Olá,

Segue mais um capítulo de "O Labirinto". Encontrei um tempo livre e aproveitei para escrever. Recebi poucas reviews, no entanto, acompanho o tráfego de visitantes e percebo que tem muitas pessoas lendo, porém poucas comentando. Por favor, meu tempo é bastante escasso para escrever, se eu não receber reviews, fico com dificuldades em continuar a fic, pois os comentários me ajudam bastante a continuar desenvolvendo esses personagens. Agradeço a todos que deixaram comentários, principalmente com as sugestões. Espero que este capítulo renda mais comentários que o capítulo anterior, para que eu continue motivada a desenvolver essa história. Agradeço a todos os leitores, lei uma a uma as críticas. Por isso, me digam o que acharam. Um beijo, Claire.


Volto irritado para o meu quarto. Mais um encontro infrutífero, mais desgaste emocional, mais irritação. Ela está fazendo de tudo para me contrariar, para pôr à prova a minha capacidade em ficar calmo, em manter o controle. Eu sei que eu tenho o controle sobre ela. Controle do seu corpo e das suas emoções. Ela não tem como escapar daqui e sabe disso.

Engraçado é que, mesmo que hoje tenhamos novamente discutido, achei que fiz alguns pequenos progressos com ela, pois tentamos conversar de uma maneira civilizada, apesar de tudo isso. Ela parece até ter sentido ciúmes de mim com Anna. Não sei porque ela achou que eu dancei com a irmã dela. Não dancei, apenas conversamos. Falei isso a ela e, mesmo assim, Helen não acreditou em mim. Cada vez mais ela se sente confusa e eu venho me aproveitando disso, pois, se ela não vai ceder, preciso continuar mantendo o controle da situação.

O fato de ter precisado viajar também foi ótimo, pois orientei a Frau Künzel que não deixasse sua filha servi-la e que ela pessoalmente se encarregasse dos cuidados com Helen, e que falasse o mínimo possível com ela. Sei que em situações de forte estresse emocional, a falta de contato humano pode deixar uma pessoa ainda mais fragilizada. Sofri esse período que precisei viajar a negócios, mas, pelo que vi do comportamento de Helen hoje, foi bastante produtivo. Ela sentiu falta de ter alguém para conversar, e, como sou a única pessoa a quem ela pode recorrer, isso significa que, de uma maneira bem torta, Helen sentiu a minha falta.

Deitado, fico pensando se existe alguma outra estratégia que eu possa ter com ela. Helen está há mais de um mês em minha casa e tudo o que consegui até agora foi ser insultado. Ela não quer ceder e eu também não quero, mas, sinceramente, do jeito que está, não sei mais o que poderia ser possível. Talvez se eu falasse a ela que vou fazer algo contra Anna, quem sabe ela ceda. Pelo que percebi, Anna é o tipo de mulher que facilmente é seduzida. Quem sabe eu ameace Helen com a possibilidade de seduzir a sua irmã, de me tornar o seu cunhado... Quem sabe!

No dia seguinte, decido que vou dar um pouco de liberdade a Helen, para que ela veja que posso ceder um pouco. Vamos ver como vai se comportar...

Quando abro a porta, a encontro sentada em uma escrivaninha, vestida como se estivesse pronta para um passeio. Ela usa um dos vestidos que escolhi para ela e fico feliz com o quanto ela ficou bonita com ele. É um belo vestido branco, estampado com pequenas flores azuis e mangas na altura do antebraço. Ela está calçando sapatos azuis, e está maquiada e penteada, como se realmente fôssemos dar um passeio. Seus cabelos estão presos em um coque casual, que ficou muito bem nela. Vejo que está até usando um par de brincos de pérolas para combinar. Fico animado com tão bela visão logo cedo.

- Bom dia. Vamos tomar café?

Ela ergue os olhos para mim, não responde o meu cumprimento, se levanta e vem em minha direção.

Não forço uma conversa desnecessária. Tomamos nosso café juntos, porém, não trocamos uma palavra. Foi aí que entendi que o máximo de concessões que ela poderia fazer neste primeiro momento foi ter tido o cuidado de se arrumar. Eu a convido para irmos para o jardim que fica nos fundos da propriedade. É um local aberto, como ela queria, porém bastante reservado, pois não tenho vizinhos próximos.

No caminho, ofereço-me como apoio para ela, que ainda caminha com bastante dificuldade, mas com a mão, ela faz um gesto que entendo como uma recusa. Ainda não conversamos nada, e, como ela dispensou minha ajuda, levamos um tempo maior para chegarmos ao jardim. Assim que chegamos, tento mais uma vez quebrar o gelo.

- Você está muito bonita hoje, Helen.

Surpreendentemente, ela me responde.

- Obrigada!

- Quer sentar ali no caramanchão?

- Sim, estou com a perna um pouco dolorida.

- Deixe-me ajudá-la.

Novamente, ela faz o gesto que repele a minha tentativa de aproximação.

Nos aproximamos do caramanchão. Helen escolhe uma cadeira longe da minha para se sentar. Depois de um silêncio perturbador, resolvo acender um cigarro.

- Vamos ficar em silêncio hoje?

Ela não responde.

- Helen, por favor, seja razoável. Eu não a trouxe para fora, para tomar um pouco de ar?

Ela continua em silêncio.

- Eu estou cedendo... Por que você não...

Nisso, sou interrompido de forma brusca por ela.

- Ora, faça-me o favor! Eu também cedi. Não estou toda arrumada aqui? Eu fiz uma refeição completa com você ao meu lado e não o provoquei. Acho que é o suficiente por hoje, não acha?

- Não, Helen. Não acho. Se você não quisesse se arrumar, eu a traria para cá usando pijamas mesmo. Eu disse que tentaria facilitar um pouco as coisas para você. Mas também disse que você deveria ceder um pouco também, para que as coisas pudessem melhorar um pouco.

Ela então dá um longo suspiro.

- Herr Kommandant, eu estou tentando. Mas, tente olhar a situação com os meus olhos. Eu não estou aqui por minha vontade. Eu nunca quis estar aqui. Eu estou presa em um lugar com a pessoa que eu mais temo e odeio nesse mundo. O senhor foi meu algoz. Não pode esperar que eu tenha qualquer sentimento razoável em relação ao senhor.

- Pare de me chamar de senhor. Já ultrapassamos essas formalidades.

Ela dá de ombros.

- Tudo bem. - Insisto. - Vamos começar de novo. Sobre o que quer conversar?

- Sobre você. - Ela diz.

Surpreso, respondo:

- Sobre mim? O que quer saber?

- Como escapou da prisão em Cracóvia?

- Você quer mesmo saber?

- Sim.

Então conto a ela toda a epopeia que foi a minha vida, sobre o plano de fuga, a troca de lugar com o guarda da prisão, os subornos, o afastamento de Majola, sobre a filha que tive com ela e não conheci, sobre a fuga para a Argentina, cruzando o continente europeu de maneira clandestina até chegar à Inglaterra. Contei a ela sobre como forjei a identidade de Anton Klaus Prauchnner, como o dinheiro desviado de Plaszóvia foi parar em minhas contas em Genebra, enfim, contei a ela sobre tudo. Não omiti nada, nem mesmo sobre as mulheres que cruzaram o meu caminho, as viagens que fiz e o plano de retorno à Europa, já na persona de um milionário recluso. Quando julguei que ela já sabia o suficiente, me dei conta que já havíamos dispensado Frau Künzel por diversas vezes e que havíamos perdido a noção da hora, pois já eram mais de quatro horas da tarde. Ela pareceu ouvir tudo atentamente e em silêncio. Ao me calar, ficamos mais um tempo em silêncio.

Acho que já havia fumado praticamente todos os cigarros da minha cigarreira quando ela dirigiu a palavra a mim.

- E como é viver uma vida de fingimento? - Ela disse, de forma áspera.

- Eu não considero a minha vida um fingimento. Eu vivo bem com a identidade que escolhi.

- Você dorme bem à noite? - Ela insistia em me ferir.

- Sim.

- A sua consciência nunca pesou? As mortes que carrega nas costas... Toda aquela brutalidade do campo... Nada disso o afeta?

- Não.

- E se pudesse voltar no tempo, teria feito as coisas de maneira diferente?

- Você se refere ao nazismo, ao cargo que ocupei e os crimes que cometi?

- Sim.

- Não, eu não faria nada diferente.

Ela me olha com um misto de horror e indignação, que, sinceramente, não me afetam. Não tenho nenhum problema com a minha consciência e muito menos com o meu passado. Então, ela tenta mudar um pouco o rumo da conversa.

- E não sente falta da liberdade perdida?

- Que liberdade? - Pergunto.

- Você não mudou sua fisionomia... Perdeu peso, é verdade, mas, eu o reconheci no minuto que o vi. Não tem medo de se expor assim, de ser reconhecido por um sobrevivente do campo, como eu?

- Já tive esse medo. Tomo algumas precauções, vivo bastante recluso, saio pouco. Mas, até agora não tive problemas. Como te disse antes, não fico muito tempo em um mesmo lugar, viajo muito, então, estou tranquilo. Levo uma existência calma, sem grandes perturbações. Mas, como vê, estou tão confortável em minha nova identidade que voltei a viver em Viena.

- Eu não teria essa tranquilidade...

- Por que não? Eu fui julgado, não fui? Para todos os efeitos, eu fui executado. Amon Goeth pagou sua dívida com a sociedade, pagou com a vida por todos os crimes que cometeu. Anton Klaus Prauchnner, no entanto, não tem nada a temer. Não tem nenhuma relação com Amon Goeth, com a guerra, com Hitler...

- Você é patético...

- Não, Helen, sou prático. E não sou burro. Isso fez toda a diferença.

Helen parece ter ficado chocada com as minhas palavras e se cala novamente. Proponho sairmos dali, para explorarmos um pouco mais o jardim. Ela concorda. Mais um longo tempo em silêncio se passa, até que ela resolve falar.

- E os seus filhos?

- O que têm os meus filhos?

Ela para, o que me força a parar também. Olho para ela, que fixa o olhar sobre mim, de uma maneira muito intensa.

- Você sente falta deles?

Essa pergunta me atinge em cheio. Perturbado, olho para outro lado, para qualquer coisa que não sejam os olhos dela e respondo, um pouco contrariado, após outra longa pausa.

- Todos os dias.

Dou outro suspiro e continuo.

- Helen, aos seus olhos eu sou um monstro. Mas é preciso que você entenda que, antes de ser um monstro, eu também sou um ser humano, por mais difícil que isso pareça a você. Eu fui casado, eu amei outras mulheres, eu amo os meus filhos, até mesmo Monika, minha filha que nem cheguei a conhecer. Eu os amo, intensa e verdadeiramente. Mas foi preciso abrir mão deles, até mesmo para preservá-los. Eles estão crescendo longe da minha sombra e isso é muito bom. Mas não há um dia em que eu não pense neles. Em como Werner está se desenvolvendo, no quanto Ingeborg deve estar aprendendo na escola e como Monika têm vivido sem nem ao menos ter conhecido o pai. Eu sinto falta até mesmo do meu filho que morreu e que também conviveu muito pouco comigo. Eu sinto falta... Eu gostaria...

Decido me calar, por julgar que os meus sentimentos não a interessam e também porque me sinto derrotado, pois ela me atingiu em um ponto muito delicado. Falar dos meus filhos é muito doloroso, porque precisei abdicar da paternidade para me manter vivo... É um lado da minha vida que precisou morrer, mas que ainda permanece vivo, em um canto do meu coração que não costumo acessar com frequência, justamente para evitar o sofrimento.

Foi então que notei que meus olhos umedeceram, ainda que contra a minha vontade. Sim, para muitos eu sou um monstro, o homem que carregou a alcunha de "açougueiro de Plaszóvia". Mas eu também tenho um lado humano, um lado que não é cruel, um lado amoroso que sente muito e que procura os olhos dela, talvez em busca de alguma simpatia, ou talvez esperando uma nova condenação.

Para minha surpresa, ela não está mais me olhando de maneira inquiridora. Não consigo adivinhar o que se passa em seu íntimo, mas, estranhamente, não me pareceu um julgamento.

Ao perceber que tento adivinhar o que ela está pensando, ela também desvia o olhar. Então eu a ouço falar, bem baixinho.

- Eu sinto muito por isso. - Ela então volta a olhar para mim. Não há ódio, não há rancor, não há nem mesmo simpatia... Mas vejo que não estão completamente indiferentes a mim.

- Não vamos mais falar sobre isso. Esse assunto não diz respeito a você. - Eu comento.

Ela não diz nada.

Em silêncio, nos dirigimos de volta à casa. Foi então que, sem querer, eu tropecei em uma pequena pedra e me desequilibrei. Helen rapidamente me segura, evitando uma queda feia. Constrangido, olho para ela, tão pequena e delicada, me segurando com força. Me recomponho e, quando olho para ela, vejo que não está mais me olhando com horror ou nojo. Isso me encoraja e resolvo retomar a conversa.

- Obrigado. Você evitou uma queda e tanto.

Ela me solta, sem dizer uma palavra e voltamos para casa. Quando estamos quase na porta, ela para e fala.

- É muito difícil para mim olhar para você e não ver um monstro.

Eu olho para ela e mudo de assunto.

- Eu gostaria de ouvir um pouco de música. Você me acompanha?

Ela faz que sim com a cabeça e vamos para a biblioteca.

- O que você quer ouvir? - Pergunto a ela.

- Acho que será melhor se eu não ouvir música clássica. - Ela diz, e eu concordo, pois não quero vê-la chorando pelo maestro.

De repente, ouço os tristes acordes de Szomorú vasárna, a conhecida canção húngara de Rezsõ Seress, famosa por levar muitas pessoas ao suicídio. Eu mesmo ouvi muitas vezes essa canção, em minhas noites solitárias em Plaszóvia. Fico incomodado com a escolha dela. A triste canção ecoa por toda a biblioteca.

"Szomorú Vasárnap száz fehér virággal,
Vártalak, kedvesem, templomi imával,
Álmokat kergető vasárnap délelőtt,
Bánatom hintaja nélküled visszajött.

- Helen... Acho que podemos ouvir outra coisa.

- Por quê? Se é esse o meu estado de espírito.

Irritado, desligo a vitrola e olho para ela, que nesse momento está em pé, virada para a janela. Me aproximo e percebo que ela está com os olhos fechados, mergulhada nas profundezas da maldita canção.

Eu me aproximo e coloco a mão direita sob o ombro dela. Ela se assusta e começa a tremer um pouco. Percebo que o meu toque a incomoda, então afasto minha mão rapidamente, para não provocá-la ainda mais.

- Eu só queria que você tentasse não ficar tão infeliz.

E então, surpreendentemente, Helen fica frente a frente comigo. Seus olhos estão completamente marejados. Eu fico profundamente consternado ao vê-la sofrer tão intensamente. Todas as outras vezes em que a vi chorar ou implorar para ir para casa, não haviam me tocado como agora. Talvez eu esteja fragilizado também, dadas as circunstâncias. A conversa que tivemos hoje me afetou profundamente. Provavelmente por quê eu não fale sobre os meus filhos com ninguém, é um assunto que está morto e enterrado há tanto tempo, nunca tive a oportunidade de falar sobre isso com ninguém, ainda mais com ela, que nunca deu abertura alguma para que eu falasse sobre o que quer que fosse com ela.

Seu choro é tão sentido, tão tocante que, quando dei por mim, já havia envolvido-a em um abraço forte, estreito e passional.

E, por incrível que pareça, Helen não tentou fugir, não se afastou, não reclamou. Ao contrário, quando percebi, ela havia passado os braços pelas minhas costas e me envolvido em um abraço forte. De repente, estávamos os dois ali, unidos por um inesperado abraço, tão próximos como jamais estivéramos. Nosso abraço não significou uma trégua, não significou nem mesmo o amor que eu sinto por ela. Foi algo mais intenso, mais profundo e que certamente ficará marcado como uma dessas coisas inexplicáveis e que acontecem sem planejamento. Simplesmente aconteceu.

Me perdi nos braços dela.

Me deixei levar pela emoção daquele momento tão raro e me permiti sentir os olhos umedecerem. Não cheguei a chorar, como ela, mas foi por muito pouco. Então ela disse, com a voz embargada:

- Eu te odeio tanto...

- Eu sei.

Ela enterra a cabeça no meu peito e continua chorando, intensamente. Então eu a pego no colo e saio da biblioteca. Atravesso boa parte da mansão com ela no meu colo, ainda chorando. Subo as escadas, percorro o longo corredor e a levo até o seu quarto. Helen parece ter regredido muitos anos, pois ao olhar para ela, não vejo mais a dama sofisticada que ela se tornou ao completar 30 anos. Ela parecia novamente aquela inocente garota, tão singela, tão triste...

Eu entro com ela em seu quarto, caminho até a sua cama e a deposito ali, ainda banhada em lágrimas, mas já tentando se recompor. A noite já havia caído há muito tempo e, mesmo com as janelas lacradas, era possível ouvir o barulho de uma tempestade fortíssima que açoitava as árvores do jardim e fazia com que as janelas uivassem por causa do vento. Foi então que ouvimos um estrondo de trovão, forte a ponto de fazer com que Helen arregalasse os olhos.

Quando estou me afastando dela, pois fiquei preocupado com tamanha comoção que provoquei na biblioteca, percebo que ela agarra meu braço com força, a ponto de quase me fazer perder o equilíbrio e cair por cima dela.

- Por favor, não vá!

- Eu quero que descanse agora... Você está muito nervosa.

Nisso, ouvimos outro estrondo ensurdecedor, provocado por um trovão e Helen aperta o meu braço com ainda mais força.

- Fique!

- Você está com medo?

- Os trovões me lembram as bombas... A guerra... Eu... Eu tenho muito medo de trovões.

- Tudo bem.

Eu gentilmente tiro a mão dela do meu braço e vou até o corredor. Ela arregala os olhos e fala um pouco mais alto.

- Você não vai ficar?

- Espere um pouco.

Eu saio, vou até o interfone que fica no corredor, escondido atrás de um quadro, e solicito que Frau Künzel venha falar comigo. Quando a velha governanta chega até o corredor, entrego a chave do quarto de Helen em suas mãos.

- Quero que nos tranque pelo lado de fora.

- Isso não é muito arriscado, senhor? Ela pode atacá-lo e...

- Ela não me atacará, acredite.

- Que horas eu venho abrir a porta?

- Eu vou tocar a campainha do quarto dela para que venha abrir a porta.

Diante do olhar de preocupação de Frau Künzel, insisto.

- Não se preocupe. Está tudo sob controle.

Certamente. Será como o senhor quiser.

Eu entro no quarto e, sob o olhar apreensivo de Frau Künzel, fecho a porta lentamente. Escuto ela girar a chave duas vezes pelo lado de fora.

- Helen, eu sinto muito, mas precisei nos trancar pelo lado de fora.

Quando olho para ela, vejo que trocou de roupa e agora está usando umas das belas camisolas que escolhi com todo o cuidado para ela. Ao ver que a estou observando maravilhado, ela puxa o cobertor como se quisesse se proteger de mim. Percebo que ela ficou constrangida e tento tranquilizá-la.

- Helen, se acalme. Eu não vou fazer nada com você. Lembre-se, eu fiz uma promessa a você.

Ela continua me olhando com ar assustado. Para tranquilizá-la, sento em um sofá perto da cama dela.

- Eu vou dormir aqui no sofá. Não se preocupe. Não é porque estamos trancados aqui que eu vou fazer algo que você não queira.

Então ela pareceu relaxar um pouco e deitou na cama.

- Se importa se eu dormir agora? Estou muito, muito cansada.

- É claro que não.

- Você vai dormir?

- Estou sem sono. - Minto.

Ela aceita a minha resposta, porém, puxa a coberta até em cima de sua cabeça, como se quisesse deixar bem claro que não quer me ver ali por perto. Não demora e ela começa a ressonar bem de leve, cansada que estava dos acontecimentos do dia.

E eu, que estava achando que não dormiria, logo comecei a dormir também.

Eu estava dormindo, mas de maneira alguma estava sonhando. Parecia mais um sono leve de vigília, de quem não está verdadeiramente relaxado. Foi então que senti uma mão fria me tocar no ombro. Abro meus olhos e lá está ela, me olhando intensamente.

- Eu me levantei para ir ao banheiro e vi que o senhor está apenas em mangas de camisa aí nesse sofá gelado...

- Eu estou bem, não se preocupe. – Menti, porque no fundo estava com muita dor no pescoço por ter dormido em uma posição nada confortável.

- Você pode dividir a cama comigo... – Ela parecia extremamente constrangida ao me fazer esse convite.

- Você está me convidando para dormir com você?

- Sim, no sentido estritamente literal da palavra "dormir". Herr Kommandant, pode se deitar ao meu lado, mas isso não significa que estou permitindo que me toque.

Sem esperar a minha resposta, ela então ela estende a mão e me conduz, ainda sonolento, para a sua cama.

- Você permite que eu tire a calça? Incomoda para dormir... Eu... Helen, é apenas para que eu fique mais confortável... Não vou tirar a roupa de baixo.

Ela faz que sim com a cabeça, mas desvia o olhar para não me ver baixando as calças. Assim que fico confortável, deito ao lado dela na cama, tomando o cuidado de ficar o mais longe possível. Fecho os meus olhos em uma tentativa desesperada de não pensar que estou ao lado da única mulher que eu verdadeiramente amei, dividindo a cama com ela. A sensação é sublime, ainda que ela não tenha permitido nenhum tipo de contato físico. Só o fato de estar ali já me deixa imensamente feliz. É muito mais do que eu havia imaginado que ela conseguiria ceder. Estou tentando manter a calma, pensando que novamente terei a oportunidade de dormir ao lado dela, só que dessa vez com ela completamente ciente disso.

Então, a natureza parece colaborar para que essa noite fique ainda mais insólita. Ouvimos um novo e bastante assustador estrondo de trovão. Helen leva um susto tão grande que faz com que ela rapidamente pule para o meu lado da cama e me abrace, assustada.

Não consigo evitar um comentário carinhoso.

- Você parece uma garotinha. – Digo isso a ela, que está com o rosto enterrado no meu peito. Ela não diz nada.

E então, sem pensar muito, percebo que minha mão fez um gesto involuntário. Acaricio delicadamente o cabelo dela, mas disfarço o carinho, fingindo estar tirando o cabelo do rosto dela. Ela parece não se importar ou não percebeu a minha carícia, pois ainda está bastante assustada.

Então ela percebe que está novamente abraçada a mim e tenta se afastar. Eu forço-a a ficar.

- Não. Por favor. Fique aqui.

- Eu... Eu... – Ela ainda reluta.

- Fique.

Ela concorda, fazendo um leve aceno com a cabeça. Eu olho para ela, que desvia os olhos e os fecha novamente, cansada e assustada demais para se afastar de mim.

Eu estico o meu braço, apago a luz do abajur e volto a envolvê-la em meu abraço, determinado a protegê-la dos trovões, da chuva, da noite escura e de mim mesmo.

Não demora muito e eu escuto sua respiração estabilizar em um ressonar suave. Surpreendentemente, Helen estava entregue aos sonhos.

E eu, sem saber se tudo isso era um sonho, a estreito em meus braços e me entrego ao meu cansaço. Exaustos de tanta guerra, encontramos em uma violenta tempestade, um pouco de paz.