DIA 21

- 358 DIAS -

Ela se sentou do outro lado da grande mesa branca, o capuz de seu casaco negro erguido. Maiko olhou fixamente para ela.

Eu sabia que acabaríamos nos conhecendo,

algum dia. É porque ela é uma parte do Sora, e eu

sei qual escolha o próprio Sora faria se ele se

encontrasse nessa situação. Como na vez em que

ele cravou a Chave-Espada em seu próprio

peito, esse é o tipo de escolha que o Sora faria.

Maiko sorriu o melhor sorriso que pôde.

Maiko: É um prazer conhecê-la — Onix.

Onix, então, retirou o capuz. E sob ele — encontrava-se o rosto da marionete conhecida como Onix.

Onix: Maiko, você consegue ver o meu rosto?

Maiko consentiu. Ela definitivamente podia ver o verdadeiro rosto de Onix.

Onix: O que você acha que eu devo fazer?

Maiko: O que você quer fazer?

Seu rosto... ela é tão parecida comigo.

E eu — eu sou como uma parte

da Hikari. Nós três estamos conectadas.

Maiko esperava pela resposta de Onix.

Eu sei que seu olhar foi capturado pelo

desenho na parede. O desenho

dos três vestidos em casacos negros.

Onix olhava os desenhos em silêncio, até que encontrou palavras.

Onix: Eu pensava saber, no início. Eu queria que eu, o Lexci e o Alex ficássemos juntos para sempre. Mas então, eu comecei a perceber que essas memórias... não me pertencem.

Ela desviou o olhar.

Maiko: Isso é porque você é a Hikari. Ou pelo menos a Hikari de quem o Sora se lembra.

Onix abaixou o olhar. Ela parecia pensativa.

Acho que ela entendeu o sentido das

minhas palavras. Certamente, as

memórias da Onix pertencem ao Sora,

mas a Onix em si reflete a Hikari.

E como havia memórias daquela que

é tão especial para o Sora, a Hikari,

dentro do Lexci, a Onix acabou se

tornando... alguém especial pro Lexci.

Onix: Quanto mais eu me lembro, mais eu sinto que estou no lugar errado...

Por um momento, Onix abaixou a cabeça, como se procurasse por palavras para continuar. Então, ela inclinou parte de seu corpo sobre a mesa.

Onix: É como... como se eu precisasse voltar.

Maiko: — Voltar para o Sora?

Onix consentiu. Maiko parecia escolher vagarosamente as palavras para que pudesse continuar.

Maiko: Se você devolver suas memórias para ele, você desaparecerá. E como tudo sobre você foi construído a partir dessas memórias... ninguém se lembrará de você quando você partir. Não haverá "você" para se lembrar.

Uma Onix incorpórea não pode existir

sem essas memórias. E se essas memórias

se forem, ela voltará a ser uma marionete,

sem nem sequer um rosto. E esta marionete

não permanecerá nas memórias de ninguém.

Era aí que a Réplica do Yami era diferente.

Yami-Réplica era uma marionete que copiava

as memórias completamente, e a Onix é uma

marionete que apenas absorve memórias.

Essa é a diferença. Quando as memórias que

a Onix absorveu voltarem para o lugar de onde

vieram, será como se tudo o que os outros se

lembram sobre ela nunca houvesse acontecido.

Maiko: Eu não posso salvá-la, Onix — nem mesmo uma memória sua.

Onix olhava diretamente para Maiko.

O olhar dela é igual ao

do Sora. Os olhos firmes

e diretos de um herói.

Onix: Eu sei. Eu estou pronta. Caso contrário, eu não estaria aqui.

Onix deu um pequeno suspiro.

Onix: O lugar do Lexci também é com o Sora.

Onix abaixou o olhar, como se essa fosse a sua única preocupação.

Onix: Mas... eu não acho que ele entenderia. Não ainda.

Maiko: Ele não consegue sentir o Sora — mas ele conseguirá.

Onix: Maiko, você tomará conta do Lexci quando eu partir?

Então, ela acha que se o Lexci ao menos

fosse capaz de sentir o Sora, então

ele teria feito a mesma escolha que ela?

Mas, isso não seria do feitio do Sora.

O Sora vai pelo caminho que ele acredita

ser o certo, mesmo que ele tenha que lutar

contra o destino. Essa é a força do

Sora. O Sora sabe quando as coisas ruins

são ruins. É como se a Onix refletisse

apenas as partes boas do Sora. E, talvez

o Lexci tenha em si as partes mais infantis

que haviam no fundo do peito do Sora.

Maiko pensava — no garoto que ainda não conhecera.

Onix: Você não estará sozinha. Eu também pedi para outra pessoa cuidar dele. É que... não há mais nada que eu possa fazer por ele.

Maiko: Tudo bem.

Maiko consentiu largamente.

Onix: Obrigada...

Assim como quando eu prometi ao

Yami que protegeria o Sora, eu

também realmente quero proteger

o Lexci — "do fundo do meu coração".

Então, Maiko abriu um sorriso.

Maiko: Se estiver pronta — vamos ver o Sora.

Foi quando — o ar na sala estremeceu. Um Corredor das Trevas se abriu, e dele, TeZ surgiu.

TeZ: Maiko, eles nos encontraram! Eles já estão vindo!

Dentre os gritos, TeZ olhou para Onix.

TeZ: Essa maldita boneca os trouxe diretamente à nossa porta! Viu o que se ganha por confiar nela?

Onix: Eu me livro deles!

Sem se intimidar com as palavras de TeZ, Onix se ergueu e deixou o quarto correndo. Maiko se levantou.

Maiko: Não! Onix...!

Mas suas palavras não a alcançaram.

{ . . . }

Eu pensei que sabia tudo sobre a Cidade

Crepuscular, mas eu nunca pus os pés aqui.

A mansão mal-assombrada — um lugar

trancafiado atrás de grossas barras de ferro.

Alex lentamente surgiu de dentro da floresta, seguindo até lá. Onix estava bem na frente dos portões — e a sua imagem era mesmo a de Onix. Constatando isso, Alex deu um suspiro, aliviado.

Onix: Como... você sabia que eu estava aqui?

Alex: Em troca, me diga — por que é que você está aqui, Onix?

Onix: Porque... o Yami me disse que se eu voltasse para a Cidade Crepuscular, eu descobriria para onde devo ir.

A Cidade Crepuscular é uma cidade especial.

Próxima ao Intermédio dos Reinos, é uma

verdadeira cidade do crepúsculo. E, geralmente,

pessoas não podem existir nesse tipo de

lugar. A razão pela qual nós três estávamos

sempre na Cidade Crepuscular era porque ela

era confortável para nós. Um "lar" é aonde

se encontra o coração, e é isso que ela era para

nós. Próxima da escuridão e longe da luz.

Esse tipo de lugar. Não sei por que, mas até

agora, eu nunca pensei que o interior da mansão

mal-assombrada fosse misterioso. Agora que

penso nisso, percebo que esse lugar é bem mais

interessante. Os mundos estão se movendo,

balançando. Aposto que existem outras

pessoas além de nós que "sentem" que teria

sido melhor se tivessem vindo para esse lugar.

E eu não sei por que "sentimos" isso.

Talvez eu esteja me tornando uma dessas

pessoas afetadas pelo herói, também.

Um fraco sorriso surgiu no rosto de Alex, que balançou a cabeça.

Alex: Por que eu sempre acabo ficando com o trabalho sujo...?

Com a mesma fraca e pequena voz de sempre, Onix chamou por Alex, como sempre fazia.

Onix: Alex...

Alex: Onix. O que você pretende fazer?

E Onix respondeu, claramente.

Onix: Eu decidi que devo retornar para o meu devido lugar.

Alex: Bem, para ser honesto, eu também sempre senti que isso era o melhor a se fazer, desde o início. Mas se quer saber — isso ainda continua me incomodando. Alguma coisa nisso tudo não cheira bem.

Onix: É pelo bem de todos.

Todos...? A quem você se refere

com "todos"? Nós? Ou os outros?

Alex: Mas como é que você sabe disso? Todos sempre pensam que estão certos...

Onix: Isso é o certo.

Eu odeio esse tipo de coisa. Não existe algo como

"isso é o certo". Ou talvez exista, eu quero que

exista, mas também não quero, é isso. Eu aprendi

isso na época em que eu ainda era humano.

E então, Alex gritou, como se num aviso.

Alex: Eles vão te destruir!

Para ser mais exato — ela

vai desaparecer.

Mas, em resposta, Onix invocou sua Chave-Espada em mãos, pronta para confrontá-lo — para a surpresa de Alex.

Onix: Por favor, não hesite, Alex. Prometa.

Alex a encarou por um instante. E então, gritou.

Alex: Qual é o seu problema?!

Eu, hesitar, ela diz?

A essa altura do jogo?

Alex: Vocês dois... acham que podem fazer tudo o que quiserem. Bem, eu já estou farto disso.

Alex envolveu sua mão em chamas e, em fúria, invocou seus chakrams.

Alex: Isso mesmo, podem continuar fugindo! Mas eu sempre estarei lá para trazê-los de volta!

Ele desejou — ele gritou, ele lamentou, ele jurou.

Eu os trarei de volta, quantas vezes

forem necessárias. Não importa quantas.

Pelo meu próprio bem, pelo bem dos

dois. Não importa o quão forte a Onix tente

tornar o seu poder, eu não acho que eu vá

perder para ela. Porque eu sou forte.

Alex saltou do chão, envolvendo seu corpo em chamas. Ele lançou um de seus chakrams contra Onix, que o rebateu com a Chave-Espada. Com o chakram de volta em sua mão, Alex encurtou a distância entre ele e Onix em um movimento. Então, ele a golpeou diretamente. Entretanto, Onix novamente bloqueou o golpe.

Onix: Alex — por favor.

Alex: Sem "por favor".

Onix: Mas... eu...

Por um segundo, Alex pensou ter visto o rosto de Onix tornando-se o de Sora novamente. Ele lentamente abaixou a cabeça.

Onix: Você entende, não é, Alex? Eu não posso viver desse jeito.

Alex: Deve haver um jeito de você poder continuar vivendo como você.

Onix empurrou Alex para trás com a Chave-Espada, tomando distância antes de voltar a sua posição defensiva.

Onix: Não há. E além disso, eu não quero ser usada pela Organização para tal. Eu odeio ver que o Lexci está sendo usado pela Organização.

Alex: E eu também.

Alex diminuiu a distância entre os dois novamente, e rodeou a área com suas chamas. Onix levou as mãos até o peito, como se tentasse se proteger do fogo — E então, tirando-as de si, ela mergulhou suas mãos no peito de Alex.

Onix: Tenta me entender!

E rapidamente, ela se ergueu, desferindo um golpe de sua Chave-Espada no ombro de Alex. Ele deu um pequeno grito.

Eu realmente não

quero ter que fazer isso.

Alex: — Eu já disse que não! Já basta disso! Já basta!

Ainda com a Chave-Espada o atingindo, Alex golpeou Onix com um chakram. Foi um golpe tão forte e certeiro que lançou Onix para longe no mesmo instante. Ela tentou olhar para ele.

Onix: Alex...!

Alex: Vocês — teimosos imbecis — já estão me dando nos nervos!

Onix: Por favor, Alex... compreenda.

Onix se ergueu novamente.

Talvez nós possamos ser comparados

como iguais. E ambos temos razões

pelas quais não podemos perder aqui.

Alex: Eu... eu queria que nós três ficássemos juntos!

Alex gritou, atacando Onix — que foi atirada ao chão novamente.

Eu pensei bastante sobre o que fazer e

me confundi. Eu não tive coragem para ir atrás

do Lexci. Será que foi porque eu tive medo

de virar as costas para a Organização?

Não. A verdade é que foi porque, mais do que

qualquer um — mais do que o Lexci, mais do que

a Onix — eu queria que nós três ficássemos

juntos. Eu quis satisfazer a Organização, satisfazer

a Onix, satisfazer o Lexci — satisfazer o mundo.

Eu já não ligo para mais nada disso. Eu usei

a Organização para mim mesmo. Isso não mudou,

desde o início. Só o que mudou foi pelo bem de

quem eu faço isso. Talvez ele chame isso de

"ser um traidor". Mas o mundo muda.

Eu queria que nós três ficássemos juntos.

Eu queria que nós três ríssemos juntos,

na Organização. Fingindo serem adultos, eles

decidiram que não podem mais fazer isso.

Mas eu vou acabar com isso — eu vou detê-los.

Mas Onix se ergueu pela terceira vez. A batalha prosseguiu até que somente um deles permanecesse de pé. E quem venceu o confronto foi —

{ . . . }

Alex caminhava em pernas instáveis, com ela — a marionete — caída sobre seus ombros. Ele murmurou.

Alex: — Véi... por que é que você tem sempre... que me causar... problemas...?

Ao longe, Milnuxos o observava, enquanto Alex seguia para o castelo.

Alex deve estar particularmente ferido.

ela parece ter perdido a consciência. Eu não

acho que a Onix realmente perderia para o

Alex, na forma como ela está agora. Mas talvez

essa seja a força daqueles que tocaram o herói.

Em outras palavras, as profundas conexões

que as pessoas têm com o herói emergem em

batalhas, como o que acabou de acontecer.

Se houver uma forma de que seres que não têm

coração — os Incorpóreos — obterem corações,

talvez as suas conexões com Sora — o Mestre

da Chave-Espada — seja o início de tudo. O

Incorpóreo especial e a marionete. E então, o

Incorpóreo que teve um profundo contato com

eles. Não há qualquer razão para que não

emergissem mudanças. E, sendo assim, não

foi a marionete quem ganhou o maior poder.

Chegando ao castelo, Alex desmoronou no chão, ainda com Onix em seus braços. Tendo acompanhado todos os seus movimentos, Milnuxos se aproximou, erguendo Onix consigo.

Se isso significar que o poder dela não

atingirá o nível de qualidade exigido, então

teremos que torná-la mais forte. Nesse

momento, precisamos de qualquer

um deles em minhas mãos. Eu farei com

que Lexci e Onix se mesclem, e não

me importa o que vai sobrar. E então, no

final, eu poderei obter Kingdom Hearts.

Milnuxos, então, desapareceu.

{ . . . }

Aonde estou? Ah, estou na mesma cápsula aonde

eu fui posta antes. Isso não é um sonho do Sora,

é? Ei, por que estou dormindo num lugar como

esse? É verdade — o Alex me derrotou. Por que ele

não me deixou escapar? Eu queria que nós três

ficássemos juntos, mas não foi o Alex que disso que

isso era impossível? Por que ele diria algo assim?

Ah, sim... porque o Alex é um Incorpóreo. Talvez

seja por isso que ele tenha dito aquilo. Ele não tem

um coração, então talvez seja por isso que ele

não pôde dizer que queria que nós três ficássemos

juntos. Espera — quem está me olhando do lado de

fora da cápsula? É o Milnuxos? O que ele quer comigo?

Milnuxos: Com isso, você se completará.

Eu vou me completar...? O que isso quer dizer?

Sinto como se eu fosse ficar doente. Tem alguma

coisa fluindo severamente dentro de mim. Não consigo

respirar direito. Essas são as memórias do Sora. As

memórias estão me dando poder. Mas eu não quero esse

poder. Mas eu não quero que o Milnuxos consiga o que

ele quer. Sinto muito, Alex. Mas eu — definitivamente

não quero dançar nas cordinhas do Milnuxos. Eu com

certeza terei uma chance. Ainda que pequena. O Milnuxos

tem que baixar a guarda em algum instante. E então,

eu verei o Lexci novamente. E então, eu direi pra ele

como as coisas realmente estão. Mas — teria sido tão

bom se nós três pudéssemos ficar juntos para sempre.

Sinto muito, Lexci. Alex. Incorpóreos não têm o

direito de existir. E, assim como eles, eu também

não tenho o direito de existir. Eu devo retornar para

o meu lugar. Porque eu sou o Sora. Porque eu

jamais dançarei nas cordinhas do Milnuxos.

{ . . . }

Ele estava naquele mesmo lugar para onde sempre ia — no topo da torre do relógio. O belo pôr-do-sol parecia ser o mesmo de sempre. Lexci deu uma risada, indiferente com tudo ao seu redor.

Eu não sei mais o que fazer.

Lexci: He, he... pra onde eu pensei que eu podia ir...?

E então, ele abaixou a cabeça.

Lexci: Mas que piada.

Eu deixei a Organização porque eu queria encontrar

o sentido da minha existência. E agora que eu

abandonei a Organização, o que eu devo fazer...?

Por que eu nasci, para onde estou indo? Eu saí

da Organização porque eu não tinha razão para

ficar, mas agora, de alguma forma, eu não entendo

a razão pela qual eu pensei que sair seria melhor.

E então, eu vim aqui. Porque eu não sei para onde ir.

Sentindo um repentino movimento atrás de si, Lexci ergueu o olhar. E lá estava ela — uma garota com o capuz erguido sobre a cabeça. Lá estava Onix.

Lexci: Onix?!

Onix se sentou junto a ele, e silenciosamente ofereceu um picolé para Lexci.

Lexci: Obrigado.

Agradecendo, ele pegou o picolé e o levou até a boca. Era doce, e também era salgado. Acima de tudo, era gelado.

Quantos picolés eu já tomei aqui

desde que entrei para a Organização?

Olhando para Onix, que também tomava um picolé, Lexci novamente levou o seu até a boca.

Eu não sei o que dizer. Não sei se a

Onix já sabe que eu deixei a Organização.

E por que ela estará com esse capuz

erguido? A Onix também deixou a

Organização, não é? Talvez ela tenha

vindo aqui porque não tinha mais

para onde ir, assim como eu — não,

eu acho que não. Pensar enquanto se

toma picolé tira todo o seu sabor.

Seu picolé foi desaparecendo, pedaço por pedaço. O palito que havia dentro dele, como sempre, não possuía nenhuma palavra escrita.

Eu tenho tantos arrependimentos quanto

à Organização — quanto ao Alex. Mas

agora, mais do que tudo, estou voltando

a pensar no palito premiado. Por que será

que eu não o dei pra ele durante todo

esse tempo? Queria ter lhe dado antes.

Por fim, seu picolé havia desaparecido. Ele olhou para o lado e viu que Onix também havia terminado o seu picolé. Sem ter muita pressa, Onix foi quietamente deixando seu palito de lado.

Onix: Lexci. Meu tempo se esgotou.

Onix se levantou — e abaixou seu capuz. A pessoa que emergiu de baixo do capuz, entretanto, não era Onix. Lexci não conseguiu falar nada. Ele perdeu o fôlego. A figura que surgiu era a de um garoto de cabelos castanho e olhos azuis.

Um garoto que se parece

um pouco comigo.

Onix: Mesmo se eu ainda não estiver pronta... eu tenho que tomar essa decisão. Você emitiu tantas memórias para dentro de mim — me deu tanto, que sinto como se estivesse prestes a transbordar.

Eu não consigo entender o que a

Onix está falando. Isso me faz lembrar

das palavras do Alex. As memórias

da Onix — vieram de mim? Eu não sei

o que dizer. E eu também não sei

o que está acontecendo com a Onix.

Onix: Olhe para mim, Lexci. Quem você vê? Se está vendo o rosto de alguma outra pessoa — o rosto de um garoto... então quer dizer que eu estou quase pronta. Essa marionete terá que cumprir com a sua parte.

A Onix é — não. Essa não é a Onix.

Mas é a Onix. Esse é — mas que diabos?!

De costas viradas para Lexci, Onix deixou a torre do relógio e andou sobre o nada. Lexci não pôde segui-la. E então, Onix se virou.

Onix: Lexci. Esse é ele — Sora.

Sora. Esse é o Sora.

Onix: E você é o próximo, Lexci. Eu tenho que fazê-lo parte de mim, também. Não vê? É por isso que eu fui criada!

Onix removeu seu casaco, jogando-o ao vendo. E sob ele, fora revelada sua verdadeira forma — uma marionete.

Essa é a verdadeira forma

da Onix —? Não, isso é

mentira! Isso é — isso é —!

A marionete ergueu uma de suas mãos, com a qual abriu um Corredor das Trevas que engoliu tudo ao seu redor — incluindo Lexci.

{ . . . }

Estamos no País das Maravilhas.

E eu já não sou mais eu.

Onix estava na frente de um dispositivo no meio da sala.

Isto é — um dispositivo que a Organização

instalou para coletar os fragmentos da memória

do Sora. Obtendo os fragmentos de memória,

meu poder é amplificado. E eu acredito — eu

acredito que o Lexci vai me derrotar. Porque

já não há mais nenhum outro caminho a seguir.

Lexci se aproximou, gritando.

Lexci: Onix!

Onix: Por que — por quê?!

O Lexci precisa de mais tempo para pensar.

Mas já não há mais tempo para isso. Tenho

certeza de que o Lexci não lutaria comigo. Então

eu tenho que lutar com seriedade. Talvez, no

caminho, eu deixe de ser eu. Mas, ainda assim,

eu tenho fé. Porque eu acredito que se alguém

pode me derrotar — eu, uma cópia do verdadeiro

Sora — esse alguém com certeza é o Lexci.

{ . . . }

Não. Eu não quero lutar. Mas a Onix

tá me atacando com toda a força.

Numa sala no País das Maravilhas, Onix, a marionete, desferiu um golpe que lançou Lexci no chão.

Eu fiz isso porque é o que eu

tinha que fazer — o Alex disse isso,

não disse? Mas, ainda assim, eu

não quero lutar. Eu vou fugir. Mas a

Onix me persegue. O que eu devo

fazer — como eu devo fazer? A Onix

disse que deve me fazer parte dela.

Isso é sério? Mas por quê? O que vai

acontecer comigo se ela me engolir?

Talvez eu até prefira ser engolido.

Lexci bloqueou um dos ataques com sua Chave-Espada. Enquanto a Chave-Espada se ressaltava, ela atingiu o corpo de Onix.

— Por favor, Lexci...

Eu pensei ter ouvido a

voz da Onix, nesse instante.

E então, ela abriu outro Corredor das Trevas, que dessa vez os levou para —

— Esse lugar. O lugar onde

eu confrontei a Onix quando fui

enganado pela Organização.

Também havia um dispositivo instalado no meio daquela área da Cidade do Halloween. Diante do dispositivo, a forma de Onix se alterou.

O que diabos são essas coisas? Eu sei que a

cada segundo que eu hesito, a Onix fica

mais e mais forte. Os ataques da Onix atingem

a força do meu corpo inteiro. Se as coisas

continuarem assim — eu tô acabado. Lutar é

mesmo a única opção? Estou perdido. Mas eu

não vou permitir que eu seja destruído.

Porque eu quero saber mais sobre mim. E isso

significa descobrir mais sobre a Onix, também.

Lexci retomou o fôlego.

A única solução que me

resta é fazer isso —

Mas naquele instante, Onix abriu mais um Corredor das Trevas, que também logo envolveu Lexci. Dessa vez, eles foram parar em Agrabah. E no meio da sala, havia outro dispositivo estranho. Diante dele, o poder de Onix aumentou ainda mais, e sua forma se alterou novamente.

Eu — me decidi. Porque ainda há

o futuro. Porque eu tenho certeza de

que ainda posso fazer a Onix parar.

Lexci empunhou sua Chave-Espada em mãos e correu na direção de Onix, desferindo um golpe contra ela. Ele pôde sentir o impacto. E então, Onix abriu outro Corredor das Trevas. Dessa vez, por um instante, Lexci pensou ter avistado a figura de Onix do outro lado da escuridão do intermédio.

Mas — do outro lado da escuridão, parada com as costas viradas para o pôr-do-sol, estava uma marionete gigante. Parada diante do lugar aonde os três amigos sempre se encontravam, a marionete gigante desferiu um golpe com seus braços, e Lexci foi lançado para longe.

Eu não quero pensar que essa

é a Onix. Eu poderia pensar até que

essa coisa roubou a nossa Onix, talvez.

Onix — eu... eu só quero que a gente

possa tomar picolé juntos novamente.

Lexci se ergueu e atacou a marionete — atacou Onix.

Eu odeio isso. Mas eu o faço porque talvez

a gente possa tomar picolé juntos novamente.

Porque eu não pretendo dar o golpe final.

Onix. Vamos tomar picolé juntos novamente.

Alex. É bom que você me leve para tomar

picolé com aquele palito premiado. Mas — eu

sinto alguma coisa doendo. Doendo muito.

E — após derrubá-la, ele ficou confuso.

Eu não sei. E eu não sei

por que eu não sei.

Sua cabeça doía. Tudo ao seu redor estava confuso. Ele vacilou, enquanto tentava se manter de pé.

Com quem eu estou lutando? O que

eu estou fazendo? Quem sou eu, mesmo?

Eu sou Lexci. O número XIII da Organização.

Essa é a Cidade Crepuscular, na praça na

frente da estação. Na frente da torre do

relógio, aonde eu costumava ir. E você, aqui,

diante de mim — uma garota de joelhos, que

parece que vai cair a qualquer momento.

Lexci: Quem é mesmo... você?

Uma garota de cabelos negros,

vestindo o mesmo casaco que eu.

Lexci: É estranho. Sinto como se eu estivesse me esquecendo de algo realmente muito importante.

A garota abriu seus olhos azuis, antes cerrados.

Onix: Você ficará... melhor desse jeito... Lexci.

Ela caiu, como uma flor que murchava, e Lexci agarrou seu corpo com seus braços, observando-a.

Por que ela caiu? Ela parece

estar sentindo muita dor.

Ele a ergueu um pouco.

Lexci: Fui eu — quem fez isso com você?

Tudo está horrivelmente confuso.

Não consigo entender nada.

Uma fraca luz começou a fluir pelo corpo da garota.

Essa luz...

Onix: Não — foi minha a decisão... de ir embora agora. É melhor isso... do que não fazer nada e permitir que o Milnuxos fizesse o que bem entendesse.

Ela pôs sua mão sobre a de Lexci.

Onix: O meu lugar é junto com o Sora — e agora, eu vou voltar... eu ficarei com ele novamente.

Ela fechou os olhos por um momento. E então, voltou a falar, uma voz fraca, que já estava se desmanchando. Era difícil de ouvir.

Onix: Lexci. Eu preciso que você... me faça um favor — todos os corações que eu capturei... Kingdom Hearts... liberte-os.

Lexci: Libertar... Kingdom Hearts?

Kingdom Hearts... mas por quê? Meu trabalho

é coletar os corações dos Sem-Corações.

A fria luz começou a congelar o corpo da garota, começando pelos pés.

Onix: É tarde demais... para que eu possa desfazer os meus próprios erros — mas você não pode deixar que o Milnuxos... fique com Kingdom Hearts... você não pode.

Essa garota — parece que ela vai

desaparecer a qualquer momento. Por

que — por que, de certa forma, isso é tão

doloroso para mim? Eu odeio isso.

Onix: Adeus, Lexci. A gente se vê.

Um pequeno sorriso surgiu no rosto da garota.

Eu — definitivamente estou me esquecendo

de alguma coisa terrivelmente importante.

A garota ergueu uma mão, e tocou sua face.

Onix: Fico feliz… por ter te conhecido. Oh — e, é claro, o Alex também. Vocês dois são os meus melhores amigos. Nunca se esqueça. Essa é a verdade.

Nós dois somos os melhores amigos

dela — melhores amigos? Algo terrivelmente

importante — a Cidade Crepuscular, a

torre do relógio — o lugar de sempre. Aqui,

vínhamos eu, o Alex e — mais quem?

A mão que lhe tocava o rosto caiu — e os olhos de Lexci se alargaram. Ele agarrando a mão dela antes que tocasse seu corpo.

Lexci: Não! Onix!

Eu me lembro. Eu me lembro da Onix.

Eu jamais me esqueceria. O pôr-do-sol, o

picolé, não tem como eu me esquecer.

Lexci: Com quem mais eu vou poder tomar picolé?

Nós temos que tomar picolé

juntos novamente, nós três!

Onix lentamente deixou com que sua cabeça pendesse junto aos braços de Lexci — e foi fechando os olhos, quietamente.

Lexci: Onix!

Ele gritou por ela. Mas, diante de seus olhos, sobre os braços de Lexci, toda a figura de Onix foi encoberta por gelo e se tornou luz — e então, ela desapareceu. No fim, apenas o que sobrou foi uma concha de Netuno que ela carregava consigo.

Lexci: Onix...

Meu rosto está molhado.

Eu — estou chorando.

O pôr-do-sol afundava no horizonte. E Lexci pegou a concha que havia sido deixada para trás.

{ . . . }

Ela se sentou do outro lado da grande mesa branca, o capuz de seu casaco negro erguido. Maiko olhou fixamente para ela.

Eu sabia que acabaríamos nos conhecendo,

algum dia. É porque ela é uma parte do Sora, e eu

sei qual escolha o próprio Sora faria se ele se

encontrasse nessa situação. Como na vez em que

ele cravou a Chave-Espada em seu próprio

peito, esse é o tipo de escolha que o Sora faria.

{ . . . }

Eu consigo senti-lo, Sora...

Dentre sonhos e memórias, Sora podia ouvir uma voz.

Você também

consegue me sentir?

Sora gostava daquela voz. Parecia com a da outra garota — a garota que ele conhecia, mas ainda assim não conhecia.

Sinto muito por tê-lo

deixado esperando, mas...

Ela nunca costumava vir falar com ele, mas ele sempre a escutava, mesmo estando adormecido.

Eu já estou indo, Sora.

Mas ela parecia estar tão triste, tão ferida.

Sora: O que houve...?

Eu estou voltando para você.

Sora queria abraçar a outra garota, mas então, de repente, sua voz se foi. E ele não se lembrava quem estava falando com ele.

{ . . . }

Ele acordou como sempre, na mesma cama de sempre.

Sinto todo o meu corpo doendo, por

alguma razão. Espera, por que todo o

meu corpo tá doendo desse jeito?

Sinto minha cabeça confusa. E pesada.

Alex virou a cabeça para o lado, e lentamente se sentou em sua cama.

Alex: Como isso foi acontecer...?

Por que eu tenho a sensação de que estou

me esquecendo algo terrivelmente importante?

Sinto como se houvesse um enorme buraco

aberto dentro de mim. E eu sei muito bem o que

é isso — eu estou me sentindo sozinho.

E no mesmo momento em que pensou isso, Alex notou um envelope branco que havia sido deixado ao lado de sua cama. Escrito à mão desordenadamente no envelope estava o seu nome — e o nome do seu melhor amigo, aquele que era o mais importante para ele.

É verdade — sim, é verdade, o

Lexci deixou a Organização. Talvez seja

disso que eu tinha me esquecido.

Alex pegou o envelope.

Ele não me disse que

ia deixar isso.

Ele abriu o envelope, e dentro havia apenas um palito.

Um palito de picolé.

E, escrito nele, havia a palavra "VENCEDOR".

Alex: ...Lexci —

Alex murmurara — o nome do seu melhor amigo.

{ . . . }

Onix. Onix. Onix. Onix — Onix... Onix.

Onix, Onix, Onix, Onix, Onix, Onix, Onix.

Em sua mente, ele murmurava o nome dela sem parar, sentindo que se não o fizesse, iria esquecê-la.

Onix. A minha melhor amiga. A garota

mais especial para mim. Onix.

Lexci corria.

A Onix me disse para libertar Kingdom Hearts.

Esse era o desejo da Onix. Sendo assim, eu

quero conceder o seu desejo. Porque talvez, se

eu o fizer, eu pode ser que possa voltar a ver

a Onix. A minha melhor amiga que eu tanto prezo,

e que foi destruída pelas minhas próprias mãos.

Para libertar Kingdom Hearts, eu tenho que ir

atrás do Milnuxos. Eu tenho que voltar ao castelo

da Organização — O Castelo que Nunca Foi.

Lexci saiu de um Corredor das Trevas. Estava chovendo.

Essa é a primeira vez... que

chove nesse mundo.

Mesmo com a chuva, a luz de Kingdom Hearts radiava no céu.

Eu vou libertar os corações cativos por

Kingdom Hearts. E então, a Onix — eu vou

trazer a Onix de volta. E então, nós vamos

poder tomar picolé juntos novamente.

Ele corria pelas ruas rodeadas por luzes de neon pelas quais havia passado pouco tempo antes. Penumbras — Incorpóreos — o atacavam.

Lexci: Saiam do meu caminho!

Lexci gritou, e duas Chaves-Espada surgiram em suas mãos.

Uma delas é da Onix.

As Chaves-Espada brilharam e mudaram de forma. Uma negra como a noite, uma clara como a luz. Mas Lexci já não ligava mais. Ele atacou.

Não tenho tempo para

lutar com vocês.

E então, ele repetiu o nome mais uma vez, em sua mente.

Onix.

Seguindo em frente, vários Sem-Corações surgiram. Eles o cercaram. Lexci logo os derrotou, ofegante. Novamente, ele repetiu o nome.

Onix.

Foi quando Lexci notou a presença de alguém — uma sombra que esperava por ele. O sujeito estava parado no topo de um arranha-céu — alguém vestindo um casaco negro.

Ele está claramente de olho em mim.

Mas ele não é um membro da Organização.

Lexci correu na direção do arranha-céu e saltou. Correndo por suas paredes, ele notou que o sujeito havia se jogado lá de cima. Eles passaram um pelo outro. Nesse instante, a Chave-Espada de Onix foi atirada de sua mão. Ele não conseguia entender o que havia acontecido. Era como se a Chave-Espada houvesse pulado de sua mão. Como se tivesse vontade própria. O homem, então, tomou a Chave-Espada para si.

Esse cara —

Lexci caiu no chão, quase que ao mesmo tempo em que o outro. Então, ele o encarou. O homem tinha cabelos prateados, e uma venda cobria seus olhos. Era o impostor da Organização — Yami.

Lexci: Quem é você?!

Yami: Do que importa? Eu estou aqui — por você.

Lexci: Por que você está tentando me deter?

Eu estou farto disso. Eu não tenho tempo para

lutar com você. Eu tenho que conceder o

desejo daquela garota — Onix, é isso. E então,

tudo vai voltar ao normal. Não há mais tempo.

Enquanto faço isso, sinto que vou me esquecer.

Yami: Porque eu quero o resto das memórias do Sora de volta.

Lexci: Sora, Sora, Sora! Já chega desse Sora!

Ele está dizendo a mesma coisa que o

Milnuxos. E tenho a impressão de que

aquela garota — Onix também disse isso.

O homem parecia continuar calmo. Uma calma que deixava Lexci louco.

Yami: Você tem algum tipo de plano?

Lexci: Eu vou libertar Kingdom Hearts! E então tudo pode voltar a ser como antes! Eu, o Alex, e... e ela poderemos continuar tomando picolé juntos!

Sim — nós três poderemos tomar picolé

novamente. Vamos assistir ao pôr-do-sol no

topo da torre do relógio. E então, vamos poder

até ir pra praia. Vai ser demais, com toda a

certeza. Vamos poder voltar a passar aquele

tempo juntos novamente. Eu sei que sim, com

toda a certeza. Não é verdade, Onix —?

Yami: Ela? Se refere a Onix? É uma luta só pra conseguir se lembrar do nome dela, agora, não é mesmo? Seja como for, eu não posso deixar que você simplesmente saia fazendo alguma loucura.

Esse cara ainda está com a Chave-Espada

da Onix. Mas algo me parece estranho. É

como se essa não fosse a Chave-Espada dela.

E então — Lexci empunhou sua Chave-Espada novamente.

Lexci: Eu tenho que encontrar esse tal de Sora, e só posso fazer isso se eu libertar Kingdom Hearts! Eu quero a Onix de volta — eu quero a minha vida de volta!

Ele lembrou a si próprio novamente, e então correu para cima do homem.

Yami: Se você tentar entrar em contato com Kingdom Hearts — a última coisa que você terá é a sua vida de volta. A Organização vai te destruir.

Lexci: Cale-se!

Então me diga o que mais eu posso fazer!

Lexci se lançou para cima dele com sua Chave-Espada, atingindo a Chave-Espada que Yami usou para bloquear o golpe.

Eu não acho que eu vá perder.

Eu não posso perder pra esse cara.

Eles continuaram trocando golpes diante do arranha-céu.

Onix — tá tudo bem, eu ainda me lembro.

Eu ainda me lembro dos dias em que a

gente ficava rindo e tomando picolé, nós três.

Foi quando — ele atingiu o sujeito, que foi lançado contra uma parede.

Eu venci. Eu sabia que eu não ia perder.

Caído ao chão, o homem gritou.

Yami: Por quê?! Por que você tem uma Chave-Espada?!

Lexci: Cale-se!

Eu não o compreendo. Sou eu quem quer saber

por que posso usar a Chave-Espada, e por que

a Onix, como eu, também pode usá-la. E por que

você pode usar a Chave-Espada da Onix? Por que

a Chave-Espada da Onix deixou a minha mão?

Mas o sujeito se levantou, pegando a Chave-Espada de Onix e desferindo um poderoso golpe contra Lexci.

Por que eu não consegui desviar disso?

Ele me acertou em cheio. Acho

que fiquei inconsciente por um instante.

E então, uma imagem do topo da torre do relógio surgiu em sua mente. Ele caiu no chão, de costas para baixo.

Mas eu não vou me esquecer. Eu não

quero me esquecer. Onix. Alex. Picolé de

sal-marinho. O ponto de encontro. A torre do

relógio. O pôr-do-sol. Os meus melhores

amigos. A promessa que nós fizemos para o

nosso próximo dia de folga. Eu não posso me

esquecer. Eu absolutamente — não quero me

esquecer. Eu vou libertar Kingdom Hearts e

tudo vai poder ao normal. Eu não quero

me esquecer. Eu não vou me esquecer —

{ . . . }

Yami lentamente caminhou até Lexci, que enfim havia caído, e lançou a Chave-Espada em suas mãos ao chão, cravando-a ao lado do rapaz. Furtivamente, ele começou a estudar o outro garoto.

Como foi que o Lexci conseguiu duas Chaves-

Espadas? E por que ele se desfez de uma delas

no meio do combate? Tem tantas coisas que

eu não compreendo. A Chave-Espada da qual

ele se desfez pareceu pular para a minha mão,

como se estivesse sendo atraída. E, naquele

instante, eu me lembrei dela. Eu já não conseguia

nem sequer me lembrar mais do seu nome até

então — eu ainda não estou convencido de

que ele realmente seja o Incorpóreo do Sora.

Eu sinto como — se o rosto dele até seja parecido

com o do Sora, mas não sei. Algo não está certo.

Repentinamente, Lexci se levantou, pegou a Chave-Espada que fora cravada no chão, e atacou Yami. Estando de guarda armada, Yami rapidamente pulou para trás, desviando do golpe.

Lexci: Por que você não se manda?

Naquele instante — uma memória surgiu dentro de Yami.

Acho que posso arriscar.

Yami: Qual foi, Sora. Achei que você fosse mais forte que isso.

As palavras ecoaram dentro de Lexci.

Lexci: Cai na real. Veja quem de nós dois que tá perdendo!

Era como se o Sora dentro de Lexci houvesse respondido. Yami sabia — as palavras que deixaram sua boca eram exatamente o que Sora diria.

Eu não consigo acreditar, mas — acho

que não tenho outra escolha.

Yami: Então é mesmo verdade. Você realmente é o Incorpóreo dele. Parece que o TeZ estava certo, afinal.

Lexci: Do que é que você tá falando?! Eu sou eu! E mais ninguém!

Lexci gritou, sentindo grande sofrimento em seu peito, e então partiu para cima de Yami. Eles estavam muito próximos, e não houve tempo para desviar do golpe. Yami foi acertado em cheio. Foi quando — uma voz ecoou em sua cabeça.

— Yami, por favor! Você tem que detê-lo!

Era a voz de uma garota que já estava se apagando de sua memória. Lexci, então, encarou Yami, caído ao chão.

Lexci: Quantas vezes eu vou ter que te derrotar?

É tudo — pelo Sora.

Yami: Beleza — você me deixou sem nenhuma outra opção.

Lexci: O quê?!

Yami lentamente se levantou, e então, removeu sua venda.

Yami: Eu tenho que liberar o poder que há dentro do meu coração — o poder negro que eu estive contendo. Mesmo... que isso me mude para sempre.

No instante seguinte, seu corpo ficou mais leve.

Entregar o meu corpo para o poder

da escuridão significa que

a minha aparência será alterada.

Sobre o corpo de Yami, surgiu uma sombra que poderia ser definida como a própria escuridão. E engolido por ela, Yami tomou a forma de Luminos.

Eu sinto o poder emanando de mim.

Esse é o poder da escuridão — mas eu o

estou controlando. Ele segue a minha

vontade. Eu não serei aprisionado pela

escuridão, porque existe luz na escuridão,

e o seu brilho também é elevado.

Yami diminuiu a distância entre eles num único movimento, e o Guardião das Trevas que surgiu atrás de si agarrou Lexci. As Chaves-Espadas caíram das mãos do rapaz. Yami o encarou.

Yami: Eu o aceitei. O poder da escuridão.

E então, caído ao chão — Lexci desmaiou. Yami ergueu o capuz sobre seu rosto e encarou o inconsciente Lexci diante de si.

Yami: Lexci —

Oh — e como é mesmo o

nome daquela garota?

A chuva caía com ainda mais força. Yami pôde sentir o ar estremecer, e então, TeZ apareceu atrás dele.

Yami: TeZ — ele pôde sentir o Sora.

TeZ: Oh, ele te disse que "sentiu", uh? Ridículo. Incorpóreos não sentem nada.

Yami: Se ele tivesse conhecido o Sora — as coisas podiam ter sido diferentes.

Sem se voltar para TeZ, Yami observava o rosto de Lexci, inconsciente. Em suas costas — a chuva caía.

{ . . . }

Lexci, não fique triste. Eu vim de

você e do Sora. Eu sou você... assim

como eu sou o Sora. Você vai se esquecer

de mim, mas as memórias propriamente

ditas jamais desaparecerão. Memórias de

você e eu sempre estarão juntas — por

toda a eternidade, dentro dele.

{ . . . }

Em uma cidade envolta por um belo pôr-do-sol, em uma pequena casa, em um pequeno quarto, um jovem rapaz acordou.

?: Outro sonho sobre ele —

Eu tenho sonhado bastante ultimamente.

Mas eu não me lembro de detalhes

precisos sobre o conteúdo dos sonhos.

O garoto se sentou em sua cama, abriu a janela, e observou um trem que passava pela cidade.

Eu sempre observo essa vista —

Vagarosamente, o garoto ficou olhando por um tempo.

Por alguma razão, eu estou me sentindo

estranho, hoje. Será que é porque as férias

estão terminando? Só pensar em como

eu vou passar meus últimos dias de

férias de verão já me deixa bem excitado.

Então, ele se levantou da cama, se trocou, e correu para a cidade. Ele não parou de pensar enquanto subia a colina e seguia para o ponto de encontro. Seu nome era Lexci. E o nome daquele lugar era Cidade Crepuscular. Todo mundo ia se encontrar no ponto de encontro.

Ah é...

Lexci: Talvez — hoje a gente finalmente possa ir pra praia!

Lexci murmurava, enquanto subia pela colina.

Nós — ainda não fomos para a praia juntos.

E hoje, finalmente vamos prometer isso.

{ . . . }

Só mais sete dias, e as minhas

férias de verão acabam —