Capítulo XX
Kanon permanecia quieto, sentado na cadeira. Os longos cabelos azuis desalinhados, olheiras visíveis na face morena, eram as provas de uma noite extremamente mal passada. Ou talvez nem passada ainda…
Maldito inspector de meia raça! Maldito chamamento de adrenalina! Tudo para quê? Se respondesse que era para divertimento próprio teria direito no mínimo a prisão perpétua. Talvez se alegasse insanidade… quem sabe…
- Lord Kanon, tenho todo o tempo do mundo.
Kanon olhou desafiador para Julian. Não iria dar parte fraca! Isso nunca!
Manipular aquele ser não ia ser fácil. Por suborno não conseguiria de certeza… teria de usar outras cartas ao seu alcance.
- Oh… não acredito que alguém como o senhor – começou, frisando ironicamente a ultima palavra – tenha todo o tempo do mundo para me acordar… não tem mais nada de interessante para fazer? Ou talvez alguém de mais interessante para ver?
Sorriu debochado, fixando os olhos nos do inspector. Admitia, desde a primeira vez que fora interrogado, aquela personagem tinha-o marcado. Julian era alguém fácil de memorizar, não só pela sua beleza, mas também pela sua forma de estar. Sempre firme, não se abalando facilmente, mantinha a cabeça erguida em todas as situações possíveis.
Talvez tivesse ascendência aristocrática… quem sabe…
- Infelizmente meu caro Kanon, neste momento a minha prioridade é você… devo admitir que foi um "feliz encontro fortuito" o nosso!
Naquele jogo irónico, dois podia jogar. Kanon surpreendeu-se com a resposta que recebeu; mas evitou demonstrá-lo.
- Na sua situação não acredito que esteja em condições para esse tipo de brincadeiras. Ou já se esqueceu que, alem de ter sido apanhado em flagrante a pilhar cemitérios, está directamente ligado aos casos de assassinato que têm ocorrido nos últimos tempos?
A situação estava bem mais complicada que o que parecia. Sobretudo se, juntando a isso, ter de esconder ao irmão aquela historia toda. Se Saga soubesse do objectivo das suas escapadas nocturnas… nem queria pensar no que ele era capaz de fazer.
Saga já devia ter acordado… e sobretudo dado pela sua falta! Tinha de pensar numa desculpa plausível para dar ao irmão quando saísse dali. Sim, porque apesar de tudo, sabia que iria voltar para casa não tardava… a justiça era supostamente cega. Mas infelizmente naquela sociedade as vantagens de ser nobre não ficavam só pela abundância de dinheiro…
Percebeu Julian sentar-se na cadeira à sua frente, do outro lado da secretária.
- Well, não quer falar, não fale. Há outras formas de descobrir a verdade! – Kanon olhou interrogativo para o seu interlocutor, sem nada dizer – Vai seguir para um exame grafológico.
- What?
- Isso mesmo que ouviu!
- Mas em que raios um exame grafológico ajudaria?
Realmente não entendia… um exame grafológico tinha de ter algo para comparação. Algo que os peritos conseguissem comparar duas caligrafias. Mas comparar o quê? E sobretudo, para quê?
- Saiba que, não mais tarde que no dia anterior a ontem, recebemos uma carta do famoso assassino que aterroriza a população nos últimos dias. Esse exame pode não ser a cem por cento fiável, mas sempre ajuda na restrição da lista de suspeitos.
Kanon gargalhou.
- Ahhh inspector… - respondeu debochado - não me diga que acredita que o 'grande Jack' escreveria uma carta para a policia, pondo em ameaça a sua identidade… - continuou sorrindo – se me permite a pergunta, como o convenceram a acreditar em tal palhaçada?
Julian não se abalou, continuando sério. A sua voz saiu calma.
- Simples my lord… a carta que recebemos descrevia os futuros assassinatos de Withechapel. – fez uma pausa, tentando perceber o impacto que as palavras tinham no outro – Descrições essas que estavam perfeitamente correctas, quando encontramos os corpos das duas ultimas vitimas.
O sorriso de Kanon desfez-se instantaneamente. Não era possível… estavam perante um maníaco psicopata e não um assassino comum! Mas esperem… o que ELE tinha a ver com aquilo?
- Tudo bem. Acredito no que me disse. Mas uma coisa continuo sem entender… o que EU tenho a ver com essa carta?
- Simplesmente que, como suspeito, é obrigado a fazer o exame como todos os outros! – Julian levantou-se lentamente de onde estava, contornando a secretaria. Encostou-se a ela, cruzando os braços. Os seus olhos brilhavam, à vista de Kanon de raiva…ódio talvez. Estremeceu quando voltou a ouvir a sua voz – Acredite, se o exame demonstrar que tem algo a ver com estes crimes… não haverá suborno da parte do seu irmão aos meus superiores que o salvem. Irá apodrecer para o resto da sua vida na cadeia e farei de forma a que não haja um dia que não se arrependa de ter nascido!
Kanon engoliu em seco. Afinal aquele homem não era o que transparecia à primeira vista. Mas… suborno? O seu irmão? Mas então… Saga sabia?
- Saía. Amanha se não estiver aqui às onze da manha em ponto, eu próprio irei buscá-lo!
Estranhando toda aquela cena, e claro, ligeiramente amedrontando com o que acabara de ouvir, Kanon levantou-se da cadeira, dirigindo-se à porta. Quando mais rápido saísse dali para fora melhor seria… sobretudo porque tentar não dar parte fraca não estava sendo fácil.
As ultimas frases do interrogatório martelavam a sua cabeça. Tinha falado de suborno. De superiores e de…
Estagnou ao sair do edifício, percebendo a figura igual a si parada no passeio. O olhar… Kanon nunca tinha visto aquele olhar no gémeo. Mesmo por vezes quando se zangavam, nunca aquilo acontecia.
- Saga…
---oOo---
Sentia o tecido fresco dos lençóis roçarem na pele nua. Ronronou. Permanecia ainda naquele momento sonolento, limite entre o mundo dos sonhos e a realidade. A respiração lenta, cadenciada, demonstravam que o belo ruivo não tinha noção do que acontecia à sua volta.
No seu sub-consciente, parecia ainda sentir o toque daqueles lábios ávidos sobre a sua pele escaldante; os beijos trocados… o odor de anis que emanava do seu corpo activo.
Seria um sonho? Fazia quanto tempo que não tinha um sonho erótico daquela forma? Em que tudo parecia tão real?
Certamente iria abrir os olhos e verificar com algum custo que se encontrava na mansão Ascott, sozinho, no quarto que lhe era destinado. Algum dia teria de regressar à realidade. E Kamus não era de rodeios…
Respirou fundo, levando a mão à farta franja que lhe estava fazendo cócegas na testa. Amava o frio matinal. Aquele que acabava por despertar qualquer pessoa que alguma vez pudesse pensar em se deixar levar de novo aos braços de Morfeu.
Com alguma dificuldade, abriu os olhos, massajando-os com o polegar e o indicador. Sempre acordava com os primeiros raios da manhã. O dia pertencia aos que acordavam cedo!
Mas algo estava errado. Muito errado. Aquela claridade exagerada não era normal…aquele sol todo indicava que, afinal, não era tão cedo assim…
- Good morning!
Assustou-se com a voz grave que lhe chegou aos ouvidos. Conhecia bem aquela voz… os sussurros…
"Kaaamus…"
Virou a cara na direcção da voz. Apesar de ainda ter alguma dificuldade em abrir os olhos, percebeu o vulto de Milo sentado numa poltrona ao lado da cama.
Simplesmente…divino.
Os longos cachos loiros caíam soltos sobre o sofá, a camisa branca aberta deixava o tórax moreno completamente exposto. As costas apoiadas num dos braços da poltrona, as pernas esticadas sobre o outro, olhava fixamente o ruivo.
Atirava despreocupadamente uma maçã ao ar, voltando a apanhá-la logo em seguida.
Os olhos azuis brilhavam luxuriosos, o mesmo sorriso sugestivo nos lábios finos.
- Milo?
O escorpiano estreitou o olhar, levando a peça de fruta aos lábios, dando uma mordida.
O Véu que mantinha as memórias da noite anterior ocultas começou a desaparecer aos poucos. As imagens do acto repassavam na cabeça do ruivo, enquanto este mantinha o olhar fixo na figura ao seu lado, incrédulo. O liquido…
- O que foi aquilo que me…
- Veneno! – Milo cortou-o, mantendo o sorriso.
- Veneno? – Camus tentou levantar-se, mas logo voltou a cair na cama, devido a uma tontura.
- Veneno. – respondeu Milo categórico, não se mexendo – mais precisamente, veneno de escorpião imperador. Mas não se preocupe, o efeito do veneno já passou enquanto dormia.
Milo levantou-se calmamente de onde estava, chegando perto da cama.
- O veneno do 'imperador' não é mortal como a maioria das pessoas pensa – aproveitando a total atenção que Camus fazia prova, sentando-se na beira da cama – e sobretudo, bem utilizado, torna-se um excelente catalizador para uma noite inesquecível…
Kamus sentiu uma leve carícia na bochecha, o polegar do loiro delineando os seus lábios.
Estranhou o sorriso que viu se formar nos lábios do ruivo, os olhos castanhos fixando os seus.
- Milo Windsor… eu juro que esperava mais de você…
Milo arregalou os olhos, parando o movimento suave que fazia sobre os lábios do francês. Mais? Como assim…mais?
- Terá o escorpião tão pouca confiança em si, ao ponto de usar artimanhas desse género para manter alguém como eu agarrado?
Milo não acreditava no que estava ouvindo… Kamus estava… rebaixando-o? Aquele sorriso cínico, tão parecido com o seu de horas antes. Ele que pensava estar no domínio, afinal… não! ELE estava no domínio, ELE tinha sido o responsável pela maravilhosa noite… APENAS ELE!
- A vingança… - sentiu o ruivo sentar-se na cama, dando um beijo leve nos seus lábios. Apenas um roçar, imensamente sensual e sugestivo - … é um prato que se come frio…
Milo permaneceu estático, observando o local onde segundos antes o corpo do francês parecia dormir.
Kamus do seu lado, buscava calmamente as suas roupas espalhadas pelo quarto, vestindo-as. Era mais que hora de voltar para casa… sobretudo pelo 'sermão' que saberia vir da parte de Shaka. Estranhou encontrar a camisa que supostamente deixara na noite anterior na sala, sobre a poltrona. Alguém certamente a tinha levado até ali… mas quem? Apertava os botões um a um, afastando o cabelo ruivo. Estava pronto para…
- Pssssst!
Kamus voltou-se na direcção do sibilar. Percebeu Milo sentado na cama, um enorme sorriso nos lábios. Olhar predador… de um felino que se delicia com os joguinhos com a sua presa antes de a devorar.
- Presente! – Milo atirou algo na sua direcção, que ele apanhou habilmente. Um frasco. Arregalou os olhos, reconhecendo o líquido que tinha bebido na noite anterior.
- Da próxima… terá todos os meus truques ao seu alcance…
Kamus sorriu desdenhoso.
- Non preciso deste tipo de coisas para oferecer algo inesquecível…
Milo riu.
- Isso é uma sugestão?
- Non… c'est une promesse!
(Não… é uma promessa)
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- Como?
Não era possível…estaria ele ouvindo bem?
- My lord saiu esta manhã! – a serva repetia incrédula, gesticulando muito.
Dohko permanecia estático, os olhos arregalados, não entendendo o que estava a acontecer.
- Ele não disse onde ia?
- Falou de Crystal Palace… mas não deu certezas que iria lá!
Dohko agradeceu educadamente, voltando a sair pela porta. O coche ainda o esperava no pátio da mansão.
Shion tinha saído. Tinha finalmente tomado a iniciativa de sair daquele lugar onde se mantinha preso durante tanto tempo. Porque não o tinha avisado? Depois da noite em que revira Mu, pensava que o amante não quereria voltar a colocar os pés na rua tão cedo. Tinha imaginado mil e uma tentativas para, aos poucos, o incitar de novo a sair. Mas aquilo?
Conhecia bem o espírito temperamental de Shion… mas daí a omitir algo que ele vinha a tentar nos últimos anos? Respirou fundo, voltando a entrar no coche.
- Para Crystal Palace! – gritou ao cocheiro, ajeitando-se no banco.
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Não era a primeira vez que se sentia observado. Bom… tudo bem… estava fazendo um retrato, era normal que a modelo olhasse para ele. Mas não daquela forma…
Já fazia algumas poucas vezes que a desenhava… lady Shina. Permanecia ainda com os esboços, coisa rara para ele. Mas simplesmente nada lhe parecia suficientemente bom para a modelo que se encontrava à sua frente.
Aquele olhar. Não era a primeira vez que desvendava algo mais naqueles olhos verdes. Não que não gostasse… mas era errado. A cada momento que desenhava aqueles olhos, que contornava aqueles lábios que desejava tocar. Mas continha-se, virando a atenção de novo para a folha branca.
Shina remexeu-se irrequieta na poltrona. Mas que raio de ideia de se fazer retratar… só aqueles momentos em que tinha de ficar inerte! Claro que tinha um lado bom, mas mesmo assim era terrível!
- Podemos parar um pouco se quiser… - a voz de Shura soou grave pela pequena sala.
Shina sorriu, levantando-se de onde estava sentada, finalmente estendendo as pernas. Fazia um bom tempo que estava ali parada, começava a sentir formigueiros pelas pernas de permanecer tanto tempo na mesma posição. Aproximou-se lentamente do espanhol, com intenções de ver o resultado daquele tempo todo.
Shura fechou os olhos, etirando as costas. Aquela cadeira era desconfortável, mas tinha consciência que já tinha desenhado em locais bem piores. Estalou os dedos das mãos, levando a mão ao pescoço dorido. A nuca fazia-o sofrer horrores devido à posição em que desenhava… mas teria de aguentar.
Shina olhou para o esboço no papel. Estava belíssimo, como os outros aliás! Mas Shura sempre dizia que havia algo errado nos desenhos e logo voltavam às posições anteriores. Ela não se queixava. Quanto mais tempo Shura demorasse a desenhar o esboço, mais tempo demorava a passar para tela e consequentemente mais tempo seria obrigado a passar perto dela.
Percebeu um suspiro de dor quando o espanhol levou a mão à nuca. Ele próprio também devia estar bem cansado… afinal encontrava-se pior que ela.
Sentiu uma enorme vontade de levar a mão à nuca do espanhol. Não era algo que uma lady deveria fazer… mas desde quando ela reagia como uma lady? Sempre fora contra certos 'deveres' que lhe competiam, assim como à maioria das mulheres na sua condição. Por isso gostava tanto do primo… Milo era antes de tudo um libertino. Apesar de em certos momentos perecer mais uma criança crescida que outra coisa. E de muitas vezes fazer certas coisas simplesmente 'porque sim' e sem dar explicação lógica para os seus actos.
Mas havia limite na boa fé do primo. Havia coisas que apesar de tudo não mudariam na sua forma de pensar. E um possível relacionamento com Shura seria algo de impensável…
E porque não?
Sem pensar duas vezes, levou a mão à nuca do pintor, massajando cuidadosamente. Sentiu este retesar ao inicio, mas acabando por se deixar levar pelo toque suave.
- Não devia ficar assim tanto tempo… a sua coluna pode sofrer consequências graves devido a isso.
Shura apenas sorriu, mantendo os olhos fechados. Inclinou a cabeça para trás, sentindo o pescoço estalar.
- Yo lo sé… mas tenho de ganhar a vida de alguma forma no?
Levantou-se da cadeira, deixando para trás o calor da mão de Shina. Sabia que se não parasse ali não conseguiria parar tão cedo. Já tinha entendido as tentativas de aproximação da rapariga fazia algum tempo, mas sempre acabava evitando algo mais profundo.
Shina suspirou resignada. Mais uma vez tinha sido cortada a meio do balanço. Sabia que o espanhol reagia aos seus toques, mas sempre acabava por se esquivar de uma forma ou outra. O que o impedia… devia ser o mesmo que a devia impedir a ela.
Mas quem espera sempre alcança… e Shina podia não ser muito paciente, mas sempre alcançava o que queria.
- My lady? – a voz vinda da porta arrancou-a dos seus pensamentos. – O chá esta servido…
Shina assentiu para a serva, agradecendo.
- Um bom chá vai ajudá-lo a relaxar… vamos?
Sem dar tempo ao espanhol para aceitar o recusar, Shina virou as costas dirigindo-se ao cómodo adjacente.
---oOo---
A melodia que saía do piano era relaxante. Magnifica musica de fundo enquanto lia um livro. Melhor dizendo… folheava o livro, pois a sua leitura era desconcentrada devido a um certo pianista. Era a primeira vez que Mu tocava para ele. Nunca fizera a mínima ideia de que ele sabia tocar tão bem… afinal de contas, à partida ele era só um mordomo. Claro, um mordomo por quem nutria certos sentimentos, mas era um mordomo.
Os dedos finos de Mu corriam habilmente pelas notas do piano, enquanto mantinha os olhos fechados, sentindo a musica. Vez ou outra abria-os, cruzando o olhar com os lindos olhos azuis de Shaka.
- Se bem o conheço, não lhe dou mais de quinze minutos…
Mu riu, sem parar de tocar. Fazia algum tempo que estavam ali, aproveitando a companhia um do outro e tendo aquela conversa.
E Shaka voltava a sua atenção para o livro. Claro, nunca lia nada que prestasse, mas mesmo assim continuava a tentar.
Alguns minutos passaram na mesma posição.
- Dez minutos…
Shaka virou a pagina do livro, continuando a sua leitura. Esboçou um sorriso de canto, ao perceber a movimentação do lado de fora da sala de musica. Voltou a virar uma pagina.
Duas batidas na porta ecoaram pelo local. Mu, que já esperava por aquilo, não parara de tocar com a interrupção. Shaka ofereceu entrada ao intruso, que sabia muito bem quem era.
- Boa tarde mon ami… ou devo talvez dizer bom dia…
Kamus, que acabava de entrar no cómodo, suspirou já sabendo que teria de fermentar a curiosidade do loiro. Percebeu o sorriso divertido nos lábios de Mu. Soprou a longa franja ruiva, sentando-se no sofá de frente para do loiro.
Este que não parecia tão absorvido pela leitura, fechou o livro de uma vez olhando fixamente para o francês.
- Seja bem vindo a casa… - deu um sorriso singelo, pleno de ironia - onde devia ter chegado ontem à noite!
Mu riu contido do comentário sarcástico do amante.
- Shaka, cada dia que passa parece mais velho raquético… diga logo o que quer saber, eu respondo e vou tomar um banho relaxante!
Shaka abriu mais o sorriso, apoiando o cotovelo do braço do sofá, deixando a cabeça descansar sobre ela.
- Porquê? Não relaxou o suficiente durante a noite?
A musica parou de repente. Mu tentava se concentrar por manter a pose séria, sendo obrigado parar de tocar. Shaka permanecia com o mesmo sorriso esperando a resposta do ruivo.
- Se você conhece tão bem o Milo, deve saber que o que eu fiz menos nessa noite foi relaxar…
- Hum… vejo que o escorpião decidiu largar o seu veneno…
- Oh se largou… - Kamus respondeu fechando os olhos, relembrando o veneno que fora obrigado a beber.
- Descanse… vá tomar um banho, que depois falamos melhor… parece realmente cansado.
Kamus levantou-se, percebendo que aquela conversa breve não tinha acabado. Ainda sobraria para ele.
- Espero-o pelo chá das cinco.
O ruivo assentiu, dirigindo-se à porta. Teria ainda algum tempo até às cinco. O que queria naquele momento era mesmo soltar toda a tensão de que fora alvo na noite anterior.
Um bom banho ajudaria.
Na sala, Shaka continuava sentado no mesmo local, olhando para a porta por onde tinha saído o ruivo.
- Talvez o devesse ter prevenido acerca de lord Milo…
Shaka sorriu na direcção do mordomo.
- Isso não me preocupa… - comentou levantando-se – ele consegue se tão ou mais venenoso que Milo.
Entrelaçou os dedos longos no cabelo de Mu, puxando levemente fazendo com que este inclinasse a cabeça para trás. Tomou os seus lábios num beijo calmo, acariciando a sua nuca levemente.
---oOo---
Sydenham Hill, London
Crystal Palace… uma das grandes construções mais aclamadas na cidade Londrina. Um grande monumento de ferro e vidro construído para a exposição universal que se desenrolara poucas décadas antes, funcionando como estufa actualmente, permitindo longos passeios relaxantes durante o Inverno.
As fontes que jorravam água a uma altura impressionante, a grande quantidade de elementos aquáticos naquele lugar tornava-o extremamente acolhedor.
Pessoas vagueavam, passando pela enorme fonte central sem nem mesmo perceberem sua presença. Tanto melhor.
Olhava distraído a água que caía à sua frente. Refrescante…
- Esta com melhor aspecto lord Lawrence.
Shion sorriu. Não precisava se virar para saber quem o interpelava naquele momento.
- Demorou… - retribuiu, continuando atento à água a correr.
- Well, acontece que não esperava de todo vê-lo por estes lados…
Percebeu quando o outro avançou lentamente, colocando-se ao seu lado.
- A vida passa…
O companheiro riu.
- Shion… isso esta parecendo conversa de velhos…
Shion sorriu. Era verdade… todo aquele tempo enclausurado tinha acabado por torna-lo mais taciturno que nunca.
- Mas é verdade… já olhou bem? É como a água… corre rápida sem que a consigamos conter. Por mais que não queira, andamos de mão dada com o tempo.
- Finalmente tomou consciência que devia aproveitar esse tempo.
Shion assentiu, mantendo o olhar fixo no mesmo ponto de sempre. Não tinha esquecido de Mu. E mais que nunca desejava recuperar a confiança do irmão à muito perdida. Mas cada coisa a seu tempo… num primeiro passo, conseguira reencontra-lo. Sobretudo saber que estava em boa companhia. Agora, seria voltar a ganhar a sua confiança.
- O tempo não volta para trás Shion…
- Verdade Dohko. Mas também é o único que vê tudo passar ao seu lado, sem nada poder agarrar…
---oOo---
Não passava mais um dia sem que se conseguisse manter longe dela. Nunca na sua existência pensou que um dia pudesse vir a ser tão possessivo em relação a alguém. E ali estava, mais uma vez acariciando os cabelos ruivos com cuidado… ao inicio tinha sido complicado, mesmo para ele. Aceitar que estava apaixonado por uma mulher da vida não tinha sido tarefa simples. Mas apesar de tudo, sempre fora alguém de demasiado impulsivo e muito dado a sentimentos, em deterioramento da razão…
Ao inicio era igualmente complicado o relacionamento que mantinha com a ruiva. Ela era demasiado desconfiada, não se deixava levar facilmente por falinhas mansas e afins. Apesar de não ter passado assim tanto tempo, Aioria sabia que aos poucos conseguia quebrar as barreiras que a ruiva lhe impunha. Cada dia era uma nova vitória. Depois daquela primeira noite intensa, tinha mandado preparar um quarto para ela. Não que se tivesse arrependido daquela noite, mas tinha ganho respeito por ela antes de tudo.
- Hummm…
Passou suavemente o polegar nos seus lábios ao senti-la remexer em seu colo. Parecia tão diferente devidamente bem vestida e arranjada. Tudo bem… aquilo eram apenas enfeites para o que se escondia por baixo. Aprendera aos poucos a descobrir o porquê dela ter escolhido aquela vida. Não porque queria, mas porque tinha sido obrigada por certos rumos que não tinha escolhido…
Tudo isso lhe pareciam desculpas antes de conhecer… Marin.
- Vai continuar me olhando assim? – ela sussurrou mantendo os olhos fechados.
Aioria sorriu.
- Enquanto você fingir que está dormindo, apenas para ter uma desculpa para estar nos meus braços.
Mesmo sem abrir os olhos, a ruiva sentiu as faces corarem bruscamente sem que pudesse impedir. Não queria dar o braço a torcer… mas tinha sido pega em flagrante.
Bom, perdido por perdido…
Voltou a encostar a cabeça no peito do moreno, recebendo um abraço protector como resposta.
Continua…
Curiosidades:
o Mu e Aioria apresentam o
o Crystal Palace o
Ai (comendo um enorme sandwich cheio de calorias, sentado no sofá)
Mu: (olhando a cena suspirando)
Ai: o que foi?
Mu: você tem noção do quanto essa coisa lhe vai fazer mal?
Ai: faz nada! (dá duas tapas na barriga) este bichinho é sólido e aguenta com muito!
Mu: (negando com a cabeça) dá então para comer isso rápido e começar a falar? Mas…
Ai: (colocando metade do sandwich na boca, engolindo tudo à pressa)
Mu: … devagar ¬¬
Ai: ah não se preocupe! (clareando a voz) momento de cultura arquitectónica hoje! O Crystal Palace era um edifício contruido em pleno sec XIX com o objectivo de acolher a exposição universal de 1851 (a Great Exhibition) em Hyde Park.
Mu: Sendo essa exposição temporária apenas por seis meses, esse edifício deveria originalmente ser desmontado após o final. No entanto, contra a opinião do parlamento inglês, ele acabou por ser apenas deslocado. A enorme estructura de ferro e vidro fora desmontada e voltada a ser construída na sua totalidade, mas com algumas modificações, em Sydenham Hill.
Ai: O edifício fora então bastante alargado, e menos de dois anos mais tarde, a rainha Vitoria inaugurava-o pela segunda vez. O enorme edifício retomara assim o seu estatuto inicial de zona de exposições, mas as modificações feitas posteriormente dera-lhe um novo objectivo: o de serra, ou jardim de Inverno, aberto ao publico.
Mu: Cinco mil trabalhadores e 84 000 metros quadrados de vidro foram necessários para a construcçao desse novo Crystal Palace. Infelizmente a catástrofe de 1936 levou o edifício à ruína. Dia 30 de Novembro, em poucas horas, o Palácio de Cristal está à mercê das chamas. Tudo é destruído, o incêndio é visível a kilometros de distância.
Ai: tudo isso para ser levado à ruína…
Mu: hum… é o destino de muitos edifícios. Morrer pelas chamas.
Ai (sentindo os estômago as voltas): …
Mu: eu avisei… (suspirando)
Ai (correndo para o banheiro)
Cantinho ariano:
Capitulo VINTE! Ainda continuam a seguir a historia? Pois… ela acabou por se prologar bem mais do que eu imaginava. Mas quando isso não acontece? (suspiro) Felizmente já consigo ver o fim. Não esta bemmmm próximo ainda, mas já sei onde e quando parar! O que já é um grande avanço!
Mu: Um ano…
As: o.Õ
Mu: faz um ano dia por dia que você começou a escrever essa fic…
As: (sem fala)
Mu: feliz aniversario!
As: A London… faz um aninho!!!! . ohhhhhh o meu bebe esta crescidooo T.T
Mu: ta ta…¬¬ não exagere… eu sabia que não devia ter relembrado.
As: a minha baby faz…
Mu: Áries contra-se neste momento fora de serviço. Eu vou continuar o cantinho! SIM! Finalmente Saga descobre o que o irmão andava a fazer esse tempo todo durante a noite! SIM o Julian não é aquela pessoa calma que aparentava no inicio e SIM eu e o Shaka somos lindos!!! .
As: ¬¬ Mu…
Mu: cof cof… bom… como puderam ter lido, Crystal Palace já não existe. Infelizmente foi levado pelas chamas no inicio do sec. XX, deixando apenas algumas gravuras e ilustrações para ser relembrado. E por ultimo… alguém duvida que Milo vai-se ferrar?
As: PARA DE DAR SPOILERS!!! Ò.Ó
Mu: pronto pronto… agradecimentos agora! Beijo enorme e muito muito obrigado pelas reviews magnificas do capitulo anterior: Margarida, Virgo-chan, Mussha, Nana Pizani, ...Makie..., Shakinha, Athenas de Aries, Mila Boyd e Keisuke Kurozaki!
E claro, um beijo enorme aos que lêem e continuam a acompanhar a fic!
Só me resta agradecer a todos pelo acompanhamento de um ano de London… EFHARISTO (obrigada em grego) do fundo do coração!
A.s.
