O dia amanheceu como qualquer outro, mas para Kagome aquele dia não era como todos os anteriores, esse dia definiria todo seu futuro, se teria uma morte precoce ou se conseguiria sobreviver por mais algum tempo que fosse.

Os últimos dias tinha poupado todas as suas energias, pois precisaria dar tudo de si para conseguir sobreviver, e os passou com seus amigos, como se fosse uma pessoa normal aproveitando a vida, conversando, dando risada. Apesar de sua aparência relaxada por fora, por dentro ela estava totalmente assustada.

— Bom dia, Kagome. - Disse sua mãe ao perceber sua presença na cozinha. O cheiro do café da manhã tomava a casa toda e ela se deu conta de que aquela poderia ser a última vez em que sentiria aquela sensação, a última vez que ouviria o bom dia de sua mãe. Não pode evitar que um estranho vazio tomasse seu peito.

— Bom dia, mamãe. - A sua voz saiu um pouco mais desanimada do que gostaria que soasse.

A adolescente foi pega de surpresa por um abraço apertado de Sora e teve que se segurar muito para não acabar em lágrimas novamente, ela não queria que sua mãe lembrasse do último dia delas juntas como um dia lamúrias.

— Vamos comer? - Perguntou a jovem enquanto retribuía o abraço.

— Claro, meu amor. - Sora guiou a filha até o lugar a mesa onde ela costumava sentar diariamente.

Tomaram seu café da manhã calmamente, as duas iriam aproveitar a companhia uma da outra durante todo o dia. Kagome nem se lembrava qual foi a última vez que havia passado tanto tempo ao lado de sua mãe e sentia-se mal por tê-la deixado de lado de todos os seus planos.

Após o café a garota voltou ao seu quarto e esparramou-se na cama, queria apenas dormir e quando acordasse tudo isso não iria passar de um pesadelo, entretanto sabia que estaria apenas se iludindo e essa não era a hora de sonhar demais, já tinha passado por essa fase e todas as vezes em que acordou de um sonho bom seu destino não havia mudado.

Kagome se atentou aos passos de Sora entrando em seu quarto, a cama afundou ao seu lado e as mãos de sua mãe acariciaram seus longos cabelos negros.

— Você cresceu tanto. - Começou a mais velha com um ar de lamentação. - Eu sei que você andou escondendo algo, Kagome. - A garota teve o ímpeto de interrompê-la, mas sua mãe fez um suave barulho para que permanecesse em silêncio. - Tudo bem, meu amor. Eu sei que está tentando fazer algo para mudar essa história de terror que estamos vivendo, não precisa me contar nada, mas quero que saiba que eu estou ao seu lado e que, apesar de não poder fazer nada, estarei contigo até o final.

Kagome levantou e abraçou fortemente a sua mãe.

— Obrigada, mamãe. - Os braços de sua mãe era o melhor lugar do mundo, ali parecia que tudo se resolveria como um simples quebra-cabeça e entendeu que ao lado dela sempre se sentiria mais forte e disposta a dar tudo de si. Aquela mulher era seu grande exemplo, a força que transbordava dela era surpreendente, muitas vezes mal podia acreditar que era filha dela. - Obrigada por ser a melhor mãe do mundo. - Conclui. Não tinha como negar, duvidava que existisse alguém melhor do que Sora.

O dia se passou arrastado, mas o fim da tarde chegou e a cada minuto o estômago da garota de olhos cinzas se revirava em ansiedade. Apesar do nervosismo Kagome já tinha repassado todo plano em sua mente milhares de vezes, era tudo um tanto suicida, mas agora era tudo ou nada.

— Kagome. - Chamou sua mãe. - Tem algo que gostaria que você usasse hoje. - A jovem sentiu o peso de uma nova peça de roupa sobre seus ombros. - É uma capa, não sei se é de bom tom usar algo com a cor tão chamativa hoje. - Sora deu uma breve pausa, pensativa. - Mas que se lasque tudo isso. Essa capa esteve comigo por muito tempo e sempre me senti segura ao estar com ela e gostaria que você pudesse sentir o mesmo esta noite.

— Obrigada, mãe. - Kagome sentia-se curiosa sobre a cor da capa que estava sobre os seus ombros, não entendia porque a mãe tinha hesitado ao entregar-lhe. - Gostaria de saber a cor. - perguntou por fim.

— É um vermelho muito vivo, diria que vermelho sangue. Acho que vai acabar chamando muito a atenção, mas já estão fazendo de você a atração principal desse espetáculo horroroso, então acho que uma coisa a menos ou a mais não vai fazer diferença, não é mesmo. - A mãe indagou.

— Com certeza não vai fazer diferença.

O sol estava desaparecendo no horizonte e as inúmeras tochas foram acendidas, tudo exatamente igual a todos os anos anteriores em que houveram sacrifícios. Mãe e filha encontraram-se com Sango e Miroku em frente a porta de sua casa. A outra garota correu para abraçar sua amiga e lhe desejar sorte, agora tudo estava em suas mãos, em seguida o rapaz também lhe abraçou e, apesar de todo o sentimentalismo dessa despedida, Kagome estava decidida a não chorar aquele dia.

Cada passo lhe trazia angústia e seu estômago reclamava mais e mais. Sua mãe a guiou até em cima do estrado, muito conhecido por todos e onde mais duas pessoas estariam junto à ela, só para que todos acreditassem que aquela votação era algo justo, o que na verdade todos sabiam que não eram, mas gostavam de manter as aparências.

O ancião não parava de falar coisas totalmente sem importância e na sua cabeça só se passava a voz de Inu-Yasha lhe explicando qual era o plano a ser seguido. Estava completamente imersa em seus pensamentos quando ouviu o velho gritar seu nome para que votassem e, sem nenhuma surpresa dos presentes, ela havia sido escolhida.

— Acho que você precisa de ajuda, não é mesmo? - Myouga tocou seu braço e ela se afastou do toque dele.

— De jeito nenhum, sou capaz de andar sozinha pra qualquer lugar. - Kagome se concentrou na energia das pessoas que mais amava, Kaede, Miroku, Sango e Sora e desejou com todas as suas forças poder estar com eles novamente.

— É melhor se apressar, Kagomep. As pessoas estão esperando o grande final. - A jovem conclui que agora tinha certeza de que havia algo de muito asqueroso em Myouga, mas não havia tempo para pensar sobre isso, entretanto não esqueceria disso.

Kagome se virou rapidamente e deu um longo suspiro, estava totalmente concentrada. Foi uma grande surpresa para todos, humanos ou não, quando a garota se jogou de cima do estrado de madeira e saiu correndo em direção às árvores do bosque, ninguém conseguia acreditar que uma menina cega poderia fazer aquilo.

Os youkais que a esperavam do outro lado estavam excitados com as ações de sua nova presa e aguardavam ansiosamente e sadicamente o momento em que ela pusesse os pés em seu território.

Kagome aproveitou o curto tempo entre o caminho percorrido entre a vila e a escuridão para acumular o máximo de energia em um ponto pequeno de seu corpo e assim que sentisse os demônios perto de si usaria tudo para se defender.

Quando finalmente a garota adentrou a floresta ainda conseguiu correr por mais alguns segundos antes de sentir a presença dos seres malignos que a esperavam, eles ainda não tinham avançado em sua direção e ela acreditava piamente que eles estavam se deliciando com seu total nervosismo. Os demônios sorriam e gargalhavam enquanto mantinham os olhos fixados na pequena garota, eles não aguentariam por muito tempo até que cedessem ao desejo. Kagome não conseguiu correr por muito mais tempo antes de sentir vários youkais indo avidamente em sua direção, seu coração disparado faltava sair para fora do corpo, mas ainda conseguia raciocinar com certa clareza. Aquela era a hora de colocar mais uma etapa do plano em prática, assim que os demônios estavam a poucos centímetros de seu corpo ela liberou toda a energia que estava comprimindo e tudo aquilo explodiu com a potência de uma bomba, uma forte luz se espalhou por todo o local e os youkais foram pegos totalmente desprevenidos, seus corpos foram incendiados pelo poder que emanava da garota, muitos foram reduzidos a pó, enquanto outros agonizavam e suas peles iam pouco a pouco enchendo de bolhas e se soltando da carne.

As pessoas que estavam no vilarejo ficaram surpresos ao ver a luz intensa que surgiu dentro da floresta e logo depois os gritos de agonia dos youkais ecoaram por todos os lados, ninguém havia visto algo semelhante acontecer por aquelas bandas em toda a história de shikon no tama. O espanto de muitos era visível, mas poucos notaram que o ancião mal tinha visto o que estava acontecendo e saiu de lá o mais rápido possível.

O corpo de Kagome fraquejava depois de liberar tanta energia, mas ela continuou correndo o quanto podia e voltou a acumular o que lhe restava de forças em seu corpo para uma próxima explosão. Apesar de uma grande parte dos youkais terem sido abatidos, alguns ainda restavam e estavam receosos de chegar próximos da garota depois dos últimos acontecimentos, mas o medo da morte não os faria retroceder por muito tempo diante de uma presa tão especial.

O próximo ataque não demorou muito, pois eles perceberam o quanto a jovem estava debilitada, entretanto não contavam que ela teria energia para um próximo ataque. A adolescente estava preparada e assim que sentiu os demônios perto novamente um novo ataque foi liberado, não tão forte quanto o primeiro, mas suficiente para que os que restavam não conseguisse cumprir com o seu objetivo.

O corpo de Kagome não pode suportar todo o esforço que a garota tinha feito nos últimos minutos e caiu no chão junto com os outros youkais que foram pegos pelo seu último golpe, entretanto o corpo inerte da jovem não permaneceu naquele estado por muito tempo. Agora era a hora da próxima etapa do plano, Inu-Yasha que a observava atenciosamente desde o começo da cerimônia, saiu de seu esconderijo e rapidamente pegou a garota do chão e saiu em disparada antes que outros youkais chegassem no local. A essa hora todos já sabiam sobre o potencial dela e o quanto antes chegassem em seu esconderijo melhor seria, os dois seriam alvos muito fáceis de se abater naquele momento. No estado em que ela se encontrava, um segundo a mais que fosse, lhe traria grande risco de vida, o estado dele também não era dos melhores, logo chegaria uma nova fase lunar e ele já sentia os efeitos em seu corpo. O destino definitivamente parecia querer jogar contra eles.