Capítulo 21

"Charity... o que está fazendo aqui!".

A prostituta fitou o irmão que a recebera com não muito prazer. Mesmo com a distância relativa, sentia o forte odor de bebida e de cigarros. E a aparência de Jack também não era uma das melhores, já que dois círculos negros estavam sobre os olhos violetas, fazendo-o parecer um guaxinim. Mas é lógico que ela não ia compará-lo com um roedor.

"Está feito".

"O que está feito, mulher!", ele gritou e ao vê-la recuar, pousou a mão sobre a própria testa e continuou, com o tom desolado. "Desculpe. Eu não estou muito bem".

"O que houve?".

"Perdi o emprego".

Charity não pôde deixar de sentir pena e quando ergueu a mão para tocá-lo no rosto, ele impediu seu movimento. "Jack, como isso aconteceu?".

"Eu abordei uma secretária de maneira incorreta, se me permite suavizar o termo", ele deu um meio sorriso. "A garota deu parte ao chefe e ele prometeu não me delatar à polícia se eu partisse. Acredito que não queria manchar a mínima fama daquela merda de escritório".

Os olhos da prostituta tornaram-se repreensivos. "Cometeu uma estupidez".

"Se for me dar uma bronca, pelo menos faça isso dentro de casa", a jovem assim o fez e o advogado notou que ela não trazia nenhum de seus pertences. "Cadê suas roupas?".

"Não surgiu oportunidade de pegá-las", a loira retirou o chapéu e sentou-se sobre uma das cadeiras espalhadas no pequeno apartamento. "Eu matei Amy, Jack".

"Ótimo".

Ela meneou a cabeça, os olhos se enchendo de água. "Não foi ótimo. Só Deus sabe o quão me doeu ver a garotinha morrer, sem ter nenhum tipo de culpa, e...".

"Ora, pare com isso!", Jack a interrompeu. "E também não diga o que Deus sabe, pois Ele não sabe de nada. Eu sei o que é matar pessoas inocentes, e nem é tão ruim como diz".

"Como não?".

O advogado deu de ombros. "É um trabalho como qualquer outro", estreitou os olhos sobre ela. "E então? Como Sakura recebeu a notícia?".

"Não tive tempo de averiguar", afirmou. "Mas deve ter ficado traumatizada".

"E o que vai fazer agora?".

"Bem, eu...".

Jack irritou-se. "Não sabe o que vai fazer!".

"Não me pressione, maldição!", a loira ergueu-se e passou a mão pelos cabelos, exasperada. "Eu pensava que estaria bem mentalmente para dar o próximo passo, mas preciso de um tempo para reorganizar minhas idéias", suspirou pesadamente ao finalizar a frase.

"Tem pouco tempo, minha querida", ele tragou um pouco de fumaça e depois perguntou, com evidente interesse. "E Syaoran?".

Charity deu um sorriso triste. "Ele foi atacado por um gatuno e ferido, mas Matt conseguiu salvá-lo antes de...", ao perceber que ele ocultava um sorriso, finalmente entendeu o que se passava. "Foi você, não foi, seu maldito! Foi você que o atacou!".

"Contar seria uma jogada tola, irmã. Afinal... sua paixonite por ele é uma pedra no meio do caminho", cansado de ficar em pé, ele também puxou uma carteira e sentou-se ao lado de Charity. "Eu já sei o que é que você vai fazer".

"Ah... e o que seria?".

"Voltar para o Candy Pleasures".

"A morte de Amy, certamente, foi creditada a uma garota que fora encarregada da tarefa de lhe dar banho. Mary", se conhecia o caráter covarde da menina, Mary deveria ter fugido para bem longe, sem planos de volta. "E se bem conheço Sakura e o bando de trouxas que a seguem, ninguém notou minha ausência".

"Perfeito. Quando regressar ao Candy Pleasures, pode receber uma boa notícia".

"Qual?".

"Um suicídio".

"Ué... de quem?".

Os olhos de Jack tornaram-se raivosos. "Você não está usando a cabeça, Charity! Como assim, 'de quem'! Obviamente de Sakura! É você quem vive dizendo que a menina é a verdadeira razão de viver dessa prostituta, não é!".

"Tá, tá, tá, calma", aproximou-se da janela e pelo seu vidro, observou o movimento da cidade. "Se Sakura está morta... Matt ou Tomoyo assumirão o controle do bordel".

"Matt...", o nome foi pronunciado nos lábios do advogado com um desprezo sem igual. "Foi o maldito que salvou a vida de seu amado, não foi?".

"Ele mesmo".

"Esse garoto vai me pagar. Só que a morte é pouco para ele... vou fazer com que sofra. E muito", sorriu. "Você é espertinha... sabe alguma coisa sobre ele que possa me ajudar, não sabe?".

"Bem... Matt está tendo um caso com a cantora do Candy Pleasures. Nina. Se a machucasse...".

"Tenho sede de sangue", Charity virou-se e percebeu que as pupilas de seu irmão estavam quase vermelhas e a pele do rosto, numa tonalidade parecida. "Quero matá-la a minha maneira. Fazer ele ter certeza de que fui eu, o Estripador, a assassiná-la".

"Aquela derrama de órgãos novamente?", suspirou, distraidamente. "Isso me enoja".

Ouviu passos pesados mas antes que pudesse fazer qualquer movimento, a grande mão de Jack estava apertando-a no pescoço, erguendo-a com tanta força que era difícil respirar. "Enoja, maldita! Você foi a culpada! Me apresentou ao sangue, agora dependo dele! Se for necessário, matarei. Se não for necessário, matarei também! A culpa é sua! Sempre sua! Por não conseguir realizar seus trabalhos sujos e mandar-me fazê-los!", os dentes cerraram-se e ele a atirou contra o chão. "Não me desafie, Charity. Você não tem idéia do quanto posso ser perigoso".

Charity fitava o monstro em que seu irmão acabara de se transformar. Ainda custava a acreditar, por isso, quando sentiu as marcas de dedos em seu pescoço, seus olhos arderam em lágrimas.

"Levante-se, Charity. E não ouse chorar. Não me lembre dessa sua fragilidade. Não combina com você".

Levantou-se. Não por que ele pedira, e sim porque estava espantada demais para realizar qualquer outro tipo de ação. O choro rolou pelo rosto e o limpou com força, deixando a pele branca avermelhada. Era uma mulher forte, não iria dobrar-se diante dele. Amava Jack. Mas não aquele que quase asfixiara, há poucos segundos.

"Eu... eu... voltarei a fazer contato".

"Quando a menina morrer... a tal de Nina... pode vir me procurar. Antes, mantenha distância daqui".

Assentido, Charity deixou a fria casa. Não sabia o que esperar ao chegar no bordel. Mas qualquer reação seria bem melhor do que debulhar-se em lágrimas na frente do irmão.

-/-

Candy Pleasures, pela primeira vez em anos, estava deserto. Duas ou três prostitutas trabalhavam, enquanto as outras dúzias fofocavam, sem nada mais útil para fazer. Charity entrou e assim que pôs os pés no salão principal, uma prostituta a abordou.

"Esteve fora tanto tempo, querida... não deve estar a par das novidades".

"Só se forem boas me interesso a ouvir".

"Talvez sejam boas para você. Afinal, seu ódio por Sakura nunca foi segredo".

Não acredito... Seria fácil demais me livrar dela dessa maneira... Sakura não pode ter morrido!

"Amy está morta".

Conte-me uma novidade, idiota.

"Não parece surpresa, Charity".

"De fato, não estou", comentou. "Ela era uma criança privilegiada por ser filha de quem era. Motivo de inveja de muitas prostitutas aqui. Alguém iria atentar quanto a sua frágil vida".

"Bem, mas não é só isso", a outra continuou. "Sakura tentou se matar. Felizmente, aquele chinês delicioso a salvou... foi um drama lá em cima. Com direito a lágrimas e todo o tipo de romantismo barato que possa imaginar".

Syaoran estava realmente, ajudando-a. Sem intenção, obviamente. Se Sakura se matasse, sua vingança por não ter alcançado o posto seria extremamente rápida e indolor. Queria um sofrimento tão grande para a cortesão que nem a morte poderia ser considerada a salvação.

"O chinês vem buscá-la", finalmente, os olhos castanhos de Charity mostraram algum interesse. "E Sakura está te procurando. Quem sabe ela não vai dar o Candy para você? Afinal... ela não seria tonta de não partir com Syaoran...".

A prostituta deu risadinhas e juntou-se novamente a suas amigas. Não percebera que a loira estava estática, no mesmo lugar onde a deixara.

Era como se houvesse montado uma fileira de dominós e Syaoran aparecesse e a derrubasse. Um castelo de cartas caindo pelo simples sopro do vento.

Como reerguê-lo?

Subiu as escadarias com pressa. As próximas palavras de Sakura poderiam ser decisivas, não podia dar-se ao luxo de esperar.

Bateu de leve na porta do quarto da cortesã. Escutou-a dizer, calmamente. "Entre".

Conhecia Sakura faz anos. Já a vira em momentos terríveis, quando toda a sua beleza era substituída por seu interior apodrecido e triste. Comum era que uma prostituta assim fosse, afinal, não havia beleza em um mundo de entregas forçadas.

Mas naquele instante, quando adentrou no aposento, vendo a imagem deteriorada da Sakura, sentiu-se a mulher mais bonita do mundo. Perfeita, ousava dizer. Pois o que descansava sobre a cama era um fantasma de cabelos escorridos, olheiras profundas. Um retrato em preto-e-branco, mal feito e abstrato.

"Queria falar comigo, Sakura?".

"Onde esteve anteontem? Muitos homens estavam procurando por sua companhia".

"Cuidando de assuntos pessoais, minha querida", respondeu sem maiores detalhes.

"Não é a postura que eu esperava de você".

"Postura? Desde quando uma prostituta tem postura?", usou de ironia, sentando-se perto da cortesã. "Mas... parece que alguém aqui também não tem cumprido com seu dever, não é mesmo?".

"Apesar de você já estar ciente do que me ocorreu, devo admitir que tenho sido negligente", os olhos verdes de Sakura adquiriram um brilho nada usual. Pelo menos não para a loira. "E sei que não poderei cumprir mais".

"Que tristeza...", o que aquela mulher estava dizendo! Ela iria mesmo embora com Syaoran?

"Charity, o que eu vou lhe falar agora é muito importante. Trate de prestar atenção", a loira fez uma fingida posição de compenetração. "Por anos, minha mãe cuidou do Candy Pleasures com um esmero jamais visto. Quando ela morreu, eu assumi tal tarefa por saber ser necessário, por saber que muitas prostitutas despediam do funcionamento do bordel. Porém... depois da morte da minha filha, não vejo motivo para continuar no comando. Não tenho nem forças para tanto. Então, tenho uma proposta a lhe fazer".

"Faça".

"Ofereço-lhe o Candy Pleasures. As prostitutas, o prestigio, a adoração... tudo o que sempre sonhou. A única condição é permita-me trabalhar aqui, assim como Matt, Nina, Tomoyo... as pessoas que você não simpatiza mas que significam muito para mim".

"O... o...", por mais que se esforçasse, tudo o que conseguia era balbuciar. Havia comandado inúmeros assassinatos, cometido até um, para poder ganhar o controle do bordel que tanto idealizava. Sakura estava lhe entregando seu objetivo mais pelejado, provando inútil seu esforço. Isso só fazia com que a loira odiasse-a ainda mais. Sempre, direta ou indiretamente, ela estava destruindo seus planos.

Era o tipo de oportunidade, no entanto, que não seria sensato deixar passar. E ter Sakura e Tomoyo, duas lindas prostitutas, em seu bordel era lucro certo, então, mandá-las embora não seria viável. Matt era um bom pianista, mas tão logo partiria quando Jack matasse Nina. E no fim... Candy Pleasures progrediria, num mar de luxúria incessante, o qual ela sempre sonhara comandar.

"Aceito sua oferta", afirmou com um ar triunfante. "E continuará a trabalhar aqui. Mas apenas como uma mera prostituta".

"É somente isso que eu quero".

"Além do mais...", Charity levantou-se e deu uma olhada considerável para o quarto bonito. "Pode desocupar a cama. Usará as roupas de outras prostitutas, por que eu ficarei com seus pertences".

Sakura não discutiu, nem a olhou, quando se levantou, a duras penas, para sair do seu ex-aposento. Mas antes que saísse, a loira a interrompeu com uma pergunta que não calava em seu ser. "Por que eu? Não somos amigas, é obvio que me odeia. O que a levou a deixar o que construiu para mim?".

"Por que... você é uma vagabunda, Charity", a prostituta virou-se para vê-la e notou a expressão altiva de Sakura, como a de uma rainha que acabara de perder sua coroa, mas jamais sua realeza interior. "Um bordel como Candy Pleasures não pode ser oferecido a alguém que não tenha entregado o corpo a todos os homens de Londres. E é isso que você tem feito desde que chegou aqui".

"VAGABUNDA É VOCÊ!", pegou o primeiro vaso ao alcance de suas mãos e atirou em direção a Sakura, mas esta já havia fechado a porta e tudo que aconteceu foi o espatifar do objeto contra a parede. Charity correu até o local, abriu a porta e continuou a gritar. "EU VENCI, EU SEMPRE VENÇO! DEMOROU ANOS, MAS ISSO TUDO É MEU! TUDO! TUDO! SEUS PERTENCES, SEUS CLIENTES MAIS RENOMADOS... O HOMEM QUE VOCÊ AMA TAMBÉM!", a jovem ruiva ainda atravessava o corredor, mas parou diante daquela afirmação. "SYAORAN NÃO A PROCURARÁ NUNCA MAIS! NUNCA! ELE NÃO VAI QUERER UMA MERA PROSTITUTA! VAI QUERER EU, QUE SOU UMA CORTESÃ! UMA CORTESÃ DE VERDADE! ENTÃO, ENGULA ESSAS SUAS PALAVRAS E ESSE SEU ORGULHO PORQUE NO FIM, VOCÊ PERDEU TUDO!".

Ouviu uma risada leve, como se tudo aquilo que exclamasse fosse um tremendo absurdo. Sakura desceu as escadarias e Charity entrou em seu novo aposento, ofegante, quase enlouquecida.

Mas vitoriosa.

Sentou-se na penteadeira e tocou de leve todos os pertences cheirosos, bem cuidados. Com um ar sonhador, repetiu o pronome que começava a adorar. "Meu... meu... meu...".

Continua...

Konbawa, minna-san!

Antes que comecem a atirar pedras em mim, ou até objetos maiores (Como monitores de computador), quero explicar-lhe o motivo da minha demora. E dessa fez, foi um motivo sério.

Por causa de um maldito vírus, perdi metade de meus arquivos. Isso inclui músicas, fotos, programas... e fics, logicamente. Candy Pleasures estava entre eles e os 5 capítulos novos que eu havia feito perderam-se. E escrevê-los tem sido difícil. Perdi ótimas frases, ótimas cenas que eu não sei se poderei reconstituir com a mesma graciosidade. Mas eu vou tentar, juro. Primeiramente porque amo meu fic e depois, por respeito a vocês, que tem uma paciência sobre-humana comigo!

Espero também que compreendam que o fic tomou um rumo completamente diferente do que eu esperava a início. Só algumas pessoas sabiam de meus novos planos e a elas eu agradeço pela força que tem me dado!

E para aqueles que não entenderam o porquê de Sakura ter entregado Candy Pleasures, juro-lhes explicar no próximo capítulo... Provavelmente, os deixará com muita raiva também, mas... Paciência. –Sorriso cruel-

Infelizmente, parece que os reviews não estão podendo mais ser respondidos. Por isso, farei uma pequena menção ao nome dos meus leitores. Qualquer coisinha, é só me mandar um e-mail, tudo bem?

Hotaru-chan, Sayuri (Nee... todos querem tentar me matar... XD), Lilaclynx, Kiky-chan (Seja bem-vinda de volta, hehehe! E eu sei que eu só má!), Andreia, Ray-chan (Adorei te conhecer, fofa! ), Kaf-chan (Não o use o Syaoran demais... eu ainda preciso deles nos meus fics! p), Saori Higurashi, Akane Tendou, Littledark, Rafinha Himura Li Kaoru Ying (Ah, você tem um lugarzinho reservado no meu coração! Seus reviews sempre me emocionam e eu não vejo a hora de poder falar com você! Beijos!), Anaisa (Não precisa se desculpar, querida! O importante é que você comentou! Beijos!), M. Sheldon (Ehhhh, voltou, voltou! \O/ Tava com saudade de você, linda! E o seu comentário foi maravilhoso, eu adorei... você é super atenciosa! Eu vou lá comentar no seu fic hoje mesmo, viu? Pode esperar!), Juju (E aí? Te assustei ainda mais?XD), Lanah, Violet-Tomoyo (Ah, minha amiga, e tende a piorar. Eu sou apaixonada por histórias angsts... e ainda via vir muito mais tristeza para se lamentar no meu fic... Obrigada pelos elogios, viu?), Lowny-chan, Myleny-Mymy, Linelam,Nina (Maninha! \0/), Merry-anne (Mommy, eu ainda vou aprontar muito, hehehehe!), Larri Gaby, Lan Ayath, TenTen Chan (Adorei de coração seus elogios, viu? Obrigada mesmo!), Kayra Hiyana (Bom, acho que não esperava por isso, esperava... deve estar querendo me matar agora... ), Lillyth-chan, Kagome-LilyE, Miaka Hiiragizawa (Minha amiga maravilhosa, obrigada por tudo, viu? Tô morrendo de saudade de você!),

28 reviews... uau!

Acabei respondendo alguns do mesmo jeito... u.u

Valeu, minna-san!