Enquanto seu pai travava uma batalha com os guardas na entrada do complexo subterrâneo, o garotinho Dean cutucava a mãe, sem obter resposta. Ele nem viu que uma pessoa estava observando toda a situação de perto.
- Lenneth?
Dean virou-se e viu Leny, com um vestido branco sujo de barro e graxa.
- Eles me chamavam de Lenneth antes.
Ignorando a garota, Dean continuava chamando a mãe.
O desespero de Dean aumentou quando viu o sangue de sua mãe escorrendo pelo piso branco. Ele gritava o nome de sua protetora.
- Então ela é minha mãe? Ela ficava me chamando de monstrenga? – disse Leny, visivelmente brava.
- Não! Ela nunca falou isso de você! A gente pensou que você estava morta! – disse Dean, levantando a voz embargada de desespero.
Ele virou-se e continuou balançando sua mãe imóvel.
Dean estava ocupado demais para perceber a revolução que acontecia dentro da cabeça da pequena Leny/Lenneth. Tudo o que ela acreditou um dia se foi. Seus pais não eram cruéis como Emma disse. E agora que Leny sabia que sempre teve pais e que foi tirada deles, a revolta começou a dominá-la. Nesses anos todos, ela sempre teve pessoas que se importavam com ela, mas eles não permitiram que Leny vivesse com sua família. Eles preferiram injetar muitas substâncias nela, usar tratamentos de choque e tortura para que a garota revelasse o que realmente era capaz.
Lenneth chorou, mas rapidamente a tristeza foi tomada pela raiva e amargura. Ela gritou. Um grito cheio de dor e ódio. Um choro alto, forte e amargurado.
Dean, assustado, olhou para trás e não acreditou no que via. Leny estava chorando com todas as suas forças, e quando abriu os olhos, não tinham mais a graciosidade dos belos olhos verdes. Agora, suas pupilas foram tomadas de um branco intenso, como se ela não tivesse olhos. A garota abriu os braços e como aqueles ilusionistas de programas de TV, Lenneth flutuou até ficar muito próxima do teto. E mesmo com toda essa manifestação, ainda não tinha tirado tudo de ruim que a garotinha sentia dentro dela.
Horrorizado, Dean viu uma névoa negra e densa se formar atrás dela. Com um movimento dos braços para frente, Leny jogou toda aquela fumaça preta adiante. Ao ver tudo aquilo, Dean só teve tempo de gritar e abraçar sua mãe caída no chão.
Sem saber de nada que acontecia no outro extremo, mais e mais guardas tentavam paralisar Leon em vão. O último grito de Lenneth ecoou por todos os corredores e chegou até eles. Em seguida, uma névoa densa e preta os atingiu. Leon se abaixou e protegeu o rosto. Quando se levantou, viu que apenas as luzes de neon de emergência estavam ativas. O restante do circuito elétrico tinha sido destruído.
O restante dos guardas, aparentemente sem ferimentos, levantaram-se lentamente.
- Que p$#%a é essa? - disse um deles quando ouviu um alarme extremamente alto.
Armados apenas com a coragem, todos ouviam passos se aproximando rapidamente.
- Parado aí! - disse Rocco, com a voz mais firme que pode fazer.
Mas o pedido não foi acatado. Aos poucos, criaturas similares a robôs apareciam. O primeiro, de vestimentas verdes, tinha os braços compridos demais, totalmente desproporcionais ao corpo. Suas mãos pareciam enormes tacos de golfe. O segundo, com uma cabeça maior do que o tronco tinha um visor vermelho no lugar dos olhos que davam contraste a roupa vermelha. O terceiro vestia uma roupagem prateada. Seu metal era mais escuro do que o dos outros, em suas costas jaziam 12 tentáculos, 6 virados para a esquerda e 6 para a direita. A ponta de todos parecia ser de um material bem afiado. Atrás do líder de prata, mais réplicas dos soldados verdes e vermelhos chegavam. Todos pararam a uma distancia dos outros seres-humanos.
Os soldados, todos em stand-by, aparentavam aguardar algum comando.
Ninguém reparou que as luzes azuis - que informavam o sistema magnético ativo - piscou por 5 segundos. As armas então, puxados pela gravidade, caíram.
Com o barulho das armas batendo no chão, parecia que o comando tinha sido dado. O robô prata emitiu um som estrondoso e os demais foram para frente com toda a força. Mais uma batalha começava. Agora, Leon se aliava involuntariamente a seus inimigos. Todos eles tinham um objetivo em comum: viver.
Rolando no chão, Leon alcançou suas Uzis e atirou num robô vermelho. Esse não ofereceu muita resistência, pois assim que foi atingido pelas balas velozes, ficou parado e depois de muitas faíscas, explodiu.
- Atirem primeiro nos vermelhos! - gritou Leon.
Os restantes dos guardas estavam correndo ou tentando atirar. Um dos robôs verdes golpeou três guardas de uma vez com suas mãos de tacos de golfe, decapitando-os em um segundo.
Enquanto todos gastavam sua munição, os robôs vermelhos e verdes caíam sem muito esforço, talvez fossem protótipos inacabados.
Quando todos eles estavam vencidos, o robô prateado estava parado no mesmo lugar onde ele ordenara a matança. Seus sistemas registraram a baixa de seus subordinados, todos explodidos e que agora a única serventia deles era iluminar o caminho feito tochas com seus restos cibernéticos.
Saindo de seu estado de dormência, ele não ficou paradinho enquanto as balas o atingiam, como as versões vermelhas e verdes faziam. Os tentáculos das costas do robô se movimentaram numa rapidez incrível. Oito soldados nem perceberam o perigo iminente até terem sido fisgados. A lança dos tentáculos atingiram os soldados abaixo do queixo, os erguendo e tornando-os um espeto. Como se não bastasse, uma carga elétrica de mais de 5000 volts foi descarregada, torrando os corpos. Aquilo parecia um churrasco bizarro e de muito mau gosto.
Leon e os outros ainda atiravam, mas nada era páreo para deter aquela invenção da engenharia quase perfeita. Quando quatro soldados na frente de Leon foram pegos, o marido de Claire rolou por baixo dos corpos, agora erguidos e sendo cuidadosamente destroçados pelo robô. O ex-RPD podia ver perfeitamente os tentáculos trabalhando de um ângulo que nenhum cineasta de Hollywood teria imaginação para um filme de horror. Leon puxou um pequeno revólver de seu colete e atirou dez pontos luminosos no suporte dos tentáculos. Os pontinhos brilhavam cada vez mais rápidos.
- Protejam-se!!!
Logo após o aviso, as dez bombas, representadas pelos mínimos pontinhos vermelhos de pisca-pisca, explodiram. O corpo robótico do líder foi despedaçado juntamente com as carcaças de suas vítimas.
