XX – Surpresa

A Noite caía sobre os campos de treinamento que cercava a mansão onde eles se abrigavam. Todos, Rosas e Resistência, unidos num só exército. Havia algo de nostálgico naquilo. Todos aqueles homens e mulheres unidos por um propósito maior... A Guerra.

Ninguém permanecia dentro do castelo. Escondidos pelas sombras da noite, todos os ditos guerreiros se abrigavam em sacos de dormir do lado de fora. Ninguém procurava abrigo entre paredes. Todos lembravam-se do que acontecera antes, quando tinham usado paredes como proteção. Ela ruíra sobre suas cabeças, ferindo seus homens. Um único ataque e Naraku conseguira abalar a confiança de todos. Não seria assim novamente.

-Ele vai mesmo ficar aqui? –perguntou Inuyasha, um tanto desconfiado.

-Vai, sim. Mas não se preocupe, Kouga é confiável.

Kagome suspirou. Era a décima quinta vez que o hanyou tentava convence-la a prender Kouga novamente. A idéia não era de todo desagradável, mas ela não via reais motivos para fazer o que o namorado dizia.

-Ei, Cachorro fedido, não precisa se sentir ameaçado. Não vou fazer nada que sua namorada não queira. –ele piscou para Kagome, arrancando um rosnado de Inuyasha.

-Posso socá-lo um pouco, Kagome? Só pra me acalmar? –perguntou InuYasha, abraçando-a possessivamente.

-Só quando vencermos a guerra. –disse ela, sorrindo. –Não provoque meu namorado, Kouga. Ele é muito cabeça-dura.

Sango riu da pequena cena que se desenrolou a partir dali. Estavam Kagome, InuYasha e Kouga argumentando, discutindo e fazendo graça, respectivamente, sob os olhares curiosos e divertidos dela e Miroku, além de Mey, Nakawa, Kikyou e Sesshoumaru.

Havia algo estranho entre o youkai e a sacerdotisa. Kikyou e Sesshoumaru não se encaravam ou prestavam atenção às conversas ao redor, apenas discutiam calmamente olhando a lua. Pareciam se entender, de alguma maneira estranha e respeitável. Eram como dois seres incompreendidos com almas guerreiras que se encontravam, entrelaçavam-se e por fim se uniam, para ficarem juntas pela eternidade.

Era confuso tentar entender como eles se compreendiam.

-Seu pai uniu o clã inteiro a Naraku, para não receber um castigo pela sua fuga. –disse Sesshoumaru, examinando a lua. Ao seu lado, ele sentiu Kikyou estremecer.

-Há muitas vidas em jogo nessa guerra... Ela deve terminar.

-Há alguma maneira? –ele sabia que havia. Ela não diria aquilo se não houvesse.

-Ele quer Shikon no Tama. –disse ela, procurando na mão fria do youkai um apoio que não esperaria de um abraço de qualquer outra pessoa. – Eu o tenho.

-Entregar a jóia que todos dizem ser capaz de realizar qualquer desejo... Para um homem que deseja tudo? Seria um grande erro. Morreriam mais pessoas do que se lutássemos até o fim. Só me pergunto uma coisa...

O que? –Kikyou virou-se para ele, examinando o rosto sereno e os olhos calculistas. Era simplesmente indescritível, de uma maneira bela e perigosa.

-Como você tem a cara de pau de deixar a jóia à vista de qualquer um, desse jeito?

Ela olhou a mochila com a qual fugira, alisando com os dedos macios a superfície rosada de seu chaveiro. Uma pérola rosada, brilhante e fria. Shikon no Tama.

-Às vezes é mais seguro do que escondê-la. O youkai que me atacou na vinda para cá nem percebeu.

-Era um idiota. Fico esperando o momento em que alguma criança vai engolir isso pensando que é um doce, para ver o que você vai fazer. –disse ele, com um sorriso sarcástico.

-Provavelmente ficar muito feliz porque no final das contas ela vai para um lugar onde poucos procurariam... –riu ela.

-E dizem que eu sou sarcástico. –zombou ele.

-E dizem que eu sou sádica. –rebateu ela.

Os dois silenciaram, felizes na falta de barulho. Todos ao redor começavam a engatinhar para suas barracas, as fogueiras ainda acesas.

Enquanto as duplas, casais ou amigos, se encolhiam dentro das tendas, um vulto se esgueirava pelas moitas e árvores ao redor do acampamento.

***

Felicidade... Amor... Compreensão... Perdão...

Sentimentos louváveis começavam a brotar no coração daqueles que dormiam. Escondido na folhagem e na escuridão, o youkai enviado por Naraku se contorcia de raiva. A maldade pulsante dentro dele seria capaz de apagar toda aquela beleza em um único golpe. A forma humana que ele tomara era bela, impetuosa e masculina. Por dentro, apenas um amontoado de ódio.

Mas quem seria sua vítima?

Ataque a jugular, dissera-lhe Naraku. Acabe com eles, destroce o grupo, cause revolta... E era isso que ele ia fazer.

A ruiva. Cabelos flamejantes... brilhantes! Olhos cheios de fogo, de raiva reprimida e controlada, de coragem... Era uma líder escondida sob a sombra da guerreira chamada de Kagome. Ela poderia ser grande, mas preferia ficar no campo, derramando sangue. Era aquilo o que ele queria. Uma batalha sangrenta, cheia de dor... e raiva.

Mey sentiu a presença maligna antes mesmo de vê-la. O youkai saiu das sombras e encarou-a com olhos incrivelmente parecidos com os seus, de um verde musgo escuro e cheio de segredos. Os cabelos negros cumpridos estavam amarrados e jogados para trás das costas. Ele trazia uma espada na cintura, e aquilo a deixou contente. Gostava de lutar com espadas. E era boa naquilo.

-Você não vai gritar por socorro, vai? –perguntou ele, com miasma negro saindo de seus pés e envolvendo-os numa cúpula densa e impenetrável. –É inútil.

-Não vou gritar. –disse ela. –Mas garanto que, antes de essa luta terminar, você vai. Vai gritar de dor, e lamentar o instante em que veio até aqui tentar ferir aqueles que eu amo. E vai sair daqui rastejando. Se sair.

Ambos sorriram. O youkai de felicidade pela luta e pelo sangue que viriam. Mey pela chance de poder descontar em alguém que merecesse a sua raiva.

O primeiro choque de espadas acordou o acampamento inteiro.

***

-Mey! –mesmo adormecidos, todos ali tinham conseguido sentir o choque de forças. Bem e mal. Raiva e crueldade. Paixão e insanidade. Nakawa se jogou contra a barreira de miasma, e uma ferida se abriu sob sua pele. As palmas das mãos ficaram em carne viva, mas ele socou novamente a parede negra que o impedia de ver a garota que amava. Somente a energia deles era sentida, e era imensa, assustadora. Nunca antes um membro da Rosa usara todo o seu poder numa batalha. Nunca fora necessário, ou quando fora, não houvera tempo.

-Nakawa, se afaste! –era a voz de Kagome. –Temos que quebrar a barreira para poder ajudá-la.

Ele parou por um instante, apenas o bastante para ver todas as rosas saírem de suas barracas e colocarem-se em linha. Apontaram seus arcos para a cúpula negra, e esperaram a ordem que não veio.

-O que você está esperando? –gritou Nakawa, vendo que Kagome encarava passivamente o véu negro que cobria a batalha de Mey. –Ela pode estar...

Ele sentiu a energia maligna fraquejar, e logo depois voltar a aumentar. Sentiu a energia de Mey se chocar novamente com a escuridão, e apagar-se em meio à densidade do miasma. Sentiu-a voltar à batalha novamente. E percebeu.

-Ele quer que ataquemos. Ele quer que tentemos salvá-la, está brincando com ela lá dentro. Por quê?

-Por que ele pode. –disse Kagome. –Ele está no controle. Acha que pode matá-la quando quiser, e isso o coloca em vantagem. Se atacarmos a barreira e a quebrarmos, nossa energia acabará atingindo Mey junto com ele, por causa da raiva e do ódio que ele a está fazendo sentir. E ele sabe que por esse motivo não atacaremos.

-Droga... –Nakawa caiu de joelhos diante da parede de miasma. Mey estava sozinha. Teria que confiar nela.

***

-Tanto sangue... –sussurrou o youkai, numa voz musical.

Sangue demais.

Mey analisou o corte no ombro com cuidado. Estava estupidamente fraca, perdendo sangue demais e com muita raiva.

Lutar era o que ela fazia, e não fazê-lo bem o suficiente era algo insuportável para seu orgulho. Sentir as mãos pegajosas pelo sangue dela mesma, enquanto via seu adversário sorrindo insanamente era humilhante. Quase tão humilhante quando a morte.

Quase.

Ela forçou-se a se levantar, e agarrou a espada com firmeza, recusando-se a morrer pelas mãos daquele youkai. Morreria em campo, lutando pelos ideais das Rosas. Morreria tendo matado muitos dos youkais de Naraku. E morreria tendo visto pela última vez a face de Nakawa.

A raiva borbulhou.

-Parece que a luta vai recomeçar... –sussurrou alegremente o youkai.

Uma amazona. Foi a definição que veio à mente dele enquanto Mey ia ao seu encontro, a espada erguida em um tom dourado que representava sua energia. Um espírito forte, firme como uma rocha. Uma adversária valiosa. Que morreria por suas mãos.

O choque de espadas foi mais forte daquela vez. De fora da cúpula, as Rosas assistiram um clarão mostrar as silhuetas daqueles dentro do miasma. Uma guerreira de cabelos revoltos e um youkai enlouquecido travavam uma batalha de vida e morte.

-Uma amazona. –disse ele. –É no que penso, vendo você lutar.

-Acho que sou educada demais pra dizer o que vejo quando olho você. –disse ela, desviando-se de um golpe que teria cortado sua cabeça fora.

Ele sorriu.

Mey viu o clarão formado pelo contato entre suas espadas, e viu os vultos do lado de fora da cúpula. Sorriu também. Não estava mais sozinha. Ela viu Nakawa, mesmo que apenas uma sombra, e sentiu a preocupação e o amor que ele emanava, mesmo de longe. Não morreria ali, não daquela vez.

Ele sentiu a mudança. Os golpes ficaram mais fortes, mais impiedosos, mais intensos. Os movimentos dela pareciam uma dança que ele não mais podia acompanhar, uma dança tão mortal quando uma guilhotina posta diretamente sob sua cabeça, ameaçando seu pescoço. O youkai se desviou de um golpe que o teria perfurado na altura do peito, e acabou tropeçando. Ao ver a lâmina descer ao seu encontro, ele levantou a espada e impediu o golpe, mas o deslize de metal contra metal levou a arma dela até o punho dele. Ao sentir o cheiro do próprio sangue, ele sentiu medo.

"Vai gritar de dor, e lamentar o instante em que veio até aqui tentar ferir aqueles que eu amo. E vai sair daqui rastejando. Se sair."

As palavras de Mey ecoavam nos ouvidos e por dentro da cabeça insana do youkai. Ele temeu a guerreira, aquela que ele chamava de amazona. Ela sentiu aquele medo, sentiu-o enfraquecer, e aquilo deu-lhe mais força, mais habilidade. Esqueceu-se da dor dos cortes, da raiva e de tudo o mais. Só o que existia naquele momento era a luta, a batalha entre ela e aquele ser que emanava medo e maldade.

Quando a raiva se foi, ela soube que era hora de se afastar. O youkai sorriu, vendo-a cair de joelhos e olhá-lo fixamente. Teria ganhado por tê-la cansado?

-Por que sorri, seu idiota? –perguntou ela. –Acabou.

-Você está de joelhos, e eu estou de pé. –disse ele, levantando-se. –Isso vai acabar, mas não será para o bem.

-Não será para o bem, nisso você está certo. –disse ela, fraca. Os vultos do lado de fora pareciam emanar poder. –Quando é para o bem, não há mortes...

Ele sorriu ao ouvir aquelas palavras. E morreu com aquele sorriso nos lábios. O sangue escorreu em filete pelo canto dos lábios poéticos do youkai que Naraku mandara para revoltar as Rosas. Quando o manto negro se desfez, Mey viu cada um de seus companheiros empunhando um arco brilhante, formado de energia. Cada um com sua arma, suas flechas formavam um arco-íris atravessando o peito do youkai, enquanto uma solitária flecha vermelha se fazia ver, perfurando o crânio.

Mey viu Nakawa, sorriu e se levantou para cair novamente, daquela vez em segurança nos braços dele.

-Você conseguiu. –disse ele. –Conseguiu...

-Eu sei... E você podia ter sido menos metido... Acertando o peito dele como todos os outros. –disse ela.

-Não seria tão satisfatório. –disse ele, mortalmente sério.

Eles começaram a se encaminhar, lentamente, para as barracas. Kagome chegou a sorrir olhando o casal. Foi quando sentiu.

-MEY!

Seu grito se perdeu em meio à confusão que se seguiu. Ao mesmo tempo, todas as Rosas se moveram e formaram o mesmo círculo que haviam feito em seu primeiro confronto contra Naraku, com defesas externas e internas. No centro, Nakawa segurava o corpo inerte de Mey. Uma lâmina curvada estava fincada no peito da garota, manchando suas vestes e tingindo-as a ponto de se confundirem com os cabelos.

-Oh... Eu errei. –Uma youkai de olhos amarelados sorria docemente. –Era para ter tirado a cabeça dela fora...

Quando todos os arcos se viraram para ela, o sorriso se desfez.

-Certo, vamos ao recado então. Naraku quer a Jóia, e quer também Kikyou e Kagome. –disse ela. –Entreguem tudo, ou morram como essa aí.

As flechas que foram atiradas se perderam no vazio deixado pelo miasma em que a youkai se desfez.

Kagome se virou, desesperada, para Mey. Não havia dúvidas, ela estava morta. Os cabelos desalinhados se fundiam ao sangue que já tinha parado de escorrer. Ela viu Nakawa levantar-se com o corpo inerte nos braços, e fez sinal para que todos o deixassem passar.

Quando ele sumiu de vista, InuYasha a abraçou.

-Eu senti. Eu senti a energia, mas não consegui me mover rápido o bastante... –sussurrou ela.

-Eu sei. –disse ele, afagando a cabeça dela com carinho. –Eu entendo.

***

Longe dali, Nakawa ajoelhou-se inda com o corpo de Mey no colo. Uma lágrima solitária escorreu de seus olhos para cair entre os lábios dela, manchando-se com o sangue que sujava o rosto alvo.

Um sentimento de impotência o tomou, e ele sentiu como se o peito fosse explodir de raiva. Um ódio profundo começou a tomar-lhe o coração. Pela youkai que matara a garota em seus braços, por Naraku, o mandante daquele assassinato covarde.

Ele se levantou, deixando o corpo na grama. Fechou os olhos verdes opacos de Mey, e deu-lhe um único beijo, no qual sentiu apenas o gosto de sua própria lágrima. Cobriu-a com a capa que todas as Rosas vestiam e se encaminhou de volta ao acampamento. Não a enterraria ainda. Daria a ela um enterro digno, com as honras de uma guerreira. E, se Kagome concordasse com ele, aquelas honras seriam concedidas antes da próxima noite.

Quando ele entrou no campo de vista da líder das Rosas novamente, ele sentiu a concordância dela ao olhá-la nos olhos.

Virando-se para o grupo abalado pela perda de uma amiga, ela estendeu a mão aberta e impressionou a todos, inclusive a si mesma, formando um arco negro reluzente que quase tocava o chão na extremidade de baixo. O controle do poder deu a ela a confiança que precisava para proferir a frase que ecoava em todas as mentes dali.

-Vamos atacar. Essa guerra acaba hoje.