Olá, olá, estrelinhas! Eu sei, já faz 84 anos que não atualizo. Na verdade 86 dias. Eu sou a pior escritora EVER. Desculpa :(


O dia amanheceu bonito. Apesar das baixas temperaturas, o sol insistia em lançar um pouco de seu brilho, em raios finos e espaçados, embora o céu continuasse tão pálido quanto marfim.

No dia anterior Norma se sentira cansada. Exausta, na verdade, e eles passaram a maior parte do tempo em casa. Mas naquela manhã, acordou se sentindo disposta e revigorada.

Deslizando devagar por entre as cobertas, ela deixou Alex dormindo e foi até o deque. Descansou as mãos no parapeito, sentiu o calor suave do sol em seu rosto e encheu os pulmões com o ar puro e limpo, sentindo-os arderem um pouco e, de repente, em sua cabeça, tudo fez sentido.

Ela deveria, supostamente, ainda estar em recuperação. O cansaço do dia anterior foi apenas seu corpo lhe avisando que não estava totalmente recuperado. E era verdade, ela vinha se cansando com facilidade, ficando mais ofegante do que se lembrava até nas tarefas mais fáceis. Depois de respirar fundo algumas vezes, deixando que suas células se beneficiassem do oxigênio abundante e limpo, ela alongou os braços acima da cabeça, o vento abraçando suas pernas fazendo seu corpo todo se arrepiar e despertar.

"Bom dia", ela ouviu a voz atrás dela e se virou, encontrando Alex parado na soleira da porta. Camiseta e moletom, pés descalços, cabelo bagunçado e cara de sono. E ela podia jurar que ele estava gostoso o bastante para ser comido com uma colher.

"Bom dia", sussurrou de volta.

Ela andou até ele, devagar e o abraçou escondendo o rosto na curva de seu pescoço. Ela queria a proximidade e o calor do corpo dele, e logo o abraço se transformou em beijos espalhados pelo pescoço; toques sutis. Até que ela uniu suas bocas num beijo preguiçoso, intenso e demorado. O oxigênio parecia superestimado, afinal de contas.

"O que deu em você hoje?" ele perguntou, ofegante.

Ela respondeu com um sorriso quase inocente, olhos brilhando mais azuis do que nunca, pupilas dilatadas.

"Acho que tive uma boa noite de sono."

Antes que ele pudesse responder ou pensar em algo, ela retomou o beijo. Suas mãos se esgueirando pela camiseta, fazendo contato com a pele sob o tecido. Sem parar o beijo, entre toques ousados e respirações ofegantes, ela o virou e o empurrou até a poltrona mais próxima. Alex a enlaçou para cintura, acreditando que ela iria sentar-se sobre suas pernas, mas ela o surpreendeu novamente, afastando as pernas dele e posicionando-se entre elas. Ela o beijou a partir do pescoço, descendo para o peito, arrancando suspiros involuntários dele, a pele parecendo em chamas na trilha deixada por seus lábios. As mãos ágeis puxando a camiseta para tirá-la do caminho, voltando em seguida a se apoiar nas pernas dele, brincando com o cós da calça, acariciando-o e sentindo-o enrijecer sob seu toque.

"Norma... O que está fazendo?"

A resposta dela foi um sorriso perverso enquanto suas mãos subiram devagar até os ombros dele, empurrando-o para que ele encostasse na cadeira.

"Apenas relaxe... E aproveite."

Seus olhos se fecharam automaticamente quando, sem diminuir os movimentos de sua mão, ela espalhou beijos suaves por seu pescoço, alternando com leves mordidas, sugando seu pomo de adão, indo até o outro lado. A única coisa que ele podia fazer enquanto sentia sua pele se arrepiar era deixar suas mãos vagarem pelo corpo dela. Seus dedos se enrolarem entre os cabelos loiros, fazendo a mais leve pressão na base da nuca. Suspiros escaparem de sua boca indevidamente.

Depois da longa tortura de beijos em todo seu pescoço, ela começou a descer pelo peito. Sua mão subiu, acariciando os músculos firmes da barriga, sentindo-os tremularem sob seu toque.

Ela deixou que seus dedos brincassem no cós da calça dele, insinuando-se por dentro da peça, as unhas raspando de leve a pele. Puxando-a para si ele uniu suas bocas novamente, dessa vez num beijo lento e preguiçoso. Suas línguas brincando, provocando, e ela abriu os olhos e se afastou apenas o suficiente para assistir à reação dele quando deslizou sua mão para dentro da calça dele e, em seguida, puxando a peça um pouco pelos quadris dele.

"Norma..." Ele ia falar alguma coisa, fazer algum protesto, mas o resto da frase morreu no ar junto com sua capacidade de raciocínio quando os lábios dela desceram sobre seu membro.

Ele fechou os olhos novamente, ondas de prazer correndo por seu corpo como eletricidade a cada vez que ela subia e descia a cabeça com um movimento de sucção. Uma de suas mãos o segurava pela base, fazendo uma leve pressão que o estava deixando louco, enquanto a outra acariciava sua perna, barriga, qualquer lugar que ela pudesse alcançar.

Automaticamente, uma das mãos dele parou nos cabelos dela, seus dedos se entrelaçando aos fios dourados. Ela o liberou por um momento, comprovando que ele não a estava guiando, então olhou para ele, sua mão ainda subindo e descendo pelo comprimento dele, e quando Alex pensou que nada poderia ser mais erótico que aquilo, ela lambeu os lábios.

Ele pensou ter ouvido um barulho, mas a visão o tomou totalmente, de modo que ele apenas fechou os olhos involuntariamente, com um palavrão estrangulado, e a ouviu murmurar "Olha a boca, xerife" antes de voltar a sentir o calor de seus lábios e língua ao redor dele.

"Norma? Eu chamei mas vocês não... Ah meu Deus!"

Tudo aconteceu numa sucessão rápida. A voz de Charlie chegou a eles no exato momento em que ela atravessou a porta e pisou no deque, avistando Norma de joelhos entre as pernas de Alex. Ela se levantou e afastou depressa, ao mesmo tempo que Alex também se levantou e, de costas para a garota, que a essa altura também virou as costas para os dois, arrumou a calça de forma decente o mais depressa que conseguiu.

"Eu sinto muito mesmo! Eu não devia ter entrado!"

"Ahn... Charlie!", Norma tentava encontrar sua voz, pensar em algo para dizer. Em vez disso, ela fez uma careta, murmurando um palavrão quase inaudível.

Ela não conseguia olhar para Alex. Também não conseguia olhar para Charlie. Mas sentia que precisava explicar algo para a garota antes que ela fosse embora com aquela visão gravada em suas retinas.

"Tudo bem, foi só... Um momento estranho."

"É a segunda vez em dois dias, obviamente não está tudo bem. Eu vou... Vou embora... Eu só..."

Norma se aproximou da menina, passando o braço ao redor dos ombros dela, mas Charlie se encolheu com uma careta e Norma recuou. Ok, toque era um pouco demais naquelas circunstâncias.

"Vem, vamos para a varanda... A outra, na porta da frente. Está tudo bem."

Ela encaminhou a menina para dentro da casa novamente, fazendo sinal para Alex entrar e ir para o quarto deles. De repente, o chão pareceu muito frio sob seus pés, sua roupa parecia muito curta e ela estava consciente demais de seus atos e tudo que ela queria era continuar dentro da casa, onde estava aquecido e seguro. Ainda assim, ela caminhou até a varanda onde a garota já estava se sentando nos degraus.

"Eu estou morrendo de vergonha! Eu juro que não teria entrado, mas eu bati na porta, chamei, e ninguém respondeu... Agora eu sei porque."

"Tudo bem, Charlie. Bom... Não devia ter acontecido, mas..."

"Vocês parecem fazer muito isso."

Norma não sabia como aceitar aquilo. Ela e Alex tinham um casamento saudável ... Ou pelo menos se encaminhavam pra isso. E sexo era parte dessa demonstração de afeto. Não é como se eles fizessem muito mais que a maioria. Embora, ela tinha que admitir, com ele, ela se sentia mais mulher, mais desejável... E ela estava mesmo se sentindo um pouco descontrolada perto dele ultimamente.

"Bem, todo casal faz isso. E estamos em lua de mel."

A menina concordou com a cabeça, ainda olhando para longe.

"Como... Como é?"

"O quê?"

"Sabe... Sexo. Parece estranho. Como é?"

"Ah... Bem..."

"Tipo, é um assunto polêmico. Metade das pessoas diz que dói muito, e a outra metade diz que é mágico... Sally disse que foi a melhor coisa da vida dela, mas ninguém acredita que ela tenha mesmo feito. Não com o Brian Lodge!"

"Bem, pode ser os dois. Depende de quem está com você, se é alguém que você gosta, se é o momento certo. Se você sentir que está pronta, e se for com alguém que você gosta, vocês encontrarão o equilíbrio."

"É que... Parece às vezes que é algo que você tem que fazer. É o que os garotos esperam e..."

"Não, Charlie. Não comece a pensar assim. Não ache que é uma obrigação, que é só algo que você precisa fazer."

"E... Aquilo que estavam fazendo... Todas as mulheres precisam fazer?"

"Não! Charlie, eu demorei muito tempo pra entender isso, mas se você se sente obrigada a fazer alguma coisa, pressionada a fazer o que quer que seja só porque é o que esperam de você ou pra provar alguma coisa, então não devia fazer. O que estávamos fazendo... É... Bom, é algo consensual entre duas pessoas que se sentem à vontade com o corpo uma da outra. Quando se sentem contentes o bastante elas têm vontade de tentar coisas novas e surpreender a outra pessoa."

"Eu nunca vou fazer isso. É meio... Nojento. Sem ofensa."

Norma fez uma careta. Ela entendia a menina.

"Bem, o importante é que seja algo que vocês dois queiram. Sem pressão ou obrigação, entende?"

"E como você sabe que é hora?"

"Você saberá. Na hora certa, você saberá."

Do lado de dentro, Alex, já totalmente vestido, esperava pelas duas. Jamais se sentira tão embaraçado em toda a vida. Ser interrompido por um adolescente, ele decidiu, era pior do que ser um adolescente interrompido por um adulto. Pelo menos não era ele quem tinha que explicar ou se desculpar.

Ao som da porta se abrindo, ele saiu do quarto, encontrando Norma no corredor.

"Charlie já foi."

"E ela viu alguma coisa?"

"É claro que viu. Mas não acho que ela vá ter pesadelos por causa disso. De qualquer forma, ela queria conversar porque teve uma discussão com a mãe."

Ele concordou com a cabeça. Havia uma certa distância entre eles, e era como se, de alguma forma, ainda estivessem sendo observados. Uma sensação estranha que Alex não via a hora de passar.

"Ela me perguntou sobre o que estávamos fazendo."

"Entendo", ele respondeu automaticamente.

"Não sobre nós, só sobre... Ela me perguntou como é a primeira vez."

"Oh."

"É, 'oh'."

"E o que disse pra ela?"

"O que eu podia dizer pra ela? 'vai doer e você vai se arrepender assim que começar?' Eu disse a mesma coisa que disse a Emma."

"Emma também perguntou sobre...?"

"Sim."

Ela tinha uma expressão contrariada, mas Alex sorriu.

"O quê?"

"Nada. É um pouco engraçado, você tem que admitir."

"Não é engraçado. É constrangedor!"

"E elas confiam em você o bastante para pedirem conselhos."

Norma cruzou os braços e Alex se aproximou mais dela, apoiando as mãos em seus ombros.

"É uma coisa boa. Essas garotas a vêem como um modelo."

"É, claro!", ela resmungou e Alex lhe deu um beijo gentil em sua têmpora. "Como se eu estivesse em posição de dar conselhos amorosos a adolescentes."

"É o ensino médio, Norma. Vai ficar tudo bem."

"Mas e se não ficar? E se ela voltar pra escola e... Você sabe, se envolver com o tal garoto que ela gosta? E se ele não for bom pra ela? Eu não acho que ele seja boa pessoa."

"Ela disse isso?"

"Não, mas... Eu não sei."

"Podemos falar com a Debbie, se quiser. Para que ela possa ficar de olho na Charlie. Ela parece ser uma boa garota."

"Parece, sim." Ela suspirou e se aninhou no peito dele.

"Você está gelada", ele comentou, esfregando os braços dela. "Porque não veste algo quente e eu te levo ao Anton's para tomar café? Tenho certeza que ele vai preparar aquele rolinho de canela que você gosta."

"Tem certeza? Eu posso preparar o café pra você."

"Tenho. Vamos. Ele vai ficar feliz em te ver. É a mágica de Norma Bates. As pessoas te amam, não importa onde você vá."

Ele sorriu para ele, beijando-o delicadamente antes de se dirigir para o quarto.

"Ah, meu deus! Alex! Alex, veja isto!"

A voz dela vinha do antigo quarto de Alex, que ela insistiu em organizar. Ele foi até ela, que estava sentada na beirada da cama, um livro na mão e um sorriso divertido. Alex parou na soleira da porta, observando-a por um instante, até que Norma levantou os olhos para ele e estendeu a mão, chamando-o para que se sentasse ao seu lado.

"Veja só o que achei."

Ela levantou o livro aberto, mostrando a capa azul escuro com detalhes e letras douradas.

"É seu anuário do último ano. Não tem nenhuma assinatura."

"Eu sei. Eu... Bom, esse foi o ano em que tudo mudou. Eu estava indo para os fuzileiros. Minha mãe havia morrido uns meses antes, e... Eu já não tinha amigos. Nem cheguei a pegar o anuário até o dia da formatura."

Ela acenou com a cabeça suavemente em sinal de compreensão e então voltou ao livro, até que uma das páginas lhe chamou a atenção.

"Veja só você!" exclamou. "Mesmo adolescente e já era tão fechado. Você era bonito."

"Era?"

"Sabe o que quis dizer." ela revirou os olhos pra ele e voltou sua atenção para as imagens.

"Henwarth. É ela, não é? Lisa Henwarth. Sua namorada? Garota bonita."

"Como sabe? Não é a única Lisa no anuário da escola."

"Eu sei. É ela. Bonita, boa postura. Não está usando uniforme de líder de torcida, nem óculos. Rabo de cavalo, sorriso confiante. Ela parece esperta e gentil. Inteligente. O tipo de garota que faria você se apaixonar. Eram um bonito casal."

"Todos os casais são bonitos quando se tem 17 anos. Não significa que sejam feitos pra durar."

"Não mesmo", ela respondeu com um suspiro, lembrando de John, de como todos sempre acharam que ela não o merecia. No fundo, estavam certos. Só que ninguém pensou que ele também não a merecia. John também não era o homem que tirava Norma do chão. Que fazia sua cabeça girar. Ele se contentava com pouco, e ela queria tudo.

"Ei, veja só isso... Você não tem um padrão exato."

"O que quer dizer?"

"Não tem um tipo. Lisa era morena. Eu sou loira. E ... Tem a Rebecca. Ruiva como uma escocesa."

"É... Só imagino o que faria com vocês três juntas."

"Eww, Alex! Isso é nojento", ela revirou os olhos em reprovação então olhou pra baixo, fora do alcance de visão dele. "Talvez se fosse outra ruiva..." Murmurou.

"O quê?" Ele riu pela surpresa.

"O quê? Eu não disse nada."

"Aham. Eu ouvi isso. Não dê ideias."

"Não dei ideia nenhuma, não sei do que está falando."

Ela tinha sua melhor expressão neutra, o que só fazia Alex querer provoca-la ainda mais.

"Norma Louise Bates, sua mulher devassa!"

"O quê? Pode parar já com isso. Não teste sua sorte, senhor, se não quiser dormir no sofá. Sozinho."

"Okay, okay. Foi você que começou!"

Ela revirou os olhos, mas não respondeu. Em vez disso, voltou a observar atentamente as fotos, procurando por Alex em cada uma delas.

"Ver fotos do colégio, rever amigos daquela época... De repente parece que o tempo retrocedeu. Não parece estranho?"

Ela falava baixo, e Alex sentia que era mais para si mesma, mas prestou atenção, esperando algo mais.

"Eu mal me lembro do colégio, mas os três últimos meses... É como se estivessem gravados para sempre na minha memória."

"Você já estava grávida?"

"Foi quando descobri. Sim. John e eu..." ela fez uma pausa, pontuada por uma respiração profunda, antes de continuar. "Estávamos namorando há pouco tempo. Eu não devia tê-lo enganado daquela forma. Acho que nunca o amei de verdade. Mas ele gostava de mim, e eu gostava da atenção. Nunca fui o tipo popular, jamais achei que um dos caras populares fosse se interessar por mim. Ele não era tão popular, mas ainda assim, estava no time de basquete e algumas garotas dariam um braço pra sair com ele."

"Conheço o tipo."

"Você nunca quis entrar para o time da escola? White Pine Bay não tinha um time pra algum esporte?"

"Baseball. Mas não, nunca foi meu estilo. Eu não gostava muito das atividades acadêmicas."

"O quê?! Você era um adolescente rebelde e mau humorado? Jamais adivinharia!" Ela zombou.

"As pessoas podem surpreender."

"É, acho que sim", ela deu de ombros.

"Mas, e então? O que aconteceu depois? Todas as garotas queriam arrancar o seu braço?"

Havia um tom leve de humor na voz dele e Alex ficou feliz por ver o canto dos lábios dela se elevar num meio sorriso.

"Como se já não quisessem antes. Mas sim, foi um pouco pior. Eu não me importava, porque John era legal comigo. Ele me levava pra escola e de volta pra casa no carro dele. Me levava nas festas do colégio que ninguém deveria fazer. E quando... Bem, foi fácil mentir pra ele, dizer que estava grávida dele. Deus, eu sou uma pessoa horrível", ela fungou, dizendo a última parte mais para si mesma do que para ele, então continuou, depois de uma breve pausa. "Eu disse a ele que queria fugir. Que meu pai era um monstro e eu não podia ficar em casa. Ele disse que se casaria comigo, que seríamos uma família. Eu até gostei da ideia. Por um tempo acho que vivemos bem. Pela primeira vez minha casa era limpa, as janelas deixavam a luz entrar e tudo estava do meu jeito. Eu gostava da vida doméstica, de cuidar de tudo e esperar que ele chegasse do trabalho. Foi quando aprendi a cozinhar. Eu queria ser uma boa esposa, preparar uma refeição decente para quando ele voltasse para casa à noite. Mas acho que foi demais para ele. Depois que Dylan nasceu tudo ficou diferente. Nunca maltratou Dylan, mas ele começou a reclamar de tudo, e criticar tudo que eu fazia... John nunca sonhou com um trabalho medíocre, uma casa de bonecas com mulher e filho esperando por ele aos 18 anos. Ele tinha planos. E desistiu deles por mim. Acho que isso o deixou amargo. E eu nunca nem mesmo tentei recuperar o que tínhamos, porque, honestamente, não tínhamos nada."

Antes que Alex pudesse dizer qualquer coisa, ela se levantou, recolocou o livro no lugar onde o havia encontrado e começou a mexer em outras coisas.

"É inacreditável que não tenha uma foto sua de quando era criança. E você nem me ajuda a procurar! Acho que as escondeu de propósito."

"Não devia se preocupar muito com isso. Elas com certeza se perderam."

Ainda sentado no mesmo lugar, ele a observava revirar as caixas dentro do que costumava ser seu guarda roupas. Também sabia que ela não acharia nada ali. Não havia o que achar. A única fotografia que restara era a que ele carregava consigo. A única que conseguiu salvar. Talvez a mostrasse para Norma algum dia, contasse o que aconteceu com todas as outras.

"Alex!" a voz dela, mesmo abafada dentro do armário, carregava uma empolgação inconfundível.

"O que foi?"

"Veja só isso!"

Ela emergiu de lá, trazendo consigo uma caixa de tamanho médio. A colocou no chão e mostrou a ele o motivo de seu contentamento, levantando no ar uma peça minúscula de roupa que deveria ter vestido o bebê Romero, há muito tempo.

"Achei suas roupas de bebê." Ela anunciou triunfante.

Ele se levantou, caminhando até onde ela se abaixara para vasculhar o conteúdo da caixa.

"Eu nem sabia que isso estava aqui. Achei que tivesse sido doado há muito tempo." Ele comentou, a voz baixa e carregada de emoção.

"Quem se desfez das suas coisas certamente não foi capaz de doar esses aqui. São lindos. Veja isso! É um macacão de marinheiro. Oh, Alex!"

Ela olhava e tocava cada peça com um deleite que só mesmo uma mãe teria. Era como se pudesse imaginar um bebê usando aquelas roupas, com a vida toda pela frente e um futuro feliz à sua espera.

"Sei que não se lembra, mas sua mãe provavelmente amava vesti-lo com essas roupas."

"Não tem como saber disso." Ele comentou, tentando não dar muita importância, enquanto se abaixava ao lado dela.

"Sei, sim. Veja o cuidado que tiveram para guarda-las, como as dobraram e as protegeram. Só restaram essas. Elas deviam ser especiais, deviam ser as que ela mais gostava de ver em você. Toda mãe faz isso. Eu ainda tenho roupas de quando Norman era um recém-nascido."

"Claro que tem. Aposto que Dylan vai ficar maravilhado quando mostrar o que guardou dele para a Emma."

"Isso não seria possível. Eu não guardei nada dele."

Ele sentiu a atmosfera mudar novamente, e o silêncio tomar conta dela. Havia culpa em sua última declaração, e mesmo não sabendo precisamente o que acontecia de diferente na relação de Norma com seu filho mais velho, ele percebeu que havia muitas coisas ainda não resolvidas entre os dois.

"Sinto muito, eu não devia ter mencionado."

"Tudo bem. Não é culpa sua. Ele tem razão em dizer que nunca fui uma mãe de verdade pra ele."

Embora ele pudesse notar o remorso nas palavras dela, sua voz era suave.

"Norma..."

"É verdade. Sei que é horrível, mas é verdade. Quando... quando descobriu que era filho de Caleb, ele me acusou de só ter mantido a gravidez pra convencer John a se casar comigo. Eu nunca pensei muito no assunto. Sempre disse a mim mesma que nunca conseguiria, que jamais faria um aborto... Mas é verdade. Eu o usei, antes mesmo dele nascer. Mesmo odiando a forma como ele veio ao mundo, eu o tive para conseguir minha liberdade. E as vezes John olhava para ele como se soubesse que havia algo errado. Mas talvez fosse porque eu olhava para ele com sensações que uma mãe não deveria ter. Não pode imaginar o medo que senti nas últimas semanas de gestação. De que houvesse alguma coisa errada com ele. De que ele nascesse com algum tipo de, não sei, deficiência ou má formação. Mas ele era perfeito. Dez dedinhos nas mãos e nos pés; um bebê gordinho, rosado e saudável... Mas eu não conseguia deixar de ver o Caleb nele. Dylan nunca foi meu. Não como Norman é. Inconscientemente eu posso ter causado isso. Tê-lo afastado. Eu o ensinei a fazer tudo sozinho muito cedo. Nunca o mimei, nem fiquei ao lado dele enquanto ele dormia imaginando que tipo de adulto ele seria. Mesmo quando ele tentava ser carinhoso, eu sempre tinha outras coisas para fazer... Sempre que olhava para ele, eu via o Caleb... Os mesmos olhos. O queixo. Os cabelos. Era demais pra mim, ter uma mini cópia dele tão perto... E quando Norman nasceu, eu tive uma desculpa. Não que eu o tratasse mal, ou não ligasse se ele comia ou tinha roupas limpas, ou me recusasse a ajudá-lo com o dever de casa. Eu só... Também nunca agi como se me importasse muito com tudo isso. Eu cuidava dele porque era minha obrigação."

Ela tinha a cabeça baixa, e Alex viu quando uma lágrima desceu por sua bochecha e ela rapidamente a afastou.

Colocando sua mão sobre o joelho dela num gesto de conforto, ele chamou sua atenção.

"Norma...Eu acho que Dylan é um bom garoto. Ele não teve uma vida muito feliz e pode-se notar nos olhos dele. Ele é teimoso, e ousado e não demonstra medo. E ele faria qualquer coisa pra proteger quem ama. E isso é muito você. Eu já o vi mentir, já o vi preocupado... e os olhos deles nessas ocasiões são exatamente como os seus. Acho que todos esses anos você esteve olhando as coisas erradas nele. Esteve tão ocupada procurando por sinais de uma herança genética de Caleb que esqueceu que ela também era sua."

Ela sorriu, pensando no que ele tinha falado. Nem por uma vez sequer ela havia pensado em associar as características dele com as dela. Ela nunca o enxergou como seu filho, mas sempre como o filho de Caleb. Dylan nunca lhe pertenceu porque ela nunca permitiu que pertencesse. A culpa, a mágoa e o ressentimento tomaram conta dela, com tanta força que ela se sentia repentinamente sem ar. E por um segundo ela odiou Caleb um pouco mais, até perceber que, sim, ele era responsável, mas não o único responsável. Ela não foi capaz de ver além da situação que trouxe Dylan ao mundo. Jamais esquecerá o que aconteceu, é verdade. Mas ele não tinha culpa tanto quanto ela. Deveria ser seu aliado, e em vez disso ela o fez seu inimigo, e o ódio que ela carregava em si a cegou para todas as semelhanças que carregavam. Agora parecia tão óbvio, mas então fora tão difícil ...

Deve ser verdade que o tempo põe tudo em perspectiva. Ela sentia que, agora, era capaz de ver tudo que não vira antes. Todas as coisas que perdeu. E Alex estava fazendo isso. Com sua mente sempre racional e seu amor incondicional, colocando-a sempre em primeiro lugar. Mostrando que nem tudo precisava ser culpa dela. Não era culpa dela. Aos olhos dele, ela era perfeita. E ser o recipiente de tal sentimento a deixava sem fôlego.

"Por que você é tão bom pra mim?" sussurrou, levantando o olhar para ele, uma de suas mãos tocando-lhe de leve o rosto.

"Porque eu te amo."

A frase saiu fácil. Alta e clara. Alex não se considerava um homem bom. Ele havia se rendido à amargura, à vingança e à corrupção. Não tinha muitos escrúpulos nem hesitava antes de ameaçar quem quer que seja que ficasse em seu caminho. Carregava consigo o peso das escolhas erradas que fizera, suas mãos estavam manchadas pelo sangue das vidas que tirou. Inocentes? Não; mas ainda assim, não cabia a ele fazer justiça com as próprias mãos.

Ele estava há um longo caminho de ser um homem bom. Mas por Norma, ele tentaria.