O Bardo e o Pardal

Capítulo 21


2 semanas depois...


Os olhos foram abrindo-se devagar.

A consciência voltava aos poucos.

Onde estava? Que lugar era aquele?

O que havia acontecido?

Súbito, um nome explodiu em sua mente:

– Ikki!

Tentou chamar, mas o nome fora pronunciado com a voz rouca. A garganta seca ardeu e levou rápido a mão ao pescoço numa tentativa de massageá-lo e aliviar essa incômoda dor. Os olhos voltaram a se fechar devido à claridade que, ao sentar-se bruscamente sobre a cama, pareceram inundar violentamente suas pupilas.

– Ele não está aqui.

Hyoga ouviu a voz, mas não a reconheceu. Piscou os olhos algumas vezes, na tentativa de conseguir enxergar. Finalmente, voltou a abri-los inteiramente, deixando que se pudesse ver suas belas orbes celestiais.

– Você... é o... – balbuciou o rapaz loiro.

– Príncipe Shun. Sim, sou eu. – o jovem príncipe estava sentado em uma elegante cadeira de marfim, posicionada à lateral da cama em que Hyoga estava deitado – Como se sente? – embora a pergunta viesse em um tom amigável, a expressão do belo príncipe tinha algo de melancólica.

– Sinto-me bem... eu acho. – o loiro voltou o rosto para os lados, como se buscasse por algo ou alguém. Entretanto, percebeu estar a sós com o mais novo, que se encontrava elegantemente sentado, parecendo analisá-lo – Meu corpo está um pouco dolorido, mas nada grave. – continuou a dizer, já que Shun permanecia apenas observando-o.

– Entendo. – o rapaz de olhos cor de esmeralda respondeu por fim, mantendo ainda seu olhar perscrutador – Mas isso é, de certa forma, esperado. Considerando pelo que passou...

Foi como se as palavras ditas por Shun atingissem o viajante como um raio. Agora Hyoga se recordava! Lembrava-se de estar com Esmeralda no topo de um edifício em ruínas, lembrava-se de ter presenciado a grande explosão na praça central, de ter sentido como Ikki era forte...

Lembrou-se de ter retomado a forma de cisne quando amanhecera, mas estranhamente, momentos depois, transformou-se em pardal, como costumava acontecer antes de ser aprisionado na casa do duque Holdar. Não compreendendo bem, decidiu averiguar o que se passava, até porque subitamente não sentia mais a energia de Ikki na praça que agora estava completamente destroçada. Abandonou Esmeralda no teto do edifício, tentando em vão explicar a ela o que iria fazer. A jovem não conseguiu entender o que Hyoga queria lhe dizer, e ele acreditou que seria melhor deixá-la ali assim mesmo. Lá, ao menos, ela estaria em segurança e Hyoga precisava saber se Ikki estava bem.

Na praça, e sob a forma de pardal, voou agilmente por todo o local e logo encontrou Tétion e Holdar aprisionados em um jazigo de gelo. Embora houvesse sofrido muito nas mãos do duque e de seu feiticeiro, Hyoga compadeceu-se da situação dos dois, especialmente por ver em seus olhos o terror e o medo, estampados para sempre em suas pupilas arregaladas.

Mas não viu nem sinal de Ikki ou do conde Muldovar. Ainda mais preocupado, passou a voar a esmo, sem saber para onde seguir.

Foi então que, ao passar por perto de uma das torres do castelo, sentiu a forte energia de Ikki vinda de lá. A conexão entre eles, pelo visto, era ainda mais forte do que imaginava.

Com o pequeno coração de pardal batendo forte em seu peito, voou apressadamente na direção de onde sentia provir aquela forte energia. Foi tão impulsivo que não cogitou a necessidade de ser cauteloso e, em virtude desse erro, foi pego em cheio pela flecha lançada por Racom. A flecha atingira seu coração e não teve forças para lutar contra as sombras que o envolveram rápido demais. Sentiu sua consciência ir se apagando, mas a imagem de Ikki continuava tão forte em sua mente que o último pensamento que Hyoga conseguiu ter antes de perder os sentidos foi de que levaria consigo o sentimento que tinha por Ikki para além da vida.

Entretanto, agora despertava ali e não compreendia o que podia ter acontecido. No momento da queda, tivera certeza de que iria morrer.

Colocou a mão sobre o peito e não sentiu nada ali. Nem uma cicatriz, nem qualquer marca de ferida proveniente da flechada mortal.

E então, Hyoga deu-se conta de outro fator com o qual até então não havia atinado. Lançou um olhar surpreso para a janela aberta e viu a manhã radiante que fazia lá fora. O céu muito azul, sem nuvens, e o sol brilhando em toda a sua majestade.

No mesmo segundo, voltou seus olhos para seus braços, como se precisasse se assegurar do que estava mesmo em sua forma humana.

– Ele cuidou de você. – a voz de Shun chamou a atenção de Hyoga, que voltou seu rosto, um pouco confuso, para o príncipe.

– O... meu irmão. Ele cuidou de você.

– Seu irmão? – o loiro franziu o cenho – Quem é seu irmão?

–Ah. Você não sabe? – Shun mostrou-se um pouco surpreso – O Bardo Mágico. Quero dizer; Ikki. Ele é meu irmão.

– O Ikki é seu irmão? – Hyoga repetiu, completamente incrédulo – Impossível. Isso faria dele...

– ...Um príncipe como eu. E, sendo o primogênito, o verdadeiro herdeiro do trono de Onel. – Shun soltou um discreto suspiro ao término dessa frase, que passou despercebido por Hyoga.

O viajante parecia não conseguir absorver aquelas informações. Tudo aquilo era demasiadamente surreal para ele. Shun conseguiu perceber a confusão do loiro e abriu um sorriso gentil para o hóspede:

– Tenho certeza de que o meu... irmão irá querer explicar tudo a você. Por isso, não vou me alongar em explicações. Digo somente que ele esteve muito preocupado com você durante essas duas últimas semanas...

– Duas semanas? Eu fiquei duas semanas desacordado?

– Sim. Foi necessário; afinal, você esteve literalmente voltando à vida...

– Voltando à vida? Então eu realmente... morri?

– Mais ou menos. Não entendo direito, mas o Bardo Mágico... digo; o Ikki explicou que a flecha do meu general havia ferido você mortalmente. Contudo, ele conhecia um feitiço em que, apegando-se ao que resta da vida de um ser, ele pode conseguir trazê-lo de volta. Foi o que fez com você.

Hyoga pensou um pouco e lembrou-se de um episódio que jamais esquecera. Quando as ervas de que sua mãe necessitava quase morreram, Ikki tinha conseguido salvá-las da morte certa. Obviamente, salvar algumas ervas da geada da noite e resgatá-lo da morte devido à flecha em seu coração eram duas situações diferentes... mas não inteiramente distintas.

– Foi um feitiço poderoso. Ele é realmente mais forte do que imaginávamos... – Shun falava em um tom reflexivo – Se bem que isso o deixou bastante debilitado, embora ele dissesse que não.

– E como foi que eu voltei à forma humana? E por que não estou como pardal, já que é de manhã?

– Ah, sim. Ele nos explicou sobre esse feitiço. Parece que foi feito por Muldovar, não é mesmo? Bom, nesse ponto, o que aconteceu é que, como você supostamente morreu, o feitiço deixou de existir. Ao trazê-lo de volta, você já não era mais amaldiçoado.

Hyoga sorriu. Estava livre daquela maldição? E Ikki havia salvado sua vida? As notícias boas vinham seguidamente e a vida subitamente lhe parecia tão leve...

– Todavia, penso que meu... irmão... – Shun ainda parecia ter dificuldades em pronunciar essa palavra – ...é forte o bastante para dar fim a um encantamento como esse do qual você foi vítima. Não foi necessário que ele demonstrasse isso, mas não duvido que fosse capaz. Afinal, com seus conhecimentos, o Bardo Mágico salvou a vida de meu pai, a minha e... – de repente, o jovem príncipe parou de falar, como se acabasse de lembrar algo – Desculpe-me, nem sei onde estava com a minha cabeça. – levantou-se da cadeira e caminhou até a grande porta do cômodo. Abriu-a apenas um pouco e trocou algumas palavras com o guarda que estava de sentinela ali. Em seguida, retornou tranquilamente para junto da cama, voltando a se sentar na rica cadeira.

Hyoga, que não compreendeu o motivo da interrupção e cada vez sentindo-se mais desperto, foi tomando consciência das inúmeras perguntas que iam aflorando em sua mente:

– E onde está Ikki? E Muldovar?

– Muldovar fugiu covardemente após ser desmascarado. Porém, não se preocupe. Ele está sendo caçado como o maior inimigo a ser detido em Onel. Meu general está cuidando para que ele seja capturado o quanto antes. – Shun notou a expressão de preocupação na face pálida de Hyoga – Quanto a Ikki... ele está bem. Meus pais estão felizes por terem reencontrado o meu... irmão.

O rapaz loiro ia assimilando tudo o que ouvia o mais rápido que conseguia. Mas encontrava dificuldades em absorver tantas coisas e não sabia dizer se isso era devido ao seu estado ou por conta de os fatos serem realmente inesperados demais.

– Como o Ikki pôde ser um príncipe por todo esse tempo e nunca ninguém haver desconfiado...? – Hyoga pensou, mas acabou perguntando em voz alta.

– Todos achavam que ele tinha morrido quando ainda era um bebê. Sei que não é de Onel, mas nunca ouviu a história do príncipe herdeiro que morreu quando ainda era um bebê? Sei que essa história circulou por vários reinos...

O jovem loiro assumiu em sua face a expressão de quem parecia se lembrar de ter escutado algo assim, mas vagamente. Ia perguntar mais alguma coisa, ainda buscando se situar em meio a todas aquelas novidades, quando a porta do quarto se abriu.

Shun olhou na direção da entrada do cômodo e Hyoga seguiu seu olhar.

Nesse instante, um bonito e imenso sorriso despontou dos lábios do viajante:

– Mamãe...! – foi tudo o que conseguiu pronunciar, antes que lágrimas começassem a escorrer pelo seu rosto. O rapaz quis imediatamente sair da cama para correr até a bela mulher, que estava corada e com uma aparência saudável. Porém, Natássia foi mais veloz e caminhou a passos largos na direção do leito, sorrindo amável.

– Não se levante, meu filho. Você ainda está se recuperando! – já ao lado da cama, a boa senhora se curvou sobre o rapaz e deu-lhe um suave beijo na testa.

– Eu estou bem, não se preocupe comigo, mamãe. – Hyoga falava enquanto sentia os carinhos de sua mãe percorrerem seu rosto afavelmente – Mas... e você? Está se sentindo bem? Não é melhor se sentar? – indagou em tom de preocupação, já que estava acostumado a ver a mãe cansar-se rápido devido à doença que a acometia.

– Estou me sentindo ótima, meu filho. – Natássia sorriu abertamente.

– Ela está curada. – Shun anunciou, sorrindo também.

– Curada? Você... você está curada? – novas lágrimas irromperam dos olhos de Hyoga – Mas... mas como...?

– Ikki salvou a minha vida, querido. – Natássia estava agora sentada na beirada da cama, junto a seu filho.

– Muldovar manteve sua mãe como refém por muito tempo, Hyoga. E, assim como fez com meu pai e comigo, ele a esteve envenenando para que permanecesse desacordada durante anos. Dizia que era sua noiva, para conseguir assim a compaixão de minha mãe e a aprovação de meu pai, que teve grande piedade de seu conselheiro, achando que ele sofria por amar uma mulher que estava entre a vida e a morte... No entanto, tudo não passou de teatro. Muldovar manipulou a todos nós, da forma como lhe interessou, durante todo esse tempo...

– Eu sei. – Hyoga baixou o rosto, envergonhado. Mas precisava confessar sua culpa – Sinto muito, alteza. – fez questão de dirigir-se a Shun desse modo, mostrando-se conhecedor de sua posição – Eu sabia dos planos de Muldovar. Digo; não sabia completamente. Eu nunca soube que ele desejava assassiná-lo, ou a seu pai... Porém, reconheço minha culpa. Muldovar me disse que poderia me ajudar a curar minha mãe, que a vida dela dependia de seus conhecimentos e eu já havia tido provas de que ele poderia realmente ajudar. – suspirou – Não vou me alongar, porque reconheço minha culpa e me justificar demais não mudará o que fiz. Só gostaria de deixar claro que jamais conspirei contra a vida do rei, tampouco da sua, meu príncipe. Se soubesse dos verdadeiros planos, teria me voltado contra ele. No entanto, ele havia me dito que buscava apenas encontrar meios de ser nomeado vizir-real e, para isso, precisava da confiança da rainha. A compaixão dela, como disse, ele ganhara ao dizer que minha mãe era sua noiva. – interrompeu-se e apertou a mão de Natássia entre as suas – Perdoe-me, mamãe... eu não tive alternativa. Mas Muldovar jamais tocou na senhora de forma desrespeitosa. Isso eu não permitira. Ele apenas necessitava de sua presença no castelo e, sendo considerada sua noiva, o rei Markash e a rainha Licahla fizeram questão de que recebesse sempre o melhor tratamento. Assim, em troca da palavra do conde de que ele buscaria uma cura para sua doença, eu aceitei ser amaldiçoado e, por isso, assumia a forma de pardal durante o dia. – deixou o ar em seus pulmões abandonarem seu corpo lentamente – Como pardal, eu podia passar despercebido... e minha tarefa era seguir a rainha para saber o que ela pensava, o que gostaria de ver acontecer, porque assim Muldovar podia se adiantar e concretizar algum desejo da rainha, ganhando cada vez mais sua simpatia e confiança. – levantou os olhos brevemente e, envergonhado, logo os desviou – Eu... sinto muito.

Shun pareceu um pouco surpreendido com o que acabava de ouvir de Hyoga. Contudo, logo compreendeu que o viajante tinha sido apenas mais um que fora manipulado pelo cruel conde.

– Não se preocupe tanto. Todos nós fomos enganados por aquele homem. E você possuía motivos justos para agir daquele modo. Afinal, apenas queria salvar a vida de sua mãe...

O loiro olhou uma vez mais para Natássia, que o envolveu em um maternal abraço.

– ...Além disso, tenho bons motivos para crer que não quis fazer mal a mim ou à minha família. Do contrário, não teria salvado minha vida, como uma vez fez.

Hyoga abriu mais os olhos azuis e encarou Shun.

– Desde que o vi na casa do duque Holdar, sabia que você me era familiar. Entretanto, não conseguia me recordar de onde o tinha visto antes. Esse tempo que você passou desacordado no castelo me permitiu observá-lo mais de perto. E consegui me lembrar. Aliás, não foi preciso tanto tempo para que me recordasse. Eu podia ter apenas doze anos naquela época, mas nunca me esqueci do forasteiro que me salvou depois de sofrer aquela queda... – e sorriu amigavelmente.

– Quando você conseguiu se lembrar? – questionou o loiro.

– Depois de mais ou menos uma semana que você estava aqui. – riu de leve – Não me entenda mal; quando eu disse que não foi preciso tanto tempo para reconhecê-lo, falei a verdade. Foi preciso apenas que eu o visse, mais atentamente, mais algumas poucas vezes para que a recordação surgiu vívida em minha memória. O problema é que para eu conseguir vê-lo essas poucas vezes não foi fácil, já que Ikki não saía de seu lado...

Ouvir o nome de Ikki fez Hyoga ouvir mais atentamente a cada palavra do Amamiya caçula.

– Ele quis cuidar pessoalmente da sua melhora. Não que ele descuidasse de mim, de meu pai ou de sua mãe. Ele preparava os remédios que tivemos de tomar ainda por alguns dias, até que pudéssemos estar completamente livres do veneno que ainda permanecia em nossos corpos. Além disso, sempre visitava sua mãe para ministrar os remédios pessoalmente, já que a situação dela era delicada. Mas, depois que ela finalmente despertou, após uns quatro ou cinco dias desde que ele iniciara o tratamento, Ikki passou a apenas preparar seu remédio para que ela ingerisse diariamente, assim como meu pai e eu. Era incrivelmente difícil que ele abandonasse seu posto junto a você. Essa cadeira em que estou agora era ocupada basicamente por ele. – finalizou Shun.

– E... onde ele está agora? – inquiriu Hyoga. Escutar de Shun como Ikki se preocupara em cuidar de si aquecera seu coração, mas, em contrapartida, não podia evitar de sentir uma pequenina tristeza por não ter sido o moreno a primeira imagem que vira tão logo despertara.

– Você demonstrou uma considerável melhora após uma semana desacordado. Pareceu mais estável e somente assim meus pais conseguiram convencer o Bardo Mágico a se afastar um pouco de você, para que pudessem se conhecer melhor. – Shun ainda encontrava dificuldades em encontrar um modo apropriado para se referir a Ikki. Às vezes, chamava-o pelo nome, em outras de Bardo Mágico e, com algum dificuldade, de irmão.

– Então, nessa última semana, ele não esteve aqui? – o rapaz loiro não conseguiu omitir certa chateação em seu tom de voz.

– Claro que esteve, meu querido! – Natássia intercedeu – Ninguém conseguiria afastar Ikki de você por muito tempo. A amizade entre vocês, pelo que pude constatar, continua tão forte quanto na época em que vivemos no celeiro da cabana. – sorriu a boa mulher.

– Sempre que possível, ele vinha para cá. Mas meus pais quiseram que ele conhecesse o reino, e que fosse também conhecido. Ele foi apresentado à corte, aos súditos, como o príncipe herdeiro.

– Como o príncipe herdeiro? Isso quer dizer que...

– Quer dizer que meus pais estão agora se empenhando em preparar esse meu irmão para ser um dia coroado o rei de Onel. – o olhar de Shun pareceu um pouco perdido nesse momento – Faz sentido. Ele é o primogênito; o trono é dele, por direito...

– Rei... de Onel? O Ikki? – de todas as informações até então recebidas, essa havia sido a mais impactante – E ele... o que ele pensa disso? – Hyoga engoliu em seco, tentando tragar essa notícia que não descia pela sua garganta.

– Ele tem aceitado bem. Tudo o que meus pais pedem, ele faz. – Shun limitou-se em responder. Não havia raiva, amargura, despeito ou ironia em sua voz. O príncipe tão somente falava de uma forma mecânica, como se também ele ainda estivesse tentando absorver e assimilar tantas mudanças que vinham ocorrendo.

Hyoga não soube o que dizer diante desse último comentário. Ficou calado, pensativo e pressentindo, em seu coração, que o alívio e a felicidade que há tanto tempo buscava talvez não estivessem tão próximos quanto imaginava.

Shun também se manteve quieto, imerso em seus próprios pensamentos.

Natássia percebeu o estado em que se viam os dois jovens. Juntou isso ao que vinha presenciando, nos últimos dias, e começou a compreender algumas coisas.

Nesse momento, a porta do quarto foi novamente aberta e por ela entrou o general Racom:

– Meu príncipe. – Racom curvou-se diante de Shun – Eu o estive procurando por toda parte. Por que não está onde deveria se encontrar a essa hora? Não era hora de treinar seus reflexos em combates com espada?

– Racom, você parece saber os meus horários melhor que eu mesmo. – riu Shun e o jovem general perdeu a expressão sisuda ao admirar o bonito sorriso do mais novo – De fato; era para eu estar treinando, mas não vi necessidade para isso...

– Como não? Meu príncipe, eu voltei para o castelo apenas para poder treinar com o meu senhor...

– Não deveria estar em uma de suas missões, Racom?

– Sim, meu príncipe. E eu estava. Mas havia seguido com meus homens mais cedo, para poder regressar ao castelo a fim de poder treinar com vossa alteza. Sei muito bem que não gosta muito desse tipo de embate e o senhor já me disse uma vez que, ao treinar comigo, sentia-se mais à vontade.

– Obrigado pela preocupação, Racom. Mas não creio que será mais necessário que me auxilie com essas tarefas.

– Por que não, meu príncipe?

– Meu pai exigia que eu fosse um exímio combatente em todas as formas de luta, para ser um rei forte como ele. Porém, isso não será mais necessário. Meu irmão, a quem durante tanto tempo conhecemos como Bardo Mágico, é forte e incrivelmente habilidoso não apenas com feitiços e encantos. Ele sabe manejar uma espada como poucos. No arco-e-flecha me pareceu impecável. E nos combates corpo-a-corpo é invencível. Ele será o próximo rei de Onel. E está bem mais preparado para isso que eu. Enfim; não preciso mais me esforçar para ser quem não sou. – um certo tom magoado acabou se sobressaindo nessa última frase.

Hyoga, ouvindo aquilo, recordou-se de sua temporada com Ikki. Lembrou-se de como Muldovar fazia com que Ikki treinasse arduamente e pensava em como tudo aquilo agora lhe servia para ser o soberano daquele reino.

– Não pense assim, alteza. – a voz de Racom foi suave e um sorriso gentil se desenhou em seu rosto sempre tão duro e firme – Saiba que é muito mais do que imagina. Falta-lhe apenas enxergar o que muitos já veem...

– Todos sempre viram o mesmo que eu, Racom. Sou fraco e acredito que Onel finalmente estará em boas mãos. Terá um rei forte, como deve ser. Ikki... Sim, ele será melhor para todos. Meus pais, certamente, já perceberam isso.

– Meu príncipe, por favor! Não se diminua! O Bardo Mágico... digo; o seu irmão pode ter algumas das qualidades que se espera de um rei, mas eu duvido que ele seja um rei tão bom quanto eu sei que o meu senhor seria. Ninguém poderia fazer bem maior a Onel que o meu príncipe. Tenho certeza disso.

Shun abriu um sorriso mais luminoso diante dessa afirmação.

– Por isso, meu senhor... Deveria estar lá fora, cuidando de seus afazeres reais, em vez de perder seu precioso tempo aqui.

– Eu não estava perdendo meu tempo aqui, Racom. Estava velando o sono de Hyoga. – respondeu prontamente e tal comentário fez com que a expressão do general se fechasse na mesma hora.

– Por falar no forasteiro, vim aqui a mando da rainha. Encontrei-me com ela, com o rei Markash e com o príncipe herdeiro caminhando pelos jardins reais, enquanto procurava pelo meu príncipe. – Racom olhou friamente para o loiro – O príncipe Ikki queria notícias suas e, embora quisesse ele mesmo vir aqui, minha rainha pediu que eu viesse averiguar seu estado e levar notícias a eles.

– Então teremos excelentes notícias para oferecer! – alegrou-se Natássia – Meu querido, vista-se. Creio que essa seja uma notícia que Ikki preferirá receber diretamente de você.

Hyoga ouviu o que sua mãe disse e, embora seu desejo de ver Ikki fosse maior que todo e qualquer outro sentimento que existisse em si agora, havia certo receio do que sentia que estava por vir.


– Então, meu filho... tudo isso será seu um dia. – de uma parte mais alta dos jardins reais, era possível enxergar além dos muros que cercavam o castelo e ver as terras de Onel estenderem-se até o horizonte, onde o sol começava a se pôr - E, assim como sempre me disse meu pai, seu avô, o grande rei Kirkin, eu lhe digo agora: a grandeza de tudo o que Onel representa será de sua responsabilidade. Você deve aprender a amar cada parte desta bela terra, para poder comprometer-se com ela.

– E eu tenho certeza de que será bem sucedido. – Licahla abraçou o filho. Não conseguia deixar de abraçá-lo; ainda não cabia em si de tanta felicidade. Tinha seu filho de volta e tudo parecia tão perfeito...

Markash também não escondia sua satisfação. Seu filho se mostrava, cada vez mais, como o herdeiro perfeito para ocupar seu lugar. Ikki era forte, saudável, inteligente. Sabia também que, apesar de outrora ele ter sido considerado o inimigo, não era justo considerá-lo assim. Tudo de mal que acontecera a Onel era culpa de Muldovar. Ikki fora uma vítima, como todo o reino. E seu filho tinha um bom coração; Markash tinha certeza. O rapaz salvara sua vida e a de Shun, além de demonstrar uma grande e bonita amizade com o tal forasteiro. Definitivamente, a imagem que tinham antes do antigo Bardo Mágico era muito errada. O rei ainda se sentia algo culpado por tudo o que ocorrera no passado, mas estava determinado a corrigir seus erros agora. E isso era visível pelo modo como tratava Ikki. Todos os membros da Corte estavam ainda se acostumando com o novo Markash que surgia diante de seus olhos. O rei estava mais feliz, mais afável, parecia mais vivo que nunca. Sorria abertamente, como não lhe era comum. E, sempre que possível, falava com orgulho do filho recém-encontrado.

Aliás, cada momento passado ao lado de Ikki enchia-lhe de prazer. Como se buscassem recompensar o tempo perdido, tanto Markash quanto Licahla tentavam passar o máximo de tempo ao lado do rapaz. Levavam-no para conhecer cada pedaço do castelo, depois para conhecer os arredores.

Queriam recuperar o tempo que não tiveram ao lado do filho.

Ikki compreendia. Por isso, permitia que o levassem de um lado para o outro, mesmo quando não sentia tanta vontade de conhecer todos os lugares e curiosidades do reino.

Era verdade que apreciava estar na companhia dos pais. Sentia-se bem e gostava de ver a aprovação nos olhos do rei e da rainha. Fazia muito tempo que não se sentia tão querido e confortado.

A forma como seus pais lhe tratavam fazia com que recordasse de Noir e Arina. Porque, obviamente, Ikki jamais esqueceria aqueles que o criaram como filho e a quem sempre veria como seus pais.

Também já conseguia enxergar Markash e Licahla como seus pais, mas de uma forma diferente. Não sabia explicar exatamente, mas o enorme carinho que tinha por eles era distinto do que sentiu pelos falecidos pais. Não poderia dizer que o sentimento era maior ou menor. Simplesmente, era... diferente.

Estava observando o sol terminar de se pôr no horizonte, enquanto ouvia as palavras de seu pai. Ouvia, mas não escutava de fato. Foi despertar desse estado meditativo quando sentiu a mão forte do rei apertar paternalmente seu ombro:

– Já está anoitecendo. Mas hoje o dia foi ainda mais longo que ontem. Fico feliz em ver que, muito em breve, teremos novamente um dia com doze horas de duração.

– Eu sinto muito. Gostaria de poder acelerar esse processo, mas o máximo que podia, já fiz.

– Não se desculpe, meu filho. – Licahla apressou-se em dizer – Sabemos que fez o melhor que podia. E já está de muito bom tamanho. As plantações começam a dar sinal de que irão se recuperar. Até mesmo porque você se comprometeu a criar alguns encantamentos que ajudarão muitos camponeses.

– Deveras. Não há necessidade de se desculpar. Que o passado fique para trás, meu filho. – Markash complementou – Vivamos o presente. E, no presente, temos muito orgulho de você.

Ikki tentou sorrir, mas conseguiu apenas um meio-sorriso. Voltou a fitar a linha do horizonte, vendo como o sol ia desaparecendo. Lembrou-se de como essa visão sempre lhe trouxera grande alegria a seu coração, pois era quando a imagem de Hyoga podia, finalmente, ser trazida para sua gruta.

– Senhores. – a voz forte de Racom ecoou pelo local, chamando a atenção dos soberanos de Onel, que se voltaram imediatamente para trás. – Encontrei o príncipe Shun.

– Boa noite, mamãe. Papai. – Shun fez um movimento com a cabeça, cumprimentando seus pais. Não se dirigiu a Ikki, mas não por descaso. O caçula ainda encontrava sérias dificuldades em se comunicar com o irmão, não sabendo sequer como falar com ele.

– Boa noite, meu filho! – Licahla foi até Shun e o abraçou carinhosamente. Markash permaneceu onde estava, com os braços cruzados atrás.

– Onde estava, Shun? Não deveria estar treinando com Racom?

– Deveria. Mas perdi a hora. Perdão, papai. – desculpou-se o príncipe, com uma resposta evasiva.

– Ah, que maravilha! Ikki, meu querido. Veja quem vem ali. – disse Licahla, olhando mais além.

O moreno voltou-se lentamente e, quando pôde finalmente enxergar o que sua mãe apontava, sentiu o coração parar. Aliás, o tempo pareceu parar naquele instante.

Vindo mais atrás, estavam Natássia, em um vestido branco com detalhes dourados, e Hyoga, vestido em uma elegante camisa de seda azul e uma calça negra.

O sol estava terminando de se pôr e o tom alaranjado do céu deu ao loiro um tom mais corado, fazendo com que parecesse ainda mais saudável.

Hyoga vinha caminhando devagar, com sua mãe ao seu lado, enlaçando-lhe o braço.

O loiro, por sua vez, não tirava os olhos de Ikki, que vestia uma espécie de farda real azul-marinho.

Os dois rapazes se olharam e sorriram ao mesmo tempo.

Como estavam diferentes...

Pareciam tão distintos do que foram quando viveram aquele feliz período na cabana.

Não era apenas a elegância de suas roupas que denotava essa diferença. Estavam com uma aparência mais madura também. Afinal, cinco anos haviam se passado desde aquela época. E agora finalmente podiam se analisar com mais calma.

Antes mesmo de estarem próximos o bastante, já dialogavam. Seus sorrisos, seus olhares, diziam muito. E, nesse diálogo mudo, seus corações davam vazão a tantos sentimentos que seria realmente impossível colocar tudo aquilo em palavras.

Quando finalmente se viram frente a frente, o sorriso de ambos alargou-se.

E tão entretidos estavam com aquele momento que não foram capazes de perceber que, com a chegada da noite, um corvo negro também descia sobre o jardim real, pousando silenciosamente no galho de uma árvore próxima dali.

Continua...