CAPÍTULO XXI – Sinais do Apocalipse

***S

Se havia algum receio antes de tomar a decisão de me afastar do cargo de grande mestre para iniciar meu tratamento psiquiátrico este desapareceu quando estava frente a frente com a Ariel. Algo dentro de mim endureceu quando vi as marcas em seu pescoço. Essa mesma coisa gritou a plenos pulmões: "Nunca mais!", me dando uma dose de coragem misturada a revolta comigo mesmo que ainda não havia experimentado.

Prometi a mim mesmo que faria tudo para aquilo nunca mais se repetir. Estava disposto a derrotar Ares e todo o mal que havia dentro de mim de uma vez por todas. Eu sabia que não seria fácil, mas tão sólida quanto o juramento que fiz de lutar pela justiça ao lado de Atena, era minha vontade de seguir em frente.

Ariel segurou a minha mão. Ela sorria como uma criança feliz. Beijou minha face com ternura. Só ela tinha esse toque. Um toque capaz de me transmitir apenas coisas boas. Quando ela me abraçava eu me sentia protegido de uma forma que não sabia explicar. Nunca havia sentido isso antes. Era uma proteção que nem Atena era capaz de proporcionar com seu cosmo divino.

Ela ficou de joelhos na cama e envolveu meu pescoço com seus braços. Beijou o meu rosto até chegar a minha boca. Às vezes eu sentia um gosto de chuva quando Ariel me beijava. Esse fato sempre me fazia recordar nosso primeiro beijo, naquela noite chuvosa à beira da piscina daquele hotel de Atenas.

Acariciei demoradamente seus braços em torno do meu pescoço saboreando a deliciosa maciez de sua pele. A impressão que eu tinha, sempre que a tocava, era de estar tocando em algum pedaço de céu. Desci minhas mãos por suas costas até sua cintura. Ameacei desamarrar os nós que prendiam seu vestido.

Um desejo incendiário ardia dentro da minha cueca. Precisava ficar atento, precisava me segurar, senão não sairia mais daquele quarto.

- Eu preciso ir agora... – eu disse após reunir forças.

Ela suspirou languidamente e respondeu:

- Porque não fica aqui comigo?

Sua voz era macia como as costas de um gato.

- Não posso arriscar ele aparecer de novo... E te machucar...

Um beijo interrompeu minha frase. Ariel sentou sobre as minhas coxas colocando um joelho de cada lado do meu corpo. Agarrou minha nuca com as duas mãos. Senti suas unhas arranharem carinhosamente a região atrás da minha cabeça. Um arrepio desceu pela minha espinha.

Que a deusa Afrodite me perdoe, mas aquela mulher era capaz de enlouquecer qualquer homem em poucos segundos. Parecia conhecer muito bem os caminhos que levavam ao meus instintos mais primitivos. Aqueles que só se alimentam de puro sexo e que todo homem tem, o que podemos fazer? Contava também o fato de eu estar muito apaixonado. Fui envolvido, ou melhor, deixei me levar por todo o desejo que tentava conter. Colei seu corpo esguio no meu e aprofundei o beijo sem me importar se minha língua caberia dentro da boca da Ariel.

Mergulhei na sensação de desejo se consumindo em beijos e carícias, como uma brasa jogada numa fogueira. Quando me dei conta os botões do traje de patriarca estavam sendo desabotoados ao passo que minhas mãos já se encontravam dentro da calcinha de Ariel.

Mas eu precisava protegê-la de Ares, por isso novamente lutei bravamente contra o desejo e nos separei. Zeus sabe o quanto foi difícil.

- Você também quer, admita. – ela disse me encarando maliciosamente.

Zeus sabia também como eu queria.

- Se eu ficar estarei te colocando em perigo. – afastei seus lábios de cima dos meus com um dedo. – Além do mais, preciso descansar para sair cedo amanhã...

- Você diz dormir?

- Não vou dormir até ter certeza que não acordarei como Ares.

Ariel baixou os olhos, preocupada.

- Não pode ficar sem dormir... Como fará?

- Darei um jeito.

Virei o rosto reunindo toda a força mental para levantar daquela cama e me afastar do corpo quente de Ariel, porém ela foi mais rápida e virou minha face de volta para ela.

- Não precisa ser assim... – disse e em seguida mordeu de leve o lábio inferior. Mulheres não deviam fazer isso na frente de um homem com a calça prestes a explodir por causa de uma ereção. Aquela altura eu acho que ela já sabia o que tinha feito comigo. – Temos outras opções. Você sempre dorme como um anjinho depois que fazemos amor... – ela me empurrou me obrigando a apoiar os cotovelos na cama. - Além disso, os seus episódios são mais frequentes quando está em seu quarto ou no escritório, não é mesmo? Esse quarto é um terreno neutro. Não há nenhuma lembrança do seu passado aqui dentro destas paredes...

Ah, ela estava certa. Me vi inclinado a concordar com tudo o que ela dizia. Ou eu não tinha força de vontade alguma para discordar. Senti-me como se estivesse sendo hipnotizado. Meus olhos passeavam pelo decote farto do vestido, aos lábios úmidos de Ariel e mergulharam no fraco azul de seus olhos. Eles brilhavam, exibidos. Estranhamente brilhavam mais no escuro. Em ambientes iluminados eles simplesmente se apagavam. Esse fato sempre me intrigou.

Mas eu não podia dizer que não admirava aquela brincadeira de esconde-esconde das retinas de Ariel com a luz. Eu ficava maravilhado com cada mudança de tonalidade de seus olhos.

Respondi da seguinte maneira: fingi que ia beijá-la e no último minuto forcei meu corpo contra o dela a derrubando na cama. Inverti as posições. Ela caiu graciosamente com um gemido abafado pelo susto. Tinha o sorriso lascivo de uma ninfa estampando sua face.

Passei algum tempo olhando, ou melhor, acompanhando o som da respiração calma daquela mulher, atravessando o pulsar quase imperceptível de seus lábios entreabertos, admirando o subir e descer de seu colo alvo. Passei o nariz pelo seu rosto até a orelha para sentir seu perfume. Ela cheirava a jasmim misturado a algo que não conseguia identificar. Frutas, grama molhada de orvalho da manhã, talvez. O gosto de chuva voltou a minha boca.

Ariel era sempre suave como seu perfume, ao mesmo tempo havia outros aromas misteriosos vindo dela. Pensar nisso era como imaginar o fundo do mar: visualizamos apenas escuridão, mas sabemos que em meio aquele breu aterrador existe vida. A mulher que mais me atraiu, que mais me chamou atenção, que mais me despertava sensações agradáveis e indescritíveis, era um vão profundo e infinito que sempre prenderia minha curiosidade e que certamente levaria a vida toda para explorar.

Todos os meus sentidos me diziam isso sempre que estávamos juntos. Também me diziam que ela era minha.

Suas coxas roçando na minha dissiparam as divagações da minha mente. Puxei-a para mais perto de mim, querendo aumentar o contato de nossos corpos. Aproximei os lábios de sua orelha sussurrei o que estava guardado em meu coração há algum tempo:

- Eu te amo...

Ela me olhou com um misto de emoção e surpresa. Segurou minha cabeça colando nossas testas uma na outra e disse emocionada:

- Também te amo.

Beijamo-nos sem a menor pressa. Fiquei de joelhos entre as pernas da Ariel para me livrar do traje de patriarca. Enquanto descia as mangas pelos braços, via Ariel puxar o vestido que usava até se descobrir totalmente.

Previ que não descansaria nem um pouco aquela noite.

***A

Apesar de ter feito um dos melhores sexos da minha curta vida sexual, não consegui relaxar por muito tempo. Acho que cochilei por uns dez minutos ou menos embaixo do corpo pesado de Saga. As preocupações se multiplicavam na minha cabeça como uma colônia de bactérias. A principal delas era a possibilidade quase certa que perderia o homem deitado em cima de mim se falasse a verdade.

Lentamente comecei a me mexer para liberar meus braços do abraço de Saga e assim conseguir sair debaixo dele. Sem a menor pressa, empurrei-o de cima de mim. O deixei com as costas apoiadas na parede. Quando achei que estava dormindo profundamente, ele abriu os olhos.

- Estava esmagando você? – ele perguntou.

Sua voz era lenta e cansada demais.

- Um pouco... – eu disse voltando a deitar ao lado dele.

Ficamos um de frente para o outro. Passei as pontas dos dedos pelos músculos bem talhados do peito ao abdômen. Sua pele estava quente e úmida por conta de todo o "exercício" que fizemos na minha estreita cama de solteiro.

Saga segurou o meu queixo e beijou o meu nariz depois a minha boca. Fechei os olhos, extasiada. Eu sentia que não demoraria a me entregar ao enorme desejo que sentia por ele. Ele me puxou para ficar em cima dele. Apoiou a minha cabeça em seu peito e disse:

- Vou ficar aqui só até você dormir.

- Você também precisa dormir. – disparei. Levantei a cabeça para olhar diretamente em seus olhos. – Ainda está com medo de adormecer?

- Não quero arriscar. Não posso dar chance para aquele demônio voltar...

- Mesmo assim... Não se sente cansado? – insisti.

- Sim, mas não é seguro. Se quer ouvir a verdade, não é tão ruim assim... – ele falou tentando ser descontraído. – Era parte do treinamento para ser um cavaleiro de ouro ficar sem dormir para aguentar lutas em sequência. Posso suportar vários dias acordado.

Contornei o nariz de Saga com a ponta do dedo.

- E quando o nobre e poderoso cavaleiro de Atena pretende dormir?

- Quando tiver certeza que minha face maligna desapareceu para sempre.

Ouvi suas costas estalarem quando sentou na cama. Contemplei os músculos das costas e dos braços de Saga que não estavam cobertos pelo seu volumoso cabelo azul. A falta de sono deixava seu rosto coberto de sombras de cansaço, mas seu corpo não perdia a majestade.

- Posso te pedir uma coisa? – perguntei baixinho. Saga virou o rosto. Um belo sorriso de expectativa se formou. – Leve-me com você amanhã...

O sorriso dele murchou no mesmo segundo.

- Não acho prudente, Ariel.

- Mas eu quero ir...

- Não. Quanto menos tempo passarmos sozinhos melhor...

- Nem pense nisso, grande mestre Saga. – eu disse colocando autoridade na voz. Levantei rapidamente e segurei o seu braço com força. Agora ele me olhava com toda atenção. – Não vou deixar você ir sozinho. Eu não tenho medo, nem de Ares nem de ninguém. Eu só quero ajudar... – afastei o cabelo de seu rosto suado e sussurrei: – Sinto que precisa de mim...

Saga não deixou que eu terminasse de dizer todas as justificativas que havia preparado, antes me puxou para um abraço caloroso. Agarrei-me ao corpo dele querendo sugar todo o calor de sua pele.

- Eu preciso de você mesmo. Não imagina o quanto... – ele disse pondo o rosto de frente ao meu ainda me mantendo dentro de seu abraço. – Mas não posso permitir que se afunde mais nesse meu problema...

- Não tenho medo de me afundar. Por favor, deixe-me acompanhá-lo nessa consulta.

Saga suspirou baixinho. Depois voltou a sentar na cama em seguida me puxou para sentar em seu colo.

- Está bem. Não consigo mesmo ganhar da sua teimosia. Vamos sair cedo amanhã. Esteja pronta as sete...

Beijamo-nos de novo. Previ que estava se despedindo. Saga ainda não confiava em si mesmo para dormir comigo a noite toda. Não fiquei chateada, procurei me conformar. Preferi deixá-lo confortável em seu recolhimento. Apenas insisti para ir junto ao médico, pois lembrava da Kaliope me esperando no hospital depois da minha consulta e de como eu havia gostado de vê-la ali, a minha espera. Imaginei que Saga precisaria de um apoio assim.

Trocamos mais alguns beijinhos, que acabou se tornando um convite para um bom sexo de despedida. Quando ele deitou-se sobre mim, devidamente encaixado entre as minhas pernas, o celular que estava embaixo de suas roupas jogadas no chão tocou. Tive vontade de xingar aquele aparelho.

Para impedir Saga de sair de cima de mim, prendi sua cintura com minhas pernas e não parei de beijá-lo. Queria deixar claro que durante aquela noite ele era meu e de ninguém mais. Mas o maldito celular continuou tocando.

- Vou atender, pode ser importante... – disse Saga após interromper o beijo.

- Não é não. Deixa essa coisa tocar. – e o beijei novamente com mais vigor.

Agarrei seus ombros para impedir que saísse de cima de mim. Consegui desviar a atenção dele durante algum tempo. Quando pensei que começaríamos a transar de novo, Saga se levantou.

Desta vez não relutei mais. Deitei na cama e me cobri com o lençol com cara de birra. Vi quando se levantou e pegou o celular no chão.

- Aioros? O que aconteceu? – ficou de costas para mim e continuou falando: - Tem certeza que quer que eu participe?... Certo, estou indo. – pegou as roupas do chão e disse preocupado: - Preciso ir a sala do mestre agora.

- O que aconteceu? – perguntei sentando na cama.

- Marin, a amazona que enviei para uma missão acaba de retornar. Ajude-me a me vestir, Ariel. – rapidamente Saga apanhou suas roupas do chão e começou a vesti-las.

- Vou com você. – disse enquanto o ajudava a fechar os botões do traje de patriarca.

Algo me dizia que precisava estar naquela reunião, precisava ouvir o que aquela amazona tinha a dizer.

- Não, você fica aqui. – determinou Saga, firme.

- Mas...

- Fique no quarto, Ariel. Amanhã nos falamos.

Deu-me um beijo no rosto e antes que pudesse falar qualquer coisa, bateu a porta.

***S

Encontrei Aioros em frente a porta da sala de reuniões. Ele estava encostado na parede com os braços cruzados sobre o peito.

- Por que não disse a Marin que estou afastado, Aioros? – perguntei assim que parei na frente dele.

- Eu disse, mas ela exigiu sua presença nessa reunião. – ele respondeu apressadamente. – Disse que você merecia ouvir o que ela tinha para dizer, já que foi você que a enviou nessa missão.

Murmurei alguma coisa que queria soar como 'sei'. Quando olhei para Aioros, percebi quando rolou os olhos na direção oposta muito rápido. Estava claro que aquilo tudo era só uma desculpa para me manter no cargo de patriarca contra a minha vontade.

Minha mão já apertava a maçaneta da porta quando Aioros segurou o meu ombro.

- Espere! – ele disse. Em seguida tirou um longo fio de cabelo negro de cima da minha roupa. Reconheci aquele fio como sendo da Ariel. Aioros abriu-me um sorriso cúmplice. – Nem precisa me dizer onde estava, excelência. – ele disse, bem humorado como sempre. E completou no mesmo tom: - Estou feliz que fizeram as pazes.

Dei um sorriso cansado de agradecimento e empurrei a porta para entrar na sala. Shaka, Milo, Shura, Camus e Marin se levantaram quando entrei. Um velho sinal de respeito ao cargo que eu ocupava. E mais uma vez tive a impressão que eles não queriam me ver longe da posição de liderança. Aioros não estava sozinho nessa.

Marin veio até mim quando puxei a cadeira para me sentar.

- Saga, está tudo bem? – ela perguntou. Pude perceber notas de preocupação em seu tom de voz. – Aioros me disse que pediu afastamento...

- Estou bem, Marin. Só vou me afastar por um tempo, não muito, espero. Preciso desse tempo longe para me curar definitivamente do que aconteceu no passado.

A amazona de Águia baixou a cabeça e relaxou os ombros. Acho que entendeu logo de cara o motivo de meu afastamento.

- Eu espero realmente que não fique muito tempo afastado. – ela disse com sinceridade.

Encarei por algum tempo a máscara que cobria o rosto de Marin. Eu podia sentir que ela sorria para mim por baixo daquela cobertura fria. Marin voltou ao seu lugar e eu me sentei no meu. Esperei Shaka dar início a reunião.

- Atena fará parte desta mesa? – perguntou Milo de seu lugar ao lado de Camus de Aquário.

- Não. – respondeu Shaka. – Ela está repousando em seus aposentos, não achei conveniente acordá-la.

Shaka virou o rosto na minha direção como se esperasse que eu dissesse algo em concordância. Fiquei em silêncio.

- Bom, - continuou o indiano. – Conte-nos o que viu, Marin.

A amazona se levantou prontamente. Disse em tom de voz seguro:

- Eu prefiro mostrar, dado o impacto que sei que causará nos presentes cavaleiros. – ela tirou do bolso de seu casaco de couro uma caixa fina e quadrada contendo um DVD. – Eu posso usar o equipamento de vídeo?

- Tenha a bondade. – disse Shaka.

- Eu ajudo você com o equipamento. – prontificou-se Aioros, sempre solicito.

Marin agradeceu. Os dois foram até o equipamento de projeção. Aioros ligou o aparelho e Marin inseriu o DVD, depois voltaram para a mesa. Com o controle remoto, Marin iniciou o filme.

- Observem com atenção. – ela disse.

A imagem estava em movimento, como se a cinegrafista Marin estivesse caminhando e filmando ao mesmo tempo. Mostrava uma estrada de chão batido, com algumas casas pequenas de cada lado. Parecia estar situada dentro de uma vila bucólica. A voz de Marin surgiu em poucos segundos:

"Essa vila fica a uns 120 km a oeste dos montes Urais. Tive notícias de ataques de estranhas criaturas nessa região remota, por isso vim investigar. Cheguei ao local as 15:45... e me deparei com isso...

A imagem se moveu muito rápido. Primeiro apareceram casas pequenas e modestas feitas de madeira, todas queimadas. Depois um monumento cercado de arbustos cortados cuidadosamente, o que deduzi se tratar de uma praça. A imagem andou mais um pouco até parar em frente a uma cerca.

Quando se aproximou, percebi que não era uma cerca e sim estacas de madeira enfileiradas. Sobre cada ponta havia... O murmúrio de assombro de Milo representava o que cada um de nós sentia. Fincadas sobre as estacas havia cabeças humanas. Dezenas, talvez centenas.

- Mas o que é isso? – perguntei, nervoso.

- Isso foi o que aconteceu aquela vila. – respondeu Marin. – E em muitas outras que estive.

- Alguma pista de quem fez isso ou o que? – quis saber Shura parecendo tão indignado quando eu.

- Encontrei dois sobreviventes nessa vila que filmei. Eles me disseram que foram habitantes da vila, enlouquecidos e sedentos por sangue, os responsáveis pelo massacre. – Marin fez uma pausa. – Disseram que ouviram os assassinos dizerem em alto e bom som que o mundo se transformaria num mar de sangue em homenagem ao apocalipse. Essas duas pessoas estavam muito assustadas, quase loucas. Nas outras vilas que visitei, não havia sobrevivente algum.

- Pessoas enlouquecidas? – eu perguntei, sentia minha testa se franzir.

- Sim, grande mestre, como se passassem por um surto de violência. - respondeu-me Marin. – Os sobreviventes me relataram que elas tinham estranhos olhos vermelhos que brilhavam como faróis acesos na escuridão enquanto decapitavam os vizinhos. Pelo que pude perceber através dos relatos, essas mortes não ocorreram por nada. As pessoas eram levadas a grandes áreas, eram decapitadas e suas cabeças colocadas nas estacas sempre na área central da cidade. Esses dois sobreviventes ficaram assistindo tudo, amarrados. Como se...

- Os assassinos quisessem deixar testemunhas. – completou Camus.

Marin assentiu.

- Senti presenças malignas enquanto saia de uma vila para outra e os cosmos malignos que explodiram pelo mundo também explodiram lá. Em menor grau, preciso informar.

- Sabiam que estávamos investigando e queriam deixar um recado. – opinou Milo.

- Eu concordo. Agora quero mostrar-lhes uma coisa que me deixou bastante intrigada. – Marin apertou o botão de avançar e o vídeo acelerou alguns minutos. A imagem pulou das cabeças decepadas e parou num curso d'água, um riacho. A água parecia correr muito lentamente e estava completamente vermelha. Parecia mais um... – Rio de sangue. – Continuou Marin. – Eu filmei isto há dois dias, essa também é uma região isolada, fica no norte da Grécia, fronteira com Bulgária... Este rio se transformou, misteriosamente, em um rio de sangue humano. Não consegui encontrar nenhuma causa aparente. – explicou Marin.

- O que significa? – perguntou Milo.

- Rios de sangue estão presentes no novo testamento da bíblia cristã. Livro do apocalipse ¹. – respondeu Shaka com sua habitual serenidade.

Um arrepio passou pela minha nuca quando ouvi a palavra apocalipse. Olhei para meus companheiros e eles pareciam pensativos.

- Qual sua opinião, grande mestre. Desculpe, Saga? – todos olharam para mim quando Marin fez a pergunta.

Coloquei as duas mãos sobre a mesa antes de responder.

- Seja o que for, nós encontraremos a resposta.

***A

Eu não conseguia parar de pensar no retorno daquela amazona. Algo me dizia ela não trazia boas notícias. Arrependia-me de não ter insistindo para ir junto com Saga, mas, pensando bem, acho que nada poderia fazê-lo a me colocar naquela reunião.

Às vezes eu tinha a impressão de que Saga me via como uma garota muito delicada, do tipo que um mero sopro de ar pudesse derrubar e matar. Ele me protegia de tudo e de todos de uma forma até irritante.

O relógio demorou a marcar meia noite. Pulei da cama quando vi que finalmente havia chegado a hora do encontro com Ragi. Abri silenciosamente a porta do meu quarto. Coloquei a cabeça para fora antes de sair. O corredor estava como eu queria: escuro e vazio.

Logo nos primeiros passos no jardim do templo me arrependi de não ter calçados sapatos. Calculei grosseiramente o tempo desde que sai do quarto. Devia estar muito perto da hora de chamar Ragi. Parei atrás de uma grande árvore que ficava bem no fundo do jardim. Respirei fundo duas vezes e me concentrei para chamar o anjo caído. Primeiro disse seu nome completo em pensamento, depois cogitei que ele poderia não ouvir então falei em voz alta.

- Ragiel... – engoli em seco tomada por toda a tensão do momento. Olhei em volta e repeti: – Ragiel...

Ouvi um murmúrio de brisa acelerada misturado a passos leves sobre a grama. Uma voz masculina surgiu logo em seguida:

- Você está com cheiro de luxuria, anjinho...

Não reconheci a voz até a palavra "anjinho". Fiquei imediatamente envergonhada pelo comentário. A euforia se sobrepôs ao constrangimento. Eu mal podia acreditar que havia dado certo. Porém, quando me virei na direção da voz, quase cai para trás de susto. Aquele parado atrás de mim não era Ragi e sim um... Soldado?

- Quem é você? – perguntei recuando.

O soldado levantou as mãos.

- Calma, sou eu. Estou apenas usando o corpo desse soldado... – seu tom de voz era impressionantemente tranquilo.

Minha ficha caiu.

- Você está possuindo o corpo desse homem? – indaguei espantada.

- É o único jeito de entrar aqui sem ser notado.

Devo ter feito aquele cara de "achei que já tinha visto tudo na minha vida". Passado o susto, avancei na direção de Ragi ou do soldado... De Ragi no corpo do soldado. Que situação mais confusa! De qualquer forma era bom ver que ele estava conseguindo se virar muito bem no quesito se esconder dos cavaleiros.

Avancei destemidamente em sua direção. A ponta do meu dedo quase tocou o nariz dele.

- Saia do corpo deste homem agora! – ordenei.

- Ok. Não precisa dessa cena. – ele respondeu com a mesma naturalidade.

Vi os olhos do soldado se fecharem, em seguida uma sombra se projetou atrás de seu corpo. Eu senti a energia sombria de Ragi se expandindo calculadamente. Ele parecia estar fazendo toda a operação sem querer chamar atenção. Claro, ele não queria que os cavaleiros soubessem que ele estava no templo de Atena, bem no nariz deles. A sombra cresceu com rapidez, tomou forma, pulou por cima da cabeça do soldado e ficou de pé na minha frente. Segundos depois o anjo caído Ragiel surgiu em carne e osso. O soldado caiu desmaiado no chão.

- Satisfeita? – ele perguntou.

Estranhamente, não senti medo. Minha boca ficou aberta, de tão impressionada que eu fiquei com o fenômeno que tinha acabado de presenciar, mas não de medo.

- Com certeza. – falei após me recompor. Abaixei-me para checar o estado do soldado. – Ele vai ficar bem?

- Vai. Garanto que amanhã não se lembrará de nada. – disse Ragi com segurança.

- Como fez isso? – perguntei ficando de pé. - Você disse que a possessão de um anjo caído era da mente e não do corpo...

- Exatamente. Eu estava na mente dele. Mantive-o quieto e sossegado... – disse ele abrindo um sorriso sorrateiro. – Sabia que ele tem medo do grande mestre? E acha os seus seios bonitos?

Pisquei os olhos, inquieta. Conclui que não gostaria de estar na pele do sujeito durante a possessão. Ter a mente invadida e vasculhada por um anjo caído não parecia boa coisa.

- Você tem certeza que não haverá sequelas para ele? – perguntei.

- Tenho.

Caminhei em volta de Ragi querendo desviar a mente do que tinha acabado de ver e focar no mais importante.

- Está acontecendo alguma coisa no Santuário... – eu disse vagando em volta de Ragi, tateando mudar de assunto,

- A amazona Marin voltou de missão que seu namorado a mandou. Ela cruzou com ataques de nefilins...

- Você tem certeza?

- Tenho.

- E como ficou sabendo?

- Ouvi os pensamentos dos soldados que a receberam nas imediações do Santuário. Infiltrei-me no grupo que a escoltava e ouvi alguns pensamentos dela. Ela passou por vilas atacadas por nefilins e fez alguns vídeos legais. – explicou Ragi com uma irritante expressão de pouco caso. – O seu disfarce ainda está garantido, não fique tão nervosa, anjinho.

Expirei ruidosamente. O modo como Ragi falava só mostrava que ele tinha uma perfeita habilidade de me fazer sentir miseravelmente egoísta. Eu sabia por que toda a desgraça do mundo estava acontecendo e ficava calada. Minha vida era basicamente uma mentira, e tudo porque eu não queria ficar longe de Saga.

Afastei-me de Ragi. Tinha certeza que meu rosto transparecia todo o horror que eu sentia por mim mesma. Ouvi Ragi me chamando.

- Ariel? – me virei em silêncio. Ragi segurou os meus ombros, fazendo uma leve massagem. – Fique calma. Eles vão acabar descobrindo tudo de um jeito ou de outro. E não é necessário que seja pela sua boca, se isso te assusta tanto. Você ainda não recuperou a memória, nem sabe usar seu poder de revelação, não é de muita serventia para eles. O que importa... – Ragi sorriu, surpreendi-me ao ver alguma ternura no sorriso dele. – É que você está em segurança.

Previ que ele quisesse me abraçar, então me afastei, confusa.

- Eu estou segura aqui no Santuário? – repeti com ironia. – Você queria que eu fugisse daqui com você, agora diz que estou segura aqui?

Ragi suspirou silenciosamente. Em seguida deu um sorriso acanhado.

- Eu mudei de ideia, apenas isso.

Claro que não acreditei na justificativa.

- Oh, será que se esqueceu de me dizer alguma coisa, Ragiel? – questionei, debochada.

Ragi estudou o meu rosto antes de responder. Percebi que ele não gostava de ver seu discurso posto a prova.

- Será que um dia o anjo da revelação vai entender o que se passa a sua volta? – claro que ele não perderia uma oportunidade para debochar de mim. Descobri que detestava quando ele me chamava de anjo da revelação. Parecia uma cobrança. – Minha função aqui é te proteger, Ariel. – ele falou, curto e grosso.

Meus olhos piscaram umas dez vezes e minha mente esquentou tentando processar aquela informação nova.

- O que quer dizer com 'minha função aqui é te proteger'?

- Certo. Vou te explicar tudo bem devagar. – ele falou colocando as mãos nos bolsos. – Dahar me enviou a Grécia para capturar você para o grupo dele. Dias antes um arcanjo apareceu para mim e disse que eu encontraria um anjo muito importante e que eu devia protegê-lo até ele recuperar a memória. Em seguida nos esbarramos no teatro, em Atenas...

Uma coisa de cada vez, eu disse para mim mesma.

- Você disse um arcanjo?

- Sim. Pode acreditar.

- Como ele era?

- Loiro, luminoso, envolto por sua energia divina inconfundível...

Engoli em seco. Ragi percebeu.

- Acreditaria se eu disse que também vi esse arcanjo? – perguntei massageando o peito.

Ragi levantou o queixo, tornando a estudar o meu rosto.

- Onde e quando?

- Nos túneis subterrâneos, na noite em que vocês me raptaram. – respondi rapidamente. – Um ser de luz apareceu e meio que me mostrou como fugir...

- Hum... Então foi assim que você conseguiu escapar, faz sentido. Mas será que encontramos o mesmo arcanjo? - Fiquei em silêncio, pensando sobre a pergunta. Após me estudar, Ragi falou: - Está satisfeita agora que não temos mais segredos entre nós?

Olhei para Ragi com um sorriso sarcástico que dizia 'boa tentativa, mas você não combina com o termo poço de sinceridade'.

- Por que um arcanjo mandaria um anjo caído proteger outro? – perguntei.

- Talvez porque o anjo a ser protegido seja o adorável anjo da revelação... – ele falou com doçura, se aproximando. Passou o dedo no meu rosto olhando para meu decote. O maldito sorrisinho sempre presente. – Ou talvez, como Dahar disse, eu esteja querendo voltar as origens... Acumulei muitas funções na época que trabalhava para os arcanjos, entre elas a de anjo da guarda.

Ragi, meu anjo da guarda? Internamente, acabei rindo desse pensamento. Porém, ao lembrar que ele me salvou duas vezes e se arriscava permanecendo no Santuário por minha causa, pensei melhor na tal ideia. Mesmo assim, pensar em Ragi obedecendo um arcanjo ainda era estranho, ou melhor incompatível com ele. Certamente ele estava ali por outras razões.

A frase 'voltar as origens' ao sair dos lábios de Ragiel ganhava vários significados. Ele ainda me tocava, agora parado atrás de mim. Seus dedos atravessavam meus cabelos e tocavam meu pescoço. Não sei dizer se aquele contato causava alguma reação nele, mas em mim causava absolutamente nada. Ragi fazia parte do mundo que eu não era capaz de sentir.

- Então, como faço para recuperar os meus poderes? – perguntei, me afastando dele.

Ragi passou a mão no cabelo negro, impaciente.

- Venha comigo. – em seguida tocou o meu braço e no segundo seguinte havíamos viajado pela escuridão mais uma vez.

Assim que reaparecemos, tive que segurar a saia entre as pernas para ela não levantar por causa da ventania. Onde quer que estávamos era alto. Antes de perguntar onde estávamos, Ragi disse:

- Bem vinda ao terraço do templo de Atena. Já cuidei dos soldados que faziam a vigília...

Olhei em volta e vi quatro soldados inconscientes, aparentemente adormecidos. Vi de longe a estatua da deusa Atena que vigiava todo o Santuário. Ela parecia nos observar. Fiquei perturbada.

- Porque me trouxe aqui? – eu perguntei com um tom de voz que se aproximava do pânico.

Na verdade eu queria perguntar se era seguro.

- Porque era o lugar mais alto e mais próximo. Você precisa receber os raios lunares diretamente para recuperar sua força. Como imaginei que não gostaria de ir para o alto de uma montanha, que é o lugar ideal para isso, te trouxe até aqui.

- O que eu tenho que fazer? – perguntei-lhe.

- Nada. Só ficar aqui por mais alguns minutos.

Ragi caminhou até a grande estátua de Atena. O vento castigava sua camisa preta. Ficou de frente para mim e sorriu. Era como se não conseguisse segurar o sorriso. Ele parecia imensamente satisfeito. Foi então que me dei conta de que eu também me sentia assim. Podia sentir nitidamente a luz da lua me preenchendo, me confortando, me acolhendo.

De repente todo o cansaço, remorso e confusão mental se foram. Eu estava leve como uma folha solta no espaço. O ar noturno entrava e saia dos meus pulmões fortificando todas as minhas células. Era como sair de um longo e refrescante banho depois de passar dias no deserto. Abri minhas mãos na frente dos meus olhos. Minha pele brilhava. Eu me sentia até mais bonita, mais segura, mais feminina.

O mais estranho era a vontade de sair correndo pela floresta mais próxima, mergulhar no mar e pular de um penhasco, tudo ao mesmo tempo. Notei Ragi andando felinamente na minha direção. Me encarava intensamente. Deuses, como ele estava bonito! A lua fez efeito nele também. Uma sensualidade misteriosa exalava de seu corpo atlético.

Ele segurou meu queixo com delicadeza e perguntou olhando diretamente nos meus olhos:

- Como está se sentindo? – sua voz nunca pareceu tão sensual e seus olhos tão negros.

- Bem... – respondi maravilhada com aquele novo Ragiel.

Fiquei tão atraída que achei que se ele tentasse me beijar eu não resistiria. Tão logo tive esse pensamento, o tranquei na região mais funda dentro da minha mente para que não fosse captado pelo anjo caído.

Ragi soltou o meu queixo e se afastou de mim. Por um momento captei seus pensamentos. Estava pensando que eu não tinha o menor juízo por me envolver com um humano arriscando o meu pescoço. Ele me via como carne queimada, uma futura mãe de nefilin. A fúria do céu cairia sobre mim se eu continuasse amando Saga. Ragi sentia um profundo pesar por isso. Já tinha visto acontecer.

- Sei das conseqüências, Ragi... – eu disse baixinho.

Foi então que ele se deu conta de que eu estava dentro de sua mente. Ficou visivelmente perturbado. Sua postura era de quem não esperava por isso.

- Se sabe por que continua? – ele perguntou com certa irritação em sua voz.

- Eu o amo. Eu o sinto...

- Você o sente? – questionou Ragi com uma sobrancelha arqueada.

- Sim. Eu o sinto como se eu fosse humana como ele.

Acompanhei Ragi caminhar em volta de mim sem se livrar do olhar questionador.

- É tudo ilusão. Não vai durar. – ele disse com uma frieza mortal. Fiquei assustada. – Quando cai eu também tive sensações humanas, mas foi por pouco tempo. O que esse mortal te faz sentir... Não vai durar, Ariel, tenha certeza. E quando isso acabar, o sentimento que tem por ele também chegará ao fim.

Engoli em seco. Tive vontade de me trancar no quarto e chorar diante daquela possibilidade assombrosa.

- Mesmo se isso acontecer... – eu disse e minha voz saiu embargada. – Não vou sair de perto de Saga. Eu sinto que preciso ajudá-lo com seu problema.

Ragi me analisou por um tempo.

- E o que pretende fazer? Entrar na mente dele e destruir o que o perturba? Saga é um cavaleiro de ouro conhecido pelo enorme poder psíquico que tem. Se você se aproximar mais do que deve da mente dele, ele vai perceber e todo o seu teatrinho de mulher normal vai desmoronar.

- E não tem outro jeito? – perguntei tristemente. Ragi silenciou. – Ragi, por favor... – insisti.

- Sinto muito, Ariel. Se não tivesse caído, poderia curá-lo com seus poderes de anjo. Na sua atual condição não pode fazer nada. Um anjo caído apenas pode detectar um problema de saúde em um ser humano, mas não tratá-lo.

Senti sinceridade em sua voz. Apesar das palavras, Ragi não demonstrava a menor solidariedade. Realmente não gostava de Saga.

- Você encontrou mais sinais do apocalipse? – eu perguntei para mudar de assunto.

- Sim. O selo que prendia os nefilins primordiais foi rompido. Há milênios, quando os primeiros anjos caíram na Terra eles se juntaram e formaram um grupo de rebeldes contra as tropas celestiais lideradas pelos 12 arcanjos. Contrariando as regras, eles se envolveram com mulheres, filhas de nobres e reis da época e geraram muitos filhos. O objetivo era criar um exército poderoso para espalhar o caos na Terra e combater os arcanjos. Como esses primeiros anjos caídos eram muito poderosos, seus filhos se transformaram em bestas após o nascimento. Gigantes que devoravam e destruíam tudo por onde passavam. Os arcanjos tiveram trabalho para bani-los definitivamente. Esses mesmos monstros apareceram em uma pequena ilha no mar mediterrâneo. Seu namorado mandou Aiolia de Leão para derrotá-los. Provavelmente ele deve estar tentando impedir que os gigantes nefilins saiam da ilha e cheguem ao continente, nesse momento. A batalha vai ser duríssima. Provavelmente, Aiolia vai ficar fora por dias lutando sem parar.

- Acha que ele pode não sobreviver?

- Ele tem muitas chances. Soube que o cavaleiro de Leão tem experiência em combater gigantes. O patriarca escolheu a pessoa certa.

Após ponderar um pouco, perguntei:

- Como você ficou sabendo de tudo isso?

- Interceptei um mensageiro na costa e ouvi alguns pensamentos enquanto estava no corpo do soldado. – ele disse com um sorriso de canto. - O que importa, Ariel, é que o ressurgimento destes monstros é outro sinal do apocalipse. Indiscutivelmente. Logo outros surgirão. Mas tem uma coisa que ainda não entendo... - fitei os olhos pensativos de Ragi. - Porque os arcanjos não desceram para combater esses nefilins primordiais e os outros que vagam pelo planeta? Eu não vejo nenhum sinal de luta ou presença de anjos na Terra... Isso é muito estranho.

Ele me olhou mais uma vez como se esperasse uma resposta plausível de mim.

- Eu queria poder ajudar, Ragi, mas... – deixei meus ombros caírem meio que me desculpando. – O que os outros dizem sobre isso? Dahar e seus seguidores.

- Não sei. Eu rompi com eles.

Ragi virou o rosto, durante o movimento percebi sua expressão ficar séria. Ele não queria entrar naquele assunto. Captei uma onda de ressentimento e reserva vindo de sua mente.

- Então eles também estão atrás de você?

Essa pergunta soou obvia demais para mim. Ragi me encarou irritado. Acho que sabia que eu havia captado os sentimentos dele. Eu não havia feito esforço para ler a mente dele naquele momento. Teria sido meus poderes de revelação se manifestando? Senti que Ragi estava se fazendo essa mesma pergunta. A mente dele estava fácil de entrar. Apenas uma fina cortina a separava da minha curiosidade.

No entanto, não me atreveria a fazer tamanha indiscrição. Eu respeitava Ragi, apesar de tudo. Não achava direito ouvir seus pensamentos. Estava acontecendo só porque não estava conseguindo controlar.

- Estão. – disse Ragi frio e distante.

De novo, me vi próxima a Ragi, olhava para ele como meu irmão mais velho com problemas. Eu queria protegê-lo de Dahar e seus capangas, dos nefilins e dos cavaleiros que o caçavam, queria que ele ficasse comigo.

Como Ragi continuou sumido e não houve mais atividade nefilim no Santuário, nem nenhum cavaleiro esbarrou com eles, ele foi oficialmente decretado culpado pelas mortes. A investigação de Aioros perdurava, mas eu bem sabia que Saga já estava querendo a cabeça de Ragi há muito tempo. Desconfiou dele desde a primeira vez, era bem verdade.

Contudo, eu não sentia nenhum arrependimento ou apreensão vinda de Ragi. Ele estava tranquilo sobre as perseguições que sofria. Confiava em si mesmo. Isso me deixou mais calma.

- Parece que o problema está nas mãos de Atena e seus cavaleiros agora. – eu disse fitando as estrelas.

Ragi me olhou e um rápido sorriso cúmplice enfeitou sua face. Era como se quisesse dizer: 'não vou discutir com você'. Ele também devia estar pensando nisso, que de alguma forma o céu havia se ausentado daquela batalha. Olhando para ele captei sem querer que ele timidamente me via como uma espécie de superiora. Ele me respeitava também, embora evitasse demonstrar.

- Quando vai contar a verdade ao Saga?

- Vou esperar ele começar seu tratamento psiquiátrico...

- O grande mestre está louco? – perguntou Ragi com deboche.

Encarei-o duramente.

- Não está. Ele tem problemas para esquecer o passado, apenas isso.

Ragi deu uma risada rápida.

- Qualquer um no lugar dele teria...

Dei as costas para ele, demonstrando que não queria continuar naquele assunto. Atiraria aquele anjo caído daquele terraço, caso ele começasse a acusar Saga. Ragi veio para perto de mim. Parou ao meu lado silenciosamente. Nossos olhares se esbarraram.

- Como eu disse antes, talvez você não precise falar nada. Não detectei nenhuma atividade nefilim aqui no Santuário depois da morte do Dr. Jason. É possível que eles estejam mais cuidadosos. Já sabem que você está aqui. Vão esperar o momento certo de atacar...

- O que você me sugere?

- Que fique preparada e atenta. Pare de se preocupar tanto com o patriarca e se preocupe com você. – seu tom de voz repreensivo me fez baixar a cabeça. - Eles não vão querer enfrentar os cavaleiros diretamente, pelo menos por enquanto. O sangue dos nefilins se fortalece coletivamente. Eles vão esperar mais de sua raça despertar para atacar com força total. Os dois que você viu não eram grande coisa, mas eu sei que deve haver um líder por ai comandando e recrutando os outros... – ele me olhou seriamente. Seus olhos estavam estreitos e analíticos. – É com a cadeia superior de comando que você deve se preocupar.

- O mesmo líder que recrutou o Dr. Jason?

- Exato. Ele deve estar por perto. Antes de ir embora, Dahar comentou que sentiu a energia dele por aqui... No Santuário.

Engoli em seco. Encarei o rosto de pedra da estátua de Atena com preocupação. Depois pensei em Ragi se escondendo por ai com um monstro poderoso desses a solta.

Ia me aproximar dele e pedir que tomasse cuidado, mas ao olhar para o lugar onde ele estava, encontrei-o vazio. Ragi havia sumido sem deixar rastros. Podia jurar que havia batido asas.


¹ A citação de Shaka sobre o livro do apocalipse que se refere aos rios de sangue é a seguinte: "E o segundo anjo derramou a sua taça no mar, que se tornou em sangue como de um morto, e morreu no mar toda a alma vivente.
E o terceiro anjo derramou a sua taça nos rios e nas fontes das águas, e se tornaram em sangue."
Apocalipse 16:3-4 (trecho completo: . /acf/ap/16)