Seven
Sisters
Petit
Ange
"(...)
And all the fears you hold so dear
Will turn to wisper in your
ear
And you know what they say might hurt you".
– Duvet
(BoA).
Vigésima Primeira Noite: Víbora da Cruz.
A albina engoliu em seco. Ver Elise na sua frente fê-la lembrar dos olhos loucos com os quais ela a fitou há algum tempo, antes de abandoná-la a própria sorte com um bando de moradores transformados.
"Acredita-me, fico radiante de felicidade ao ver-te contente." – e aquele risinho dela continuava, firme e forte, lá.
"Definitivamente... Você não é Elise, não é?" – ficou um pouco quieta. – "Eu sabia que havia algo errado com você, mas... É Alice de York, correto?"
"Oh, eu tive tantos nomes nestes anos todos, caríssima!..." – suspirou. – "Mas admito que sois uma pequena interessante. De fato, durante dezesseis anos, fui conhecida como a lady Alice de York."
Ali estava algo que ela já imaginava. Ela já sabia, de alguma forma.
"O fato de você estar aqui até hoje, deste jeito..." – Archer começou. Ouvir a resposta da garota das roupas agressivas fê-lo ter um estalo. – "...Não é meramente uma 'missão de vida não-cumprida'. Ninguém morre com todo esse ódio sem um bom motivo. Há algo além disso que a História não diz."
"A História olvida de muitos detalhes."
"Então, o que ela esqueceu de contar que fez você..."
"Proponho-lhes um acordo, caríssimos." – Alice desencostou o corpo de Elise, seu invólucro físico, e cruzou os braços. – "Vamos brincar. O clima está tenso em demasia, uma brincadeira irá aliviar-nos."
"Brincadeira...?"
"Isso mesmo. Os caríssimos já ouviram falar na 'Víbora da Cruz'?
"Aquela brincadeira infantil...?" – foi Archer quem respondeu.
"Brincadeira infantil? Credo, eu tenho medo dessas crianças de interior... Elas sabem brincadeiras do tempo da vovó!" – Aileen revirou os olhos.
"Ei! Nem vem com essa, eu nunca brinquei disso!"
"Do jeito que falou, foi como se tivesse brincado!"
"Pra começo de conversa, permita-me lembrá-la que eu não nasci aqui! Eu vim do que você chama de 'civilização', tá, garotinha-da-cidade?!"
"Escuta aqui, menino-caipira..."
"Permita-me lembrar-vos de que eu ainda vos escuto." – a lady sorriu. – "Peço-lhes que deixem estas cenas para quando estiverem a sós."
Os adolescentes soltaram-se imediatamente ao ouvir a voz da outra, e se fosse possível, Aileen corou como um tomate no mesmo instante. Lembrou-se, de repente, da primeira vez em que conheceu Elise, onde ela lhe fazia perguntas que tingiam de vergonha suas bochechas naturalmente.
"Ok, de qualquer forma, nós aceitamos a brincadeira." – foi Archer quem ergueu-se de repente e encarou-a, dizendo aquilo. – "Mas temos uma exigência a fazer."
"Aceito ponderar acerca a mesma. Diga que exigência é essa."
"Se nós pegarmos você, terá que nos responder algumas coisas."
Alice ficou algum tempo calada, como que analisando o semblante do garoto que, naquele momento, transpirava segurança.
"De acordo. Se pegarem-me, irei responder-vos o que desejarem. Entretanto..."
"Qual é a sua exigência?"
"Ireis morrer se eu vos pegar. Os dois." – e sorriu. – "De acordo?"
"...De acordo." – foi Aileen quem respondeu, erguendo-se também. – "Pode preparar-se para nos responder em breve, Alice."
"Sois pequenos muito atrevidos. Terei prazer em admoestar-lhes."
"Veremos."
"Stephan, tu conheceis as regras do jogo, não?" – ela virou-se da albina para o garoto alto, com o eterno sorriso de menosprezo no rosto.
"Conheço. Você deve começar a cantar a música."
"Ireis fugir, não correr ao meu redor. Será uma mistura disto com pega-pega, creio... Parece-me muito interessante."
"É mesmo, parece legal." – ele sorriu. – "Vamos começar logo, afinal, quanto mais cedo fizermos isso, mais cedo arrancamos respostas e acabamos com você."
"...Quanta audácia."
Aquele resmungo cheio de raiva contida foi, em seguida, continuado pela ação da garota dos cabelos lavanda de fechar os olhos. No momento em que ela o fez, abriu-lhes caminho pela porta, de braços cruzados, um meio sorriso nos lábios.
"Aileen, essa é a nossa deixa!" – o rapaz agarrou o pulso dela.
"Quê? O que ela vai fazer?" – a garota, conhecedora de esparsos detalhes acerca o mundo das cantigas infantis, não sabia o que era aquilo.
'Ó, Víbora da Cruz, ó Víbora da Cruz...'
Archer foi desviando-se dos cadáveres daqueles monstros, todos jogados ao chão com o impacto das balas, e abrindo caminho, sempre com a albina atrás, ainda não entendendo nada. Ouvir a voz de Elise recitando aquela canção era como uma contagem regressiva para algo que ele não sabia o que era, só sabia que devia vencer.
'...Por aqui eu passarei, por aqui eu passarei...'
O chão rangia a cada passo que davam, e estes mesmos sons mostraram à lady dos olhos cerrados que, agora, eles já desciam as escadas. Sorriu, certa de que iria enfim ter a vingança tão esperada. Décadas sem fim a separaram daquele momento.
'...E alguém eu deixarei, e alguém eu deixarei...'
Não havia nenhuma lua, nenhum som além dos corações de ambos batendo ou dos trovões que eventualmente caíam do céu, quando eles deixaram os limites da mansão de York. Tanto a albina quanto o garoto dos olhos azuis sabiam que, se tratando daquela pessoa, quanto mais distante melhor.
'...Qual delas será?'
"Pra onde a gente tá indo, exatamente?" – ela perguntou, esbaforida.
"Nem eu sei... Pra qualquer lugar bem longe da mansão, acho." – respondeu, igualmente arfante.
Os dois continuaram correndo, ignorando as criaturas que, eventualmente, viam-lhes e teimavam em segui-los. Archer achou que, se fossem seguidos, seria muito mais fácil de achá-los. Firmou o aperto no pulso da albina e correu pelo outro lado bruscamente, assustando-a, mas fazendo-a entender no mesmo instante que era por uma questão prática de despistar.
'O primeiro corre muito, o primeiro corre muito...'
Fazendo um sinuoso caminho pelas ruas desertas e pouco iluminadas pelos mesmos raios que eram a única fonte de luz, os dois adolescentes conseguiram desviar parte dos monstros. Aileen achou de bom tom não usar a arma, pois poderia trazer problemas caso escutassem-na, e o garoto concordou, privando-se do seu uso por enquanto. Sobrou-lhes, assim, continuarem a tentar despistar aquelas coisas, mas parecia que elas chegavam ao menor sinal de grunhidos emocionados de seus 'colegas'.
'...Mas o segundo eu pegarei.'
"Prontos ou não, meus pequenos, lá vou eu." – Alice sorriu.
E, por detrás de seu corpo, a mesma aura negra que sugou a albina há algumas horas atrás surgiu outra vez. Os olhos da garota já não mostravam mais um traço sequer de vida.
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"Acho que conseguimos..." – ela suspirou.
"É... Eles perderam nosso rastro..." – o outro confirmou.
E, em meio ao cansaço extremo do corpo de ambos, por correrem tanto tempo tentando despistar uma cidade inteira de coisas estranhas, eles riram baixinho.
"Eles são bestas, né? Qualquer animal selvagem sentiria nosso cheiro..."
"Também já me peguei pensando nisso... Acho que o olfato deles continua tão ruim quanto o de um humano normal."
"De animal, só a aparência mesmo..." – ela riu.
"Não ofenda a gente! Os outros animais merecem o mínimo de respeito!" – ele também riu, ofegando em meio à graça.
Eles continuaram a rir, e por fim, encostaram-se na parede fria. O vão entre dois prédios acabou sendo o esconderijo provisório mais seguro que acharam. E, de fato, nenhuma criatura mais achou-os ali, acabando por continuarem a seguir seus rumos, como se, num raio, eles tivessem sumido em alguma esquina.
O lugar cheirava a lixo, afinal, era bem ali que vários latões dos mesmos ficavam, guardando coisas que os dois prédios e seus moradores não ocupavam mais. E quando respiravam, um cheiro fétido lhes invadia as narinas. Mas, mesmo assim, resistiam. Não achavam que haveria chances de mudarem-se para lugares mais decentes agora.
"Eu tô vendo sua calcinha." – ele riu ainda mais ao ver a cara dela mudar de pálida para vermelha em tempo recorde.
"E-ei!" – a albina puxou mais a camiseta para baixo. – "Quem te deu permissão pra isso, seu tarado...?!"
"Não foi assim que me tratou ontem, sabia?"
Aquele risinho jocoso só a fez queimar ainda mais de vergonha e raiva, e sem pensar (diga-se de passagem: achando-se uma tonta por isso), foi até ele, com a mais pura intenção de estapeá-lo até entrar num coma.
"Pa-pare com isso! Vai denunciar nossa posição, sua tonta!..." – ele defendia-se como podia dos tapas dela, mas continuava rindo de sua raiva.
"Eu vou acabar com você, pervertido! Te odeio muito!" – e a garota nem ligava para suas súplicas.
"Ai, ai, pare ou eu..."
Dito e feito, seu medo tornou-se realidade: quando ele defendeu-se com o braço machucado, ela acabou batendo no mesmo, e uma mancha carmesim foi crescendo, espalhando-se pela superfície da roupa outra vez. Ele soltou um gemido breve, algo fruto da ardência repentina, mas suspirou pesadamente em seguida, pondo a cabeça encostada na parede fria.
"Ah... O-o que é isso aqui...?!" – Aileen, entretanto, parecia horrorizada.
"É só um ferimento... Coisinha de nada..." – mas aquela 'coisinha de nada' estava realmente doendo, agora.
"Seu mentiroso! Olha só pra isso aqui!" – ela pegou seu braço e mostrou-lhe. – "Tá totalmente acabado! E olha o remendo tosco que você fez! Nem deve ter lavado isso aqui! Idiota, tá querendo morrer, é?!"
De fato, ele quis morrer no começo daquela tarde, mas achou de bom tom privá-la temporariamente de mais aquele desgosto.
"Você também foi mordida." – apontou, com os olhos, para o tornozelo e braço dela. Eles também vertiam sangue daquelas feridas que ela ganhou.
"N-não desconverse!" – ela bradou. – "Olha só pra você... Quem fez isso?"
"Quer mesmo saber?"
"Claro!"
"Foi você."
A garota bem que quis discutir e perguntar o que diabos foi aquilo que ele acabou de dizer, mas não teve coragem. Os olhos dele é os de quem está contando o pior dos pesadelos, algo que ainda trazia medo à lembrança quando enfim recordado. E, de certa forma, eles sabiam bem o que eram esses sonhos que nunca descansavam.
Achou de bom tom ficar quieta. O silêncio, às vezes, respondia muito mais do que as palavras. E chegou perto dele tocando em seus cabelos castanhos.
"Me desculpe..." – sussurrou.
"Não foi culpa sua. Eu fui o idiota, acho." – respondeu.
Fechou os olhos, esquecendo-se temporariamente de todas as coisas, mas aquela sua consciência foi bruscamente trazida de novo quando ouviu um som.
Era como se alguma espécie de caminhão ou trator estivesse andando debaixo da terra. Não houve nenhum tremor, mas um grande som que parecia propagar-se direto em seus ouvidos. Sentiram-se enrijecer totalmente, sabendo que aquilo não podia ser um bom sinal, de jeito nenhum.
Eles quiseram falar algo, mas o susto por aquele som foi tamanho que nenhum som propagou-se no ar. Apenas aquela sensação de que havia algo realmente pesado andando por debaixo da estrada.
E, de fato, quando o som ficou cada vez mais pronunciado, eles souberam que aquilo iria, de alguma forma, acabar ali.
"...Ouviu isso, Archer?"
"Ouvi sim, mas... O que deve ser?"
"Não sei. Só sei que está me perturbando de alguma maneira..."
"É mesmo..." – concordou o garoto, olhando para os lados enquanto pegava a arma nas mãos de novo. – "Mas parece ser um som pronunciando-se debaixo da terra. Aqui é uma rua, asfalto, petróleo, pedras... Não é possível adentrar."
"Temos de levar em conta que isso é Seven Sisters, não é?" – a albina suspirou. Odiava admitir, mas quando se pensava assim, tudo, por mais banal que parecesse, podia ser uma coisa estranha.
"...Tá, você tá certa."
Eles calaram-se de novo, mas o pior erro de suas vidas foi terem falado: no instante seguinte, aquele som tornou-se alto a ponto deles terem de tapar os ouvidos. E, no meio da rua, uma estranha linha negra surgiu. Ela erguia uma enorme quantidade de poeira, como se estivesse despedaçando a estrada, mas não havia nada mais do que isso.
Por detrás de seu esconderijo, os dois viram aquilo, e souberam que aquela coisa, seja lá o que fosse, achou-lhes. Ergueram-se alvoroçados, prontos para correrem, sem nem lembrar do porquê estarem se escondendo, mas uma enorme estaca negra surgiu do chão de repente.
"O primeiro corre muito..." – uma voz feminina ressoou no ambiente.
Ao término daquelas palavras, uma nova coisa daquelas surgiu, mas imensamente maior que aquela outra. Aileen bem que tentou, mas não conseguiu escapar de ser pega por ela. Aquela mesma sensação de gelo e ardência pronunciou-se de novo em volta de si, levando-a a crer que só podia ser obra de Alice outra vez. Instantaneamente, sentiu seu corpo ser arremessado, e um deja-vù passou por sua cabeça.
"...E o segundo eu pegarei." – e, calmamente caminhando até ele, vinda da curva daquela mesma rua, a figura pálida de Elise lhe apareceu. – "Saudações, Stephan. Parece que eu ganhei."
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Jogada ao chão mais uma vez, ela deixou-se ficar. Alguma coisa em seu corpo já estava cansada, como se a queda realmente tivesse-lhe tirado todo aquele ânimo. Pensou se não havia quebrado alguma coisa, afinal, ela estava falando de um arremesso de metros. Mas não, não sentia quase nada.
Talvez tivesse quebrado-se ao ponto de não sentir nada mesmo. Tetraplégica. Mas não de novo, porque ela mexeu os dedos, e sentiu-os executarem os movimentos planejados. Suspirou aliviada, voltando a encarar o nada que a estrada proporcionava. Do canto de seus olhos, conseguiu ver o sangue de seu braço escorrendo e formando um princípio vermelho ao seu redor. Que lástima, nem tinha com o quê estancar aquilo...
Fechou os olhos, sabendo que devia ir ajudar Archer, porque alguma coisa certamente estava errada, mas não tinha mais forças.
A mente vagou sozinha para vários lugares. Parava, esparsa, no dia em que Henry Dawson e ela chegaram, e ele sorria dizendo que aquela era uma boa mudança (ah, ele engoliria amargamente aquelas palavras). Na manhã seguinte, na qual ela assustou-se muitíssimo com o fato de estar dormindo direitinho.
'Ai, ai...'
De repente, a mente levou-a para outra lembrança. Não soube porquê, mas viu-se no vestiário feminino, acompanhando a pseudo-punk (ela tinha uma boa desculpa: o sol é prejudicial para albinos. Por isso, podia ficar de fora dos exercícios, se quisesse), que trocava-se para a Educação Física.
'Que aconteceu, Elise?' – sua presença ali era o suficiente para que suas outras colegas sentissem-se, de certa forma, amedrontadas. Afinal, ela era uma garota branquela de olhos vermelhos que vivia de roupas pretas e golas muito altas por baixo do uniforme. Perguntavam até se ela não morria de calor com aquilo tudo.
'Meus seios... Eles tão meio sensíveis...' – ela suspirou, tocando-os por cima do sutiã. – 'Ontem eu notei isso, sabe... Será que é da ovulação?'
'É provável. Os hormônios LH e progesterona preparam os corpos lácteos... Nossos seios sempre ficam sensíveis nestes períodos do ciclo menstrual.' – ela sorriu. – 'Não acredito que nunca notou!'
'Ah! A Aileen fica tão legal falando assim! Até parece um gênio precoce!'
'Eu sou um gênio precoce.' – ela corrigiu-a, com aquele eterno sorrisinho irônico por estar com a garota mais simplista de todas.
'O pior é que é mesmo. Eu até digo para as pessoas que querem algo de mim: colem da Aileen. Ela sabe tudo!' – e sorriu.
A albina também quis sorrir, invadida pelas lembranças dos bons tempos onde achava que a garota, a única que não se intimidava com ela, não representava nenhuma espécie de ameaça.
Fechou os olhos de novo, mas aquela cena tão remota lhe trouxe, de repente, quando confrontada com outras cenas, tudo que precisava saber.
Por algum motivo, aquela suposição lhe trouxe vida nova.
Porque agora, ela tinha uma pergunta de extrema importância para fazer à Alice, que ela sabia estar bem ali entre eles.
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Até então, fugir daquelas coisas que brotavam do chão foi uma tarefa a qual ele dedicou-se inteiramente. A perturbada lady encurralou-o várias vezes, mas tal qual ela mesma resmungou, tomada de ódio, ele era um ratinho muito insistente. Teimava em escapar de sua morte certa.
"Stephan, estou tomada de fastio..." – ela dizia. – "Deixa-me acabar com tudo isso de uma vez. Será melhor para ambos."
'Não dá...' – o garoto, arfante, apoiava-se em seus joelhos. – 'É além de qualquer coisa que eu já enfrentei até hoje...'
Era a mesma coisa que levou Aileen, jazida do outro lado. E ele sentia-se terrível, porque sequer conseguiu chegar lá para conferir se ela ainda vivia. Ela estava imóvel, talvez desmaiada (era no que queria acreditar).
E quando ele tentava atirar nela, as balas ricocheteavam naquelas brocas que apareciam do chão. Houve até uma hora em que ela simplesmente foi arremessada, e não havia mais defesas, assim. Um dia, ele iria descobrir como saiu vivo até então, se sobrevivesse para contar (o que achava, dada a situação, pouco provável). O braço sangrava outra vez, fazendo-o ver borrões indistintos em certos momentos.
Num destes, foi quando o pior erro de sua vida ocorreu: ele parou. Estava correndo, até então, sem preocupar-se em coisas que não fossem como ouvir aquelas coisas antes delas saírem do solo (ficava imaginando que cara fariam os habitantes quando vissem a rua toda esburacada). Parou, então, porque a exaustão o consumia. Porque ele começou a ver tudo borrado de novo, atribuindo aquilo ao sangue abundante que o deixava pelo braço.
Em questão de segundos, lá estava ele, naquela cena em que encontrava-se agora: subjugado por uma Elise de olhos mortos e aura negra, com aquelas mesmas estacas bizarras feitas de alguma coisa que lembrava um éter da cor do ébano. Mas elas machucavam, mesmo não parecendo. Disso ele sabia, porque foi acertado de raspão por várias. Gemeu, em dor, esfregando os olhos.
"Pobrezinho... Estás tonto, Stephan? É claro que estás. Depois de quase morrer na mansão, se não estivesse, tu merecerias os parabéns." – ela riu.
"E... Elise..." – foi só o que ele conseguiu sussurrar.
"Não temas. Prometo-te que doerá muito pouco. Esse pouco, é claro, valerá por toda uma vida... Entretanto, prometo-te ser breve. Logo, tu morrerás."
A brincadeira acabou, afinal. E lá estava a grande vencedora, com seus olhos castanhos sem vida alguma.
Archer fechou os olhos com força. Agora sim Lisa ia terminar de acabar com ele no outro mundo. Não conseguiu, no fim, cumprir a promessa que fez à ela. Ia falhar de forma miserável e envergonharia a garota profundamente disto. Iria trazer tanto desgosto à sua mãe... E como ficaria Aileen, por Deus? Se ele morresse, Alice iria matá-la. Ouvia o som desesperado de seu próprio coração, pronto para ser perfurado e, enfim, parar de bater. Há muito tempo ele estava escapando deste momento.
"...Peguei você."
Alice sentiu um par de braços agarrá-la, numa espécie de abraço sem o mínimo de intimidade. O corpo inclinou-se levemente para trás com aquele peso. Ela viu um braço pálido que sangrava, manchando o negro de sua roupa.
Olhou para trás, sem acreditar no que estava vendo. E, contra todos os fatos, lá estava quem temia encontrar: Aileen Dawson.
"Você... Devia estar morta."
"É, eu sei." – ela riu. – "Mas você devia certificar-se de que me matou, mesmo quando me joga metros longe. Aliás, seu plano está todo errado... Demorou muito pra nos achar e subestimou a ambos. Além disso, ficou com a guarda baixa e nem me notou caminhando trôpega bem atrás de você."
"Grande Felicia." – depois de instantes de silêncio, a garota riu com gosto das palavras da albina. – "Do jeito que esperei que fosse, tu és-me um estorvo."
"...Ela te pegou, Alice." – Archer intrometeu-se. – "Você deve cumprir a sua parte do trato. Lembra-se?"
"Oh, de fato, lembro-me bem..."
Aquelas estacas que antes estavam prontas para atacar o garoto caíram, desistindo de seu intento inicial, no chão. Não houve mais tentativa de assassinato. A 'Víbora da Cruz' foi satisfeita.
"Archer, faça sua pergunta primeiro." – a albina suspirou, ainda agarrada nela.
"Por que Aileen está aqui e estava transmudada lá na entrada da mansão?" – e, realmente, aquela era uma pergunta que queria fazer desde o início. Porque seu machucado o lembrava sempre, inclusive agora, de que aquilo que passou lá e tudo que seguiu-se depois nunca foi uma ilusão.
"Eu morri exatamente ali, naquela mansão, décadas atrás. Morri no quarto ao lado do que vos encontravas. Aquela casa está impregnada de minha sanha. É o ponto mais forte da cidade no que diz respeito a isso." – a mulher respondeu, mas não havia mais tanto formalismo na voz. – "Destarte, aquilo não é ilusão. Isso é só capaz de embevecer os sentidos. Minha sanha, tudo que nesta cidade se encontra graças à ela... Todas essas coisas são capazes de ferir e matar. A energia que emana da mansão é capaz de prender-se em teu coração e arrastar-te aos teus mais profundos pânicos. Tu não foi nada além de uma infeliz vítima de ti mesmo."
"Deixe para pensar nisso depois, Archer..." – Aileen lhe perturbou, antes que ele pudesse, de fato, ficar pensativo acerca isso. – "Escute bem o que eu vou perguntar e o que Alice de York irá responder."
O aperto em torno do corpo de Elise foi aumentado, quando a albina chegou mais perto de seu ouvido. O coração da albina batia apressado, e a lady o sentia, retumbando por suas costas.
"Faça-a, pequena... Ela parece importante."
"Sim, dependendo da resposta, muita coisa explica-se." – e, encarando-a, sussurrou-a em seu ouvido, alta o suficiente para o rapaz também ouvi-la. – "Alice de York... É verdade que Elise está grávida?"
Continua...
Próxima Noite: Elise I.
