Capítulo XXI – Amor
Narrado por Sofia
No momento em que tio Jasper passou pela porta, eu soube que o quarto não estava escuro. Eu tinha percebido uma nota diferente na voz de Seth, algo parecido com angústia, sei lá, mas pensava que a dor na minha cabeça estivesse afetando a minha clareza de raciocínio. Eu tentava manter a calma, mas o medo de nunca mais voltar a enxergar me massacrava. Senti meus olhos se encherem de lágrimas, uma enorme sensação de desorientação tomando conta de mim. Meu coração batia acelerado e dolorido em meu peito. O que estava acontecendo comigo? Por que eu não conseguia me lembrar de nada? Por que ninguém me dizia a verdade?
Busquei coragem de perguntar o que eu precisava saber. Por mais que tio Jasper afirmasse que eu voltaria a enxergar, eu estava morta de medo. Era angustiante não saber se ou quando meus olhos voltariam a ver. Eu queria mais do que nunca ver o rosto de Seth, sentir a segurança que ele me passava através de um simples olhar. Eu sentia a sua mão segurando firmemente a minha, era só o que me mantinha inteira. Eu estava a ponto de desmoronar.
Seth se sentou ao meu lado e me abraçou colando a testa na minha. Aos poucos, o choro intenso foi se acalmando. Minhas mãos subiram para o seu rosto. Meus dedos tocavam cada traço dele, tentando reconhecê-lo de uma forma nova. Ele estava triste. Era fácil perceber através do meu toque.
_ Eu estou com medo! – disse sem perceber.
_ Eu estou aqui! Estou com você! Sempre! – ele respondeu com a voz firme.
Meu coração se aquietou um pouco. A certeza de que ele estaria ao meu lado, me apoiando, me deixou mais segura.
_ Eu sei! E é só isso que me dá forças para lutar, é você que não me deixa desistir!
_ Existe outro motivo muito forte para que você lute! – ele respondeu.
_ Que motivo? – perguntei sentindo o toque da sua mão na minha.
Seth beijou carinhosamente a minha mão e começou a descê-la pelo meu corpo. Senti que ele a guiava, acariciando a minha barriga, sua mão sempre gentil sobre a minha.
_ Nosso filho! – ele disse com a voz embargada, fazendo o meu coração saltar fortemente em meu peito.
O medo que eu sentia, de repente deu lugar a uma felicidade sem tamanho. Senti meus olhos se umedecerem e em instantes meu rosto estava banhado de lágrimas. Eu sorria e chorava ao mesmo tempo sem conseguir controlar as minhas emoções. Minha cabeça ainda latejava insuportavelmente, mas eu já não ligava mais. Aquela notícia valia mais do que qualquer dor que eu poderia sentir. Saber que eu carregava, em meu ventre, o filho do homem que eu amava, o fruto de um amor tão grande e tão intenso, compensava qualquer dor, qualquer cegueira, qualquer coisa.
Seth me abraçava forte, chorando e rindo comigo. Ouvi a porta do quarto se abrindo e a voz preocupada do meu pai se aproximando.
_ Filha? O que foi? Você está com dor? – ele perguntou preocupado, tocando levemente a minha cabeça.
Seth e eu nos afastamos um pouco. Deitei-me novamente, recostando a cabeça no travesseiro, sentindo a mão de Seth na minha. Meu pai pegou minha mão livre, acariciando-a ansiosamente. Eu não conseguia encontrar a minha voz. Apertei a mão de Seth em busca de ajuda, sentindo sua mão me apertando de volta.
_ Está tudo bem, Edward! – ele disse tentando controlar a emoção na voz – Nós só estamos um pouco emocionados!
_ Emocionados? Por quê? – ele perguntou claramente confuso – O que está acontecendo?
Eu sentia os dedos do meu pai acariciando meus cabelos carinhosamente. Senti seus lábios tocarem gentilmente a minha testa em um beijo demorado, como ele costumava fazer quando me colocava para dormir ainda menina. Sorri com essa lembrança. A sensação de estar protegida ainda era a mesma. De repente, me dei conta de que talvez meu pai pudesse não gostar tanto da notícia, afinal eu só tinha 19 anos e, embora estivesse de casamento marcado para dali a dois meses, eu ainda era muito nova.
Uma enorme ansiedade começou a tomar conta de mim. E se meu pai brigasse com Seth? E se ele não aceitasse o meu bebê? Apertei a mão de Seth com força, sentindo as minhas mãos suadas e trêmulas.
_ O que foi, princesa? – ele perguntou preocupado – Está sentindo alguma coisa?
Senti meu corpo ser novamente abraçado, mas não era Seth. Meu pai me embalava, tentando me acalmar.
_ Pai? – o chamei insegura – Eu preciso contar uma coisa para o senhor!
_ Pode falar, filha! – ele disse calmamente ainda abraçado a mim, uma de suas mãos acariciava o topo da minha cabeça.
Soltei-me da mão de Seth e abracei fortemente o corpo do meu pai. Ele apertou ainda mais os braços em volta de mim, tentando me passar segurança.
_ Eu ... – parei brevemente para tomar fôlego e coragem – Eu estou grávida!
Fechei os olhos com força esperando a sua reação, mas ela não veio. Meu pai estava imóvel, ainda abraçado a mim. Ele não dizia nada, eu sequer conseguia ouvir a sua respiração e aquilo tudo começou a me deixar angustiada. Eu sentia que o tinha decepcionado e sabia que ele estava tentando controlar as emoções para não piorar o meu estado.
_ Pai? – o chamei com a voz trêmula – Fala alguma coisa?
Meu pai permanecia em silêncio abraçado a mim. Tentei afastar a cabeça do seu peito. Eu queria tocar o seu rosto, tentar sentir em suas feições o que ele estava sentindo, mas ele me apertou ainda mais quando percebeu a minha intenção. Eu estava assustada, apavorada para ser mais sincera. Não poder ver o rosto do meu pai me deixava insegura. A dúvida era insuportável.
_ Eu decepcionei o senhor, não foi? – perguntei começando a chorar novamente.
Meu pai ficou mais algum tempo em silêncio. Uma tristeza enorme começava a tomar conta de mim quando ele finalmente falou:
_ Eu fiquei surpreso, filha! É só isso! – ele disse com a voz embargada – E a resposta é não! Você não me decepcionou! Você nunca poderia me decepcionar, Sofia!
Meu choro se intensificou ainda mais com o alívio que senti. A última coisa que eu queria que acontecesse era que meus pais se decepcionassem comigo.
_ Oh, minha bonequinha, não chore! Isso pode fazer mal ao meu netinho! – ele brincou acariciando a minha barriga.
_ Ou netinha! – sorri entre lágrimas tocando a mão de meu pai sobre o bebê – Jura que o senhor não está decepcionado comigo, pai? – insisti ainda insegura.
Meu pai me soltou, me deitando novamente na cama e se afastou. Senti o toque gentil de uma mão em meu ventre e logo depois seus lábios o beijaram com carinho.
_ Seja benvindo, amorzinho! – ele disse para o bebê – Fique bem quietinho aí dentro dessa mamãe linda porque ela precisa descansar, está bem? Aproveite bastante enquanto você está aí dentro, quentinho e protegido. Por que na hora em que você estiver aqui fora, você vai ter que agüentar esse vovô babão aqui!
Meu pai beijou mais uma vez o meu ventre e, logo depois, a minha testa, sem deixar de acariciar o bebê. Ele aproximou o seu rosto do meu e sussurrou em meu ouvido:
_ Eu amo você, filha! E me orgulho muito da mulher forte e madura que você se tornou. Eu sei que você vai ser uma ótima mãe para o seu bebê e tenha a certeza de que ele já é muito amado.
_ Obrigada, pai! – eu disse emocionada novamente – Eu também te amo muito. O senhor não imagina como foi importante ouvir isso do senhor. É muito importante saber que eu posso contar com o seu apoio e com o seu amor.
_ Sempre, bonequinha! Incondicionalmente! - meu pai voltou a me abraçar forte. Estar ali era uma das melhores sensações do mundo – Agora, descanse um pouco! Você já teve muitas emoções para um dia só. Tente dormir para recuperar as forças. Eu quero vê-la fora daqui o mais rapidamente possível, está bem?
Apenas assenti sorrindo, meus olhos se fechando pesadamente, talvez por força dos medicamentos. Senti uma mão carinhosa de Seth pousar sobre o meu ventre enquanto a outra acariciava os meus cabelos. Seu perfume invadiu as minhas narinas e, mesmo envolvida por uma leve nuvem de sono, eu sabia que ele se aproximava de mim. Meus lábios foram delicadamente beijados por lábios macios e quentes.
_ Descansem, meus tesouros! Eu vou ficar aqui, cuidando de vocês! – a voz suave de Seth sussurrou em meus ouvidos pouco antes de eu adormecer.
Narrado por Edward
Grávida. Minha filhinha estava grávida. Aquela notícia me paralisou por alguns instantes, mas senti-la trêmula e insegura em meus braços me trouxe de volta à realidade. Sofia chorava em meus braços achando que tinha me decepcionado. Eu não esperava por isso, não agora, era verdade. Mas deixá-la pensar que tinha me decepcionado por estar grávida era algo impensável. Depois de todo o medo que sentimos de perdê-la, como eu poderia ficar bravo com ela por causa de uma gravidez inesperada? Diante do risco que ela tinha corrido, eu sequer tinha o direito de repreendê-la por engravidar tão jovem. Diante da gravidade da situação, aquela criança era um golpe de sorte, uma benção para todos nós. Ao invés de perdê-la, tínhamos ganhado mais uma vida. Então, que direito tinha eu de reclamar? Na verdade, eu tinha era a obrigação de agradecer. Agradecer a Deus por Mel estar a salvo, por minha filha estar viva, agradecer aos céus pela vida inocente que crescia dentro dela e pela felicidade que eu vi em seus olhos por saber que gerava o filho do homem que ela ama.
Eu andava pelos corredores do hospital em direção ao consultório de Bella, louco para ver a sua reação ao saber da gravidez da nossa filha. Ela andava tão angustiada com a situação de Sofia que eu tinha certeza de que a notícia iria deixá-la feliz. Por mais que o momento não fosse o ideal, um filho seria sempre uma boa notícia.
Um filme passava na minha cabeça. Lembrei-me da alegria que senti todas as vezes que Bella engravidou, do medo de que algo fora do meu controle pudesse acontecer, da ansiedade deliciosa que me dominava para que o tempo passasse logo e eu pudesse pegar cada um dos meus filhos nos braços, mas, ao mesmo tempo, pedindo para que o tempo parasse para que eu pudesse desfrutar de cada segundo da gestação, ver a barriga de Bella crescer dia após dia, sentir cada chute e cada movimento que os meus filhos faziam lá dentro toda vez que eu a tocava ou falava com ela. Lembrei-me da emoção de ouvir o choro forte de cada um no momento do nascimento, de cortar o cordão umbilical que os ligava ao corpo da mãe, de chorar ao vê-los mamando com vontade o leite materno...
Abri a porta do consultório cuidadosamente. Bella estava sentada em sua mesa lendo a ficha de um paciente, mas ergueu os olhos em minha direção e abriu aquele sorriso que me tirava o fôlego, mesmo depois de quase 20 anos de casados. Será que a reação que ela provocava em mim com um simples olhar nunca iria mudar? Coração acelerado, quase saltando do peito. Boca seca, mãos suadas como as de um adolescente diante da primeira namoradinha. O corpo todo trêmulo e arrepiado só em sentir o perfume da sua pele. Ela se levantou em veio em minha direção de braços abertos como sempre fez dia após dia nesses anos todos. Ali era o meu lugar ... ali era o meu cantinho feliz ... nos braços da minha mulher.
Perdi a noção do tempo enquanto sentia o corpo de Bella envolvido em meus braços. Beijei demoradamente seus lábios antes de contar a novidade. Seus olhos se iluminaram ao saber da gravidez da nossa filha e ela chorou ... de felicidade. Passamos no quarto de Sofia antes de voltarmos para casa. Bella ficou o tempo todo abraçada a nossa filha. Seth, mais uma vez, passaria a noite com ela. A dedicação e o carinho que ele dispensava a Sofia eram emocionantes. Foi lindo ver o brilho nos olhos dos dois entregando a alegria de serem pais. Eu sabia que eles fariam um bom trabalho. Seth era um rapaz responsável e maduro e, Sofia, embora fosse ainda muito jovem, tinha uma cabeça excepcional, o que me fazia sentir um imenso orgulho como pai.
Em casa, contamos a novidade para toda a família que reagiu com empolgação. Todos, menos Brian, que estava na casa de Mel. Eu falaria com ele mais tarde. Jantamos em clima de festa. Era só uma questão de tempo até que a família estivesse novamente completa, quando Sofia voltasse para casa. Algumas adaptações seriam providenciadas a partir do dia seguinte, para garantir a sua segurança dentro de casa. Teríamos que remover temporariamente móveis e objetos decorativos das áreas de tráfego da casa para que Sofia não corresse o risco de tropeçar e cair ao se locomover. Embora soubesse das dificuldades que enfrentaríamos no início, eu tinha certeza de que, no final, tudo daria certo.
Mais tarde, naquela noite, Bella ressonava tranquila em meus braços depois de fazermos amor. Eu olhava o seu rosto delicado, admirando as feições suaves, a pele macia e branquinha, os lábios rosados e convidativos, os cabelos sedosos e cheirosos, recordando cada momento da nossa vida juntos. Eu tinha em meus braços uma esposa perfeita ... uma mãe maravilhosa ... uma mulher extraordinária. Alguém tão frágil quanto um fino cristal, mas ao mesmo tempo, forte o bastante para enfrentar as dificuldades da vida com uma coragem e com uma determinação admiráveis. Minha Bella ... minha esposa ... minha vida. Eu não seria nada se não a tivesse ao meu lado. Não teria vida ... não teria amor ... não teria fé em mim mesmo. Aquela pequena grande mulher, que tinha surgido na minha vida havia 20 anos de uma forma tão inesperada e surpreendente, fazia cada batida do meu coração valer à pena. Eu nunca mais soube o que era tristeza depois que a conheci. Bella me salvou de todas as formas que uma pessoa pode ser salva. Ela me salvou da solidão ... me salvou da tristeza ... me salvou de mim mesmo.
Não sei quanto tempo permaneci admirando o seu rosto antes de sentir o sono chegar. Puxei ainda mais o corpo de Bella de encontro ao meu, prendendo-a em meus braços. Beijei demoradamente seus lábios enquanto minhas mãos acariciavam suas costas e seus cabelos. Sorri fechando os meus olhos ao senti-la me abraçar mais apertado enroscando ainda mais suas pernas nas minhas. Aos poucos, meu corpo começou a relaxar enquanto o perfume da pele de Bella invadia as minhas narinas, me acalmando ... me anestesiando.
_ Eu te amo! – a voz delicada de Bella penetrou a nuvem suave de sonhos que me envolvia.
_ Eu te amo mais! – sussurrei de volta, me entregando de vez ao inconsciente.
