Capítulo 20

A Lenda de Gaia

Quinta, 08 de novembro de 2007.

Bella desceu do carro admirada com a beleza da casa à sua frente. Ela nunca vira nada igual. A casa tinha três andares e vários metros de largura, mas estava em tão perfeita harmonia com a natureza que aparentava sempre ter estado ali. O aspecto rústico do lugar contrastava com os modernos carros parados diante da casa. Bella também não pôde deixar de notar o enorme bosque que contornava o fundo da casa. Algo nele a deixou intrigada.

- Uma casa meio grande para uma senhora de idade, não acha? - Perguntou David, parando ao lado da garota.

Bella revirou os olhos. havia feito de tudo para vir sozinha, entretanto seus esforços foram inúteis. David também fizera de tudo para ir com ela. No fim ele teve um argumento válido e ganhou a 'briga' dizendo que a última vez que ela viajara sozinha, quase acabara morta. Bella ainda tentou argumentar que não era tão fácil assim ela morrer, mas Rachel se meteu na conversa, ficando ao lado de David.

- Ela provavelmente não mora sozinha - Bella respondeu depois de algum tempo. - Vamos! - Ela puxou o rapaz pela mão e se dirigiu à entrada da casa. Seu coração estava acelerado dentro do peito, suas mão estavam frias e úmidas e seu estômago parecia cheio de borboletas.

- Você está bem? - David olhou preocupado para ela.

- Só nervosa - Bella sabia que devia estar com uma cara péssima.

Ao chegarem diante da porta ela respirou fundo algumas vezes antes de tocar a campainha. Não demorou muito para uma jovem de uniforme vir recebê-los.

- Pois não? Em que posso ajudá-los?

- Vim falar com a Anita - a garota surpreendeu-se por não gaguejar. - Ela já foi avisada que eu viria.

- Entrem - a jovem abriu a porta para eles. - Aguardem um instante que eu vou chamá-la.

Bella entrou na casa olhando para os lados, admirando a belezas do lugar. A sala onde estavam era decorada com móveis rústicos de madeira escura. Vários vasos de flores davam um colorido alegre. Bella imediatamente sentiu que poderia passar o resto de sua vida trancada naquela casa, sozinha, que não se sentiria infeliz. Algo na casa lhe dava uma sensação extremamente acolhedora. Algo que ela nunca sentira em nenhum outro lugar.

- Bom dia, crianças!

Os dois se viraram na direção da voz e Bella arregalou os olhos, surpresa. A senhora elegante, vestida em trajes frescos de verão, era a mesma que ela encontrara certa vez em Los Angeles, na praça perto de sua casa. Era uma incrível coincidência. Ou será que não?

- A senhora... - começou ela.

- Sim. Já nos vimos antes - ela sorriu, e Bella sentiu novamente a sensação acolhedora inundá-la. - E juro que se eu já não soubesse, iria me espantar em vê-la aqui em minha casa.

- O professor Xavier lhe avisou que viríamos?

- Para ser sincera, acredito que ele tenha esquecido. Mas eu não preciso de tais avisos.

Bella trocou um rápido olhar confuso com David.

- Venham, vamos para um lugar mais reservado, onde possamos conversar um pouco. Maria irá nos servir um chá.

A jovem que atendera a porta permanecera parada a um canto da sala, aguardando o momento de atender à patroa. Bella a observou se retirar silenciosamente, enquanto acompanhava Anita até um cômodo que ela julgou ser uma biblioteca, que trazia a mesma decoração rústica da outra sala, e novamente apareciam muitas flores.

- Como você sabia que viríamos? - Bella não conseguiu evitar a pergunta.

- Digamos que eu sei de muitas coisas que ainda não aconteceram.

- A senhora vê o futuro? - David perguntou encabulado, no que Bella lhe deu um cutucão.

- O futuro é algo incerto. Muda frequentemente. Mas sim, eu "vejo" o fururo.

Os olhos de Bella se arregalaram. Não era possível! Seria coincidência de mais. Algo que ultrapassava os limites do que era aceitável. Mas quais eram esses limites? Sua vida estava uma desordem total, talvez aquelas coincidências não fossem mais do que uma forma de mostrar que ainda havia alguma ordem.

- Algum problema Isabella? - A senhora perguntou, demonstrando preocupação. Bella não se surpreendeu por ela ter usado seu nome. Não seria tão fácil assim surpreender-se agora.

- É só que... Eu tenho algumas anotações do meu pai. E, em uma delas, ele conta sobre um estranho encontro com uma senhora... Por acaso era você?

Anita sorriu, indo se sentar em uma poltrona no centro da sala.

- Sim, eu já tive um conversa com seu pai alguns anos atrás. Fico imaginando como ele me descreveria. - Ela deu uma risadinha. - Mas ele não me deu ouvidos e quase pôs tudo a perder.

- Como assim? - Bella a olhou confusa, sentando-se na ponta do sofá, ao lado da poltrona onde Anita estava. - Por que você procurou meu pai? De onde vêm todas essa coincidências? Aquele nosso encontro em Los Angeles? Eu aqui agora? Tudo está interligado?

- Calma. Eu vou lhe explicar tudo. Mas você terá que ser paciente e ter a mente aberta. Muito do que vou lhe falar parecerá absurdo, mas quando eu terminar tudo fará sentido.

Uma batida na porta fez a atenção da senhora deixar Bella.

- Entre!

- Mãe... - a voz do homem morreu ao ver que estava na sala com sua mãe.

Bella também sentiu o ar faltar-lhe ao ver aquele rosto. Não era o mesmo rosto, mas com certeza era muito semelhante. Apenas um pouco mais duro e serio. Entretanto os olhos eram os mesmos. Aqueles olhos verdes que ela jamais esqueceria.

- Imagino que as apresentações sejas desnecessárias. - Anita falou com um sorriso cálido. - Mas isto não vem ao caso, Bella, este é o meu filho Igor. - Ela apontou para o homem que, assim como a garota, estava perplexo. - Igor, esta é Isabella Lamartine e seu amigo David Hargreaves.

- Ele é seu filho? - Bella perguntou incrédula, no que a senhora concordou com a cabeça.

A garota sentiu seu corpo amolecer. Teria desabado se já não estivesse sentada. Como aquilo era possível? Passara anos se escondendo de Alam e agora estava ali, diante de seu pai e sua avó, na casa em que ele vivera quase toda a sua vida. Aquilo tudo só podia ser uma brincadeira. Uma grande brincadeira de mal gosto.

- Eu tenho que ir - ela falou levantando-se de uma vez. David acompanhou seu movimento.

- Bella? - Ele a olhou questionadoramente.

- Sinto muito senhora, mas estou muito confusa...

- Espere, deixe eu terminar o que tenho para te contar.

Bella sacudiu a cabeça, negando. Estava zonza. Precisava sair dali o mais rápido possível.

- Talvez seja mesmo melhor você respirar um pouco. - Anita sorriu. - Mas sinta-se à vontade para voltar quando estiver pronta para ouvir o que tenho a dizer. Ainda temos muito o que conversar.

Bella assentiu. Mas duvidava muito que fosse voltar.

Anita os acompanhou até a porta. Sempre sorrindo acolhedoramente. Quando se despediu deles acrescentou para Bella:

- O Alam não precisa saber que você esteve aqui. O que eu tenho par ate contar é mais importante no momento. A menos é claro que você queira que ele saiba. - Terminou com uma piscadela.

- Acho que não. - Bella falou sem jeito. - Ainda não estou pronta.

Anita apenas assentiu antes de entrar em sua casa e fechar a porta.

David conduziu a garota até o carro. Ao dar a partida no veículo ele perguntou:

- O que foi isso? Quem é aquele homem? Por que ele mexeu tanto com você? Quem é Alam?

- Alam? - Ela o olhou confusa. - Meu ex-namorado.

David lhe lançou um olhar gelado, é que era realmente muito gelado, diga-se de passagem.

- Aquele homem é o pai dele...

- Você veio até aqui visitar seu ex?

Bella não deixou de reparar no ciúme explicito na voz dele.

- Não David. Eu nem sabia que a Anita era vó dele. Acho que a Rachel e o professor esqueceram intencionalmente de me dizer este detalhe.

- Hum - ele bufou mal humorado.

- Se eu soubesse nem teria vindo aqui.

- Até parece. Do jeito que você está louca por respostas. - Ele revirou os olhos.

- Eu sabia que tinha que ter vindo sozinha.

- Para ter mais intimidade na hora que reencontrasse seu ex?

- Ele não está morando aqui. Ele mora em Los Angeles com a irmã.

- Mas provavelmente virá correndo quando souber que você está aqui.

- Ah, David, qual é? Eu estou tão surpresa com isso quanto você. Eu não sabia onde estávamos indo. Eu estou nervosa e abalada com toda essa história. E foi você que insistiu para vir. E...

Bella não completou a frase. Se controlou antes que pudesse falar algo que realmente o magoasse. E David também não insistiu, tinha uma vaga ideia do que ela pretendia falar, e preferia não ouvir isto dos lábios dela. Ele continuou dirigindo em silencio até o hotel onde haviam se hospedado.

- Eu acho que você deveria voltar lá - David falou antes de entrar em seu quarto.

Bella ficou parada com a mão na maçaneta de seu quarto, olhando para o local onde o rapaz estivera. Ela via claramente que ele não gostaria nem um pouco de vê-la naquela casa novamente. Mas David também sabia o quanto ela precisava de respostas.

A garota abriu a porta do quarto mas não entrou, apenas correu os olhos pelo cômodo vazio com um sentimento estranho em seu peito. Quando ela finalmente deu um passo para dentro do quarto, um vento forte abriu a porta da sacada e a envolveu, rodopiando ao seu redor. Aquele estranho vento trazia um delicioso perfume de flores silvestres, que não eram nada comum naquela região. Bella sentiu-se abraçar pelo vento, um abraço acolhedor, cheio de carinho e amor.

Bella deu meia volta e saiu do quarto e correu para o saguão do hotel, onde encontrou um táxi parado como se já a esperasse. Ela disse o endereço automaticamente e sentou-se de qualquer jeito no banco de trás com o coração aos pulos.

O caminho até a mansão dos Karamazov pareceu durar uma eternidade, mas quando o motorista finalmente parou diante da casa, Bella jogou o dinheiro para ele e saiu correndo sem esperar o troco. Ao chegar diante da porta ela não precisou nem se dar ao trabalho de levantar a mão para bater à porta e esta se abriu, revelando uma senhora sorridente de braços abertos.

- Entre minha menina, entre.

- Anita...

- Eu sei. Você está confusa. Mas estou aqui para te guiar, para te auxiliar.

- Eu vim te ouvir - o olhar de Bella era suplicante ao pegar as mãos da senhora e apertá-las entre as suas. - Eu preciso saber o que você tem para me contar.

- Sim. Vamos conversar. Mas antes você precisa se acalmar. Venha, vamos tomar um chá.

Anita puxou Bella carinhosamente pela mão, levando-a pela casa até uma enorme cozinha, onde senhora pediu para alguém preparar um bule de chá para elas, e depois continuou a puxá-la até a varanda do fundo da casa, que tinha uma vista esplendida para o mar, além da piscina e do bosque, que Bella vira antes, mais ao lado contorndo a orla até se perder de vista.

Bella sentiu-se imediatamente tentada a seguir para o bosque, buscar conforto em meio as árvores, como ela costumava fazer quando era criança e seus pais fingiam não perceber que os filhos precisavam de amor e carinho. Algo dentro dele parecia lhe chamar e ela sentiu uma brisa suave vir daquela direção.

- Sente-se Bella. - Anita convidou, observando para onde a garota olhava e sorrindo.

A garota desviou os olhos do bosque para a senhora e sentou-se em uma confortável cadeira.

- O que você tem para me contar? - Bella perguntou sem medo de estar sendo grosseira.

- Primeiro o chá. - Anita apontou para uma mocinha que trazia uma bandeja com chá e biscoitos. - Obrigada, Paula.

Paula fez uma pequena reverência antes de se retirar.

Bella observou Anita servir a ambas com o chá e lhe entregar a xícara e por fim oferecer-lhe biscoitos. A garota aceitou tudo por educação. A única coisa que ela tinha em mente era saber o que Anita tinha para lhe contar.

- Você já ouviu falar sobre Gaia? - Anita perguntou bebericando de sua xícara.

- Gaia? A deusa grega?

- Exatamente.

- Só sei que foi uma das primeiras deusas da mitologia grega. E que ela era uma grande profetiza.

- Sim. A profetiza original do oráculo de Delfos. Mas além disso ela também é conhecida como a Deusa Mãe Terra. Foi ela quem gerou várias linhagens divinas importantes e até mesmo o homem. Ela está ligada à toda a terra.

- Eu não sabia que ela tinha tantos atributos. Sempre gostei muito de mitologia, mas nunca vi muita coisa sobre Gaia. Mas... o oráculo de Delfos não pertencia a Apolo?

- Na verdade não. Gaia foi cultuada nas épocas mais remotas da cultura grega, mas ela acabou sendo suplantada pelos deuses olímpicos. No caso do oráculo, que muitos atribuem a Apolo, ali era na verdade um antigo santuário de Gaia. A história conta que o deus recém-chegado matou a monstruosa serpente que ali vivia, então foi instalado o oráculo e consagrado a ele. Entretanto esta serpente era Pítia, a filha de Gaia. Desde então todas as sacerdotisas do oráculo eram chamadas de pítia. Depois que Apolo "assumiu" o Oráculo, o culto a Gaia entrou em declínio... Foi ai que ela resolveu se vingar.

- Anita, tudo isso é muito interessante. Eu amo mitologia... Mas o que isso tem haver comigo? Aonde você quer chegar?

- Tenha calma. Já vou chegar lá. Deixe-me explicar esta vingança de Gaia.

- Certo... continue.

- Gaia, preocupada com seu declínio e talvez algo pior, como sua própria destruição, resolveu deixar um 'legado' que pudesse seguir com sua vingança, caso algum adorador seu o encontrasse. Foi então que ela criou as Pedras do Poder. Nessas pedras ela depositou quase todo o seu poder. O poder dos quatro elementos. Quem conseguisse ter a posse destas pedras teria o poder de um dos quatro elementos, e se alguém reunisse todas as quatro pedras também obteria a imortalidade.

- Essa história é real ou apenas uma lenda?

- Muitos dizem ser apenas uma lenda, a Lenda de Gaia. Mas eu acredito que tudo seja real.

- Tenho a impressão de que essa conversa vai tomar rumos estranhos. Uma lenda antiga que se torna real. Não sei se era isso que eu procurava. Acho que eu não quero saber como isso termina. - Bella se levantou confusa, caminhando um pouco para longe.

Anita também se levantou indo para o lado de Bella.

- E você se contentaria com isso? Abriria mão de conhecer toda a história por temer o fim dela? - Ela fez uma pausa e começou a caminhar em direção ao bosque, e Bella a seguiu. - Quem sou eu? O que faço aqui? Por que sonhamos? Talvez seja melhor não conhecer as respostas. Não ir atrás de explicações. Entretanto... o homem tem a necessidade de entender os mistérios da vida.

- Mas de que me adianta saber sobre esses mistérios? Para que serviria todas essas informações. Isso não faz sentido para mim. Eu estou ainda mais confusa.

- Te ajudará a escolher como reagir aos chamados do destino.

- Certo! Primeiro falamos de deuses mitológicos e agora entramos em destinho... aonde isso vai terminar? Criaturas mágicas, fadas e dragões?

- Vamos seguir com a nossa lenda - Anita deu uma risadinha. - Depois de ter criados as pedras, Gaia as guardou em seu templo, um lugar secreto que pouquíssimas pessoas conheciam, apenas seus seguidores mais próximo e confiáveis. Mas mesmo assim alguém de fora de seu círculo descobriu sobre as pedras e a notícia se espalhou como fogo por toda a Grécia, estimulando a cobiça de muita gente.

"Gaia percebeu então o perigo de sua criação. Mas já era tarde de mais. Ela havia colocado seus poderes nas pedras, ficando fraca e sem ter como destruí-las. A deusa teve então a ideia de esconder as pedras, cada uma em um canto da Terra.

- E isso deu certo? - Perguntou Bella completamente envolvida com a história.

- O plano original era cheio de falhas e acabaria em desgraça. Foi o que a própria Gaia profetizou. Ela então tomou medidas para garantir a eficácia de seu plano. Foi ai que ela invocou um espirito guardião.

- Espiro guardião?

- Sim. Um espirio encarregado de proteger as pedras.

- E como ele faria isso?

- Bom, a partir de agora muito do que eu sei são apenas especulações baseadas em muitos anos de estudo. Este espirito ficou adormecido por cerca de 2500 anos, até que finalmente os segredos de Gaia começaram a serem desvendados, e infelizmente as pessoas erradas chegarem à frente. Sinto dizer que cheguei tarde. Aislim já havia encontrado e libertado o espirito.

- Aislim? Por que ele sempre está metido nessas coisas?

- Sim. Nosso pior inimigo. Um terrível necromante que usa de suas mágicas negras para manter-se vivo por mais de um século.

Bella estremeceu ao lembrar do homem cadavérico. Era difícil acreditar que alguém pudesse viver tanto tempo. Apesar que a aparência dele não desmentia. Então estava tudo realmente interligado.

- Entretanto eu acredito que ele libertou o espirito sem saber. Ele imaginava ter encontrado as pedras.

- Mas onde está este espirito agora? E as pedras?

- As pedras continuam escondidas. Mas Aislim já está no rastro delas. Quanto ao espirito... - Anita fez uma pausa respirando fundo.

Bella olhou para a senhora com atenção e curiosidade, mas ela permaneceu em silêncio, olhando fixamente para um ponto à sua frente. A garota desviou os olhos da mulher e só então se deu conta de que estavam dentro do bosque e tudo o que se via ao seu redor eram árvores e plantas, com exceção de uma pequena clareira, que era o local para onde Anita olhava.

- Acredito que ele tenha "renascido".

- Como assim?

- No dia em que Aislim o libertou uma criança escolhida pela deusa nasceu, e o espirito guardião nasceu em seu corpo.

- E quando foi isso? - A voz de Bella soou incerta.

Anita a olhou com os olhos cheios de lágrimas.

- Dia 20 de Novembro de 1990.

Bella arregalou os olhos.

- Você está querendo dizer...

- Sim. Você é a criança escolhida pela deusa.

- Não. Não pode ser. Não eu.

- Bella, eu não te contaria tudo isso se não tivesse certeza absoluta. Você foi escolhida antes mesmo de nascer. Eu procurei seu pai para alertá-lo. Eu já sabia que você era a criança certa, já tinha visto isso. E eu queria garantir que você fosse educada da maneira correta, para que quando crescesse e tivesse que atender ao chamado da deusa não tivesse medo ou não desse importância.

- Mas... se é que eu realmente sou quem você diz que sou... por que a sua "interferência" faria alguma diferença. O que a minha educação poderia interferir?

- Como eu já disse, o futuro costuma ser incerto. Nos podemos agir, tomar decisões para alterá-lo. Foi o que temi que acontecesse. Seu pai é um homem muito ambicioso, ganancioso, que só pensa nele mesmo, em riqueza e em poder. Quando eu soube que a filha desse homem seria a escolhida da deusa, eu tive medo de que a criança seguisse os mesmos caminhos do pai, e então eu tentei interferir. Mas seu pai não me deu ouvidos, e tive que pensar em outro plano, eu não podia continuar a abordá-lo da maneira como havia feito, ou logo ele daria um jeito de se livrar de mim.

"Foi aí que, alguns anos depois, eu tive uma visão do meu neto com você. E então tentei interferir novamente. Só que desta vez cheguei perto de por tudo a perder. Às vezes o medo nos faz tomar decisões precipitadas, sendo que podemos acabar piorando as coisas enquanto o destino poderia tomar conta de tudo. Provavelmente tudo seria muito mais simples e fácil se eu não tivesse interferido."

- Não estou entendendo. No que foi que você interferiu?

- Quero que você entenda, que se eu tivesse te conhecido antes, não teria agido assim. Eu temi que você se transformasse numa garota mimada como a sua irmã, que só enxerga o próprio nariz. - Anita suspirou cansada, parecendo de repente ser bem mais velha, ou pelo menos ter sua verdadeira idade. - Eu, juntamente com Charles, desenvovi um plano para afastar você de seu pai. Achei que assim seria possível colocá-la na direção correta.

- Me separar de meus pais?

- Eu descobri algumas falcatruas que seu pai andava aprontando. Eu fiz com que a empresa do Igor soubesse dessas informações, e ainda o convenci a colocar o Alam à frente da execução do plano de captura do seu pai. Foi tudo culpa minha Bella! O Alam quase desistiu da missão, ele não queria fazer isso com você, a essa altura ela já estava completamente apaixonado e seria capaz de largar tudo por você! Mas eu o convenci a continuar. Disse que ele deveria por a família à frente destas paixonites, mesmo que eu soubesse que não era apenas uma paixonite juvenil... - Ela suspirou cansada. - Ele seguiu com o plano de coração partido, se torturando pela mera ideia de você descobrir...

Bella começou a se sentir fraca. Suas pernas bambearam, seu coração pareceu falhar um instante e seu pulmão parecia não suportar todo o ar de que precisava.

- Nos meus planos você não iria descobrir desta maneira quem havia sido o responsável pela prisão de seu pai. Você seguiria a sua vida ao lado do meu neto e eu te guiaria no caminho correto. Mas eu interferi no destino e mais uma vez ele se voltou contra mim.

- Seu plano tinha muitas falhas - a garota falou com a voz extremamente baixa, mas, ao contrário do que imaginou, Anita a escutou perfeitamente.

- Sim. Muitas falhas. Mas eu tentei fingir não vê-las. Tapei o sol com a peneira, como dizem. Eu apenas não queria ficar de mãos atadas enquanto as coisas aconteciam da maneira errada, como pensei que fossem acontecer.

- E a consciência do Alam, como ficaria? Você acha que ele teria uma vida feliz guardando um segredo como este de mim? Você acha que em algum momento ele teria paz?

- Eu pensei nisso - Anita abaixou a cabeça envergonhada, e Bella teve a impressão de ver seus olhos marejados. - Mas acreditei que seria apenas uma questão de tempo até ele se acostumar. Que logo ele superaria tudo e seria feliz com a mulher que ele amava. Eu já tinha visto isso! Vocês teriam um amor dos mais puros e belos.

- Mas deu errado. Eu descobri da pior maneira possível.

- Sim. E eu tive certeza de que estava tudo arruinado. Ainda mais quando eu fiquei sabendo que o Aislim havia descoberto que você era a criança da deusa. Ele começou a te procurar loucamente, mas como você estava em segurança, morando na casa de um de seus maiores aliados, ele achou que não haveria problemas. Mas você fugiu, sumiu do mapa quando a bomba estourou. Acredito que tenha deixado Aislim tão preocupado quanto eu. Quando ele chegou na sua casa só encontrou os seus irmãos, e nem sequer um rastro seu. Alguns dias depois, entretanto, eu recebi uma notícia que deixou meu coração muito mais leve. Charles me avisou que você estava em segurança, hospedada em seu instituto. Um pouco perturbada é claro, mas em segurança. O destino havia jogado do meu lado desta vez, e eu achei prudente te dar um tempo para se recuperar do choque. Deixei as coisas como estavam. Até que Charles ficou sabendo que você estava se metendo em encrenca na busca por respostas, e nós achamos prudente que você viesse me ver para saber toda a verdade de uma vez por todas, antes que algo ruim te acontecesse. Ele então te aconselhou a vir me procurar, omitindo, claro, a parte de eu ser avó do Alam, o que provavelmente faria com que você não viesse, ou que talvez buscasse outra forma de saber a verdade.

Anita se calou, observando qual seria a reação de Bella, que estava parada, fitando os próprios pés, a alguns metros de distância. Mas a garota não tinha condições de dizer nada; sua cabeça estava um turbilhão e muito cheia com todas aquelas informações. Ela não sabia no que pensar primeiro, não conseguia ordenar os fatos. Precisava de um tempo para digerir tudo aquilo. Anita tinha sabedoria e paciência suficiente para saber que Bella não conseguiria dizer nada naquele momento.

- Vá para casa. - Aconselhou a senhora. - Descanse e relaxe um pouco. Quando achar que está pronta venha me procurar novamente. Ainda temos muito o que conversar. Só peço que você perdoe os erros de uma velha.

Bella apenas fez que sim com a cabeça, deixando-se levar pela senhora de volta à casa. Ao passarem pela piscina, a garota reparou que havia vários adolescentes brincando e fazendo bagunça na água. Quando as duas passaram, todos eles pararam de fazer o que quer que estivessem fazendo para olhá-las. Bella suspeitou que ela é que fosse o alvo dos olhares. Mas não deu a menor importância para o fato, ela já tinha muito com o que se preocupar.

Ao chegarem à sala de visitas, Igor Karamazov, que se encontrava sentado em um sofá, se levantou para falar com a garota.

- Isabella, eu imagino o quão abalada você deve estar. Sei que tudo isso é muito difícil e confuso. Mas quero que saiba que todos nós aqui em casa estaremos do seu lado, vamos sempre estar prontos para te apoiar.

- Obrigada - ela forçou a voz a sair.

- Mesmo que eles não acreditem 100% nessa história - falou Anita num tom brincalhão. - Mas logo provaremos que minha história é verídica, não é Bella?

A garota apenas olhou sem saber se deveria responder ou não, ou o que responder.

- Agora vá! Vá descansar e colocar as ideias no lugar. - Anita falou acompanhado Bella até a porta. - Sinta-se convidada a voltar quando quiser.

- Obrigada.


N.A.

Olha eu aqui outra vez! Nem demorou tanto, né! Agora vai ficar melhor... eu comprei um notebook e vai ficar bem mais fácil de digitar o que eu já tenho escrito! Eu também estou super empolgada esses últimos dias... a estória está chegando ao clímax, e não vejo a hora da ação começar pra valer! XD

Ah.. eu também vou tentar voltar a por títulos nos capítulos, se não for uma música será algo a ver com o capítulo mesmo!

continuem lendo e mandando reviews!

Respostas das Reviews

Duachais: acho que você vai descobrir que na verdade não foi bem um "infeliz acidente" o que aconteceu com o Alam e a Bella! Hehehe. E na verdade, a Ash não seria filha da Ororo, mas sobrinha ou algo do tipo... ainda não pensei em como encaixar isso na estória! Bom... eu também queria te agradecer por continuar lendo minha fic sempre! É tão bom saber que alguém gosta, alguém alem da minha prima, que tem a obrigação de ler e deixar review, hehe! Fico superfeliz cada vez q posto um capítulo e você deixa review! XD

Priminha: acho que esse capítulo não teve nada de light, com Sue e Ash, hehehe! foi bem tenso, não? E você pode parar de ficar dando indiretas sobre o futuro da fic, você sempre faz isso... mas na verdade não sei se alguém lê suas reviews, mas mesmo assim... NÃO FAÇA ISSO! E continue deixando reviews longas pra mim! Te doluuuuuuuuu...


FAÇAM UMA AUTORA FELIZ, DEIXEM REVIEWS!