Relembrar

por Jaque Lovegood


Esquecer era mais fácil.

Guardar bem no fundo da memória algumas coisas nos faz seguir em frente. Por isso Draco escolheu esquecer Ginny. Por isso guardou as sardas dela bem no fundo da memória e continuou o seu caminho. Esquecer era mais fácil do que lutar, pois assim não havia o medo de perder.

Ou de ganhar.

Draco andava apressado até um pub no Beco Diagonal quando percebeu que alguém o seguia. Virou-se e percebeu um vulto se aproximando. Ele parou. O vulto se aproximou e se revelou nas formas de uma mulher ruiva com o rosto sério. Draco olhou-a com uma expressão curiosa.

- Há quanto tempo, Weasley. Fico feliz em rever você - Draco disse com um sorriso irônico.

- Eu devo mesmo acreditar nisso? -– Ginny perguntou, erguendo uma sobrancelha.

- Não.

- Sabia. Nós podemos conversar?

- Eu não acho uma boa idéia.

Ginny pigarreou.

- Eu só preciso entender algumas coisas – ela insistiu.

- Mas faz tanto tempo, isso não pode ter tanta importância assim.

- É o único jeito de virar essa página.

Draco pesou prós e contras. Se ela virasse essa página seria ainda mais fácil para ele esquecer totalmente, e ele estava cansado de acordar de madrugada inebriado pelos cabelos dela nos sonhos, talvez isso parasse. Talvez ele parasse de sufocar lembranças, esquecesse e pudesse voltar a ter paz.

- Certo – ele concordou.

Caminharam até o pub onde Draco estava indo. Não estava cheio. Os dois se sentaram em uma mesa mais afastada. Não pediram nada, apenas se encararam.

- Por que você não lutou comigo contra todo mundo?

A pergunta de Ginny foi pontuada por mágoa. Isso fez Draco sorrir.

- Odeio entrar em lutas perdidas. E sejamos sinceros, Ginny, quando todos aceitassem nosso relacionamento ia perder a graça para nós. Precisamos de conflitos para ficar juntos.

- É claro que não!

Draco riu do protesto de Ginny.

- Você sabe que sim. Próxima pergunta.

- Por que esquecer?

Draco respirou fundo.

- Esquecer é mais fácil e atormenta menos. Dói menos.

Ginny olhou Draco com um sorriso debochado.

- Estamos falando de Obliviates? Porque você me parece com a memória intacta.

- Eu não sou tão radical assim. Estou falando de sufocar lembranças até que elas me atormentem apenas em sonhos.

O olhar de Ginny passou a ser curioso e o de Draco casual.

- Eu te atormento em sonhos?

Draco desviou o olhar.

- As lembranças me atormentam.

- Eu sou só uma lembrança?

Draco riu amargamente.

- Bem que eu queria.

Ginny não conseguiu evitar um sorriso.

- Estamos sendo sinceros e receptivos? – ela perguntou.

- Estamos. Pelo menos até que eu me canse e vai ser logo.

- Mas me explique melhor, por que sufocar as lembranças? Se você me convencer acho que tenho uma saída.

Draco voltou a olhar para Ginny.

- Sufocar lembranças faz você esquecer enquanto está com as defesas alertas, mas esquecer por completo é radical demais e é uma parte de sua vida, eu pelo menos não quero apagar pedaços da minha vida que contém erros para não cometê-los novamente.

Ginny fechou a cara.

- Fomos um erro?

Draco riu.

- Bem se contarmos que eu fiquei obcecado por você, que você quase rompeu com sua família, que todos nos olhavam torto, que destruímos os sonhos do Potter, que terminamos por eu ser covarde e que hoje em dia eu sou um idiota que tenta esquecer uma coisa praticamente inesquecível e que você se prende ao passado, eu acho que sim - Draco ergueu uma sobrancelha. – Fomos um erro.

- Colocando nesse ângulo você tem razão, mas nós nunca fomos grandes acertadores. - Ginny disse sorrindo.

Draco gargalhou como há tempos não fazia.

- Ora, Ginny, vamos confessar, adorávamos a cara que faziam quando aparecíamos juntos.

- Claro, sem contar os "nossa, mas eles deviam se odiar" acompanhados de queixos caídos.

Os dois riram por algum tempo.

- Mas tudo isso acabou e agora eu tento esquecer essas coisas. - Draco disse sério.

- Porque é mais fácil, eu já entendi isso. Só me esclareça mais uma coisa.

- Depois disso você vai me esquecer? – ele perguntou.

- Só vai descobrir se responder minha pergunta.

Draco sorriu.

- Vou encarar esse sorriso como um sim - Ginny disse. - Foi só obsessão?

- Sim e não. Eu sou obcecado pelas coisas que amo. Achei que você soubesse disso, afinal eu sempre fui mimado, você adorava jogar isso na minha cara.

Ginny sorriu e se levantou.

- Sinto muito fazer você se relembrar tantas coisas. – Falou baixo, se desculpando, mas não havia culpa em seu tom de voz.

Draco deu em aceno de cabeça.

- Eu sei que você não sente. Conseguiu entender?

- Sim - Ginny disse.

- Então vai me esquecer?

- Não. Você precisa de alguém que faça você se lembrar de algumas coisas e esquecer nunca foi uma boa saída para mim.

Ginny piscou para Draco e começou a caminhar. Os passos dela eram lentos como se a qualquer momento fosse voltar. E voltaria.

Esquecer é mais fácil. Mas nem sempre dá certo, pois esquecer possibilita relembrar e relembrar nunca nos deixa esquecer novamente. Além do mais esquecer é radical demais e apaga os erros que cometemos e adoramos repeti-los conscientes disso.

Esquecer torna a vida amarga e muito menos divertida.