Quando eu era miúda, fugia de casa sempre que brigava com alguém ou com alguma coisa, acabando sempre por refugiar-me entre um banco de jardim e um arbusto. Ficava lá sentada durante horas, com as pernas dobradas e os braços em volta dos joelhos. No fim voltava para casa sempre nas mesmas horas, quer tivesse saído à três horas ou à três minutos, era sempre quando a minha barriga dava horas que eu sabia que estava na hora de regressar a casa. Afinal de barriga cheia o mundo parecia-me sempre diferente e toda e qualquer fúria que eu pudesse ter desaparecia.

Infelizmente eu já não era uma criança e as minhas brigas com alguém ou com alguma coisa não se resolviam apenas com a barriga cheia de comida. Hoje em dia apenas me permitia que eu ficasse menos rabujenta e pouco mais.

Naquela noite, quando regressei a casa, sentia-me como se não comesse à anos.

As pernas doíam-me por tentar andar, quando elas obviamente não o desejavam fazer. Não, eu não tinha medo, jamais tive medo dele, eu apenas não sabia o que fazer. Iria sair de casa? Iria deixá-lo? Iria ficar? O que iria eu fazer? Como sempre um dos meus instintos, fosse o de lutadora ou o de suicída levava-me para o meio da batalha sem nenhuma arma, sem nenhuma estratégia, como sempre iria lutar nua – mano a mano.

Coloquei a mão na maçaneta fria e respirei fundo antes de abrir a porta. A fresta de luz projectou-se pelo quarto revelando um caos de vidros, penas e cacos. Inicialmente pensei que fosse um truque da luz e que o quarto continuasse intacto, contudo com o fechar da porta a imagem de destruição permaneceu inalterada. Os quadros que anteriormente adornavam as paredes, sujavam agora o chão, acompanhados pelos objectos que figuravam em cima dos móveis.

Depois do choque inicial, a minha curiosidade despertou carregada de perguntas, mas apenas uma importava: o que o tinha levado a fazer aquilo. A resposta podia parecer óbvia, mas se eu pensasse que ele era um homem de negócios racional, calculista e frio a certeza perdia a firmeza perante tal argumento.

Uma silhueta, ou pelo menos o que restava dela, estava despojada em cima da cama, dissolvida entre lençóis e almofadas desalinhadas.

Aproximei-me da cama, sentindo os vidros crepitarem por debaixo dos pés. Sim, definitivamente era ele, de barriga para baixo, de olhos fechados e com os punhos cerrados.

O coração caiu-me aos pés e a culpa subiu-me à boca deixando um sabor amargo e seco. O colchão tinha sangue, havia sangue nas roupas dele mas sobretudo nas mãos dele. Oh! Meu Deus, o que tinha ele feito?! Sem cuidado atirei-me para cima da cama para tocar-lhe, sentir-lhe o pulso e confirmar a extensão dos danos. Era eu a culpada disto, se ele morresse como iria eu sobreviver?

Respira agora... o sangue provinha dos cortes que ele tinha nas mãos, nada mais do que isso. O alívio invadiu o meu corpo como um bálsamo. Que alívio, que loucura, também onde é que eu tinha a cabeça para achar que o Tsukasa se haveria de suicidar. Aliavada da culpa que sentia beijei-lhe as mãos feridas,e ele continuava sem se mexer ou emitir qualquer som e eu sem inibições pela ausência da presença dele continuei a beijar-lhe as mãos. Comecei a sentir o sangue dele nos meus lábios, aquele sabor metálico e salgado invadiu-me as mucosas e trouxe-me de volta à realidade. Larguei-lhe as mãos e mexi o corpo para sair da cama e procurar alguma coisa na casa de banho que lhe estancasse o sangue. Sentada na beira da cama senti uma mão a agarrar-me firmemente o pulso... era ele. Sem um palavra percebi o que ele queria e não iria recusá-lo, voltei com o corpo à minha posição inicial. Com o punho dele cerrado no meu pulso e a ideia que ele parecia uma criança ferida e com medo do escuro presente na minha cabeça, sussurei-lhe:

- Eu não saio daqui, mas deixa-me tentar limpar-te este sangue. – ele deixou, largou-me o pulso e enlaçou-me com um braço pela cintura puxando-me contra ele. Ele era sempre assim, um bicho, um animal ferido, que jamais iria admitir a sua fraqueza perante outra pessoa que não fosse eu. Eu sabia que lhe custava horrores ter de estar assim fraco e exposto perante alguém, mas também sabia que perante mim ele nem sequer reparava, era como se eu fizesse parte dele de tal maneira que se ele assistia à sua própria vergonha e embaraço, eu também assistia. Sem grande escolha, agarrei numa almofada que por ali jazia e retirei-lhe a fronha e rasguei-a, com uma parte limpei-lhe a mão livre e com outra fiz-lhe uma ligadura. Libertei a mão que me agarrava e repeti o procedimento, mal terminei ela tomou o seu lugar. Afaguei-lhe os cabelos que estavam espalhados pelo rosto e libertei-lhe os olhos dos caracoís mais rebeldes, sem nunca me lembrar do rancor que tinha sentido por ele desconfiar de mim ou sequer me lembrar o motivo que nos tinha levado a esta situação. O meu anterior anmésico, a comida, fora substituído por outro ainda mais poderoso, o Tsukasa. Bastava-me vê-lo triste, ferido ou magoado para esquecer tudo o que anteriormente me tinha magoado.

Ele levantou a cabeça e veio pousá-la no meu colo. O que iria eu fazer com ele? O que poderia eu fazer com aquele homem, que me despedaçava o coração e me destruía a vida dia para dia. Por muitos bons dias que eu vivesse com ele, muitos mais vivia de completa solidão e abandono. Era duro ter de amar o grande e poderoso F4: Tsukasa Domyouji. Cansada debrucei-me sobre ele, pousando a cabeça nas costas dele. Sentia o calor através do tecido e acima de tudo sentia-lhe o cheiro.

A vida ao lado dele seria sempre assim um caminho longo de opostos, sem intermédios. Com ele seria sempre solidão ou união total, dor ou prazer, tristeza ou felicidade, desespero ou euforia... e provavelmente era esse o maior motivo pelo qual ele era o amor da minha vida. Esta eterna mutação, esta inconstância e evolução dos tempos sem que eu nunca pudesse prever o que vinha a seguir. Aqui eu não existia routina ou quotidiano.

Este episódio acabou da mesma maneira que todos os outros, com um entendimento silencioso e pacífico, acompanhado por fortes doses de amnésia.

O meu telemóvel tocou, algures no meio da confusão que era o quarto, libertei-me da mão do Tsukasa, que me prendia pela cintura, e arrastei o meu corpo até à beira da cama, pousei os pés no chão, sempre atenta aos destroços e procurei os meus sapatos com o olhar. Como não os encontrei, arrisquei um serpentear perigoso por entre os objectos cortantes do chão, em busca do telemóvel perdido

- Sim?- sussurrei, de forma a não acordar o Tsukasa.

"-Bom dia! Acordei-te?"- agarrei num casaco do Tsukasa que estava no chão e saí do quarto para falar normalmente.

- Não, mas não é ainda muito cedo para se fazerem telefonemas?- questionei entrando numa sala, no fundo do andar.

"- Não tens mesmo noção de que horas são, pois não?- instintivamente procurei orientar-me temporalmente e consultei o ecrã do meu telemóvel que marcava: 11:23 H.

- Credo! Pensei que fossem seis da manhã.

"- Deves ter tido uma longa noite."- logicamente que ele se estava a referir ao facto do Tsukasa ter vindo intempestivamente para o Japão após ter tido conhecimento da polémica capa de revista. Não o censurava, muito pelo contrário, era nosso amigo e preocupavasse com o destino das nossas vidas.

- Felizmente hoje é um novo dia. O dia das iluminações de Natal, que mais poderia eu pedir?

"- Ainda bem que falaste nisso, foi por isso mesmo que te telefonei."

- Achas que me ia esquecer do dia das iluminações de natal?- perguntei rapidamente, achando que ele queria lembrar-me da cerimónia, era sempre típico dele organizar tudo meticulosamente, querendo garantir que todos estariam presentes e que todos iriam passar um bom bocado.

"- Não, sei que não te irias esquecer disso. Telefonei para perguntar o que achas de convidarmos a amiga do Rui para as iluminações de Natal e depois um jantar?"

- Óptima ideia, que melhor ocasião para estarmos todos juntos que não com luzes natalícias. Achas que o Rui e ela vão aprovar?

"- Eu já falei com o Rui, por ele está tudo bem."- existia alguma coisa nesta história do Rui com aquela rapariga, a Iku, que não soava bem. A forma como ele a tinha tratado na praia pareceu-me genuinamente distante, até com uma certa repulsa, no entanto ele agora falava dela como se os dois tivessem uma ligação amorosa. Adoro o Rui e acima de tudo queria a felicidade dele, mas temia sinceramente que ele estivesse a embarcar numa aventura com a pobre rapariga apenas para esquecer a Shizuka. Já o tinha feito comigo e esperava sinceramente que não o estivesse agora a fazer com esta rapariga.

"- Onde achas que deviamos ir jantar?"

- Hummm...restaurantes é o que não faltam. Não achas que talvez fosse melhor recebê-la num ambiente mais familiar, talvez cá em casa? Os vossos ambientes demasiados luxuosos conseguem ser bastante intimidantes, acredita.- avisei-o recordando-me das primeiras vezes em que saí com eles e me via pequenina, como uma formiga no meio de um oceano de luxo e requinte, sentia-me tão deslocada e fora do meu meio que só tinha vontade de desaparecer pelo meio do chão, sobretudo quando sentia os olhos das outras mulheres a julgarem-me e a avaliarem-me. Sorri, o Tsukasa era sempre impiedoso para as mulheres que tentavam diminuir-me, era sempre proctector e atencioso na sua maneira de ser.

"- Talvez em tua casa ela se sinta ainda mais intimidade do que num restaurante luxuoso. Um ambiente neutro é melhor, assim ficamos todos ao mesmo nível."

- O Asagawa, que te parece? A comida é a melhor coisa do mundo e tem um ambiente normal, sem exageros... a não ser nos preços.- acrescentei-me a rir.

"- Concordo é um bom restaurante. Eu trato das reservas."

- Achas que vais ser capaz? O mais provável é só termos mesa para o ano 2020.

"- Tsukushi, mas tu és casada com um Domyouji e achas que só ias ter mesa num restaurante no ano 2020? Onde é que tu tens vivido neste últimos anos?"- às vezes, até a mim me espantava a minha ingenuidade, esquecia-me frequentemente que viviamos num mundo em que um nome nos abria quase todas as portas, mesmo aquelas que tinham um sinal com interdita a passagem a estranhos: Domyouji não era apenas um nome com uma história milenar, era um passaporte para um mundo privado e exclusivo com regalias especiais e únicas, que qualquer outro comum mortal facilmente se iria lembrar.

- Acho que tenho vivido dependente de vocês. Por isso é que perco a realidade das coisas.

"- Tola. Não vives dependente de ninguém, és livre."- é talvez eu o quisesse ser e talvez eu quisesse acreditar nele, no entanto a partir do dia em que percebi que amava o Tsukasa deixei de ser livre, para ficar dependente daquele amor.

- Talvez...- respondi pouco confiante. Comparando a minha actual forma de vida com a anterior, considerava-me tão dependente como um toxicodependente..- ... e já que sou livre, vou levar a Yuki comigo, está bem?

"- És livre, até ao ponto que não interfiras com a liberdade de mais ninguém."- respondeu-me ele claramente insinuando que eu tentava forçar uma relação entre a Yuki e o Soujiroh.

- Se estás a insinuar que eu levo a Yuki para forçar o Soujiroh, estás enganado. Antes dela gostar dele, já gostava de mim. Somos amigas.- não mentia, ia lhe pedir para vir porque tinha saudades dela e também não fazia mal nenhum ela e o Soujiroh estarem juntos, ambos adoravassam-se.

"- Eu não estava a insinuar nada, minha querida."- disse ele num tom quase de riso contido.

- Fico feliz por saber que não duvidas das minhas sinceras intenções.- respondi-lhe em tom de brincadeira.

"-Não o poderia conheço demasiado bem esse teu coração de manteiga. Tsukushi, a Sakura avisou-te que nós levamos o champagne?"

- Sim, eu levo os flutes. – estava a ficar com os pés gelados de estar descalça, mesmo por cima da carpete felpuda.

"- Adoro a tua responsabilidade. És a única com quem posso contar. Os outros são todos uma cabeça de vento."- ri-me, ele era tão querido, gostava tanto da maneira atenciosa e preocupada com que ele lidava com tudo o que nos surgia na vida, fossem festas ou problemas.

- Obrigado, faço minhas as tuas palavras. Tu também és o único com quem posso contar.- do outro lado surgiu o som de risos, mas depois veio o silêncio e por alguns segundos assim permanecemos.

"- Tsukushi?"

- Humm...- respondi-lhe eu mais concentrada em fintar os dedos dos pés gelados do que na minha própria resposta.

"- O Tsukasa vai estar presente?"- levantei a cabeça, respirei fundo e com os olhos fixos na paisagem, pensei na resposta que ainda não tinha formulado devidamente na minha cabeça.

- Não sei.- respondi, quando percebi que depois daquela noite eu podia esperar qualquer coisa.

"- Com certeza que ele vai querer conhecer a nova amiga do Rui."

- Ficaria furiosa com ele se ele fosse porque queria conhecê-la e não porque quisesses estar com os amigos. – era o que mais me faltava o Tsukasa a comparecer a uma ocasião só porque queria conhecer uma desconhecida, quando por vezes faltava a compromissos com os próprios amigos.

"- Pronto, então não se fala mais no assunto. Estava apenas a querer despertar a curiosidade nele."

- Mimasaka Akira estás a querer insinuar que sou uma pessoa aborrecida? – perguntei-lhe num falso tom ríspido.- ele riu-se e depois defendeu-se:

"- Nunca, tu és exactamente o oposto."- preparava-me para soltar um suspiro de alívio, quando as portas da sala são abertas bruscamente, fazendo-me encarar um Tsukasa amarrotado e com um ar exasperado.

- Onde é que te enfiaste? Ninguém sabia de ti. – quando terminou libertou todo o ar que tinha preso e vi os músculos do rosto descontraírem.

"- Que barulho foi esse?"- interrogou-me o Akira do outro lado da linha, com uma voz que transparecia preocupação.

- Nada... o Tsukasa, esqueceu-se de como se abrem as portas. – ele fixava-me, quase estupefacto, muito provavelmente pela minha falta de resposta.

"- Está tudo bem?"

- Tudo, não te preocupes. Akira vou desligar, ainda não tomei o pequeno-almoço e provavelmente é isso que o Tsukasa veio pedir.

"- OK. Manda-lhe cumprimentos. Se precisares de alguma coisa telefona."

- Obrigado, até logo.- ele despediu-se e desligou. – Tsukasa para quê esse drama? Eu estive sempre aqui. – ele sorriu-me e depois sem que eu esperasse ou prevê-se, avançou rapidamente sobre mim e abraçou-me com tanta força que achei que ele me queria sufocar. Intimidada pela reacção dele, pousei timidamente uma mão no cabelo dele e outra na cintura, como forma de consolo silêncioso.

Separou-se de mim, encarou-me profundamente e com as duas mãos agarrou-me a cara para depois depositar um beijo na minha boca. O beijo aprofundou-se tanto como as suas mãos no meu corpo, eu deixei de o consolar para o instigar contra mim.

No meio daquela sala em tons de pastel, parados, como se o tempo não existisse para além dos nossos movimentos, algo era inegável, mesmo que eu não conseguisse acreditar: ele amava-me.

Não sei se ficou explícito mas esta coisa das iluminações de Natal é um pouco como aquela cerimónia que os nova iorquinos fazem todos os anos em frente ao Rockefeller Center para iluminar a árvore de Natal. Beijinhos e obrigado. Iza não é bem aquilo que você pediu, mas fica cheirando um pouquinho a Natal.