Oi, oi gente! Bora ler mais um capítulo.

Karinepira: Yes, as mulheres dominam!rsrsrs Ninguém reparou que sou fã da Hermione...rsrs

Kkatiasantana: Prepare o coração pois o morcegão vai atacar nesse capítulo.

Daniela: Aproveite o capítulo flor, o morcegão está imperdível!

Lembre-se, comentar nunca é demais!

Bjs e boa leitura!


Certamente, Holly Golightly era uma meretriz consumada, pensou Peter Pettigrew. E além disso preparada, capaz de riscar um plano completamente novo rapidamente, com os caipiras do povo em cima dela por um lado e lady Snape do outro. Entretanto, como mãe era totalmente inútil.

Pettigrew estava junto à janela que dava ao pátio interior, tentando não ouvir os repugnantes ruídos atrás dele e a peste ainda mais repugnante.

Imediatamente depois do encontro com lady Snape, Holly foi correndo à sua casa de Grimspound, recolheu suas coisas e as colocou a toda pressa na calesa velha que tinha comprado há uma semana, junto com um poney igualmente velho. Entretanto, o guri se negou a entrar no veículo devido aos trovões que se ouviam a vários quilômetros.

Como não queria arriscar-se que escapasse e desaparecesse entre os pântanos, Holly fingiu lhe fazer caso. Prometeu que esperariam até que cessasse a tormenta e lhe deu um pedaço de pão e uma jarra de cerveja. À cerveja acrescentou "um pouco de láudano, nem meia gota", assegurava.

A "meia gota" tranqüilizou Tobias até o extremo de perder consciência. Holly lhe meteu na calesa, e o menino dormiu durante todo o caminho até a estalagem do Postbridge e algum tempo mais, enquanto a mulher explicava ao Pettigrew o que tinha ocorrido, por isso terei que esquecer-se dos planos originais, e o que tinha pensado.

Peter confiava nela. Se dizia que lady Snape queria o odioso menino, era verdade. Se assegurava que sua senhoria não diria nada a Severo, também devia ser verdade, embora ele aceitasse essa verdade com mais dificuldade. Aproximou-se da janela em mais de uma ocasião para vigiar o pátio em busca de indícios da chegada do Belzebú ou seus criados.

—O pior que pode acontecer é que ele venha no lugar dela — havia dito Holly — Mas só terá que estar de olho atento. Como se não lhe pudesse ver da distância de dois quilômetros... E então fugiremos a toda velocidade. E se conseguirmos que esse maldito menino fique quieto mais uma semana, poderemos voltar para o primeiro plano.

O primeiro plano supunha atos delitivos. O segundo só requeria estar de olho atento... e ter bom senso. Mesmo se lady Snape contasse tudo, mesmo se Snape decidisse caçar Holly, o mau tempo o impediria de sair de casa. O sol não apareceria tão cedo e não parecia provável que queria ir ao Postbridge em meio da escuridão e o barro, sobre tudo quando não sabia que Holly já estava ali. Qualquer um saberia que aquilo era muito aborrecimento para o lorde.

De todos os modos, Pettigrew desejava que as habilidades de Holly se estendesse aos cuidados infantis. Em primeiro lugar, se se tivesse ocupado devidamente do menino, as coisas não teriam chegado a tal extremo com a população de Athton. Em segundo lugar, se tivesse dado uma surra em lugar de láudano, nesse momento não estaria vomitando o jantar que acabava de comer e preparando-se para devolver inclusive o que tinha tomado no café da manhã.

Peter se separou da janela.

Tobias estava encolhido em uma estreita cama de armar, agarrado ao magro colchão, com a cabeça pendurada sobre o urinol que segurava sua mãe. A ânsia tinha parado, ao menos de momento, mas tinha a cara cinza, os lábios azuis, os olhos avermelhados.

O olhar do Holly cruzou com a de seu amante.

—Não era... não foi o láudano — disse ela na defensiva — foi a carne do jantar. Devia estar passada... ou o leite. Dizia que tudo era mau.

—Soltou-o tudo e não parece que esteja melhor — disse Pettigrew — Parece pior, vou procurar um médico. Se morre — acrescentou, esperando que a capacidade gramatical de Holly fosse melhor que a maternal — a sua senhoria não vai achar graça nenhuma. E poderia ver-se mais perto da forca do que gostaria.

Ante a menção do cadafalso, desapareceu a cor das rosadas bochechas da mulher.

—Você sempre pensa no pior — disse, voltando-se para o menino.

Mas não pôs nenhuma objeção quando Pettigrewy agarrou o chapéu e saiu do quarto. Acabava de chegar às escadas quando ouviu um estrondo que lhe era familiar e não pressagiava nada bom... e que bem podia surgir das vísceras do inferno, porque era a voz do próprio Belzebú.

Pettigrew não precisava que aparecesse uma baforada de enxofre e fumaça para saber que durante os momentos que se afastou da janela, a estalagem Golden Hart se transformou no negro abismo infernal e que, ao cabo de poucos momentos, ele estaria reduzido a um monte de cinzas.

Voltou correndo ao quarto e abriu a porta de repente.

— Está aqui! — gritou — Lá embaixo, aterrorizando o dono!

O menino levantou bruscamente para olhar com os olhos totalmente abertos para Pettigrew, que corria freneticamente pelo quarto recolhendo coisas.

Holly se levantou.

—Não se preocupe — disse em tom tranquilo — Mantenha a calma, Pet. Pense com a cabeça.

— Estará aqui dentro em um minuto! O que vamos fazer?

—Vamos sair daqui a toda velocidade — respondeu ela, aproximando-se da janela para inspecionar o pátio — Vamos tirar Tobias pela janela e desliza-lo pelo cano, até onde está aquele carro de feno, e saltar.

Peter se precipitou para a janela. O carro de feno parecia a quilômetros de distância e ainda por cima não tinha muito feno.

—Não posso — disse— Não com o menino.

Mas Holly já se afastava da janela enquanto Pettigrew calculava os riscos e estava abrindo a porta.

—Não podemos nos arriscar a nos ver esta noite, mas tem que levar meu filho. Eu não posso com ele, e lembre-se que ele vale dinheiro... Busce-me amanhã em Moretonhampstead.

— Holly!

Fechou a porta. Peter ficou olhando-a, escutando horrorizado e atordoado as pisadas da mulher, que se precipitava escada abaixo. Deu a volta e viu o menino olhando fixamente a porta. "Mamãe!" gritou. Desceu arrastando-se da cama de armar, foi dando tropeções até a porta, camboleou e caiu no chão. Soltou um ruído como de arcadas, que Pettigrew tinha ouvido até não poder mais durante as últimas horas. O homem vacilou, a meio caminho entre o menino e a janela. Então ouviu a voz de Snape no vestíbulo.

Correu até a janela, abriu-a e saiu. Não mais de dez segundos depois, enquanto avançava cautelosamente pela cornija, ouviu o estrépito da porta ao abrir-se, e também uma blasfêmia ressonante. Esquecendo-se de toda precaução se precipitou para o lugar justo em cima do carro de feno e saltou.

*.*.*.*.*

Snape entrou rugindo como uma fera na habitação, disposto a fazer Holly Golightly pedaços, e esteve a ponto de esmagar seu filho com as botas. Por sorte, antes de dar outro passo enfurecido, fixou-se no obstáculo que se interpunha em seu caminho e se deteve. A pausa foi suficiente para percorrer a habitação com o olhar: Vestimentas femininas dispersadas aqui e lá, restos de comida em uma bandeja, uma garrafa de vinho vazia, um cama de armar derrubada e diversos objetos inidentificaveis, como o repugnante montão de porcaria e farrapos que tinha a seus pés. Que, por certo, parecia vivo porque se movia.

O moreno afastou a vista rapidamente e aspirou três profundas baforadas de ar para reprimir a cólera que surgia em seu interior. Foi um engano, porque o ar estava impregnado.

Ouviu o gemido daquele montão de lixo vivente e baixou o olhar com grande esforço.

—Mamãe — ofegou aquela criatura — Mamãe. "Ave Maria, gratia plena, Dominus vobiscum, benedictus fructus ventris tui Jesus..."

Snape recordou um menino perdido sozinho e desesperado procurando consolo na Virgem María, quando sua própria mãe partiu.

"Sancta Maria, Mater Dei, ora pro nobis peccatoribus, nunc et hora mortis nostrae. Amem."

Aquele menino rezou, sem saber por que rezava. Não sabia qual era seu pecado, nem o de sua mãe; mas sabia que estava sozinho.

O moreno sabia o que era estar sozinho, assustado, confuso e ser rechaçado, como Hermione havia dito de seu filho. Sabia o que sentia aquele menino espantoso. Ele também tinha sido um menino espantado, e rejeitado.

—Mamãe partiu — disse com dureza — Eu sou o papai.

Aquele ser levantou a cabeça. Tinha os negros olhos inchados e debruados de vermelho; o narigudo gotejava mucos.

—Maldita seja, está asqueroso — replicou Snape — Quando foi a última vez que se banhou?

A cara do mucoso se contorceu em uma careta tal que o teria obrigado a procurar refúgio com Lúcifer.

—Vai para o inferno — disse com voz rouca.

O moreno o agarrou pela gola da camisa e o ergueu.

—Sou seu pai, descarado, e quando digo que está asqueroso e que tem que se banhar, você diz: "Sim, senhor". Não me diz...

—Vai cagar — o menino emitiu um ruído entrecortado, metade soluço e metade gargalhada — Vai para o inferno...

—Isto não é uma conduta desconcertante — disse Snape — Não estou desconcertado. Sei muito bem o que tenho que fazer. vou pedir que lhe preparem um banho... e que lhe esfreguem o corpo. E se engolisse um pedaço de sabão, não cairia mal.

O pobre diabo soltou uma enxurrada de impropérios com sua voz rouca e começou a retorcer-se como um peixe apanhado no anzol. O moreno continuou agarrando-o com firmeza, mas a puída camisa do menino cedeu. A gola desfiada se rompeu e a criatura ficou livre..., exatamente dois segundos, porque Snape o agarrou, levantou-o do chão e o pôs debaixo do braço. Quase ao mesmo tempo ouviu um ruído retumbante, ameaçador. O menino vomitou... em cima das botas de sua senhoria.

Depois, o vulto que tentava escorrer de seu braço passou a ser um peso morto. A inquietação se apoderou de Snape, e a seguir o pânico.

Tinha matado o menino. Não devia tê-lo apertado com tanta força. Tinha quebrado algo, tinha esmagado algo... Tinha assassinado seu próprio filho. Nesse momento ouviu passos que se aproximavam. Cravou um olhar de horror na porta. Moss apareceu.

—Moss, olhe o que fiz — disse o moreno com voz abafada.

—Vejo. Essas botas tão elegantes agora estão arruinadas — replicou o senhor, aproximando-se. Olhou a criatura que seguia apertado contra o quadril de Snape.

— O que houve? Assustou-o tanto que vomitou o jantar?

— Moss, acho que o matei.

O moreno mal podia mover os lábios. Seu corpo estava paralisado. Nem sequer podia olhar para baixo... para o cadáver.

—Então, por que respira? — perguntou o senhor. Deixou de olhar o menino e olhou a seu amo — Não está morto, só doente, parece. Deve ter se resfriado pelo mal que não o pôe sobre a cama, para eu dar uma olhada e ver o que tem?

Está magoado, pensou Snape. É o que diria Hermione.

Ou que é muito sensível. Com o rosto ardendo, levantou com supremo cuidado o menino, levou-o até a cama e o deitou com doçura.

—Para mim parece que tem um pouco de febre — disse Moss.

O moreno posou cautelosamente uma mão sobre a testa coberta de imundície do menino.

—Está... muito quente, acredito eu — disse sua senhoria.

Moss se tinha fixado em outra coisa.

—Pelo jeito o problema é esse — disse, aproximando-se da pequena lareira. Agarrou um frasco que havia no suporte e o levou para seu amo

— Lembro perfeitamente: o láudano também fazia você passar mau. Quando a babá lhe deu quando sua mãe partiu você ficou muito mau.

Entretanto, Snape não estava meio morto de fome na época, nem empapado depois de uma viagem por Dartmoor. Estava são e salvo em sua cama, com criados para lhe assistir e a babá para lhe dar chá e banhar seu corpo suarento.

"...foi melhor deixar onde estivesse a salvo, onde sabia que cuidariam dele."

Ninguém quisera o moreno, mas sua mãe o deixara em um lugar seguro. Tinham cuidado dele, ocuparam-se dele. Sua mãe não o tinha levado..., aonde certamente teria morrido com ela, de febre, em uma ilha no outro extremo do mundo. A mãe daquele menino o tinha deixado para que morrese.

—Desça e diga que queremos chá imediatamente — disse a Moss — Um bule inteiro, e que lhe ponham muito açúcar. E uma banheira de cobre. E todas as toalhas que possam encontrar — o senhor já se dirigia à porta quando Snape acrescentou — E o pacote. Pegue o pacote de minha esposa.

Moss saiu sem demora.

Quando chegou o chá, o moreno já tinha tirado a roupa empapada de suor de seu filho e o envolto em um lençol. Ordenou a Moss que acendesse fogo e que colocasse a banheira ao seu lado. Enquanto o criado o fazia, seu amo dava colheres de chá com muito açúcar ao menino, que se apoiava desfalecido sobre seu braço, consciente, graças a Deus, mas pouco mais que isso.

Depois de meio bule, deu a impressão de que se reanimava. Seu olhar nublado parecia ligeiramente mais atento e já não mantinha sua cabeça pendurava como a de um boneco de trapo. Aquela cabeça, uma massa de fios negros como os do pai, era um ninho de piolhos, conforme observou sua senhoria sem surpreender-se muito. Mas tinham prioridades, pensou para consolar-se.

— Melhor? — perguntou com brutalidade.

Um aturdido olhar de olhos negros se cruzou com o seu. Aquela pegajosa boca infantil tremeu.

— Está cansado? — perguntou Snape — Quer dormir um pouco? Não temos pressa.

O menino negou com a cabeça.

—Certo. Imagino que dormiu mais do que queria, mas ficará bem. Sua mãe lhe deu um remédio que não lhe fez bem, sabe? Aconteceu comigo o mesmo uma vez. Vomitei até o café da manhã, mas em pouco tempo me senti melhor.

O mucoso baixou os olhos e se inclinou sobre um lado da cama. O moreno demorou uns momentos em compreender que estava tentando ver suas botas.

—Não olhe — disse — Estão destroçadas. E já são dois pares em um dia.

—Você me espremeu — disse o menino, na defensiva.

—E lhe coloquei de cabeça para baixo — respondeu — E, claro, seu estômago revolveu ainda mais, mas é que eu não sabia que estava mau — porque Hermione não estava aqui para me dizer, acrescentou em silêncio — Mas como o gato não comeu sua língua, talvez queira algo para comer — outro olhar sem expressão — Se tiver fome — acrescentou com paciência — Tem o estômago vazio?

Com isso obteve um lento assentimento de cabeça. Voltou a enviar Moss abaixo, nesta ocasião para procurar pão e uma tigela de caldo. Enquanto Moss estava fora, Snape atacou a tarefa de lavar a cara de seu filho. Levou bastante tempo, porque sua senhoria não sabia quanta pressão exercer, mas conseguiu tirar a maior parte da imundície sem arrancar também a metade da pele, e o menino agüentou, embora com atitude de potro recém-nascido. Depois de ter comido várias torradas e uma tigela de caldo, quando já não parecia um cadáver desenterrado, O moreno indicou a pequena banheira de cobre junto ao fogo.

—Sua senhoria enviou roupa limpa — disse, assinalando uma cadeira sobre a que Moss tinha deixado os objetos — Mas primeiro tem que se banhar.

O olhar de Tobias recaiu sobre a roupa, depois sobre a banheira e assim sucessivamente, várias vezes, com expressão de angústia.

—Primeiro tem que se banhar — repetiu Snape com firmeza.

O menino soltou um uivo horripilante, digno de uma fada maligna. Tentou levantar-se e escapar. O moreno o agarrou e o tirou da cama, alheio aos murros, as patadas e os alaridos.

— Já está ótimo de animação! — disse com severidade — O que quer, ficar mau de novo? É somente um banho. Não vai morrer por isso. Eu me banho todos os dias e ainda não morri.

— Nãooo! — com esse gemido lastimavel, o menino enterrou a cabeça infestada de piolhos no ombro de seu pai — Não, papai, por favor. Não, papai.

Papai.

Snape sentiu um nó se formando em sua garganta. Pôs a enorme mão nas costas dolorosamente fraca e deu suaves tapinhas.

—Tobias, está cheio de piolhos — disse — Há apenas duas maneiras de livrar-se deles. Ou te banha nessa bonita banheira de cobre Ou...

O menino levantou a cabeça.

—Ou come um tigela de nabos.

Tobias olhou para seu pai aterrorizado.

—Sinto — disse o moreno, reprimindo um sorriso — Não há outro remédio.

O menino deixou de debater-se e de chiar imediatamente. Algo, inclusive uma morte segura, era preferível a nabos. Snape sentia o mesmo que o pequeno. Se seu filho tinha herdado sua reação ao láudano, parecia razoável pensar que também tivesse herdado sua aversão infantil aos nabos. O moreno continuava sem achar muitos atrativos no vegetal.

—Pode pedir que tragam a água, Moss. Meu filho deseja banhar-se.

O primeiro enxágüe Snape teve que dar, enquanto Tobias permanecia rigidamente sentado na banheira, indignado, com a boca apertada em uma linha de expressão atormentada. Mas quando acabou, deixaram-o ver um momento o jogo e disseram que poderia jogar assim que estivesse limpo. Tobias decidiu lavar-se ele sozinho a segunda vez.

Enquanto chapinhava, enchendo o chão de atoleiros ao redor da banheira, sob o vigilante olhar de Moss, Snape pediu o jantar. Quando chegou, o menino já tinha saído da banheira, O moreno o tinha secado, tinha-lhe posto o antiquado traje que tinha encontrado Hermione e penteado o rebelde cabelo. Depois puseram o brinquedo nas mãos de Tobias e, enquanto jogava, Snape se sentou para jantar com seu chofer. Agarrou a faca e o garfo e estava a ponto de cortar a carne quando se deu conta de que estava empunhando os dois talheres, a faca e o garfo.

Ficou olhando por alguns momentos o garfo que tinha na mão esquerda. Olhou para o senhor, que estava lubrificando generosamente de manteiga uma enorme parte de pão.

—Moss, meu braço está funcionando — disse.

—Claro que sim — replicou o chofer, inexpressivo. Então Snape compreendeu que devia estar funcionando por um longo tempo sem que ele tenha se dado conta. Não poderia ter segurado a cabeça de seu filho enquanto dava o chá. Não poderia ter levado em seus braços ao mesmo tempo que lhe dava golpes nas costas. Como não poderia ter movido o rígido corpo do menino enquanto lhe banhava e lhe lavava o cabelo. Como teria podido lhe pôr aquele traje absurdo, tão pouco prático, com inumeráveis botões?

—Deixou de funcionar sem nenhuma razão médica conhecida e começou a funcionar sem nenhuma razão — olhou a mão com o cenho franzido — Como se nunca tivesse acontecido nada.

—A senhora diz que não era nada. Diz, sem querer ofende-lo, milorde, que estava tudo em sua cabeça.

O moreno entrecerrou os olhos.

— Isso é o que pensa? Que estava tudo em minha cabeça? Em outras palavras, que estou louco?

—Eu somente digo o que ela diz. me parece que devia haver uma lasca ou algo e que os médico não o viram. Talvez tenha saído sozinho.

Snape voltou a concentrar-se no prato e começou a cortar a carne.

—Exato. Havia uma explicação médica, mas esse enganador francês não quis admitir que se equivocou e todos seus colegas o apoiaram. Aí dentro havia algo e simplesmente saiu por si só.

Estava mastigando o primeiro bocado quando seu olhar recaiu em Tobias, que estava deitado de barriga para baixo no tapete, junto à lareira, estudando a batalha de Copenhague.

O problema de dimensões cósmicas se reduziu a um menino doente e assustado, e durante essa redução, algo tinha saído por si só. Ao olhar para seu filho, Snape compreendeu que esse "algo" não era uma lasca de metal nem de osso. Estava em sua cabeça, ou possivelmente em seu coração. Afinal, Hermione teria apontado a esquerda em seu coração e talvez uma parte desse órgão tivesse ficado paralisado... Pelo temor?

Se meu lasci, meu uccido, havia-lhe dito.

Sim, aterrorizava a idéia dela o abandonar. Compreendeu que sentia o mesmo desde o dia em que lhe disparou. Então temeu ter feito o imperdoável, havê-la perdido para sempre. E não tinha deixado de sentir medo. Porque a única mulher que se preocupou até então o abandonara... porque era um monstro a quem não se podia amar.

Mas Hermione havia dito que não era verdade.

O moreno se levantou da mesa e se aproximou da lareira. Tobias levantou a cabeça. No rosto escuro, cauteloso, de seu filho, Snape viu o seu: os negros olhos turbulentos... o odiado nariz..., a boca de careta áspera. Não, por mais gentil que fosse, o menino não era bonito. Não tinha um rosto bonito e o corpo era enfraquecido, mal formado... as extremidades muito fracas, os pés e as mãos muito grandes e os ombros largos e ossudos. Tampouco era precisamente risonho e sua asquerosa linguagem não contribuía a ressaltar seu encanto. Não era um menino bonito, nem tampouco encantador. Era exatamente como seu pai.

E como seu pai necessitava de alguém, qualquer um, que lhe aceitasse, alguém que cuidasse dele e lhe fizesse uma carícia carinhosa. Não era pedir muito.

—Assim que Moss e eu acabemos de jantar, sairemos para Athcourt — disse a \Tobias — Sente bem para ir a cavalo? — O menino assentiu lentamente com a cabeça, com os olhos cravados nos de seu pai — Muito bem. Levarei-o em meu cavalo, e se me prometer que vai tomar cuidado, deixarei que leve as rédeas. Promete que vai tomar cuidado?

O menino assentiu com mais veemência nesta ocasião, e disse:

—Sim, papai.

Sim, papai.

E sobre o negro terreno rochoso do coração de lorde Belzebú caiu uma doce chuva e brotou a semente do amor naquela terra até então estéril.

Antes que lorde Snape terminasse seu jantar, Holly Golightly deveria ter chegado ao Moretonhampstead, mas estava em Tavistock, mais de trinta quilômetros em direção contrária. A razão era que Holly tinha tido um enfrentamento com Moss na porta traseira pela que tinha pensado escapar. O senhor lhe disse que lorde Snape tinha ido pegar seu filho e que se Holly sabia o que lhe convinha devia desaparecer rápida e tranqüilamente. antes de que ela pudesse tentra usar lágrimas e os lamentos maternais necessários para expressar pena por ter que renunciar a seu querido filho, Moss tirou um pacote.

O pacote continha cem soberanos, mil e quatrocentas libras em bilhetes de banco e uma nota de lady Snape. Na nota, sua senhoria dizia que mil e quinhentas libras eram melhor que nada e muito mais agradável que residir em Nova Gales do Sul. Aconselhava à senhorita Golightly que adquirisse uma passagem para Paris, onde sua profissão era melhor vista, e onde sua avançada idade — ela se aproximava perigosamente dos temidos trinta — não se consideraria uma desvantagem tão grande.

Holly decidiu que, afinal, não era uma mãe aflita. Mordeu a língua e desapareceu, tal e como recomendara Moss. Quando chegou a calesa, fazia uns cálculos muito simples. Compartilhar vinte mil libras com seu amante era completamente diferente a compartilhar mil e quinhentas. Sim, gostava de Pet, mas não até tais extremos. Assim, em lugar de dirigir-se para o Moretonhampstead, ao nordeste, pela estrada de Londres, dirigiu-se ao sudoeste. depois do Tavistock, a seguinte parada seria Plymouth, decidiu. Ali encontraria um navio que a levasse para a França.

Cinco semanas antes, Peter Pettigrew tinha caído em um buraco sem dar-se conta. A estas alturas já era consciente de que se encontrava no fundo de um poço muito profundo. O que não percebera era que o fundo era de areias movediças. Quão único via era que tinha traído a confiança de Holly.

Sim, porque ela tinha ido correndo a Postbridge, à estalagem onde sabia que se alojava Pettigrew. Sim, e lhe avisara, em vez de alugar discretamente uma casa para ela. E sim, isso significava que na estalagem sabiam que existia uma relação entre a fulana e ele. Entretanto, como Pettigrew tinha dado um nome falso, havia uma possibilidade de que Snape não descobrisse a verdade. Peter descobriu, muito tarde, que essa possibilidade se extinguiu no momento em que, presa do pânico, abandonou o menino. O menino devia ter ouvido Holly lhe chamar "Pet", e ainda pior, poderia fazer uma descrição dele. Tobias não tinha deixado de olhar o "amigo" de sua mãe durante o almoço, que começou a vomitar minutos depois de ter acabado de comer.

Por ser tão aguda, Holly compreendeu o problema imediatamente. Disse a Pettigrew que se levasse o menino porque era o mais sensato e o mais seguro. "Vale dinheiro", também havia dito isso.

Pettigrew esteve refletindo sobre o assunto enquanto se escondia, morto de medo, sob um montão de feno úmido, sem saber por onde atirar e perguntando-se se teria uma mínima possibilidade de escapar sem ser visto uma vez que tivesse tomado uma decisão.

Mas a estalagem não se encheu de homens com ordens de caçar Peter Pettigrew, nem a ninguém, nem se ouviram mais rugidos satânicos da habitação que ele acabava de abandonar. Finalmente fez provisão de valor e saiu do carro de feno.

Ninguém o abordou. dirigiu-se com toda a tranqüilidade que pode, pediu seu cavalo. Foi ali que se inteirou do porquê de seu indulto.

Comunicaram-lhe que o marquês de Dain estava deixando loucos os serventes da estalagem, e aos poucos clientes, porque seu filho estava doente.

Então Peter Pettigrew compreendeu que o destino lhe tinha dado a oportunidade de redimir-se a olhos de sua amada. Não demorou muito tempo em decidir como consegui-lo. Afinal, já não tinha nada a perder.

Não só tinha uma dívida de cinco mil libras, mas não tinha dúvida de que teria que arriscar a ser esquertejado pelo marquês de Dain. Snape tinha outras coisas na cabeça de momento, mas não durariam eternamente.

Só tinha uma oportunidade e tinha que aproveitá-la. Devia levar a cabo o plano de Holly... ele sozinho.