- Oito horas - murmurou olhando para o relógio pela última vez.

Abriu a porta da frente, olhou para os lados em busca de alguém. Nada.

- Ele não vem - sorriu fraco - Como eu havia dito... É tarde demais.

O táxi corria na velocidade máxima permitida, do mesmo modo batia meu coração em pensar que minha chance se esvaia. A verdade é que queria vê-lo. Por mais que tivesse sofrido por sua causa, por mais que dissesse à mim mesmo que o odiava... Eu o amava.

Chegamos ao local.

- Obrigado, senhor - entreguei-lhe o pagamento pela viagem e corri para a porta da casa.

- Espere! O seu troco! - o homem gritou, mas, na falta de reação de minha parte, foi embora.

Bati na porta em desespero.

- Sensei! Sou eu, Hikaru!

Não houve resposta.

- Cheguei tarde demais.

Do lado de fora do prédio havia uma escada onde fiquei sentado durante um tempo antes de desistir.

- Isso é ridículo - levantei e comecei a caminhar.

Não tinha mais dinheiro.

- Aonde tava com a cabeça quando deixei aquele cara levar o troco?! Era tudo o que eu tinha! - Remexi os bolsos e encontrei algumas moedas - Não dá nem pra pegar um ônibus...

Continuei andando e me deparei com um templo budista. Há muitos deles por aqui. A neve começava a cair e eu não tinha pra onde ir, resolvi me aproximar.

O lugar era antigo, mas, possuía um encanto e causava uma tranqüilidade singular. Senti-me um tanto confortável. Fui até a parte onde pessoas costumam fazer oferendas em troca de seus pedidos atendidos. Não tinha nada a perder. Coloquei algumas moedas, toquei um sino e bati palmas antes de começar a oração.

- Queria que eu e ele nos entendêssemos. Por favor, Kami-sama[1], que não seja tarde demais - falei com o coração apertado.

Saí de lá e acabei encontrando uma possível solução para o meu problema: Um telefone público.

- Vou ligar pro Akira e pedir ajuda! - disquei o número, entusiasmado.

Para meu azar, Akira e Nakamura estavam em uma pizzaria naquela noite.

- Akira, Quando é que vai se mudar lá pra casa? - Nakamura perguntava tocando a mão de Akira com um sorriso no rosto.

- Como se eu pudesse... - murmurou um pouco desanimado.

- Tudo bem. Não quero enjoar de você - disse indiferente, largando a mão do namorado.

- Hum... Quer dizer que é assim que funciona?

- Claro.

- Bom saber... - pegou o copo de refrigerante e começou a tocar calmamente.

- Que é? - perguntou inquieto - Akira? O que foi? Eu não tava falando sério! Ei, Akira! Ah... desculpa. Eu só tava brincando. Droga! Akira??

O capitão começou a rir sem parar.

- Não entendi. Por que tá rindo?

- Estamos quites - sorriu gentilmente.

- I-Idiota - joga um guardanapo de papel no outro - Você me assustou, droga - murmurou zangado e aliviado por não ter sido nada sério.

- Amo você - disse quase que em um sussurro.

Nakamura corou.

Akira certamente colocara o celular em silencioso pra que nada os atrapalhasse.

Sentei em um banco de madeira branca ao lado do telefone e suspirei.

- Talvez ele retorne a ligação...

Esperei até cochilar. Não havia descansado e o trabalho fora muito exaustivo.

O festival prosseguia mesmo com a neve. Como previsto, as garotas estavam afoitas por ver o sensei trajando quimono, aliás, ficam afoitas só de vê-lo. De qualquer modo, ele já estava acostumado com aquele alvoroço e, como na maioria das vezes, sua mente estava em outro lugar.

Uma das professoras foi até ele e o cumprimentou.

- Como está, Hiroki? Não parece muito bem.

- Fujimoto-san, você está bem? - algumas alunas perguntavam aflitas.

Em resposta, ele sorriu para todas.

- Só estou com um pouco de dor de cabeça. Se importariam se eu fosse pra casa?

- Se não se sente bem, é o melhor a fazer, não é? - ela retribuía a gentileza - Bom descanso.

- Obrigado. Boa noite!

- Boa noite sensei! - as garotas falavam todas juntas, disputando pela atenção do professor como sempre faziam.

- Até breve - sorriu e foi embora.

Enquanto voltava pra casa, olhava pela janela do táxi. Aquela neve que caia lhe lembrava o dia em que nós fomos à um encontro. Passou a mão pela testa, tentando amenizar a dor de cabeça. A mão escorregava pelos fios de cabelo que logo voltavam a cair sobre os olhos azuis. Em uma dessas vezes, seu olhar cruzou com uma criatura adormecida sentada em um banco perto de casa.

- Pare o carro! - disse em um pulo.

Saiu do táxi e me segurou nos braços.

- Hikaru! Hikaru! - tocou minha pele com uma das mãos - Gelado - colocou-me no colo com alguma dificuldade e entrou comigo no carro.

Meus olhos foram se abrindo devagar. Estava muito bem aquecido. Demorei a sentar na cama, criava forças para o ato. Ao tocar meus joelhos com as mãos, notei que estava vestindo um quimono azul índigo com flocos de neve pintados que mais pareciam flores de inverno.

- Então, já acordou...

Aquela voz... Como sentia falta daquela voz...

Eu olhei para sua figura encostada na porta com uma tigela de curry nas mãos. O quimono sem qualquer amarra, deixava o abdômem à mostra enquanto uma calça de moletom cinza cobria o resto do corpo. Meu coração batia acelerado, ele estava mesmo... lindo.

Antes que pudesse reagir a qualquer coisa, ele foi até a cama, deixou o que segurava no criado-mudo e tocou minha testa.

"Quente". Como sonhei com o seu toque...

- Não parece com febre - suspirou - Se sente bem? - perguntou preocupado.

Balancei a cabeça positivamente. Ele sorriu.

- Ainda bem.

Queria fazer algo, mas, não sabia exatamente o quê. Passaram-se três meses desde que ele se foi sem ao menos se despedir ou dizer a razão. E mesmo com tudo isso, ainda rezava pra que nos entendêssemos.

- Francamente... No que estava pensando ficando lá fora nesse frio? Se não chegasse a tempo você morreria, sabia disso? Era isso que queria?

Lutava comigo mesmo. Não podia simplesmente esquecer o que passei por causa do que ele fez. Sentia raiva e vontade de socá-lo com todas as minhas forças e perguntar a razão de ter ido embora.

Virei o rosto e não disse nada. Ele suspirou mais uma vez.

- Tome. É curry. Você ainda gosta? - segurava o prato nas mãos enquanto tentava entregá-lo à mim.

Olhei de lado e afastei com uma das mãos.

- Vou deixar aqui pra que tome depois. Mas, não demore muito ou vai ficar ruim - sorriu e se afastou novamente.

- Sen... Sei

Ele parou de andar.

- Eu só... queria saber o porquê - apertava as mãos nos lençóis.

Voltou e sentou na beira da cama.

- Eu não tenho nenhuma explicação convincente...

- Mas, eu quero ouvir. Desde que seja a verdade, sensei.

"Talvez... Não seja tarde"

- Contarei tudo, se tomar o curry que preparei - fitou-me sério, de modo que não poderia recusar.

A neve não parava de cair e eu temia pelo que poderia acontecer a seguir.

- Quando você se confessou, pensei que viveria o mesmo que vivi com Nakamura. Então resolvi dar à você algo pra que ficasse satisfeito. Mas, ao contrário dele, você não se contentaria com sexo... Queria meus sentimentos. E você conseguiu conquistá-los. De maneira que alimentei uma amor incondicional à você - olhou pra mim e eu rapidamente desviei o olhar para um canto qualquer do quarto - Desde que percebi que Akira estava se apaixonando por você, tive medo. Medo de que me abandonasse, me trocasse por ele. Mas, não podia fazer nada, ele era seu melhor amigo e eu não podia afastá-lo de você. Quando vi Akira e Nakamura juntos foi um alívio. Pensei que finalmente me livraria daquele medo, mas, ele se confessou - fez uma pausa - Temos uma grande diferença de idade e parecia que nunca daria certo estarmos juntos. Eu só fiz você abrir mão de coisas por mim e pensei que poderia finalmente agir para que fosse mais feliz.

"Eu era feliz com você, droga. É tão ruim assim fazer algo por quem se ama? É tão ruim assim amar alguém mais velho?"

- Achei que fosse melhor me afastar e deixar que se entendessem, mas, não pensei que seria tão difícil.

"Por que depois de passarmos por tudo o que passamos você acredita que é melhor ir embora pra que eu não sofra?". Era tudo o que me vinha à mente, mas, não tinha coragem de dizer. Eu era um covarde afinal.

- Sensei...

- Mas, agora vejo o quão distantes nós estamos. Sei que foi infantil e egoísta de minha parte e que só serviu pra destruir nossa relação.

- Sen...

- Não peço que voltemos a ser namorados. Quero, sinceramente, que me perdoe Hikaru-kun.

"Do que ele está falando? Eu... Só queria que voltássemos a ser como éramos antes..."

- Desculpe por tudo que fiz você sofrer desde o começo.

- Mas, fui eu quem insistiu nisso. Eu insisti pra que ficássemos juntos. E não me importava se sofresse, desde que estivesse com você - fechei os olhos e disse de uma vez - Droga, eu pareço tão frágil assim? O que fez foi egoísta e infantil sim, mas, muitas vezes eu agi dessa forma.

- Hikaru...

- Não. Eu não perdôo você. Definitivamente não o perdôo.

Ele baixou a cabeça e manteve um sorriso fraco, obviamente falso.

- Você não sabe o que passei durante esses meses. Fiquei aflito, não sabia se estava vivo ou morto, onde morava, o que aconteceu, nada. Tentei levar minha vida normalmente, mas, a cada mísero passo que dava, eu lembrava de você. Não poder ouvir sua voz, vê-lo, tocá-lo... Foi um inferno. Não me peça pra simplesmente esquecer tudo o que aconteceu e depois... - fiz uma pausa - Não ser mais nada além de um ex-aluno seu.

Ele me fitou com espanto.

- O que quer dizer?

- Não vou aceitar ser um ex-aluno com quem você se relacionou no passado. Definitivamente... - as lágrimas escorriam pelos cantos dos olhos - Eu o quero de volta.

Ele ficou ainda mais espantado.

- O curry ainda é o melhor de todos - disse no mesmo tom da confissão, ainda chorando.

Fui agraciado com um beijo inocente e demorado. O calor de sua boca tocando a minha, a maciez e o seu sabor me fizerem perceber quanto tempo fora desperdiçado com palavras. Ele sorriu e me abraçou. Um abraço forte e caloroso. Meus sentimentos pareciam transbordar. O que contive dentro de mim todo esse tempo queria sair de maneira desesperada. O agarrei com todas as minhas forças, afundando a cabeça em seu peito.

- Me desculpe por tudo. A verdade é que... Não sei viver sem minha "luz" - sorriu enquanto me apertava em seus braços.

A partir desse momento, palavras foram desnecessárias. Meu obi[2] foi desatado com sutileza enquanto ele beijava minha nuca repetidas vezes. O que quer que ele me fizesse me causava delírio.

Jogou a faixa sem qualquer cuidado e se livrou das roupas que me cobriam por baixo. Deitou-me na cama e sorriu entusiasmado. Toquei seu rosto a fim de ter certeza de que aquilo era real. Sim, podia sentir o calor do seu corpo. Não era como nos sonhos, eu o tinha junto à mim naquele momento e eu, com certeza, era dele.

Mal podia esperar para que tomasse posse de mim. Em silêncio, pedia para que se apressasse, desamarrando o cadarço que apertava sua calça de moletom.

Segurou meu braço com uma das mãos e me puxou para perto. Me beijou suavemente enquanto se desfazia da única peça de roupa que lhe restara, deixando exposto seu membro ereto. Parecia ter sido afetado por ter ficado tanto tempo sobre a geada, pois, quase desfaleci. Tudo naquele ser era perfeito, até mesmo os ciúmes que ele insistia em desfarçar com desculpas e mentiras. E isso definitivamente é a característica que mais nos afasta e também a que mais nos reaproxima.

O silêncio foi quebrado quando apoiei as mãos na cama para virar de costas. Seu murmuro me veio como um pedido:

- Não. Quero que olhe pra mim.

Minhas pupilas se dilataram. A sensação que vinha sentindo desde que o vi aumentava dentro de mim como um calor que percorria todo o meu corpo, assim como suas mãos que deslizavam de maneira maliciosa até que uma delas alcançou meu membro, massageando-o enquanto a outra mão agarrava-se à minha nuca, intensificando um beijo cheio de paixão.

À medida em que sentia sua mão me apertar, largava-lhe os lábios, gemendo baixo em reação aos seus toques.

As mãos se afastaram de meu corpo por um instante. Murmurei em reprovação e ele sorriu. Colocou minhas pernas sobre si, me deixando completamente vulnerável e corado. Introduziu o indicador na minha entrada. Esta o recusava apertando lhe com intensidade.

Mordi os lábios para suportar a dor. Tinha medo de que aquilo pudesse acabar diante de minhas reclamações. A preocupação foi inútil. Meu amado já havia notado a tática e chamou mais uma vez a minha atenção. Estava tenso como se aquela fosse nossa primeira noite. Ele me sorriu e pediu que eu relaxasse. E foi o que fiz. Parecia estar dando certo até que o senti ainda mais fundo. Arqueei o corpo em desespero:

- Aaaah!

- É doloroso, sem ninguém para tocá-lo por muito tempo, não é? - sussurrou com um sorriso no canto dos lábios, me dando outro beijo, dessa vez mais profundo e sensual.

Sem qualquer aviso, colocou outro de seus dedos em mim e gritei mais uma vez.

- Quer que eu pare?

- Tá tudo bem - murmurei, pressionando os olhos - Continue...

Aquilo pareceu impulsioná-lo. Retirou os dedos e posicionou o próprio membro.

Ele entrou dentro de mim vagarosamente, me fazendo gritar continuamente enquanto o sentia invadir meu corpo. A expressão de dor em minha face, misturava-se com o prazer de tê-lo novamente.

- Continue - disse tímido, em tom quase inaudível.

E ele atendeu o pedido. Se movimentava com dificuldade, introduzindo e retirando lentamente para que meu corpo se acostumasse. Aos poucos a velocidade foi aumentando tal qual a força das estocadas. Suspirava, gemia de modo a inspirá-lo a continuar me penetrando, até que ficamos exaustos.

Ele conhecia meu corpo como ninguém. Sabia que aquela seria a última estocada e que seria significativa. Estava prestes a deixar que o gozo se espalhasse. E ele entrou, tão fundo que pensei que morreria naquele instante, mas, como se fosse possível, coloquei as mãos em volta de seu pescoço e o puxei ainda mais para dentro do meu ser.

"Eu te amo" foi o que ele disse antes que meu grito quase o ensurdecesse.

- Aaaaaah... Sensei!!

Senti um calor diferente, era molhado e estava preenchendo-me. Deitou sobre mim e retirou seu membro.

- Desculpe...

Sua semente era o que me preenchia. Ao ver seu rosto envergonhado e desajeitado, só pude sorrir e achar a coisa mais amável do mundo.

- Ahnn...

Foi meu sêmen que jorrou dessa vez, encharcando nossos corpos com o "fruto" de nosso prazer, não, de nosso elo.

Sorrimos e continuamos a nos admirar.

- Então... Faz muito tempo que você não é tocado, não é?

- Sensei! - franzi o cenho, as bochechas rosadas de constrangimento.

- Deve estar doendo muito, não é?

Virei o rosto.

- Você não tinha saudades de me sentir dentro de você? - sussurrava maliciosamente em meu ouvido.

- N-NÃO!

"Não diga coisas embaraçosas como essa!!"

- Então por que implorou pra que eu o tomasse?

- Não lembro de ter implorado... - disse orgulhoso, o rosto ainda vermelho.

- "Continue..." você disse. O olhar implorando "Sensei, por favor.."

Corei violentamente. "Esse idiota...o que ele tá pensando??"

Ele saiu de cima de mim e deitou ao meu lado, envolvendo meu corpo com uma das mãos enquanto a outra afagava meus cabelos carinhosamente.

- Como senti falta de você...

"Eu sinto o mesmo"

- Sensei...

- Hum?

- Me promete uma coisa?

Ele olhou em meus olhos e disse sério:

- O que quiser.

- Que não vai sair mais da minha vida.

Não acreditei que havia dito algo daquele tipo. Fiquei corado e envergonhado pela fala, mas ele me sorriu daquela maneira gentil e me disse com seu olhar penetrante:

- Sempre serei seu "sensei". Apesar de que é você quem me ensina sobre o mundo e sobre mim mesmo. Sou muito grato à você, Hikaru.

Continuei envergonhado e não disse nada. Ele não prometeu afinal, mas, sentia como se aquele desprendimento dele, fosse uma forma de me manter preso a ele e, sempre dá certo.

- Gostou do quimono? Comprei pra você participar do festival, mas, não deu certo - disse um tanto desapontado - De qualquer forma ficou lindo em você - sorriu, dando-me um beijo na bochecha.

Corei.

- Deve ter sido caro... Ah não! Está manchado agora. O seu também - toquei o tecido que o cobria parcialmente.

- Tudo bem. Eu tiro isso num instante - disse orgulhoso.

- Mas...

- Tudo bem. Apenas confie no seu professor - sorriu.

Nosso elo é muito mais forte que qualquer outra coisa. Não importa se mais desafios vierem nos atormentar, continuaremos juntos. Eu acredito nisso.

- Eu amo você, sensei.

Ele sorriu gentilmente.

- Eu também, Hikaru-kun.

FIM

[1]Kami-sama: Deus

[2]Obi: Faixa de pano que tem como função amarrar o quimono.