Capítulo 21.: Daylight

"I am nothing in the dark
And the clouds burst, to show daylight..."

O tribunal ficou em silêncio. Scorpius se levantou de sua cadeira, abotoou o paletó e andou a frente de todos para começar. Uma quantidade apresentável de pessoas assistia ao julgamento, e um deles era o seu avô. Lucius tinha uma visão privilegiada na área superior do tribunal, pensativo, ainda com o olhar cheio de críticas e, provavelmente, desaprovação. Scorpius costumava ter o mau hábito de ficar com as costas para o júri. Lucius sempre disse a ele, sempre lhe ensinou:

"Não dê as costas para o júri. Isso não é apenas desrespeitoso, mas, provavelmente, a razão pela qual você, às vezes, perdeu seus casos."

Mas desta vez Scorpius estava olhando diretamente para o júri. Seu discurso foi ótimo. Scorpius foi charmoso, carismático e manipulador; ele ganhou o caso facilmente. Todos que conheciam Lucius sabiam que Scorpius era muito parecido com ele no tribunal. Por essa razão, todo mundo dizia que Scorpius seria ótimo, provavelmente o melhor, em pouco tempo. Se já não fosse.

No final do julgamento, Scorpius e Alexis trocaram algumas palavras. Eles eram uma boa equipe, ambos profissionais em seus trabalhos e erráticas em suas vidas pessoais. Alexis seguiu seu próprio caminho para a saída do tribunal, juntamente com os outros, mas Scorpius ainda tinha algo para fazer. Ele entrou por uma porta, onde subiu uma escada e encontrou seu avô, olhando toda a visão panorâmica da corte. Havia iminente saudade em seus olhos.

Scorpius sentou ao lado dele. Lucius disse:

– Lembro que ganhei o meu primeiro julgamento aqui.

– Eu também.

– Eu não sei como você ganhou aquele caso. Era imaturo, amador, não teve alguma idéia do que estava fazendo.

– O senhor ficou bravo porque eu virei às costas para o júri. Eu me lembro disso. Eu ganhei e ainda assim, você tinha algo para criticar.

– Eu posso ver que você melhorou. Foi um bom julgamento hoje, Scorpius.

– Porque você está morrendo.

– Porque você melhorou. Eu posso ver isso. Você é tão parecido com Draco. Não sabe aceitar elogio.

– Eu não estou acostumado a elogios. Não do senhor.

– Ótimo – Lucius disse satisfeito. – Eu digo-lhe o que você precisa ouvir. Você já ouviu tantas merdas de mim, mas você tem que ser duro com as pessoas que você ama, é isso o que lhe digo. Você tem que torná-los grandes. Bom não é suficiente. E eu fiz-lhe um grande advogado. Você, Scorpius, me deixou orgulhoso tantas vezes neste tribunal que não posso mesmo contar. E isso foi por minha causa.

– Obrigado, avô. – Ele não estava sendo irônico. – Eu devo tudo a você.

De repente ele estava ralhando:

– Ser um grande advogado não é nada, Scorpius. Não quer dizer nada. Eu tenho uma ótima mulher que me ama. Eu dei tudo para Narcissa. Tudo o que ela merecia, assim como ao Draco. Eu sou reconhecido. Eu construí um legado. Eu deixei meus ancestrais orgulhosos. Estou orgulhoso. E eu não fiz isso porque eu sou um advogado. Então... não me agradeça. Eu devia ter te ensinado outras coisas. Eu deveria ter tentado fazê-lo um grande homem.

Lucius virou-se e segurou o braço dele.

– Ouça-me. Olhe para mim, Hyperion. Não espere para alguém atirar em você de novo para você perceber que você vem desperdiçando sua vida. Não espere estar morrendo, como eu.

Scorpius ficou quieto. Lucius continuou:

– Eu estou pedindo para você fazer o discurso no meu funeral. Eu quero que você faça isso.

O rapaz sentiu o corpo se arrepiar e o sangue subir-lhe a cabeça.

– Isso é uma porra de uma responsabilidade.

– Então, você não vai fazer? Vai me negar o último desejo?

– Não. Eu nunca poderia fazer isso.

– O discurso?

– Negar o seu último pedido.

– Não soe muito alegre no momento – pediu depois, fazendo Scorpius soltar uma risada. – Mostre que pelo menos vai sentir um pouco a minha falta. Escreva algo que faça a sua avó chorar. E todos lamentarem a minha ausência.

Não via o senso de humor do avô há muito tempo. Isso doeu um pouco em Scorpius, porque ele viu também o quanto ele estava magro e mais pálido que o normal. O câncer o envelheceu muitos anos em pouco tempo e dava para ver que ele estava tentando lutar contra isso mesmo com todas as poucas chances que tinha. Afinal, ele ainda usava seu elegante terno.


A cafeteria estava aberta, e era uma manhã cinzenta de oito anos atrás. Sentada em uma das mesas do local, Rose retirava o cachecol do pescoço. No momento em que fazia isso, a porta da cafeteria se abriu e Scorpius entrou no local fechando o guarda-chuva.

Ele não precisou olhar muito para encontrá-la. Eles não falaram oi. Silenciaram-se como nunca antes fizeram. Estavam frios um com o outro. No entanto, Scorpius sentou-se à cadeira em frente a sua atual ex-namorada e perguntou:

"Deveríamos casar?"

Era o que a família dele sugeriria. Ele vinha de uma família tradicional, aristocrata. E famílias como a dele não tinham casais divorciados, muito menos filho fora de casamento. A pergunta de Scorpius foi pragmática, sistemática, calculista. Ele com certeza estava com o rabo entre as pernas, porque ele tinha um futuro profissional garantido e ele não podia perder o foco. Rose tinha coisas piores acontecendo com ela. Ela estava grávida.

"Está difícil olhar para o seu rosto" confessou Rose baixinho. "Eu realmente tenho que me esforçar para isso. Então não, não deveríamos casar."

"Rose..."

"Você me achou aqui. Só diga o que quer e vamos acabar com isso logo."

"Eu vou te ajudar com dinheiro."

Rose não respondeu, apenas continuou séria, indecifrável. Ele deu um longo suspiro e olhou para a xícara de café da mesa ao lado.

"O que eu posso fazer então?"

"Nada. Eu não tenho nenhuma estrutura, e não estou falando financeiramente. Vai ser melhor para o bebê ter outros pais. Pais melhores."

Scorpius entendeu o que ela quis dizer com isso. Adoção.

"Você tem certeza?"

"Sim. Você nem precisa contar aos seus pais." Ela teve a súbita lembrança de que Scorpius só tinha o pai agora.

Scorpius tentou esconder o alívio, e achou na necessidade de se explicar:

"Rose, eu tenho estudado para o que eu estou fazendo a minha vida toda. Meu avô está bancando a faculdade, me dando essas oportunidades, e eu não posso arcar com essa consequência."

É claro que Scorpius não queria arcar com essa consequência. Como iria para as festas? Como iria comer as garotas? Como iria namorar, foder, se divertir, beber, se tivesse um filho seu por aí? É claro que Scorpius estaria aliviado com a decisão de Rose. E isso não tinha nada a ver com as oportunidades de trabalho que seu avô estava dando.

Ela quis dar um tapa na cara dele, mas se conteve. Não estava com condições de fazer ceninha. Scorpius não merecia drama por ele.

"Eu sei" foram as duas palavras que Rose precisou arrastar para fora da boca. "Eu não estou pedindo nada a você." Os olhos se encontraram e havia decisão no rosto de Rose, ao passo que havia incerteza no de Scorpius. Incerteza porque ele sabia que aquilo tudo não podia ser assim, mas ele ia aceitar isso, porque era a solução mais fácil. "Eu tenho que ir."

Quando ela foi, Scorpius arrastou as mãos para o rosto.

Teria voltado a sua rotina normalmente, como se nada tivesse acontecido, como se ele não tivesse engravidado a ex-namorada que ele muitas vezes supostamente achou que amava. Tinha exames naquela semana, exames fodidos, mas não foi capaz de se concentrar nos estudos. Não se concentrou nas festas dos finais de semanas e não se concentrou quando voltou para Londres jantar com o que sobrou de sua família.

"E eu disse para ela que queria ver se conseguiria arrumar outra atriz. Eu não posso me dar ao luxo de deixar essas vadiazinhas mandarem em mim" contava sua avó Cissy. Estava com problemas com sua agente e para conseguir uma peça digna. As últimas não foram aclamadas pela crítica, mas Cissy era orgulhosa demais para se abalar. Acreditava que o problema não era o talento dela, claro, eram as outras pessoas. "Essa geração de mosquitos não entende nada sobre teatro."

Lucius foi o único que reparou no silêncio e na expressão de Scorpius, calado e com o prato intocado. Exceto o copo de vinho. Era o terceiro que o garoto esvaziava.

"Como estão as coisas na faculdade?" perguntou o avô.

Scorpius virou o rosto para Draco, que também parecia querer saber. Era a única coisa que vinha orgulhando a família nos últimos tempos. O único motivo que fazia Draco falar com ele.

"Ótimas" ele disse.

"Está precisando de livros? Sabe que tenho todos na biblioteca" disse Lucius. "Pode pegá-los, se precisar."

"Obrigado."

"As notas excelentes, suponho" garantiu Cissy, sorrindo.

"Sim."

"Esse é o meu neto." A avó apertou o rosto dele contra o seu e o beijou na bochecha. Cissy sempre paparicou Scorpius e ficou mais forte depois que Astoria morreu.

Achou melhor dizer logo de uma vez.

"Minha namorada está grávida."

Não houve resposta. Eles não escutaram direito, porque Draco continuou comendo, e Lucius limpava os lábios com o pano.

Cissy, como estava bem perto do neto, soltou o rosto dele e Scorpius preferiu não olhar para a expressão dela.

"Ex. Nós terminamos" acrescentou, para piorar. "Conversei com ela... e ela decidiu que vai dar para a adoção."

"Ótimo, uma garota esperta" disse Lucius. "Você seria um péssimo pai, eu teria pena da criança, porque, sinceramente... que cabeça vocês dois têm para criar um filho?"

"O que vai dizer ao seu filho, Draco?" perguntou Narcissa com dois dedos na testa, como se a enxaqueca estivesse tomando conta dela nesse momento.

"Você ofereceu ajuda?" perguntou Draco a Scorpius.

"Sim. Ela não aceitou."

"Ela não quer nada de você?" Lucius perguntou com a testa franzida.

"Não."

"Você deve ter fodido mesmo a vida dessa menina."

"Me faz perder a fome," disse Cissy. "Engravidou uma garota? Onde foi parar a educação que a sua mãe te deu?"

Scorpius ignorou a pergunta.

"Posso me levantar?"

"Deve" o som da palavra saiu entre os dentes de Draco.

Scorpius subiu para o quarto antigo dele. Tinha fotos da Rose no espelho. Lembrava-se de quando ela o arrastou para dentro de uma cabine de fotos no festival onde tiraram uma série delas juntos. Ele nunca fez isso com outra namorada.

Deitou-se na cama, fuçando no celular. Não tinha apagado o contato de Rose e roçou o dedo pela tela. Queria mandar uma mensagem. Perguntar o que estava acontecendo, mas ela tinha deixado bem claro que não queria mais tê-lo em sua vida.

Seu avô chegou alguns minutos depois no quarto, para conversar com ele. Ficou andando para observar a organização perfeita do quarto do neto. A vida dele, no entanto, não era nem um pouco organizada.

"Levante, vamos conversar."

Scorpius se levantou da cama e ficou a sua frente, mas não olhou para ele.

"Tenha a decência de olhar para mim quando estou falando com você." Começou a apontar o dedo. "Você é sortudo. Tem tanta sorte que não se dá conta. Conseguiu foder e a garota não quer nada de você. Se livrou de um aperto do caralho. E ainda não tem a sua mãe pra te dar uma bronca. Não é isso o que está pensando?"

"Não."

"Está pensando sim. Está dizendo 'oh graças a Deus minha mãe não vai ficar sabendo disso.'"

"Eu não estou pensando isso" sibilou as palavras, fervendo.

"Então o que está pensando?"

"Estou pensando que fodi com tudo na minha vida."

"E o que diabos sabe da vida? Você só tem o quê? Dezenove anos?"

"Não sei o que fazer."

"Não há nada para fazer" ele retrucou. "Será uma página virada. Esqueça a garota e volte a viver sua vida normalmente. Não há nada que você possa fazer, ela deixou isso bem claro negando qualquer ajuda sua."

Foi o único conselho que Scorpius poderia ter seguido naqueles últimos tempos. Tentou esquecer. Viver sua vida normalmente. Mas não era a mesma coisa. Ele poderia ignorar o quanto quisesse, mas não era a mesma coisa. Podia ter alguma garota subindo e descendo no pau dele nas noites das festas, mas não era a mesma coisa. Não transava pela diversão naqueles tempos, mas realmente para esquecer. Esquecer Rose e todo o resto. Pelo menos por algumas horas.


– Ei, está tarde. – Rose desarrumou um pouco o cabelo pela nuca, como se tivesse sido acordada de um bom cochilo para atender a porta a Scorpius, onze horas da noite. Não se viam há alguns dias desde que voltaram da praia. Já fazia algum tempo. Elas passaram as últimas semanas com a família de Rose na casa dos bisavós. Scorpius se deu conta que ele era um completo vazio sem elas. – Aconteceu alguma coisa? Zoe já está dormindo.

Scorpius usava uma camisa, sem a gravata, e os botões do colarinho aberto. Carregava um ar estranhamente calmo, tranquilo, apesar de ter acabado de visitar o avô internado no hospital, em estado grave.

– Eu tinha dois lugares para ir hoje. Em alguma festa, foder tudo como eu fiz a minha vida inteira. Ou aqui. Eu não posso ficar sozinho, e tem que ser com a pessoa certa dessa vez.

Hábitos morrem com dificuldade. Ela via isso na expressão dele quando fez essa escolha.

– Tem que ser com você.

Ele estava decidido e Rose não se surpreenderia se ele tivesse agarrado o rosto dela para jogá-la contra a parede, mas o único movimento que o rapaz fez foi erguer uma sacola e abrir um sorriso de lado.

– E com comida japonesa. Diga que pelo menos isso não mudou. Especialmente aos domingos.

Foi como se Scorpius tivesse acertado uma senha. Rose deu espaço para ele entrar, após se render a um sorriso. Não se deliciava com comida japonesa desde que voltara a Londres e, sinceramente, sentiu saudades.

Estava rodando um show na televisão, embora estivesse em um som baixo para não atrapalhar o sono da Zoe. A música soava pelo ambiente de um modo suave e equilibrado, sem o mínimo de exagero. Eles se sentaram em lados opostos do sofá. Não tão longe um do outro, mesmo assim.

Os dois aproveitaram a exótica comida japonesa nos próximos minutos. Era um dos pratos preferidos de Rose, desde sempre. Por outro lado, Scorpius sempre teve sérios problemas com comidas que ele não estava acostumado a comer, então não passou nem um pouco despercebido que ele estava enrolando para não colocar mais daquilo na boca.

Foi nesse momento que Rose finalmente disse:

– Você não precisa fazer isso.

– O quê?

– Eu sei que você ainda não vai com comida japonesa, Scorpius.

– Eu realmente tento. É que nem café. Eu odeio café, mas eu quero gostar. Todo mundo gosta.

– Você odeia café? Eu sempre soube que tinha algo errado com você quando eu te fiz assistir Titanic e você quis que a Rose ficasse com o Cal, não o Jack.

– Eu gosto do Billy Zane – ele argumentou.

– Você tem problema.

– Não fui eu que deixei o cara morrer congelado porque não dei espaço pra sentar ao meu lado naquela tábua. Apenas dizendo.

Rose acabou soltando uma risada incrédula depois dessa.

– Você realmente prestou atenção no filme, então?

Tinham acabado de comer e agora só estavam conversando. Quando não estavam mais no clima tão cômico da discussão, Scorpius se recostou no sofá e o braço dele movimentou. Rose achou que ele ia fazer aquilo, tirar a franja dela do rosto, mas ele apenas o apoiou no encosto do sofá para contar:

– Meu avô quer que eu faça o discurso no funeral dele. Você disse pra mim, no hotel, pra não deixar de continuar dando força, e eu disse que eu não esperava pelo melhor. Eu estava mentindo. Eu fico tendo aquela pontada de expectativa pra ele ficar bem de novo e que eu não vou precisar fazer discurso algum. E eu não queria ter expectativas.

– Você não queria ser humano? – Ela o encarou com as sobrancelhas levantadas.

– Não é isso. Eu só... não sei. – Olhou para a televisão, frustrado consigo mesmo. – É besteira.

– O que?

– Falar sobre isso. São meus problemas, não seus. Você não precisa ficar ouvindo.

Rose deu um longo suspiro. Como se Scorpius não tivesse nenhuma noção das coisas, ela contou:

– Sentimentos não são besteiras, caso ainda não tenha se dado conta disso.

– Realmente fodi com o seus, não foi?

Ao ouvir essa pergunta, um brilho foi detectado no olhar de Rose. Um brilho de raiva.

– Você realmente quer falar sobre isso? – indagou irritada. Afinal, eles estavam tendo um ótimo tempo juntos. Para quê voltar ao passado? – Agora?

– Eu quero mudar isso, Rose.

Calaram-se. E Rose olhou para ele. Bem nos olhos.

Por isso ela não se surpreendeu quando ele a beijou, e também não o empurrou. Um roçar leve entre os lábios antes das línguas se entrelaçarem, e quando elas fizeram, foi difícil parar depois.

Não demorou muito, Rose apertou o rosto dele e participou do jogo.

As feridas apenas a tornaram mais forte. Ela era melhor do que antes. Ainda mais imune a qualquer charme, a qualquer promessa, não só de homens em geral, mas principalmente de Scorpius. Mas não era isso o que Scorpius queria. Não estava prometendo nada a ela, nem sequer iludindo-a. Ele queria o real, ele queria o que estava acontecendo agora, e estava cansado de ignorar. E ela também não queria que eles vivessem se lamentando pela imaturidade, pelos erros que os levaram até aquele momento. Mesmo que as consequências fossem sentidas em cada toque que davam, naquela noite, elas foram apenas bloqueadas.

O coração é complicado, mas os corpos não. O contato físico não. Rose e Scorpius sempre foram reunidos por um contato físico intolerante, delirante, imprudente, desde a primeira vez. Se havia alguma mudança naquele momento, foi o modo como Scorpius a beijava. Com medo de perdê-la. Com medo que ela não fosse algo sólido e que se deteriorasse a qualquer instante em seus braços. Com medo de que ela não fosse real e que o jeito como ela correspondia ao beijo não fosse real também.

Mas ela era. E ele agradeceu por isso.

Sentiram o contato das calças quando ela se ergueu e sentou em seu colo. Com essa atitude dela, foi ele quem sofreu. Um a um, os dedos leves abriram os botões da camisa preta que ele vestia. Ele tirou uma parte da mecha ruiva do rosto dela e, junto a esse movimento, ela tirou a camisa do dorso dele. Rose ergueu o queixo quando ele deu a intenção de descer a boca até o pescoço dela. Os olhos dela fecharam-se. Os pelos se arrepiaram.

E ela murmurou:

– Não podemos fazer barulho.

Ao ouvir isso, ele percorreu as palmas de ambas as mãos da cintura até suas coxas e a ergueu do sofá. Ela enrolou as pernas ao redor da cintura dele, fazendo-o caminhar com ela até o quarto. Atracaram-se contra a porta fechada. Nesse momento, o comando era de Rose. Ela mordeu a boca dele, numa mistura de raiva e tesão, que fez Scorpius fechar os olhos e se sentir derrotado.

As respirações eram pesadas; um contraste imenso com a suavidade que Scorpius ergueu a blusa fina dela por cima de sua cabeça. Com o apoio da mão na base da coluna dela, ele a pousou na cama. Sem demorar, buscou um caminho com os lábios até abdômen feminino. Subiu até a base dos seios ainda cobertos pelo sutiã que moldava o belo contorno deles, e alcançou novamente a boca dela.

Ambos ferviam. Rose o ajudou abrir o zíper da calça, irritada com a necessidade dele em usar cintos – só atrapalhavam. Ela o apertou na região da virilha e Scorpius retrucou com uma mordida leve em seu ombro que, depois, foi substituída por um chupão. Ele sabia como nunca exagerar.

Ele puxou a calça para fora das pernas e, sem esperar muito, ela fez o mesmo com a dela. Nesse momento, alguma coisa tomou conta deles. Toda aquela suavidade no início foi substituída por um desespero de chegarem logo ao que interessava, porque Rose inverteu a posição e sentou nele, apertando o peito dele com as pontas dos dedos. Com um rápido movimento, tirou o sutiã para sentir as duas mãos masculinas apertarem os seios despidos. Scorpius, embaixo de Rose, não via aquela visão do corpo dela há anos, e ele sentiu falta.

Pouco importava como eles tiraram o restante das roupas. Eles só fizeram isso rápido. A calcinha dela já estava em algum canto da cama. Ela não podia gemer alto, mas ele fez de tudo para que a tarefa ficasse incessantemente impossível a ela. Os dedos dela ficaram brancos por apertarem o lençol.

Scorpius vestiu a camisinha que, por sorte, estava dentro da carteira. Ele provocou, e entrou lentamente nela. Ele tinha experiência, e foi como voltar a um esporte que há muito tempo não praticava. O sexo com Rose. E eles tinham um que era só deles. Sincronizado, mesmo com tantas desavenças, diferenças. Ritmado, mesmo que as vidas de ambos não estivessem conectadas.

Estavam silenciosos, mas os corpos não. Scorpius aumentou gradualmente o ritmo das estocadas, sabendo que Rose não era facilmente conquistável na cama. Ele beijou a boca dela, descendo para o peito e lambendo os mamilos. Sentiu as pernas dela se envolverem ao redor do quadril pulsante dele, e agora o ritmo era frenético. O suor começou a escorrer em seu peito e isso o deixava apenas melhor, mais sexy. Rose não teve tempo de raciocinar o que estava acontecendo, e ela não pretendia mais raciocinar, de qualquer forma. A cama para de ranger quando Scorpius embalou o quadril contra o dela em movimentos mais lentos, não desejando acabar com isso logo.

Não pensavam em mais nada. O mundo era só deles. E era um mundo perfeito, onde não havia erros para consertaram, onde não havia consequências. Era o mundo perfeito onde Scorpius podia ter a visão incrível dos cabelos ondulados caindo nas costas nuas de Rose. Era o mundo perfeito onde ele apertava o peito contra as costas dela, esfregando o corpo dele atrás dela. Scorpius roçava os lábios pelo contorno da tatuagem no ombro dela e a fazia respirar pesadamente, sentindo os dedos prensarem seus cabelos molhados. Era o mundo perfeito que, quando você abria os olhos... sabia que, afinal de contas, não existia mais. Será que algum esforço bastava para reconstruírem esse mundo perfeito tijolo por tijolo?

Cada vez mais desesperada em suas ordens, Scorpius foi incapaz de desobedecê-la, e, sem parar de penetrá-la, ela gozou por último com um gemido de prazer incontrolável, ofegante, abafado pelo travesseiro. Scorpius cessou o ritmo, sabendo como fazê-la ter o orgasmo que ela esteve buscando.

Quando acabou, ele precisou descansar ao lado dela. Sentiu certa necessidade de um cigarro, mas não sentiu essa falta. Rose ficou esperando ele acender algum, já que se lembrava de tal hábito dele, mas descobriu naquele momento que os hábitos ruins podem até morrer com dificuldade, mas, uma hora, eles morrem.


A garota da vez caiu ao seu lado e o abraçou. Ele tentou afastar um pouco o rosto para o cabelo dela não entrar no nariz dele. Incomodado, também tentou dizer alguma coisa para fazer a garota sair da cama dele, mas ela não estava entendendo que ele só queria sexo. Algumas garotas são apenas grudentas demais. Pensou que deveria ter escolhido outra mais sabiamente, e o celular o salvou quando começou a tocar.

"Preciso atender."

"Nããão... o que pode ser a essa hora? Aproveita aqui, lindo."

Ele atendeu o celular na cama mesmo, uma vez que a moça voltou a beijar seu pescoço. Mas ao ouvir a voz de Rose no outro lado da linha, praticamente empurrou a garota do corpo dele e se sentou, assustado.

"Rose?"

"Podemos conversar?" a voz dela estava calma.

"Sim" ele disse vestindo a cueca depressa. "Agora ou...?"

"Quando você estiver em Londres de novo."

"Estarei aí amanhã. O que aconteceu?"

"Nada, eu só preciso... conversar com você."

Ele não tinha planos para voltar para Londres no dia seguinte, mas se levantou mais cedo na manhã seguinte e deixou de assistir as aulas naquele dia para se encontrar com Rose na mesma cafeteria que se encontraram na última vez em que se viram.

Era uma manhã ensolarada, tanto que Rose precisou amarrar o cabelo, que havia crescido bastante. Ela estava sentada, tomando um café, e quando Scorpius ocupou a cadeira a frente dela, viu que ela estava bem. Não parecia desesperada, nem mesmo como se tivesse passado os últimos meses chorando por ele. Ou falhando ao tentar esquecê-lo. Talvez fosse sua máscara, e ela a vestia perfeitamente bem.

"Você quer café?" ela ofereceu.

"Não."

Ele não podia ver direito porque ela estava sentada, mas sabia que a barriga dela estava maior. Cinco meses. E ele estava com as mãos suadas.

"O que aconteceu? Por que quer conversar comigo?"

Ele não era tão idiota assim a ponto de achar que Rose queria voltar com ele. Nem mesmo ele insistiria, apesar de sentir a falta dela, a falta de receber uma mensagem dela, um telefonema, um sorriso dela.

"Eu queria... te mostrar uma coisa."

Ela tirou da bolsa um envelope de papelão. Scorpius leu o selo que pertencia a uma clínica. Ele abriu o envelope e tirou de lá uma foto.

"O que é isso?"

"É um ultrassom."

Ele olhou por uns cinco minutos, sem dizer nada. Rose, com a mão apoiando o rosto, observou as expressões dele. Não foram muitas. A que mais ficou evidente foi de confusão.

"Estou tentando, mas... não consigo ver nada."

"Eu também não" confessou Rose. "Mas a doutora disse que é uma menina, então..."

Ele a viu passar os dedos nos olhos aguados, tentando manter a compostura. Rose estava emocionada.

"Por que... Você não ia...?"

"Eu vou ficar com o bebê. Eu vou tentar. Meus pais estão me ajudando... e Albus está praticamente casado comigo de tanto que não sai do meu pé. Mas... eu achei que eu deveria te avisar, eu deveria te mostrar isso."

"Você vai ficar com o bebê?" ele tinha ficado surdo.

"Sim. Eu não viveria comigo mesma sabendo... e ela está chutando durante a noite e..." ela abriu um sorriso triste. "Eu estou fodidamente assustada com tudo isso, mas eu fico mais assustada de ter que abandoná-la depois de tudo. E eu não quero me odiar a vida toda, por ter fugido de tudo isso."

Ele olhou para as pessoas andando na calçada do outro lado da janela. Juntou as mãos no rosto e pensou. Voltou a olhar para a Rose, ainda silencioso.

"Eu acho que consigo fazer isso" ela continuou. "Acho que sou capaz. Eu só... é justo que você saiba. Eu vou ter uma filha sua. Você escolhe o que vai fazer agora."

Não parecia ser verdade. Não parecia que aquilo estava acontecendo com ele. Parecia um sonho, um pesadelo, um carma... tudo ao mesmo tempo. Scorpius não sabia dizer o que estava sentindo. Era o que ele estava esperando? Era o que ele esperava que Rose fizesse desde o início?

"Não sei como ajudar."

"E eu não sei como você pode ajudar."

"Eu posso não sumir" ele murmurou. Rose olhou para ele, sem esperar essa resposta. "Se você deixar."

"Está me pedindo permissão para ficar na minha vida?"

"Sim" ele disse. "Eu sei que eu fiz muita merda com você. Eu não a culparia por querer me ver longe daqui."

"Eu realmente quis..." ela confessou. "Mas isso não vai adiantar nada. Nosso relacionamento era... não havia mais relacionamento. Antes mesmo de você dormir com aquela garota... Você contou a sua família?" ela perguntou depois de um tempinho. A conversa estava confusa e os pensamentos dos dois caóticos.

"Não consegui esconder. E a sua família?"

"Eles acham que você me abandonou depois de ter me chifrado. Está rolando muita história... para resumir, eles te odeiam agora."

"Mesmo assim, você me chamou aqui pra me mostrar o ultrassom."

Ela assentiu. Ficaram por mais um tempo no mesmo lugar, silenciosos, apenas ressentidos, temerosos. Rose parecia... adulta. Caso contrário, não estaria olhando para ele, não estaria tendo essa força, essa atitude. Isso só colocava Scorpius em um grau inferior, uma vez que ele não tinha feito nenhum esforço para mudar suas atitudes naqueles tempos. O chupão que Rose viu em seu pescoço queria dizer muitas coisas. Ou nada.

"Tchau, Scorpius."

Ela deixou o dinheiro do café sobre a mesa e colocou a bolsa no ombro, antes de levantar e sair. Scorpius seguiu a barriga dela com o olhar. Quando a porta da cafeteria se fechou, notou que ainda estava com a foto do ultrassom em cima da mesa. De relance, ele viu um bebê. No outro segundo, voltou a ver a confusão das cores monocromáticas.

A foto do ultrassom o acompanhou para todos os lugares nos próximos dias, meses. Durante o tempo em que estudava no dormitório, flagrava-se olhando para a foto que estava apoiada na lâmpada sobre sua escrivaninha. Não importava quantas vezes olhava, não via bebê algum, e talvez esse mistério o instigasse a não parar de verificá-la, noite e dia. Scorpius trocava uma ou duas mensagens com Rose, quando ela respondia, a respeito da gravidez, confirmando que ele ia aceitar aquilo... assumir.

Albus fora transferido para outro campus, o que distanciou Scorpius da figura de um amigo. Al também não deu muita credibilidade ao rapaz quando soube do que aconteceu entre ele e Rose. E, claro, Albus escolheu ficar ao lado de Rose.

Mesmo assim, foi ele quem avisou quando Rose ia ter o bebê.

Os primeiros exames de seu segundo ano estavam acontecendo naquela semana. As vezes Scorpius não pensava nisso, mas quando a realidade batia na cabeça dele, era como uma bola de golfe, baseball, futebol, rugby ao mesmo tempo se chocassem contra ele. O celular vibrou durante um dos exames em setembro. Era a matéria do professor mais rígido, então Scorpius ficou tenso em atender. Aproveitou que o homem estava de costas para a turma e tirou o celular do bolso para ligar a tela.

Albus Potter
Mensagem enviada às 9:02
Rose entrou em trabalho de parto...
VEM. RÁPIDO.

Scorpius tinha um sono instável quando dividia a cama com alguém. A cama de outra pessoa. Não dormia direito, não pregava no sono. Pensava que ela estava ao lado dele, pensava o quanto isso poderia significar, e o quanto as coisas não seriam mais as mesmas. Rose, por outro lado, dormiu rápido. Sexo desgastava suas energias e não é fácil aguentar as correrias com uma filha até o final do dia. Ele olhou para as belas costas por um tempo, e ele percebeu que não queria sair de lá. Acostumado a deixar apenas rastros na cama de uma mulher, ter a vontade de ficar era algo surpreendente para ele. Mas não quando se tratava de Rose Weasley.

Fechou os olhos e tentou esquecer o mundo. Precisava dormir, estava exausto, desgastado, mas satisfeito. Satisfeito como há muito tempo não se sentia. Uma parte por ter transado e a outra por ter transado com Rose. Ele sentiu falta dela. Sentiu falta também de abraçá-la na cama. Poderia fazê-lo, mas... era mais complicado que isso agora. Ambos ainda tinham uma barreira que bloqueava o acesso mais íntimo que o sexo, e ele pressentiu isso porque tudo o que ele podia ver agora era a tatuagem no ombro de Rose.

Ficou inseguro. Talvez devesse sair. Ir embora. Deixá-la com o espaço só para ela. Mas ele não queria. Queria continuar ali... apenas com ela. Não sozinho. A cabeça dele estava mais leve, ele se sentia mais calmo, mais relaxado. Ainda era atormentado por dúvidas e incertezas, mas ele estava bem. Naquela noite, ele estava ótimo. E queria continuar com a sensação. Sabia que assim que botasse o pé para fora da casa dela, a sensação sumiria.

Por esse motivo, ele ficou de bruços e virou o rosto. No criado-mudo ao seu lado, tinha um porta-retrato. Ele não conhecia a existência dessa foto de Rose e Zoe juntas, e ficou olhando para a imagem até se sentir zonzo e fechar os olhos, com alívio, com sono.


A filha deles nasceu dia 22 de setembro. Scorpius não chegou a tempo de ver. Quando apareceu no hospital, não foi diretamente para o quarto onde Rose estava. Ficou sentado na sala de espera como se fosse um paciente, olhando para o chão, hipnotizado, sem acreditar. A essa hora, a filha dele já tinha nascido, e ele não sabia se tinha coragem de vê-la.

Precisou da mãe naquele momento, ah, como precisou.

Ligou para a única pessoa que ele pensou que poderia ajudá-lo.

"Vô" ele se sentiu uma criança idiota falando assim com Lucius quando ele atendeu. "Minha filha nasceu."

"Hum" foi o que ele disse. "E o que você quer?"

"Eu quero vê-la, mas como disse, vou ser um pai horroroso."

Lucius suspirou e Scorpius ouviu pelo celular.

"Eu não deveria vê-la então? Eu deveria poupá-la?"

"Por que está me ligando, Scorpius?"

"Preciso que alguém me diga para vê-la. Que eu vou conseguir fazer isso."

"Estou me preparando para um julgamento muito importante, não posso ficar te dando conselhos. O que posso dizer agora é: levanta e veja o que você aprontou com essa garota."

Scorpius perguntou a uma enfermeira onde a sala de Rose estava.

E o que Scorpius aprontou com Rose foi um pacotinho minúsculo, fofo, gordinho, com os cabelos mais loirinhos que alguém poderia ter naquela idade. Zoe Weasley estava descansando nos braços da nova mamãe, tão nova ao mundo que os pés e as mãos estavam desacostumados a se moverem, mas ela gostava disso, gostava de mover os bracinhos, mesmo com os olhos cerrados. Os sons da boca saíam fraquinhos em um resmungo adorável.

"O que ele está fazendo aqui?"

Scorpius estava no buraco da porta, e encarou o sr. Weasley, quando ele se levantou da cadeira ao lado da cama de Rose.

"Vendo minha filha" disse Scorpius, pateticamente.

"Por que ele está aqui, Rose?"

"Eu pedi ao Al para chamá-lo. Pai..."

Foi Hugo que exclamou antes do soco:

"Pai, não!"

Mas Ron estava querendo fazer aquilo há muito tempo. Não que tivesse se sentido melhor, mas, sim, ele se sentiu um pouco melhor. Não pretendia, é claro, ter arrancado sangue da sobrancelha do rapaz, a ponto da enfermeira precisar ajudá-lo com dois rápidos pontos na outra sala. Os outros primos de Rose e os tios se aproximaram para ver o que estava acontecendo.

"Por que você fez isso, Ron?" exclamou Hermione. "Você acha que isso vai adiantar alguma coisa?"

"Adiantou um pouco."

Furioso, saiu do quarto, com a irmã, o amigo e a esposa tentando acalmá-lo. A enfermeira fechava os pontos de Scorpius e depois ele se sentiu seguro para voltar até o quarto de Rose. A família dela saiu, e Dominique foi a última que relutou. Não era fácil ter vontade de tirar o dedo quando um bebezinho apertava ele.

"Domi, poderia..."

"Tudo bem" ela disse e se levantou. "Estou aqui se precisar de alguma coisa, Rosie."

"Valeu."

Dominique passou por Scorpius diretamente, sem conversar com ele.

Ficaram sozinhos. Rose voltou a fazer expressões para a bebê em seu colo, o olhar apaixonado que você podia ver a quilômetros de distância. Scorpius enfiou as mãos nos bolsos e deu alguns passos até as duas.

"Qual é o nome dela?"

"Zoe."

Ele gostou do nome.

"Oi, Zoe" ele disse para a bebê.

"Ela parece você" disse Rose e isso foi um baque contra ele.

"Não parece nada." Era muita linda, muito fofa, para se parecer com Scorpius.

"É por que está com os olhos fechados agora. Espere abri-los."

Rose passou a flanelinha suavemente pelo rosto da pequena Zoe. Ela resmungou alguma coisa. Quando ela abriu os olhos, por meros segundos, ele viu a cor deles. Eram brilhantemente cinzas.

"É minha?" Ainda havia essa dúvida. Não era possível.

A pergunta de Rose foi inesperada:

"Você quer segurá-la?"

"Não" ele recuou. "Quero dizer, é melhor não. Eu nunca segurei..."

Rose não insistiu, mas Scorpius acabou se rendendo, mudando de ideia muito rápido, inseguro.

"Posso...?"

Ele precisou se sentar ao lado dela e, então, Rose o ajudou a colocar Zoe nos braços dele. Pensou nas palavras do avô, que ele seria um péssimo pai. No momento em que segurou a nuca de Zoe com o cuidado que teria com um diamante, ele desejou não ser.

"Ela é... minúscula."

"Ela não parecia minúscula quando saiu da minha vagina" retrucou Rose, inacreditavelmente sarcástica. Ele se viu sorrindo como há muito não sorria.

Depois o sorriso dele esvaziou um pouco.

"Como vai ser agora?"

"Você pode vê-la nos fins de semana. É o único jeito para o meu pai não ficar insistindo em conseguir guarda ou algo assim... eu disse pra ele que não iria precisar, que você ia aceitar..."

"Nos finais de semana" ele concordou, embora pudesse olhar Zoe por dias sem parar. Era hipnotizante. "Tudo bem."

Não tinha outro jeito melhor. Scorpius morava em Oxford, Rose em Londres. Ela tinha a ajuda da família; Scorpius não entrava no assunto com a dela. Semanas foram passando e cada sábado que Scorpius aparecia na casa de Rose, para ver Zoe no berço, no chão, engatinhando ou babando, havia sempre algo novo para saber sobre ela.

Rose precisava da ajuda dos pais, mas não queria precisar o tempo todo. Mesmo Zoe com dois meses de idade, Rose tentou alguns empregos em agências de publicidade e também vendia alguns quadros de pintura em festivais abertos da cidade. Ainda precisava terminar os anos da faculdade, fazer milhares de projetos, e ela nunca conseguiria, nunca, se não tivesse os pais. E por dar todo esse trabalho a eles... Rose orgulhosamente juntou suas contas, sua poupança, e no quinto mês da Zoe, encontrou um flat espaçoso para as duas.

Foi uma mudança de vida, uma adaptação entre as necessidades de Rose e as necessidades de Zoe. Scorpius percebeu isso quando foi ver Zoe no sábado. O flat estava um pouco desarrumado porque Zoe era paparicada com brinquedos dos amigos de Rose e como Rose estava nas correrias com seus projetos, tinha papeis, macacões, meias minúsculas e pinceis para todos os lados.

Ele oferecia ajuda com dinheiro, sempre. Ofertas que eram recusadas pela orgulhosa Rose. Ela estava bastante apertada entre ter um emprego, uma faculdade e uma filha, mas ela era organizada o suficiente para se adaptar e dar conta de tudo. Não faria sem a ajuda ainda dos pais, que se ofereciam para ficar com Zoe quando Rose precisava, mas, a grosso modo, Rose e Zoe estavam se virando nesse mundo caótico.

"Ela teve febre ontem à noite" contou Rose a ele. Zoe estava no berço, brincando com um bonequinho de algodão. Ela costumava jogar o boneco para fora do berço toda vez. Distraído, Scorpius pegou o brinquedo no chão e devolveu para Zoe, enquanto fazia outras perguntas a Rose, perguntas que não tiveram mais importância, porque Zoe sorriu pela primeira vez a ele.

Scorpius até piscou, sem reação. Ninguém nunca tinha sorrido daquele jeito para ele, e isso foi surpreendentemente aconchegante.

Ele não fazia nada, nada, e tinha o sorriso da pequena Zoe. Ele apenas estava lá. Por ele ser esse cara sempre sério, ela o achava imensamente engraçado. Zoe era gentil e solidária, dividia coisas, e botava brinquedos nas mãos das pessoas, mostrava coisas para elas, e foi crescendo com a ideia de que ela via esse cara tão legal apenas nos finais de semana, e por isso precisava aproveitar todos os minutos com ele. Eles criaram um laço que não foi difícil de ser construído. Zoe o convidava para a vida dela com os braços (literalmente) abertos.

Scorpius mostrou Zoe para o pai e a vó Cissy uma vez. Lucius não estava naquele dia. Rose estava em um período caótico com as contas e os pais, e foi procurá-lo na casa dele nas férias. Scorpius a ajudou financeiramente apenas naquela época, e todas as dívidas foram devidamente acertadas depois. Eram momentos de desesperos que Rose detestava se lembrar.

Depois de superar os momentos de desesperos, ela finalmente se formou na faculdade. Scorpius fez o mesmo naquele ano e comprou um incrível apartamento num dos edifícios mais caros de Londres quando começou a seguir os passos do avô na firma Malfoy & Zabini. Justamente quando ele voltou para Londres, talvez até mesmo disposto a ter mais um tempinho com a Zoe do que apenas nos finais de semana, Rose consegue o trabalho de seus sonhos no museu de Nova York. Brigada com os pais, fez as malas. Zoe tinha dois anos, estava mais independente, já falava coisas e até conversava no celular.

"Pai vai veleu nos Estados Umbigos?"

"Quê?" Ele estava em um jantar importante da empresa naquela noite e precisou ir até o banheiro para conseguir entender as coisas que a filha dizia por trás do celular.

"Vai ver... Estados Umbigos!"

"Scorpius" Rose provavelmente pegou o celular da mão dela, "ela está querendo dizer que ela vai para os Estados Unidos, e se você quiser vê-la, vai conseguir dar um jeito nisso."

"Uououou" ele pareceu até bêbado, embora não tivesse começado a beber nada ainda. "Que história é essa de que ela vai para os Estados Unidos?"

"A história de que eu consegui um apartamento e um emprego perfeito por lá, e vou levar a Zoe. Já está tudo pronto."

"Quanto tempo?"

"Eu vou morar lá agora. Você não precisa se preocupar mais."

"Qual é o seu problema?"

"O meu problema? Não sou eu que tiro foto com um copo de tequila na mão e a outra na cintura de uma vadia todo o maldito fim de semana. Foto com a sua filha? Você não tem NENHUMA."

"Bem, esse é o MEU problema, não acha?!"

"Sim, e agora eu vou afastar o SEU problema da MINHA filha!"

"Você tá alterada. Passa o celular para ela, Rose. Eu preciso falar com ela."

"Não. Você acha que vai adiantar alguma coisa falar com uma criança de dois anos pelo celular?"

"Então diga a ela que eu vou visitá-la nos Estados Unidos."

"Eu não vou dizer nada. Diga você."

"Eu estou tentando, porra!"

"Olha, se você quiser falar qualquer coisa a Zoe, nós estamos no aeroporto. O avião sai em uma hora."

"Que aeroporto?"

"Heathrow."

"É uma hora de onde eu estou, e você só me avisa que vai embora AGORA?!"

"É melhor se apressar, então!"

"O trânsito deve estar FODIDO a essa hora. Eu nunca vou chegar a tempo..."

Desculpas, desculpas e desculpas.

"Faça o que quiser, Scorpius. Eu estou indo embora."

"Rose, espere, espere..."

Ela parou de caminhar no aeroporto, a mão direita segurando o celular contra a orelha e a esquerda apertando os dedinhos de Zoe, quando Scorpius pediu para ela esperar. Por dois míseros segundos, ela achou que ele ia fazer. Ele ia dizer "não vão", mesmo que não fizesse a mínima diferença pois ela iria de qualquer jeito, mas só perguntou:

"Você não está tirando ela de mim, está?"

"Quer saber? Eu poderia."

"Rose..."

"Você se importaria, ao menos?"

"Porra, é claro que sim. Eu só... eu estou indo aí" decidiu imediatamente.

"Tchau, Scorpius."

Ela desligou na cara dele, muito descrente que ele fosse ter a atitude de ir ao aeroporto SÓ para se despedir da Zoe. Rose estava cansada. Cansada de Scorpius, cansada de Londres, cansada de tudo o que passou ali naquela cidade.

Ele saiu da festa depressa e enfrentou o trânsito até o aeroporto. Conseguiu chegar a tempo, afinal de contas, ele não queria que Rose tirasse Zoe dele. Foi, talvez, a única atitude importante que ele fez naqueles tempos. A única atitude que realmente surpreendeu Rose.

Zoe estava com os pezinhos balançando na cadeira quando viu a figura conhecida de Scorpius no meio da multidão de pessoas apressadas com seus vôos. Ela não esperou o pai se aproximar, e pulou para correr até ele com aquele jeito todo desnorteado, como de alguém que ainda estava se acostumando com as artimanhas de correr. Rose estava distraída com um panfleto e não viu a menina se aproximar do pai. Foi um desespero gigante não vê-la ao seu lado, por isso um inevitável alívio escorreu por seu corpo quando a viu nos braços de Scorpius.

"Pode me esperar onde estiver, tá bom?"

"Estados Umbigos!" ela exclamou, alegre, erguendo os braços. Ela tinha o sorriso mais incrível de todos, o sorriso mais lindo. Ergueu a blusinha rosa e mostrou o próprio umbigo para Scorpius, apertando o dedo indicador nele.

"Você é a coisinha mais incrível, vou sentir sua falta."

"Olha... Avião" ela mostrou, apontando para o avião lá fora, encantada.

Ele deu um beijo no pescoçinho dela, já que ela estava com o queixo erguido olhando para o teto, os olhos parcialmente arregalados de admiração.

Zoe abraçou o pai e encostou a cabeça no ombro dele, quando Rose se aproximou. Sentindo o calor da filha em seus braços, e um afeto que ele não tinha de mais ninguém, Scorpius encarou Rose e quis perguntar: "por que tão fodidamente longe?" Mas ele conhecia aquela expressão dela. A certeza, a decisão, coisa que Scorpius nunca teria nele. Rose estava decidida, e os motivos eram apenas motivos dela.

"Querida, nós já precisamos ir."

Quando Scorpius devolveu a filha para Rose, doeu uma parte dentro dele, mas talvez fosse melhor assim. Ele não era e nunca seria o melhor pai, o melhor exemplo, e Rose merecia seguir qualquer sonho que ela tinha. Onde quer que ela fosse. Scorpius tinha dinheiro para visitar a coisinha quando pudesse. Não era uma despedida dramática, mas não seria mais a mesma coisa... Ela estaria longe, em outro continente, em outro país.

Ajeitando-a de volta nos braços, Rose disse a Scorpius:

"Eu te mando uma mensagem assim que chegarmos. Com o endereço e tudo."

Ele podia traduzir aquilo como "você é ainda o pai dela, então trate de vê-la".

"Obrigado."

"Tchau."

Rose puxou a mala para se aproximar de Al e Dominique e se despedir de cada um deles com um grande abraço. Por trás dos ombros da mãe, Zoe abanou a mão.

"Tchau papai."

Ele acenou de volta. Zoe ficou fazendo gracinhas para ele até elas entrarem na cabine da classe econômica. Com as mãos no bolso, o rapaz assistiu as duas irem embora. Sentiu um vazio incontrolável e murmurou quando elas não estavam mais em seu campo de visão.

"Tchau, coisinha."


Rose abriu os olhos com a lembrança do que aconteceu naquela noite. Sentiu o calor ao seu lado da cama e, quando se virou, era Scorpius Malfoy. Ele estava de bruços, os olhos fechados, inofensivo. Ambos separados por uma pilha de lençol que também cobriam-lhe a cintura. Nunca era bom sinal acordar ao lado dele. Principalmente sem roupas. Mas ela falharia se tentasse se arrepender... e talvez esse fosse um grande problema.

Não queria pensar em problemas. Ela se inclinou para tentar achar o celular dentro da calça jeans que estava caída perto da cama. Voltou a encostar a cabeça no travesseiro e quando acendeu o celular, a tela brilhante a ofuscou. Com os olhos cerrados, verificou o horário. Eram apenas nove horas...

Nove horas?!

Escutou um barulho na cozinha.

– Merda. Merda.

Levantou-se depressa, procurando qualquer calcinha ao seu alcance para vestir. Colocou um robe e saiu do quarto.

Nunca costumava acordar esse horário. No momento em que Rose cruzou a sala, coçando os olhos, viu a filha em cima da cadeira para alcançar o copo na gaveta da parede. Zoe estava se virando na cozinha.

– Eu... não... alcanço! – disse Zoe com esforço, esticando o bracinho.

Rose a ajudou pegar o copo para ela com facilidade. Deu-lhe um beijinho de bom dia, carinhosa, para depois mandar:

– Sai de cima da cadeira.

– Mãe, quando eu vou ficar alta que nem você? – perguntou Zoe chateada, tentando colocar o leite sem derrubar na mesa. Rose sempre assistia a isso com certa aflição, só se preparando para o pior e esperando o melhor, mas gostava de dar essa liberdade a filha de colocar suas coisas sozinhas.

– Não vai demorar muito – garantiu quando Zoe apoiou a caixa de leite de volta a mesa sem desastres.

– Ralph Thomas diz que eu vou ser sempre baixinha – contou, bebendo o leite.

Rose colocou um pouco para ela também.

– Ralph Thomas é um verdadeiro chato.

– É o que eu digo a ele.

Rose parou a caneca nos lábios, preocupada.

– Você diz a ele que ele é chato?

– Ele diz que eu sou chata – deu de ombros. – Então eu falo também.

Agora entendia porque a professora pegava tanto no pé nas reuniões.

– Vocês vão acabar se casando – suspirou Rose, provocando.

– Eca! Nunca! Eca! Mãe! Nunca!

– Querida, você vive falando desse Ralph Thomas. E eu tenho certeza que ele só te provoca porque ele gosta de você.

– Eca! Nunca! Eca! Mãe! Nunca!... gosta?

– Uhum.

Zoe pensou e decidiu:

– Mas eu não gosto dele.

– Sem problemas. Você tem idade para gostar de chocolates, não de garotos.

– Quando eu vou ter idade para gostar de garotos?

– Quando você tiver quarenta anos, mais ou menos.

– Quanto tempo falta?

– Faça as contas, oras.

Zoe nunca negava um desafio. Quando a menina foi pegar a folha e a caneta no quarto, acabou se esbarrando com a última pessoa que esperaria ver aquela hora do dia:

– Paaaaaai?

Scorpius tinha saído do quarto de Rose ajeitando a gola da camisa. Depressa, Rose foi até os dois a tempo de fazer uma expressão alarmante a Scorpius, negando veementemente com a cabeça para que ele não dissesse nada. Achou que a filha ia perguntar algo constrangedor, mas Zoe não deu atenção as suas curiosidades.

O que importava era que Scorpius estava ali, por isso, ela se adiantou para um abraço bem forte.

Só depois, é claro, que a menina perguntou:

– O que você estava fazendo no quarto da mamãe?

– Já escovou os dentes, Zoe? – disfarçou Rose, meio que a empurrando até o banheiro.

Rose se virou para Scorpius e, de tudo o que poderia dizer depois da noite que tiveram, as próximas palavras foram até melhores:

– Estou preparando um chá. Você quer?

Ele respirou e respondeu, com um sorriso leve:

– Parece bom.

Durante o preparo do chá, Rose sentiu o olhar dele por todo o seu corpo e talvez Scorpius fosse se aproximar para agarrá-la com um beijo no pescoço dela – porque essa era a vontade dele, e a vontade ficava maior quando ela prendia o cabelo daquele jeito. Mas Zoe entrou na cozinha de novo, contando para o pai:

– Pai, sabia que vai demorar... – verificou a folhinha – trinta e três anos... para eu gostar de garotos?

– Só isso? – ele brincou e, nesse momento, o celular dele vibrou no bolso. Scorpius se levantou para atender a ligação na sala.

– Você tá namorando o papai? – cochichou Zoe para Rose.

Como ela não tinha respostas para essa pergunta, Rose mostrou a língua para ela, e Zoe retrucou. Faziam caretas uma para a outra, divertidas, quando Scorpius voltou para a cozinha. A expressão não mais relaxada. No entanto, a voz estava baixa.

– Eu preciso ir.

Talvez porque eles transaram e isso gerava alguma conexão entre eles, mas Rose não precisou que ele dissesse outra coisa, já sabia o que tinha acontecido, pelo olhar dele. Scorpius era expressivo no olhar. Nas palavras, não, mas no olhar sim. Às vezes.

– Papai, você não quer comer com a gente?

– Hoje não, coisinha. Meu avô morreu.

Rose desejou ter avisado Scorpius sobre dar notícias assim para Zoe. Não dizendo na lata, tão diretamente, como ele acabara de fazer. Zoe ficou calada e toda a sua animação de ter o pai de manhã com elas se esvaziou como água em uma peneira.

– Agora tenho que resolver-

Foi surpreendido pelos bracinhos da filha ao redor da cintura dele. Ela tinha os olhinhos cerrados quando Scorpius olhou para baixo.

– Está tudo bem, Zoe. Ele já estava muito doente e... foi melhor assim.

Zoe não soltou ele. Odiaria ver o papai triste.

– Zoe...

A menina estava com os olhos brilhantes de tão aguados. Ela passou as costas da mão embaixo dos olhos quando tirou os braços ao redor de Scorpius. Ele se agachou a altura dela e ajudou a tirar as outras lágrimas. Ele ficou um pouco surpreso pela filha ter tido tal reação com a notícia, uma vez que ela não passara muito tempo com Lucius.

Mas ela sabia o que ele quis ser quando era criança e isso era mais do que qualquer outra pessoa sabia sobre Lucius Malfoy.

– Eu gostei do vovô Lucius – confessou a menina.

– Ele também gostou de você – garantiu Scorpius, e isso não era mentira. – Agora eu preciso ir... para cuidar de algumas coisas que ele me pediu, e eu prometo que assim que tudo isso passar... eu vou só ficar com você.

Ele se levantou e se aproximou de Rose, que sussurrou:

– Eu sinto muito.

Ele não respondeu, mas a surpreendeu com um beijo nos lábios. Ela não teve tempo de reagir muito, ele já a tinha soltado. Não havia o que dizer, o que fazer por ele, mas nenhuma das duas, Zoe e Rose, tinha a noção do que elas passavam para ele.

Força, muita força.