Insegurança

Alguns meses depois

Rony

Respirei fundo, olhando através do vidro do meu quarto minha mãe colher algumas frutas no jardim. Minha cabeça estava um caos, e eu desconfiava de que a qualquer momento ela iria explodir.

Eu não era o bruxo mais forte e determinado de todos, isso já estava mais que claro para mim. Gostaria muito de ter a força que Harry tinha para enfrentar os inúmeros problemas que iam surgindo em sua vida, cada vez em números maiores e mais complicados. Gostaria de ter a inteligência de Hermione para ajudar a todos, usando sempre a lógica e nos livrando de enrascadas absurdas. Gostaria de ter até mesmo o humor dos meus irmãos, para alegrar a casa nos momentos mais difíceis.

Mas eu não tinha.

Já havia me conformado com isso. Eu podia oferecer apenas minha lealdade e coragem para todos, e eu estava tentando a todo custo fazer as pessoas enxergarem isso.

Depois da morte de Dumbledore, o mundo bruxo havia ficado despedaçado, os alunos de Hogwarts pareciam órfãos e Você-Sabe-Quem parecia ser dez vezes mais poderoso e assustador do que qualquer momento da guerra.

As imagens do funeral do diretor ainda rodavam na minha mente. Todos os bruxos fluentes do mundo estavam presentes, alguns estavam realmente tristes com a perda, outros estavam no funeral apenas por motivos políticos ou por obrigação. Tentei retirar esses últimos pensamentos da minha cabeça para não ficar novamente com raiva de todos. Eu precisava crer que ainda existiam bruxos bons, e que estávamos lutando por eles.

O sol estava se pondo no horizonte, deixando o céu em um tom alaranjado. Minha mãe já havia entrado n'A Toca, e eu sabia que daqui a pouco chamaria todos para jantar. Minha casa estava cheia, como sempre.

Respirei fundo novamente e repassei mentalmente todo o cuidado que tivemos para que Harry chegasse vivo até aqui. Infelizmente havíamos perdido Moody, e Fred havia sido mutilado por um feitiço. Mas todos da minha família estavam vivos, assim como Harry. Isso que importava.

Meus pensamentos foram para Hermione. Modificar as lembranças dos pais fora o ato mais corajoso e bem pensado que a garota havia tomado. Infelizmente eu podia sentir sua dor quando ela via minha família reunida para comer. Não conseguia imaginar minha família viva, mas sem a consciência de que eu existia.

Fechei os olhos, tentando conter a sensação que me perseguia há meses, a sensação de desânimo, de desesperança. Olhei para o objeto que estava na minha mão há horas, girando-o.

O quarto já estava mais escuro. Eu abri o Desiluminador de Dumbledore e uma luz saiu dele, iluminando parte do cômodo. Não entendia o motivo de o diretor ter me dado o objeto pessoal e peculiar, mas o guardei no bolso, como se temesse que alguém o pegasse. Por mais que eu não achasse uma resposta, ter algo de Dumbledore me deixava mais tranquilo.

Como já não bastasse minhas preocupações com a guerra e com a jornada que iríamos enfrentar em breve, eu ainda não conseguia tirar a última imagem de Pansy Parkinson da minha mente. Triste, sem rumo, petrificada...

Engoli em seco ao me lembrar da última vez que conversamos e da pressão que eu tinha feito na garota. Ela estava certa. Quem era eu para usar o nome de sua avó com o intuito de pressioná-la a tomar uma decisão? Eu não deveria ter dito aquilo para Pansy, e minha consciência agora estava pesada.

Coloquei a mão no rosto, tentando afastar a enxurrada de pensamentos e preocupações que inundavam minha mente. Já estava quase de noite. Consegui escutar a voz da minha mãe nos chamando para o jantar e sorri. Ela era pontual demais quando o assunto era comida. Eu adorava as refeições enormes e fartas que fazíamos, sempre com risadas e momentos raros de descontração.

Era uma pena que isso tudo iria acabar em breve.

[...]

- Rony!

A voz da minha mãe chegou repreensiva aos meus ouvidos e eu coloquei novamente o doce dentro do prato, olhando-a com indignação. Era proibido comer agora?

- Os doces são para o casamento do seu irmão.

- Foi apenas um!

Ela ergueu uma sobrancelha em descrença, e no momento que colocou as duas mãos na cintura, eu percebi que era hora de sair da cozinha. Às vezes discutir com minha mãe era perda de tempo. Eu não conseguia entender o motivo de ter feito tantos doces para um casamento que seria daqui a dois dias.

Entrei na sala aconchegante e me surpreendi que apenas Harry e Mione estivessem sentados no sofá. Os dois olhavam para áreas diferentes da sala e pareciam imersos em pensamentos a ponto de não se darem conta da minha presença. Sentei-me em uma poltrona de frente para o sofá onde Harry estava e fitei meu amigo com atenção.

Ele estava com a testa vincada, o Pomo-de-Ouro flutuava do lado da sua orelha esquerda, como se fosse um pequeno passarinho de estimação. Me peguei perguntando se valeria a pena deixar para trás o que poderia ser meus últimos dias com minha família inteiramente viva e ir com ele em busca das Horcruxes.

E eu tinha certeza de que valia a pena. Harry precisava de mim.

Depois de alguns minutos o fitando e fazendo perguntas a mim mesmo, corri meus olhos pelo ambiente e depois os foquei em um ponto do chão da sala. Passou bastante tempo. Hermione foi a primeira a falar.

- Por que está tão pensativo?

Saí de meus pensamentos e olhei para Hermione e Harry. A sala estava começando a ficar escura. Não queria compartilhar meus pensamentos com os dois. Não por egoísmo, mas por achar que minha preocupação era tola e sem sentido.

Todos estavam pensando na guerra. O único assunto avulso a isso era o casamento de Bill e Fleur, e mesmo assim não era o suficiente para deixar todos totalmente calmos por apenas alguns minutos.

- Não é nada importante.

Respondi, dando de ombros e tentando por meio desse gesto enganar Hermione da minha inquietação. Mas ela permanecia com os olhos castanhos focados em mim, iguais aos olhos verdes de Harry.

- Nada do que te deixa assim é sem importância.

Harry falou, eu me virei para ele surpreso. Harry era a pessoa mais solidária que eu conhecia. Poderia ser o único garoto que ainda conseguia se preocupar com todos à sua volta, mesmo passando pelos piores pesadelos.

Remexi-me inquieto na cadeira, mas não respondi.

- É ela, não é?

A voz de Hermione chegou aos meus ouvidos e eu não consegui me conter mais. Apenas acenei levemente com a cabeça e no mesmo momento me achei idiota.

- O que houve?

Ela perguntou e eu a olhei com cautela. Eu gostaria muito de responder que não estava acontecendo nada, e que Pansy Parkinson estava ótima, mas infelizmente eu estaria mentindo.

- Estou preocupado com Pansy... – fitei os dois, tentando analisar sem sucesso suas fisionomias, eles pareciam calmos e bastante determinados a me escutar. – A última vez que eu conversei com ela, nós discutimos. Eu a pressionei...

- De que forma?

Hermione perguntou-me em um tom de voz estranho, como se temesse que eu tivesse sido rude com a garota como costumava ser com todos. Ela se calou, percebendo a interrupção.

- Perguntei a Pansy se ela havia tomado um lado na guerra... sua família está dividida e ela está sentindo a pressão da decisão...

- E você a pressionou mais ainda.

Merda, eu realmente gostaria muito de matar Hermione no momento. Eu já havia aprendido a lição, não precisava de um balde de água fria para me deixar pior. Não respondi, apenas aconcheguei-me melhor na poltrona e acenei com a varinha, acendendo a lareira da sala e fazendo com que o cômodo ficasse precariamente mais claro.

- Tenho certeza de que Parkinson tomará a decisão certa, Rony.

Hermione me surpreendeu com sua conclusão. Ela cruzou as pernas no sofá e tombou a cabeça no encosto, suspirando. Harry a fitava com carinho, mas eu conseguia enxergar a preocupação por trás dos óculos redondos.

Eu queria acreditar em Hermione, mas eu realmente não sabia se Pansy tinha a capacidade de tomar uma decisão correta. Afinal, sua família sempre pendia para o lado de Você-Sabe-Quem, e se ela quisesse tomar a decisão mais fácil, não teria que fazer esforço.

De repente a sala começou a me sufocar e eu me levantei, saindo do cômodo e caminhando em direção a cozinha. Enchi um copo de água gelada e tomei alguns longos goles, tentando ficar mais calmo e pensar melhor.

Quando senti meu corpo relaxar e o ambiente começar a ficar tranquilo, deixei o copo na mesma e andei pelo corredor. Ao passar pela porta da sala, virei-me um pouco e fitei Hermione deitada no ombro de Harry. Ela estava com lágrimas nos olhos e ele passava as mãos nos cabelos cheios delas, tentando acalmá-la.

Eu parei um pouco depois da porta, esperando pela sensação estranha que percorria meu corpo sempre quando eu os via assim, mas ela não veio. Eu não me sentia mais excluído ao vê-los assim, eu não sentia mais o ciúme ridículo e bobo, e eu sabia exatamente o motivo disso.

Eu não via mais Hermione igual via alguns meses atrás. Ela era apenas minha amiga, e só. Eu tinha um carinho enorme por ela, mas eu gostava de outra pessoa agora. Eu gostava de Pansy Parkinson.

Não queria interromper o momento dos dois. Sabia que quando entrasse na sala, Harry e Hermione ficariam um pouco desconfortáveis e se afastariam um do outro. Eu queria deixá-los a sós, se confortando, eles precisavam disso.

Respirei fundo e caminhei em direção ao jardim da minha casa, sentindo o ar um pouco frio bater na minha pele. Parecia que a tendência era só esfriar, independente da época do ano que estivéssemos.

A luz que saía das pequenas janelas d'A Toca já estava ficando fraca à medida que eu me distanciava. Virei-me para trás quando não conseguia mais enxergar o caminho a minha frente. A Toca estava longe, parecia apenas um bolinho de chocolate na grama.

Já a grama mais alta do jardim estava dificultando cada vez mais meu caminho. Decidi parar e respirei fundo, tentando em vão pensar em algo brilhante que ocupasse minha mente para que eu não pensasse nos meus problemas.

Foi quando eu escutei um barulho.

Assustei-me e virei-me, pegando a varinha com rapidez.

Não conseguia enxergar ninguém, e cada segundo que se passava eu me xingava mentalmente de idiota por ter me afastado tanto. Sabia que ainda estava nos limites da proteção, mas eu não confiava em mais nada depois da morte de Dumbledore.

Semicerrei os olhos, tentando enxergar algum vulto encapuzado, mas não via nada.

Escutei outro barulho, passos lentos, cada vez mais altos, indicando-me que a pessoa estava andando em minha direção. Deixei a varinha apontada para a escuridão, esperando alguém aparecer.

Quando consegui enxergar uma silhueta, engoli em seco. Ela se aproximou, e eu abaixei minha varinha imediatamente, ficando desprotegido. Usava uma calça colada ao corpo e um suéter branco de gola alta, os cabelos pretos e curtos estavam impecáveis, as botas iam até o joelho. Eu olhei para o pequeno reflexo dourado do seu pingente. Seus olhos, sempre atentos, estavam saudosos.

E eu não tinha a mínima ideia do que Pansy Parkinson estava fazendo na minha casa, pela segunda vez.