XXI.

Ele não estava totalmente consciente. Alternava momentos de sono profundo - provavelmente efeito da sedação - com outros, onde gemia, se agitava e fazia o coração de Olivia disparar porque falava o seu nome. Sim, ele chamava por ela. Quando ela segurava sua mão, sentia a pressão de seus dedos.

Astrid se mostrara valiosa. Revezava com Olivia na assistência ao enfermo. Lincoln Lee viera vê-lo, com o coração apertado percebera o desespero silencioso da mulher que amava. Não havia como negar, ela ainda era apaixonada por ele, mas isso também não significava que ficariam juntos. Peter Bishop não era o homem certo para Olivia. Daquela relação só sairia vergonha e sofrimento, a não ser que ele se modificasse. E nisso Lincoln não acreditava.

Walter Bishop contara com a inestimável ajuda de Charlie Francis. As discretas investigações da polícia esbarraram em uma muralha de silêncio. Ninguém queria irritar Big Eddie ou qualquer um de seus comparsas. Mas a dívida estava paga, com a utilização de um intermediário. O pai estava assombrado com a capacidade autodestrutiva do filho.

Nina Sharp viera visitá-lo, mas Olivia trocara um olhar significativo com Walter, que acabara alegando que o estado de Peter ainda não permitia visitas. Na saída, a senhora Sharp falara com rudeza:

-Tome muito cuidado , Walter. Você está agasalhando uma cobra. Essa moça já se comporta como sua nora. Qualquer dia estará mandando em você, dentro de sua própria casa.

Walter foi irônico e sincero ao mesmo tempo:

-Não sonho com outra coisa, cara Nina.

Ela se retirou bastante contrariada. Mas fez uma anotação mental para não dizer aos membros da proeminente sociedade bostoniana a verdadeira natureza da "doença" do jovem Bishop. Nunca se sabe ao certo em que direção o vento acabará soprando.


Alguns dias depois, Olivia apareceu rapidamente em casa. Encontrou a tia saudosa e Rachel de cara emburrada.

-O que houve, Rachel? Aconteceu alguma coisa com você?

A tia ficou olhando de uma para outra, sem saber o que fazer.

-Nada.-Rachel falou com má vontade.

Olivia começou a perder a paciência.

-É melhor falar logo, pois não vou me demorar. Só vim pegar alguns livros e roupas.

-Está se mudando de vez para a mansão?

O sangue subiu ao rosto de Olivia, ela avançou na direção de Rachel. A tia pensou que ela fosse agredi-la fisicamente. Rachel também, pois se encolheu, já arrependida da ousadia. A voz de Olivia era sibilante:

-Deixe de ser tonta. Ele está doente, sente dor o tempo todo. Pense o que quiser, mas não vou abandoná-lo, e nem a Walter que sempre foi bom conosco.

Tia Missy passou o braço pelos ombros de Olivia. Ela abrandou subitamente. Depois começou a soluçar. Rachel ficou envergonhada.

-Desculpe, Livia. Eu sinto muito. De verdade.

Olivia continuava a chorar, abraçada com a tia. Rachel fez carinhos nos cabelos da irmã. Percebeu que ela estava sofrendo muito.


Quando ela retornou, teve a grata surpresa de ver Peter totalmente acordado. Astrid tentava fazê-lo ingerir um pouco de sopa.

-Olivia, ele está fazendo manha. Não quer comer.

Mesmo sentindo dor, ele brincou.

-Pare com isso, Astrid. Não posso rir.

O rosto de Olivia se iluminou. Fez um sinal, Astrid cedeu o lugar a ela. Ela se sentou perto dele e encheu uma colher de caldo.

-Não quero ouvir nenhuma recusa ou vou começar a falar um monte de coisas engraçadas para Astrid. Você não sabe do que eu sou capaz...

Ele abriu a boca, obediente. Astrid se retirou, para deixá-los à vontade.


Na biblioteca, Charlie Francis e Lincoln Lee conversavam com o doutor Bishop. Depois de duas semanas em que os policiais Carter e Blake se alternaram, o namorado de Ellen Parry havia sido localizado. Era conhecido como Nick Morgan. Seus dados estavam sendo levantados. Ellen de nada suspeitava. Quando Astrid chegou, Walter saudou-a, jovialmente:

-Astarte, minha querida, veio se juntar a nós?

Lincoln e Charlie não conseguiram conter o riso. Astrid fingiu que nada havia ocorrido.

-Peter está tomando o caldo.

-Sozinho?-quis saber Walter.

-Não, Olivia o está ajudando.

A alegria no rosto de Lee se foi como que por encanto. Não via a hora de Olivia voltar para a própria casa. Charlie Francis também achava a estada da moça coisa arriscada, principalmente para ela.


Nos dias que se seguiram ele confirmou suas suspeitas. Peter Bishop estava melhorando, e conforme melhorava, mais ficava "derretido" para o lado da moça. Ela tentava disfarçar, mas não era boa na coisa. Qualquer um poderia perceber os olhares compridos que eles mandavam um para o outro. Ela vivia tocando nele, arranjando a fronha, colocando a mão na testa para ver se ele tinha febre. Ficava também muito perturbada quando o médico o deixava sem camisa para examinar as costelas, mas não arredava o pé dali, Charlie tinha também a íntima convicção de que a lentidão com que o rapaz convalescia se devia ao temor que ela fosse embora. Quanto ao doutor Bishop, que apesar de esquisito, raciocinava perfeitamente, parecia não tomar conhecimento da situação. Se as coisas continuassem a evoluir daquele jeito, as complicações não tardariam. Charlie Francis se orgulhava de ser um grande observador da natureza humana. Seu chefe tinha muito pouca chance de casar com aquela garota – que parecia feita de gelo, mas que era justamente o contrário do que aparentava.