DOCE DEZEMBRO

Capítulo 21

- Shun, não sei se é boa idéia virmos aqui tão cedo. – disse Esmeralda, enquanto o jovem rapaz de cabelos verdes apertava a campainha do apartamento de Ikki.

- Não se preocupe; você sabe que ele acorda cedo. E depois, ele prometeu que ia me ajudar ontem, lembra?

A porta finalmente foi aberta e revelou a figura de uma senhora de idade por trás dela, que abriu um grande sorriso ao ver Shun.

- Bom dia, senhora Mieko. Meu irmão já acordou? – perguntou Shun, enquanto adentrava o apartamento, seguido de Esmeralda.

- O senhor Ikki? Ah, acho que ele dormiu fora essa noite. Ontem à tarde, ele passou aqui rapidinho para pegar algumas roupas. Disse que eu não precisava esperar por ele. E hoje, cheguei agorinha e vi que a cama dele estava feita do jeitinho que deixei ontem.

Shun não gostou do que ouvira. Ikki tinha dormido fora? Ele já imaginava onde ele deveria estar.

Enquanto Shun conversava com a senhora Mieko, Esmeralda não pôde deixar de reparar que, sobre a mesinha de centro da sala havia um CD no qual estava escrito "Para alguém especial". Curiosa, a jovem pegou o CD, sem que percebessem, e o colocou em sua bolsa.

- Esmeralda, vamos fazer assim. Eu vou deixar você no parque para que veja se estão arrumando tudo de acordo com o que você precisa. E de lá eu vou atrás do meu irmão.

- Você sabe onde ele está? – perguntou ela.

- Tenho uma boa idéia. – respondeu Shun, um pouco nervoso.


- Shun? – a surpresa de Hyoga foi grande ao deparar com Shun à sua porta logo tão cedo.

- Meu irmão está aí? – perguntou o jovem, rispidamente.

- Ahn... Está sim. Só um minuto, vou chamá-lo.

Hyoga e Ikki estavam tomando um caprichado café da manhã que o executivo tinha preparado quando foram interrompidos por vigorosas batidas à porta. Naquele momento, eles perceberam que a manhã não seria tão agradável quanto pensavam. E estavam certos.

- O que você quer, Shun? – disse Ikki, aparecendo alguns segundos após Hyoga sair para chamá-lo.

- Você prometeu ontem que iria ajudar a consertar o palco. Então eu vim buscá-lo para você cumprir sua promessa. – falou Shun, muito sério.

- Ah, você se sente no direito de me cobrar promessas? Que engraçado, porque ontem... – Ikki começou a dizer, de forma sarcástica, mas foi interrompido por Hyoga.

- Ikki, é melhor você ir com seu irmão. Ele deve estar precisando de muita ajuda hoje, porque o concerto é essa noite...

Os dois irmãos olharam para o escritor. Ikki percebeu que se continuasse ali, acabaria brigando com Shun na frente de Hyoga e não queria que isso acontecesse. Para evitar essa situação, ele aceitou partir com seu irmão caçula. Contudo, fez questão de se despedir de Hyoga com um beijo na boca; breve, mas significativo o suficiente para que Shun entendesse que ele não o faria desistir do rapaz russo.

Shun sequer se despediu de Hyoga. Viu que Ikki vinha logo atrás dele e entrou em seu carro. O executivo fez o mesmo. Partiram então, cada um em seu carro, para o parque.


Logo que Shun deixara Esmeralda no parque, a mocinha tinha tratado de procurar um rádio com alguns dos voluntários que auxiliavam na arrumação do concerto. Estava curiosa para saber de que se tratava aquele CD tão misterioso que encontrara no apartamento de Ikki. Havia percebido que aquela não era a letra do executivo, portanto era o presente de alguém para ele... e, por isso mesmo, precisava descobrir o conteúdo do CD. Finalmente, conseguiu um rádio com uma outra professora da escolinha e, tão rápida como pôde, ouviu a única música presente ali.

Assim foi que, quando os dois irmãos chegaram, praticamente juntos, ao local em que aconteceria o concerto, encontraram Esmeralda com os olhos cheios de lágrimas. Ambos, preocupados, deixaram as diferenças de lado para tentar descobrir o que acontecera com a jovem, que estava sentada sobre um banquinho com o rádio, já desligado, ao seu lado. Ela sustentava um olhar perdido envolto em lágrimas.

- Esmeralda? – adiantou-se Ikki – O que... o que aconteceu?

A jovem levantou os olhos para os irmãos e sorriu. Levantou-se e disse, em um tom de voz bastante tranqüilo, para Shun:

- Shun, eu estou indo embora.

O rapaz piscou seus olhos-esmeralda como se não tivesse acreditado no que ouvira:

- Embora? Como assim... embora? Você não pode ir, Esmeralda! Esqueceu que o concerto é hoje?

- Shun... Você e eu sabemos que o motivo para minha vinda não era bem esse. As crianças farão um show espetacular por conta própria.

Em seguida, a moça virou-se para Ikki e falou:

- Ikki, por favor, não pense que eu vim aqui para obrigá-lo a fazer qualquer coisa contra sua vontade. Nem eu nem seu irmão queremos o seu mal; muito pelo contrário... E eu... por um momento, eu tinha achado que poderia... que eu e você... – parou um pouco para enxugar as lágrimas – Esqueça. Agora eu sei que está bem. Você está em boas mãos.

Shun olhava para Esmeralda sem compreender nada. O que ela estava dizendo? E por que estava dizendo isso?

A garota então, aproximou-se de Ikki e segurou em suas mãos. Olhou em seus olhos com doçura e disse:

- Que bom que encontrou alguém que pode fazê-lo feliz. Não sabe como estou contente por você... – e colocou nas mãos do executivo o CD.

Ao ter o CD em mãos, Ikki entendeu o que tinha se passado. Sorriu para Esmeralda e deu-lhe um beijo na face.

- Bem... eu realmente preciso ir agora. Meu táxi chegou.

Antes de ir, olhou para os dois irmãos que a observavam e lhes disse:

- Não se preocupem comigo. Eu ficarei bem. Espero que vocês também... – e partiu.

Os dois compreenderam o que a moça quis dizer. Ela já imaginava o que estava por vir. Era visível que ambos estavam muito nervosos. A briga entre eles era inevitável.

- Espero que esteja satisfeito. – disse Shun.

- O que está querendo dizer? – respondeu Ikki, com a voz em um tom já agressivo.

- Oras. Mais uma vez você a deixa partir, magoada.

- Ela apenas entendeu o que você insiste em não enxergar, Shun! Aliás, se ela ficou um pouco magoada, a culpa é inteiramente sua, por dar falsas esperanças em uma situação que sequer estava sob seu controle!

- Eu não fiz nada disso! – replicou o mais novo.

- Claro que fez! Você a trouxe aqui e a fez acreditar que eu e ela poderíamos ficar juntos!

- Eu apenas falei a verdade! E fiz o que achei necessário! Esmeralda, ao menos, se preocupa com você!

- E o que te faz achar que o Hyoga não?

- E o que te faz achar que sim? Meu Deus, Ikki! Você conhece esse cara há quanto tempo? Não tem nem um mês! Nem um mês e acha que já pode confiar sua felicidade nas mãos dele? Ele pode estar te enganando, sabia? Ele pode ter segredos que você desconhece e...

- Shun, já chega! – Ikki deu um basta ao falatório de Shun com sua voz imponente, bastante irritado – Eu não vou ficar ouvindo você falar dele assim! Se você é preconceituoso, e não quer aceitar nada disso, eu pouco me importo! Agora, se continuar a se meter na minha vida desse jeito, nós vamos ter sérios problemas, você está me entendendo?

Os dois então trocaram um olhar sério. Chegaram a um ponto em que nunca tinham estado antes. Ikki achou que era melhor partir. Não queria que a briga com seu irmão atingisse um nível mais crítico. Virou-se sem falar mais nada e começou a andar rumo ao seu porsche. Shun o via partir quando, de repente, Ikki parou e disse, ainda virado de costas para o irmão:

- Pode ser que eu realmente não o conheça tão bem como você diz, Shun. Mas Hyoga está me fazendo muito feliz agora. Eu não quero ficar pensando demais no futuro, mas se tudo estiver mesmo destinado a acabar logo, eu não me importo. Pelo menos, eu tive a chance de ser feliz.

E foi embora, deixando um pensativo Shun para trás.


Naquela noite, enquanto se vestia para o concerto, Shun observava seu reflexo no espelho enquanto relembrava os acontecimentos do dia. Em sua mente, a última fala de Ikki era o que mais lhe deixava apreensivo. Shun sempre fora muito precavido, mas talvez, dessa vez, ele estivesse errado... Talvez tivesse... exagerado?

Ouviu alguém tocar sua campainha. Correu para atender a porta, na esperança de que fosse Ikki. Mas não; era Hyoga.

- Olá, Shun... Podemos conversar? – perguntou o rapaz louro.

O irmão de Ikki não respondeu nada. Apenas deu passagem para que Hyoga entrasse. O escritor então começou a falar:

- Eu imagino que você deva estar bastante zangado, e saiba que não tiro sua razão. Você se preocupa com seu irmão; não quer vê-lo machucado.

- Certo. – respondeu Shun, parado em frente a Hyoga, de braços cruzados.

- E eu também não quero que isso aconteça. Por isso vim aqui acabar com o nosso trato.

- Como? – perguntou Shun, pois não esperava essa atitude de Hyoga.

- Shun, eu gosto realmente do seu irmão. Sei que isso não estava nos planos, mas eu não pude evitar... e olha que tentei. De toda forma, não consigo mais mentir para ele. Não me sinto bem enganando Ikki. Então, decidi contar a verdade para ele. Hoje, depois do concerto.

- Você não pode fazer isso! Se contar a verdade, Ikki ficará arrasado! E ele...

- Shun, entenda. Coisas muito piores já aconteceram com seu irmão e ele sempre teve forças para se levantar. Nesse caso, ele pode, de fato, se chatear por ter sido enganado, mas acho que a raiva será passageira ao perceber que você fez isso pelo bem dele e também... porque ele irá entender que tudo o que aconteceu entre nós dois foi verdadeiro.

- É... pode ser... mas ainda assim, fico preocupado.

- Shun, seu irmão adora você. Ele pode até se zangar ao saber da verdade, mas ele sempre o perdoará, e você sabe disso.

- É, acho que sim. Mas e quanto a você? Você sabe que se contar tudo a ele, Ikki talvez não consiga te perdoar.

- Eu sei disso. E estou disposto a enfrentar as conseqüências. Se ele nunca mais quiser me ver, eu entenderei. Na verdade, Shun... Minha preocupação hoje é que Ikki saiba que, apesar de tudo, o que sinto por ele é verdadeiro. O que ocorrer depois disso não me interessa. Seu irmão me fez muito feliz e eu quero que ele seja feliz, da forma como ele desejar. Se eu conseguir proporcionar isso a ele, estarei satisfeito.

Ao ouvir isso de Hyoga, Shun logo percebeu não apenas que Ikki era correspondido em seus sentimentos, como também que o amor que eles sentiam era verdadeiro. Envergonhou-se um pouco por ter criado tantos problemas aos dois e sorriu para Hyoga, em um sinal de trégua.

Hyoga, por sua vez, tinha para si que ainda não sabia ao certo o que aconteceria entre ele e Ikki depois dessa noite. Contaria primeiro sobre o trato, e depois sobre... sua doença. Estava disposto a aceitar qualquer decisão que Ikki tomasse a respeito disso. Se ele quisesse se afastar, Hyoga permitiria sem problemas. E se Ikki quisesse continuar com ele... Céus... Como Hyoga gostaria que isso acontecesse, mas a todo momento se perguntava se seria justo com Ikki. "Eu quero ficar com ele, mas será que devo ficar com ele?" Sempre que chegava a esse ponto, a confusão voltava a tomar conta de sua cabeça. "Não, não vou pensar nisso agora. Um passo de cada vez."

De todo modo, não mencionou o fato de estar doente para Shun. Não, esse assunto teria de ser tratado, em primeiro lugar, com Ikki. O assunto que viera tratar com o caçula terminava ali. Resolveu então se despedir:

- Bem, Shun... Eu vou indo. Boa sorte hoje com seu concerto. Tenho certeza de que tudo sairá bem.

- Obrigado. As músicas que você escreveu ficaram muito boas.

- Era o mínimo que eu podia fazer. – sorriu o rapaz russo, pensando que, se não fosse pelo jovem de cabelos verdes, não teria tido a oportunidade de conhecer Ikki.

- Só é uma pena que minha amiga tenha ido embora. Afinal, seria mesmo bom ter alguém que pudesse fechar o concerto.

- O que sua amiga iria fazer?

- Ela ia cantar uma música ao piano. Já estava tudo preparado...

Hyoga pensou um instante. Seria uma boa idéia? Resolveu arriscar:

- Sabe, Shun... Eu tenho uma música que eu escrevi ainda ontem... para o seu irmão. E...

- Você quer cantá-la no final do concerto?

- Bom, não sei, só se você não achasse ruim... Só pensei nisso porque você disse que não havia mais ninguém para...

- Eu acho a idéia ótima! – concluiu Shun – Assim, podemos manter o programa!

Hyoga sorriu. Gostou da idéia.

- Eu já estou indo para o parque. Você já está com a música aí?

- Não, preciso passar lá em casa para pegá-la.

- Tudo bem! Me encontre então no parque daqui a uma meia hora para ajeitarmos tudo, certo?

- Ok. Te vejo lá então.

Chegando ao parque, Shun pôde ver que tudo já estava arrumado em seu devido lugar. Era uma bonita noite, apesar de fria. Parecia que tudo daria certo, afinal...

Continua...