Capítulo 21
Segundas Intenções
Sawyer ouviu Ana ressonando suavemente em seus braços e soube que ela estava dormindo profundamente. Passou a mão por seus cabelos, acariciando-os vagarosamente. Beijou-lhe o topo da cabeça e levantou-se da cama devagar para não acordá-la. Procurou por suas roupas e as vestiu. Saiu da barraca de Ana e encontrou o acampamento muito quieto. A maioria das pessoas já tinha ido dormir mas ainda havia algumas fogueiras acesas.
Ele caminhou descalço pela areia fria da praia até sua própria barraca. Quando chegou lá ele entrou, ajoelhou-se na cama e afastou alguns livros e papeis para o lado. Cavou a areia embaixo deles e encontrou uma caixinha de couro. Sawyer acendeu uma lanterna, abriu a caixinha e vislumbrou um anel dourado com pequenos brilhantes de rubi adornando-o. Sorriu segurando o anel em sua mão. Colocou-o de volta na caixinha e deixou sua tenda.
Caminhou dessa vez até a fogueira mais afastada das barracas, a fogueira cujo fogo estava quase extinto em frente à igreja construída por Charlie e o Sr. Eko. Ele encontrou o padre ainda acordado, sentado nos degraus de madeira da escada sozinho.
- Boa noite.- disse Eko.
- Boa noite.- respondeu Sawyer. – Era com o senhor mesmo que eu queria falar.
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Ana sentiu frio e puxou o cobertor contra si cobrindo-se até os ombros. Foi quando ela notou que Sawyer não estava mais na cama com ela.
- Sawyer?- ela chamou erguendo o corpo ligeiramente e buscando-o no escuro.
Ela ouviu um barulho do lado de fora de sua barraca e sentiu-se apreensiva.
- Quem está aí?- sussurrou.
- O seu biscoitinho loiro.- Sawyer respondeu entrando na barraca e Ana relaxou voltando a deitar-se na cama.
- Onde você foi?- ela indagou com um bocejo. Sawyer tirou a camisa e a calça jeans e foi deitar-se ao lado dela.
- Tirar água do joelho.- ele respondeu envolvendo-a com os braços.
Ana-Lucia aninhou-se contente no abraço dele.
- Você acha que um dia a gente vai dormir juntos numa cama de verdade?- ela perguntou com os olhos fechados.
- Tipo uma cama king size com travesseiros de plumas de gansos criados na Europa e lençóis macios de algodão egípcio? Acho que sim.
Ela riu baixinho.
- Sawyer...- ela chamou depois de alguns minutos em silêncio.
- Hum?- respondeu ele, sonolento.
- Tem alguma coisa estranha com o Michael.
- Com o Mike?- Sawyer retrucou. – Como assim?
- Eu sei que ele está desesperado para encontrar o filho mas tem alguns pontos na história que ele está nos contando que não fazem sentido. Você sabe que os Outros atacaram o meu grupo do outro lado da praia. Eles sabiam o que estavam fazendo, não me parecerem nem um pouco fracos como o Michael diz.
- Eu tenho que concordar com você. Quando encontramos com aquele filho da puta que atirou em mim na jangada eu senti a mesma coisa, que eles sabiam o que eles estavam fazendo. Se o Jack não tivesse feito o acordo com eles, tenho certeza que a Kate estaria morta agora.
Ana assentiu e comentou:
- O Jack é louco pela Kate. Percebi isso no primeiro dia em que pisei nesse acampamento. Você e ele meio que disputavam ela, né?
- Ana, isso é passado, baby. Eu sou louco por você, minha florzinha ciumenta.
Ela sorriu e virou-se para beijá-lo, em seguida disse:
- Outra coisa estranha na reunião foi que o Michael ficou insistindo que seis pessoas são o suficiente para ir nessa missão, mas o Jack quis incluir o Sayid, especialmente porque você tinha dito que não estava interessado em ir. Quando eu mencionei que iria tentar convencer você a vir conosco ele pareceu satisfeito.
Sawyer franziu o cenho.
- E tem mais.- Ana continuou. – Jack continuou insistindo que precisamos do Sayid, mas o Michael falou que seria melhor se o Sayid ficasse para cuidar do acampamento. O Jack foi falar com o Sayid assim mesmo mas não conseguiu encontrá-lo e ninguém sabe dele.
Ele pensou por alguns segundos e disse:
- Eu acho que eu tenho uma ideia da onde o Sayid possa estar.
- Sério?- Ana retrucou.
- Sim.- respondeu ele. – E se você acha que tem alguma coisa estranha com o Michael vamos manter isso entre nós por enquanto. Se tem algo acontecendo com ele, nós não queremos que ele perceba que estamos desconfiados.
Ela concordou e virou de costas para ele ao mesmo tempo em que segurava-lhe a mão e a trazia de encontro ao seu seio. Sawyer sorriu e acariciou o seio dela vagarosamente enquanto se aninhava ao lado dela preparando-se para dormir. Ana colocou sua mão por cima da mão dele que segurava-lhe o seio e fechou os olhos, adormecendo alguns minutos depois.
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O sol mal tinha surgido no horizonte e o grupo que partiria ao resgate do menino Walt no acampamento dos Outros já estava preparado para partir. Naquele momento, Jack, Kate e Locke conversavam sobre os últimos detalhes antes da partida quando Sawyer e Ana-Lucia se aproximaram deles de mãos dadas, ambos carregando suas mochilas nas costas.
- Todos prontos?- indagou Sawyer com um de seus sorrisos irônicos.
Jack ia dizer alguma coisa mas foi interrompido por Michael que chegou de repente.
- Obrigado por juntar-se a nós, Sawyer. Nós decidimos na reunião que iríamos em um grupo pequeno para não chamar a atenção.
- Por mim tudo bem.- respondeu Sawyer. – Fico feliz que você não tenha guardado rancor de mim.
Michael franziu o cenho.
- Do que você está falando?- ele retrucou sem entender.
- Eu estou falando daquilo que eu disse depois que a gente se salvou da jangada. De quando você surtou e foi atrás do Walt sozinho. Eu disse que não me importava com você porque não éramos amigos mas eu tinha levado um tiro, tava bem baqueado, sabe como é. Mas a verdade é que eu me importo sim e quero te ajudar a encontrar o teu filho. Cara, se eu não me importasse eu não tinha tomado um tiro tentando impedir que o Walt fosse levado.
Michael não teve nenhuma resposta para as palavras de Sawyer. O texano acrescentou:
- Além do mais, se a minha tigresa vai nessa missão, nada mais natural que eu a acompanhe.
Ana-Lucia sorriu.
- Seja bem-vindo ao grupo, Sawyer.- disse Jack. – Precisamos ir!
O grupo se despediu rapidamente dos outros habitantes do acampamento e seguiram em direção à floresta, desaparecendo entre as árvores.
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Sayid caminhava a passos curtos calculando mentalmente o tempo que levaria até que encontrasse seus amigos. Sua mente também revelava trechos do acordo que fizera com Juliet no dia anterior ao descobrir que Michael em seu desespero de pai levava seus amigos para uma armadilha.
Flashback
-Você já sabe o que deve fazer, Sayid?- perguntou Juliet uma hora antes da partida programada de Sayid da estação dos Outros.
- Eu encontro meus amigos na floresta quando estiverem a caminho do acampamento dos Outros, digo que conheço um atalho e faço com que eles se percam da rota original de Michael enquanto você mexe os pauzinhos para soltar o Walt e roubar o comunicador via satélite do seu líder para que tenhamos uma chance de nos contactar com o mundo exterior. – finalizou Sayid descrevendo todo o plano dela. – Acha mesmo que isso vai funcionar? Meus amigos não são estúpidos para não perceberem esse tipo de coisa.
- Isso vai depender de você.- disse Juliet. – Você precisa mantê-los fora do caminho até que eu possa cuidar de tudo. Prometo que não irá se arrepender. Espero que consiga!
- Você quer que eu consiga para te ajudar a escapar da ilha.- ele afirmou.
- Sim, mas não apenas por isso.- revelou Juliet. – Mas também porque eu gostaria de vê-lo outra vez.
Ela olhou intensamente nos olhos dele, seu olhar dizendo coisas silenciosas que apenas Sayid fora capaz de compreender. No momento seguinte ele a beijou, primeiro timidamente, mas Juliet retribuiu o beijo e o aprofundou. Quando se separaram nenhuma palavra foi dita.
Fim do Flashback
Depois de horas de caminhada, o calor e a umidade dentro da floresta começaram a ficar insuportáveis e o grupo sentiu vontade de parar para descansar mas Michael mantinha-se à frente deles caminhando incessantemente.
O sol de meio-dia estava particularmente difícil de aguentar para Ana-Lucia. Ela estava começando a sentir-se enjoada e um pouco tonta. Mas não disse nada para ninguém, continuou caminhando e procurando ao máximo se proteger do sol forte com a ajuda da copa das árvores, mas em um dado momento quando o grupo atingiu uma clareira e eles tiveram que caminhar por mais de meia hora debaixo do sol forte, Ana fraquejou.
Sawyer notou de imediato que tinha algo de errado com ela, estava pálida e andando devagar. Quando ela parou de andar, Sawyer parou ao lado dela, os outros porém continuaram.
- Hey, Lucy, o que foi?- ele perguntou tocando a testa dela. – A sua pele está fria.
- Eu estou um pouco zonza.- ela admitiu. – E com fome... – acrescentou.
- Hey, bora parar uns minutos!- ele gritou para os outros que pararam de imediato mais adiante ao ouvir a voz dele. – A gente precisa comer e dar uma descansada.
- Certo.- concordou Lock, mas Michael olhou feio para ele.
- Cara, não dá pra gente parar não! Vamos comendo no caminho.
- Michael, não podemos fazer isso.- disse Jack. – Estamos andando direto há muitas horas debaixo desse sol. Precisamos de um tempo.
- Ok.- disse ele. – Dez minutos então.
- Vinte!- gritou Sawyer.
- Que seja!- disse Michael.
Kate jogou sua mochila no chão e deitou-se na grama, usando-a como um travesseiro. Jack jogou-lhe um cantil com água e ela o agarrou de imediato. Sawyer ajudou Ana-Lucia a sentar-se na grama e lhe passou uma garrafa de água. Ela bebeu em pequenos goles e em seguida usou parte da água para molhar sua testa e a nuca.
- Tá tudo bem?- indagou Jack percebendo que Ana estava pálida.
- Sim.- respondeu ela. – Só tá muito calor.
- Está mesmo!- concordou Kate molhando o rosto com um pouco de água do cantil.
Jack também bebeu um pouco de água e começou a caminhar em direção à uma parte mais afastada dos outros. Sawyer o seguiu.
- Ei, doutor! Vai fazer xixi? Me espera que eu vou também.
Jack parou e franziu o cenho.
- Preciso dar uma palavrinha contigo.- sussurrou Sawyer.
Os dois andaram para o meio das árvores. Jack olhou para Sawyer, curioso sobre o que ele iria dizer mas Sawyer foi para um cantinho de frente para uma árvore, abriu o zíper da calça e começou a fazer xixi.
- Foi mal, doutor. Eu quero falar contigo, mas também queria fazer xixi.
Jack balançou a cabeça negativamente efoi para outro canto e fez o mesmo. Quando eles terminaram, Sawyer finalmente disse:
- Tô suspeitando do Michael.
O médico ergueu uma sobrancelha.
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Depois de tomar água e descansar por alguns minutos, Ana-Lucia conseguiu levantar e resolveu ir fazer suas necessidades antes da partida do grupo. Kate notou que ela se afastava e perguntou:
- Tá indo ao banheiro? Posso ir com você?
Ana-Lucia assentiu. As duas caminharam juntas alguns metros dentro da floresta. Ana tinha levado sua mochila e tirou alguns pedaços de papel higiênico de dentro dela e ofereceu a Kate.
- Obrigada.- disse Kate.
As duas se afastaram procurando um pouco de privacidade entre as árvores e quando terminaram usaram um pouco de água do cantil de Kate para lavar as mãos. Ana enxugou as mãos na calça jeans e levou um susto quando ouviu Kate dizer:
- Você está grávida, não está?
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- Então você acha que o Michael está nos levando para uma armadilha?- indagou Jack lavando as mãos com a água de uma garrafa que ele tinha trazido, oferecendo-a à Sawyer em seguida.
- É o que parece.- disse Sawyer. – Portanto eu sugiro que a gente siga um caminho diferente do dele.
- O caminho para a tal estação fazenda aonde você acha que o Sayid pode estar?
Sawyer assentiu.
- Mas como vamos fazer isso sem o Michael perceber?
- Deixa comigo, Jacko. Ele não vai perceber.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos até que Sawyer disse:
- A Ana-Lucia está grávida.
Jack arregalou os olhos, surpreso.
- Eu preciso protegê-la.- Sawyer acrescentou. – Você sabe que os Outros tem essa coisa com mulhers grávidas e crianças...
Jack tocou o ombro dele num gesto de conforto. Tinha entendido tudo.
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- Eu não vou contar pra ninguém.- disse Kate. – Mas eu percebi que você tava grávida, os seus sintomas, a maneira com que está protegendo a sua barriga...
Ana assentiu.
- O Sawyer já sabe?
- Já.- Ana respondeu. – E por mais incrível que pareça, ele ficou feliz.
Kate sorriu.
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O grupo voltou à caminhar dentro da floresta por mais algumas horas. Michael tinha sua rota traçada mas Sawyer fez tudo o que pôde para desviá-los do caminho. Michael levou um tempo para perceber mas quando a noite caiu ele começou a questionar Sawyer e seus atalhos. Locke estranhou também mas Jack conseguiu evitar que ele fizesse perguntas.
Quando eles chegaram perto de um riacho, Michael disse:
- Hey, pessoal, vamos fazer uma parada. Aqui parece bom, o que acham?
O grupo concordou, aliviado por poderem parar novamente para descansar.
- Aqui parece bom o bastante para passarmos a noite.- disse Jack.
- Com certeza.- disse Michael. – Mas infelizmente parece que estamos à muitas milhas da nossa rota original graças ao Sawyer.
- Por que?- retrucou Sawyer. – Eu só estava tentando ajudar. A tua rota original tinha muitas pedras e colinas pelo caminho, os meus atalhos ajudaram a gente a avançar.
- Avançar pelo caminho errado.- queixou-se Michael.
- Gente, eu...- Locke começou a dizer.
- Cala a boca, John.- sussurrou Jack. Locke calou-se de imediato. – Eu acho que devemos ficar aqui esta noite e voltar pro nosso roteiro inicial quando amanhecer.- disse o médico. Quem tiver alguma objeção levante a mão!
Apenas Michael levantou a mão.
- Sendo assim, ficaremos aqui esta noite. – disse Jack.
- Por mim tá ótimo!- disse Ana-Lucia.
O grupo montou acampamento. Locke acendeu uma fogueira discreta para que eles pudessem tomar uma bebida quente e cozinhar algumas batatas que tinham trazido para comer com carne seca.
Ana-Lucia estava sentada perto da fogueira, uma de suas mãos afagava discretamente sua barriga.
- Baby, eu vou pegar mais um pouco de água fresca pra gente.- disse Sawyer a ela beijando-lhe os lábios ternamente. Ela assentiu.
Michael viu quando Sawyer dirigiu-se ao riacho que ficava perto de uma colina muito alta. O texano abaixou-se diante do riacho para encher duas garrafas de água. O Nova-iorquino aproximou-se dele por trás dizendo:
- Por que está tentando nos tirar da rota?
- Do que está falando?- indagou Sawyer virando-se para olhar para ele.
- Você sabe do que eu estou falando!
- Muito bem então.- Sawyer ergueu-se do chão. – Eu estava certo. Por que está nos levando para a toca do lobo e pra qu os Outros querem a Ana-Lucia?
- Sawyer, você não sabe como é, você não tem filhos.
- Eu te fiz uma pergunta, Mike!
- Sawyer...
Sawyer largou as garrafas de água na grama e empurrou Michael. Michael o empurrou de volta. Sawyer tentou dar um soco nele mas Michael desviou o rosto usando um de seus punhos para dar outro empurrão em Sawyer. As botas de Sawyer deslizaram no chão de terra batida próximo ao abismo. Ele tentou empurrar Michael pra baixo de cara no chão. Michael revidou e acabou empurrando-o com mais força do que queria.
Ana-Lucia apareceu nesse momento e viu quando Sawyer escorregou, deslizando colina abaixo, caindo no abismo. Ela gritou histérica: - Sawyerrrrr!
Continua...
