Nota da Tradutora: Depois de mais de quatro anos, finalmente consegui concluir esta história! Obrigada pelo apoio de todos, e espero que gostem do epílogo.
Como sempre, em negrito estão os flashbacks.
Syaoran HeartCaptor
Por absolutefluffiness
Tradução de The Fluff Queen
Epílogo
Ming não conseguiu entender. Em um momento, seu feitiço para voltar no tempo estava funcionando, e então, de repente, ele viajava descontrolado pelo passado. Mas havia alguém agarrado a ele – alguém com um abraço de ferro.
"Quem diabo é você?" Ele gritou para o estranho loiro de olhos prateados que vira com Sakura.
"No fundo, no fundo, tu sabes quem sou e por que estou aqui," respondeu o rapaz, com calma, segurando a mão de Ming e abraçando-o. "E nós vamos consertar tudo."
"Solte-me! Solte-me! Droga, me solta!" Ming gritava, várias vezes, debatendo-se inutilmente nos braços fortes de Aris. Tentou usar sua magia, mas nada aconteceu.
Aris limitou-se a sorrir enquanto puxava Ming por uma brecha que se abriu no túnel do tempo. "Paguei um preço alto demais por esta chance," ele sussurrou no ouvido de Ming. "Não quer descobrir quem nós realmente somos?"
Ming olhou nos olhos do rapaz. "O que queres dizer?" Perguntou – a loucura trazida pela magia nela dentro dele foi momentaneamente afastada.
"Primeiro temos que livrá-lo da magia que o contamina. Perdoe-me pelo desvio. E depois..." Aris riu e apertou o abraço em Ming. "Vamos ver se é possível que uma pessoa renasça."
Nove anos depois.
Local: Mansão Li, Xangai, China.
Data: No mês da lua de verão (julho)
Desde que voltara aos oito anos de idade, estando com todas as lembranças de sua vida intactas, Li Xiaolang, ou Syaoran, cresceu ciente de quem era e de quantos anos realmente tinha. Sabia que havia mantido sua promessa: sobrevivera e ainda amava Sakura. Mas, como encontrá-la? Há quase nove anos percebera, com o conselho dos pais, que encontrar Sakura antes do momento destinado destruiria tudo que ela tanto sacrificara, de modo que ele esperou.
Agora o momento havia chegado, mas ele ainda não podia ir encontrá-la. A decisão de manter-se distante quase havia destruído Syaoran. Como resultado, ele sentia-se furioso e frustrado em um mundo que os forçara a pagar um preço altíssimo por erros que não tinham sido cometidos por eles mesmos. Apenas o amor por ela o fortalecia. O que facilitava era que Yelan mudara-se com a família inteira para Taiwan, impedindo-o de deixar que Sakura soubesse onde ele estava. Mas sabendo que ela existia e o esperava, e ainda assim incapaz de deixá-la saber que ele também esperava... Xiaolang fechou os olhos.
Nove anos. O momento em que haviam se conhecido originalmente se aproximava – e ele ainda não podia mudar-se para junto dela. Não até que ele terminasse de pagar sua parte do preço para consertar tudo – e esperar.
Mas, pensando bem, a vida fora boa para Syaoran. Por que estou deprimido? Pensou ele. Era feliz. Descobriu que, nessa vida, Xiaolong fizera as pazes com Yelan e, para surpresa de todo o clã, Xia Hu viera morar com a família Li. Ela e Yelan tornaram-se amigas e criaram, juntas, os filhos de Xiaolong.
Xiaolong conheceu a alegria de ter dois filhos que eram bons amigos e o amor de duas mulheres – que ele também amava – e morreu feliz. Xia Hu morreu um ano depois que Xiaolang voltara no tempo, e ele a conheceu, mesmo que por pouco tempo, como sua verdadeira mãe.
Para melhorar, Syaoran percebeu que haviam salvado Ming. Sentira-se apreensivo de acordar em um mundo onde Ming morava com ele na Mansão Li, mas o afeto entre eles fora uma surpresa. E os olhos... Naquele novo mundo, os olhos de Ming eram completamente diferentes. Causavam a Syaoran saudades de certo Guardião.
Ming o consolara após a morte de Xia Hu, e Syaoran ficou agradecido e feliz. As quatro irmãs regularmente conspiravam contra os dois, mas, juntos, eles eram capazes de resistir às tentativas.
Embora houvessem momentos nos quais teria esganado Ming com o maior prazer, ele o amava mesmo assim. Tamanha mudança era sempre uma fonte de orgulho para Syaoran, agora que sabia que Sakura possuía os poderes de mudar mundos a seu bel-prazer e por força de vontade própria. Ming crescera livre de magia negra e provara ser um garoto bem estranho, às vezes sarcástico e enigmático – como Aris, refletiu Syaoran – e às vezes feroz e temperamental. Mas o que era sempre constante era o bom coração de Ming.
"Esse é o teu irmão? Ele parece um fracote!" Disse um garoto na escola, olhando com desprezo para Syaoran que, aos nove anos, acabara de entrar na terceira série. O garoto encontrara Syaoran desenhando flores de cerejeira; desenhá-las animava Syaoran, mas o tornava motivo de zombaria dos outros garotos.
Ming posicionou-se entre Syaoran e o outro. "Cuidado com o que fala," disse ele, em voz baixa. "É do meu irmãozinho que tu estás falando!"
"É? Ele não parece ser durão," zombou o outro. "Além do que, ele é o bastardinho, não é? O herdeiro do clã Li és tu e esse fedelho, esse show room," o garoto empurrou a cabeça de Syaoran com força, "é o bastardo, filho da puta concubina, não é? E é um órfão! Pertence à sarjeta!"
Syaoran sabia que não devia responder às provocações e preparava-se para afastar-se, mas ficou chocado quando Ming pulou sobre o outro garoto, empurrando-o contra a parede aos gritos. "Cale a boca! Não te atrevas a falar do meu irmão desse jeito!"
Foi Syaoran quem acabou puxando Ming para longe do garoto agora apavorado.
"Irmão," disse Syaoran quando voltavam para casa a pé, mais tarde, "eu posso cuidar de mim."
Ming olhou para Syaoran e colocou uma mão sobre sua cabeça, desalinhando os cabelos já assanhados dele.
"Ei!" Syaoran tentou afastar a mão de Ming, mas o mais velho usou seu tamanho para continuar desarrumando os cabelos do caçula.
"Alegra-te," Ming sorriu. "És como um velhote, sabias?"
"Não quero ser, mas..." Syaoran suspirou. "Tem algo que preciso fazer."
Ming olhou para o irmão caçula que, com frequência, parecia muito mais velho do que ele – e muito mais triste.
"Xiaolang," ele parou de assanhar os cabelos do irmão, "por que tu não me contas o que te faz sofrer?" Os olhos prateados estavam escuros de preocupação.
"... Não posso," Syaoran desviou os olhos. "Eu... tenho algo que devo fazer."
Ming explodiu. "Tu és apenas um moleque! Por que ages como se tivesses sempre algo a fazer, como se carregasses um terrível peso que não podes dividir? Devias estar brincando, brigando comigo... Mas passas o teu tempo estudando, treinando... E com essa estranha obsessão por flores de cerejeira!"
"Confie em mim, por favor." Syaoran fechou os olhos, exausto. "Sou feliz por ter-te como irmão. Sou mesmo. Mas é que... Não posso... Ainda não é o momento." Ele suspirou profundamente. Como poderia contar a Ming sobre Sakura, sobre o que tinham feito para salvar a ele e a tantos outros?
Repentinamente, sentiu o braço do irmão em seus ombros.
"Um 'muito obrigado' basta," Ming disse, bem-humorado. "Sabe, por salvar-te daquele valentão. E então depois podes me dar a tua sobremesa."
Syaoran fez uma careta, mas, quando Ming sorriu, enrugando os olhos, ele sorriu de volta. De algum jeito, Ming compreendera e decidira não pressioná-lo.
Foi quando Syaoran sentiu a magia solta – uma Carta Clow! Mas antes que ela pudesse atacá-los, estacou diante de Ming e retornou à forma de Carta.
Ming pegou a Carta, examinou-a com curiosidade e sorriu para Syaoran. "Deixe-me adivinhar. É isso o algo que tu tens que fazer? E aconteceu quando estávamos acabando uma conversa desconfortável. Que clichê!"
"Tu..." Syaoran observava Ming. "Tu absorves magia!"
"E isso é bom," disse Ming, jogando a Carta para Syaoran, "senão tu terias te machucado. A partir de agora," disse ele, decidido, "estaremos sempre juntos para que, da próxima vez que essa tal Carta Clow ataque, eu esteja ao teu lado para ajudar-te."
"Mas..." Syaoran ponderava diversas possibilidades, e pensou em Aris – e se Aris tivesse, de algum jeito, sobrevivido? Originalmente, os olhos de Ming eram gelados, em um tom de cinza azulado, mas agora eram prata claro como os de Yue.
Mas era impossível. Syaoran sabia disso por seus estudos de magia. Aris fora uma criação que não tinha alma, que, por isso, não pudera deixar para trás um resquício de si mesmo. Embora às vezes também quisesse estrangular o novo Guardião, sentira uma relutante afeição por ele – e, quando o Guardião sacrificara a própria vida para ajudar Syaoran e Sakura, enfim ganhara a admiração de Syaoran.
"Mas o quê?" Ming parou diante de uma barraquinha de sorvete. "Qual sabor tu queres?"
E novamente ele agia daquele jeito descontraído, como se... Syaoran sacudiu a cabeça. Ming era Ming, e Aris – Aris merecia ser lembrado por quem era.
"Morango," Syaoran sorriu.
"Ele paga," disse Ming, indicando Syaoran ao sorveteiro.
"Mas... Ming!"
"Ei, tu me deves!" Ming riu, e Syaoran finalmente sorriu de volta.
E assim seria ao longo dos nove anos seguintes: Ming ajudou Syaoran a capturar as Cartas Clow, e era excelente na escola, sendo considerado um príncipe da escola. Syaoran basicamente mantinha-se alheio, estudando magia e as Cartas. Ming deliciava-se com toda a atenção que recebia, Syaoran evitava-a. E eles se entendiam.
Era bom ter um irmão mais velho.
Mas em alguns momentos ter um irmão mais velho não era nada bom. E Syaoran gemeu lembrando-se da última traquinagem de Ming.
"Ming?" Syaoran chamou ao chegar em casa, no fim da tarde. A residência encontrava-se estranhamente silenciosa, e Syaoran fechou a porta por trás de si com cautela. Onde estariam todos? Onde estariam os funcionários, Meiling, Eriol... E sua mãe?
Ele estremeceu – seria sangue aquela mancha no chão? Havia uma nota presa ao corrimão da escada, que dizia, Se queres salvar teu irmão mais velho, vá depressa ao teu quarto.
"Ming!" Gritou Syaoran, usando um feitiço de vento para ir ao andar superior. Arrombou a porta do próprio quarto...
... E acabou encharcado por uma mistura de melaço e alpiste.
"O quê?!"
Ming se acabava de rir. "Acho que tu realmente me amas," ele disse, ofegante, entre gargalhadas.
"Por que tu... Tu!" Syaoran tentou usar um feitiço, mas lembrou-se – tarde demais, como sempre – que nenhuma magia funcionava perto de Ming. Acabou sendo forçado a desviar-se do próprio feitiço de água.
"Eu não tenho tempo para perder com brincadeiras!" Explodiu Syaoran, finalmente perdendo a cabeça. Seu pavio fora encurtado devido aos anos que passara como alvo das brincadeiras e armações de Ming, que sempre insistia que Syaoran devia ver a vida com mais bom-humor.
"Sim, eu sei. As Cartas Clow e tua obrigação, blá-blá-blá." Ming suspirou e deu uma toalha a Syaoran. "Xiaolang, por que não confias em mim e me contas por que estás reunindo as Cartas Clow?"
"Contar-te-ei quando eu completar dezessete anos," disse Syaoran. "Eu prometo."
"É melhor que os dois limpem essa bagunça que ficou." Meiling, que havia acabado de chegar da escola, estava de pé no meio do corredor. "Pelo amor de Deus, eu..." Ela caiu na gargalhada.
"O que foi?"
"Adorei a maquiagem!" Meiling riu. Syaoran virou-se para o espelho. A toalha dada por Ming manchara seu rosto de grafite.
"MING, SEU FILHO DA PU-"
"Do que estás chamando teu irmão mais velho?" Os gritos de Syaoran foram interrompidos por uma tranquila voz vinda da porta.
"Tia-mãe." Ele fez uma reverência, e viu o divertimento nos olhos de Yelan.
"Sinceramente, Xiaolang," disse ela, com um sorriso na voz, "deves aprender a te proteger melhor das tolices do teu irmão. Isso tornar-te-á um guerreiro melhor, de modo que poderás proteger – o que te é precioso."
Às vezes, quando ela falava, Syaoran desconfiava que sua tia-mãe sabia seu segredo. Mas ela sempre agia com inocência quando ele tentava tocar no assunto. Ming saiu do quarto de Syaoran a fim de ir atrás de Meiling, de modo que ele estava a sós com Yelan.
"Xiaolang, teu aniversário de dezessete anos aproxima-se," disse ela, em voz baixa. "Vamos conversar no escritório de teu pai. Tenho um presente para ti – de teu pai, tua mãe e meu."
Local: Residência dos Kinomoto, Tomoeda, Japão.
Data: No mês da lua de verão (julho).
"Monstrenga! É hora do café!" Touya gritou do pé da escada.
"Eu não sou monstrenga!" Gritou Sakura em resposta, mas de má vontade.
Havia passado os últimos nove anos (tendo voltado aos oito anos), perguntando-se sobre Syaoran. Pesquisara sobre o clã Li, e não encontrou nada em Hong Kong a não ser uma pequena nota sobre a misteriosa mudança do clã, dezessete anos antes. Seu coração ficara disparado e ela se permitira nutrir esperanças.
Mas o tempo passou, e o ensino médio começou, e nenhum belo aluno moreno e de olhos castanhos transferiu-se para Seijyu Hugh. Sakura acabou por parar de entusiasmar-se sempre que era anunciada a chegada de um novato; seu coração simplesmente sofria quando não era Syaoran.
Tomoyo era sua fonte de força. A prima sabia que não devia perguntar e, quando Sakura precisava chorar sem ter que explicar porquê, Tomoyo a ajudava até passar. Tinha aprendido a confortar Sakura dizendo que tudo ia ficar bem. Isso sempre a acalmava.
Até esse ano.
Passara os três anos de ensino médio dispensando os convites de todos que a chamavam para sair, assim como Tomoyo. Outros alunos, cruéis, zombavam delas e as chamavam de lésbicas, mas Sakura não se abalava.
Aos doze anos, Sakura começou a trabalhar, fazendo pequenos serviços para o pai e ajudando os comerciantes de Tomoeda. Guardava todo o seu dinheiro escrupulosamente, prometendo a si mesma que, se Syaoran não chegasse quando ela terminasse a escola, ela iria a Hong Kong a fim de procurá-lo.
Apenas Tomoyo sabia dos planos de Sakyra, e prometera acompanhá-la quando ela fosse em sua busca, embora não soubesse o que – ou quem – Sakura procurava. O amor de Sakura pela prima aumentava quando Tomoyo, sem fazer perguntas, ficava a seu lado, ajudando-a com tudo.
A não ser por uma coisa. Mas não era culpa de Tomoyo.
As Cartas não haviam aparecido.
Revirara o porão da casa do pai diariamente aos dez, aos onze, aos doze anos – e nada. Nada de Kerberos. Nada de Yukito também – e Sakura preocupou-se ao perceber que nem mesmo a Srta. Mizuki aparecera para Touya.
O que aconteceu?
"Sakura?" Tomoyo sorria. Havia chegado aquele dia em julho, quando Sakura sempre preferia ficar sozinha. "Vou para casa mais cedo. Fique com isto. Eu as fiz para você."
Era um pequeno lanche que consistia de almôndegas chinesas.
Sakura sorriu e abraçou Tomoyo, que havia descoberto a preferência de Sakura pelo prato. O sabor nunca era idêntico às almôndegas preparadas por Syaoran, mas era maravilhoso, mesmo assim.
"Divirta-se em sua missão hoje," disse Tomoyo em voz baixa.
Sakura sorriu e agradeceu a Tomoyo, desejando poder contar-lhe que Syaoran fazia aniversário naquele dia.
Todos os anos, Sakura comemorava sozinha, discretamente. Ia ao parque próximo ao local onde ficava o apartamento de Syaoran, com um pequeno cupcake e uma velinha. Virava-se na direção da China e soprava a velinha em seu nome.
Meu Deus, eu ainda o amo tanto! Sakura sufocou as lágrimas, sabendo que era uma batalha perdida.
Ah, se tivesse uma foto dele, algum lembrete – algo que a consolasse!
Mas tenho que acreditar, ela enxugou as lágrimas. Acredito que Syaoran falava sério quando disse que voltaria para mim.
Local: Mansão Li, Xangai, China.
Syaoran estava de pé diante de sua tia-mãe Yelan, no escritório. Os livros que ela, Xiaolong e Xia Hu haviam amado enchiam as estantes, tornando o escritório um local mais aconchegante.
Yelan tocou um dos livros. "Xiaolang," disse ela, "sei que tu foste forçado a fingir que não estás vivendo toda a tua vida pela segunda vez."
Syaoran espantou-se. Então ela realmente sabia?
"Mas não suporto ver-te infeliz." Yelan tocou o queixo dele e sorriu, dando-lhe um pequeno pingente arredondado. "Esta noite, use isto quando fores dormir. Poderás vê-la esta noite, sem colocar em xeque o teu preço. Feliz aniversário."
Completamente pasmo, Syaoran olhou para o pingente, que consistia em uma esmeralda minúscula incrustada em uma pedra de âmbar.
"O momento de voltares para ela aproxima-se. A Carta que vais capturar hoje vai ajudá-lo a encontrar teu caminho para ela." Yelan sorriu e abriu o cofre escondido por trás de um retrato a óleo dela com Xiaolong e Ming. "Imagino que em breve precisarás disto. Quando chegar a hora, não hesite em pedi-lo a mim."
Era o anel de noivado da própria Yelan, guardado em uma pequena caixa de bronze filigranada com almofada de veludo. Era uma herança de família há várias gerações.
"Tia-mãe," sussurrou Syaoran, "isso não devia ser do Ming?"
"Ele não vai precisar disto quando ficar noivo," Yelan sorriu, "porque o coração dele sempre pertenceu a Meiling. Ele é incapaz de pensar em amar outra e sabes disso."
"Mas que clichê. Deuses, a vida dele é cheia disso." Syaoran riu e devolveu o anel à tia-mãe, com uma irresistível lembrança de Aris ao pensar na situação de Ming. Então, abraçou-a com força.
Yelan sorriu e ergueu a mão para tocar os cabelos dele. Em breve ele estaria mais alto do que ela.
"Orgulhe-me, meu querido," sussurrou ela. "Reconquiste-a."
"Eu o farei." Syaoran beijou o rosto dela, mas ficou tenso.
"Carta Clow?" Yelan suspirou. "Vá capturá-la."
"Obrigado!" E com isso Syaoran saiu correndo do escritório, a fim de ir atrás de Ming.
O rapaz saiu das sombras do escritório. "Agora, vais me explicar tudo, mamãe?"
"Senta-te," Yelan disse, afetuosa. "Agora entendes o que ele vive?"
"Em parte." Ming ergueu a sobrancelha. "Alguém que ele está destinado a amar?"
"Não. Alguém que ele sempre amou."
"Adoro os seus enigmas," Ming suspirou. "Mamãe, quero ajudar o meu irmão, mas não posso fazê-lo se não sei a história toda."
"Ele sempre a amou," disse Yelan. "Mas esta é uma história para depois."
"Então a conte a mim amanhã," implorou Ming.
"Pois bem. Mas lembre-te que vai ser uma história muito longa," disse Yelan.
"Não valeria a pena ouvi-la se não fosse," Ming disse, amigável, ao sair do escritório para ajudar o irmão.
Muitas horas depois, Syaoran voltou para casa, imundo, mas sentindo-se vitorioso. Quando a batalha havia acabado, Ming deixara-o a fim de ir ver Meiling. Só faltam apenas duas Cartas, comemorou Syaoran. E naquela noite, pensou, agarrado ao pingente em seu pescoço, finalmente reveria Sakura.
Tomou banho às pressas e caiu na cama. Em pouco tempo, dormia profundamente.
O sonho de Sakura naquela noite foi surpreendente. Não sabia onde estava, mas árvores de cerejeira em flor a rodeavam.
Syaoran, que, no sonho, viu Sakura à distância, observava-a ansiosamente. Ela era ainda mais linda do que ela lembrava, se é que isso era possível. Ele sacudiu a cabeça. Não ia apenas observá-la. Para que desperdiçar os únicos momentos que poderiam ter juntos?
"Um dia, vamos viver em uma casa com um quintal cheio de árvores como essa." Uma voz suave soou no ouvido de Sakura, que se sentiu abraçada pela cintura por dois braços fortes e virada gentilmente.
Syaoran!
Não foi preciso falar nada. Nenhum deles queria desperdiçar um momento sequer. Abraçaram-se com força e, sorrindo, começaram a se beijar, gentilmente.
"Sentiu saudade?" Perguntou Syaoran, enroscando mechas de cabelo castanho-aloirado em seus dedos.
Sakura começou a rir embora chorasse. "Você não faz ideia. Mas onde estamos?"
"Em um sonho. É o único jeito que tinha para vê-la." Syaoran acariciou seus braços, deliciando-se com a pele macia. "Não posso nem começar a te dizer como senti sua falta. Você é a única que eu sempre amei."
Um dedo em seus lábios o calou. Os olhos verdes ficaram fixos nos dele.
"Por favor..." Sakura disse, abraçando-o pelo pescoço. "Eu sei disso. E você precisa saber o quanto eu também sempre te amei. Não vamos perder essa chance."
E não perderam.
Syaoran sabia que ela não ia se lembrar que ele estivera em seu sonho quando acordasse, mas sentiu-se grato pelo tempo que pudera estar com ela.
Muito mais tarde, depois de terem expressado totalmente anos de saudade represada, ela sussurrou contra o pescoço dele, "Feliz aniversário, Syaoran."
"Eu te amo. Acredite nisso. Por favor," ele respondeu em um sussurro. Soltou-se dela, beijou pela última vez e a viu desaparecer, de volta ao mundo real.
Oito meses depois.
Syaoran espreguiçou-se preguiçosamente ao acordar, sorrindo. Seria um belo dia em Xangai. O sol brilhava, os pássaros cantavam, seus braços estavam azuis, ele havia finalmente capturado as duas últimas Cartas Clow e podia esperar ansiosamente por um belo café da manhã, preparado por sua tia-mãe, Yelan. Para melhorar, recebera autorização para mudar-se para Tomoeda e terminar a escola lá, quando começasse o novo ano letivo.
Espera aí... Meus braços estão azuis!
"Ming!" Syaoran gritou. "Que diabos você me fez dessa vez?!"
No andar de baixo, uma bela versão mais velha de Syaoran, mas de olhos prateados, olhou para o teto. "Ah. Acho que ele encontrou o meu presente de Dia Branco para ele," disse o rapaz, calmamente.
"Devia envergonhar-te," disse a prima Meiling, que gostava de tomar café com os primos. "Não cansas de aproveitar sua imunidade à magia para irritar Eriol e ele?"
"Ainda não foi o suficiente," Ming riu.
"Tente o mesmo comigo e vais virar um famoso da internet, mas não de um jeito bom," alertou-o Meiling, com os olhos brilhando.
"E eu não sei disso? Depois que removeste da internet toda e qualquer menção à nossa família..." Ming assobiou, e Meiling sorriu, marota. Depois, ele ficou sério. "Quanto ao que te pedi semana passada..."
"Ming..." Meiling desviou os olhos. "Não faça isso."
"Sabes o que sinto por ti."
"Somos primos de segundo grau!" Protestou Meiling, recusando-se a olhá-lo nos olhos.
Repentinamente, ele estava ao seu lado, agarrando-a pelos ombros e forçando-a a olhar em seus tempestuosos olhos prateados. "Preciso de uma resposta, Meiling. Tu tens dezoito anos! Podes decidir sozinha! Se não... Aceitarei o emprego de professor no Japão."
Meiling estremeceu. "Vais... Vais abandonar-me?"
"Queres que eu te abandone?" Seus olhos prateados desafiaram os dela.
Meiling não conseguia responder, mas sacudiu a cabeça. "Preciso de tempo," sussurrou.
"Droga!" Ming soltou Meiling e virou-lhe as costas, ofegante. "Sabes que eu te amo desde que éramos crianças. Sabes o que eu sinto! Do que mais precisas? Que eu me ajoelhe, que implore? Eu..." Ele a agarrou e abraçou com força. "Eu te amo, não entendes isso?"
"Por que tu me amas?" Meiling perguntou em voz baixa. "Eu não entendo!"
"Eu também não, mas isto é motivo para tu me dispensares?" Ming perguntou. "Eu... Eu queria... Pelos deuses, tu és frustrante, Meiling! Eu-"
"-sugiro que os dois se acalmem agora." Eriol, que assistiu a cena toda da porta, opinou. Meiling aproveitou-se de sua interferência para escapulir.
"O timing foi perfeito," Ming disse, com ironia. "A minha vida é dominada por clichês," acrescentou, em voz baixa.
Eriol ergueu os braços, que estavam cor de rosa. "Adorei a cor. Mas ela não combina com o meu cabelo, de modo que podes me fazer a gentileza de dizer-me o que usaste para que eu possa preparar um antídoto?"
Ming riu. "Foi uma revanche. Syaoran e tu usastes magia durante o treino de arco e flecha com mestre Tsukishiro, na semana passada."
"Não usamos não!" Retrucou Eriol.
"Sim!" Devolveu Ming.
"Não!"
"Sim!"
"Bom dia, crianças." Yelan, parecendo tranquila, entrou na enorme cozinha da mansão. "Já cansaram de agir como pirralhos? Ming, faça-me o favor de dizer a teu irmão como remover a tinta azul antes que ele perca a voz de tanto gritar. Eriol, não te esqueças que tens uma reunião hoje com os Anciões. Onde está Meiling?"
Ming beijou o rosto de sua elegante mãe. "Mamãe, nós somos um terrível peso para a senhora. Que os céus proíbam que nós causemos o surgimento de rugas em seu belíssimo rosto."
"Isso deixou de funcionar há muitos anos," respondeu Yelan, incapaz de sufocar um sorrisinho. Como sempre, ele usara charme e esperteza para desviar-se da última pergunta que fizera. Aparentemente Meiling ainda não lhe dera uma resposta. "Agora vá acalmar Xiaolang, sim?"
Ming suspirou. "Trabalho, trabalho, trabalho. É tudo que eu faço nesta casa," ele disse, dramático. Quando se afastou para aplacar o enfurecido Syaoran, Yelan virou-se para Eriol.
"Está chegando a hora," disse ela, em voz baixa.
"Dez anos," respondeu o rapaz.
"Achas que... Talvez ele queira esperar um pouco mais... E fique conosco?" Disse Yelan.
"Não." Eriol disse, mas sorria. "Ele capturou as duas Cartas que faltavam, e a senhora precisa deixá-lo ir, agora."
"Pergunto-me se eles estão prontos para o reencontro." Yelan evitou a pergunta implícita se estava pronta para abrir mão dos dois filhos.
Eriol sorriu e lhe deu um desconto. "Só o tempo dirá, querida tia. Agora... Quer ovos fritos ou mexidos?"
No andar superior, Syaoran esfregava-se furiosamente no banheiro. Maldito Ming... Às vezes Syaoran podia jurar que o irmão mais velho nascera apenas para atormentá-lo. A cor não saía, nem mesmo com água sanitária, e ele tinha certeza que Ming usara algum corante exótico apenas para irritar Eriol e ele.
"Tens que usar lanolina," disse uma voz na porta.
"Eu posso redobrar os cadeados na minha porta e espalhar vidro moído no carpete, especialmente pra você," Syaoran rosnou por entre dentes.
"Eu? Pobre de mim que não tenho magia!" Ming ergueu as sobrancelhas. "Isso não vai ser um atenuante. Tu tens poderes, Eriol também, e eu não. Só lamento." Ele fingiu chorar.
"Deixe disso!" Syaoran gemeu.
Ming mudou de assunto de repente. "Estás pronto?"
Syaoran imediatamente soube a que ele se referia. "Sempre estive. Ontem pegamos as duas últimas Cartas. Mas eu e ela teremos que capturar a Carta do equilíbrio juntos."
"Eu irei contigo," Ming disse, em voz baixa. "A Tomoeda. Há uma vaga de estágio para estudantes de pedagogia lá."
Syaoran ergueu a cabeça. "Mas e a..."
"Eu sempre quis ser professor," disse Ming, como se não tivesse ouvido o irmão.
"Mas..."
"Ande depressa, ou o café terá acabado." Ming sorriu-se e virou-se para partir. "Partimos em três semanas. Não se esqueça de colocar na mala tudo que precisa – inclusive o anel de mamãe."
"Ming..."
Mas o irmão virou-lhe as costas e partiu.
Como posso ajudá-lo? Perguntou Syaoran.
Local: Tomoeda, Japão.
Data: No mês das folhas de primavera (maio)
Três semanas depois.
Naoko entrou correndo na sala, tagarelando entusiasmada sobre a chegada não apenas de um, mas de dois alunos transferidos para o novo ano letivo – e de um novo professor estagiário.
Sakura olhou pela janela e suspirou. Outra decepção...
Se pudesse lembrar que Syaoran aparecera-lhe em sonhos há oito meses, estaria mais feliz.
Levantou-se de sua cadeira sem olhar para Tomoyo e se dirigiu ao banheiro. Trancou-se em uma das cabines e apoiou-se na parede, sentindo lágrimas indesejadas assomarem a seus olhos. Prometeu que continuaria guardando sua mesada e arranjando empregos de meio expediente até que pudesse ir a Hong Kong para procurar Syaoran. Mesmo que ele não se lembre de mim, pensou.
Mas e se ele estivesse com outra pessoa? E se não a quisesse? Sakura apoiou a palma da mão nos olhos, tentando controlar as lágrimas. Precisava acreditar que o encontraria de novo.
"Vai ficar tudo bem," murmurou ela. Mas, dessa vez, sentiu um leve desespero inundá-la. Amava tanto Syaoran, tanto, que toda essa espera, sem saber onde ele estava, sem saber por que ainda não chegara... Fazia-a pensar que ele não voltaria para ela.
Dez minutos depois, lavou o rosto e se examinou do espelho. "Pare de chorar," disse com seriedade a seu reflexo, que tinha os olhos inchados, e relutantemente voltou à sala de aula. Não percebeu que seu reflexo ficara no espelho, sorrira e rapidamente voara de volta a alguém que escondia o Livro das Cartas Clow.
Sakura gemeu ao ver que a aula já tinha começado e que estava atrasada. Ah, certamente levaria uma bronca do Prof. Terada!
Abriu e porta e entrou esgueirando-se na sala. Acabou esbarrando em um rapaz alto, que lhe sorriu.
Sakura arregalou os olhos. "E... Eriol?!"
Eriol sorria. "Oi, Sakura."
"Mas isso quer dizer..." Sakura olhou em torno da sala. Ele tinha que estar ali. Ele tinha que estar! Viu Eriol aproximar-se de Tomoyo. Viu Naoko, Chiharu e Rika, olhando fixamente para a cadeira atrás da sua.
E o encontrou.
Os olhos cor de chocolate de Syaoran estavam fixos nos dela, inexpressivos. Sakura perdeu o fôlego; imaginava-o há tanto tempo e, agora que ele estava ali...
Ele não se lembra de mim! Percebeu, e sufocou a vontade de chorar de novo. Não. Não quando tinha uma nova chance!
Então, para seu choque, Syaoran cruzou a sala e a abraçou.
"Dez anos, mei-mei," sussurrou ele, antes de abaixar o rosto e a beijar na boca.
Em choque, Sakura gritou e correspondeu ao beijo. Por deuses, sentira tanta falta daquilo! E ele... Ele se lembrava dela! Correspondeu ao beijo de Syaoran, abraçando-o, inalando seu perfume. Ele a abraçou com força enquanto a beijava, saboreando os lábios dela como um homem faminto. Entre os beijos, sussurrava, "Eu te amo. Por Deus, Sakura, eu te amo tanto!"
Sakura ria, chorava e o beijava. "Eu também te amo, Syaoran!"
Quando finalmente se afastava, a sala estava um pandemônio. Tomoyo, aos gritos, pedia uma câmera. Naoko ria, histérica. Chiharu estrangulava Yamasaki. Eriol, com um brilho cúmplice nos olhos, calmamente deu uma câmera digital a Tomoyo, que parou rapidamente para lhe perguntar como ele sabia seu nome – e não por que ele tinha uma câmera. Os outros colegas gritavam.
"O que está havendo aqui?!" Perguntou uma voz autoritária.
Sakura enrijeceu. Era Ming! Usava um terno cinza e entrou na sala – com o diário de classe em mãos. Mas havia algo...
Ela estremeceu. Os olhos dele! Em vez de azuis-acinzentados, eram prata claro e brilhavam com bom humor. Sakura estava prestes a fazer perguntas, quando Ming colocou um dedo sobre os lados, pedindo silêncio, e deu-lhe uma piscadinha. Então, concentrou-se em Syaoran, que riu, constrangido. Fazendo uma careta, Ming disse, secamente, "Vocês dois podem continuar com isso depois. Agora tenho que começar a aula."
"Mas... oi?" Disse Sakura.
"É uma longa história," gemeu Syaoran. "Ele é tão irritante quanto um guardião que conhecemos um dia. Acho que ele ainda está em Ming em algum lugar. Mas... Tem uma coisa que preciso fazer, agora."
E meteu a mão no bolso.
"Sabe, no meu aniversário do ano passado, tive um sonho no qual demonstrei à mulher mais linda que já vi e amei o quanto eu a amava. Nós nunca deveríamos ter nos reencontrado... Mas, de algum jeito, ela está aqui, e eu também." Ele abriu a mão com um sorriso triunfante. "Eu perdi tempo demais. Nós perdemos tempo demais, mei-mei. Por isso..." Ele ficou de joelhos na frente dela. "... Case-se comigo assim que terminarmos a escola."
Se os beijos repentinos dos dois causaram um pandemônio na sala, o inesperado pedido de casamento feito a Sakura por um belíssimo rapaz que ninguém vira antes causou uma verdadeira anarquia. Yamasaki alegremente falava sobre superstições sobre primeiros amores com Naoko. Tomoyo estava empoleirada nos ombros de Eriol a fim de filmar a eufórica e chorosa resposta. Foi uma cena alçada a status de lenda urbana em Seijyu High e, por causa disso, alunos transferidos seriam sempre motivo de grande empolgação ali.
Ming desistiu de retomar o controle e gritou, "Turma dispensada!"
E sufocou os gritos extasiados de Sakura. "Sim! É claro que sim!"
Na residência dos Kinomoto, Touya e Fujitaka ficaram chocados quando duas limusines pararam diante de sua pequena casa. Três belíssimos rapazes – um deles com cabelos castanhos desalinhados, o outro com cabelos azuis-escuros e o terceiro com cabelos cinzentos – dirigiram-se à sua varanda, carregando caixas alegremente embrulhadas em dourado e vermelho.
"Ei!" Touya ficou vermelho e saiu voando porta afora quando Syaoran ajudou Sakura a sair da última limusine. Os noivos se abraçaram e beijaram com ternura, e Sakura enroscou os dedos nos cabelos sedosos de Syaoran. "Solta ela, seu filho da pu-"
"Se eu fosse tu, não terminaria essa frase," disse alguém, e Touya dirigiu um olhar assassino a um rapaz parecidíssimo com o moleque beijava sua irmã, mas de olhos prateados. Ming correspondeu ao olhar furioso em pé de igualdade, já que ele e Ming tinham a mesma altura, e Tomoyo ria enquanto filmava tudo.
"Ming querido, não irrite o irmão de tua cunhada," interrompeu uma voz elegante e doce. "Eu asseguro," disse a mulher, dirigindo-se a Touya, "que as intenções de meu filho com tua irmã são as melhores possíveis."
Touya examinou a mulher, que era alta, esguia e majestosamente bela. Ela sorriu e, para sua surpresa, fez-lhe uma reverência.
"Meu nome é Li Yelan e eu vos peço que nos convidem a entrar para que possamos explicar." Ela ainda sorria.
De tão aturdido, Touya não conseguia falar, de modo que Fujitaka assumiu o controle da situação. "Sejam bem-vindos ao nosso lar," ele sorriu caloroso.
Uma vez dentro de casa, Fujitaka rapidamente percebeu o anel no dedo de Sakura – considerando o tamanho do diamante, era impossível não notá-lo.
"Lamento muitíssimo, mas não sabíamos que Sakura estava namorando. Veja bem, ela nunca teve um namorado," disse ele.
"E é assim que tem que ser!" Disparou Touya.
Os visitantes se entreolharam e ergueram-se juntos: Yelan, Ming, Syaoran, Eriol e um rapaz de cabelos cinzentos que usava óculos. Sakura e Tomoyo continuavam sentadas, e a morena inocentemente aninhava uma minúscula câmera digital em seu colo. Os membros da família Li fizeram uma reverência aos homens da família Kinomoto, com uma reverência especial de Syaoran a Fujitaka.
"Senhor, vim pedir-lhe a mão de sua filha em casamento," disse ele, solene.
"Ela é nova demais!" Touya intrometeu-se, com voz esganiçada.
"Sinto muito, senhor Kinomoto," disse Touya, "mas passei os últimos dez anos esperando por essa chance, e não posso deixá-la escapar agora."
O amor nos olhos do rapaz surpreendeu Touya. "Como vocês dois se conheceram?" Perguntou, desconfiado. "Pela internet?"
Para sua surpresa, todos sufocaram risadas.
"Foi há muito tempo," Sakura sorriu e olhou para Eriol, que assentiu. "Talvez eu possa explicar um dia, mas o senhor nos ajudou, papai."
"O senhor deixou que ela namorasse esse moleque?!" Explodiu Touya.
Sakura ria. Pobre Touya, estava tão confuso! O rapaz de cabelos cinzentos levantou-se e fez uma reverência a Touya.
"Sou tutor dos jovens membros do clã Li. Chamo-me Yukito Tsukishiro," disse, em voz baixa. "Também conheço os segredos da família e, se o senhor puder me acompanhar, talvez possamos conversar no jardim? Ficarei honrado em lhe explicar tudo."
Fujitaka sorriu quando Touya foi levado para fora, e Eriol sorriu-lhe de volta.
"É sempre estranho," disse ele, "ver a si mesmo em outra pessoa."
"Também acho." Fujitaka sorria, rapidamente entendendo quem era Eriol.
Syaoran abriu uma enorme caixa de madeira, e Sakura estremeceu. Era o Livro de Clow! Atordoada, viu as Cartas voarem alegremente para fora. As que sabiam falar chamavam-na pelo nome e dançavam ao seu redor.
"Mas como... Ah!" Ela abraçou Espelho, que se manifestara, e acariciou Corrida, que ronronava para ela.
"São meu presente de casamento para você," explicou Syaoran. "Lamento que tenha demorado um ano para chegar, mas Luz e Escuridão resistiram muito para ser capturadas." As duas Cartas fizeram uma reverência, sorrindo. "Tive que provar a elas que eu a amava de várias formas até que elas concordaram em voltar a serem Cartas."
"Syaoran..." Sakura estava pasma. "Como você-"
"Foi muito difícil, sem você," admitiu ele, "e comecei aos nove anos. Ming me ajudou – posso lhe explicar depois. Mas, sempre que pegava uma Carta, era mais fácil lembrar você... E o quanto eu te amava. Agora, só precisamos capturar a Carta do equilíbrio, e então todas elas poderão ser transformadas nas suas – não, nas nossas Cartas."
Sakura atirou-se nos braços de Syaoran e começou a chorar. Ele a abraçou com força, sussurrando, "Acalme-se, mei-mei. Nunca mais nos separaremos de novo, prometo."
De repente, Fujitaka ria. "Casei-me com Nadeshiko quando ela tinha dezesseis anos. Quem sou eu para negar-lhes isso? Creio que você tenha dezoito anos?" Disse ele a Syaoran.
"Sim, senhor."
"Então eu lhes dou a minha bênção."
"Hora de comer!" Disse uma voz alta, e Sakura surpreendeu-se quando Kero saiu de uma das caixas. "Viu, Xiaolang? Eu disse que ela ia aceitar!" Alguém então o agarrou. "Vem cá, eu te conheço?" Perguntou Kero quando Sakura o encheu de abraços e beijos.
Syaoran riu. "Ela é a Mestra das Cartas."
"Ah!" Kero olhou para Sakura com curiosidade. "Bom, ela é linda. É melhor terem logo o seu bebê!"
"Kero!" Sakura e Syaoran gritaram, muito vermelhos – Syaoran devido a uma lembrança especial que tinha.
Sakura e Syaoran alegremente explicaram tudo a Fujitaka, que lhes disse então que já sabia de tudo. Sentia-se emocionado por ter que separar-se da filha, mas radiante por vê-la, enfim, genuinamente feliz. A comida foi servida, e as famílias Li e Kinomoto dividiram a primeira de muitas refeições juntas.
"Não gostei do irmão dela," queixou-se Ming. "Ele sempre está assassinando o Xiaolang com os olhos!"
Tomoyo ria. Ao longo da noite, Eriol se reapresentara e pedira-lhe permissão para cortejá-la. Ela estava surpreendida por seu estilo charmoso, mas agressivo, e concordou. "O Touya só quer proteger a irmã dele."
"E eu só quero proteger o meu irmão." Ming estalou os dedos.
Eriol riu. "Venham. Vamos logo. Ainda temos que levar a Srta. Tomoyo em casa." A atração entre eles estava evidente, e Ming deixou que fossem sozinhos na segunda limusine.
"E tudo acaba bem quando termina bem," disse Ming à mãe quando se dirigiam à sua limusine, ao fim da festa improvisada.
"E quanto a ti?" Perguntou Yelan, parando perto da porta.
"Ficarei bem." Ming sorriu, triste, sabendo que ela se referia a Meiling. "Ou, se o clichê que é a minha vida continuar, Meiling nos seguiu até aqui e vai aparecer, concordando em se tornar minha esposa." O rapaz esfregou os olhos, cansado. "Até parece."
"Tens tão pouca confiança em mim e nos clichês que consistem a tua vida," disse uma voz, das sombras.
Meiling ali estava, sorrindo-lhe com amor. Ming estava pasmo.
"Vieste?!"
"Segui-os no voo seguinte. E deixe-me dizer-te, hackear o sistema da Japan Air é uma chatice!" A moça sorria. "Felizmente, eu sou a rainha da internet." Deu uma gargalhada e abaixou os olhos. "Podes perdoar-me por demorar tanto tempo para decidir-me quanto a ti?"
"Só se concordares em casar-te comigo assim que terminares a faculdade," disse Ming, em voz baixa, tocando-lhe o queixo com ternura.
E assim ficaram, olhando um para o outro e sorrindo, até que pigarreou no jardim. Era Eriol, acompanhado de Tomoyo, que focalizara neles sua câmera digital.
"Acredito que este é o momento ideal para um beijo clichê," Tomoyo ria.
"E quem sou eu para negar um pedido da plateia?" Ming sorriu, aproximou-se de Meiling, abaixou-a e a beijou apaixonadamente.
Quando eles voltaram a si, Yelan deu algo a Ming. Era um belíssimo anel de noivado, de diamantes e rubis em prata. "Por que não estou surpreso por a senhora estar preparada?" Ming sorriu para a mãe.
Yelan sorriu. "Eu já sabia." Ela entrou na limusine. "Ah, e as escrituras dos apartamentos estão com Eriol. Cada um de vocês tem um apartamento aqui."
"Mas tenho as escrituras de quatro apartamentos." Eriol sorriu, sabendo o que viria em seguida.
"Quem disse que meus garotos vão ficar sozinhos aqui?" Yelan riu e partiu.
Em pouco tempo, Sakura e Syaoran cumpriram a promessa dela à Carta Vácuo e, antes do fim do ano letivo, transformaram as Cartas em belas cartas verdes e cor de rosa, com suas iniciais entrelaçadas atrás.
Poucos dias depois de se formarem na escola, Sakura e Syaoran casaram-se em uma bela cerimônia externa, cercados de flores de cerejeira, embora apenas algumas pessoas compreendessem quando os noivos falavam sobre os dez anos de espera. Depois da cerimônia houve uma recepção especial com a presença das Cartas e dos Guardiões. Para melhorar, Nadeshiko, Xiaolong e Xia Hu puderam participar da segunda recepção.
O casamento serviu para descobrir que não dava certo misturar as Cartas com álcool. Sakura e Syaoran tiveram que convencer Naoko a escrever uma reportagem que justificasse as traquinagens das Cartas, que vagaram descontroladas pelas ruas de Tomoeda.
Nos dias seguintes ao casamento, os recém-casados divertiram-se abrindo os presentes. Syaoran gemeu ao abrirem de Touya; era um livro muito familiar, chamado Manual para Amantes Responsáveis, com uma nota escrita em letras garrafais: 'SEM BEBÊS ATÉ DEPOIS DA FACULDADE!'
"Ele não desiste, né?" Gemeu Syaoran ao recostar-se na cama king-size de sua nova casa, próxima à faculdade que ambos iam frequentar. Conforme o prometido, o jardim era cheio de cerejeiras.
"Como nós," riu Sakura, aninhando-se nos braços de Syaoran. "Não que precisemos," acrescentou ela, e eles riram.
"Finalmente," suspirou Syaoran, abraçando-a. "Agora você é a Sra. Li de verdade."
"Syaoran?" Sakura deitou-se sobre ele e roçou o nariz no dele. "Você se arrepende de alguma coisa?"
"Tá maluca?" Syaoran riu. "Olha só pra gente agora. Estamos casados. Você me salvou. E, o melhor, você me ama," disse ele ao beijá-la gentilmente.
"Lembra a biblioteca que vimos no limbo? Aquela que você disse que tinha livros sobre a gente?" Ele assentiu. "O que acha que o futuro reserva pra gente?" Perguntou Sakura ao marido, inquieta de tanta felicidade. Ele é o meu marido! Repetia-se, mentalmente.
Syaoran admirou o anel de noivado e a aliança de casamento dela, aninhados em sua mão esquerda, sentindo-se grato por tudo ter finalmente acabado e por eles estarem juntos pelo resto de suas vidas. A Sakura é a minha esposa. Minha. Esposa, pensou ele, radiante. "Meu Deus, uma sequel não," gemeu. "Já vivemos duas vidas, mei-mei. Espero que os filhos que tivermos nunca tenham que voltar no tempo, sejam duplicados ou coisa assim."
Sakura estremeceu. "Sem a menor chance," disse ela, e se virou para ele. "Hora de dizer que te amo," falou a Syaoran.
"É sempre hora de dizer isso," disse o rapaz, usando sua magia para apagar as luzes. "Em todas as línguas possíveis."
E No Fim...
Sakura e Syaoran viveram um casamento longo e feliz, abençoado com um filho e uma filha que, para alívio de seus pais, eram perfeitamente normais. E raramente se afastavam.
Já Ming e Meiling acabaram ocupadíssimos com quatro filhos, dois meninos e duas meninas, todos gêmeos e com poderes mágicos. Quando todos foram para a escola de magia, foi Ming quem ficou aliviado. Sua imunidade à magia era algo a que ele e a esposa davam graças aos céus em nível diário.
Eriol cortejou Tomoyo do jeito que sabia que ela gostava: às vezes com doçura, às vezes com sensualidade. Foram o último casal a subir ao altar e, para a surpresa de todos, foram muito felizes sem filhos.
Fujitaka aproveitou a companhia do espírito de sua esposa, Nadeshiko, até morrer, muitos anos depois.
Touya e Yukito inauguraram o mesmo café que tinham na linha do tempo original e, quando Sakura os tapeou a fim de revelar o que sentiam um pelo outro, passaram também a dividir a vida.
E as Cartas? Essas viveram felizes para sempre, como todos os outros. Pois não há outro jeito de terminar uma história com os Card Captors, há? Afinal, tudo termina bem quando acaba bem.
c'est fini.
