Três anos se passaram. Durante esse tempo todo, um homem tentou superar em seu silêncio a perda de sua amada. As poucas visitas que passou a fazer depois de um ano já foram provas de uma pequena superação. Mas ainda foi difícil encarar tudo aquilo. Eram noites de bebedeiras em seu quarto, solitário. Chegou a jurar para si mesmo que jamais amaria outra pessoa como amou Melissa. E todo esse pesar foi sendo superado sem o ombro amigo de ninguém. Jamais quis dividir ou confessar essa dor. Às vezes parecia que nada poderia agitá-lo, mas quando lhe vinha aquela tristeza e arrependimento, não eram momentos fáceis. Era um lado dele, ninguém tinha permissão para ver.
Mas nem por isso deixou de lado suas ambições e planos. Tudo já estava esquematizado e só faltava a autorização dele. Muitas coisas haviam mudado desde o fim trágico da família de seu irmão. Aquilo havia amadurecido o bando. Principalmente as crianças, que estavam mais crescidas.
Partiriam de Spider Miles naquela noite mesmo, ancorando em Dressrosa secretamente. Mas antes de sair definitivamente daquela base, foi mais uma vez visitar aqueles túmulos. Colocando flores e uma taça de vinho branco na lápide dela, Doflamingo brindou sua próxima missão com a outra taça cheia na mão.
– Espero que tenhamos sorte, Melissa. Vai ser chato em te deixar aqui... mas prometo visitá-la quando puder. – ele pausou a voz serena que sempre se dirigia à ela para beber um gole longo, quase finalizando toda a bebida na taça – ...queria te levar tanto comigo... e vivermos em Dressrosa juntos, nós três... – olhou para a lápide menor, da criancinha que nem teve dois dias de vida direito.
Sua garganta apertada e por um momento sua visão turva. Levantou-se. Lembrou que aquele não tinha sido a primeira taça que bebeu. Não era momento para chorar e nem embriagar-se.
– Até um outro dia, minha querida. Tenham vocês dois bons sonhos.
Virou-se de costas para os túmulos e desceu a montanha. Dessa vez, Señor Pink estava às escondidas, oferecendo proteção secreta ao Jovem Mestre. Com um visual similar a de um bebê – com roupas e uma chupeta – ele saiu antes de ser percebido. Retornou até o velho castelo onde estavam todos e passou as últimas instruções. A hora era aquela.
...
Dressrosa.
Um país próspero e feliz. Governada por um rei devoto ao seu povo. Um lugar que teria o prefácio de um pesadelo que seria escrito por Doflamingo. Começando naquela noite mesmo, invadindo a janela do quarto da Majestade Rei Riku.
– O que quer aqui? Quem é você? – o rei de voz áspera e firme perguntou assustado, ao ser acordado repentinamente.
– Permita-me a apresentação. Meu nome é Donquixote Doflamingo... e acho que já sabe o que meu nome sugere, não?
Uma gota de suor desceu pela testa do Rei Riku.
– Esse nome é familiar... recentemente, ouvi falar de um pirata com esse nome e que nada por esse mares com seu bando... e fiquei preocupado.
– Há uma razão mesmo para se preocupar. Sabe de uma coisa? Sou descendente da Família Donquixote, que já governou esse país uma vez e teve seu poder tirado injustamente. E como o legítimo rei desse país, vim recuperar o lugar que me pertence! Fufufufufu...
– ...mas você roubou um navio de escolta que levava o "tributo celestial" do dinheiro de suporte para os Dragões Celestiais de diversos países e também se tornou um Shichibukai devido a uma chantagem que fez ao Governo Mundial... foi o que ouvi dizer.
– Hehe... eles nem sabem o que fazer comigo. O Governo Mundial não podem lidar comigo e eu não temo os Tenryubitos... mas como já sabe tudo acerca de mim, vamos direto ao assunto: eu quero meu país de volta!
O velho rei coçou a cabeça, confuso e atordoado ao ver tal homem perigoso lhe exigindo tal "direito".
– E se recusar... haverá uma batalha sangrenta que vai comprometer seu amado povo. Mas... não sou tão malvado como parece. Darei uma chance que pode salvar todos dessa batalha sangrenta: eu vendo esse país para você por dez bilhões de berries.
– O quê?! Vai vender esse país por dinheiro?!
– Acho um preço justo. – ajeitou seus óculos e prosseguiu – Eu poderia tomar o que é meu na base da força, e você sabe que eu posso... – terminou a frase apontando para o rei.
– ...se for para evitar uma guerra dessas, eu o farei. Mas... dez milhões de berries...
– Bilhões. Dez bilhões de berries. – corrigiu Doflamingo.
– É dinheiro demais para conseguir em tão pouco tempo!
– Claro que tem! ...raspe tudo o que seus queridos cidadãos têm. Esperarei até o amanhecer. Não poderá pedir ajuda a nenhum país aliado. É seu teste de força como um rei. E nada do que acontece agora entre nós deverá ser revelado. Mantenha sigilo dessa nossa conversinha.
Ele deu as costas ao rei, posicionando-se na janela para sair.
– Tem duas escolhas para serem resolvidas por você, Senhor Riku: coletar o dinheiro para evitar uma guerra... ou lutar contra mim e ver o sangue do seu povo ser derramado. Seja sábio na sua escolha. Até!
Riku estava se sentindo perdido. Enquanto Doflamingo voltava para o navio principal que havia sido recuperado graças a uma trapaça de Vergo na Marinha, Rei Riku ocupou sua madrugada em passar a ordem para os soldados, para que transmitissem para o povo.
– E então, Doffy? Como foi o encontro com o rei? – perguntou Trébol.
– Ótimo! Nunca me senti tão bem ao lidar com um rei tão frouxo. Fufufufu...
– Será que ele conseguirá com a ajuda do povo? – Gladius também mostrou interesse no assunto.
– Nada! ...fiz apenas isso para ter mais um tempo, enquanto vejo o que farei com Dressrosa depois que limpá-la.
...
Em um bar nas ruas de Acacia, um mágico divertia seu público com seus truques de ilusionismo, sendo calorosamente aplaudido.
– Esse é o nosso Rei dos Mágicos! – gritou uma senhora idosa, sacudindo sua bengala.
– Rei dos Mágicos, faça aquele truque... – sugeria um homem, pedindo o truque.
– Bravo, bravo! – uma mulher, piscando um dos belos olhos verdes, lhe jogou uma rosa vermelha, sendo pega por este homem.
– Olha, o elogio posso aceitar, mas não uma paquera. Sou casado e tenho dois filhos.
Todos riram daquele comentário.
– Ahh... que pena, não é? – disse a mulher, ainda com ar de flerte.
De repente, cavalos do rei Riku apareceram ali, pedindo a atenção do povo. Todos ouviram o que eles tinham a pedir.
– Mas... por que esse dinheiro? – perguntou o mágico.
– Vossa Majestade, o Rei Riku, sabe disso?
– Mas... é a ordem dele! – afirmou o soldado, aparentemente tenso.
O mágico olhou-o de lado.
– Isso é muito estranho... por que um pedido desse de urgência, antes mesmo do amanhecer? ...será que isso é uma espécie de chantagem e vocês tem que resolver isso com o nosso dinheiro? – questionou o mágico, sendo apoiado pelos cidadãos ao redor.
Antes que o soldado pudesse falar algo, o rei fez uma transmissão ao vivo pelos telões espalhados pela cidade. Ele fazia o pedido novamente. Curvando-se diante do povo, justificou que não poderia falar o verdadeiro motivo, apenas garantindo que isso salvaria o povo.
– Já imaginava... – comentou o mágico, coçando o queixo.
– Gente... é o nosso amado rei, pondo-se de joelhos! De joelhos pedindo ajuda! – disse um outro homem, apertando os punhos – Devemos ajuda-lo sem contestar!
Assim, todos passaram a pensar dessa forma. O mágico ainda ficou desconfiado daquilo.
– Eu vou à frente! Vou também pedir a todos que ajudem, também vou dar minha contribuição ao Rei Riku.
E o que ele quis fazer era avisar a mulher e aos filhos o que pressentia. Correu até sua casa e contou o que havia acontecido.
– Meu querido! Não somos ricos... e o pouco que temos... é o básico para sobrevivermos! – comentou a mulher de cabelos ruivos e desbotados, com alguns fios brancos se destacando.
– Foi como eu suspeitei: alguém mais poderoso está chantageando o rei. E vai querer comprometer esse país! – disse o homem, tirando a cartola de mágico e revelando a cabeça grisalha. – E cadê as crianças?
– Foram dormir, eu acho. Ah, não! Tass está consertando aquelas coisas para você.
– Ah, falando nisso... esqueci meus objetos de mágica lá no bar! Mas tive que vir correndo, e olha: não me saiam de casa por nada! Proteja nossos filhos. Deixe-os no porão.
– Mas o que você vai fazer? O que quer dizer com isso?
– Temo... que haja uma batalha sanguinária ainda hoje.
– Por favor... não se arrisque desse jeito! – ela agarrou o braço do marido.
– Não se preocupe comigo... também vou me proteger... apenas quero... ao menos... nosso dinheiro guardado.
– Oh, não! Nós lutamos duro para ter todo aquele dinheiro! Deixamos os outros mais ricos resolverem isso, não nós!
– Cinco berries apenas pode fazer a diferença... pelo menos, vamos dar a metade.
– ...querido.
Apareceu o filho mais velho, de dezesseis anos, na sala.
– Que está havendo aí? Estão falando tão alto! – ele limpava as mãos sujas de graxas.
– ...vai, querido! Explica para ele a situação.
A filha, Aimi, dormia em seu quarto. Tinha um pesadelo estranho, envolvendo guerra, sangue e morte, de um modo confuso e assustador que a fez acordar sobressaltada. Passando a mão na testa suada, levantou-se, indo até a cozinha beber um pouco d'água. Ao passar pela sala, viu a mãe sendo consolada pelo irmão.
– Mas o que houve?
– Aimi! Minha filha! – a mulher foi até a filha de treze anos e abraçou-a.
– Mamãe... o que está acontecendo? – olhou para o irmão de cabelos castanho-escuros de um tom mais fosco. – Tass, o que está acontecendo com a mamãe?
– ...Dressrosa está por perto de sediar uma guerra, e o rei depende de um preço em dinheiro para evitar tal desgraça!
– ...o quê... igual no meu pesadelo?
– Pesadelo? Você teve um pesadelo? – abraçou a filha novamente.
– Tive. Por isso acordei e vim beber um pouco d'água.
– Venha comigo, Aimi... vamos até a cozinha. Também preciso beber um pouco d'água. Tass! Nem pensa em sair de casa, agora!
– Está bem, mamãe! Está bem! Vou voltar para a oficina, qualquer coisa estou lá.
Todos contribuíram para o rei. Inclusive o mágico. Mas não foi o suficiente. Em poucas horas, o dinheiro não foi o suficiente e Doflamingo, já em terra firme, usou sua gaiola de fios, poder de sua Fruta do Diabo, para cercar toda a Dressrosa.
– O show vai começar! – disse ele, ligando fios nos corpos dos soldados e inclusive do Rei Riku. Todos os que eram manipulados que nem marionetes estavam sem entender o porquê dos seus movimentos involuntários. Todos eles estavam sendo manipulados para atacarem o povo de Dressrosa. O começo do ataque foi em Sebio, no Sul de Dressrosa, com o próprio Rei Riku "atacando" as pessoas com sua espada.
Não só eles estavam atacando Dressrosa, como também a Família Donquixote. Mas estes faziam tudo cuidadosamente para que não fossem percebidos. Todos corriam desesperados, não entendendo por que os soldados e o rei estavam atacando aquele povo tão fiel e solidário? O mágico começou a correr. Ele não tinha certeza se seria capaz de lutar contra a morte quase que evidente, mas queria ter a segurança de morrer vendo sua família dentro de casa, protegida. E ele precisava um pouco mais de sua vida. Pelo menos não enquanto ele estava tentando salvá-los.
– Não posso voltar até eles para pedir que fiquem novamente ali, sem sair de casa... senão, o meu filho vai querer sair para me proteger... – disse ele, observando sua casa a uma distância considerável.
– Por que... meu corpo se move sozinho? Eu... não quero fazer isso... Doflamingoooo! Eu sei que isso é culpa sua! – gritava o rei Riku, desesperado, ferindo e matando pessoas sem intenção nenhuma.
De um dos pontos mais altos da cidade, os três Agentes Oficiais e Doflamingo, manipulando aquela gente, observavam a destruição daquela Dressrosa, a qual chamavam de "faxina".
– Vamos limpar essa cidade com o sangue deles! – comentou Trébol, rindo daquela cena.
– Foram anos de espera... e finalmente estamos fazendo isso.
– E então, Doffy? Néee, já chegou a hora?
– Seu bobo... não precisa ter pressa... eles precisam conhecer ainda mais o medo e o desespero... – falava movendo seus dedos, manipulando seus "fantoches" – e quando eles chegar o ápice da revolta contra Riku, aí sim os heróis vão aparecer. Fufufufufufu...
E os outros riram, concordando com ele.
– Nunca vi um rei tão mau... – comentou cinicamente.
Protegendo-se em becos, o pai de Tess e Aimi se protegia dos ataques de soldados enfurecidos.
– Isso... não é coisa do Rei Riku... parece tudo tramado... ele não está agindo por vontade própria... sinto isso!
Enquanto isso, o bando invadia o Palácio Real, com o auxílio de uma nova integrante que estava disfarçada como empregada da Família Riku. A figura alta e curvilínea da jovem mulher de cabelos verdes pôs-se diante da filha do Rei Riku, Viola, anunciando que Dressrosa teria um novo rei, a partir daquele momento. Fazendo a jovem princesa de refém, o resto do bando tratou de exterminar os restantes dentro do palácio.
Dressrosa estava deplorável em todas as regiões. Da casa do mágico, ambos ouviram gritos e tiros.
– Ah, céus! O seu pai ainda não voltou!
– Eu... tenho que ir atrás dele! – Da cadeira onde estava, Tess levantou-se.
– Não, por favor! – mãe e irmã mais nova seguraram-no.
– Mas e o papai?!
– A prioridade dele são os filhos! Não o desobedeça! – ordenou a mãe.
– Tass... tenha fé, ele vai voltar! – disse a menina.
– ...não dá, não dá! – ele tentava se controlar, mas pensou na mãe e na irmã.
...
Entrou Doflamingo e os outros três em ação. Para salvar o povo das mãos de um rei "tão cruel".
– Nós estamos aqui para salvar esse país de um rei tão sádico... hehehe... – disse Doflamingo, partindo em direção ao Rei Riku e o atacando, assim como ele e os outros fizeram com os soldados.
Todos observaram isso. Acharam que realmente ele era o herói que salvaria Dressrosa. Pelos telões espalhados, todos viram o loiro de casaco de penas de flamingo defender aquele povo. O mágico sacudia a cabeça negativamente.
– Não são flores que se cheirem... então são estes piratas... já tinha ouvido falar nesse Doflamingo!
Correu em direção onde estava Doflamingo. Correria quilômetros, pois precisava vê-lo pessoalmente. Pelos telões, viu Rei Riku, às lágrimas, sendo suspenso no alto por Doflamingo, e depois atirado para longe. Achava aquilo tudo muito estranho. Depois de horas, o loiro e os outros percorreram por todas as outras regiões, até por fim darem de cara com o mágico, que apontou em direção a ele e gritou com todas suas forças.
– Você está usando o Rei Riku para seus atos de vandalismo!
Doflamingo fez uma cara de desdém, olhando aquele pobre homem.
– E... você me viu fazer isso? Ou me viu salvar seu povo dos ataques daquele verme? – perguntou com um tom sarcástico.
– Ora... seu...
– Mato ele, Doffy? – perguntou Diamante.
– Não ainda... e mais... quero ouvir mais de você, o que acha de mim...
– Cínico! – exclamou o homem.
– Fufufufu... pare de ser idiota e fanático por um rei que não estava nem aí para seu povo... agora, deverá curvar-se diante do novo rei! – pôs a mão no peito exposto em sua camisa entreaberta, indicando a si mesmo.
Ousadamente, o mágico cuspiu no chão, em frete aos quatro. Aquilo enfureceu ambos, obviamente.
– Prefiro a morte ao curvar-me diante de ti!
– Huh... se é assim...
Em fração de segundos, Doflamingo perfurou-o com suas linhas em seus órgãos vitais, assim como fez com o médico que cuidou de Melissa há três anos. Um grito de dor e agonia veio do mágico, juntamente com o filho cindo por trás.
– PAAAAAAI! – gritou o garoto, desesperado.
E Doflamingo continuou com a mão estendida em direção ao corpo do velho pai do garoto, mostrando que foi ele mesmo.
– Ora, ora... parece que seu pai foi inconsequente ao me desafiar...
– Não era você quem estava defendendo o povo desse rei maldito?! E matou meu pai por quê?
– Porque me desafiou, defendendo aquele traste que chamavam de rei. – nervos apareceram na testa do loiro.
Em um ato de desespero, o filho pegou uma pedra do chão e atirou no loiro, que destruiu com suas linhas. Usando Haki, fez o garoto desmaiar, antes que provocasse um escândalo maior. Não poderia ser o vilão naquele momento.
– Vamos andando! – disse Doffy, passando pelos corpos jogados no chão.
Qualquer insanidade era pouca para ele, quando o assunto era concluir seu plano malévolo de conquistar Dressrosa.
