Squalo
Sua vida não era uma daquelas vidas regadas a arrependimentos.
Não havia espaço para certos pensamentos, principalmente aqueles que envolviam ações precipitadas e escolhas mal-feitas. No mundo da Máfia não existia o recomeço ou o "voltar atrás". Um erro poderia custar sua vida. Um pisão em falso, uma palavra dita na hora errada, e as coisas jamais seriam as mesas. E se havia alguém que entendia muito bem o significado de tudo aquilo, era Squalo. Ele havia aprendido do jeito mais difícil que certas coisas não retornavam e que era melhor tomar uma decisão certa e demorada, do que algo impulsivo e que acarretaria consequências drásticas não somente para si, mas para àqueles ao seu redor.
Ser parte de uma Família significava mais do que meia dúzia de idiotas que ouviam e obedeciam a cada um de seus comandos, independente do quão absurdo ele soasse. Ser o Vice-Líder de algo grande como a Varia significava muito mais do que ser o Braço Direito e escudo do Chefe principal. Ser o amigo de infância de um homem excessivamente preocupado e gentil significava muito mais do que precisar ouvir baboseiras e dividir garrafas de vinho enquanto recordavam o passado. Todos esses papéis o homem de longos cabelos prateados conhecia. Ele sabia como se portar em cada um deles. Não havia novidades ou imprevistos.
Entretanto, se havia um papel que ele não tinha a mínima ideia de como interpretar era o de amante. E, nesse quesito, o Vice-Líder era definitivamente uma falha.
Squalo ergueu o rosto e fechou os olhos, respirando fundo. O ar estava quente e abafado, e, embora a janela de seu quarto estivesse aberta, não havia brisa ou vento que fizesse aquele calor desaparecer. Estamos no fim do verão. Não é como se magicamente o clima fosse mudar. O homem de cabelos prateados detestava dias quentes. Ele desejava que a Varia tivesse sedes em vários países, assim ele jamais precisaria enfrentar os verões. Aquele mês de agosto, em especial, estava sendo insuportavelmente quente, com direito há dias cujos termômetros marcavam pouco menos de 35º. A mansão em nada ajudava. A sede principal da Varia era uma gigantesca casa de três andares, localizada em Roma. Ela ficava em uma área dedicada às casas de campo, mas não havia nenhuma outra propriedade no raio de quilômetros. O jardim se perdia aos olhos, e até mesmo carros tinham problemas com as estradas de terra.
O Vice-Líder suspirou novamente. Ele teria passado mais algumas horas sentado em sua cama, soltando suspiros aqui e ali, se seu estômago não tivesse roncado pela segunda vez. Squalo ficou em pé, dando um passo à frente no mesmo instante. Sua cabeça estava leve e seus reflexos ruins, resultado de cinco copos de whisky. Eu deveria ficar aqui e pular o jantar. Nada bom vai sair daquela refeição. A mão direita esticou-se para pegar a jaqueta de couro, vestindo-a sem emoção. Estava quente, mas ele não sairia vestido de qualquer jeito.
Fora do quarto a temperatura parecia a mesma, mas o barulho se tornou audível. Não seria preciso prestar muita atenção para imaginar o que acontecia na sala de jantar. O Vice-Líder deixou os botões da jaqueta abertos e começou a caminhar, sentindo seus passos mais firmes e menos cambaleantes. O gosto do whisky ainda era forte em seus lábios, e tudo o que ele queria era comer alguma coisa e retornar para o seu quarto, único lugar em que ele sabia que poderia se martirizar pelo que havia feito sem parecer visivelmente idiota.
O salão de jantar estava extremamente bem iluminado quando Squalo entrou. O local em si era gigantesco, mas apenas a parte central era usada. Havia um tapete xadrez que forrava aquela área, e uma longa mesa de madeira escura. As cadeiras eram acolchoadas e os detalhes remetiam à alguma época antiga, pois o valor que Xanxus pagou na mobília era simplesmente irreal. Ele sempre foi uma pessoa cheia de exageros. As cadeiras estavam ocupadas por todos os membros da Família e isso incluía o moreno. Seu lugar era o da ponta, em frente à porta, e foi daquele local que o homem de longos cabelos prateados se sentiu observado ao entrar.
"VOOOOOOOOI!"
O Vice-Líder empurrou os dois lados da porta, entrando e chamando a atenção para si. Mammon pareceu ficar surpreso, e Levi engasgou com o que quer que estivesse em seu copo.
"O que você faz aqui? Ninguém te chamou." Bel respondeu enquanto tentava enfiar um pedaço de frango na boca de Fran. O pobre garoto havia sido adotado há alguns anos, mas, aos olhos do Vice-Líder, ele mais parecia um fantoche nas mãos do Guardião da Tempestade.
"Querido, você está atrasado." Lussuria parecia ser o único que se importava com sua presença ali, mas Squalo sabia muito bem o motivo do interesse. O homem de cabelos verdes levou os ósculos até a ponta do nariz, oferecendo uma charmosa piscadela enquanto ele passava. Eu preciso começar a ficar alerta.
O homem de cabelos prateados sentou-se em seu lugar costumeiro. Ao contrário do que poderia ser pensado, ele não escolhia o lado direito de seu Chefe. O Vice-Líder sempre preferiu o esquerdo, então a cadeira à sua frente sempre esteve vazia. Xanxus tinha o prato mais ou menos cheio, e sua mão segurava uma generosa taça de vinho. O moreno não o encarou ou lançou nenhum olhar em sua direção. É assim que deveria ser. É esse o tipo de relação que devemos ter.
A primeira coisa que Squalo fez foi encher sua taça com álcool. O líquido desceu por sua garganta sem gosto. Havia frango, pernil, carnes, massas e patês sobre a longa mesa, mas o Vice-Líder não fez menção de ir tão longe. Sua mão direita pegou a primeira travessa diante de seus olhos, servindo-se de lasagna. O molho estava forte e rico, do jeito que ele gostava. A cada garfada engolida, em seguida, dois grandes goles de vinho desciam por sua garganta. Quando a lasagna desapareceu de seu prato, três taças já haviam sido bebidas e sua cabeça começava a rodar.
Havia conversa, ele conseguia prestar atenção pelo menos nisso. Bel e Mammon discutiam sobre alguma coisa, enquanto Fran utilizava esse tempo livre para comer sem ser importunado. Levi dizia algo para Lussuria, mas, como ambos estavam em extremidades opostas, suas vozes soavam baixas, quase sussurros. O homem de cabelos prateados levou a mão até a travessa onde estava o frango assado, mas seus reflexos estavam péssimos. Sua mão passou rente à peça de vidro, e ele errou por mais algumas vezes até finalmente conseguir segurá-la. O frango não tinha gosto de nada por causa da bebida, mas ele não abriu mão de seu vinho. Pouco a pouco seu prato se tornou limpo novamente, e foi somente naquele momento que Squalo tomou coragem para erguer os olhos e encarar o homem sentado à sua direita.
Xanxus estava recostado confortavelmente em seu assento. A cadeira era alta e macia. O Vice-Líder sabia disso porque ele já sentara naquele local. A última vez foi no começo do ano. Squalo se lembrava muito bem daquele dia. O moreno o possuiu sobre aquela mesma mesa por três vezes antes de subirem até o quarto. E, naquela noite, meses depois daquela recordação, o Chefe da Varia o olhava com uma expressão enigmática enquanto segurava sua taça de vinho. O homem de cabelos prateados manteve o olhar por alguns segundos, mas logo seus olhos se abaixaram e ele terminou o vinho em sua taça, ficando de pé e decidindo que sua noite havia terminado.
Lussuria fez algum comentário que ele não ouviu, Bel jogou algo em suas costas, porém, em momento algum o Vice-Líder parou ou olhou para trás. Seus passos se mantiveram firmes até que ele deixasse a sala. Longe dos olhares do restante da Família, Squalo se permitiu caminhar desequilibrado como ele realmente queria. A subida até o segundo andar foi entre tropeços e andares tortos. O corredor pareceu mais longo, e nunca a entrada de seu quarto esteve tão distante. Quando a porta foi finalmente aberta e o homem de cabelos prateados entrou, o sossego e o silêncio o receberam de braços abertos.
Squalo jogou-se na cama e afundou o rosto em um de seus cinco travesseiros. As coisas não estavam bem. Definitivamente havia algo sério acontecendo, mas ele não entendia. Eu não deveria estar me sentindo assim. Eu não fiz nada errado. O álcool parecia transformar aquelas lembranças em algo tão vívido que o Vice-Líder conseguia recordar claramente daquela noite. O cheiro do quarto, o cheiro do homem em seus braços, o gosto do beijo, a sensação dos toques, o som de sua própria voz ao ser possuído... tudo. Porém, a pior parte não era a lembrança em si. A pior parte era saber que aquele homem não fora Xanxus.
Aquela noite aconteceu há cinco dias. Não havia nada de memorável ou especial na escolha. Um bar, vários copos de whisky, um belo e charmoso sorriso. Um quarto de motel e pela primeira vez Squalo permitiu que outro homem além de Xanxus o possuísse. A experiência não fora de todo ruim. O homem – que ele não lembrava rosto, nome ou nada relevante além dos cabelos levemente longos e negros – era experiente. Seus movimentos, porém, foram bem mais contidos e gentis do que os do Líder da Varia, e o homem de cabelos prateados ficou surpreso ao perceber que havia outras formas de fazer sexo além do jeito forçoso e egoísta de seu ex-amante.
Trinta minutos. Por trinta minutos ele permaneceu naquele motel e depois Squalo retornou para a mansão.
Trinta minutos. Por trinta minutos ele tomou um longo banho ao chegar, tentando retirar aquele cheiro de sua pele e torcendo para que o efeito da bebida passasse logo.
Porém, foi preciso apenas trinta segundos para que o arrependimento o envolvesse por inteiro e o Vice-Líder entendesse de que nada adiantou ter se afastado de Xanxus. O problema não havia sido solucionado.
Acontecera há pouco mais de um mês, a noite em que o homem de cabelos prateados expulsou o moreno de seu quarto. Naquele dia Squalo realmente achou que seria violentado por seu ex-amante, e a ideia não o assombrou como deveria, apenas o incomodou, como se ele fosse o lado frágil e que necessitasse proteção. Desde aquele dia Xanxus não voltou a procurá-lo. Os dois só se falaram uma semana depois e o assunto foi exclusivamente profissional. A missão contra os Moretti foi um sucesso, e, embora estivesse com certo receio de que seu Chefe fosse cooperar, no final, o homem foi pego, torturado e havia cantado os nomes de todos os envolvidos no golpe antes de ser enviado inconsciente para Vindice. Independente se aquela ação mudara o futuro, já não havia mais nada que Squalo pudesse fazer além de esperar. Dino avisou que entraria em contato quando tivesse suas certezas, e por todos aqueles dias o Vice-Líder esperou. Entretanto, e agora? O que ele faria agora que a situação havia pseudo-sido-resolvida? Até quando ele e Xanxus manteriam aquela muda trégua?
Pensar em seu ex-amante nunca era uma ideia muito positiva. Por 13 anos o homem de cabelos prateados foi condicionado às atitudes e corpo daquele homem. O moreno nunca foi gentil, desde a primeira vez; vez esta que aconteceu no próprio escritório dos Vongola. Depois daquela tarde, a cena voltou a se repetir no dia seguinte e no seguinte, e durante todos aqueles anos não houve conversa ou explicações. O Vice-Líder só foi conhecer o prazer com uma mulher anos depois, mas não importava quantas passassem por sua cama, no final da noite era sempre Xanxus. Era para a cama dele que o homem de cabelos prateados iria quando precisava fazer realmente sexo. As mulheres não eram ruins, mas elas necessitavam de certos cuidados e gentilezas que Squalo simplesmente não se dispunha. Isso sem falar nas cobranças. Aquela era a pior parte. Se ao menos as mulheres fossem todas mudas...
O Vice-Líder não soube quando seus dedos abriram os botões de sua calça, ou quando sua mão deslizou eroticamente até seu membro. Ele só sabia que suas imagens mentais haviam mudado das mulheres que ele dormira para o Chefe da Varia o possuindo com fúria em uma tarde de outono. Os gemidos tornaram-se mais constantes conforme o homem de cabelos prateados entrava no clima. Seu corpo tornou-se quente e ele se desfez da jaqueta, virando-se e afundando o rosto no travesseiro. Não é suficiente, pensou Squalo ao perceber que somente com aquilo ele não chegaria ao orgasmo. E a quem ele queria enganar? Seu corpo já estava condicionado a necessitar de um segundo estímulo, e aquela certeza apareceu há cinco dias, quando o homem de cabelos prateados dormiu com o homem desconhecido. Não houve clímax, pelo menos para ele. O homem teve seus dois momentos de glória, mas tudo o que o Vice-Líder conseguiu foi... nada. A mão que masturbava seu membro movia-se com pressa e facilidade graças ao pré-orgasmo. O cotovelo do braço esquerdo apoiou-se ao travesseiro e sua cabeça ergueu-se um pouco. Seus gemidos soavam roucos, implorando por algo mais. A bebida e a excitação ofuscavam a visão de Squalo, e em determinado momento ele começou a delirar, tamanha a expectativa. Primeiro foi a grande e pesada mão que tocava suas pernas, depois a língua que subiu por suas costas e os dentes que mordiam seu ombro, mas sem força, apenas pressão. O homem de cabelos prateados gemeu ainda mais alto quando sua calça pareceu ser retirada e seus lábios sorriram com a vivacidade daquela erótica fantasia. E então, seu corpo se virou, ou melhor, foi virado.
Dois grandes e profundos olhos castanhos o fitaram diretamente. A mão do Vice-Líder parou o que fazia, e sua expressão congelou. Seus olhos estavam arregalados e seu coração batia tão rápido que ele tinha certeza de que era possível ouvi-lo fora de seu peito. Não era delírio. A mão, a língua, a mordida... eram reais. Xanxus estava sobre ele como um animal, um leão, que mantinha a presa imobilizada. Sua expressão era branca, mas seus olhos emitiam um perigoso e erótico brilho que levou uma onda de arrepios pelo pálido corpo de Squalo. Ver aquele homem sobre ele, grande, forte, moreno e extremamente sexual fez com que sua respiração aumentasse. Há um mês ele não sentia aquela proximidade. A respiração quente e pesada do moreno, o toque de suas mãos e principalmente o sabor e textura de seus beijos. Ele vai me comer vivo, Squalo teve certeza absoluta ao encarar aqueles olhos.
"Tire sua camisa."
A voz saiu rouca e baixa. O Vice-Líder moveu as mãos devagar, subindo a barra da camisa branca que vestia e retirando-a sem nenhuma ação drástica. Seus olhos permaneceram o tempo todo fixos no homem que estava por cima, temendo que qualquer coisa que fizesse de errado pudesse acarretar uma punição.
"Eu vou comer cada pedacinho seu, Lixo." Xanxus falava devagar e a ponta de um de seus dedos tocou os lábios do homem de cabelos prateados, contornando aquela área. "Eu vou lamber e beijar aonde eu quiser, e eu vou te foder a noite inteira. Eu permito que tire o dia de folga amanhã. Você vai precisar."
Squalo precisou reaprender a respirar, pois, do momento em que aquelas palavras chegaram aos seus ouvidos, o mundo pareceu simplesmente parar. Seu entorno desapareceu, seus pensamentos, suas dúvidas e sua raiva. Tudo isso pareceu insignificante e totalmente desnecessário. Sua cabeça moveu-se em positivo e seus olhos se abaixaram, seguindo o homem que estava por cima. Suas pernas se afastaram por instinto, e quando os lábios do Chefe da Varia tocaram seu mamilo direito, o homem de cabelos prateados entendeu porque não havia chegado ao clímax na semana anterior.
Seria difícil cantar aqueles doces gemidos para outro alguém, porque não havia outro alguém. Não existia outra pessoa que pudesse fazer seu corpo tremer, quase em estado choque simplesmente porque brincava com seus mamilos. Xanxus conseguia. Aquele homem mordeu e beijou os mamilos do Vice-Líder até a pele estar vermelha. A língua do moreno desceu por seu abdômen, deixando um visível rastro de saliva. Quando chegou mais embaixo, Squalo sentiu a respiração totalmente descompassada, esperando o grande momento. Mas não. O Chefe da Varia não seria gentil ou bondoso. Os beijos desceram para o interior da coxa esquerda, onde seu ex-amante correu a língua por toda aquela pálida extensão. O mesmo aconteceu com sua coxa direita, e, após alguns minutos de tortura, o Vice-Líder estava quase implorando por alívio. O que ele tanto queria aconteceu, eventualmente, e Squalo não se lembrava da última vez que sentiu sensação mais prazerosa.
O estímulo começou lento, uma desnecessária provocação para alguém como Xanxus. Aquele homem não pedia, ele tomava. Não era preciso aquele nível de demora ou até mesmo gentileza. A língua do moreno movia-se devagar, de cima para baixo e de baixo para cima. Uma das mãos ajudava com os movimentos e após alguns segundos a ereção de Squalo sumiu dentro da boca de seu ex-amante. O Vice-Líder quis gritar ou simplesmente virar o rosto para o lado à medida que saboreava aquele momento, mas não conseguiu. Seu pescoço estava levemente inclinado e ele assistia ao que Xanxus fazia, enquanto dois grandes olhos castanhos o fitavam, hipnotizando-o. A cada movimento Squalo se aproximava mais e mais de seu clímax. Ele começava a sentir os arrepios subindo-lhe pelas costas e fazendo-o tremer levemente. A ponta de seus dedos do pé movia-se lentamente pela roupa de cama de seda, que naquela noite era vinho. Quando seus lábios gemeram um pouco mais alto, a mão direita esticou-se, tocando o ombro de seu ex-amante, como uma espécie de aviso. O Chefe da Varia, porém, não parou o que fazia e pela primeira vez em 13 anos os olhos do homem de cabelos prateados viram, ou melhor, não viram claramente o momento em que Xanxus não se moveu. O orgasmo veio forte, e por um momento Squalo pensou em virar o rosto, mas manteve-se firme. Havia algo muito mais interessante para ver: a maneira como a garganta do moreno moveu-se duas vezes, engolindo o que havia recebido; a língua que subia e descia pelo membro, procurando não perder nada, como se cada gota fosse um desperdício. O Vice-Líder deixou a cabeça tocar o travesseiro depois de alguns segundos. Seus olhos encararam o teto e ele queria sorrir, mas tudo o que conseguiu foi manter a respiração nivelada.
Squalo sentiu quando Xanxus arrastou-se sobre ele. Suas mãos seguraram o rosto daquele homem e ele não soube de onde tirou forças para puxá-lo para um longo e profundo beijo. As mãos do moreno o seguraram com força, fazendo com que os dois corpos se encontrassem com certa fúria. Muitas roupas. Ele ainda continua vestido. O homem de cabelos prateados correu a mão direita pela camisa que seu ex-amante usava, puxando-a com força e ouvindo os botões serem arrebentados. A risada do Chefe da Varia ecoou pelo quarto, e só serviu para o desejo do Vice-Líder se tornar ainda mais forte. Seus dedos correram até o baixo ventre do homem que estava por cima, tocando, sentindo e apertando a ereção. Eu o quero. Squalo subiu a mão, abrindo a camisa de Xanxus em um único puxão e empurrando-o para baixo. O moreno ajoelhou-se na cama e se livrou da camisa, jogando-a em um canto do quarto. Suas mãos seguraram o corpo do homem de cabelos prateados, fazendo-o se ajoelhar também e beijando-o com vontade logo em seguida. O beijo dessa vez pareceu mais profundo e só serviu para inflamar a chama que já queimava no peito do Vice-Líder. Sua mão direita empurrou o moreno contra a cama, mas Xanxus o segurou pelo braço, empurrando-o de volta e virando-o com pressa. O homem de cabelos prateados afundou o rosto no macio travesseiro, juntando as sobrancelhas por um momento ao ouvir o barulho de uma gaveta sendo aberta. O quê?
Era frio. A primeira sensação que Squalo sentiu foi a temperatura fria do lubrificante, mas isso foi somente no primeiro instante. O dedo do Líder da Varia o invadiu devagar, mas forçoso, fazendo-o morder os lábios para não gemer. Ele estava tão desacostumado a utilizar lubrificantes que estranhou a pouca dor e a facilidade com que o dedo moveu-se dentro dele. Por que ele está sendo... gentil? O Vice-Líder apertou a mão boa, agarrando uma parte da roupa de cama e puxando-a com mais força ao sentir o segundo dedo penetrá-lo. A dor foi pouca, quase imperceptível. Seu corpo começava a reagir ao prazer, e a sensação que ele tinha era de que sua pele estava em chamas.
O terceiro dedo o invadiu, trazendo de volta a ereção do homem de cabelos prateados, e por um breve momento ele se permitiu sentir totalmente o que estava acontecendo. Os dedos que se moviam dentro dele, sua própria respiração alta, seus gemidos... mas principalmente a figura do moreno, que estava em seu quarto novamente depois de tudo o que havia acontecido. Quando os dedos foram retirados, o corpo de Squalo foi virado e suas pernas afastadas com certo erotismo. O Vice-Líder sentiu o peito subir e descer conforme sua respiração se tornava pesada. Xanxus estava sem camisa, as cicatrizes marcando sua pele e fazendo aquele homem parecer extremamente desejável. O moreno abriu o zíper da calça de couro, guiando seu membro até a entrada do homem de cabelos prateados e penetrando-o sem hesitação. A voz de Squalo saiu rouca e transbordando desejo. Seu pé direito correu a roupa de cama, deslizando pela seda e procurando alguma espécie de alívio para aquela excitação. A segunda estocada, porém, foi devagar, quase respeitosa. O Chefe da Varia retirou-se por completo, apenas para penetrá-lo lentamente. Aquela nova sensação fez o Vice-Líder virar a cabeça que estava sobre o travesseiro, sentindo cada segundo de tormento. Seus olhos se entreabriram, fitando o homem que havia se inclinado sobre ele e que o penetrava novamente e com a mesma velocidade vagarosa.
Os dois se olharam o tempo todo. Os lábios do homem de cabelos prateados estavam entreabertos e gemiam sem pudor, mas seus olhos permaneceram bem abertos. Seu corpo vibrava com aquele contato, percebendo que o mês de abstinência que ele tivera de Xanxus só serviu para deixá-lo mais e mais sedento por aquele contato... por aquele homem. Entretanto, havia algo em Squalo, uma raiva contida, humilhação e outros sentimentos negativos que o fez juntar as sobrancelhas e virar o rosto. O homem entre suas pernas continuava a se mover, e, embora seu corpo estivesse suscetível e incrivelmente compatível com aquele exercício, a realidade o acertara no pior momento.
"Não é isso o que você queria?" A voz do Chefe da Varia o fez virar o rosto e olhá-lo surpreso. "Ser tratado como uma mulher?"
Os lábios do Vice-Líder se entreabriram, e sua expressão se tornou indignada. O que era aquilo? O que estava acontecendo?
"O que você quer, Lixo? Que eu o coma devagar? Que eu puxe a cadeira quando você for sentar? Que eu abra a porta do carro e me humilhe?" A voz do moreno estava séria. Havia um sádico sorriso em seus lábios, mas seu corpo não parou um segundo sequer. "Você quer que eu enxote as mulheres da minha cama e o que mais? Ah, eu sei..." Cale-se! "Você quer que eu diga que te amo... certo?"
A última palavra foi dita com tanto desdém que Xanxus não conseguiu evitar rir. A gargalhada ecoou alta e rouca pelo quarto e o peso da humilhação caiu sobre Squalo, quase o massacrando. Seus dentes se cerraram e sua mão boa fechou-se em forma de punho, e naquele momento ele desejou ter sua espada em mãos. O álcool ainda era presente em seu sangue e provavelmente foi aquilo que o deixou tão... ousado.
"Vá para o inferno, Xanxus!"
Mesmo com apenas uma das mãos realmente funcionando, o Vice-Líder empurrou o homem que estava por cima, mas não para que ele saísse da cama, apenas o suficiente para que as posições fossem invertidas. O homem de cabelos prateados ficou por cima, tentando não gemer quando seu quadril sentou-se sobre o membro de seu Chefe. Sua mão direita fechou-se e acertou o colchão, rente ao rosto do homem que estava por baixo. O moreno parou de se mover, e, quando Squalo ergueu o rosto, os olhos que o encararam não pareceram surpresos, apenas sérios.
"Sim! Eu quero ser bem tratado e dai? Eu não sou uma prostituta, que você fode e depois manda embora. Sim! Eu quero respeito, eu não estou nessa posição por obrigação e você sabe muito bem disso. Sim! Eu quero que pare de comer aquelas vagabundas que só estão interessadas no seu dinheiro. Você se enfia nas pernas de qualquer mulher disponível, mas depois termina na minha cama. Por que diabos você não ficou ali desde o começo!?" As palavras saíram como um carro desgovernado em uma ladeira. Não havia freios, não havia como parar. A colisão era inevitável. "Se você não consegue fazer isso então vá procurar outra pessoa porque eu não tenho interesse."
Quando o discurso terminou o Vice-Líder respirou fundo. Há quantos anos aquilo tudo esteve reprimido? Provavelmente desde sempre. Dizer aquelas palavras foi como libertar uma fera que passou tempo demais enjaulada, esperando apenas a primeira oportunidade para correr livre. Se ela seria abatida e morreria tentando fugir, isso ele não fazia ideia, mas se lembraria sempre da sensação de pura liberdade e igualdade que sentiu ao fechar os olhos e erguer o quadril, sentando-se novamente na ereção de seu ex-amante. Duas mãos subiram pelas pernas pálidas do homem de cabelos prateados e ele abriu os olhos. Xanxus tinha um enigmático sorriso nos lábios, e por breves segundos não disse nada. As mãos subiram até a cintura do homem que estava por cima, e, quando a segurou, Squalo só sentiu seu corpo ser puxado para baixo. As posições se inverteram de novo, e dessa vez o Chefe da Varia o penetrou sem aviso ou delicadeza. O Vice-Líder gemeu, sentindo a nuca ser inclinada para trás e tentando não fazer escândalos. Aquela era uma conversa séria, não? Mesmo que eles estivessem presos um no corpo do outro.
"Certo." Foi a resposta que o moreno deu antes de penetrá-lo novamente; dessa vez com o dobro de força. "Eu deixo de procurar as vagabundas, mas eu quero ver se você conseguirá cumprir o seu lado da barganha." A voz do moreno soou mais rouca. Seu orgasmo estava próximo. "Mas ouça bem, Lixo." Uma das mãos de Xanxus foi direto para o pescoço do homem que estava por baixo, apertando-o com força. "Eu sei que você andou brincando por ai. E se eu souber que você abriu as pernas novamente eu te mato, entendeu?" Os olhos negros brilharam e naquele momento o homem de cabelos prateados tremeu. Ele conhecia aquele olhar melhor do que ninguém e seu Chefe não estava blefando. Aqueles olhos sem vida sempre apareciam antes que o moreno saísse para um massacre. "Eu te mato, eu juro. Você é meu. Meu Lixo."
Squalo tossiu freneticamente quando a mão saiu de sua pele. O ar lhe faltou e ele teve certeza absoluta que havia ganhado uma marca roxa em seu pescoço. É uma coleira, pensou o Vice-Líder, colocando a mão boa na garganta. Ele está marcando seu território.
"Certo." A voz do homem de cabelos prateados saiu rouca e ele segurou o pescoço do homem que estava por cima, porém, com menos força. "O mesmo vale para você. Se eu souber que você andou fodendo por ai, eu te mato, Maldito!"
Xanxus abaixou os olhos e sorriu. O sorriso se transformou em uma sonora gargalhada e naquele momento o Vice-Líder soube que estava arruinado. A risada era gostosa, mas ao mesmo tempo transbordava sadismo, como se fechasse um estranho e perturbador íntimo contrato. O Chefe da Varia o penetrou novamente e novamente, e aqueles eróticos movimentos eram acompanhados por sua risada. O homem de cabelos prateados não conseguia fazer outra coisa além de gemer. Era difícil manter a sanidade quando o moreno estava entre suas pernas, possuindo-o e devorando-o como se ele fosse um prato extremamente saboroso. Sua mão boa desceu até seu próprio membro, masturbando-o com pressa e buscando o alívio final para aquelas estocadas fortes e violentas. O orgasmo veio em poucos segundos, e, como ele esperava, Xanxus não parou. Aquela, na verdade, era uma constante quando faziam sexo. O Chefe da Varia passava praticamente a noite dentro dele, em um interminável ciclo de prazer. O clímax do moreno veio três estocadas depois, seguido por um gemido rouco e que mais parecia um urro saído de um animal selvagem.
Squalo nunca fez amor em 27 anos. Ele não fazia ideia do que aquilo significava. Seu primeiro contato sexual foi Xanxus, e em nenhum momento aquele homem demonstrou o menor nível de consideração ou contenção. As mulheres que passaram pela cama do Vice-Líder também poderiam se encaixar nesse grupo. Ele sempre deixava os motéis após o orgasmo, então de certa forma compreendia a sensação de se sentir descartável. Entretanto, quando o assunto era o Chefe da Varia – e, agora, oficialmente seu amante – a coisa era diferente. A sensação de ser apenas um buraco em que o moreno usaria para prazer o incomodava em sua atual situação, mas não costumava sequer passar sua mente no passado. Os anos serviram para construir algo entre eles. Um mudo acordo, um silencioso entendimento, uma espécie de paixão doentia e possessiva que não necessitava de uma compreensão racional. E essa realização fez Squalo abrir os olhos, ainda ofegante por causa do orgasmo, sentindo algo tocar seus pulsos. Sua cabeça inclinou-se para trás e ele encarou o pulso preso rente à cama e, principalmente, a algema que os mantinha junto à madeira.
"O que você está fazendo?" Foi a única coisa que o Vice-Líder conseguiu dizer. Sua voz saiu natural. Não era como se aquela fosse a primeira vez que ele era preso à cama.
Xanxus não respondeu. Seu corpo arrastou-se para baixo e sua boca envolveu o membro sensível do homem de cabelos prateados, enquanto dois de seus dedos invadiam a entrada. Não houve dor. O lubrificante e o sêmen garantiram que a penetração fosse fácil, mas o corpo de Squalo ergueu-se levemente do colchão e um gemido alto escapou por seus lábios rosados. Ele vai me torturar. Aquela ideia o fez sorrir e afastar um pouco mais a perna. O Chefe da Varia ergueu o rosto e levantou uma das sobrancelhas, recebendo um largo e satisfeito sorriso como resposta. Seus próprios lábios sorriram e um terceiro dedo invadiu a entrada do Vice-Líder, respondendo àquela provocação. Os gemidos se tornaram mais altos e roucos, e o homem de cabelos prateados sabia que só sairia daquela cama inconsciente.
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Squalo não sabia se era dia ou noite. Ele não sabia há quanto tempo havia dormido ou que dia da semana era. Seus olhos se abriram e por alguns minutos eles nada fizeram além de encarar o alto teto do quarto. Tudo doía. Suas costas, seus pulsos, seus braços, suas pernas e principalmente seu quadril. A sensação que o Vice-Líder sentia era de ter levado a maior surra de sua vida, e aquela ideia não estava tão longe da realidade. Com certo esforço o homem de cabelos prateados ergueu o pescoço, notando as inúmeras marcas de beijos e mordidas visíveis em seu corpo devido à pouca claridade. As grossas cortinas vermelhas haviam sido fechadas, então era impossível dizer que horas eram. A única coisa que tornava a ideia da surra improvável era a pessoa que dormia tranquilamente ao seu lado. Um dos braços de Xanxus estava sobre seu abdômen, marcando seu território de maneira possessiva e autoritária. O lençol havia descido até a cintura, cobrindo apenas a parte de baixo daquele homem.
A música começou baixa. No início Squalo não identificou o som, mas assim que o volume tornou-se mais alto, sua mão esquerda automaticamente correu para a cômoda, segurando o aparelho celular. Para pequenas ações aquela parte inútil de seu corpo servia. Os olhos se apertaram e demoraram alguns segundos para conseguir ler o nome que estava no visor. A claridade ofuscava seus olhos e junto com o nome o Vice-Líder também viu o horário. Sete da noite. O maldito provavelmente continuou depois que eu desmaiei. Aquela certeza veio no instante em que ele sentou-se na cama. Aquela simples tarefa, aquele movimento tão básico lhe custou muito. Cada fibra de seu corpo pareceu ranger e ele mal sentia seu quadril. Esse homem é um animal.
"Alô." A voz saiu rouca e muito mais masculina. Squalo limpou a garganta antes de continuar. "O que você quer?"
A pessoa do outro lado da linha riu e desejou um irônico "Bom dia!" seguido de um "Ocupado?". Ele sabe. Ele sempre soube. Durante todos aqueles anos o homem de longos cabelos prateados nunca havia falado sobre a relação que tinha com Xanxus, mas as pessoas simplesmente sabiam. Na própria Varia aquilo não era segredo, mas nunca nenhum deles ousou fazer qualquer comentário a respeito.
"O que você quer? É bom que seja importante, D–"
Ele não viu como ou quando, mas em um segundo ele estava com o telefone em sua orelha direita, para no segundo seguinte o aparelho voar e se despedaçar ao bater na parede do outro lado do quarto. O Vice-Líder permaneceu imóvel, notando apenas o Chefe da Varia mover-se sobre a cama como se nada tivesse acontecido. Os olhos do homem de cabelos prateados encararam os pedaços de seu celular e ele virou-se devagar, analisando os olhos frios de seu amante.
"Você não tem tempo para bater papo, Lixo." O moreno puxou o pulso de Squalo fazendo-o se deitar-se sobre ele. E mesmo com o fino lençol entre seus corpos, a ereção de Xanxus era facilmente visível.
"Você não fica cansado?" O Vice-Líder moveu seu corpo, esfregando-se enquanto suas mãos procuravam algo que deveria estar sobre a cama. Cada movimento o fazia quase cerrar o maxilar tamanho a dor que sentia.
"A ideia foi sua. Se não consegue dar conta do recado eu vou procurar quem possa."
Os dedos do homem de cabelos prateados encontraram o que ele buscava e por um momento seus lábios formaram um largo sorriso. Seu rosto abaixou-se, capturando os lábios do moreno e beijando-o com vontade. Xanxus fez menção de envolver seu corpo, mas Squalo segurou os braços de seu amante, forçando-os para cima. A algema prendeu primeiro o pulso direito, e foi um pouco complicado passá-la por trás do detalhe de madeira da cama, para então prender o pulso esquerdo. O Chefe da Varia abriu os olhos e sorriu, passando a língua sobre os lábios, antecipando o que viria em seguida. O Vice-Líder sentou-se sobre o colo de sua companhia e moveu seu quadril duas vezes, mas por mera provocação. Seu corpo voltou a se inclinar e ele pegou a calça do moreno, encontrando em um dos bolsos o que ele procurava. O sorriso desapareceu de seus lábios e em segundos seus dedos discaram um número. A expressão no rosto de Xanxus mudou drasticamente. Seus olhos se apertaram e o sorriso desapareceu.
"Ciao. Sou eu. O que você queria, Dino? Não. Eu não estou ocupado." Os olhos de Squalo se abaixaram e, ao encararem a expressão raivosa de seu Chefe, foi impossível não sorrir.
"Eu vou matá-lo, Lixo." A voz do moreno saiu baixa, rouca e entre os dentes.
"Não, não. Eu posso falar."
Squalo abriu um largo sorriso e desceu da cama, tentando ignorar a dor em seu corpo. Xanxus o amaldiçoou de todas as formas possíveis e imagináveis, mas a voz foi se tornando mais e mais distante conforme ele se afastava da cama. Pelo caminho o Vice-Líder vestiu sua calça, abrindo a porta e saindo de seu quarto, oferecendo apenas um breve aceno para o homem preso em sua cama. Ao ganhar o corredor, havia um satisfeito sorriso em seus lábios, e ele até mesmo brincou com seu amigo de infância.
"Amanhã, hm? Avise-me sobre o que descobrir. Se o plano não funcionar nós pensaremos em alguma coisa."
O corredor era comprido e, enquanto se afastava de seu próprio quarto, tudo o que o homem de cabelos prateados pensava era no demorado banho que tomaria na gigantesca banheira de Xanxus. O que seu amante diria ou faria? Se o plano funcionara? Se Dino sobreviveria? Ele poderia lidar com tudo isso depois.
E durante a caminhada pelo corredor, Squalo riu e sorriu o tempo todo. Ele estava feliz.
Continua...
