Capítulo XXI –23 de Outubro
A noite se aproximava, e seu coração parecia bater mais forte a cada segundo. Como era injusta a vida, quando tudo finalmente parecia estar certo, quando sentia-se enfim feliz, o destino lhe propunha um desafio de tal magnitude capaz de ruir seu sonho de uma só vez.
Notava o Sol lentamente se por dando lugar à Lua, o céu estava rosado e os derradeiros feixes de luz apareciam por entre algumas nuvens como espadas douradas cortando o firmamento. Fechou a longa cortina velha que cobria a janela de seu quarto, deu poucos passos e se sentou na cama que fez um estranho ruído ao ser tocada pelo corpo leve; deitou-se; respirou fundo; voltou a se sentar, estava muito ansiosa para permanecer deitada, e fechar os olhos só ajudava a trazer ainda mais medo.
Decidiu-se por deixar seu quarto, mas assim que abriu a porta ouviu a grande e confusa animação das vozes que tomavam a cozinha, havia se esquecido por alguns instantes que um dos grupos de aurors que atacariam naquela noite tinha combinado um encontro em sua casa, entre esses profissionais estavam alguns de seus irmãos. Encostou ao batente da porta, e respirando fundo se puniu por discordar de toda aquela confiança, era estranho o que pressentia, porém algumas vezes parecia já ter vivido aquele momento antes e nenhuma de suas sensações quanto a isso era agradável.
'Não é possível...' –pensou assustada, agarrando-se com mais força à madeira. 'Sabem exatamente o que fazer, está tudo planejado, fizeram com cuidado... Vai dar certo, sim, finalmente aquele-que-não-se-nomeia será destruído!' –forçou-se a unir seus pensamentos aos daqueles no andar térreo.
Guardara para si as memórias da manhã, não havia dito a ninguém que havia aceitado se casar com Draco Malfoy, aquele não seria o melhor dia para causar discussões familiares, todos passavam por um momento frágil de grande pressão e medo, afinal lutar contra death-eaters não era tarefa simples, mesmo quando esses eram pegos de surpresa.
Não podia parar de imaginar o que aconteceria com Draco se algo desse errado, ele seria punido de qualquer modo, fosse pelos apoiadores da missão contra Voldemort, fosse por aqueles que seguiam o grande feiticeiro, apesar de não ter sido ele o responsável pela delação da grande reunião que fariam no cemitério naquela noite.
"Gostaria de saber como descobriram..." –suspirou fechando a porta de seu quarto, e voltando a se pendurar na janela. "Como Dinburg e Lê Croix souberam dessa reunião? Eles não são agentes duplos..." –continuou a conversar com si mesma ao ouvir o som de delicadas batidas. "Quem é?" –perguntou em tom casual.
"Jones" –ouviu a voz dizer, e antes que pudesse fazer mais caretas frente à chegada da estranha jovem, notou-a adentrando o recinto. "Me desculpe a intromissão... É que me mandaram permanecer aqui" –ela falou baixo.
Aquela era a primeira vez que permanecia por mais de poucos segundos frente a frente com Acies Jones em um local tão pequeno quanto seu quarto, e mesmo não estando muito satisfeita com a situação pensou que seria o melhor momento para tentar desvendar ao menos alguns dos mistérios daquela mulher.
"Por que não está com Draco?" –perguntou, tentando disfarçar o amargor que sentia ao pensar nos dois juntos.
"Fui mandada em uma missão..." –ela murmurou. "Se quer saber a verdade... Não fui chamada para a tal reunião!" –disse com a voz mais forte, caindo sentada na cama após suspirar.
"Sei como é isso!" –respondeu apontando para si mesma. "Normalmente nunca me convidam para nada! Digamos que sou completamente excluída de determinados aspectos da vida!".
Jones sorriu, e assim parecia ainda mais bonita do que quando séria.
"O que você acha que vai acontecer hoje?" –a bela morena deu segmento à conversa.
"Como assim?".
"Acha que vai dar tudo certo?".
"Acho que sim" –ela respondeu sem acreditar em suas próprias palavras.
"Diga a verdade" –a jovem pediu em tom casual. "Somos as duas excluídas da missão... Pode ser sincera comigo" –Jones continuou sem tirar seus olhos dos dela.
"Você sabe exatamente o que eu penso!" –Ginny retrucou com um sorriso vitorioso na sua face, se sinceridade era o que aquela mulher desejava, deveria dar o exemplo antes de demanda-la de outra pessoa.
"Pensa o mesmo que eu..." –Acies suspirou, cobrindo o bonito rosto com as mãos. "Pensa exatamente o mesmo que eu!".
Acabara de descobrir o grande mistério de Acies Jones, ela podia ler mentes! Ainda olhando para ela balançou a cabeça negativamente sem poder acreditar que logo a sua frente estava um legítimo admadverto, seres tão raros quanto aqueles que falam com cobras, na verdade, seres mais raros do que esses. 'É por isso que cobre os ouvidos, é por isso que fica longe de todos!' –pensou imaginando o quão turbulenta era a vida de alguém que ouvia os pensamentos de todos à sua volta. Andar em meio à uma multidão era simplesmente um barulho insuportável, estar perto de três pessoas seria como se...
"Todas falassem ao mesmo tempo" –Jones sussurrou sorrindo. "Como se todos falassem juntos... Alguns gritam..." –observou desviando os olhos para a parede.
"Se sabe tudo o que penso, sabe também o que outros pensam, não?".
"Nem todos... Há uma poção seladora de mentes, não é exatamente simples de ser feita, mas funciona".
"Oclumência?".
"Funciona também, entretanto só se a pessoa realmente souber que seus pensamentos estão sendo invadidos... Isso é bem raro quando se fala em alguém que pode ler mentes" –Jones explicou cutucando a fronha de seu travesseiro.
"Se sabe tudo o que penso, sabe que...".
"Acha que essa noite será um fracasso, que de certo modo desconfia de Dinburg e Croix e que aceitou se casar com Draco" –a morena disse sem qualquer pudor, mostrando que saber o segredo alheio não lhe era qualquer novidade.
"E?".
"Sobre o casamento, parabéns, Draco gosta realmente de você!".
Ginny não conseguiu segurar o largo sorriso que tomou todo seu rosto, agora estava certa de que Draco realmente a amava, afinal Jones sabia o que realmente se passava pela mente dele.
"Sobre o fracasso da noite... Não tenho o que dizer sobre isso... O mesmo digo sobre esses dois homens. Não gosto deles, ambos possuem a mente selada, mas isso é de costume para os aurors".
"Mas faz você desconfiar deles...".
Jones não respondeu, parecia saber de algo, todavia não agia como alguém que guarda um segredo proibido, estava muito confortável para isso. Permaneceram caladas por longos minutos, Ginny olhando para as estrelas que apareciam entre algumas nuvens avermelhadas e Acies cutucando o travesseiro, cuja fronha lhe despertara tanta curiosidade.
"Gostou mesmo dessa fronha, não?" –Ginny comentou ao notar a atenção que a jovem mantinha sobre o travesseiro.
"Oh... Me desculpe, espero que não tenha estragado!" –ela disse empurrando o travesseiro para longe, e parecendo realmente sentir-se deslocada. "Não devia estar aqui... Realmente" –Jones continuou, levantando-se e andando de um lado para o outro. "Me mandaram para cá, mas não devo ficar aqui!" –murmurou novamente.
'Começou o ataque de esquisitice!' –pensou, e logo se puniu por lembrar que podia ser ouvida.
"Sim, sim... Vê? Você não gosta de mim... Poucos gostam... Nem sei se eu mesma gostaria de mim!" –Acies falava com enorme rapidez, como se pensasse em algo mais importante que suas palavras. "Eu vou... Vou... Para outro lugar!" –disse logo saindo do quarto e deixando Ginny só.
"É louca! Ela é muito doida! E não posso me punir por dizer isso!" –falou, sabendo agora que apesar de tudo, Acies Jones não era alguém que beirasse a normalidade humana.
"Tá falando sozinha?" –um dos gêmeos perguntou rindo alto.
"Sua namorada é louca, me perdoe, mas ela é louca!".
"Sim, sim... A mãe diz o mesmo... Mas Fred não gostaria de ouvir isso de você!".
"Ah George, vocês podiam usar uma placa de identificação, não acha? Talvez se vestissem roupas diferentes, ou cortassem o cabelo diferente, ou... Se fossem diferentes em alguma coisa!!!" –reclamou por nunca saber quem era quem.
"Eu sei quem sou, ele sabe quem ele é... É o bastante! Se bem que as vezes me confundo em fotos, sabe?" –o ruivo deu uma forte risada. "Por que não tenta deixar de odiar Acies?".
"Eu não a odeio, mas você há de concordar que ela não é uma pessoa comum!".
"E quem é, minha irmã? Quem é realmente comum?".
"É... Talvez esteja certo..." –murmurou. "E nesse caso ela é MUITO incomum!" –terminou.
"Ah se você soubesse irmãzinha...".
"Admadverto!" –exclamou, se deliciando com a surpresa estampada no rosto de George. "Eu sei... E mesmo assim ela me parece estranha".
"Ginny, deixe de julgar as pessoas!" –ele bronqueou. "Acies é uma boa pessoa, você pouco a conhece, e sei que não gosta dela por que tem ciúme do cabeça de ovo!".
"POR QUE TODO MUNDO ACHA QUE EU TENHO CIÚME?" –gritou olhando para George com raiva.
"Porque você tem!" –ele deu risada.
"SAI LOGO SEU CHATO! SAI DO MEU QUARTO!" –ela mandou jogando uma de suas almofadas contra a porta e quase o acertando no rosto.
"O dia em que você vai me acertar ainda não chegou, Ginevra!!!" –ele brincou, fazendo com que ela gritasse de raiva.
'Como consegue?' –pensou assustada frente à calma de seu irmão em um momento tão estressante como aquele, quando poucos minutos faltavam para que finalmente o grande plano fosse posto em prática, e principalmente, fosse posto à prova.
"Eu não quero que vá..." –ouviu pela parede Jones dizer com desespero, era a primeira vez que sentia nela a presença de algum tipo de sentimento. "Sei que acreditam nesse plano, mas eu não! Não acredito nesse plano!".
"Acy não há razão para desconfiança, tudo correrá como pensamos, o plano é perfeito!".
"NÃO HÁ PLANO PERFEITO!" –a voz grave gritou, repetindo as palavras que dissera a Draco algumas horas antes. "Não há plano perfeito..." –ela continuou em um doloroso suspiro, falava palavras que soavam como se mergulhadas em lágrimas.
"Olha eu prometo que vou voltar, vivo, desse mesmo modo que vê agora! Não, não! Prometo que vou voltar ainda melhor, minha vida! Voltarei vitorioso... Tenho certeza disso! Acredite em mim, por favor!".
'Como podemos acreditar em algo tão bom?' –sua mente foi tomada por essa pergunta. O plano perfeito era sempre enganoso, pois nada é perfeito, a perfeição pode ser buscada, mas nunca será atingida. Jones parecia saber disso, tanto quanto ela.
Viu com o coração apertado o enorme batalhão deixar sua casa, estavam todos vestidos de preto, escondidos por baixo de capas longas e de capuzes pontudos. Sua mãe se despediu de seu pai, tinha o rosto tomado por lágrimas e seu medo era tanto que fez com que ignorasse o forte abraço que Jones dava em um de seus filhos. Todos se despediam... Todos. Todos, menos ela. Mais uma vez Draco estava longe, estava junto ao bando que seria atacado, estava no olho da tempestade antes mesmo que essa começasse. Estaria pensado nela? Sentia sua falta naquele momento? Voltaria vivo?
"Sim, sim e sim!" –disse alto na desesperada tentativa de se convencer que o tal plano era realmente perfeito, e que começava o início do fim de todos os seus maiores pesadelos.
"Até mais" –a voz de Harry sussurrou perto de seus ouvidos, e ela logo o abraçou com força.
Nas costas daquele jovem eram colocadas todas as esperanças do mundo, mágico e muggle, não devia ser uma sensação agradável, e Ginny definitivamente não desejava estar no lugar dele. Não havia razão para odiá-lo, para se esquecer de tudo que se passara com eles dois, foram felizes enquanto juntos, e como tudo tem um fim, o relacionamento o teve também.
"Harry, não vou desejar boa sorte, porque acredito que você não precisa de sorte! Levou adiante as idéias de Dumbledore, destruiu todos os horcruxes! Sorte precisamos quando não estamos preparados, e você está!".
"Obrigado, Ginny..." –ele fez uma longa pausa. "Espero fazer jus a tanta confiança!".
"Você já faz, Harry. Você já faz" –ela disse seriamente.
Saíram todos, pelo menos todos aqueles que iriam para a batalha, os aurors pareciam animados e alguns poucos tinham medo nos olhos, andavam cantando, estavam certos da vitória, na verdade era como se a guerra toda já havia sido ganha.
"E nada ainda foi ganho..." –Jones murmurou em seu ouvido, passando por ela e abrindo a porta, estava indo embora.
"Para onde vai?" –chamou.
"Embora... Fred já se foi, eu me vou agora".
"Para onde?".
"Não sei ainda" –ela suspirou. "Mas não conseguirei permanecer parada por mais de alguns segundos. Estou muito nervosa para isso!".
"Eu também" –confessou.
"Vamos comigo?".
"Não sei..." –respondeu sem pensar, desejava ardentemente segui-la para algum lugar, porém pensava no que faria sua mãe ao notar que sumira de casa, fora o fato de ainda carregar certas dúvidas sobre a possibilidade de confiar em Acies Jones. 'Se fosse só isso...' –respirou fundo ao se lembrar do fato de que não existia qualquer possibilidade de manter sua privacidade ao lado daquela pessoa.
"Isso é realmente péssimo" –Jones falou. "Me ponho no lugar das pessoas, e sei o quão terrível é ter sua mente aberta a alguém, nossos pensamentos merecem permanecer em segredos... Quando queremos que alguém saiba no que pensamos, os transformamos em palavras...".
"Me desculpe, mas é que...".
"Eu compreendo... Eu mesmo não vivo sem cápsulas seladoras, se quer saber..." –ela disse abrindo uma pequena caixa plástica que carregava em um dos bolsos de sua calça, e de lá retirou uma pequena pílula vermelha. "Se quiser... Dura por 24 horas... Um pouco mais...".
"Isso é... Isso é a tal poção que sela mentes?".
"Sim".
"Se tomá-la você não poderá ler meus pensamentos?".
"Não... Nem eu, nem ninguém".
"Durante 24 horas?".
"Exatamente".
"Como posso acreditar que não mente?".
"Não pode".
"Portanto...".
"Não a tomará".
"Exatamente".
"Há um modo..." –a morena observou. "Veritasserum, você tem?".
"Você tomaria?".
"Sim... Por que não?".
Ginny andou até um pequeno armário de onde retirou um frasco de vidro muito escuro e um pequeno copo de barro.
"Aqui está...".
A jovem logo encheu o copo com o líquido e tomou tudo em único gole, piscou os olhos duas vezes com força e sorrindo olhou para ela esperando que ela tomasse logo uma atitude, e assim foi.
"Posso acreditar que essas pílulas vão selar minha mente?" –perguntou de forma direta.
"Sim, pode".
"O que são essas pílulas?".
"Um concentrado seco de cogumelos e sementes de dandélia, tudo isso mergulhado em um suco de extrato de malva dissolvido em água de chuva do Samhain por três dias. O que sobra deve ser colocado na fumaça da queima de três porções médias de althea durante 3 horas e meia e...".
"Está ótimo... Sim... Vou morrer?".
"Acho que não".
"Acha?".
"Sim, pois não sei o que pode acontecer caso você seja alérgica a alguma dessas ervas...".
"OK... OK... Bom, vou tentar!" –Ginny disse engolindo sem dificuldade a minúscula pílula vermelha. "Como sei se faz efeit... Ahhh minha cabeça" –reclamou da terrível dor que tomara sua têmpora.
"Fez efeito..." –Acies Jones disse com um sorriso.
Deram poucos passos até chegar à sala, Ginny viu sua mãe deitada no sofá olhando fixamente para o teto, parecia ainda mais nervosa que ela, toda a família estava em jogo e qualquer falha significaria uma tragédia. Molly não parecia nota-las, mas Ginny preferiu criar uma história a dar a ela uma preocupação extra.
"Mãe... Vou tomar alguma coisa para tentar dormir, tá bom?".
"Sim, sim... Faça isso!" –ela lhe respondeu sem realmente ouvir o que ela havia dito.
"Para onde vamos?" –perguntou a Acies.
"Isso depende... Até onde vai sua coragem?".
"Vai bastante longe, se quer saber" –respondeu com orgulho.
"Então vamos onde não deveríamos estar ou melhor, vamos exatamente para onde deveríamos estar!" –Jones sorriu misteriosamente.
"Você sabe onde fica?".
"É claro que sim!".
SIM, ENTIDADES SUPERIORES EXISTEM!
Eu estou com esse capítulo pronto HÁ 2... 2 LONGOSSSSSS meses, e o site se recusava a aceitá-lo!!!!!!
MILLLLLLLLLHÕESSS DE DESCULPAS... Realmente eu NÃO desisti... Espero que não desistam de mim!!!!
