… But I'm afraid that someone else will hear me.
Seja sexy. Seja misteriosa. Seja sexy. Seja misteriosa.
Parei em frente ao prédio que morava, silenciando meu mantra miraculoso junto com os meus passos.
Um retardado não acreditaria em mim. A quem tento enganar? Meu lado mais otimista e cego não caíra nessa.
Respirei fundo pela enésima vez e descrevendo círculos na calçada, devido à minha sólida indecisão quanto a entrar com os peitos empinados ou sair correndo como uma esquizofrênica, mil possibilidades sobre o que poderia me acontecer me martelavam a cabeça.
E para favorecer a minha sedutora tendência em atrasar a tomada de decisões difíceis, meu celular tocou.
- Lily, querida? - era Molly.
Enquanto que toda a tensão havia me deixado, a voz dela, se possível, havia sugado o meu nervosismo e soava angustiada pela linha.
- Olá Molly. Como você vai? - meus pés bailaram leves para longe da portaria, antes que meus olhos captassem a mudança de rumo.
- Nada bem - pude ouvir seu suspiro e o ruído de algo feito de vidro se partindo - Bill Weasley venha já aqui! - ela gritou num único fôlego e afastei tarde demais meu ouvido do aparelho que segurava - Desculpe Lily. Me dê um minuto.
E sem me dar tempo para protestar ou concordar, tapou o bucal do seu telefone. Em seguida houveram mais barulhos de coisas se partindo, as quais acredito terem sido, na ordem, a cabeça e o traseiro de Bill Weasley.
- Esse pestinha… - sem fôlego, Molly reclamou e ao retomar o telefone, bufou ainda com vestígios do aborrecimento causado pelo filho - Me desculpe mais uma vez Lily. Esse garoto é impossível - e mais rápida, pela segunda vez, ela berrou - Charlie! Quer acabar como seu irmão? - e no silêncio perpetrado pelo terror, um choramingo me alcançou.
Molly obtivera muito mais do que esperava.
Eu estava praticamente me mijando do lado de cá. Não pelo medo, claro. Lily Evans não teme nada. Inclusive, a missão de seduzir James Potter! Esta, se encontra suspensa por motivo de força maior, temporariamente.
- Oh, sim. Onde estávamos? - ela retomou a conversa comigo, o timbre de mulher meiga e carismática recomposto, perfeitamente.
- Você me falou que não estava bem - lembrei-lhe, mantendo o fone com uma distância segura da minha orelha, caso Bill ou Charlie não estivessem devidamente amedrontados, digo, cientes da importância em se manterem comportados.
- É isso. Oh Lily, querida… - ela era a única pessoa que podia usar tantos 'queridas' referidos a mim sem ser falsa e eu gostava disso, em nenhum momento comecei a anotar em quais situações ela poderia usar a palavra e classificá-la de acordo com a entonação utilizada, e em nenhum momento me dessincronizei da conversa civilizada que tínhamos porque estava absorvida pela atividade mencionada anteriormente.
- … Tenho noção que será muito abuso da minha parte, mas… Tire isso da boca já!
Imediatamente, cuspi meu chiclete.
- Charlie. Charlie! - Molly prosseguiu e me toquei que a ordem não era para mim.
Se eu estivesse menos aérea e mais atenta...
Observei triste meu ex-chicletinho mergulhado na poça brilhante e quente do meu líquido orgânico, e uma traiçoeira formiga surgida da saliência do asfalto lhe cercar como uma leoa faminta e fatal.
A cena me revoltou. Quantos mais chicletes teriam sua vida tolhida? Quantos mais centavos eu perderia? E litros de saliva também?
- Molly - chamei, enfurecida e determinada a impedir matanças futuras - Molly, seja o que for, peça e eu farei! - aumentei meu volume para me fazer ouvir, pois ela parecia presa novamente em outro esporro contra o filho.
- … Fiquem sentados ou chamo o pai de vocês… - o seu tom gélido se espalhou pelo meu corpo, enrijecendo minhas juntas e apertando a minha bexiga, cruzei as pernas e tive dó dos moleques.
- O que disse Lily? - ela me perguntou, a Molly doce e calma que eu conhecia.
Era chocante a transformação. Contudo, os garotos não compartilhavam da minha opinião. Desataram em gargalhadas e cochichos debochados que basicamente consistiam em "eu 'tô morrendo de medo".
Arthur não era o tipo de pai que metia medo, eu tive que concordar.
- Okay, não preciso chamar o pai de vocês. Eu mesma cuidarei disso!
E assim como vieram, as risadas silenciaram.
Alguém precisava verificar se eles ainda estavam respirando.
- Eu disse que o que você precisar, pode contar comigo Molly - repeti, sendo que a acentuação temerosa e submissa marcante na minha sentença não possuía qualquer relação com os berros da senhora Weasley.
- Ótimo Lily. Não sabe quão gratos eu e Arthur estamos…
Ela continuou agradecendo e eu concluí que ela conseguiria até o posto de primeira ministra se aplicasse no resto das pessoas o que terminara de acontecer aqui, comigo.
Quanto ao plano de sedução, não é como se James fosse para outro planeta durante este fim de semana. E eu não estou fugindo!
Combinara com Molly que iria passar uma noite na sua casa cuidando de Bill e Charlie, já que os Weasley's não conseguiram uma babá para cuidar das crianças tão em cima da hora. Só que houve um imprevisto no evento promovido pela universidade (para a qual Arthur trabalhava) e Molly precisava que eu estivesse disponível na noite de hoje, além da que fora marcada, que seria amanhã.
Bem, eu havia dado a minha palavra. E por mais assustador que fosse ficar com as crianças, não barrava o plano louco das minhas amigas. Afinal, são somente crianças… Né?
Observei a casa de dois andares, pintada em tons pastéis, situada na periferia da grande Londres e um enorme portão gradeado à frente, de cor branca. A caixa de correio embutida no canto esquerdo, continha os dizeres "Weasey", o "l" apagado e o "y" mais parecendo um "l" do que outra coisa.
Era uma casa grande, cheia de calor humano e amor. Tentei me convencer e antes de tocar a campainha, fitei os brinquedos espalhados como bombas no jardim da frente, serpenteando o caminho em degraus até a entrada do lar. Cheia de calor humano e amor. Cheia de calor humano e amor. Cheia de calor humano e… Eu só me meto em encrencas.
Sem escapatória, toquei a campainha.
Se uma parte dentro de mim ainda alimentava a esperança que tudo fosse se dar na mais completa paz, eu a enforcaria e daria sua carcaça para os urubus devorarem neste exato segundo.
Antes que pudesse dizer "desisto" ou "meu cão morreu" Molly estava me arrastando pela casa, mostrando onde ficava a lavanderia e para a qual, em hipótese alguma, deveria permitir que as crianças fossem. Eles se penduravam no varal acima de nossas cabeças e atiravam grampos nas janelas dos vizinhos, isso quando não pegavam dejetos da rua…
Bem, eu também era sapeca quando fui criança, me forcei a pensar para que não saísse correndo.
Um choro cortante fez Molly pular e virar sobre seu eixo, em disparada ela acorreu para a sala de estar, comigo a tira colo, invariavelmente. Atravessamos o gradil, que demarcava até onde os garotos deveriam ir, que era uma espécie de prisão e arregalei os olhos quando um dos ruivinhos mordia a grade e um pedaço do seu dente caiu, todavia, ele não parou, retornando a morder. E aí, localizamos a fonte da balbúrdia.
Descendo as escadas vinha Arthur, lutando contra um bebê inconsolavelmente esperneante nos braços. A gravata do senhor Weasley pendia a esmo como um chocalho sem conseguir entreter o filho, ou seja, disfuncional, pois parecia dar mais pulmão para o menino berrar.
- Me dê, me dê Percy - Molly gesticulou freneticamente para o marido.
Meu coração disparou. Molly não mencionara sobre cuidar de um bebê!
- Ele é sempre adorável e calminho, não sei o que aconteceu com ele… - Molly disse condescente para mim, como se fosse surtir efeito tanto quanto o seu colo havia feito sobre o filho mais novo.
Desespero era o meu segundo nome.
Com crianças eu era um completo desastre. Já com bebês, eu quase matei dois primos meus, no dia anterior à minha vinda para Londres. Além de não suportar a galera que fala tatibitate, ridículo, sinceramente…
Com Percy acomodado e próximo a um estado sonolento no colo, Molly terminou de dar o nó na gravata de Arthur.
- Vocês não irão demorar, né? - tentei regularizar o pânico que me subia pela garganta.
Manchete do London Times: estudante ruiva do curso de direito, em Hogwarts, mata os três filhos de família tipicamente londrina, procura-se!
- Não Lily. Uma noite é tudo que lhe pedimos - Arthur sorriu após beijar a testa do filho, ainda ressonando nos braços da mãe.
- Eles dormem cedo Lily - Molly me passou Percy.
Não deveria ser tão difícil carregar um bebê. Afinal, carreguei inúmeras sacas de batata pela minha vida.
- Você tem o nosso número! - Molly exclamou da porta.
Dio! Tanta pressa para quê? Eu quis gritar e arrancar os cabelos dizendo que roubava crianças e vendia para traficantes da Colômbia. Entretanto, Arthur e Molly haviam sumido no horizonte.
Encarei Percy dormindo tranqüilamente no meu braço. Ele era mesmo muito fofo…
- Tia, essa é a bunda dele - até Bill quebrar o meu momento.
- Eu sei, tá? - disse, à guisa da minha habilidade com crianças e recostando-me na poltrona perto da televisão.
Para provar a mim, não que o julgamento de um menino de oito anos fosse me importar, resolvi revisar se tudo estava como deveria estar.
Bebê dormindo? Okay.
Porta da lavanderia trancada? Okay.
Gradil intacto? Okay.
Bill intacto? Hum… Quase, meio dente… Mas Molly estava aqui! Então, okay.
Charlie intacto? Ok… Meu Deus!
- Charlie? Cadê o Charlie, Bill?? - indaguei num sussurro permeado por desespero e medo de acabar na cadeia.
Molly era capaz de tudo. Agora posso entender o pavor de James e Sirius… Por falar em James, por que ele não me ligou? Não notou que não voltei para casa?! Que tipo de primo responsável e preocupado é ele?? Ele deveria estar me ligando e me enchendo de perguntas, e atenção, e beijos…
Lily, o garoto.
Oh, é. Charlie.
- Bill, me responda já mocinho - exigi, na minha imitação barata da senhora Weasley que não convencia o gato míope da esquina, e eu tentei.
Agarrei Bill com a mão sem bebê, ao abarcá-lo com meu braço envolto ao redor de sua barriga e costas, e o grudei à minha cintura como se fosse uma cesta de piquenique.
- Vamos colocar vocês na cama - expliquei, subindo as escadas e abri uma porta azul com um quadro de barco.
Essa foi fácil, elogiei meu bom senso e coloquei Percy no berço, enquanto Bill vibrava com as minhas rodadas ao tentar acomodar o bebê numa posição que ele não morresse asfixiado. Essa, já não foi tão fácil, todas as posições pareciam ter alto potencial para que ele morresse, sendo asfixiado pela saliva, ou pelo travesseiro. É por isso que bebês não deveriam dormir! Poupava o esforço...
- O Charlie 'tá na porta tia - Bill disse entre as exclamações de júbilo e eu, entre as minhas de enjôo.
- Charlie, onde você se enfiou seu danado! - o puxei pela mão, a qual se perdia dentro do aperto da minha de tão pequena - Está na hora de dormirem.
Graças aos céus as coisas estavam se acertando.
- Mas ainda nem deu oito horas! - Bill contra argumentou, sem indícios de tonteira quando o pus no chão.
- Sua mãe disse que vocês dormiam cedo - atalhei, me certificando de que não acordaria Percy ao falar e vendo os minutos correrem, e nada de James me ligar!
Estava cansada de procurar pelo visor do meu celular se alguma ligação estava sendo feita para mim.
- Mas a gente não tem sono - emendou Charlie ao cruzar os braços sobre o peito e um bico despontar no seu rosto.
- Posso contar uma história - dei de ombros e lhes dei palmadas no traseiro, afim de intimidá-los para irem para suas camas.
A contra gosto e muxoxos de indignação, eles foram.
- Era uma vez… - comecei, após enfiar com força o celular de volta para o bolso traseiro da minha calça jeans, nada de chamadas!
- Por que era uma vez? - Bill me interrompeu e Charlie, seguiu a onda do irmão.
Irmãos mais velhos são um perigo.
- É, por que tia Lily? - o mais novo se levantara de onde eu terminara de lhe agasalhar, desarrumando meu trabalho.
- Não pode ser: era duas vezes?
- E por que não: era três vezes?
Meu enjôo estava retornando, só que na forma de enxaqueca, uma das piores.
- Duas!
- Três!
- Duas!
- Três!
- Du…
- Calem-se! - gritei e olhei culpada para o berço, esperando, sem me mexer, por um choro agudo.
E lhufas.
Ergui-me e fitei Percy. Meu fone de ouvido conectado ao iPod, tocando McHammer (U can't touch this), funcionava maravilhosamente bem.
Ufa.
Virei-me para os dois capetinhas.
- Posso contar a história ou não? - finquei meu olhar como a mais afiada espada sobre eles, os desafiando a me contrariar.
Eles permaneceram mudos.
- Como eu dizia… - sentei confortavelmente na poltrona e resisti ao impulso de procurar por meu celular - Era uma vez um filho de mágicos chamado…
- Bunda-frouxa! - Bill entrou no espírito para contar histórias muito entusiasmado para o meu gosto, desse jeito ele nunca dormiria, ou me concederia a dádiva de findar a história.
- Bustela-de-nariz! - assomou, à minha direita Charlie, igualmente excitado.
E concluí que realmente não os faria dormir se continuasse nesse caminho. Porém, para alguém que nunca cuidou de crianças, eu só conhecia essa opção. E já resignada iria lhes repreender quando meu olhar recaiu sobre meu aparelho telefônico. Zero ligações. Irritada, uma idéia vingativa tomou corpo no meu cérebro.
- Não - falei, ao esfregar uma mão na outra e esboçar um sorriso vitorioso - Vou usar o nome que significa tudo isso, hehe… - prolonguei minha pausa para que a curiosidade de meus ouvintes se intensificasse, seus olhinhos resplandeciam de antecipação.
Ri internamente e minha voz era a gargalhada da mulher mais sortuda da Terra.
- James Potter.
- Sério? - os meninos se entre olharam, em dúvida e um pouco decepcionados.
- Ainda bem que minha mãe não me deu esse nome - Bill resumiu a opinião geral, por ambos.
- Pois bem - limpei minha garganta de uma ausente rouquidão, para fazer o "H" e não me desconcentrei - James era filho único de bruxos poderosíssimos e muito influentes na sua cidade. O casal Potter amava muito o seu filhote e há séculos rogavam aos deuses por um rebento - imaginei estar sendo benevolente com James mais do que ele merecia e prometi a mim mesma, piorar as coisas para ele num futuro vindouro.
- E para que suas preces fossem atendidas o mais rápido possível, deram um baile…
- Funk!
Sem saber exatamente qual o significado daquilo e na insegurança quanto a dizer a Bill que ele não poderia ficar interrompendo a minha história como bem entendesse, segui minha intuição cujo conselho era: ir na dele.
- Ahm… Funk… Deram um baile funk e obtiveram a resposta para seus desejos. Só que, suas vidas não duraram, eles estavam velhos, com dores nas costas, cansados e…
- Com a dentadura gasta! - Bill estava fazendo de propósito, não existia outra explicação!
Impacientei-me de vez.
- … Logo morreram. Fim da história! - abri os braços, disfarçando minha contrariedade por sempre ser cortada no meio da minha história.
- Já?
- Já??
- Qual a moral da história? - Bill me avaliou, ao me medir atentamente com os dois olhos bem abertos, como se isso pudesse lhe indicar uma mentira quando eu a contasse.
- Que não devemos ficar velhos que nem você tia Lily? - Charlie disse ao contorcer o rosto com caretas, como se chegar a tal conclusão absurda tivesse lhe custado a morte de seus neurônios e dor, muita dor.
- Que devem fechar a matraca se não morrem - tornei para a dupla as coisas muita mais fáceis e menos dolorosas.
- A senhora é má… - ser babá estava provando ser um teste extremamente complexo para mim e manter minha vontade de descer uns tapas nesses moleques também - … A senhora é mal amada?
- Primeiro, senhora é a vó! E… - puxa o ar Lily e solta, puxa e solta, puxa e…
- Tia Lily! Quero ir no banheiro - Charlie me impediu de promover um estrago em Bill.
- É ao banheiro e… - me referindo ao mais velho - Mais respeito moleque!
- Tia Lily, é urgente - Charlie dançava sob o batente da porta, ora sobre unicamente um pé, ora sobre outro ao manter sempre as duas mãos na virilha.
- Calma, nós estamos indo. Bill, tome conta de Percy e não apronte - adverti e segui para o toalete com Charlie correndo como um foguete adiante.
- Agora vocês irão dormir - aconcheguei os meninos mais uma vez, dando uma terceira olhada em Percy.
Tudo tranqüilo, não era tão ruim como previra.
- E a história? - Charlie me fitou, os lábios rosados protuberados e uma película de lágrima ameaçando transbordar de seu olhos infantis.
Suspirei.
- Com seus pais mortos, James encontrou uma forma de se proteger. A escola o abrigou e ele passou a viver lá, um castelo chamado Hogwarts.
- Hog o quê?
- Que nome mais escroto - aposto que Bill nunca usou essa expressão na presença dos pais, minha faceta conservadora se escandalizou e urrava para colocar Bill no banquinho da vergonha com o chapéu de orelhas de burro no topo da cabeça.
Calma Lily, ele é uma criança. Uma criança.
- Esse James é um loser - pronto, Charlie copiou o irmão.
Percy, Percy, graças a Deus você é um bebê. E está usando fones de ouvido. E escutando… I like big boobs and I can not lie…
Mais que depressa, passei a música.
- Todo owned! - Bill se empolgou na descrição da personalidade de James que eu criara.
- Concordo - conjurei toda a paciência do mundo e a engolia vagarosamente, para durar, pois eu queria denegrir James, entretanto, com os meninos fazendo isso, eu não queria mais - Mas eu o conheci e posso dizer, vocês são piores que ele - ataquei sem piedade e venenosamente.
Obtive o silêncio.
- De um menino que tinha tudo, ele se transformou no que não tinha nada. E seu apego se intensificou sobre os estudos, como era o pouco que lhe restara, cronificando a bizarrice de seu caráter. Sua arrogância duplicou, assim como a popularidade com as meninas, estas achavam tudo nele atrativamente misterioso. Tudo isso alimentou a inveja nos outros garotos. Afinal, Jay era inteligente, talentoso, esforçado, popular, bonito e metido.
A minha meta era me vingar de James e não elogiá-lo! Como eu fui me perder nessa cachoeira de elogios?!
Os dois me encaravam extasiados.
- Eu gostei do James - Charlie comentou e Bill anuiu, em concordância.
- É, também gosto - admiti meio avoada e tossi logo após, voltando a minha posição adulta de narradora, super focada em contar uma história fictícia.
Fictícia!
- Mas é claro que os meninos não deixariam as águas correrem tão bem para James Potter. Eles se reuniram e resolveram pregar uma peça no nosso herói… - aí eu estava planejando pregar um suspense, uma aura de mistério e isso não funciona com crianças, ao menos não quando quem conta uma história é Lily Evans.
- Espalharam pela escola que ele usava peruca! - Bill findou meu pseudo clímax.
Não disse?
- Que ele comia cera de ouvido! - foi a vez de Charlie.
- Chupava chupeta! - ainda bem que Percy está com fones ouvido.
- Fazia xixi na cama! - os dois estavam disputando quem era o mais criativo.
- Era uma menina!
Isso já é drama. Alguém andou permitindo que esses meninos assistissem o canal espanhol?! Chega de novela!
Sinalizei para que eles fizessem uma pausa.
- Eles resolveram entregar para James um ovo grande. E não era qualquer ovo. Era o ovo de um demônio que nem os mais sábios eram capazes de chocá-lo, com pavor do provável resultado e sem poder suficiente. Para convencer James a fazer o que eles lhe disseram, os pivetes prometeram que deixariam o bruxinho em paz. Quando o que queriam era humilhá-lo ao provarem que ele não era tudo aquilo que diziam.
- Porém, eles não esperavam que James conseguisse. E ao cumprir a tarefa tão avançada para alguém da sua idade, ele libertou do ovo um imenso inseto cor das labaredas do fogo, o qual com sua imensa fome e boca cheia de dentes afiados comeu o castelo e todos os seus ocupantes. Somente James Potter saiu ileso.
Ainda em silêncio eles aguardavam pelo desfeixo da história.
- Os adultos da cidade se desesperaram e culparam a criança órfã, a levarando a julgamento. Onde o diretor da escola, que estivera em viagem pelo mundo em busca de meias novas e por isso sobrevivera, era o único a favor de James. Mas Dumbledore, o diretor, não tinha o peso necessário para ir contra a maioria da corte. Então, apesar de contar e recontar o que se sucedera, James foi sentenciado à prisão eterna e gélida na cadeia de Azkaban. Um lugar onde sua alma se tornava um esqueleto frio e sem vida. Antes que tal injustiça acontecesse, Dumbledore o ajudou a fugir. Dando a James um lagarta gigante e da cor do sol, dourada, para que voasse para bem longe.
- Então… Ele fugiu para a terra dos dragões? - Charlie correu seus olhos, nublados pela confusão, dos desenhos de bola da sua colcha para mim.
- Havaí! - Bill disse, como se fosse óbvio - Ou Suíça, os bancos de lá possuem um avançado sistema de segurança - assomou, com pose de senhor eu-sei-tudo-e-não-duvida-não.
- Poderia ter sido Disneylândia! - Charlie discordou, se remexendo irrequieto debaixo das cobertas.
A disputa recomeçava entre eles.
- Las Vegas - retrucou Bill, chutando seu cobertor para longe e esticando os pés para fora da cama.
Oh não…
Peraí.
- Las Vegas? - questionei, não tendo certeza se minhas orelhas estavam sujas e me fizeram escutar o nome de outro local.
- Yeah, Las Vegas baby - Bill reafirmou ao me sorrir de soslaio e erguer os polegares para mim.
Esse menino vai dar trabalho quando entrar na puberdade…
- Bill, deita! E Charlie, claro que poderia ter sido para a terra dos dragões - apazigüei ao desenrolar meu colchão entre as duas camas, e passando ao lado do berço, apaguei as luzes.
- E vamos dormir, está tarde - ordenei, me embarafustando para dentro dos lençóis.
- E a história? - a voz de Charlie indicava chateação e não era mais alta do que um sussurro lamurioso.
- Agora que estava ficando legal… - Bill resmungou e mesmo no escuro, eu poderia visualizar sua careta.
- Amanhã eu termino de contar - resolvi que deveria dar o exemplo e assim conseguir fazê-los dormir - E se vocês me chatearem, amanhã não conto! - acrescentei, mais veloz que suas exigências.
E assim, eles foram sossegando.
Mais triste do que aborrecida com James, por ele não ter ligado, eu também dormi.
No outro dia, por mais obscuro que tenha sido para mim, foi árdua a despedida. Eles verdadeiramente haviam gostado de mim. E eu fui eu mesma, sem tentar agradar e fazer coisas que não faziam parte do que sou… Apesar deles terem gostado mais do James do que de mim, essa parte magoou um tiquinho.
Depois de saltar do metrô e caminhar para casa, havia um rapaz numa jaqueta de couro que chamava a atenção ao procurar por algo ou alguém na multidão, que atravessava a faixa de pedestres.
Sorri ao reconhecer os cabelos negros, e compridos, e os charmosamente argutos olhos cinzas de Sirius.
Todavia, depois de quinze minutos na presença dele, meu sorriso parecia um acontecimento muito distante da minha vida.
- Sirius, me deixa em paz. Hoje não dá para bancar a sua babá - redargüi, perdendo a conta de quantas vezes havia lhe dito isso, ao esmurrar o botão do elevador.
- Não quero que você seja minha babá - ele disse ofendido e com a expressão de quem acabara de presenciar um parto normal, traumático.
- O que você quer então? - parei o que fazia, que era treinar a boxeadora que lutava para ser descoberta dentro de mim, e pensei em procurar um local para tomar meu café da manhã.
Vai que Sirius se perdia de mim quando as mulheres da rua batessem os olhos nele?
- Que você seja babá… - ele iniciou o que seria uma frase fadada a ser interrompida, ele vinha falhando em ter sucesso desde que me abordara na portaria.
- Ahá! - cantarolei.
- … da Tonks - ele completou, pela primeira vez, e me fez estancar.
- O QUÊ?! - pressenti que teria um treco bem ali.
- Hoje à noite. Não vai doer Lily e eu sei que você é ótima com crianças - ele sorriu ao colocar a mão no meu ombro, como se precisasse me fazer parar quando eu já estava paralizada sob a ameaça de um piripaque - Me informaram que você transformou os diabos conhecidos como filhos dos Weasley's em anjos.
Resisti heroicamente à tentação de sorrir com a minha façanha.
- Que mentira… - retomei minha trilha em direção ao carrinho de cachorro quente.
Minha mente escolhera como saudável lugar para se ter o desjejum, o cara que preparava pão com recheio de gorduras e molho de colesterol. Hum… Uma delícia, pode crer.
A fila não estava tão comprida. Ao percorrê-la com a minha visão, me deparei com James conversando com uma senhora de idade.
Meu rosto esquentou e não pude desviar a tempo meus olhos para que Sirius não percebesse.
- Lily - ele disse cauteloso e fazendo uma pausa pequena para escolher o que dizer, adequadamente - Eu sei do que você é capaz - temi que ele tivesse juntado um mais um e me acusasse de estar apaixonada por James.
Ele sabe! Ele sabe! Oh Deus, fuja Lily! FUJA!
E inesperadamente disse - Olha o James - para justificar que eu era capaz de educar crianças.
Meio encabulada e tonta, por não conseguir entender o que ele quis dizer, procurei por James, ignorando o impulso de corar que se arrastava pelo meu pescoço em direção ao rosto quando um pensamento safado se arraigou nas minhas sinopses e dançava eroticamente para mim.
Eu? Educando James? Há! Só se forem posições nada ortodoxas na hora do sexo…
Eu posso me ver corando. Era para apagar o pensamento, não materializá-lo Lily, me repreendi.
Ao localizá-lo, Jay estava fugindo da velhinha enquanto ela gritava "seu pervertido! Pervertido!" com todo o ar de seus pulmões.
- Err… Corrigindo, olhe para mim - Sirius consertou ao abrir um enorme sorriso e uma moça bateu com a cara no poste.
- A Tonks não é uma criança Sirius - me obriguei a esquecer James - E qual o problema, de verdade?
- Preciso do Remus para um encontro.
- Ah… - fingi que me importava - Vai se catar Sirius.
- Você sabe há quantos anos Remus Lupin não transa?
Depois que você disse isso tão baixinho Sirius, vai chover menina na porta da casa dele, pensei sarcasticamente.
- Você quer dizer: tem uma namorada - retifiquei.
- Não, eu quero dizer que não transa mesmo - ele forçou o ar pelo nariz, numa expiração ensaiada para as pessoas que Sirius Black classificava como retardadas.
Me irritei.
- Sirius, você quer que eu fique com a Tonks?
- Você tem idéia há quantos séculos Remus não corteja uma rapariga? Há quantos milênios não escreve poemas e faz serenatas?
Revirei os olhos, lá no fundo do meu coração achando Sirius engraçado e fofo, mas nem em meu leito de morte eu admitiria isso, porque admitir isso era igual a derrota e Lily nunca é derrotada.
- Fico com a Tonks, só desta vez - cedi.
- Lily - ele me fitou longa e profundamente, sem quebrar a atmosfera de seriedade que implantara ao nosso redor e, me tomou uma das mãos entre as suas ao propor, emocionado - Você quer se casar co…
- Tire as patas de cima dela, seu pulguento - James lhe deu um coque.
Bem, eu precisava treinar mesmo a minha capacidade de evitar corar e vencer a fraqueza que se enraízava nos meus joelhos quando James estava por perto. Vamos começar por hoje!
- Acabei de conseguir algo que você nunca conseguirá, galhudão - Sirius piscou marotamente para meu primo e estufou o peito, me vi suspendendo a respiração ao esperar pela audácia dele.
James se afastou de nós para me analisar melhor e transcorrendo seis segundos constrangedores, e durante os quais o meu treino parecia muito inútil, ele regressou à minha lateral, onde estivera antes, e esperou pela resposta do amigo, intrigado.
- Ela vai me dar uma calcinha dela.
Corri até a velhinha e pedi emprestada a sua bengala.
James se despediu e seguiu para o escritório, me deixando com o póia do seu melhor amigo. Sirius não desgrudava, como se esperasse que sua dona deixasse cair um pedaço do almoço de cima da mesa, onde comia. Elucidando: supostamente Lily Evans é a dona do cão, e o cão seria Sirius, a comida seria eu dizer sim ao seu pedido. E nem supostamente falando, isso irá ocorrer.
- Poxa Lilyzinha… Eu preciso tanto que você fique com a Tonks… Você, meu moranguinho recheado com caramelo e cobertura de chocolate, meu chulezinho de meia furada, não pode fazer esse mísero favor e aquecer meu coração?
Uma placa de fundo amarelo e letras pretas explicitava que o elevador estava em manutenção. Dei meia volta e retornei para a rua, mais aborrecida por não terem colocada aquela desgraçada ali antes, me fizeram esperar quinze minutos por um elevador que nunca viria!
- Não.
- Por quê?
- Porque você não merece, seu ousado - respondi, escolhendo seguir para a livraria.
Bom lugar, tranqüilo. Contribui para manter as pessoas supervisionando seus impulsos mais primitivos, como matar cachorros impertinentes.
- Mas aquilo era para deixar o Jam…
- Você não quer que eu fique com a Tonks? - irrompi pela entrada da loja - Então não me irrite! - continuei, não precisando que ele respondesse a minha indagação.
Folheando alguns livros, aleatoriamente, consegui por minutos, o precioso silêncio de Sirius.
- Desisto - ele disse, ainda me seguindo, e em vez de cheio de energia, ele andava à minha sombra como um zumbi.
- Ótimo, me deixe em paz então - rebati, sem dó.
- Pobre Remus… Nenhum encontro o monge pode ter. Antes virar monge de vez…
- Por que você não permite que a Tonks saia com os amigos? - um pedacinho de mim estava se condoendo por vê-lo desse jeito - Aposto que ela não vai atrapalhar seus planos imorais - e outro grande pedaço estava possesso com a cara de pau dele.
- Impossível. Ela sempre liga para o celular de Remus após quinze minutos e sempre, já aconteceu alguma merda que aflige meu miserável amigo e ele sai correndo independente de onde estiver, ou com quem estiver.
- Talvez, ele devesse escolher o encontro - acotovelei Sirius.
- Péssimo gosto - ele ligeiramente descartou a minha sugestão.
- Inclusive para amigos - acrescentei e cerrei meus olhos sobre ele.
Sirius me piscou e sorriu esbanjando sexy appeal, com classe, como se eu tivesse acabado de lhe passar uma cantada picante.
- Adoraria ficar com você Sirius, mas tenho que vigiar os filhos da Molly - menti para me livrar daquele estorvo em forma de homem bonito.
- Irei com você - ele acompanhou meus passos, para fora da loja, alegremente.
Congelei.
A realização de que ele me seguiria até o quinto dos infernos para conseguir o que queria me assoprou o vento da morte na cara, englobando o horário em que eu realmente teria que cuidar dos meninos. Então, meu cérebro somou: Sirius Black, Bill e Charles e o resultado foi uma catástrofe.
- Nem pensar!
Sirius me fitou, num esforço para captar o que se passava dentro da minha caixola.
- Nem em sonho!
E aí só me restava uma saída. Por mais relutante que eu estivesse quanto a isso. Não havia outra opção. Era isso ou uma coisa pior. E entre duas coisas ruins, você escolhe a menor pior, claro.
- Okay, eu ficarei com Tonks - entrei em acordo com o pedido dele.
Ele sorriu daquele jeito digno de propaganda das lojas que vendem sorrisos masculinos para matar mulheres e não demorou muito, uma delas caiu no bueiro, como que para provar quão verídico minha suposição poderia ser, e outra se chocou de contra a vitrine da livraria.
Sirius deveria ser preso.
O meu sábado consistiu em madrugar para sair cedo de casa. E recebi três ligações que afetaram meus planos para a noite e para o domingo.
Primeiro Molly ligou para cancelar a minha ida a sua casa, já que levaria as crianças junto para o evento promovido pela universidade para que elas conhecessem mais sobre o trabalho do pai, e me agradecer, de novo.
Fiquei triste por um lado e por outro, aliviada. Eu teria que ficar com Tonks e ela mais os meninos, era um cenário tão reconfortante quanto o que imaginei antes com Sirius e os meninos.
Depois foi Sirius, também cancelando a vinda de Tonks. E desligando o telefone na minha cara, infeliz, ele anunciou que transferira a minha estadia com sua prima para o domingo, porque Remus se recusara a ir ao encontro hoje devido a uma indisposição referente à lua. Entendi tudo, mas não havia nada que eu pudesse fazer que não trouxesse menos dor de cabeça.
E por último Samy, me intimando a comparecer a aula amanhã. O diretor organizara uma espécie de debate, onde os alunos de variados cursos se encontrariam e dividiriam seus conhecimentos especializados e caso houvessem falta, os estudantes perderiam pontos automaticamente em matérias cruciais.
Notícias boas a receber? Nenhuma.
Como disse, meu sábado consistiu simplesmente em fugir de James.
Espero que o domingo seja melhor.
N/A: Se depender de mim, querida Lily, seu domingo será recheado de confusões e com cobertura de paixão… Parece propaganda barata de novela do sbt xD
Eu tenho que agradecer e dizer quão feliz estou! Chegamos a 300 reviews em 20 caps, mais de 10 mil hits e 50 favoritações. Caraca, isso é muito, eu nunca havia conseguido tanto com minhas outras fics. E a melhor forma de mostrar minha gratidão foi fazer um extra (além do cap enorme, notaram? ;D).
Não se esqueçam que um extra não tem relação com os fatos atuais da fic, não interfere com o que aconteceu até aqui. Apesar de que, em determinado momento do extra, a Lily tem conhecimento de seus sentimentos sobre Jay. O importante é: aproveitem o/
Feliz Ano Novo para todos nós!
Bjin'
Extra: Sorvete
O sol estava encoberto pelas nuvens brancas do céu, era verão e aquela sombra provida das alturas era muito bem vinda. O restaurante mais freqüentado na cidade de Calenzano inaugurara uma sorveteria para vender um pouco de frescor aos moradores e turistas.
Próximo as imediações da sorveteria, um garoto, que não aparentava ter mais que dez anos, sinalizava para que um pingo de gente, indeciso e que se fincara na calçada como um poste, lhe seguisse.
- Vamos Lily, eu lhe pago um sorvete - James ofereceu à pequena e graciosa garotinha ruiva, nos seus curtos cinco anos.
Se existia um convite ao qual aquela menina não poderia, nunca, recusar seria o ganho de um sorvete.
E o esperto James, sabia o que estava fazendo.
- Me dê a mão Lily - ele ordenou, se convencendo que era para, unicamente, a segurança da prima que demandava tal coisa.
- Não quero - ela prontamente respondeu, saltitando em direção a calçada oposta a que James caminhava.
O vestido ondulando ao redor de suas não tão longas pernas, com as flores, pintadas no mesmo, a bailar ao sabor do movimento da maior e mais bela.
- Sem sorvete para você - Potter retirou seu convite, duramente.
E de imediato, ela estava lhe dando a mão a contra gosto. Assim, seguindo até a sorveteria.
- Qual sabor você vai querer? - James perguntou, dentro da insignificante fila para fazer o pedido.
- Chocolate! - os olhos verdes brilharam ao exclamar, os lábios pressentindo o gosto gelado do doce se derretendo em sua boca.
- Só se você sentar ao meu lado - ele estabeleceu, já com o dinheiro, contado na medida certa, para pagar os sorvetes no bolso esquerdo.
- Mas… Mas… - Lily vacilou, com sua mente infantil querendo andar ao mesmo tempo em que tomava sua delícia de sorvete.
- Sem sorvete para você.
Rápido como um cometa, Lily sacudiu a cabeça em afirmativo, ficando tonta na pressa em aderir à exigência do primo.
- Vou comprar desse tamanho - satisfeito, James esboçou um imperceptível sorriso ao apontar para a amostra de sorvete no mostruário, acreditando estar contente porque vencera a contenda, somente isso, nada mais, ele dizia para si.
- Eu quero daquele - já Lily indicou sonhadora e gulosamente para o maior dos tamanhos, como se seu estômago fosse capaz de suportar.
James olhou para a prima, e em seguida para o objeto de sua gula. Repetiu seu gesto mais uma vez e seu sorriso se tornou perceptível.
- Se eu ganhar um beijo… - e com a mão no bolso, o qual não guardava o dinheiro, e um olhar de quem não quer nada, quando na verdade quer sim, ele fitou o sorveteiro.
Lily passou a fitar o par de mãos entrelaçadas, avaliando que já havia perdido o desejo de correr livremente por aí, depois as sapatilhas, concluindo que sua mãe realmente não gostaria de vê-la suja quando voltasse, então era melhor ficar quieta e ao lado de James como estava. Sem mencionar que ela ganharia um sorvete maior e do sabor que tanto gostava. Ou seja, perto disso o que era um beijo?
Enfim, saudavel e fofamente corada, esticou-se nas pontas dos pés para beijar a bochecha de seu primo.
É, não doera.
- Me aguarde naquela mesa - ele soltou sua mão tão ágil e a empurrara levemente na direção dos bancos e mesas que Lily se perguntou se havia feito algo de errado, não que esse pensamento tenha ocupado muito sua mente, outra questão dominou o espaço, imperativa.
Juntando forças para discordar, apesar de temer uma repreensão, ela soltou as palavras timidamente - Eu não quero ficar lá… - sem se mexer do lugar até onde James a deixara.
- Sem sorvete para você - a resposta dele veio mais precisa que um raio.
Lily encarou as sapatilhas rosas, pela segunda vez, idéias conflitantes sapateavam dentro de sua cabeça para dissuadir James de sua decisão. Ela queria tanto aquele sorvete. E sentar-se na calçada e não naquelas mesas grandes e… e… feias. Contudo, algo pesava mais que tudo. Ela queria aquele sorvete.
E então, inesperadamente seu corpo se espichou e ela beijou o rosto do primo, novamente. Analisando-lhe as mudanças faciais a torcer para que tivesse dado certo, o sorvete poderia derreter se ela demorasse mais!
- Isso não funciona mais Lily - ele retrucou, sem emoção e enfiando a segunda mão no bolso restante, iniciou seu caminho para fora da sorveteria.
Evans lutou contra a vontade de chorar e contra seus passos curtos comparados aos de James.
- O que devo fazer? - a pergunta em forma de súplica se difundiu chorosamente pelo ar, afinal seu controle sobre simples impulsos não estava tão aprimorado quanto gostaria, assim como os olhos verdes se embaçaram.
James pausou e ela pode alcançá-lo.
- O beijo tem que ser aqui - ele pousou o indicador sobre os próprios lábios, mantendo a mesma velocidade de seus gestos de forma despreocupada e indiferente, como se estivesse acostumado a fazer essas coisas como quem compra o jornal na esquina.
Completamente o oposto do que se passava com Lily.
Ela não podia fazer isso, podia? Algo no canto de sua mente a alertava que sua mãe não gostaria se soubesse disso, ou seu pai. O problema era que ela não conseguia identificar a razão, além do embaraço que sentia. E na confusão por querer tanto, tanto mesmo, o seu sorvete e não saber o que fazer, ela balbuciou.
- Mas… Mas… - ela hesitou, já não mais freada pelo temor sobre o que seus pais fariam, mas sim pela timidez.
- Então, sem sorvete para você.
Estar debaixo de um sol escaldante, ter quase seis anos, ver a promessa de algo que é refrescante e sua guloseima favorita lhe escapando pelos dedos pode lhe injetar a mais forte coragem e determinação.
Mais tarde, no mesmo dia...
- Você quer sorvete filha? - a mãe de Lily ofereceu.
- Não!!! - a pobre correu para seu quarto, enquanto seu grito desesperado ainda ecoava pelos corredores da casa, como um fantasma apavorante.
E desde então, Lily nunca mais tomou sorvete...
Avaliei o que acabara de escrever na folha que deveria estar fazendo o meu trabalho da professora McGonagall. Hum… Eu deveria ter tentado ser escritora, eu tinha o dom, sorri para mim, orgulhosa.
- Para essas porcarias malucas você tem criatividade - a voz de James ribombou sobre a minha orelha esquerda, me assustando e provocando um aperto na boca do meu estômago.
Por que ele tinha que ser bisbilhoteiro? E ele não tinha que trabalhar hoje?? O que ele ainda faz aqui?! Nem lhe ouvi chegando...
- Isso não é o que você pensa que é - atalhei, procurando uma justificativa plausível sob o olhar inquebrável dele.
Habilmente, ele tirou o papel da minha mão - Eu não era um tarado aos dez anos! - reclamou ao passar o olhar pelo que escrevi.
Merda.
Determinada, retomei minha folha - Pois era sim, um pervertido - ratifiquei e de cabeça erguida, segui para o meu quarto, esquecendo meu material na mesa da sala de estar.
- Além de ser ultrajante essa sua afirmação, é fantasiosa - ele estava no meu encalço e me impediu de vedar a porta - Agora vá estudar, nunca você estuda, sua preguiçosa - ele me repreendeu.
- Essa sua afirmação que é ultrajante e fantasiosa - rebati escondendo o papel às minhas costas, longe de seu alcance - E a história é minha, vai ficar comigo!
- Ótimo, você quer ficar com isso, fique - ele se afastou e bagunçou os cabelos me fazendo quase mudar de idéia e pedir um beijo em troca.
Ainda no quarto ele me encarou.
- Eu não fiz isso de verdade, fiz? - a distância entre as suas sobrancelhas no meio da testa havia reduzido, denotando confusão e um centímetro de culpa.
Eu lhe sorri, enigmática - Não sei primo, você fez?
The End
