Nota da autora: Obrigada pela imensa resposta ao último capítulo postado (na sexta-feira). Obrigada a quem entende os sentimentos de Rin, obrigada a quem quer dar um baita sermão nela, hahaha. Espero que gostem deste aqui e que possam me dizer o que acharam. Mesmo esquema do outro: com 15 comentários, temos a sequência dos fatos :)

Ia postar essa semana alguns outtakes diversos, mas perdi os arquivos no computador do trabalho. Fiquei estarrecida. Pior é perceber que quando eu estava sem um pc, eu me recusava a escrever fora de casa e fiquei semanas sem postar nada. Irônico, né? Agora verei o que faço para lembrar o que escrevi :(

Obrigada à Thais pela betagem :) Os capítulos só são postados depois da autorização dela.

(Estou meio que de coração partido com o episódio 9 de Game of Thrones. Sério, nunca mais tinha me sentido desse jeito com uma série. Então sejam bonzinhos comigo e deixem reviews para eu ficar mais alegrinha, sim?)


UM CAMINHO PARA DOIS

CAPÍTULO 21

Encontrando os caminhos

Fugir parecia ser a única alternativa saudável aos olhos de Rin.

Era, obviamente, a mais covarde também. Mas no momento pouco importava analisar a situação sob esse ponto de vista, principalmente quando não se sabe o que fazer. Ela fugiu apenas uma vez: depois que Akihito, o primeiro namorado, morreu, ela quis fugir da cidade natal e ir para outro canto do mundo tentar esquecer o que passou.

Fugir não era saudável, mas para ela era sinônimo de "tentar resolver os problemas ao sumir, ficar sem dar notícias e pensando a respeito da vida".

Já havia passado uma semana desde a desagradável notícia sobre as notas da Ordem. Ela tinha ficado tão desapontada consigo mesma que foi mais um motivo para uma semana de sumiço. Era o primeiro dia na faculdade que realmente apareceu... apenas para ficar escondida na sala do Centro Acadêmico. Ela sabia que Sesshoumaru não apareceria naquele dia por causa das aulas. E ela sumiria depois que terminasse o horário dele.

Esconder-se temporariamente na própria sala do centro acadêmico não era exatamente um bom lugar para pensar, mas estava funcionando de certa forma. Não queria ver ninguém e o ambiente estava silencioso, silencioso até demais.

-Silenciosamente irritante... – ela murmurou com os olhos fechados.

Não sabia quanto tempo havia passado, mas deveria estar ali há pelo menos uma hora ou até mais.

Deitando a cabeça sobre a mesa, Rin ficou observando o enfeite de cristal que deu ao rapaz, usado agora como peso para segurar os papéis. Era a primeira vez que o observava sob outro aspecto – não mais na vitrine ou dentro da caixa. Tinha que admitir que o castelinho tinha um lindo design, moldado numa pedra que ela não sabia qual era. Os cristais que funcionavam como neve realmente pareciam de verdade – ela sacudiu o objeto duas vezes e parecia que estava nevando.

Entretanto, o sorriso que tinha ao observar o efeito da neve sumiu de uma vez. Olhando mais atentamente, perceber que tinha uma rachadura no vidro.

-Com certeza, tentou bater em Miroku e rachou... – pensou com desgosto. Tinha dado a ele com tanto carinho e ele tratava o objeto assim.

Ingrato.

Uma batida na porta chamou a atenção dela e levantou a cabeça, franzindo a testa. Não podia ser ele. Ela conhecia o horário, e ele não daria as caras naquela sala por pelo menos duas horas até que...

-Já estou entrando, mas eu queria saber se posso mesmo. – o rosto sorridente de Sango apareceu.

-Cla-Claro, Sango. – Rin respondeu com um sorriso de alívio. Não era ele, afinal de contas. Colocou o peso de volta no lugar e levantou-se, indo à estante – Vou pegar um livro aqui e já vou sair.

Sango não falou nada e o silêncio incomodou Rin.

-Queria falar comigo? – ela resolveu perguntar, pegando dois livros e indo à mesa para pousá-los em cima dela.

-Você quer conversar sobre alguma coisa? – Sango fez a pergunta sem deixar de sorrir.

Rin moveu a cabeça na diagonal e ficou observando a garota curiosamente.

-Não... Não quero. – é claro que queria. Mas como alguém poderia ajudá-la se nem ao menos ela sabia o que a fazia fugir? – Quer deixar algum recado pra...

Pausou. Até mesmo dizer o nome dele causava uma sensação estranha nela.

-Ele teve que levar Kagura ao médico. Parece que ela passou mal depois de discutir com o pai do filho dela. De novo. – Sango interrompeu o pensamento da colega.

Ah... aí está o problema... Parecia que todo o mal-estar dos últimos dias foi extinto com a notícia de Sango. Um problema que parecia pesar no peito e agora a deixava mais leve. Era um sentimento estranho. Com Akihito nunca havia se sentido assim, como se estivesse sendo traída. Ou tivesse medo de ser traída.

Seria aquilo o que os outros chamam de ciúmes? O irmão dela era ciumento, mas... essa coisa chegava àquele ponto?

-Sesshoumaru não vai assumir o filho dela. Ele só a está ajudando... de outras formas, como levando ao médico ou resolvendo assuntos pendentes em nome dela quando Kagura não está bem. E ele teve que levá-la hoje ao hospital depois que ela passou mal.

-Ah, é? – Rin perguntou, mudando o ângulo do rosto, tentando mostrar uma indiferença que mal conseguia mascarar – Isso é...

-"Tranquilizante", não? – Sango completou.

O sorriso no rosto da amiga estava fazendo Rin ficar irritada.

-Por que está me dizendo isso, Sango? – Rin perguntou numa voz calma, embora estivesse começando a tremer com o nervosismo que não sabia o porquê de estar sentindo.

-É que você parecia estar preocupada por causa disso, por ele estar mais próximo de Kagura do que de você... Só quis deixá-la mais alegre. Eu só achava que você não tem motivo para isso.

-Por que EU me preocuparia com Sesshoumaru cuidando de Kagura? – de novo, a dor no peito atacou. Era o nome dele associado ao de outra pessoa que incomodava.

-Bem... – Sango começou a andar pela sala e se aproximou de um arquivo e ficou brincando com um pequeno enfeite do formato do símbolo do curso de Direito – Você gosta dele e achei melhor explicar logo pra você ficar mais tranquila.

-Sango. – a garota contou até dez para ficar calma e responder com uma voz no mesmo tom. Não, não era só aquilo. As coisas não são tão simples assim, Sango-chan –, você sabe que eu não gosto dele nesse sentido que está falando.

-Não gostava, né? – Sango a corrigiu.

Aquilo foi a gota d'água. Rin perdeu a paciência e falou irritada:

-O que está insinuando?

-Eu não estou insinuando nada. Se eu falar por meios termos, você não vai entender mesmo. – ela deu de ombros e esperou pela reação da outra.

O queixo de Rin caiu e ela fitou a colega boquiaberta. Não era o que Sango esperava e teve que continuar depressa:

-Acho melhor explicar logo pra você entender. Eu já percebi que precisa que alguém fale em alto e bom som as coisas para que você entenda, já que é difícil mesmo se a gente escrever as coisas em letras garrafais num outdoor.

-Se já terminou, poderia sair, por favor? – foi a pergunta de Rin, dando as costas para a amiga.

-Não dê as costas enquanto eu estiver falando, Rin. – a voz de Sango saiu ameaçadora, deixando a garota um pouco assustada. Rin virou o rosto e a viu com uma expressão séria e com os olhos estreitados.

-Sango...?

-Essa sua infantilidade já me cansou. Sesshoumaru pode aguentar isso, consegue aguentar isso, mas eu não.

-Não estou...

-Deixe de ser criança e admita logo que gosta dele! – Sango aumentava o tom de voz - Já ficou cansativo ver essas briguinhas entre vocês e o seu choro!

-Mas eu não gosto dele! – Rin exclamou, igualmente zangada – Sesshoumaru é apenas um amigo. Ou um colega. Nós mal nos conhecemos!

-Ah, como se isso fosse verdade! – Sango falou impressionantemente irônica.

-E é! – Rin gritou.

-Você gosta dele. Não deve ter gostado no início, mas agora deve pensar só nele, né?

-Não! - a garota meneou a cabeça violentamente – Não é verdade!

-Deixe de ser criança, Rin. – Sango falou mais alto – Se isso fosse verdade, não ficaria com ciúmes! Não o apoiaria em tudo! Não sofreria tanto por ficar longe dele! Não sofreria tanto em pensar que NÃO gosta dele!

-MAS É VERDADE! – Rin fechou os olhos e balançou a cabeça de novo – EU ODE-

Diga, complete a frase. Vamos, complete.

Sango viu a garota lacrimejar e tapar a boca para impedir que a palavra saísse. Arqueou as sobrancelhas ao ver Rin apoiar-se na mesa para sustentar os joelhos trêmulos enquanto se impedia de chorar.

-Descobriu agora, foi? – foi o comentário ao escutá-la soluçar.

Um momento de silêncio depois, Sango escutou-a falar:

-Todo mundo... todos... todos sabiam... – Rin soluçava – Só eu que não...

Sango não se mexeu do lugar e continuou escutando Rin chorar.

-É doloroso, não?

Rin ergueu o rosto e a amiga pôde sentir o que ela estava sentindo através dos olhos castanhos.

-Chega a ser doloroso gostar tanto de alguém, né... Rin-chan? Mas depois... – Sango fechou os olhos e sorriu – Depois vira uma sensação muito agradável... Sentir a pessoa por perto... perceber que é amada...

Depois de uma longa pausa, Sango continuou:

-Eu não sei o que aconteceu com você antes, mas... Eu espero que Sesshoumaru apague todos suas lembranças ruins e... e que você também apague as dele, quaisquer que sejam. Você já fez um bom trabalho fazendo-o mostrar outro lado dele. – Sango deu um sorriso sem graça – Até Miroku consegue brincar com ele, coisa que nos anos que nos conhecemos nunca foi possível.

Rin não respondeu e deu as costas para Sango, mesmo lembrando que a amiga ficara brava pela vez anterior.

-Mas depois Rin-chan apareceu e ele mudou tanto... Ele me parece tão... bem... ao seu lado.

Sango deu um suspiro e resolveu sair da sala. Abriu a porta e deu uma última olhada em Rin, e viu que ela estava sentada sobre os próprios joelhos, ainda chorando muito. Balançou a cabeça e saiu da sala.

Durante muito tempo, Rin escutou apenas o som dos próprios soluços, até que teve coragem de falar em voz alta e embargada:

-Eu gosto... dele...

"Este Sesshoumaru a ama, Rin."

-Gosto tanto... dele...

"Você escutou o que eu disse? Eu nunca disse que não gostava de você."

-Eu nunca gostei tanto... de alguém...


No dia seguinte...

Não era um bom dia para Rin.

Evitou encontrar Sesshoumaru de todas as formas possíveis e fez questão de perder as aulas para não ter que ficar perto dele... por enquanto. Não enquanto corasse absurdamente e sentisse as pernas tremerem enquanto observava o perfil dele, os olhos a observando, o sorriso irônico quando a provocava... Talvez ele estivesse zangado com ela por fugir tanto.

Mas não aguentava ainda encarar aquele par de olhos dourados por mais de um segundo sem sentir as pernas trêmulas, o coração acelerar e as mãos suarem.

E ficou surpresa com a notícia de que ele trabalharia com um professor em um processo por ter conseguido o primeiro lugar na prova da ordem. Aquilo tinha sido mais uma ajuda para evitar encontrá-lo, pois o rapaz estava ocupado demais em ler os papéis, documentos e outros livros para começar o trabalho.

Fazer a prova da Ordem era bom para os estudantes que queriam ajudar em casos. Rin até que poderia, mas como Sesshoumaru já estava lá e tinha "primeiro lugar" praticamente escrito na testa, não era necessário ter ajuda de outra pessoa como ela ou qualquer outro.

O rapaz realmente merecia todos os parabéns que davam a ele.

-Ai, não... – Rin gemeu ao ver que o rapaz estava no mesmo corredor que ela e aproximava-se para falar algo. Deu meia volta e saiu dali correndo. Ele mal teve tempo de assimilar a delicada figura tentando correr mais rápido com aquelas roupas elegantes e de saltos.

-Mas que droga... – ele murmurou ao ver que ela escapara de novo.

-Algum problema, Sesshoumaru-sama? – Sango perguntou atrás dele.

O rapaz se virou e viu que Miroku e Kagura também estavam com ela, e os dois não pareciam muito felizes.

-Não... – ele olhou na direção que Rin tinha tomado – Não realmente.

-Nós soubemos que você foi chamado pra trabalhar num julgamento pelo Estado. – Sango continuou – Parabéns.

-É... – Kagura e Miroku falaram num tom desanimador – Parabéns...

-Vocês estão com algum problema? – Sango perguntou com frieza e estreitando os olhos. Os dois recuaram e fizeram "não" com a cabeça.

-Se vocês... – Sesshoumaru começou, limpando a garganta para tentar soar o mais impessoal possível, transmitindo ao mesmo tempo urgência – Se encontrarem Nozomu, diga a ela que quero conversar seriamente sobre um assunto importante. Usem o Gossip Cop se for necessário.

E deu as costas para ir embora.

-Ele fala sempre tão sério... – Kagura coçou a orelha – Quem escuta isso e não conhece, pensa até que os dois não têm nada.

-Essa aposta era pra ser nossa... – Miroku resmungou.

-E foi estragada. – Kagura falou num tom de desgosto.

Os dois olharam para Sango, que permanecia calmamente sorrindo.

-Se começarem a reclamar, ficarei com raiva. – ela se limitou a comentar, e os dois tremeram ao escutar a ameaça.

Era bom esquecer que um dia fizeram uma aposta para ver quem conseguiria unir aqueles dois a ter que sofrer ameaças de uma garota tão violenta quanto Sango.


Escondendo-se novamente na sala do centro acadêmico, Rin novamente pousou a cabeça sobre a mesa e ficou observando os cristais cobrirem a miniatura do Castelo de Nagoya.

Sesshoumaru com certeza não apareceria ali e ela estava já cansada de correr de um lado para outro. Trancara também a porta e escutava até o próprio coração batendo com o silêncio que dominava a sala.

-Irritantemente silencioso...

Foi isso que dissera no outro dia, não? Ou será que fora o contrário?

Sentou-se em cima da mesa e ficou brincando com a miniatura.

Será que Sesshoumaru apareceria ali? Até ela estava cansada de se esconder dele.

Ficou jogando o enfeite no ar e pegava-o com a outra mão.

Mesmo que o encontrasse agora, talvez não conseguisse dizer o que sentia. Ou travar uma conversa de cinco minutos sem sentir tudo que sentia só de pensar nele.

Jogou de novo o enfeite.

-Tudo o que sinto...

E percebeu que ele cairia no chão.

-Ah, droga! – ela se jogou para agarrar o objeto, mas não adiantou muito: ele quebrou na mão dela e Rin acabou cortando os dedos. A caríssima esfera comprada na mais cara joalheria japonesa chegou a um rápido fim pelas mãos da própria compradora. Talvez tivesse sido por causa disso que Jakotsu a olhou estranho quando ela finalmente decidiu comprá-lo.

Fez uma careta ao ver o sangue escorrer e procurou um pano para secar. Não o encontrou e foi até a bolsa para pegar lenços de papel para limpar a mão e catar os cacos, jogando-os depois no lixo com um pesar. Nem colar adiantaria.

Minutos depois, estava novamente com a cabeça sobre a mesa e olhava para os papéis sem o peso para segurá-los.

Sentia-se triste, e nunca pensara que se sentiria assim por admitir que gostava de alguém. E pensar que ele foi tão corajoso quando falou aquilo da primeira vez.

-Sua covarde... – falou para si mesma.

Será que alguém entraria na sala? Queria ficar sozinha e dormir um pouco, mas não naquela cadeira desconfortável.

Olhou para baixo da mesa e viu que tinha espaço suficiente para uma pessoa adulta ficar lá.

Rin abaixou-se e ficou sentada embaixo do móvel, lembrando-se que, quando criança, escondia-se debaixo da mesa do escritório do pai para fugir de Jakotsu, este insistindo em vesti-la com roupas espalhafatosas.

Olhou para o ferimento enrolado em lenços que tinha na mão. Aquilo era tão ruim... Teria que limpar o ferimento depois para não piorar.

Mas só depois... Agora estava com sono depois de uma noite mal dormida, e Sesshoumaru ainda não havia aparecido e...


A pele da mão ardia dolorosamente e ela soltou um fraco grito para indicar a dor que sentia. Abriu os olhos e viu uma mão curvada sobre a dela e limpando o ferimento com um antisséptico. Olhou para o lado e arregalou os olhos ao ver quem estava ali.

-Se-Sesshoumaru?

O rapaz não falou nada por um momento e continuou limpando os dedos sujos de sangue com um pedaço de algodão.

-O que está fazendo aqui embaixo? – ele perguntou, suavemente – E como machucou a sua mão?

Rin sentia o rosto impressionantemente aquecido e as pernas bambas, mesmo naquela posição. Abraçou os joelhos com a outra mão e baixou o rosto.

-Eu me cortei...

Sesshoumaru arqueou as sobrancelhas e abriu uma gaveta próxima para tirar de lá gaze e um rolo de esparadrapo, terminando de fazer o curativo na mão dela.

-Como você entrou aqui? – foi a pergunta dela.

O rapaz olhou para ela como se estivesse falando com um desconhecido.

-Eu tenho uma cópia da chave... Lembra?

-Oh... – ela deu um sorriso sem graça. Que lindo, agora, além de criança, ele vai pensar que você é alguma idiota por não se lembrar de uma coisa tão óbvia.

Fez menção de querer sair debaixo da mesa, sentindo as costas e o pescoço doerem por ter ficado sentada numa posição ruim por tanto tempo. Percebeu que ele se afastou um pouco para ajudá-la a sair dali.

-Já está se sentindo melhor? – ele perguntou, encarando-a com os serenos olhos dourados.

-Como? – ela perguntou, confusa.

-Não me parece bem nestes últimos dias... – ele lentamente começou. Esperava que pelo menos tivessem uma conversa mais calma – Está com algum problema?

A garota moveu a cabeça num "não".

-Esta semana eu não poderei aparecer muito por aqui por causa do julgamento... – ele começou – Vou começar a assisti-los... É algo bem cansativo.

Rin deu um sorriso sem graça.

-Eu acredito que esteja chateada por não conseguir fazer parte disso. É por isso que não quer falar comigo?

Encarou os olhos dourados e moveu a cabeça num outro "não", acariciando a mão que estava machucada.

-Só estou preocupada com uma coisa... – sorriu sem jeito – Gosto de ficar sozinha para pensar...

O rapaz inclinou o rosto para analisar melhor a figura dela. Ela parecia doente, derrotada de alguma forma esmagadora.

E ele não gostava daquilo. Quem quer que tivesse feito aquilo com ela iria pagar caro.

-É algo com você?

Fez que "sim" com a cabeça.

-Mas eu perguntei se estava com problemas... E você disse que não.

-Na verdade... – ela fechou os olhos e deu um sorriso triste – Eu nem sei se é um problema...

Percebeu que ele arqueara as sobrancelhas e continuou:

-Como sou tola, né?

-Eu não acho que seja. Do contrário, eu também seria por me preocupar com uma coisa

-Está preocupado com o quê?

-Com a sua mão.

Rin prendeu a respiração e olhou o curativo que a enfaixava, sentindo o rosto ficar vermelho. Felizmente, ele não pareceu perceber.

-Você pode me ajudar aqui? – ele perguntou, mostrando uma pilha de livros – Preciso levar isso pra sala de um professor. Entrei aqui pra pegá-los e vi você debaixo da mesa...

Rin murmurou um "sim" e se prontificou a ajudá-lo, segurando uma parte dos livros delicadamente com a mão que estava boa. Esperou por ele para saírem, mas percebeu que Sesshoumaru se detivera a olhar para a mesa procurando por algo.

-O que foi? – ela perguntou, curiosamente.

-Estou procurando... aquele presente que me deu. – ele continuou procurando, tirando outros objetos do lugar um tanto desesperado – Será que Houshi o pegou?

Rin mordeu o lábio e ficou vermelha de novo, novamente feliz por saber que ele não a estava vendo.

-Aposto que aquele idiota quebrou... Quase o quebrou uma vez e deixou uma rachadura... – pausou a fala e os olhos dourados pousaram na lixeira.

Imediatamente, ele sentiu o sangue ferver e murmurou num profundo desprezo:

Miserável.

-Eu a-acho que não foi culpa... dele. – Rin se adiantou ao perceber que ele avistara os cacos no cesto – Deve ter sido outra pessoa. Ela deve ter quebrado sem querer.

Sesshoumaru se virou para falar alguma coisa sobre Miroku, mas a voz não saiu quando os olhos ficaram fixos no ferimento dela.

Silêncio se fez. O curativo estava começando a coçar na pele e ela esfregou de leve as unhas na pele, quase por cima.

-Vamos sair... – ele finalmente falou depois de ficar calado por um momento. Guiou-a para sair dali e caminharam lado a lado pelos corredores.

-Você quer assistir a um dos julgamentos na semana que vem? – ele perguntou, repentinamente.

-Como? – perguntou, distraidamente.

-Acho que ainda está um pouco desapontada por não poder trabalhar no caso. Queria saber se ao menos quer ir a um dos julgamentos. Eu posso arranjar um lugar pra você.

-Eu... – engoliu em seco e falou – Acho que vou gostar muito.

Ficaram em silêncio e começaram a subir as escadas.

A cada degrau que subia, Rin pensava em como teria coragem de falar o que sentia por ele.

-Sua mão não está doendo?

-N-Não tanto... – ela respondeu com a voz fraca.

Como você é fraca... Já falou tantas coisas horríveis para ele e não tem coragem de dizer algo tão simples e bonito?

-Já estamos chegando. – ele falou e Rin não comentou.

Idiota que você é. Sempre pensou que era forte e agora era uma fraca e covarde para dizer as coisas certas.

-Pode entregar. – ele falou, estendendo a mão para ela.

Sesshoumaru arqueou as sobrancelhas ao ver que Rin estava chorando, duas grossas lágrimas fazendo uma trilha dos olhos, passando pelas bochechas e chegando ao queixo. As gotas caíam na blusa e espalhavam uma mancha incolor da mesma forma que uma gota de tinta preta manchava uma folha de papel de arroz.

-O que você tem? – ele perguntou, largando todos os livros no chão.

-Eu sinto... desculpe... – Rin soluçou, sorrindo tristemente – Desculpe ter quebrado o seu presente...

-Eu não... Eu... – ele deu um suspiro exasperado e passou a mão pelos cabelos – Você está preocupada com o quê? – perguntou, aproximando-se dela. Rin olhando para os pés como se fosse a coisa mais interessante do planeta, mas percebeu que ele estava próximo porque sentiu as pernas balançarem – Quer conversar sobre isso?

Rin fez que "não" com a cabeça.

-Você está sofrendo?

Moveu a cabeça num "sim".

-Então eu quero saber. Pra fazer você chorar, deve ser muito grave.

Rin ergueu o rosto e encarou os olhos dourados, sentindo uma lágrima escorrer na pele.

Segundos depois, virou-se para sair correndo pelas escadas.

-RIN! – Sesshoumaru gritou, preparando-se para ir atrás dela.

-Sesshoumaru? – um professor falou atrás dele.

Droga. De novo foi impedido. Olhou para o professor e este recuou ao perceber o ódio no olhar do rapaz.

-O-O q-que foi? – o professor perguntou amedrontado.

O rapaz olhou a direção que Rin havia tomado para correr e deu um suspiro ao perceber que ela tinha sumido.

-Nada... Eu trouxe os livros que me pediu. – abaixou-se e pegou os livros do chão.

-Obrigado. – o professor agradeceu com a cabeça, olhando depois para a escada – Aquela era Nozomu?

-Sim. – Sesshoumaru confirmou e passou pelo professor – Será que depois poderia arranjar um lugar pra ela no julgamento da semana que vem?

O professor seguiu o rapaz e falou com calma:

-Ora... Claro. Por que não?


Cansado. Era assim que se sentia depois de passar o dia todo trabalhando. Sesshoumaru sentia as costas e os braços doerem, além da vista estar muito cansada. Entrou no Centro Acadêmico e trancou a porta para não ser incomodado. Queria descansar, e por um momento achou que embaixo da mesa seria um bom lugar para isso. Só não achava excelente por estar com as costas doloridas e sentir vontade de se jogar numa cama e só levantar-se no dia seguinte, se não tivesse mais nada para fazer na vida.

Colocou os livros em cima da mesa e deu um suspiro, sentando-se depois na cadeira para descansar um pouco. Definitivamente precisava voltar para casa, e precisava fazer isso logo.

Só não esperava encontrar o avô ainda acordado por lá. Seria pior que ter que conversar com cinco Mirokus ao mesmo tempo.

Os olhos cansados varreram os objetos sobre a mesa e estes viram algo realmente curioso: prendendo alguns papéis, estava outro enfeite que servia de peso de papel. Pegou o objeto e observou-o.

Agora era uma velha cabana de bambu com milhares de enfeites coloridos que, quando sacudido, enfeitava o telhadinho com várias cores. Não o tipo de coisa que gostava, mas teve que admitir que era bonito, do gosto de alguém que conhecia.

Novamente iria pousar o objeto sobre os papéis para prendê-los, mas parou centímetros antes de fazê-lo ao perceber um bilhete destinado a ele. Pegou o papel e prendeu os outros debaixo com o enfeite, abrindo o bilhete para lê-lo.

A caligrafia era de Rin, reconhecida imediatamente. Era enfeitado com uma carinha em SD desenhada pela garota, em que mostrava rascunhada a face dela, o cabelo solto e um braço erguido com os dedos em forma de "v".

Oi!

Eu sinto muito por ter quebrado o outro enfeite, mas espero que goste deste aqui. Foi o mais bonitinho e parecido com o outro que achei numa loja aqui perto. Eu gostei muito de sacudir e ver que enchia o telhado da cabana com esses enfeites coloridos...

Eu vou gostar muito de ir ao julgamento com você semana que vem, isto é, se realmente quiser. Quando puder, deixe um recado na sala ou com alguém. Farei o possível para falar com você.

Eu sinto muito por sair naquela hora correndo, mas há tantas coisas na minha cabeça e só agora eu as estou organizando. Quando você terminar o seu trabalho, podemos conversar? Eu não quero incomodá-lo durante o processo, sei que é muito importante pra você e não quero preocupá-lo.

Até outro dia.

Rin-chan.

P.S: Ainda nem agradeci por ter feito aquele curativo na minha mão. Muito obrigada!

Ficou observando os dois hiragana do nome. Duas pequeninas letras que indicavam a identidade dela.

Releu o bilhete e os cantos dos lábios se curvaram num sorriso. Semana que vem seria muito interessante.


Rin olhou o relógio na parede mais uma vez e o celular em mãos, franzindo a testa ao olhar um nome e um número em especial no display.

Não era realmente tão tarde assim para ligar para alguém. Só tinha medo do rumo que a conversa teria e quanto tempo levaria para ter uma resposta concreta a uma pergunta.

Se é que existiam respostas para isso.

Apertou o botão do celular e fechou os olhos, escutando o som da chamada.

Em Nagoya, Nozomu Jakotsu estava quase para entrar em sono profundo quando despertou subitamente com o celular tocando. Confuso e um pouco nervoso, ele pegou o aparelho e piscou várias vezes antes até entender quem estava ligando e decidir atender.

-Rin? – ele murmurou com uma voz rouca e sonolenta.

Houve primeiramente silêncio antes de ouvir a voz da prima.

-Ah... De-Desculpe, Jakotsu... – ela se desculpou. Pelo quê, ele não sabia ainda – Você estava dormindo?

-Hmm... É... – ele olhou novamente o relógio na cabeceira e quase suspirou em alívio quando viu que ainda era cedo – Vou pegar um voo de madrugada pra Hong Kong.

Novamente, fez-se silêncio.

-Aconteceu alguma coisa, Rin?

Outro silêncio. Desta vez, mais curto, porque foi quebrado por um soluço trêmulo no outro lado da linha.

-Rin. – ele falou, desta vez mais sério. Ergueu-se num cotovelo e rapidamente pegou o fone da extensão no quarto. Iria ligar no mesmo instante para Hakudoushi e os dois iriam juntos para a capital se por acaso tivesse acontecido alguma coisa com ela – O que aconteceu?

-Eu... – escutou-a engolir o soluço e limpar a garganta.

Houve mais um instante de silêncio antes de ela realmente continuar.

-Eu gosto dele, Jakotsu.

A voz saiu fina, fraca, como numa confissão. Ele conseguia visualizar o rosto dela inchado e vermelho, sentadinha no sofá do minúsculo apartamento da capital, num conflito de sentimentos.

Precisou sentar na beirada da cama, segurando o celular em uma das mãos e esfregando os olhos com a outra. Apoiou depois os cotovelos nos joelhos, inclinando o corpo.

-Gosta, é?

-Demais... – outra vez a voz saiu fraca.

-Isso é... bom, não é? – ele quis soar positivamente, tentando ainda entender o motivo para ela ter ligado.

-Eu só não sei como dizer isso a ele... depois de tudo. – ela finalmente falou. E ele a imaginou com os lábios num beicinho, achando que aquele problema não tinha solução – Tenho medo de ele rir de mim, de dizer que não tem mais interesse...

Dando um suspiro, Jakotsu novamente esfregou os olhos. Ao abri-los, viu as horas na cabeceira e voltou a deitar-se, ainda com o celular colado à orelha.

-Eu acho que você deveria fazer o seguinte...

E a conversa continuaria por mais algum tempo...