Ela sentiu o calor das ondas nos pés e deixou-se afundar na areia uma última vez. Pesarosa, afastou-se da maré e buscou as risadas de Seyia na praia. O garoto conversava com Lithos e fazia festa a cada doce que ganhava. Deveria repreendê-lo por ousar romper a dieta de seu treinamento, mas continuou a fingir que não percebeu a rebeldia e focou o olhar na figura altiva que se aproximava.
O cabelo de Aioria brilhava com o entardecer, o Sol parecia realçar sua beleza, seja pelo tom de pele bronzeado, seja pela definição de seus músculos na camisa branca. Era óbvio o desejo em seus olhos e Marin estremeceu ao pensar que não o tocava há semanas. Trazia uma flor azulada em uma mão e na outra uma concha:
- Achei... - disse mostrando a flor e aproximando-se perigosamente de seu corpo.
- Pensei que você ia comprar alguma bebida.. - a ruiva deixou que ele colocasse a planta em seu cabelo e aproveitou para admirar mais de perto o rosto perfeito do leonino.
- Eu menti. - sorriu e ousou tocar em sua mão.
Ela não envolveu seus dedos, contudo aproveitou u a sensação acalentadora que o toque lhe causou. Bastava isso, um toque, para que seu corpo reagisse como se estivessem se beijando por horas.
Não havia mais ninguém perto na praia, as festividades estavam bem distantes dali e os únicos resquícios da festa eram os sons esparsos de uma música. Lógico que era suspeito estarem tão afastados, contudo após tanto tempo sem conseguir vê-lo, foi difícil negar quando ele propôs que deveriam passear com Seyia longe da multidão:
- Não sei se é uma boa ideia ficarmos aqui por mais tempo...
- Não faz nem uma hora, Marin... e Gallan está por lá para despistar caso alguém esteja sóbrio e comece a fazer muitas perguntas.
A amazona ignorou seu olhar intenso e observou os dois jovens correndo. Era bom ver como Lithos conseguia fazer a criança rir tanto. E distraí-lo o suficiente para que tivessem aquela conversa sem interrupções. Aioria apertou sua mão, chamando sua atenção, e sussurrou:
- Nós merecemos isso... Hoje é um dia triste para Fyliphi, mas também foi o dia em que nos beijamos pela primeira vez. - sua declaração a surpreendeu. Como pôde não se lembrar disso? Era por isso a flor e todo esse esforço para que se vessem hoje? Achou que a última conversa o faria se afastar, esperava um guerreiro completamente diferente hoje, e ainda assim, Aioria parecia mais radiante e disposto a investir naquela relação. Viu-o sorrir - Você não se lembrava, não é?
- Ioria... eu... não me importo muito com datas – disse, sincera – É lógico que eu lembro, mas não imaginei que citaríamos isso. Ou comemoraríamos de alguma maneira e.. - sentiu o choro se formar em sua garganta. A frustração pela decisão que teria que fazer só ficava mais difícil ao vê-lo tão paciente com sua total falta de tato com o sentimento que os sequestrou.
- Ei, não tem problema... eu entendo e pode ficar tranquila que não comprei presente ou algo assim.. - Aioria tocou na flor e manteve os dedos emaranhados nos fios ruivos, claramente se segurando para não trazê-la para perto. - Só achei que poderíamos aproveitar um pouco e te agradecer por esses últimos meses. Por ter me deixado te amar.
- Você quis dizer, não ter escolhido te matar? - Marin riu, mas sua voz chorosa falhou em disfarçar as lágrimas que a máscara ocultava tão bem.
- Por que você está assim? - Ele segurou sua nuca e fitou-a preocupado – Eu estou aqui para o que você precisar e …
- Não.
- Não?
- Eu não estou grávida, Ioria – disse subitamente. Pôde perceber a decepção em seus olhos e se angustiou por saber que suas próximas falas não melhorariam isso. Marin tocou em sua mão. – Mas não posso mais correr esse risco, Aioria... Minhas decisões não afetam só a mim agora.
Ele inclinou o rosto, a decepção virou confusão. Ou raiva contida. Contudo, ainda assim, o cavaleiro manteve o toque suave em sua nuca. Ontem, logo que chegou em casa após os treinos, Marin percebeu seu corpo finalmente sinalizando que suas suspeitas foram em vão. Talvez, ver a reação tão tranquila de Aioria era o que faltava para relaxá-la e permitir o recomeço de seu ciclo. Esperava que a informação o deixasse tão aliviado quanto ela ficou. Ou melhor, até mais, considerando que o cavaleiro ainda era um cego fiel das tramas do Santuário, as quais ela não mais acreditava. Não era apenas Seyia que os distanciava, sua descrença em relação ao mestre ou a presença de Atena não a deixava mais se entregar ao vínculo natural que a amizade dos dois provocou.
As risadas de Seyia e Lithos contrastavam com o silêncio lúgubre que os envolia. Várias vezes a maré gélida bateu com força em seus pés, mas ambos se mantiveram firmes na areia.
- Você não está falando só do sexo, está? - o loiro questionou em um sussurro e enlaçou seus dedos, aguardando uma resposta por alguns segundos até que desistiu e continuou – Eu não esperava um presente hoje... mas isso? Justamente hoje, aqui... - ele deu um sorriso incrédulo e olhou para o por do Sol – Aqui não, Marin, não desse jeito.
A ruiva sentiu o coração apertar ao ouvir o tom triste de cada palavra, tocou o rosto do Cavaleiro de Leão e o forçou a voltar para ela novamente:
- Sinto muito... eu não planejei nada disso, eu só. - soltou um suspiro de frustração - … temos nos visto tão pouco e quando nos vemos eu nem sei mais como agir. Eu só precisava te falar isso e …
- Mas você já tomou a decisão, Marin. - Aioria largou sua mão e apertou sua nuca uma última vez antes de abandonar os fios ruivos – Eu não vejo seus olhos, mas posso sentir que você está cansada desse segredo.
Sim, não queria mais segredos, mas amá-lo em silêncio não era um sofrimento, o que não suportava mais era guardar sua certeza que Aioros não traiu Atena. Que por anos Aioria foi discriminado por uma mentira:
- Vou te encontrar depois, essa semana, e conversamos, está bem?
- Estamos há semanas sem nos ver direito, Marin. agora você vai tentar arranjar um tempo?
- Ioria...
Seu sussurro foi completamente ignorado pelo cavaleiro. Aioria deu um sorrisso triste e se afastou a passos largos. Ela já havia lhe dito o que queria, o suposto motivo.. Não tinha mais nada para lhe falar. Se fosse explicar algo mais, o colocaria contra o Santuário, ou pior, corria o risco de que ele a odiasse, a considerasse uma traidora por profanar a hierarquia do lugar... Observou-o se aproximando de Lithos e Seyia, silenciando suas risadas e sugerindo que fossem embora... Essa seria realmente a última vez que sentiu seu toque? A saudade não a deixava racionar direito na presença dele, esquecia até mesmo que Seyia estava ali do lado e poderia ter visto a troca de carícias... Não deveria ter proposto nada, esse deveria ser o basta.
Entretanto.
O veria novamente.
Gente, tive que separar esse para raciocinar melhor a segunda parte que não tô conseguindo fechar tão bem. Culpem o autor que deixou a história da Marin tooodaaa aberta e não deixa nada do que eu quero fazer sentido, hahaha..
Obrigada pelos comentários!
