Título: Um dia

Tema #10 Cry (#10 Choro)
Gênero: angst...ou quase isso oO
Avisos: Isso sou eu colocando de novo a ponta do meu pezinho em estilos experimentais de narrativa...não me puxem pra baixo ..
Wordcount: 998
Disclaimer:- Essa é a vigésima de 100 vezes que vou repetir: eu não sou dona dos direitos autorais sob Gundam Wing. Eu não sou sequer dona dos temas que estou usando para esses 100 fics. Sou dona apenas de um computador meia boca e de um pseudo-talento mais meia-boca ainda. Eu não lucro nada com fics. Você ainda vai ter 80 chances pra acreditar no que eu digo 8D
Nota: CHEGUEI AOS 20 FICS O.O (estou 4 atrasada segundo o cronograma '1-fic-por-dia' mas disfarça) - Misao celebra-


O envelope caiu de dentro de um álbum de fotografias e diretamente em seu colo, e por alguns segundo ele olhou para a superfície levemente amassada e amarelada do papel sobre suas pernas.

Talvez ele tivesse se perguntado o porquê daquela carta ter sido guardada dentro de um álbum, justamente entre duas folhas que continham fotos suas, ainda muito jovem, tiradas durante a guerra.

Talvez ele tivesse se perguntado o porquê daquela carta estar coberta com selos de pelo menos quatro lugares diferentes, característica típica de correspondências trocadas entre colônias, e também o porquê da parte da frente do envelope conter um carimbo azulado e apagado pelo tempo, com letras maiúsculas que diziam 'Devolvido ao remetente'.

Todos esses detalhes certamente importantes foram automaticamente colocados em segundo plano por sua mente quando seus olhos notaram quem era o destinatário da carta.

'Para: Heero Yuy', lia-se na parte de trás do envelope, juntamente a um endereço em L1 no qual ele havia vivido durante alguns meses há pelo menos cinco anos atrás.

Seria coreto abrir aquela carta e perturbar seu conteúdo depois de tantos anos? Bisbilhotar numa coisa que certamente tinha algum profundo significado sentimental, para ter sido guardada por tanto tempo?

Uma pequena voz em sua mente dizia para que ele colocasse a carta de volta em seu lugar de descanso e esquecesse a respeito de sua existência. Porém, uma outra voz, mais forte e decidida, lhe dizia que aquela carta – por mais que não tivesse alcançado seu destino há cinco anos atrás – lhe pertencia. Seu nome estava ali, escrito em uma caligrafia familiar, provando que em algum momento aquela mensagem deveria ter chego em suas mãos.

E aparentemente, esse momento era agora.

Ele abriu o envelope, retirando apenas uma única folha de dentro. Desdobrando o papel com cuidado para não rasgar os cantos frágeis, palavras em tinta desbotada revelaram-se diante de seus olhos.

'Heero,

Estou enviando essa carta para o último endereço seu de que tive notícia. A verdade é que não sei se ela vai chegar até suas mãos e, sendo bastante sincero, não sei se realmente quero que ela o alcance ou não.

Talvez eu tenha certo medo que você me cace e quebre minha cara depois que ler isso, ou vai ver, inconscientemente, eu queira que você me ache, nem que seja por estar com raiva de mim ou algo parecido.

Eu tenho algo pra lhe contar e é algo que já tenho mantido em segredo há muito tempo.

Eu mantive isso em segredo durante a guerra quando você não me dava quaisquer chances de me aproximar. Ah não ser, é claro, que você quisesse roubar peças de meu Móbile Suit.

Mantive isso em segredo durante as noites divididas nos quartos apertados das escolas, quando eu não dormia apenas para poder ficar acordado para ver VOCÊ dormir.

Mantive isso em segredo mesmo quando pensei que você estivesse prestes a puxar o gatilho e atirar no meio de meu rosto. Caso você tivesse ido adiante naquele dia, você teria me exterminado e meu segredo morreria seguramente comigo.

Talvez você se esteja se perguntando por que, depois de tantos e tantos anos, eu esteja escolhendo logo uma carta para te contar tudo isso.

Eu também não sei.

Talvez seja por que eu saiba que o papel não pode me responder.

Talvez seja por que eu realmente não creia que você jamais vá ler essa carta.

Talvez eu tenha guardado meus segredos por tempo demais, escondido meus sentimentos por tempo demais, pensado e repensado o que podia ter sido em minha mente até as possibilidades terem perdido totalmente o sentido.

Talvez, depois de tanto tempo, eu não tenha mais nada a perder.

Então por que não perder o tiquinho de dignidade que me resta? Me parece um preço barato a pagar em troca de deixar que você saiba.

Que você sabia o que eu sentia por você e ainda sinto e provavelmente sempre sentirei. Que você saiba o que me atormenta e ao mesmo me acalenta nas noites frias. Que você saiba o que me enlouquece aos poucos e me mantém são na esperança de que um dia...

Você saiba.

Eu cheguei até aqui mas a verdade é que não tenho forças o suficiente para continuar. Preciso guardar o que me resta de coragem para enviar essa carta.

Imagino se um dia você vai realmente lê-la? Imagino se vai me odiar...

Imagino acima de tudo se você vai entender.

No fim, acho que tudo isso não importa. Vou me dar por satisfeito se um dia eu puder te ver de novo, e então falarei ao vivo, tudo o que as minhas palavras escritas não tem sequer como começar a explicar.

Um dia.

Com certeza, um dia.

Sinceramente,

Duo'

Do lado de sua assinatura havia uma marca redonda, apenas levemente mais escura do que o restante do papel, e ele aproximou a folha de seu rosto com mãos trêmulas, tentando identificar do que se tratava.

Uma marca gêmea formou-se inesperadamente na carta quando ele piscou, e o toque de seu dedo fez a umidade atravessar gentilmente o papel gasto.

'Heero?', uma voz chamou sua atenção, fazendo com que levantasse a cabeça a tempo de ver seu amante entrando na sala, expressão preocupada buscando a minha. 'Está tudo bem?'

'Esta sim', ele respondeu, dobrando a carta e guardando aquele tesouro precioso de volta em seu baú de papel, enterrado entre outras memórias.

Heero acariciou gentilmente um dos cantos do envelope com os dedos chegando a conclusão de que estivera certo, enfim, ao abrir a carta. Ela continha coisas que ele tinha o direito de saber. Coisas que precisava saber, por mais que no fundo, já as soubesse.

'Heero?', Duo perguntou novamente, incerto. E ele chegou à conclusão repentina de que talvez fosse hora de Duo finalmente saber algumas coisas também.

Um dia, afinal, era hoje.

E foi com simplicidade que os sentimentos que seu agora companheiro não era capaz de por no papel, ele colocou em palavras.

'Eu te amo'.