Olá mais uma vez! *O* Quero agradecer imensamente os comentários, sejam eles positivos ou não. Quero lembrar mais uma vez que é pela opinião de vocês que estou aqui e sempre fico contente em adaptar o que escrevo ao gosto do freguês ;3
Tenham uma boa leitura!
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Mesmo não sendo muito próxima da nora, foi com grande alívio que Madeleine viu Luciana recuperar o peso e o ânimo. Limitavam-se a cumprimentos formais e a menina até se oferecia para alguns afazeres domésticos, mas não passava disso. Pelo menos ela estava mais próxima do filho e ambos agora passavam as noites conversando sobre qualquer coisa irrelevante.
Mesmo assim, era melhor do que nada.
Erik tinha feito um balanço improvisado para a esposa tomar sol e quase o desmontou quando viu a altura que Luciana conseguia se balançar. Madeleine conseguiu ver parte do rosto mascarado ficar branco quando o mesmo viu a cena, indo da cozinha para o quintal em fração de segundo, gesticulando abertamente para que ela parasse com aquilo imediatamente. A esposa riu e continuou a se balançar até se dar por vencida e parar aos poucos, tentando acalmar Erik de todas as formas possíveis, ainda contendo o riso pela preocupação do rapaz. Madeleine sorria internamente com aquele tipo de cena e se lembrava de como ela, por mais apaixonada que fosse por Charles, nunca vivera aquele tipo de situação. Luciana obrigava Erik a deitar-se na grama e ficava falando por horas a fio, tendo respostas curtas de quando em vez, enquanto apontava para o céu ou deitava-se sobre o peito do marido sorrindo e comentando alguma coisa que a sogra nunca conseguia ouvir, mas que sabia ser algo engraçado pelas breves risadas do filho.
Nunca achou que os dons de ventríloquo de Erik fossem ser vistos algum dia sem assombro, mas até mesmo nisso a nora se maravilhava, pedindo ao marido que ele fizesse suas escovas de cabelo, o espelho, as fitas e qualquer outra coisa que encontrasse pelo caminho, falar, cantar e até mesmo roncar, como se tivessem adormecidos. Ria e batia palmas, pedindo que ele repetisse e colocando o ouvido nos objetos, jurando mais de uma vez que era como se eles mesmos estivessem falando.
Muitas vezes chegava a casa e era como se a mesma estivesse vazia: quando o casal se trancava no quarto não os via por longas horas e não seria ela quem iria bater à porta, mas em ocasiões como as aulas de piano que Erik dava à esposa – em que ela conseguia ouvir muito bem a repreensão severa do filho. –, Madeleine até ia até o sótão levar alguma coisa para eles comerem, se detendo muitas vezes para ouvir alguma demonstração por parte do rapaz, que exibia longas sequências sem nenhum erro.
- Você gosta de se exibir... – ria Luciana, revirando os olhos.
Tudo ia muito bem até o dia em que ela viu Erik descer pelas escadas seguido da esposa que pedia para que esperasse. Ela já havia aprendido que era impossível segui-lo e obrigá-lo a ouvir explicações quando estava nervoso e, mesmo não se mostrando raivoso, Luciana se deteve ao pé da escada enquanto ouvia Erik bater a porta da cozinha e se isolar no canto do quintal. Suspirou pesadamente, fechando os olhos e voltando para o quarto, onde foi sua vez de se trancar.
Aquilo era novidade: eles estavam tão bem nos últimos dias que se Madeleine não conhecesse o filho, diria ter visto outra pessoa fugir de Luciana. Charles costumava se isolar silencioso quando estava bravo ou frustrado, e como Erik não aparentava qualquer sinal de nervosismo, julgou estar incomodado com alguma coisa. Eram nessas horas que a mulher mordia os lábios de curiosidade, querendo intervir de alguma forma... Se ao menos pudesse conversar com a nora e saber o que estava acontecendo...
Com certeza teria sido grata se alguém tivesse a ensinado como lidar com Charles: ele conseguia ser tão teimoso e fechado que Madeleine quicava de raiva querendo extrair a mínima palavra dele, o rondando e observando ao longe, como se a qualquer momento a solução fosse cair em suas mãos. Muitas vezes – senão todas – ele guardava suas frustrações e fingia nada ter acontecido, ignorando algumas brigas que tiveram e agindo com certa impaciência quando questionado. Era evidente a quem Erik tinha puxado nisso.
Certo, não somente nisso: o rapaz era cópia esculpida e encarnada do próprio pai, tirando o excesso de magreza e os olhos dourados. Alto como tal, até o modo de pentear os cabelos era idêntico, além do perfeccionismo quase irritante que tinha com as coisas que fazia, tendo um satisfazer íntimo em poder exibir suas qualidades de forma natural, quase que discreta. Essa perfeição exagerada às vezes era ruim e não foram poucas as vezes em que Madeleine viu Charles se frustrar e amargar com algo que fugiu de seu controle, se irritando quando ela dizia que nem tudo poderia ser como gostaríamos: para Charles, com um pouco de regra, tudo sairia perfeitamente bem.
- Ele está lá ainda? – perguntou, entrando silenciosamente no quarto do casal.
- Sim... – murmurou sentida. – Eu odeio quando ele faz isso! Por que para Erik tudo tem que ser tão perfeito? – Madeleine riu, colocando a bandeja de chá em cima da cômoda.
- Sobre o que conversavam? – perguntou cautelosa, entregando uma xícara já adoçada para Luciana.
- Sobre o bebê... – balbuciou, tomando um gole. – Ele está com medo que ele nasça com o rosto como o dele...
- E o que você disse? – questionou, entregando uma torrada coberta de geleia. Só assim, enquanto a nora estava distraída que Madeleine conseguia fazê-la comer alguma coisa.
- Que não me importava e que ficaria feliz se o filho saísse ao pai.
- Ele não gostou nada da resposta, suponho.
Luciana concordou silenciosa enquanto comia o lanche. Desde que Erik saiu daquele quarto ela sentia-se tremendamente triste e só não chorava por conter seus impulsos emocionais. Ambas sabiam do trauma do rapaz e Madeleine sentia mais do que a nora achava, sobre isso. Erik era um rapaz severo, mas não tão difícil de lidar como ela sempre justificou, e se mostrava uma companhia agradável e atenciosa quando deixava a guarda baixar. Lembrar-se de quando o expôs a frente de um espelho fazia seu coração contrair: quantas vezes ele deve ter se lembrado daquele dia quando se olhava em um? As lembranças de todas as vezes que o chamou de monstro e o repudiou a faziam sentir-se enjoada e a ideia de que ele temesse que Luciana negasse o filho deformado como a mãe o teria negado surgiu, a pegando de surpresa. Não era uma hipótese confirmada, mas era um começo:
- Talvez ele tenha medo que você negue a criança quando nascer.
- Isso é ridículo! Eu conheço o rosto do meu marido, vejo sempre, como poderia estranhar meu filho? – Madeleine abriu a boca para falar, mas sentiu a garganta contrair antes que qualquer palavra saísse. Era difícil admitir, mas ela sabia os possíveis motivos.
- Eu não fui uma boa mãe. Erik nunca conheceu carinho materno então ele pode sim acreditar que você não vá gostar do seu filho. – Luciana tentou pensar em algo para rebater, mas não teve tempo. – Eu me arrependo amargamente por tudo que fiz com meu filho... Se você soubesse de como eu me arrependo e lamento... Quer um conselho? De mãe para mãe? – a garota concordou ainda surpresa com a revelação da sogra. – Sempre se lembre de ter paciência, tanto com seu marido quanto seu filho. Erik é igual ao pai, tão senhor de si que muitas vezes ele ouvirá o que disser e, por mais que queira acreditar, irá duvidar então não se abale com isso. Uma criança pode chorar por qualquer coisa e pode ficar sentida com o mínimo de repreensão que receba: saiba controlar seus impulsos, mesmo que seu filho destrua todas as porcelanas de casa ou rabisque a parede... Talvez ele não faça por mal, talvez só queira te ver perder a paciência, mas, pelo sim, pelo não, converse. – os olhos verdes encheram-se de lágrimas e Madeleine precisou se interromper um pouco para retomar sua linha de raciocínio. – A coisa mais maravilhosa do mundo é quando eles começam a falar. Muitas mães acham que é o choro, o primeiro sinal de vida... Isso eu não sei dizer porque Erik dificilmente chorava, mas com toda certeza, perceber de uma hora para outra que aquela pequena criatura já consegue sibilar algumas palavras é surpreendente... Charles teria ficado admirado com o que o filho podia fazer assim que aprendeu a falar...
- Você amava muito o seu marido, não é? – Madeleine concordou antes de continuar.
- Eu não sabia, mas ele era tudo para mim... Quando ele morreu, eu me senti vazia... Fiquei sozinha, ninguém conversava comigo e eu amaldiçoei Boscherville por ter me prendido aqui, despejando todo meu desgosto em Erik. Se eu tivesse prestado mais atenção nele, teria visto como se parece com o pai e como é maravilhoso. Céus, eu nunca disse isso a ele! Pode imaginar uma mãe que nunca elogiou o filho por nada? Eu fui a maior responsável por qualquer trauma que Erik tenha e ainda não me conformo em ter sido tão irresponsável, egoísta, mesquinha com uma criança que não conhecia nada fora essa casa...
Agora era Luciana que se emocionava. Estava tentando manter a educação na casa da sogra unicamente por pedido de Erik, não conseguindo trocar mais do que três palavras sem um pingo de ironia, mas agora, estava desarmada. Ela sabia o que era ficar sem o marido e os dois meses em que passaram ignorando a existência um do outro a teria matado lentamente.
Passar o resto da vida sabendo que jamais veria Erik a enlouqueceria de desespero.
- Então, se você ainda estiver considerando minha opinião, não haja como se a deformidade dele não seja relevante: para ele ainda é. – a menina concordou. – Só tenha um pouco de paciência. Erik é, ou melhor, sempre foi muito inteligente e racional e até o nascimento já terá se acalmado.
Luciana olhou pela janela e não viu o marido onde ele estava até pouco tempo. Saiu com a sogra do quarto e seguiram para a cozinha, vendo-o mais próximo da janela. A garota caminhou até ele ensaiando frases em sua cabeça, mas lembrando-se do que Madeleine havia lhe dito acabou por desistir no meio do caminho, limitando-se a abraça-lo. Era verdade que não conseguia imaginar como estaria a mente de Erik depois de tudo o que ele havia sofrido e passado, a exposição exagerada, os comentários maldosos, o coração ferido... Só o que podia fazer era esperar que ele próprio revelasse seus tormentos, porque extraí-los só o deixava pior e mais amargurado. Enquanto isso, ela apenas tentaria conter a agitação interna e o apoiaria de forma silenciosa, que Luciana já havia aprendido era a melhor maneira de se lidar com o temperamento oscilante do marido.
Madeleine não era uma pessoa ruim: ela passou por injustiças e sua melhor válvula de escape foi soltar suas frustrações em alguém. Só de pensar em Erik, tão pequenino sendo judiado seu sangue fervia, mas agora não era Luciana quem iria causar um tumulto por nada: ela própria havia encontrado um meio de soltar seus medos e angústias, descontando nas colegas de escola, professores e freiras toda a dor de ser trancada num lugar a fim de dar mais calma a vida da família. Será que um dia Erik teria a noção de como era amado? Tanto de sua parte quanto por – ela tinha de admitir – Madeleine? Não sabia ainda, mas o marido já estava ciente disso.
Ele havia ouvido atrás da porta.
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Luciana estava inconformada em não poder carregar nem mesmo sua frasqueira, chiando alto pelo cuidado exagerado de Erik em empilhar sozinho as malas na parte de trás da carroça que Pierre havia emprestado para Madeleine levar o casal até a estação mais próxima, que faria uma pequena escala antes de passar por Paris e, finalmente, Roma. Marie já chorava por antecipação, murmurando palavras desconexas de como sentiria falta deles e de que era necessário muito cuidado na viagem, o que fez Madeleine bufar pelos exageros sentimentais e muitas vezes desconexos da mulher. Certas manias os anos não mudam.
O caminho até a estação não era muito demorado e durante todo o tempo Marie falou sobre Boscherville e Roma e se ofereceu – de maneira muito sutil – ir visitar o casal na Itália e ajudar com a criança assim que nascesse. Luciana riu dizendo que, se o filho saísse ao pai, provavelmente se trocaria sozinho.
Erik olhava de quando em vez para a mãe, se oferecendo para controlar os cavalos. Não trocaram muitas palavras e ela percebeu como fazia falta os tempos em que o filho era pequeno e a cercava de perguntas que ela se recusava a responder, o deixando sozinho. Como torcia para que ele voltasse a ser aquela criança curiosa: teria satisfeito todas as suas dúvidas, fossem elas qual fossem.
Quando avistou a estação, sentiu vontade de contornar para casa, como se fosse uma reação muito natural estar praticamente fugindo da despedida que os separaria, sabia Deus por quanto tempo.
- Não, não, mocinha, eu levo isso. – Marie pegou a frasqueira das mãos de Luciana, que revirou os olhos.
- Estou grávida, não aleijada! – protestou brava, seguindo com os tickets até a plataforma.
Ficaram apenas mãe e filho, ocupados das duas malas restantes. Gostaria de dizer tantas coisas, perguntar tantas coisas... Tocou seu braço de leve enquanto caminhavam juntos, num silêncio quase fúnebre. Era bem assim que Madeleine se sentia: mais uma vez o filho partiria e infelizmente, ela estava acordada para ver. Nunca mais teria alguma chance para recuperar o relacionamento maternal que ansiava desde jovem? Era como se Erik fosse um estranho com o qual ela devia lidar por motivos sociais. O pai a mataria se estivesse vivo para presenciar tudo aquilo e provavelmente teria tirado o filho e criado em Paris. Talvez tivesse sido melhor ter ouvido o padre Mansart quando o mesmo disse que ela iria amar o filho – era uma ordem praticamente, mas uma obrigação que ela carregava desde o dia em que se descobriu grávida. Ela amava o filho e isso não lhe parecia controverso de forma alguma, nem forçado.
Madeleine simplesmente o amava.
- Qualquer coisa, me escreva... – disse, deixando as malas aos cuidados do encarregado. Erik parecia hesitar, como quando era criança e ficava decidindo-se entre arriscar-se ou não a fazer algum pedido. – Vão ficar bem? – ele concordou.
O maldito apito soou. O trem iria partir. Quis gritar para que se calasse, mas apenas ficou encarando os olhos dourados do filho, admitindo pela primeira vez na vida como eles eram encantadores.
- Já vai sair Erik. – Luciana o chamou, tirando a sogra do transe. – Até mais, Madeleine. – arriscou um abraço rápido. – Obrigada por tudo e me desculpe por meu comportamento...
- Imagine... Não tem o que desculpar. – enquanto a menina se despedia pela terceira vez de Marie, Madeleine olhou para o filho sentindo os olhos arderem e a visão embaçar. Despedidas eram terríveis! – Sentirei sua falta... – sussurrou num fio de voz, percebendo-se abraçar o filho. Aquilo pegou ambos de surpresa, mas mais do que ter o abraço retribuído, foi ouvir no mesmo tom emocionado, a resposta de Erik.
- Eu também.
Mesmo querendo sair correndo daquele lugar, pronta para chorar o caminho todo de volta, ela ficou lá, procurando manter a seriedade enquanto sentia os lábios tremerem pela vontade imensa de soluçar. Marie como de costume, não soube como consolar ou alegrá-la, apenas ficando ao lado, esticando o pescoço para a janela da cabine em que o casal estava, acenando incansavelmente para eles, além de gritar vários "adeus" e "voltem logo". Quando o trem começou a se afastar sentiu-se vazia e apressou os passos para chegar o mais perto possível do vagão, pegando o filho de surpresa. Erik ergueu timidamente a mão e acenou antes de ver os lábios de Madeleine se moverem num silencioso e emocionado "eu te amo".
Aquela resposta estava se tornando comum no repertório do rapaz, mas aquelas duas palavras tinham o poder de emocionar de variadas formas Madeleine, que soluçou alto ao ver que ele respondia um igualmente abalado "eu também".
