguntou, sentindo uma súbita alegria e uma espécie de orgulho.
-Claro que sim – murmurou o garoto, com nojo do nome.
-Ahhhhhh, Aluado, estou tão orgulhoso de você – caçoou Sirius, rindo. – Uma cria com o seu nome... Nem você esperava por isso.
-Então vai ficar... – Rufus sorriu com maldade. – Jhonny JOHN Lupin?
Ele e Sirius começaram a rir.
-Isso é horrível, e muito repetitivo – riu Remo, quando Jhonny franziu o cenho para o nome.
-Na verdade – ele falou, achando graça – Jhonny é só um apelido, o meu nome mesmo é John Alphonse Hawkins.
Sirius e Rufus caíram na gargalhada quando Remo fez uma cara de puro horror.
-O que aquela louca tinha na cabeça pra te chamar assim? – perguntou Remo, rindo.
-John não é tão horrível assim – defendeu-se o garoto.
-Ahh Remy, não seja injusto... era uma homenagem a você – falou Sirius, tentando não rir.
Remo sacudiu a cabeça. Talvez fosse – Susan deve ter escolhido John porque fazia parte do seu nome... mas, caramba, ela sabia que ele detestava o nome do meio.
-Então, JOHN Alphonse LUPIN... – Rufus frisou a primeira palavra e Jhonny fechou a cara para ele. Mas Rufus sorriu – ainda é melhor do que o original.
-Disso eu não tenho dúvidas – sorriu o garoto.
Remo não resistiu; sorriu também.
-Eu vou arranjar isso imediatamente – falou, e olhou para Rufus – Guaraná, você ainda tem aquele portal para a Bulgária? Como ele nasceu lá, eu terei que verificar a papelada no ministério de lá.
-Você está louco? – Rufus o olhou – Você está proibido de cometer mais crimes, lembra? Nada de atravessar a fronteira ilegalmente, pegue um trem, um navio e mais dois trens como todo ser humano normal.
Remo ficou perturbado. Não tinha dinheiro nem mesmo para o primeiro trem.
-Que crueldade, - Sirius olhou torto para o caçador. – Vá para o ministério, no Departamento de Transportes Mágicos... eles têm uma rede de floo particular com a Bulgária.
-Eu não sabia disso! – falou Rufus, chocado.
-Você está sempre por fora, Guaraná... mas pelo menos você fez turismo.
-Suponho que você terá que levar o garoto junto – falou Sirius. – Se prepare para um mar de burocracia.
-Sim – concordou. Então ficou preocupado. – Será que irão querer marcá-lo como lobisomem na Bulgária?
Naquele momento a Inglaterra vivia uma revolução no que se referia ao tratamento aos lobisomens; com tantos jovens e crianças tendo sido mordidos, e que nos últimos dias haviam retornado para suas famílias, a questão da marcação permanente a fogo do número de registro na pele dos lobisomens estava sendo contestada. Era uma humilhação para todos os lobisomens o momento da marcação; além da dor, eram observados e seus dados registrados tanto na forma humana quanto na forma lupina, sem nenhuma dignidade ou respeito. Remo passara por isso; se indisporia com o ministério búlgaro e com o inglês sem hesitar se fosse para impedir que mais algum jovem passasse por aquilo, quanto mais esse jovem sendo Jhonny.
-Com certeza, mas não será algo imediato – falou Rufus. Bem, ele morava há anos na Bulgária, e sabia muito a respeito. – A marcação dos lobisomens é padrão em toda a Europa, exceto na Holanda. Todos os países fazem da mesma forma; os números de registro valem para todo o continente. Eles irão querer acertar o nome do garoto antes, para não haver erros na papelada, e provavelmente marcarão um dia para ele retornar e fazer a marcação. Acho que se você não ir nesse dia marcado, e tentar recorrer às instâncias maiores, aproveitando a discussão que vem ocorrendo, você deve ter uma chance.
-O que diabos é essa marcação? – perguntou o garoto, intrigado.
-Acredite, você não quer saber – respondeu Remo, com desgosto, o seu próprio número de registro escondido sob a manga.
Sirius sacudiu a cabeça e se levantou.
-Eu vou indo para o ministério, enfrentar a minha própria burocracia... quero tentar fingir que esses últimos dezesseis anos não existiram e retomar uma vida normal.
-Com trabalho e mulheres? – perguntou Remo, achando graça.
-Ah sim – Sirius ficou com um olhar malicioso. – Com certeza. Agora quero investir na porção trabalho.
-Boa sorte.
Sirius saiu. Remo olhou para Jhonny.
-Preparado para voltar para a Bulgária e enfrentar muitos papéis?
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Fora uma experiência perturbadora entrar na propriedade semi-destruída e abandonada, com o garoto. Jhonny foi muito eficiente em fingir que tudo aquilo lhe era indiferente. Andou pelos corredores da grande casa sem olhar para os lados, rumando direto para o quarto que a mãe freqüentava no seu tempo livre. Remo observou tudo calado. Sentia-se responsável pelo que ocorrera naquela casa nos últimos dezesseis anos. Entraram no quarto da mulher, com aposentos simples e empoeirados, e Jhonny puxou uma caixa de madeira de dentro de um roupeiro. Dentro havia os papéis referentes ao casamento da mãe e à certidão de nascimento dele.
-Escute – disse ao garoto, depois de um tempo. Jhonny o olhou, sério. – Voltaremos à tarde, e você poderá separar tudo o que quiser levar. De qualquer forma essa casa e tudo aqui é seu, mas suponho que você não irá querer morar aqui tão cedo.
-Nem tão cedo, nem nunca – Jhonny disse, sério. Era óbvio que ele estava perturbado em voltar. Ele ficou em silêncio, olhando para a caixa por alguns segundos. Então olhou para Remo. – Você tem casa? O Largo não é seu.
-Tenho uma casa – falou, franzindo a testa. – Nem de longe é grande como essa, e está precisando de reformas, está abandonada há anos. Mas é minha, e poderemos ir pra lá provavelmente após o período letivo. Vou tentar arrumá-la antes que as aulas comecem... até lá, ficamos no Largo, e logo em seguida iremos pra Hogwarts.
Jhonny assentiu. De repente Remo se viu preocupado sobre estar impondo a situação.
-Se você concordar, claro. – acrescentou. Jhonny sorriu e deu de ombros. Olhou para o pai e falou sinceramente:
-Eu estou totalmente perdido; só sei que não quero ficar aqui e que não tenho ninguém além de você. Então, por enquanto, irei aonde você for, pai.
Remo sorriu.
Pegaram os papéis e saíram da propriedade, rumo ao ministério.
-Nossa, faz séculos que eu não ando por aqui – falou Remo, olhando para as ruas movimentadas da capital do país. O céu estava nublado e nevava um pouco; havia uma discreta decoração de Natal nas ruas.
Eles entraram no Ministério da Magia búlgaro por uma entrada – secreta para os trouxas – embaixo de uma ponte velha, próxima a um arroio. Os búlgaros tinham uma sede ministerial mais organizada que os ingleses, e muito mais antipática.
Remo sabia que iria enfrentar burocracia, mas não pensou que seria tanta; passou por pelo menos sete escritórios diferentes; os dois passaram por um teste para verificar a paternidade; após a confirmação do resultado, eles pegaram o cabelo de Jhonny para verificar sua licantropia. Remo ficou aliviado ao ver que eles não se preocuparam em testar para vampirismo quando o garoto dissera que era lobisomem – seria bastante ruim se eles descobrissem que Jhonny era um híbrido. Passaram ainda por dois escritórios e assinaram pilhas e pilhas de papéis antes de Remo finalmente receber a certidão de paternidade e os novos documentos de Jhonny com o nome alterado. Ainda, o garoto recebeu os documentos da herança, tanto da parte de Hawkins, quanto da parte de Susan, após Remo apresentar a certidão de óbito da mesma. No fundo, a situação era irônica: ele era um pobre miserável, mas seu filho era extremamente rico agora. Jhonny fechou a cara quando ouviu a lista de bens que iriam para o seu nome. Remo, como pai, poderia administrar os bens, mas jurou para si mesmo que não mexeria em absolutamente nada a não ser que o garoto o pedisse.
-Volte em duas semanas para a marcação, no horário indicado – avisou uma secretária, entregando os papéis a Remo. Ele e o filho trocaram um olhar ao virarem as costas e saírem.
-Sinto muito, mas estarei estudando e não poderei vir – sorriu o garoto, quando entraram no elevador rumo à saída do ministério.
-E eu estarei trabalhando e não poderei faltar... é uma pena. – concordou, achando graça.
Quando chegaram na rua, o sol já se punha; o frio aumentou, começava a nevar. Remo viu uma cafeteria trouxa, a algumas quadras de distância.
-Estou com fome...
-Eu também – concordou Jhonny. Eles entraram e se sentaram; uma garçonete chegou e eles fizeram os pedidos. Quando ela se afastou, Jhonny olhou para Remo, meio ansioso. – Ei, você vai conseguir pagar?
-Peraí, eu sou falido mas não sou miserável – riu, desconsertado. Na verdade o dinheiro era de Rufus, mas o garoto não precisava saber disso... e nem o caçador.
Comeram e saíram. Jhonny estava pensativo. Voltaram à propriedade e ele foi até o antigo quarto, pegar suas roupas e pertences. Remo olhou ao redor. Era um típico quarto de adolescente; alguns pôsteres, porta-retratos empoeirados, e muita bagunça. Eles guardaram tudo em uma maleta com feitiço de expansão – roupas, livros, a vassoura de Jhonny – ele jogava quadribol em Durmstrang; era batedor. Quando Jhonny terminou, ele ficou encarando a parede, pensativo.
-O que foi? – perguntou.
-Acho que vou querer levar alguma coisa da minha mãe... – ele disse, sem encarar o pai.
-Leve tudo o que quiser... eu posso esperar lá fora, se preferir.
Jhonny voltou ao quarto da mãe e separou uma caixa com recortes de jornais e álbuns de fotografias. Quando Remo entrou no quarto, ele observava uma foto em especial; era uma foto que fora tirada no último dia dos marotos em Hogwarts. Tiago, Lílian, Sirius, Pedro, Remo e Susan estavam em frente ao expresso de Hogwarts, prestes a partir; Lílian abraçada em Tiago e rindo e Remo envolvendo Susan com um braço.
-É uma pena que vocês tiveram que se separar – falou o garoto, observando as fotos com atenção. Ele observava a expressão de Susan atentamente em cada uma delas – Ela parecia muito feliz.
Remo se sentou na cama, do outro lado da caixa com os álbuns. Suspirou.
-Eu não sei se ela te contou o que houve...?
-Sim, um milhão de vezes – ele respondeu sério, ainda olhando as fotos. – Deu tudo errado com vocês no fim, não é? Se não fossem meus avós e aquele Hawkins nojento...
-Na verdade, grande parte da culpa é minha também. – falou, pensativo.
Agora entendia Sirius; por melhor que fosse a intenção do animago ao trocar o fiel do segredo, ele fora sim o responsável pela morte de Lílian e Tiago, e, embora ninguém o culpasse por isso, ele mesmo se culpava e se culparia para sempre. Assim Remo se sentia agora; por melhor que fossem suas intenções quando desistira de levar Susan embora ao vê-la grávida, sem saber de quem era a criança e nem o que vinha acontecendo com a mulher, ele fora responsável por permitir que ela fosse encarcerada e mantida vítima e prisioneira de Hawkins durante todos aqueles anos, juntamente com o filho. Nada apagaria essa certeza e esse sentimento de culpa de dentro de Remo – se ele tivesse sido um pouco mais egoísta e menos covarde naquele dia, e tivesse ido conversar com ela – e dizer a ela que a amava e que fosse embora com ele – talvez tudo tivesse sido diferente, e ele poderia ter criado o filho junto com a mulher com quem planejara casar durante anos. Tinha que dizer isso ao garoto.
-Quando a guerra na Inglaterra acabou, e todos os nossos amigos estavam mortos ou presos, de forma que seus avós não tinham mais a quem ameaçar para nos separar... eu vim até aqui, planejando falar com a sua mãe. – contou, sem olhar diretamente para o garoto, que ouvia atentamente. – Mas eu a vi de longe, grávida... e como eu não recebia notícias nem respostas das minhas cartas há meses, e ela parecia bem... eu achei que ela estava bem – ele deu um riso amargurado. – Que estava feliz e grávida dele... e que seria injusto eu aparecer, cheio de problemas, e tirar isso dela. Eu fui covarde e idiota... Eu fiquei próximo daqui e mandei uma carta no final daquele dia a ela, perguntando se podíamos conversar... no dia seguinte recebi uma carta com a letra dela, dizendo que eu esquecesse tudo, que ela tinha uma vida nova e boa pela frente.
-Era uma carta falsa – falou Jhonny, o encarando. Remo assentiu e o garoto sacudiu a cabeça. – Provavelmente ela nunca leu a sua carta.
-Eu tive a oportunidade perfeita nas mãos e a desperdicei naquele dia. – falou Remo, tristemente. – E eu realmente sinto muito por isso. Acabei complicando e muito as vidas de vocês.
Jhonny ficou calado um momento, sem encará-lo, e então se levantou, pegando a caixa com os álbuns.
-Não adianta pensar nisso agora... já foi e não vai mais voltar. – ele disse. Remo ficou um pouco surpreso. O garoto deu de ombros e disse, com um sorriso meio triste. – Suponho que todos façam merdas na vida de vez em quando...
-Suponho que sim – falou Remo, esfregando o rosto com as mãos. Se sentia mais tranqüilo por ter confessado aquilo, mas ainda assim, aquele peso nunca iria desaparecer totalmente.
Jhonny tomou a frente para ir embora. Ele não pareceu muito abalado com o que ouvira; na verdade, parecia um pouco mais animado. Era muito bom descobrir, enfim, que seu pai era uma boa pessoa, e que tivera uma vida muito ferrada e sofrera bastante com a separação. O garoto ainda tinha uma ligeira onda de pânico quando lembrava que a mãe estava morta – ela era a sua única referência, desde sempre, seu único ponto seguro; e de repente, em pouco mais de um mês, fora capturado, torturado e quase morto; resgatado por esse estranho que se dizia seu pai; conhecera pessoas novas fantásticas, se aproximou um pouco desse lobisomem confuso e incrível – e antes que pudesse criar laços maiores com o homem que sabia que sua mãe amava, ela se fora; e só havia o lobisomem então. Ficara revoltado a princípio; mas depois ficou aliviado ao perceber que pelo menos agora, pela primeira vez, tinha um pai, e que este era um bom homem e a quem – percebeu, um pouco contrariado – aprendera a admirar.
Remo seguiu o filho, ainda meio surpreendido. Estava um pouco triste por lembrar o que sua vida poderia ter sido e o que se tornara, e o quanto isso afetara sua pequena família; e ao mesmo tempo estava um pouco alegre por perceber que Jhonny finalmente parecia confiar nele. No fim, a ambos só restavam um ao outro.
Que mudança radical ocorrera para os dois em pouco mais de um mês.
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Chegaram no Largo quando o jantar já estava à mesa; Jhonny largou a maleta no quarto que estava usando e os dois se juntaram aos outros.
-Finalmente, achei que os búlgaros haviam prendido vocês – riu Sirius, sentado ao lado de Héstia e de Tonks, e servindo o prato dos dois com purê de batatas.
-Então, temos um novo Lupin aqui hoje? – perguntou Arthur, sorrindo, servindo o vinho. Jhonny deu um sorriso torto e ficou vermelho, e começou a comer para evitar falar.
Remo assentiu, contente, e seus olhos passaram pelos olhos de Tonks. Ela sorriu e baixou os olhos para a comida. Ah, pensou Remo, sentindo-se um canalha... Era uma pena, mas por aqueles poucos dias de felicidade com Susan, ele acabara perdendo toda uma vida com Tonks. Ainda tinha um sentimento imenso por ela, mas depois do que fizera a garota, não poderia pedir a ela qualquer tipo de segunda chance. Baixou o olhar para o próprio prato e começou a comer, tentando desviar os pensamentos para o que Gui e Quim conversavam.
Do outro lado da mesa Sirius e Héstia, que observavam os dois, trocaram um olhar com a testa franzida.
-E temos um novo auror aqui hoje também – sorriu Molly, servindo um dos filhos, e ela e os outros olharam para Sirius. Ele olhou para os lados, com uma expressão curiosa.
-Onde? Não estou vendo ninguém novo – falou ele, e os outros riram.
-Certo, então – corrigiu Molly, corada e rindo – temos um velho auror de volta então...
Aquela noite Remo foi dormir se sentindo um pouco triste. Lamentava que não pudesse ter ao seu lado, ao mesmo tempo, as duas pessoas que mais o fizeram feliz naqueles últimos tempos – pois ao conseguir Jhonny, ele perdera Tonks.
Nos dias seguintes, pretendia arrumar a velha casa de sua mãe – tinha que parar de chamar aquele lugar assim, afinal, era sua casa... – e torná-la habitável novamente, e preparar as aulas para Hogwarts. No dia seguinte levantou cedo, ainda com um pouco de sono, e se deparou com Sirius sozinho na cozinha, preparando uma jarra de café que sem dúvida era destinada à casa toda.
-Vai se tornar um trabalhador responsável que acorda cedo e prepara o café para todos? – perguntou, caçoando, servindo-se do café.
-Eu sempre fui responsável e trabalhador – retorquiu Sirius, concentrado, fritando salsichas e ovos. Remo se engasgou ao rir.
O ex-prisioneiro e agora auror flutuou a comida até a mesa com a varinha e sentou-se também. Olhou a capa do jornal vagamente e perguntou ao lobisomem ainda sonolento:
-E você e Tonks?
A pergunta foi tão inesperada que Remo quase se engasgou novamente.
-O que é que tem? – perguntou, sem encarar o amigo, fingindo estar lendo o jornal.
-Ah, corta essa Remy – falou Sirius sacudindo a cabeça – é evidente que vocês ainda sentem algo um pelo outro. O que é que vocês estão esperando?
-Depois do que eu fiz com ela, Sirius? – perguntou, franzindo a testa. – Eu não poderia ser tão canalha.
-Por que não? Sempre funcionou comigo – falou Sirius, e ao invés de convencer Remo acabou fazendo-o rir. – Sério... tá, você ficou com a Susan e tal... mas isso era esperado, e agora ela morreu. E pelo que eu sei, você e Tonks não estavam juntos quando isso aconteceu; na teoria, você não foi canalha.
-Não se esqueça que nós dois sempre discordamos sobre o que é ser canalha. – falou, sorrindo pensativo. – Não posso simplesmente ir até ela depois de ter trocado ela por Susan... eu a machuquei bastante. Se eu tivesse sido decente, não teria me afastado dela e ficado com Susan.
-Isso teria sido injusto com Susan – argumentou Sirius. Remo franziu a testa. Sirius suspirou e encheu a própria xícara com café. – A forma como vocês se separaram... simplesmente era necessário que vocês se aproximassem novamente, para terminar tudo bem. E terminou, não foi?
-Não teria terminado se dependesse de mim – falou, amargo. Sabia; jamais teria abandonado Susan novamente se ela ainda estivesse viva; e pensar nisso apenas fazia sentir-se mais canalha com Tonks. Afinal... era possível amar duas?
-Mas terminou... e imagine como você estaria se ela tivesse morrido sem vocês terem se acertado.
-Isso não muda nada, Sirius... ainda assim eu coloquei Tonks em segundo plano, e ela sabe disso.
-E é para esses momentos, meu caro amigo Aluado – falou Sirius, com um sorriso cabreiro – que existem sábias palavras chamadas "perdão" e "aceitação".
Remo não respondeu; estava um pouco surpreso e bastante indeciso. Sirius terminou o café e se levantou, se preparando para sair para o ministério, querendo iniciar cedo seu primeiro dia de trabalho em dezesseis anos. Antes de sair, ele disse:
-Pense bem; vai querer ser solteiro e viúvo para sempre?
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Os próximos dias foram trabalhosos; praticamente reformou a casa de sua mã... sua casa, consertando os móveis e deixando-a limpa. Não havia muita coisa, mas estava novamente habitável. Era simples e modesta. Ficou relativamente satisfeito com o resultado; era bom dar nova vida àquela moradia cheia de lembranças queridas e obscuras.
Passava boa parte do tempo também preparando as aulas que daria em Hogwarts; como o ano letivo já estava quatro meses atrasado, haviam muitas aulas que deveriam ser ministradas de forma rápida e completa, sem perder a qualidade, e isso exigia planejamento. Em determinado dia, passou uma tarde inteira com Rufus em uma floresta no litoral; tentavam achar um kappa e um grindylow. Agradeceu bastante ao caçador depois; nunca pensou que, após derrotar grandes lobisomens e o próprio Conde Drácula, capturar simples e quase inofensivas criaturas das trevas seria tão difícil.
Ficou agradecido por estar tão ocupado que evitava pensar na aurora; suas entranhas se reviravam toda vez que se lembrava de Tonks. Parecia um adolescente apaixonado e nervoso, com medo de levar uma negação; tinha medo de ir para Hogwarts e então perder a garota definitivamente, mas todas as vezes que a via seu senso de decência o culpava e ele se auto bloqueava.
A conversa com Sirius lhe esclarecera muitas coisas.
Perder Susan novamente fora doloroso... mas foram tantos anos longe dela – tantos anos em que aprendera a deixar de sonhar – que a ausência dela ainda era uma coisa a qual estava acostumado. Não chegara realmente a incorporar em sua vida a perspectiva de retomar aqueles sonhos perdidos com ela – não houvera tempo para isso. Mais precisamente, aqueles poucos dias com Susan foram um presente, um extra; o final de sua história com ela, separado dezesseis anos do restante.
Via-se novamente naquela situação que vivera nos dias que cercaram a morte de Dumbledore: desejava dizer à aurora que a desejava; que precisava dela; mas algo o bloqueava. Sentia falta dela – naqueles meses em que estiveram juntos, ele havia seriamente incorporado a presença dela à sua vida. E Susan não conseguira apagar isso.
Sem dúvida ela estava mexida... seus cabelos estavam descoloridos e sem vida – ele sabia que isso indicava extremo cansaço ou depressão, e ela, apesar de estar trabalhando bastante, com certeza não estava tão debilitada fisicamente a esse ponto... e os olhares dela para ele eram cada vez mais confusos. Mas ela também não tomava nenhuma decisão. E agora faltavam apenas dois dias para Remo partir para Hogwarts.
Naquele almoço, se decidiu; iria arriscar. Dane-se o bom senso; seis meses longe dela, sem uma resposta, seriam uma tortura e um grande risco de perdê-la para qualquer um que estaria muito mais próximo dela do que ele. Quando a aurora estava no corredor vestindo sua capa, para voltar ao trabalho, ele conseguiu encontrá-la sozinha.
-Tonks – chamou. Ela o olhou, entre surpresa e levemente chateada ou preocupada.
-O que foi, Remo? Eu estou atrasada... – ela falou, baixo.
-Eu sei – assentiu. – Só quero lhe pedir... para conversarmos quando você voltar. Eu gostaria de falar com você.
Ela o encarou longamente, sem reação. Remo achou ter visto o queixo dela tremer por um segundo.
-Tudo bem – ela disse, terminando de fechar a capa e rompendo o contato visual. – Mas talvez eu me atrase... tenho muitos papéis para entregar.
-Certo – ele assentiu. Seu coração estava disparado como se ele tivesse enfrentado uma batalha mortal; somente aquela garota conseguia deixá-lo nervoso dessa forma. A aurora lhe lançou um último olhar e um sorriso breve e saiu.
"Ok, Remo Lupin... seja um homem e faça tudo direito depois... Se levar um fora, você mereceu e pelo menos tentou." Pensou consigo mesmo.
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Tonks sentia um ligeiro pânico. Uma dor no peito lhe dizia que não – não podia aceitar, ele a havia deixado... ele, sem querer, deixara evidente tudo que a outra mulher significara para ele e o quanto ela o fazia feliz... e Tonks se sentira uma menininha fútil, que tentara teimosamente seduzir e conquistar um homem mais velho e com uma vida muito maior que a sua... Sabia que ela jamais poderia oferecer tudo o que Susan oferecera. E então se sentiu indigna. Sabia que o que sentia pelo homem mais velho era sincero... e que ele fora sincero também, mas evidentemente a mulher da vida dele era a outra, e não ela.
E sentia também um pouco de culpa. Se não tivesse deixado Remo livre para escolher... talvez ele nunca tivesse escolhido a outra. E então se sentia uma pessoa ruim. Porque percebia, agora percebia, que, no fundo, invejava Susan. Invejava a mulher, apesar de todos os problemas dela; porque ela conquistara Remo primeiro, construíra uma vida com ele... Como ela, Tonks, jovem e tão diferente dele, poderia disputar com isso?
E ela forçara o relacionamento... ele a avisara, dissera que tinha problemas que ela não conhecia, que poderia não oferecer a ela todo o carinho e dedicação que ela merecia, que poderia decepcioná-la e fazê-la sofrer... e ela dissera que não se importava... que estava pronta para o que viesse. Errara; não estava pronta. E esperou dele algo que ele jamais poderia fazer. Tinha ela o direito de ficar magoada com ele?
Afinal, quem dissera "eu te amo" primeiro fora ela... ele não respondeu no mesmo dia. Na verdade, ele somente lhe disse isso a primeira vez quando ela quase fora morta em uma missão pela Ordem, e ele, assustado, a resgatou e, sozinho no Largo, começou a remendar a perna da garota, que havia sido dilacerada. Era lua cheia e ele estava agitado, muito próximo da transformação, mas ainda assim ele travara o maxilar e se empenhava em tratá-la. Um pouco entorpecida pela dor, ela tentara se levantar, dizendo que ele não precisava se incomodar com ela. Quando ela quase caiu ele a segurou e a fez sentar novamente, exclamando: "Claro que preciso me incomodar com você... você não vê que eu te amo?"
Ele a amara... mas a havia deixado pela outra.
Como lidar com isso? Afinal de contas, o que ele queria conversar com ela agora?
-Viajando, Tonks?
Ela se assustou e olhou ao redor. Estava há pelo menos vinte minutos olhando fixamente para o mesmo ponto do seu relatório. O Quartel General dos Aurores já estava vazio, exceto por ela, empenhada com os relatórios atrasados, e por Sirius, que a olhava entre o preocupado e o divertido.
-Você deveria tirar uma folga, Nym... está um lixo – falou seu primo, a avaliando.
-Tenho muitos relatórios para entregar – ela falou, se espreguiçando, cansada. – Não estou dando conta.
-Olhe bem quem é seu chefe – falou Sirius, exasperado. – É Olho Tonto Moody. Ele não vai te demitir por atrasar em um ou dois dias alguns relatórios, mas vai se você continuar dormindo no trabalho.
Tonks sorriu.
-Você tem razão... eu não estou fazendo nada direito ultimamente.
-Então vá para casa. Vá descansar.
O coração de Tonks disparou. Para casa... Remo a estava esperando, querendo falar com ela, e ela simplesmente estava em pânico, sem saber o que dizer ou fazer da sua vida.
-O que foi? Você ficou pálida... Tonks, você está bem? – Sirius sentou-se do lado dela, a observando com atenção.
-Ah, Sirius, eu estou perdida – exclamou. Se não falasse iria enlouquecer. Já fazia algum tempo que não escutava a opinião de Héstia (que era sempre a mesma, dizendo para que ficasse com Remo) e queria muito saber a opinião de mais alguém, mesmo que fosse a opinião torta do melhor amigo de Remo e parceiro de Héstia. – Remo quer conversar comigo hoje e eu estou com medo de ir para casa e falar com ele.
-Por quê? Você está com medo de Remo? – ele perguntou, incrédulo.
-Eu não sei mais o que eu sinto por ele Sirius... Não sei mais o que fazer. Eu não sei o que vou dizer a ele. – falou febrilmente, sem dar atenção a ele.
-Acho que você sabe muito bem o que você sente por ele... aliás, todo mundo lá sabe. – falou Sirius, sério. Ela o olhou, ainda com expressão perdida. Ele suspirou, irritado, e passou a mão pelos cabelos – Como vocês dois são complicados... é impressionante.
-O quê? – ela perguntou, sem entender.
-Indecisos e idiotas demais... os dois. – falou Sirius, a encarando. – Remo gostava de você. E ainda gosta.
-Mas escolheu Susan.
-Mas gostava de você; até ficou com você.
A aurora ficou quieta por um alguns momentos. Então perguntou algo que a perturbava há semanas:
-É possível gostar de duas pessoas ao mesmo tempo?
Remo poderia, sinceramente, gostar dela e da outra ao mesmo tempo?
-É, mas não é bom quando isso acontece. – Sirius respondeu pensativo, e então a encarou. – Sempre sai alguém ferido. – Os olhos de Tonks se perderam e ela olhou reflexiva e triste para o chão. – Ouça, Tonks. Não pense que Remo gostou de ter feito isso com você; ele está péssimo e bastante perturbado com isso. Mas olhe pelo lado dele: ele e Susan se conheceram há mais tempo do que você tem de vida, começaram a se envolver quando você era uma criança; ficaram juntos por anos e não se separaram porque quiseram. Se Remo ficou com você foi porque gostava de você; ele não é canalha como eu. – diante dessa afirmação ela não pôde conter um sorriso breve. – Mas você precisa concordar que ele não podia simplesmente ignorar Susan quando ela apareceu pedindo ajuda. E, bem... talvez se você não tivesse se afastado dele justo nesse momento mais crítico... talvez o passado não tivesse ganhado. Acredite, Remo não foi canalha com você... a vida foi.
Tonks suspirou e ficou quieta por um tempo. Então o olhou:
-E agora, o que eu faço?
Sirius franziu a testa, preocupado.
-Bem, você ainda gosta dele? – ao que ela assentiu, ele perguntou: – o suficiente para perdoar ele?
Perdoar...? Ela só queria esquecer o que houvera e retomar a vida com ele como ela era há algumas semanas atrás. Se isso era perdoar... Tonks assentiu devagar.
-Bem, então diga isso a ele! – ele sorriu animado. – Se eu fosse você, e gostasse dele, e, você sabe, isso é meio gay... – ele pigarreou – mas eu faria isso. A vida nunca é certinha, sempre há algo a se esquecer e sapos a se engolir... e eu vou torcer por vocês.
Tonks levantou-se rápida, parecendo desorientada, porém decidida.
-Certo, então eu vou... – ela olhou em volta até encontrar a porta; quando começou a andar, tropeçou. Parou na saída e olhou para o primo. – Obrigado Sirius.
O animago sorriu de novo. Tonks saiu para o corredor.
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Remo Lupin estava concentrado em alguns planos de aula. Estava em um escritório no último andar, seus papéis, livros, o kappa e o grindylow espalhados por ali. Tinha uma vaga noção do horário, e começava a medir as palavras para falar o que queria.
Repentinamente, ouviu passos leves e apressados subindo as escadas e avançando naquela direção, rapidamente. Levantou-se; conhecia aqueles passos; era Tonks. Ficou um pouco assustado em constatar que ela estava quase correndo; por um momento, teve a certeza de que ela viera surrá-lo.
Ela passou pela porta, pálida e com semblante decidido, embora apavorado. Avançou para ele, que não esboçou reação, muito chocado, e colocou as mãos em seu rosto.
-Ei Remo – ela disse, e fechou os olhos. Ela inteira tremia.
-Tonks, você...? – começou, preocupado.
-Você me amou? – perguntou ela repentinamente, olhos ainda fechados. – Durante o tempo em que estivemos juntos... você me amou?
Remo ficou surpreso. Sentia o calor das mãos dela em seu rosto e seu coração começou a bater muito rápido.
-Talvez não tanto quanto você merecesse.
Os olhos dela se abriram. Ela deu um sorriso fraco.
-Mas amou.
-Amei. – confirmou, encarando-a.
Ela apoiou a testa no peito dele.
-Me dá outra chance...
-Hum? – ele surpreendeu-se, e ergueu o rosto dela com a mão em seu queixo. Ela o olhou, parecendo desamparada. – Eu que devia estar te pedindo isso.
Ela sorriu de novo.
-Você me deixa confusa.
Ele sorriu tristemente.
-Me desculpe.
-Você iria me pedir isso? Mesmo? Uma segunda chance? – ela perguntou de repente, os olhos grandes o encarando com intensidade.
-Só estava esperando reunir a coragem – falou, sério. – Era o que eu pretendia te dizer hoje. – Podia sentir o coração dela; batia rápido como o seu. Ela o abraçou com força, rosto no seu peito.
-Fica comigo, Remo, por favor...
Ele a abraçou também e começou a acariciar os cabelos descoloridos dela.
-Fico. Se você me perdoar...
Ela ergueu a cabeça, sorrindo, lágrimas nos olhos. Se encararam por um momento, silenciosamente concordando em chutar todo o passado para trás; e se beijaram.
Naquele momento teve certeza: realmente amava aquela garota.
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Por mais discretos que tenham sido, ficou absoluta e totalmente evidente que tinham se acertado; Remo achava que tinha dedo de Sirius por trás da coisa, mas pelo menos todos tiveram a decência de não fazer comentários... apenas sorrisos quando viram Tonks com a mesma expressão cansada porém sem a sombra no rosto e sim um discreto sorriso, se sentando ao lado dele na mesa.
Rufus estava os observando com muita atenção e estava prestes a abrir a boca para falar alguma asneira, quando Remo preferiu interrompê-lo:
-E então Guaraná... quando você vai voltar para a Bulgária?
-Nossa, você está me expulsando? – perguntou ele, fingindo estar ofendido.
-Não, estou perguntando... os Weasley sairão em dois dias... só ficarão homens aqui.
-Cruzes, sairei amanhã mesmo então...
-Na verdade, eu e Tonks pretendíamos ficar – falou Héstia, rindo. – Os Comensais da Morte fritaram nossas casas durante a guerra, não temos para onde ir e o Sirius nos ofereceu moradia.
-Nesse caso eu fico!
-Não ofereci moradia pra você... – Sirius falou, olhando indiferentemente para Rufus. – Enquanto eu não decido pra onde vou, isso aqui vai continuar sendo habitado, e nesse caso quanto mais gente melhor. – ele frisou a palavra olhando para Rufus.
O caçador resmungou alguma coisa sobre cães sarnentos, fazendo Tonks, Héstia e Remo rirem.
-Na verdade, está mais do que na hora de voltar para a Bulgária... estou com alguns serviços atrasados... mas até agora, o que me manteve aqui foi a preguiça. – falou Rufus, ficando sério e se servindo de purê de batatas. – Suponho que o reaparecimento de Drácula tenha sacudido os vampiros de todo o continente, então deve ter bastante trabalho esperando por mim.
-Vai ficar só como caçador de vampiros ou vai caçar lobisomens a partir de agora também? – perguntou Tonks, alcançando a travessa de carne para Molly.
-Só se houver algum lobisomem muito mau caráter aprontando e que valha bastante – falou o caçador, animado. – Não gosto de matar lobos... ou cachorros.
-Você os admira não é – caçoou Sirius – Um lobo de verdade é tudo o que você gostaria de ser, ou, pelo menos, um cachorro grande...
-Eu sou um lobo de verdade – falou Rufus baixo e ferinamente – apenas um pouco... exótico.
Remo e Sirius começaram a rir.
-Do que diabos vocês estão falando? – perguntou Héstia, rindo.
-Por acaso você é um lobisomem também? – perguntou Tonks, rindo e duvidando de Rufus.
-Lobisomem? – Jhonny entrou na conversa, achando graça. – Esse aí não é lobisomem nem aqui, nem na China, disso eu tenho certeza!
Sirius riu:
-Lobisomem? Esse gordo velho se transforma num projeto de lobo de menos de trinta quilos... e se acha a própria fera selvagem.
-Pelo menos eu sou um lobo – ele rosnou, apertando os olhos para Sirius.
-Estou infinitamente feliz em ser cachorro... por que sinceramente... Remo, já pensou em ter um rabo daqueles?
Remo quase se engasgou ao tomar o vinho e rir ao mesmo tempo. O próprio Rufus deu um sorriso contrariado.
-Ah, cala a boca... não fui eu que escolhi. – falou ele, admitindo a derrota.
-Você é um animago ilegal? – perguntou Tonks – Em que se transforma?
-Numa espécie em processo de extinção da América Latina – Rufus tentava buscar a dignidade. – Um... lobo-guará.
-Ahh, mas eles são lindos! – exclamou Héstia.
-Uma criatura esquisita, com um grito esquisito. – sentenciou Sirius, sombriamente.
-Mesmo assim, por que se envergonhar? – perguntou Tonks.
-Não é propriamente vergonhoso se transformar nisso... mas se transformar nisso para tentar intimidar oito vampiros enfurecidos é. – falou Remo, achando graça.
-Eu estava desarmado e desesperado, ok? – falou Rufus, ficando vermelho.
-Mas o que houve? – perguntou Héstia, interessada.
-Eu estava caçando uns vampiros para os aurores – contou Remo. – num vilarejo na Irlanda... Parei num bar próximo e tinha esse sujeito – ele apontou para Rufus – podre de bêbado comprando briga com os tais vampiros... e posando de machão. Aí eles o surraram e o cara se transformou e começou a rosnar... foi hilário... os vampiros não entenderam nada, ele apanhou ainda mais e no final eu ainda tive que salvá-lo.
-E foi assim que começou a nossa linda amizade – cantarolou o outro, tentando disfarçar. – Mas a questão é... na América Latina o lobo-guará é respeitado...
-Você devia ir pra lá então! – comentou Sirius alegremente.
-...e é uma forma excelente para espionar... mas não para lutar com vampiros ou lobos, eu admito – continuou o outro, irritado. – Pensando bem, acho que além de vampiros e lobisomens, caçarei animagos ilegais também...
-Que bom que você foi legalizado, não Sirius? – comentou Quim, se solidarizando por Rufus. – O cara atira muito bem... você estaria em apuros.
-De jeito nenhum! – riu Sirius.
-Ok, duelem logo... faz vinte anos que estou esperando os dois pararem de se provocar... – comentou Remo, divertido.
-Não é má idéia...
Foi algo não programado, mas um excelente programa de fim de férias... a Ordem da Fênix assistiu tudo de camarote. Com um amplo conjunto de feitiços de armadilha, ilusão e transfiguração, os dois animagos colocaram seus orgulhos canídeos a prova após o jantar. Foi um combate descontraído e equilibrado – Sirius caiu tantas vezes nas armadilhas de Rufus quanto o outro caía nas barreiras de contra-ataque do ex-fugitivo; quando Rufus finalmente conseguiu arrancar a varinha da mão de Sirius com um feitiço, o imenso cachorro preto se atirou nas pernas do caçador que despencou pela escadaria abaixo. Enquanto Sirius se destransformava e recolhia a varinha, rindo e sem fôlego, os estranhos "Guaáááá!" eram ouvidos se aproximando; quando o lobo pernalta laranja e preto apareceu nas escadas, Sirius atirou uma garrafa de cerveja amanteigada para ele.
-Já chega – falou Sirius, rindo – não gosto de bater em seres em extinção.
-Medinho? – provocou Rufus, voltando à forma humana e pegando a cerveja. Na verdade era um blefe; ele havia perdido a varinha também.
Remo e Tonks se retiraram cedo aquela noite; afinal, ela também precisaria dormir.
Tonks precisou ir trabalhar na manhã seguinte, entregar os relatórios... mas recebeu a tarde de folga – presente de Moody, talvez. Ela e Remo acompanharam Rufus à estação e o observaram partir.
-Obrigado por tudo, Guaraná – falou Remo, apertando a mão do caçador. – Espero poder recompensá-lo um dia.
-Você teria que passar a eternidade me recompensando, acredite – Rufus fechou a cara; ele havia reclamado que a marca da mordida de Drácula ainda coçava. – Mas chame quando precisar; apesar de tudo, foi divertido.
Ele entrou no trem, que já apitava. Apareceu na janela.
-Se precisar de qualquer coisa, Guaraná, mande um corvo. E boa sorte, seu encalhado – falou Remo, com um sorriso maroto.
A cara do caçador foi de pura revolta; felizmente, graças ao som das engrenagens do trem funcionando, Remo e Tonks não puderam ouvir a resposta com certeza mal educada dele; mesmo assim tiveram que rir, enquanto ele fazia gestos mal educados gritando à medida que o trem se afastava.
Naquela tarde, véspera da ida para Hogwarts, Remo e Tonks fizeram algo que até então nunca tinham feito: saíram juntos. As ruas cobertas de neve e tranqüilas e o clima natalino eram um convite a uma caminhada. Andaram pela Londres dos trouxas, conversando e passeando como um casal de namorados comum, e de vez em quando atraindo olhares – provavelmente devido ao cabelo rosa chiclete chamativo de Tonks, mas Remo não ligou... estavam felizes. Se deram ao luxo de ir ao cinema – Tonks comentara que ia muitas vezes com o pai, quando criança. Era uma comédia romântica meio boba, mas Remo não ligou; estava pensativo e meio hipnotizado pela jovem mulher aninhada em seu ombro, que mantinha um sorriso no rosto. Foram a um bom restaurante trouxa – Remo teria que entregar metade do primeiro salário a Rufus (e o caçador acharia que estaria recebendo um presente... pobre tolo) nesse ritmo. Chegaram tarde ao Largo mas não deram as caras; queriam ficar juntos o máximo de tempo possível. Seriam longos dias separados antes que se vissem de novo.
-Espero que você esteja feliz, Nym – falou, sonolento, apoiado sobre o cotovelo, olhando para a garota com os cabelos bagunçados sobre o travesseiro. – Não perguntei o que você achava sobre eu ir para Hogwarts... ficar tão longe por tanto tempo.
-Claro que estou, seu bobo. – ela sorriu, pachorrenta, puxando-o para mais perto sob as cobertas. – Finalmente vamos reconstruir nossas vidas... e juntos... e você não vai mais poder reclamar de ser pobre: vai receber mais do que eu.
Ele riu.
-Droga... você pelo menos tem uma boa herança?
-Não muito, se você pergunta – ela riu também. E o encarou. – Finalmente um pouco de respeito e um trabalho digno, você merece... e sei que vai fazer sucesso... Só fique longe daquelas menininhas do sétimo ano. – ela avisou.
-O quê? – perguntou, sem entender.
-Ah, elas têm uma queda por homens mais velhos e vão querer te abusar. – ela disse séria. – Você entende, eu sei como é... eu já fui assim.
Riram.
-Quer dizer que você amadureceu e parou de querer abusar homens mais velhos? – perguntou, maldoso.
-Na verdade... eu piorei...
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O despertador tocou durante vários segundos antes que uma mão irrompesse das cobertas e o derrubasse no chão, desarmando-o. Foram mais alguns segundos antes que a mão voltasse a se mover e empurrasse as cobertas, revelando a aurora de cabelos verde limão. Tonks estava morrendo de sono. Se levantou, trôpega, e vestiu um robe grosso. Esse provavelmente seria o primeiro dia de sol de verdade naquele longo inverno, constatou, olhando pela janela. Caminhou até a escrivaninha onde trabalhava à noite e olhou a papelada, por um momento achando que tinha esquecido de entregar algum relatório e se perguntando se algum dia terminaria de entregar todos eles.
Fazia um mês que as aulas haviam começado em Hogwarts. Embora se correspondesse com Remo quase todos os dias – nem que fosse para contar detalhes bobos de seus dias, apenas para terem palavras um do outro – ela estava louca de saudades. As coisas estavam bem para ambos; ela recebera menções honrosas no trabalho, ao dar continuidade às caçadas dos comensais remanescentes e obter sucesso na captura de alguns; ele parecia estar muito bem em Hogwarts, e os alunos aprovaram inteiramente o professor, fingindo não notar as olheiras que o mesmo apresentava na semana de lua cheia.
A aurora começou quase automaticamente a pegar as roupas para o trabalho, quando Héstia entrou sem bater no quarto.
-Nym, eu e o Sirius vamos sair, só pra te avisar, porque o café da manhã está... o que você está fazendo? – ela perguntou, parando repentinamente e olhando para a aurora, com o uniforme do trabalho nas mãos.
Tonks olhou para ela, ainda meio tonta de sono. Héstia riu.
-Garota, acorda! Hoje é sábado!
Demorou alguns segundos para a ficha cair; então Tonks deu um tapa na testa.
-Claro...! Eu já tinha esquecido... Scrimgeour e Moody estão me enlouquecendo com esses relatórios – riu, sentindo-se feliz e muito mais desperta.
-E o que você vai fazer? – perguntou Héstia, sentando-se na cama desarrumada enquanto Tonks voltava-se novamente para o armário, com um grande sorriso no rosto e escolhendo as roupas com muito mais cuidado.
-Exatamente o mesmo que você – respondeu Tonks, alegre.
-Sair com o Sirius? – perguntou Héstia, erguendo uma sobrancelha. Ela também fora uma menininha do sétimo ano que abusara homens mais velhos, especialmente depois de adulta... Ela e Sirius estavam enrolados já há algumas semanas antes dele cair no véu. Mas disfarçaram muito bem. Parte do apoio de Héstia para o relacionamento de Tonks e Remo se devia a isso; ela também estivera se envolvendo com um homem mais velho e problemático.
Tonks riu.
-Claro que não, pode ficar com o seu cachorro... Hoje é dia de saída para Hogsmeade: e eu também vou sair com um maroto. Mas vai ser com o meu lobo.
Like a star that guides a ship across the ocean – Como uma estrela que guia um navio através do oceano
That's how your love can take me home and back to you – É como o seu amor me leva para casa e de volta a você
And if I wish upon that star – E se eu faço um pedido para essa estrela
Someday I'll be where you are – É algum dia estar onde você está
And I know that day is coming soon, - E eu sei que este dia está chegando,
Yeah I'm coming back to you - É, estou voltando pra você.
A música é "Back To You", do Bryan Adams, quebrando a soberania de Keane.
Lamento, também achei mega açucarado! Mas vocês concordam... a Tonks merece uma vida doce ao lado do lobo, certo? Depois de tantas batalhas e surras, sem contar a vida very hard que o lobo levou antes disso tudo... acabar a história de outro modo que não com um final feliz ao lado da mocinha seria uma sacanagem...
Originalmente, no meu roteiro de quatro anos atrás, terminaria totalmente em aberto, com a sugestão dos dois ficando juntos devido a apenas um beijo. Mas, escrevendo... eu achei isso injusto e preferi melhorar a situação dos dois.
Eu novamente peço desculpas pela eterna demora... e agradeço muito ao Renan, à Mel Black Potter, à Lycanrai Moraine, e à Aluada... sem vocês, a fic teria acabado no capítulo três. Muito obrigado! Foi realmente gostoso escrever essa loucura e poder mudar o nosso lobisomem favorito para o que eu gostaria que ele tivesse sido.
Em breve (juro! Já está semi-escrito, hehehehe) um pequeno epílogo... um bônus feliz, que será a prova de que Linkin Park consegue ser mais romântico que Keane, hehehehe
Um grande abraço!
