Capítulo 20


Vôo 399 da Air Canada

Em algum lugar sobre a Pennsylvania

8:31 p.m.

Mulder olhou para fora da janela para o chão, a 35.000 pés abaixo. O sol se pôs uma hora atrás, deixando a terra na escuridão, mas a noite estava clara e as luzes das cidades passando eram claras e distintas.

Ele de repente se lembrou de outro vôo, dois anos atrás. Daquela vez ele sentara ao lado de um agente do Consórcio, um homem que tentou persuadi-lo... como ele colocaria isso? Mulder fechou os olhos e se concentrou um momento... e então lembrou.

"Olhe para fora da janela, Agente Mulder," o homem havia dito. "Vê as luzes? Agora, imagine que uma dessas luzes se apague. Você mal notaria, não é? Uma dúzia... duas dúzias de luzes apagadas. Vale a pena sacrificar o futuro, as vidas de milhões, para manter algumas luzes acesas?"

Mulder não ficou chocado com a declaração; de fato, ficou incomodado, e a viu como uma distração, parte do esforço do homem para recuperar o artefato alienígena que Mulder havia recuperado por cortesia de Max Fenig. E então o homem do Consórcio sumiu, junto com o artefato, e Mulder perdeu nove minutos de sua vida. De novo.

Mulder tentou tirar as declarações do homem da cabeça, e havia conseguido esquecer grande parte. Não negava que havia uma certa sedução sobre isso, mas, mesmo quando ele acordava suando no meio da noite, Mulder era capaz de mantê-los à distância. Até a noite que ele foi confrontado por C.G.B. Spender no apartamento de Diana Fowley. A noite do massacre de El Rico.

Novamente ele permitiu seus pensamentos voltarem. Mulder havia ido ao apartamento de Diana, tentando confirmar ou negar as alegações que Scully fizera contra ela. Ele não achou nada concreto, mas como disse à Diana no final daquela tarde, no fim, a prova o encontrou, na pessoa do Canceroso. E as palavras que o homem disse – aquelas palavras foram devastadoras.

Mulder foi levado quase ao limite naquela noite. A conexão pessoal que ele havia construído com o velho Spender através dos anos – indiretamente, apesar das associações do homem com o pai de Mulder, e também por sua própria conta – haviam dado à palavra do Fumante um peso que faltou nas do agente do Consórcio, no avião, dois anos atrás.

Mulder tentou resistir, tentou lutar e insistir no que ele acreditou, por anos, ser a verdade. Mas, no fim, ele não havia sido forte o suficiente, e somente Scully havia sido capaz de tirá-lo do abismo.

"Uma moeda por seus pensamentos?"

Ele abriu os olhos e viu Andy olhando para ele curiosa, com talvez um pouco de preocupação nos olhos. Ele forçou um sorriso. "Não sei se eles valem isso," ele respondeu. "Só bobagem."

"Uh-huh." Ela continuou olhando para ele, uma expressão de análise no rosto. Então: "Mulder? Como você acabou em tudo isso, afinal de contas? Você e Dana?"

Mulder lhe deu um meio sorriso sentido. "O envolvimento de Scully é fácil de explicar," ele disse. "Ela foi designada para me espionar." As sobrancelhas de Andy se ergueram, e ele continuou, "Falo sério. Algumas pessoas em altos escalões do governo – ou fora dele, a linha é meio nebulosa aqui às vezes – algumas dessas pessoas aparentemente sentiram que eu estava fazendo pouco progresso nos Arquivos X. Então, eles a mandaram para reportar minhas atividades e desacreditar meu trabalho."

"Mas ela não fez isso." Era mais uma afirmação do que uma pergunta.

Mulder riu. "Na verdade, fez, sim – mas não do jeito que eles queriam. Como você provavelmente deve ter notado, Scully sempre leva seu trabalho muito a sério, e ela fez o mesmo com sua designação para os Arquivos X." Os cantos da boca dele se torceram em diversão. "Infelizmente, para as pessoas que a designaram, ela insistiu em procurar em *todas* as provas e então chegar a suas próprias conclusões."

Andy assentiu. "Parece mesmo com Dana," ela disse, devolvendo o sorriso dele com um dela.

Mulder assentiu em resposta, e de repente sentiu que estava se abrindo com a repórter de um modo que não havia feito antes. Era bom ter alguém para conversar sobre tudo isso, ele percebeu. Ele vinha mantendo muita coisa para si mesmo por muito tempo, e precisava falar. Ele podia falar com Scully sobre muitas coisas, mas ele não tinha ninguém com quem falar *sobre* Scully.

"De qualquer modo," ele disse, "a versão curta é que eu não esperava que ela durasse muito tempo – nenhum dos meus parceiros anteriores durou mais do que alguns meses. Não acho que ela esperava ficar lá por muito tempo, também. Mas então... eu não sei. Coisas aconteceram. Houve... mudanças. E antes que eu soubesse, ela estava envolvida, ao ponto de eu achar que era inconcebível continuar sem ela." Ele sorriu um pouco, um pouco sem graça por ter falado tanto. Certamente não parecia com ele.

Andy assentiu novamente, e pareceu perdida em pensamentos por um momento. Então, ela olhou para Mulder. "Mas e sobre você?" ela perguntou. "Você parece ser a força motora nisso tudo. Como *você* se envolveu? Qual seu motivo?"

Mulder olhou para ela atentamente por um momento, tentando decidir o que contar. Havia tantos níveis para a pergunta dela – mais do que ele mesmo suspeitaria, há alguns meses. Ele não tinha certeza de qual resposta ela procurava, e ele não queria enganá-la com uma resposta incompleta.

Ainda assim, tudo se resumia a uma coisa no final. Tão importante quanto Scully era para ele, o quanto ela havia se tornado o centro indispensável de sua vida, Samantha ainda fora o ímpeto que o levou a começar com isso. E era provavelmente o melhor jeito de começar.

Ele suspirou, e rapidamente disse, "Tudo começou com minha irmã."


Georgetown

9:37 p.m.

Scully soltou um suspiro aliviado quando abriu a porta e entrou no seu apartamento escuro. Enfim só, ela pensou à toa, torcendo um canto da boca em diversão quando tirou os sapatos e foi até seu quarto se trocar.

A reunião de quatro horas e meia com Skinner havia sido cansativa, para dizer o mínimo, entre explicar especificamente o que ela e Mulder haviam descoberto e explicar como e por que Jeff Spender e Andy Baker haviam se envolvido. Skinner facilitara com relação a Andy, não levantando objeções uma vez que Scully o informou da posição militar da repórter e a checagem de antecedentes, que voltou limpa.

A reunião foi útil para decidir o que, exatamente, ela e Spender fariam em seguida. Skinner havia, bastante relutantemente, aceitado as explicações do ex agente com relação ao seu desaparecimento, concordando que agora não era a hora para se preocupar com protocolos.

Acordos de vôo foram um pouco mais problemáticos. Scully ligou rapidamente para os Pistoleiros, somente para descobrir que, o vôo que Mulder e Andy tomaram para o noroeste de Quebec, era o último até domingo. Ela teria que encontrar transporte alternativo para ela e Spender.

Para sua surpresa, assim que ela abordou o assunto, Skinner se ofereceu para ajudá-los com os vôos. O D.A. até sugeriu que poderia arranjar um local seguro para Spender passar a noite, mas o ex agente recusou.

"Prefiro me arrumar sozinho," ele disse, não oferecendo mais explicações.

Então, Scully foi deixada sozinha, andando pelas ruas familiares entre a sede e seu apartamento, com movimentos bem praticados. Pareceu ser quase um dia normal.

Com exceção de que não havia nada normal sobre isso.

Quando chegou ao seu quarto, os passos de Scully ficaram lentos. A última peça de informação dada por Skinner foi a que mais a perturbou.

Instintivamente, sua mão subiu para esfregar a pequena cicatriz na base de seu pescoço enquanto ela se lembrava do relatório dele: quase duzentos carros foram encontrados abandonados esta manhã, numa área remota perto de Springfield, Illinois. Alguns foram deixados ligados, a maioria com as luzes ainda acesas, mas não foram achados rastros de ninguém na área – morto ou vivo.

Scully sabia o que o relatório significava. As pessoas perdidas deveriam ser todos ex abduzidos, perfeitamente feitos para serem anfitriões de quaisquer criaturas que estivessem sendo desenvolvidas. Ela e Mulder discutiram a possibilidade, e, aparentemente, estavam certos.

Ela quis saber quantos seriam necessários para reabastecer completamente para os planos deles. E quanto tempo levaria.

Memorial Day seria em quase duas semanas.

Perdida em pensamentos, Scully entrou em seu quarto, e parou no meio dele, o olhar preso à mala que estava ao pé da cama. A mala era parte de um conjunto que os pais dela lhe deram de Natal, no ano anterior ao falecimento do seu pai, e ela a usava mais do que as outras peças. Era do tamanho perfeito para carregar sapatos, lingerie e cosméticos suficientes e outras necessidades para uma semana na estrada, e como sua mala de roupas, quase nunca estava vazia.

A mala esteve com ela no Oregon, na Flórida por várias vezes, no Kansas e Texas e no Novo México e na Califórnia e até no Triângulo das Bermudas. Sua mente sobrepôs um mosaico de adesivos locais no couro fino, contando a história dos anos passados na estrada, buscando respostas que ela precisava achar tão desesperadamente.

Agora, ela estava prestes a levá-la para o que poderia ser a última viagem a qualquer lugar. Porque se eles estivessem corretos sobre o que aconteceria nas próximas duas semanas, não haveria mais viagens depois disso.

Deus. Por que ela tinha que finalmente pensar nisso agora, aqui, quando estava sozinha no quarto escuro e vazio? Ela geralmente apreciava seus períodos de solidão, tirando forças do tempo passado sozinha. Ela havia sido grata, a princípio, por ter pelo menos algumas horas sozinha, desacostumada a passar tantas horas consecutivas na companhia de outras pessoas.

Mas ela queria essa companhia agora. Almejava por ela. Sua imaginação criava em sua mente uma imagem fria e totalmente devastada, paisagens estéreis com humanos sendo escravizados por criaturas além de sua imaginação, e ela não queria ficar sozinha com seus pensamentos.

Ela não queria acreditar. Ela não queria tal coisa no reino das possibilidades, até mesmo nos mais extremos. Ia contra tudo que ela sabia, jogado contra sua ciência e sua religião, e a idéia de que ambas estivessem erradas ou incompletas era o suficiente para abalá-la completamente.

E ela estava sozinha. Isolada. Separada da única coisa que poderia ajudá-la no meio de todo esse caos.

Ela precisava de Mulder. E ele não estava aqui.

Ela sabia que estava sendo irracional. Mas isso não mudava o modo como ela se sentia.

Forçando-se a sair desse transe, Scully resolutamente se preparou para ir dormir. Ela mudou de roupas metodicamente, pendurando cuidadosamente seu terno e blusa mal usados, alinhando seus sapatos no seu local de costume, na segunda prateleira do armário. Ela vestiu uma calça de moleton usada e uma camiseta, então entrou no banheiro para lavar o rosto e escovar dentes e cabelo.

Seu estômago roncou quando ela levou a escova até a boca, e ela quase riu alto. Como seu corpo queria comida agora, com sua mente em tal bagunça que todas as atividades diárias se tornaram uma luta?

Mas lógica venceu a preocupação, e ela guardou a escova de dente para ir comer alguma coisa.


Motel Fleur de Lys

Montreal, Quebec, Canadá

9:59 p.m.

Pelo que parecia ser a centésima vez nos últimos quatro dias, Mulder encostou-se à cabeceira da cama e assistiu as imagens na tela da TV do outro lado do quarto.

O vôo pousara no Aeroporto Internacional Dorval há 30 minutos, e para surpresa de Mulder, eles passaram pela burocracia rápida e facilmente, nem mesmo suas armas causaram dificuldades. Então, eles pegaram um táxi para o motel, e, após a chegada, Andy fora direto para a cama, por esgotamento.

Mulder estava exausto, também, mas ele duvidava que seria capaz de dormir. Falar tanto com Andy sobre Scully – e Samantha –, deu-lhe certa liberação, mas também trouxe suas emoções perto da superfície, e o deixou se sentindo vulnerável e sozinho.

Ele fechou os olhos e suspirou em resignação. A única vez em que ele conseguiu dormir bem nas últimas duas noites foi quando Scully estava dormindo ao lado dele – e como foi que *isso* criou essa dependência? Ele se deu bem por anos dormindo sozinho – ou, pelo menos, se acostumou com isso. E agora aqui estava ele, pouco mais de 72 horas após o pequeno, mas definitivo passo que ele e Scully deram um para com o outro, e ele se sentia vazio porque ela não estava aqui.

Mulder se mexeu levemente na cama. Esta noite não era realmente diferente do que outras centenas de noites que ele passou em campo, ele disse a si mesmo. O mesmo quarto ruim de motel, mesmo colchão duro, mesmo termostato que sempre parecia manter o quarto quente ou frio demais. Nada diferente mesmo.

O que era, é claro, uma besteira completa. Tudo era diferente sobre esse caso, desde as conseqüências medonhas de falhar, assomando só em pouco mais de duas semanas, ao fato de que a mulher errada estava dormindo do outro lado da porta de conexão.

Uma ótima mulher... mas a mulher errada.

Sem realmente perceber como isso aconteceu, Mulder se viu segurando seu celular, o dedo apertando o primeiro botão de discagem rápida. Ele ligaria para Scully, ele pensou. Ele lhe diria que ele e Andy chegaram bem e onde eles estavam hospedados, e ele precisava de um resumo de sua reunião com Skinner.

Não era tão tarde, só alguns minutos depois das dez horas. Apesar de nenhum deles estar dormindo muito nos últimos dias, seria compreensível se ela desmoronasse na primeira oportunidade.

Ele continuou encarando seu celular por mais um minuto antes de se dar conta do quanto estava sendo ridículo. Há quatro dias ele não hesitaria em ligar para ela, mesmo sabendo que ela *estava* dormindo, ou numa reunião, ou ocupada de outra forma. Há quatro dias, ele provavelmente ligaria para ela assim que chegasse ao motel; de fato, nunca lhe ocorreu *não* ligar.

Há quatro dias, no entanto, eles não haviam somente embarcado num caso de amor. Essa era a diferença, é claro.

Droga. Ele estava sendo ridículo. Ele realmente *precisava* conversar com ela, sobre o caso e por razões pessoais. Ela havia entrado na cama com ele na noite anterior, e na anterior também; com certeza, ela não viria um simples telefonema como sendo muita intromissão.

Colocando mais determinação no gesto do que realmente sentia, Mulder apertou o botão de discagem rápida.

Ela atendeu no terceiro toque. "É você, Mulder?"

Ele sentiu um peso do qual nem tinha se dado conta sair de seus ombros. Uma dúzia de respostas impertinentes voou pela mente dele, mas ele rejeitou todas elas. "Sim, sou eu," ele disse. Ele parou um segundo, então disse, "Só queria que soubesse que chegamos aqui. E estamos num pulgueiro chamado Motel Fleur de Lys; você iria adorar isso aqui."

Ele ouviu uma risada no outro lado da linha, mas soou mais forçada do que verdadeira, e os cabelos da nuca dele se arrepiaram. Algo estava errado.

Ele afastou o pensamento de sua mente. Como algo poderia estar errado? Ela estava em Washington, provavelmente em seu apartamento. Ela estava bem.

Ela tinha que estar bem.

"Então," ele disse, constrangido. "Como foi a reunião com Skinner?"

Houve uma pausa breve antes de ela responder? Mulder não tinha certeza. "Foi bem," ela disse. "Melhor do que eu esperava, em algumas coisas. Descobrimos que o vôo que você e Andy tomaram era o último até domingo, mas Skinner vai nos ajudar a conseguir um. Para mim e Spender, quero dizer."

"Isso é bom." Maldição, *havia* algo errado; ele podia ouvir na voz dela. Algo a chateara, ou estava chateando. Se ao menos ele pudesse ver os olhos dela...

"Mulder, não estou indo muito bem."

Mulder afastou o celular da orelha um momento e o encarou em choque. Jesus! Ela realmente *estava* se abrindo com ele. Ele encostou o telefone de volta.

"Scully?" ele perguntou, a voz suave. "O que foi?"

Houve um momento de silêncio, e ele quis saber se ela estava pensando duas vezes. Finalmente, ele ouviu um suspiro fundo do outro lado da linha. "Mulder, Skinner confirmou o que parece ser uma abdução em massa, perto de Springfield, Illinois," ela disse, parecendo um pouco perdida. "E eu voltei para casa, e estava pensando em comer algo e ir para a cama." Ela parou, então continuou, "Então, eu estava aqui no meu quarto, e estava escuro, e..."

A voz dela vacilou, mas Mulder permaneceu quieto, esperando ela concluir seu raciocínio. Finalmente, ela soltou, "Mulder, eu estou... assustada. E... sinto sua falta. Queria que estivesse aqui."

Mulder engoliu uma massa que se formou em sua garganta. Ele procurou freneticamente algo para dizer; ele vinha esperando esse momento há anos, e não queria arruiná-lo.

"Queria estar aí também, Scully," ele disse, finalmente. "E queria poder dizer que não há razão para ter medo."

"Eu sei." Outro momento de silêncio. Enfim, ela disse, "Mulder?"

"Sim, Scully?"

"Vai mesmo acontecer, não vai?"

Ele hesitou, então respondeu, "Sim, acho que vai."

"Eu também." Mais silêncio. "Mulder, eu não quero acreditar. Por que tem que ser assim?"

"Eu não sei, Scully. Só uma daquelas coisas que acontecem, eu acho." Deus, ele queria estar lá com ela. Queria segurá-la em seus braços; ambos precisavam de conforto. Mas ela estava longe. Ou ele estava.

"Acho que sim." Houve outro momento de silêncio, e Mulder fechou os olhos e ouviu a respiração dela.

Finalmente ela disse, "Mulder, acho melhor eu ir. Ambos precisamos dormir."

Após uma hesitação das mais breves, e na voz mais doce, ela acrescentou: "Eu te amo."

E então a conexão foi cortada.

E ainda demorou muito tempo até Fox Mulder finalmente conseguir dormir.