21 – LUA CHEIA

Dois longos dias, ou melhor, mais dois longos dias se eu contar os dois primeiros em que eu fiquei apagada. E isso significa que já estou quatro longos dias desaparecida e que em apenas um dia será lua cheia.

Esses pensamentos me deixavam nervosa.

Não que eu tivesse motivo. Afinal eu apenas estava numa casa lotada de lobisomens. As vésperas da lua cheia que por sinal mais parecia um relógio sinistro a noite. Nada preocupante realmente, e pelo pouco que pode perceber na movimentação dentro e fora da casa deveriam ter uns trinta deles naquela alcatéia como tinham falado, mas nenhum deles veio me visitar.

Nem mesmo o loiro mais velho ou o cara que me raptou.

Só o Pierre parecia ir se entocar no quarto. E isso era estranho e bom, pois fazia frio naquele lugar e ele aquecia o quarto de uma maneira agradável. Foi estranho perceber a rotina daquele lugar. Tinha que admitir eles pareciam organizados. E cada um parecia ter uma tarefa.

A de Pierre deveria ser me cuidar.

Muitas vezes ele apareceu no quarto machucado e se deitou num canto afastado.

Não sabia como reagir e apenas observei maravilhada suas pequenas feridas serem cicatrizadas. Era fantástica a maneira como a pele se fechava bem diante os meus olhos, mas os olhos dele azul turquesa não pareciam tão felizes.

Eu não tinha nenhum motivo para estar feliz. Exatamente por isso não ia me importar com um lobisomem infeliz. Mas ele parecia tão carente como se fosse realmente um filhotinho abandonado.

Isabella, você está sentindo pena de um ser que quer te devorar?

Suspirei olhando a lua que na próxima noite estaria completamente cheia se afastar lentamente deixando os fracos raios de sol aparecerem. Eu perdia muito o sono ali, sem ter muitas respostas ou qualquer esperança.

A única esperança era Carlos vir me buscar, mas isso também significava que ele cairia numa armadilha e que teria que enfrentar todos esses lobisomens e eu sinceramente não gostaria de ser responsável pela morte dele.

Morte?

Vampiros já não estavam mortos? Isso era muito confuso na minha mente.

Voltei a suspirar vendo a porta do quarto se abrir. Pierre entrou se agachando no chão e aquilo me assustou. Ele estava sangrando e não eram aqueles poucos cortes de antes, mas havia muito sangue dessa vez. Com certeza aquele machucado era bem mais profundo que os outros.

Mordi o lábio incerta do que fazer.

Respirei fundo sentindo aquele aroma cítrico dele misturado ao cheiro de sangue fresco. Caminhei lentamente em direção dele me ajoelhando a sua frente. Ele me encarou com aquelas íris encantadoras emanando um pouco de medo e receio. Pierre estava assustado e aquilo não parecia bom.

- Quem fez isso?

Como eu consegui manter um tom de voz baixo foi um mistério.

- Sai daqui.

A voz rouca veio num gemido.

Ele pareia tanto um filhotinho acuado.

- Deixa eu ver?

- Sai...

Ele empurrou minha mão e eu estranhei. Não estava mais tão quente.

- Você não está quente.

Disse alarmada obrigando-o a me deixar ver o machucado.

Um gemido abafado e ele encostou a cabeça na parede. Tinha muito sangue ali. Pierre estava todo vermelho e eu estava ficando totalmente suja apenas de tentar ver o ferimento.

Era grave.

- Vai sarar...

A voz saiu num fiapo.

- Vamos limpar isso.

Disse ajudando-o a se levantar. Ele era alto. Mais alto que eu. E pesava. Muito. Quase cai no chão ao perceber que ele não tinha forças.

Pierre riu da minha tentativa inútil.

- Não vejo nenhuma graça.

- Eu não vou morrer...

- Não estou preocupada com isso.

Funguei deixando-o no chão e me encaminhando para o banheiro a fim de pegar alguma coisa que ajudasse com o ferimento. Não havia nada de muito útil ali. Uma pia, uma banheira e mais nada. Nem sabonete ou pasta de dente ou curativos ou qualquer outra coisa. Nem ao menos uma toalha.

- Se não é isso você pode simplesmente me deixar aqui.

Ouvi o resmungo sem prestar muita atenção. Não havia nada naquele banheiro. Eu estava com a mesma roupa com que tinha ido desesperada a casa de Rodrigo. Nossa! Rodrigo! Parecia que tinha acontecido em outra vida e tinha se passado apenas quatro dias. Balancei a cabeça voltando a realidade ao ouvir um gemido reprimido de dor de Pierre no quarto. Por mais que ele se fizesse de forte eu sabia que aquele ferimento era muito profundo. Olhei para a roupa que estava no meu corpo a tanto tempo. Um vestido velho e liso. Não pensei duas vezes e cortei um pedaço da barra umedecendo na pia e voltando para o quarto. Eu precisava controlar aquele sangramento. Pierre estava ficando fraco com toda aquela falta de sangue.

Corri de volta ao quarto vendo-o ainda jogado no chão e sangue muito sangue por tudo onde ele tocava. Me ajoelhei rasgando a camisa ensangüentada dele a procura de espaço para limpar o ferimento. Parecia uma garra ou algo estranho. Estremeci só de imaginar o que poderia ter feito aquilo nele.

Os olhos azuis me encararam e ele sorriu fraco voltando a fechá-los logo em seguida. O corpo dele ficava a cada instante mais frio e aquilo me assustava. Ele sempre foi tão quente. Uma lareira humana e parecia fora do lugar não sentir o desconforto do calor. Me senti um pouco idiota mais acabei abraçando ele a fim de passar um pouco do meu fraco calor a ele.

Pierre abriu os olhos interrogativo e apenas sussurrei no seu ouvido.

- Você está ficando gelado.

Ele não contrariou nem fez movimento algum. Pareceu se acomodar melhor no meu abraço como uma criança pequena em busca de algum conforto. Sentir a pulsação mesmo que fraca dele contra o meu peito parecia me relaxar um pouco. Perdi a noção do tempo acariciando os fios loiros. Não havia mais o que fazer.

Eu não podia ter certeza, mas meu cérebro me dizia que eu deveria estar sonhando. Estava escuro. Muito escuro. E eu corria. Não sabia muito bem do que estava correndo, mas olhei para o alto e uma enorme lua cheia preenchia o céu. Só podia ser um sonho, pois uma lua linda daquelas iluminaria o meu caminho, mas tudo era tão escuro. Ouvi uivos ao longe e isso me fez correr ainda mais rápido.

De repente flashes apareceram na minha frente.

Quando conheci Carlos.

A primeira vez que beijei Rodrigo.

Carlos se despedindo.

Rodrigo dizendo que me amava.

Aquelas imagens corridas me deixavam ainda mais confusa e começava a ficar quente.

Muito quente.

Abri os olhos tremula sentindo meu corpo ensopada de suor e a primeira coisa que vi foram os olhos azuis brilhantes de Pierre em mim.

- Obrigada.

Ele estava a centímetros de mim apoiado pelo cotovelo no chão. Eu tinha certeza que os ferimentos estavam curados ou ele não estaria daquele jeito. Tive certeza também que ainda estávamos cheios de sangue.

- Por quê?

Consegui perguntar com a voz rouca pelo sono mergulhada na minha imagem refletida nas retinas dele.

- Por ter me ajudado.

Pisquei sentindo meu corpo arder pelo calor concentrado que emanava do dele.

- Eu não fiz nada.

Pierre riu. Aquele riso rouco de cachorro. Seus olhos também sorriam enquanto o cabelo fino caia nos olhos de maneira angelical.

- Obrigada mesmo assim.

Levantei cambaleando e ele ajudou a me sustentar. Minhas pernas pareciam um pouco fracas. As mãos dele na minha cintura queimavam como ferro quente e aquilo incomodava.

Doía ser tocada por Pierre.

Me joguei no chuveiro com a mesma roupa para tirar o suor, sangue e o calor do meu corpo. Tive a nítida impressão de a água evaporar em contato com a minha pele.

- Hoje é lua cheia.

O tom parecia indiferente, mas ele estava parado no batente da porta me olhando fixamente. Tive a tardia lembrança do vestido grudado no corpo revelando muito mais do que eu gostaria, mas naquele momento nem tinha muita importância.

Era lua cheia.

Era o fim.

- Ele está vindo.

Pierre tinha a voz controlada e parecia me devorar com os olhos. Eu tentava a todo custo não olhar para ele e nem dizer nada. Não havia nada para dizer. Meu coração parecia incerto entre ter esperança ou medo pelo que poderia acontecer a Carlos. Ele parecia ter ouvido minha angustia muda, pois continuou.

- Não está sozinho.

Tive a certeza que Pierre se aproximava lentamente do chuveiro.

- Talvez mais alguns e se eu não estou enganado um humano.

Minha mente girou. Alguns? Não apenas mais dois. Carlos teria contactado mais amigos vampiros. Estariam todos vindo para a armadilha e seria tudo culpa minha.

Um humano?

Meu joelho fraquejou e senti as mãos quentes dele novamente na sua cintura. Não podia ser verdade. Não podia ser Rodrigo. O que ele estaria fazendo junto com Carlos. O que poderia junta-los e como eles iriam se encontrar. Lembrei assustada que eu estava na casa de Rodrigo quando fui raptada, que tudo poderia fazer algum sentido, mas eu não queria perde-lo.

Eu não poderia perder os dois ao mesmo tempo.

- Eu vou te ajudar.

A voz rouca no pé do ouvido me fez tomar ciência que meu corpo estava em brasa por estar grudada ao dele.

- O que?

Me virei ficando novamente a centímetros dele.

A mão deslizou pelas minhas costas marcando a fogo.

- Me espere.

Pierre beijou minha testa deixando o local rapidamente e eu continuei ali parada em baixo do chuveiro e continuava caindo tentando entender toda aquela loucura e ri. Ri de me curvar. Ele iria me ajudar. No fim havia uma esperança. Uma única esperança.

Nota da Autora: FELIZ ANO NOVO!!!!!

# se esconde debaixo da mesa #

Eu sei que demorei horrores, mas a vida ficou muito complicada. Estou meio que acampada e trabalho também deu uma complicada. Eu sei o quanto vocês ficam tristes e também percebi que vcs não gostaram do Pierre, mas... Eu gosto do Pierre e gosto de deixar a vida da Isabella uma confusão... E não se preocupem logo tudo volta a realidade... rsrsrsrsrs... Sim... No próximo capitulo nosso vampiro preferido volta a história... Estamos perto do fim... Beijinhos...