Capítulo 19
Onde ele estiver
- Eu não quero isto! Eu não o quero aqui!
As reclamações de Aria acordaram-nos depois de algumas horas. Ela puxava os lençóis e os cobertores com uma fúria incaracterística dela. Ayashii, ao lado dela e a esfregar os olhos de sono, limitava-se a anuir com a cabeça, sem grande convicção. Além delas, só lá estava Cassidy e Basttete, esta sentada num dos cantos do beliche de cima.
- O que é agora? - Perguntou à mulher, que fitava as outras cegamente.
- Miroir apareceu aqui e puxou o cobertor errado.
As duas suspiraram. Já estavam à espera de não verem a vida facilitada por ele, mas nunca por aquele ponto. Miroir não parecia guardar grande raiva por eles, nem os tentava assassinar a cada passo que dessem. Ele estava muito mais interessado em levar a sua avante e espreitar por baixo de saias, fazer piadas de mau gosto e vê-los a ficarem irritados ou constrangidos com isso.
Cassidy não percebeu aquela mudança. Quando tinha raiva, ou estava maldisposto, Miroir era mesquinho, próximo do demónio que tinham enfrentado durante aquele tempo em que estiveram de viagem. Porém, quando estava de bom humor, e que era coisa que acontecia na maior parte do tempo, era tal e qual uma criança grande, a fazer disparates e a rir-se que nem um perdido. A sua imagem de meio coelho, meio homem, também não ajudava nada. Parecia um palhaço de natureza, cujo passatempo favorito era tirar Meta do sério.
Ele conseguia. Bastava puxar um cabelo a Aria, e já o cavaleiro estelar deitava fumo da cabeça. Se tentasse qualquer aproximação maior, Meta seria capaz de aprender a cuspir fogo pela boca, e persegui-lo até ao fim dos seus dias. Se andasse atrás de Ayashii ou Biospark, e se eles reclamassem, o moreno tinha também de se impor. Isto quando Miroir não se virava para ele mesmo e lhe escondia a espada ou outro objecto qualquer que o visado procurasse no momento, pondo-se depois atrás deles a fazer caretas enquanto procuravam. Meta, farto dessa atitude que durara horas, queria expulsá-lo. Mas não podiam.
Estavam a navegar no espaço, e já tinha passado imenso tempo. Depois de encontrarem Miroir, ficaram a saber que deviam procurar a chave e o seu autor na Terra, e que esta tinha sido a única pista que conseguira encontrar e que os restantes não soubessem. Por isso, marcaram rota para o planeta e concordaram em tentar, também, encontrar Who. Se aquele ponto era o palco para tais acontecimentos, seria de prever que ele lá estivesse.
Porém, a Via Láctea ainda estava longe do ponto onde se encontravam, e a viagem parecia nunca mais terminar. Já tinham aproveitado para dormir, já Ayashii tinha cozinhado para todos, e Miroir tinha aparecido para atirar uma mão cheia da massa com molho de tomate à parede, já eles se tinham irritado diversas vezes com o demónio, e ele investira parte do seu tempo a disparatar ou a pensar numa forma astuciosa de afogar alguém numa das sanitas.
Cassidy tinha aproveitado o tempo para improvisar. Depois de ouvir mais uma vez aquela melodia no sonho, resolveu tentar transpô-la para o mundo real. No violino. Arranjou uma posição confortável num dos bancos, que lhe deixasse o braço e o arco livres para o que pretendia. Começou num tom sumido, aos arranques, a experimentar cada nota. Era um processo demorado, árduo. Aquilo que soava bem num momento, já não ficava tão bom noutro. Mas cada vez mais se aproximava do original.
Rudolph ficou a observá-la. Após alguns erros e descarrilamentos, começava a soar a algo com sentido e sentimento. Podia não ser das melhores executantes, podia até nem estar certo, mas tinha aquele poder de prender o ouvinte. Não como um par de mãos fortes, mas como uma suave e delicada que lhe acariciava os ouvidos, de tal forma que incitava a ficar para ouvir mais.
Ayashii estava sentada no outro banco, ao lado de Aria, e as duas contemplavam os progressos. Delas, só Aria entendia de música, e era porque cantava. Era diferente daquilo que Cassidy fazia, porque a jovem já tinha experimentado vários instrumentos, entre os quais o violino, e nem se ajeitara com ele. Para a moça dos cabelos lavanda, os violinistas tinham de estar numa pose um tanto estranha, com aquilo entalado entre o queixo e a omoplata, ter agilidade nos dedos esquerdos e suportar calos nestes e no indicador da mão do arco. Isto tudo sem fazer muita força. Depois de meses a tentar fazer o mesmo e sem sequer conseguir mais que alguns sons arranhados, Aria desistiu. No entanto, isso não a impedia de gostar de ver a outra a experimentar.
Após uma boa meia hora de tentativas, já era capaz de reproduzir o que queria, sem erros. Mas não havia forma de reconhecer de quem era o trabalho, nenhum deles tinha um conhecimento vasto dos compositores da Terra. Pouco mais sabiam do que algumas coisas que se contavam por quem já tinha viajado até lá. Na sua maioria, diziam que a música que lá se fazia era como um organismo vivo, em constante mudança, adquirindo novas facetas a cada instante. Havia de tudo. Música mais tecnológica, mais clássica, alegre, triste, e tantas outras. Um vasto leque de possibilidades.
Meta irrompeu pela porta, com uma expressão amuada. Não se deixava sensibilizar por nada, e foi num tom duro que os obrigou a todos a prestarem-lhe atenção. Estavam mais próximos da Terra, e precisavam definir um plano de intervenção. Àquela hora, já Gabrielli teria chegado ao planeta e este estaria infestado de Daleks. Resolveram não contar muito com ajudas de ninguém. Não sabiam quem era Who, se estava vivo, morto ou desaparecido, se tinha conhecimento e apareceria. Mais valia contarem apenas com eles mesmos.
Assim que lá chegassem, a primeira coisa a saber seria quem era o músico que procuravam. Depois, mantê-lo a salvo de todos os perigos que já contavam enfrentar. Até quando, não sabiam, mas tinha de haver uma forma de parar Gabrielli, ou passariam o resto da vida a fugir dele. Seria uma boa hipótese enquanto não soubessem o que fazer, mas não uma boa opção para o resto da vida de cada um deles.
Depois disso, ficaram mergulhados em silêncio, a ver o universo andar à sua volta. Estrelas e poeiras alheias ao que ali ocorria, alheias a uma jogada tão precisa quanto um jogo de xadrez e, ao mesmo tempo, assombrada pelas enormes probabilidades de falhar. Sentiam-se próximos de um xeque-mate, que ditaria o rumo do universo.
Não repararam numa estranha nave solitária que ali vagava, aberta e vazia. Estava escura, e fria. Dois golpes profundos, de lado a lado, denunciavam um ataque brusco, que teria vitimado os seus ocupantes. Objectos do seu interior tinham saído e orbitavam, sem qualquer força de gravidade que os puxasse e sem rumo. Não havia sinal de corpos. Aria é que reparou quando apareceram mais duas estações espaciais completamente esventradas e vazias, apagadas de vida. Colaram as caras ao visor para verem o espectáculo mórbido que desfilava à sua frente, de estômago embrulhado.
- Oh, céus!
Avistaram a Terra à frente, de um azul intenso encoberto por nuvens cinza. E, à volta dela, naves acastanhadas e douradas, de armamento em riste. Os Daleks estavam lá em peso, prontos a atacar, e tudo o que fora abalroado e atacado pelo caminho fora apenas uma pequena demonstração de poder. Cada um deles engoliu em seco, maldizendo o buraco em que se tinham vindo meter.
Temiam pela vida deles próprios, e uns pelos outros. Meta afastou Aria, pronto a obrigá-la a nem sair do quarto, Biospark abraçava Ayashii com quantas forças tinha. Cassidy sentiu uma mão em cima do ombro, com os dedos cravados na carne. Rudolph estava lívido, e os lábios tremiam-lhe. Finalmente se dava conta que arrastá-la para os negócios do pai fora tudo menos uma boa ideia. Se ela morresse, não se perdoaria por ter perdido. Depois daquela convivência que tiveram, daquele tempo que passaram juntos, a discutir ou a falar normalmente, não imaginava voltar a viver sozinho.
Com um baque, apercebeu-se da verdade. Estava apaixonado por ela. Por aquela que reclamava dele, e que parecia, por vezes, tão fria.
Passaram despercebidos pelas naves graças a um dispositivo de invisibilidade, que os tornava indetectáveis a qualquer radar. Com os motores no mínimo, procuravam não se denunciar com o ruído. Cassidy esperava aterrar no planeta e encontrar pistas sobre aquele misterioso sujeito. Onde quer que houvesse perigo, ele lá estaria. E ali estava quase a dar-se o apocalipse. Também contava que chegassem a tempo de salvar o compositor, de impedir aquela catástrofe. Corriam contra o tempo, contra tudo. Estavam dispostos a arriscar e a ir à procura da solução, encontrar o que procuravam.
Eles iriam até ao fim. Onde quer que ele estivesse.
