21. Retorno
Mais meses se passaram e as coisas permaneceram normais — se bem que "normal" não era um adjetivo adequado para designar uma situação como aquela.
Sam aceitara a oferta de Azazel, e bebia quase frequentemente o seu sangue, visando estar forte o suficiente quando precisasse agir. O preço daquilo, entretanto, ele procurava não pensar, bem como não comentara com ninguém acerca de qualquer palavra daquela história de beber sangue de demônio.
Louise já beirava o quarto mês de gestação, e uma barriguinha modesta, mas proeminente, já se desenhava em sua silhueta. A garota parecia não ter mais olhos ou ouvidos para o mundo exterior, fechara-se em seu próprio mundo e de seu filhinho, e nunca parecera tão feliz. A despeito do começo da gravidez, ela tornara-se dócil e afável com a irmã, o cunhado e todos à sua volta, desde que não atentassem contra o seu bebê. O que lhe entristecia, porém, era a ausência de Alastair, que não aparecera-lhe desde a anunciação da gravidez. Em seu mundo de conto de fadas às avessas, Alastair era um pai amoroso, que, certamente deveria estar muito ocupado no trabalho, por isso faltava em vê-la. E era por conta dessa conformação, que ela continuava feliz, cantante, esperando o dia em que finalmente ele resolveria aparecer para ver quão bela estava a esperar um filho seu.
Mas não foi Alastair quem irrompeu pela porta da casinha alugada de dois dormitórios, naquela manhã fria de inverno. Sam e Samantha tomavam café na sala, assistindo ao jornal matutino. Louise, no quarto, terminava de tricotar o segundo sapatinho de lã. Ele entrou sem bater, e sua expressão não denotava nenhuma alegria por estar de volta, apenas um pouco de indiferença e uma boa dose de sofrimento. Primeiro Sam abriu a boca, mas o grito ficou preso em sua garganta. Samantha imediatamente entendera a participação de Castiel naquele milagre, e não se admirou tanto quanto o namorado, que dando permissão para que os olhos chorassem antes de a boca articular uma palavra, levantou e abraçou o irmão, ignorando saber se aquilo era real, ou se tinha aquela ingrata trapaça dos sonhos bons, que costumam dissolver nas mãos do sonhador no momento do êxtase. Mas, daquela vez, a despeito de todos os sonhos e pesadelos que Sam Winchester tivera durante aquele ínterim de tempo, era bem sólido e real.
— Dean — murmurou com a voz trêmula, mas da segunda vez que articulou o nome do irmão, ela ficou alta e clara, quase um grito.
À menção do nome, Louise pareceu dar um tempo em seu mundo de sonhos e largou à poltrona, agulhas e lã, sentindo cada passo até a sala equivaler a uma caminhada completa. E quando Dean a viu, parada à soleira da porta que separava o quarto da sala, a sua expressão de dor tornou-se quase terna, e ele caminhou lentamente ao seu encontro, embora preferisse ter corrido, mas aceitou a vantagem de ir devagar e apreciar a imagem de sua antiga namorada com as mãos sobre a barriga, de forma protetora. Ao acercar-se dela, ele sorriu e tocou o seu rosto, afagando-o, descendo os olhos para a leve proeminência no ventre de Louise.
— Nem tudo o que passei lá embaixo — ele disse comovido — pode me tirar a felicidade nesse momento.
Sam e Samantha se entreolharam, uma nuvem de tristeza e preocupação a cobrir o semblante de ambos. Louise, porém, não parecia nada intranquila, como se a revelação que estaria prestes a fazer fosse, não normal, mas óbvia.
— Este filho não é seu — ela disse, sustentando um meio sorriso nos lábios muito corados, que aspiravam saúde como todo o seu ser.
Dean deixou que a mão que afagava o rosto da moça, caísse como um peso morto ao lado de seu corpo, depois olhou para o irmão e a cunhada, procurando uma resposta, mas eles apenas baixaram os olhos. Dean voltou-se para o rosto alegre de Louise.
— É de Alastair — ela completou.
Primeiro Dean riu e recuou alguns centímetros, mas ao ver que os outros dois presentes concordaram com a afirmação sem nexo de Louise, ele prontamente lembrou das palavras daquele que mais lhe atormentara no inferno: "Eu roubei a sua mulher, e o que poderia ser o seu futuro filho". Agora elas faziam todo o sentido, mas ele simplesmente não podia acreditar, e nem mesmo queria que aquelas lágrimas caíssem, dando a Alastair o gosto da vitória, mas elas, desobedientes, escorreram por sua face cansada. E isso não despertou o mais remoto pesar em Louise, que mantinha o seu sorriso inabalável. Aquele simples arquear de lábios, foi o suficiente para que Dean avançasse sobre ela, imprensando-a contra a parede, murmurando ensandecido a palavra "abortar". Samantha se adiantou, mas Sam a deteve, dizendo que Dean estava fora de si e poderia machucá-la. Louise nem mesmo teve tempo ou força para usar os seus novos poderes atribuídos pelo sangue do pequeno demônio em contato com o seu, mas antes que pudesse ficar totalmente suscetível, a sua visita mais esperada irrompeu pela mesma porta que Dean entrara há pouco.
— Alastair — ela sorriu, encantada e aliviada, tendo ainda os braços presos por Dean à parede.
— A face do despeito — disse o demônio desdenhosamente, caminhando até a área de conflito, sem parecer dar pela presença de Sam e Samantha — ora, Dean, você já foi mais orgulhoso.
— Cala a boca, Alastair! — ele gritou — Vou mandar você e esse seu filho de volta para o inferno!
— De onde, aliás, você não deveria ter saído. Foi para isso que quis voltar à Terra? Para ver com estes belos olhos verdes a felicidade que jamais pôde dar à minha querida Louise Schafner? Vamos, solte-a, o que está esperando?
Dean não hesitou, e largou a garota com desprezo, voltando a atenção unicamente a Alastair.
— Eu sei qual é a sua intenção com essa criança — e voltou-se para Louise — espero que ele tenha te alertado disso, mãe do ano.
Mas a expressão de Alastair, como a de Louise, não se alterava.
— É claro que a minha jovem amada sabe que o nosso filho servirá a Lúcifer.
— E ela também sabe dos selos?
— Selo nenhum é problema meu, Dean — a voz de Alastair se arrastava como ele em direção à Louise — e ela não vai acreditar nessas suas palavras de despeito que distorcem a verdade do homem que a ama.
E beijou-a.
— Desgraçado!
Mas quando Dean acreditava poder agarrar Alastair, ele apenas encontrou-se com a parede, um milésimo de segundo após Louise esquivar-se dela.
— Ele está desgraçando a sua vida — berrou, apontando o dedo no rosto da moça — e só você não percebe isso, sua louca!
Depois ameaçou sair de casa, mas careceu de ânimo. Tendo Louise voltado ao quarto, Dean sentou ao sofá, enquanto Samantha lhe servia um copo d'água.
— Ela não pode mais abortar — disse, sorvendo um gole — a gravidez já está avançada, e sua vida seria colocada em risco. Por que não tentaram no começo?
— Tentamos — Sam respondeu — mas ela matou a médica, e por intervenção divina, não literalmente falando, não me matou também.
— Matou? Como matou?
— Louise pode usufruir de alguns poderes de demônio — explicou Samantha — por causa do sangue do bebê.
— Tá brincando!
— Por isso não tentamos mais nada. Agora é esperar o bebê nascer.
— Sam, você não está entendendo, essa criança pode romper um dos 66 selos.
— Sammy e eu sabemos disso tanto quanto você, e por isso precisaremos proteger essa criança pelo resto da vida.
— Proteger de Alastair? De que jeito? Contratando um demônio particular?
Sam pensou em seu sangue, que cada vez ficava mais fortificado pelo néctar infernal, mas resolveu calar as vozes de suas meditações, antes que elas se extenuassem pela boca. Ficaram quase um minuto inteiro calados, os três, e foi Samantha que o quebrou, em um sobressalto. Seus olhos estavam arregalados de medo, ela acabara de ter uma visão. A voz tentou sair, mas ficou presa na garganta, e só realmente conseguiu sair, trêmula e entrecortada, em uma segunda tentativa.
— Castiel.
