XXI
Novo dia. Finalmente, após tão longo período dormindo, me sinto disposto a levantar e recomeçar a vida. No entanto, sem a "permissão" do médico não posso fazê-lo. Chamo-o, pois, à minha presença para uma avaliação. Sem demora, ele vem e me observa.
- Como se sente, Majestade?
- Bem. Ontem dormi tanto, que apenas posso me sentir restaurado.
- Hum. Tem certeza de que já se sente apto para retomar suas funções normais?
- Não é questão de se sentir apto ou não. Eu preciso fazê-lo; caso contrário, inimigos políticos me engolirão completamente.
- Pense bem, Majestade. Pode perder a vida caso adoeça outra vez, por esforço extremo. E então perderá o reino da mesma forma!
- Sinto-me forte! Não há problema.
- Comeu algo ontem?
- Somente os caldos de galinha que me receitou.
- Bem. Eu sugeriria que, mesmo sem se sentir mal, reduzisse sua carga por ora. Apenas como uma garantia.
- Não há problema! Vou fazê-lo, caso assim seja melhor. O que não posso fazer é dormir todo o tempo, como fiz ontem!
- Bem. Vomitou mais alguma vez?
- Não. Nenhuma.
O médico ostenta um ar pensativo. Vai falar com a criada, provavelmente para confirmar se digo a verdade ou não. Após algum tempo, ele finalmente "cede":
- Pode se levantar e retomar aos poucos suas atividades. No entanto, faça-o lentamente. Caso haja qualquer mal-estar, pare imediatamente e volte ao repouso.
Assinto com a cabeça, levanto-me e vou me vestir normalmente. Antes de sair, o médico ainda me admoesta sobre comida.
- Não é bom abusar. Coma apenas refeições leves, porém freqüentes. É melhor dormir mais cedo do que de costume.
Livro-me do médico de forma a logo poder ver o que posso fazer para retomar o controle do reino. Chamo os conselheiros e os demais chefes de guarda, para saber o que fazer acerca do recém-conquistado forte que antes era de Catherine Gray.
- Senhor, sem querer interrompê-lo, mas este assunto me fez pensar em seu prisioneiro, o qual tentou matá-lo a mandado da duquesa. Qual será seu destino?
Diabo! Com todas estas coisas, acabei até mesmo esquecendo dele! Bem... é certo que vários homens, meus e dela, morreram em batalha. Mas o destino deste... será necessário ser igual ao deles?
- É verdade. Bem! Mandados geralmente são "neutros": fazem o que seus líderes dizem. Quem sabe se este homem não tiver coisa alguma contra mim, não pode ser mais útil vivo do que morto?
- Mas Majestade... não seria perigoso ir ter com ele, após tudo o que aconteceu?
- Vou estar acompanhado dos guardas que já estão lhe vigiando desde o famigerado , está ainda amarrado, desde o dia em que lá foi lançado.
Os conselheiros hesitam. Mesmo assim, como sou o Rei, não me desobedecem. Vou ao calabouço acompanhado de cinco homens. Na frente da cela encontram-se mais dez guardas. O homem está fraco, raquítico. Mal devem ter-lhe alimentado durante sua estada aqui.
Sou direto, seco:
- E então? Conseguiu parar pra pensar sobre o que fez?
O homem não responde, talvez por despeito, talvez por fraqueza. Insisto:
- Responda-me, ou seu destino será o mesmo que o da duquesa morta!
- Já não me importa!
- Não lhe importa a morte?! Pois bem! Penso que eu a aplicarei a você de qualquer modo.
- Faça-o. Todos morrem um dia.
- É? Pois para onde pensa que, sem perdão, sua alma vai após a execução? Um quase assassino, certamente, não será absolvido de sua falta na álém-vida!
- Sim. Mas e quanto á sua falta, ó Majestade?
- Qual?! A de ter atacado à duquesa?! Ora! Foi apenas legítima defesa! Se ela não houvesse ameaçado minha vida, eu não...
- Não me refiro a isto, ó Majestade! Refiro-me ao homem que impediu que eu o matasse!
Meu coração dá um salto no peito. O que... o que este maldito sujeito sabe... sobre mim e Saga?!
- Aquele... aquele homem era... apenas meu segurança particular!
Um sorriso esmaecido porém cruel surge nos pálidos e ressecados lábios do prisioneiro.
- Pensa que nasci ontem, ó Majestade? É certo que seu "companheiro" foi mais esperto do que eu, mas também não su tolo! Me infiltrei muito tempo antes do ataque em seu quarto. Fui tolo, sim, de pensar que poderia matar a você e seu "amigo" sem maiores problemas; mas percebi muito bem o que fizeram!
Meus olhos literalmente se esbugalham, e minha pele fica novamente pálida. Ele percebe meu assombro e sorri de maneira cruel mais uma vez.
- Eu vi tudo - continua ele, implacável - Ele não o protegeu por ser seu guarda, mas por uma troca de favores! Ora, você fez com ele o que usualmente se faz a uma mulher! Você o sodomizou, ó Majestade!
O ódio guardado por Saga ser meu irmão, mais o fato de a linguagem do tal prisioneiro ser realmente incisiva, não me fazem ter outra atitude: chuto o rosto magro do homem com força, ferindo-o gravemente. Vejo alguns dentes voando, bem como sangue espirrando pela parede.
- Cortem agora mesmo a garganta deste desgraçado!
Saio andando rapidamente da masmorra, sem sequer ver a reação dos guardas ou a execução do homem. Apenas ouço um grito derradeiro de morte quando cruzo os limites da prisão.
Não paro de andar em ritmo vigoroso até chegar em meu quarto. Alguns guardas me seguem, mas eu os dispenso.
- Senhor! – dizem eles – Deixe o homem! Estava há tempos sem comer, devia estar delirando! Vai dar atenção às suas palavras?!
- Deixem-me em paz!
Falando assim, fecho as portas de meu quarto e respiro afobadamente. Ele soube! Ele... ele nos viu! Será que os outros acreditarão em suas palavras?
Agora está morto. Não devo mais me preocupar tanto. Mas... a prostração nervosa na qual me encontro por ter relembrado a minha... condição... é tão grande, que me jogo na cama outra vez.
- Maldição... se eu piorar, aquele... médico... vai me colocar em completo repouso mais uma vez.
Meu estômago recomeça a doer. Não... não posso ter uma recaída!
De repente, lembro da sangria do dia anterior. Sim; devo pensar que Saga se foi definitivamente através daquele sangue. De resto, apenas o tal prisioneiro sabia de algo sobre nós, e não tinha provas para oferecer aos outros. Sim, Saga está morto!
- Saga... está morto!
Repito tal frase para mim mesmo até a dor de estômago passar. Ao fim, levanto da cama e digo em voz alta e firme, uma última vez:
- Saga está morto!!
Como se eu pudesse "exorcizar" tal desagradável lembrança enfim, retomo todas as atividades do dia, sem poupar esforços. Todo ao cvontrário do que o tal médico dissera.
OoOoOoOoOoO
Passa-se uma semana. Após o primeiro período de "luto" por Saga, dediquei-me inteiramente às atividades pragmáticas. Tanto, que sequer me permito parar: divagações, jardim, coisas fúteis e tolas... já não me tomam mais o tempo!
Meu banho já não é mais tão demorado, nem com várias essências. Apenas o necessário para a limpesa.
- Amor? Ha! Amor enche barriga? Amor ajuda a viver? Nada! Só turva os olhos! E pensar que cheguei a cogitar nunca mais me casar... por causa de... outro homem! Que tolice isso a que chamam de amor!
Durante estes dias, tornei-me exatamente como era antes de conhecer a Saga; talvez mais frio ainda. Mal me comovo ao ouvir que uma pessoa nasceu ou morreu, ou ainda se casou.
Até que, num desses dias, eu conversava com um de meus camareiros sobre a finada Catherine Gray.
- Ah, não me casei com ela. Porque... bem, uma tonteria! Bobagem mesmo. Eu amava a outra pessoa.
- Ainda a ama, senhor?
- Nada! Só me fez mal esse tal "amor".
- Então o senhor, se fosse hoje, se casaria com Catherine?
- Ah, não. Muito "mandona"; ia querer controlar o reino sozinha caso fosse rainha. Não! Eu gostaria de me casar com outro tipo de mulher.
- Se me permite perguntar... qual seria?
- Hum... uma mulher dócil, porém determinada. Alguém que tivesse uma força escondida em seu interior, apesar de uma aparência fina. Uma mulher educada... bela...
Interrompo a descrição, aborrecido. Diabo! É igual ao que Saga era!
- É tão difícil haver mulheres assim, Majestade... aliás, seres humanos assim! Tais características provavelmente só se acham em personagens de contos de fada!
- Hum. É mesmo! Portanto, talvez eu não venha a me casar. Ou o faça apenas para... gerar um filho! É isso, um herdeiro para o trono. Afinal, já cheguei aos trinta anos...
- É bom sim, senhor! Pode ser que ainda viva muito, e eu espero que assim seja, mas nunca se sabe do futuro... a providência de um herdeiro sempre se faz necessária!
Neste momento, um mensageiro real vem até mim.
- Senhor! Chegou um recado urgente.
- De quem?
- Vejamos o selo... bem, é o selo da família real.
- Família re- meu... meu irmão! Eu disse a ele para nunca mais falar comigo! Não agüentou ficar uma semana sem me aborrecer/!
- Ao que parece, o assunto é grave.
- Dê-me isto! Ai dele se me disser qualquer besteira!
Enquanto abro o envelope, penso numa espécie de batalha a qual possa ser ocasionada por minha rejeição a ele. Mas não... o conteúdo é bem contrário a isto.
"Vossa Majestade,
Sou a criada de seu irmão gêmeo. Meu nome é Ruth. Não se espante por eu saber escrever: seu bondoso pai me deu a oportunidade de aprender quando era mais jovem, para que eu pudesse transmitir tal conhecimento a Saga, seu gêmeo.
Escrevo esta mensagem para lhe dizer que seu irmão se encontra muito doente. Há oito dias chegou em casa, deitou em sua cama e desde então não mais se levantou. Mal come, não se banha a não ser que os criados o instem a isso, emagrece e empalidece a olhos vistos. Já não sabemos o que fazer, pois os médicos não conseguem achar uma razão para sua doença.
Apenas chama ao senhor em seus delírios febris. No entanto, quando eu disse que ia contatá-lo, me implorou para que não o fizesse. Após todo este tempo, no entanto, escrevo ao senhor sem que ele saiba. Tenho certeza de que, caso morra nas garras desta enfermidade (o que não quero, de modo algum, que aconteça), seu irmão gostaria de vê-lo uma última vez.
Aguardo sua resposta e agradeço a atenção dispendida.
Sua humilde criada,
Ruth"
To be continued
OoOoOoOoOoO
Olá! Sei que deixei vocês na mão por mais uns dias além do que deveria, mas comecei a fazer pós graduação, yoga pra acalmar esses nervos aqui, continuo com meu curso de espanhol e trabalhando... e as minhas noites estão todas preenchidas, porque sábado e domingo é dia de sair porque sou filha de Deus também né... rssssss!
Bem, a minha fic querida não poderia ficar na mão. Junto com "Muito mais que paixão" e "Triângulo dourado", essa é um dos meus "bebês" preferidos. E no manuscrito já está quase no final! Será que Saga morerrá sem poder enfim ter realizado seu sonho de ser plenamente aceito pelo irmão? Tadeeeenho!! E sobre o comentário do Kanon acerca de sua pressa pra arrumar um herdeiro: hoje em dia, o povo até enrola montes pra casar. Principalmente os homens... rs. Meu tio mesmo só casou aos 46 anos... depois de minha mãe, irmã mais nova dele, estar casada há 23 (minha momis casou aos 21, hoje tem 45... papel passado e tudo, corajosa... eu com 23 não assumo um bonde desses ainda não... rs!).
Mas naquela época, o povo casava cedo até demais. Aos vinte a maioria já tinha casado ao menos uma vez (havia viúvas de 18, 19 anos...). Isso se dava por dois motivos: um era a alta taxa de mortalidade por doenças. A galera morria por tudo naquele tempo, então quanto mais cedo casasse e tivesse filhos, melhor. A segunda era a alta mortalidade na infância. Até uns 100 anos atrás, o pessoal era estimulado a ter um filho por ano... rs. Morria muita criança (e adolescente, e adulto... enfim, morria-se muito, por muitas coisas), e por isso era necessário ter vários flhos "de reserva". Tá, esse comentário foi bem frio, mas era o que ocorria na época. Sortudo era quem chegava aos 40 anos. Não se devia ver um de cabelo branco na rua...
Por isso, Kanon seria uma exceção à regra caso houvesse existido de fato. Ele, aos 30 anos, não havia casado nenhuma vez. Hoje, homem de 30 anos quer mais é curtir, namorar e beijar muito, lá quer saber de compromisso... rs. Mas naquele tempo, ainda mais pra um rei, era perigoso que adoecesse, morresse e tivesse de deixar o reino pros primeiros abutres que viessem.
Houve esse problema na dinastia de Henrique VIII, que teve mulher pa caralho mas filho HOMEM que é bom, nenhum. E naquele tempo tinha de ser homem pra assumir, né... daí que a coisa entornou de tal maneira, que quem ficou com o trono foi uma prima das filhas dele, Jane Gray, que foi decapitada logo em seguida (se morria por isso também... não tinha assalto a mão armada, mas tinha lá suas putarias!). A filha mais velha, Mary a Sangrenta, assumiu mas morreu de forma prematura... e quem assumiu foi Elizabeth, sua meia-irmã mais nova, aos 25 anos. Curiosamente, Elizabeth também nunca casou. Era chamada de "Rainha Virgem" por isso, mas não sei se morreu virgem de fato... rs. Curiosamente também, a "Rainha Virgem" morreu com mais de 80 anos, uma longevidade impressionante para o século XVI. Também, mulher morria mais era de parto também...
Bem, deixa eu parar de falar! . É que adoro a dinastia dos Tudor, da Inglaterra... tanto que os sobrenomes de Saga e Kanon nessa fic (aparecerão mais pra frente xD) serão ingleses! xD
Beijos a todos e todas!
