Capítulo vinte e um: A morte além da vida

Por Kami-chan

Shikamaru tentou observar aquela sala o mais atentamente que sua situação lhe permitia. A sala por si só era a dona de toda a elegância daquele ambiente com o sol da manhã batendo forte contra os vitrais, desenhando sombras de pingos avermelhados nas paredes brancas. Não havia mobilha, não havia cortina nas grandes janelas de vidro.

Tudo que compunha a sala eram grandes jarros ornamentados que se destacavam contra a parede branca. Lado a lado por todo o perímetro, exceto contra a parede que era o destaque de vitral.

Decepção foi o que tomou conta de seu ser naquele momento. Não havia nenhum indício de Deidara ali, nada que denunciasse nem mesmo sua passagem pelo cômodo. Achou mesmo que quando Gaara falou em transformar aquilo em um grande show, ele os colocaria na presença de seu prisioneiro.

Seria possível que Ino estivesse errada?

Não. Seria coincidência demais ele ter tanta possessão por aquele lugar, e dar a entender que faria uma surpresinha para quem acreditava ser Ino enquanto falavam do loiro. Ele tinha que estar ali.

– Contemple o seu palácio, minha rainha. – Disse com desdém quando finalmente parou de arrastar o corpo miúdo pelos cabelos longos, fazendo questão de aplicar força ao movimento apenas para que ela se machucasse mais. – Contemple o sepulcro real. – Completou permitindo-se uma risada medonha que percorreu por toda a sala até a preencher de forma a mandar seu eco para todos os lados.

Com voz alta e timbre de notas baixas, tão saudosa que levava consigo cada molécula de oxigênio do ruivo. A risada expressou tudo o que ele sentia, o que via na cena da menina de corpo miúdo e ventre avantajado encolhida sob seus pés; uma piada de mais alto teor cômico que o fez se deliciar à melodia bizarra de sua própria voz.

– Você tem uma dívida de vida com o Iwa podre, Ino? Eu vou ajudar você a pagar ela. Porque se você deve a vida para aquele ser, é porque a sua vida deve valer ainda menos do que a daquele demônio sem valor algum.

E como foi esperado pelo Nara, as agressões não tiveram fim. Pelo contrário, dentro daquela sala todas as possíveis restrições que o ruivo ainda poderia ter para que fosse contido, foram esquecidas.

Aquela era a sua área, sua pequena caixa de areia particular. Deveria revidar, sua imitação de Ino falhava neste ponto; Ino jamais aceitaria aquilo sem lutar, sem tentar.

Mas não era Ino, apenas se parecia fisicamente com ela neste momento. Não tinha os jutsus do clan Yamanaka. Conhecia todos eles, mas não sabia como os fazer nem mesmo com o chakra de Ino correndo junto com o seu.

A única coisa que tinha de vantagem em uma luta contra Gaara naquele momento era o elemento surpresa. Mesmo que a luz clara da manhã estivesse favorável para criar sombras, aqueles jarros não faziam uma margem muito grande para um bom ataque.

O kagemane não seria útil uma vez que Gaara era alguém que possuía ataques de média à longa distância é não precisava se movimentar para atacar. E sua areia, por mais que gerasse sombra, era um alvo móvel e rápido demais para pegar.

E pensando nestas coisas, Shikamaru apenas se deixou ser agredido. Tinha que pensar rápido, mais rápido do que estava habituado.

Palavras de escárnio e acusações sem sentido já nem passavam mais por seus ouvidos. Era muito melhor deixar Gaara gritando para as paredes do que filtrar aquelas palavras maldosas e sofrer com o pensamento de que se não tivesse impedido, seria mesmo Ino sofrendo tudo isso.

Grávida. Emocionalmente fragilizada. Com o pensamento dividido entre se salvar, manter seu filho vivo e encontrar Deidara.

– Porque você está fazendo isto com a mulher que carrega no ventre o seu filho? – Perguntou por fim.

– Não menospreze a minha inteligência garota burra, eu sei que este filho não é meu.

– Por isso que você mandou Temari o matar? E se ver tarde demais que está errado? O que vai fazer quando Temari lhe trouxer seu filho morto nos braços? – Gritou.

– Temari vai arrancar cada gene Nara deste bebê, então vai devolver ele para você. Vocês dois irão morar aqui. – Disse abrindo os braços para indicar a sala em que estavam. – Você vai cuidar dele até que seu corpo flagelado se decomponha e seus ossos virem pó. É o que me parece justo. Eu vou garantir que você seja uma boa mãe, virei até aqui para ver você alimentar e ninar seu bebê até o dia em que o corpo dele esteja apodrecido demais para ser segurado por você.

– Você é um monstro! – Gritou realmente alto.

Como resposta ao grito alto que fez a voz aguda de Ino ecoar pela sala outro barulho pode ser ouvido ao longe. Parecia vir de um dos jarros altos do local e Shikamaru temeu por um segundo, crendo que Gaara tinha decidido incluir sua areia na discussão regada por agressões.

Mas as íris claras de Gaara denunciavam a ausência de intenções daquele movimento, aquela vibração. Seus olhos se arregalaram mais a cada novo tremor, o problema parecia ser aquele jarro em espacial. Algo nele não estava agindo de acordo com os comandos de Gaara, algo nele parecia ter força e vontade própria.

Neste momento do lado de fora, Temari já havia reparado na ausência de Ino e Gaara. Já tinha o documento nupcial que daria a liberdade de Ino ao irmão, e sabia que o mesmo queria assinar aquele documento o quanto antes.

A mesa de café da manhã estava intocada, os corredores estavam silêncios. Não havia evidencia ou sinal de qualquer um dos dois estivesse dentro do palácio. Temari sabia que tinha apenas um lugar em que Gaara costumava se esconder, mas ele tinha lhe garantido que não mataria Ino.

O plano consistia exatamente no oposto: dar a ela uma vida dolorosamente longa. Correu até o corredor certo, mas não tinha coragem de interromper fosse lá que tipo de diversão Gaara pudesse estar tendo com seu novo brinquedo.

Talvez devesse mandar um criado, ou apenas passar o documento por baixo da porta. Permaneceu incerta quanto a que atitude tomar e nos segundos que se passou a atenção da loira foi tomada pelo o que pareceu ser o alto barulho de uma explosão do lado de dentro da sala.

Temari tocou a porta de madeira escura com a palma da mão. Não sabia o que aquilo poderia significar, o prisioneiro de Gaara podia criar explosões. Mas era simplesmente impossível acreditar que alguém nas condições que sabia que o Iwa estava, executar algum jutsu.

Deveria entrar? Mesmo com algum pequeno imprevisto com relação ao Akatsuki, a ordem do irmão era de que ninguém deveria entrar ali. Nunca. Nem mesmo ela deveria ter plena ciência do que era a caixa de areia de Sabaku no Gaara.

– Ora ora... você veio até aqui por ele, ele explodiu minha areia ao ouvir a sua voz. Que constrangedor Ino, eu não acho mais que você esteja aqui apenas por uma dívida de vida para com aquele verme de Iwa. Como pude deixar passar esta variável? É claro que o Akatsuki não iria intervir se não fosse por algo de seu interesse.

– O que você fez com ele? – Ele foi incapaz de reprimir a pergunta ao colocar seus olhos sobre aquele que deveria ser o corpo do Iwa.

Havia sangue seco por toda a sua pele e roupas, seus braços pareciam mortos e estavam caídos no chão ao seu lado em posições que um corpo em anatomia perfeita não permitiria. Havia areia colada em suas feridas e Deidara tinha feridas abertas por todo o seu corpo, bem como marcas profundas de queimaduras e cortes feitos por areia.

Ainda assim o corpo flagelado tentava e vão se mover em direção às outras duas pessoas na sala. A única evidência de vida naquele corpo teimoso estava em seus olhos vivazes que camuflavam eficazmente toda a sua melancolia com coragem.

Sem força alguma ele não cansaria de tentar se mover para perto de quem ele acreditava ser Yamanaka Ino. Sem fôlego e sem voz não parou um instante se quer de chamar por seu nome. Mesmo que sua voz quase não saísse e de seu chamado houvesse somente o vapor de seu hálito quente já escasso demais.

A cena de Deidara à distância seria facilmente confundida com um peixe que já estava fora da água por tempo demais, exausto de tentar em vão sobreviver. Se em seu mundo houvesse sereianos diria que ele tentava desesperadamente lutar por seu habitat natural, mesmo que o único líquido que estivesse ao seu alcance fosse a poça de seu próprio sangue perdido e misturado com a areia clara do deserto.

Sabia-se pouco sobre o Akatsuki de Iwa. A maioria das informações adquiridas provinha do ataque ao Kazekage. Ele tinha habilidades únicas e interessantes, bocas secundárias distribuídas em alguns pontos do corpo que misturavam seu chakra com alguma argila que ele ingeria por elas e então as explodiam.

Ainda assim lhe pareceu extraordinário o raciocínio e controle para conseguir desfazer o selamento que mantinha a grande boca em seu peito costurada e fazer a mesma ingerir a areia de Gaara para utiliza-la como explosivo. Visto por este ponto, o princípio teórico que regia nos materiais usados pelos dois não pareciam tão distintas.

Do lado de fora da sala Temari ainda permanecia inerte com a mão espalmada na porta. Incerta demais se seguia as ordens de Gaara e se mantinha longe daquele lugar, ou se seguia as regras de Gaara e lhe desse o importante documento para que fosse assinado o quanto antes para ele poder brincar com liberdade com Ino em sua caixa de areia.

A madeira sob sua mão vibrou severamente após o que pareceu ser o eco de um grito de Ino. Ouvia-se tão pouco através da grossa porta de madeira, mas para si pareceu que Gaara já estava se divertindo com sua jovem esposa. Se ele prosseguisse desta forma talvez teria que enviar a parteira de volta antes que a mesma descesse da charrete que mandou para busca-la.

Suspirou de forma cansada, Gaara tinha que começar a seguir os próprios planos ou algo ainda sairia do controle. Ia da meia volta para garantir que pelo menos Kankurou não resolvesse sair atrás de sua preferida quando algo a fez parar.

O frio. Não era o frio do deserto e nenhum frio psicológico com significados morais. Era mesmo algo gelado roubando o calor de cada molécula da porta de madeira.

Aquilo lhe era estranhamente familiar. Não conseguia se lembrar do motivo, mas também foi incapaz de seguir seu caminho. Apenas ficou ali sentindo o frio agradável roubar um pouco de seu próprio calor enquanto se mantinha com a mão colada à porta.

Gostava daquela temperatura, lhe levava para um lugar muito além do deserto. Era um frio úmido como o orvalho da manhã em uma vasta floresta. Trazia-lhe bem estar e segurança, era como lutar ao lado de Shikamaru e saber onde ele estaria no campo de batalha apenas sentindo as alterações do vento.

A sombra produz o frio; o orvalho frio e o veado nas sombras.

A determinação de Deidara em não se entregar pareceu dar mais forças às vontades do Kazekage. Com certeza aquela gana em sobrevier e estar perto de Ino deixava ainda mais claro para Gaara que tinha se esquecido de calcular uma variável em seus planos.

Aquela cena deixou claro que em nenhum momento o loiro lutou apenas pela sobrevivência de sua vida mundana, agora lhe parecia claro que seus atos se resumiam à necessidade de comprovar que veria Ino bem. Que piada de péssimo gosto.

– A puta de Konoha e o verme de Iwa. Você é nojenta Ino, se deita com vermes e quer que eu a receba bem em minha casa. Abre as pernas para qualquer pinto duro e quer tentar me convencer que está aqui por uma família completa. Você é ridícula, uma nojenta ridícula. A família Nara sabe que a cadelinha de Shikamaru rolou com renegados?

Shikamaru permaneceu em silêncio. Era impossível não ter um pingo de empatia pelo próximo quando via o estado desumano em que estava o corpo de Deidara. Mesmo que fosse o seu inimigo, aquilo não era justo; era puramente cruel e insano.

Ino devia estar certa. Gaara havia trazido Deidara consigo e vinha desde aquele momento brincando e torturando o loiro como se fosse um espantalho feito de sabugos de milho. A aparência física ligeiramente similar a de Ino fazia com que a cena lhe tocasse um pouco mais além.

Depois de tudo o que ouviu e sofreu em um dia nas mãos do Sabaku, viu no corpo de pele morena, olhos azuis e cabelos aloirados o semblante de dor de Ino. Aquele seria o fim dela, aquele era o quadro que pintava o futuro que Gaara planejava para ela.

– Você se deita com este abjeto da sociedade desde quando? – Perguntou.

Sua voz saindo anormalmente calma, doce e aveludada como se lhe fizesse um carinho. E mesmo que Shikamaru quisesse responder qualquer coisa, não teria tempo. Com um comando simples feito com uma das mãos a mesma areia suja com sangue de Deidara veio até si como uma fina corda obediente e se enroscou em seu pescoço, apertando até sufocar.

– Vocês dois ficavam lá batendo papo depois do orgasmo? Rindo do que vocês tinham em comum? Você foi tão burra a ponto de não perceber que ele só fodeu com você para pisar em mim mais uma vez! Menina burra, menina burra. – Cantarolou enquanto via sorridente os lábios dela ficarem levemente arrochados pela falta de oxigênio.

Já sentindo uma dormência periférica, Shikamaru percebeu que a circunstâncias não permitiriam que ele escolhesse o melhor momento para agir. As conclusões de Gaara haviam levado embora sua chance de usar o fator surpresa plenamente ao seu favor.

Seus olhos encararam a felicidade e o prazer sentido pelo ruivo por lhe causar aquele desconforto. A mão direita estava à sua frente, alta quase na altura dos olhos. Os dedos fechados contra a palma, apertando-os cada vez mais como a areia em seu pescoço.

Seus jutsus não eram fortes o bastante para a dominação da areia, o Kagemane não era útil contra um adversário estático como Gaara. Mas não tinha escolha, aquilo era tudo o que tinha para o momento. Com os três selos feitos rapidamente e o anuncio do jutsu inesperado fizeram o aperto em seu pescoço ceder minimamente.

– Ka..kagemane? – Disse Gaara entendendo pouco do que se passava diante de seus olhos, realmente não ligando por sua sombra ter sido presa.

Sem perder o foco Shikamaru aproveitou-se dos segundos de brecha para se levantar. A dor em seu corpo deveria ser colocada em segundo plano agora, pois ao ver em sua visão periférica a loira colocando-se ereta, ainda com a união do kagemane nas mãos Gaara voltou a fechar os dedos contra a palma de sua mão para aumentar novamente o aperto contra o pescoço de Ino.

Inadvertidamente seus dedos se recusaram a fecharem-se. Shikamaru não podia controlar a areia de Gaara, não poderia fazer com que aquele aro de grãos finos saísse de volta do seu pescoço, mas podia impedir a mão de Gaara se fechar novamente. Então manteve sua mão com todos os dedos o mais afastado um dos outros que podia e como uma réplica perfeita, a mão de Gaara a copiou.

Ao sentir-se realmente controlado o Kazekage pode experimentar o que era estar preso pelo famoso jutsu de dominação do clã Nara, e não aprovou em nenhum momento o gesto de genialidade tosca. Não precisava mover-se para controlar sua areia. Tampouco compreendia o que exatamente estava acontecendo ali, Ino estava usando jutsus exclusivos do clã do veado.

Mas não importava. Yamanaka ou Nara, não importava realmente, qualquer verme morto era uma mancha a menos em sua honra. Não haveria sombra neste mundo que não pudesse ser varrida por sua areia.

Gaara nada mais disse, pois nada mais precisava ser dito ou explicado; apenas feito. Executado. Mais de um sangue se misturaria a sua areia neste dia, sem pensar direito, apenas afirmou que para si mesmo que não se contentaria mais apenas com o sangue do Iwa.

A ira encobriu sua mente e seus olhos se apertaram até que seu cenho estivesse completamente franzido. Não tentaria se livrar do kagemane, era inútil em todos os sentidos. De sua ira a energia do local mudou, o ar ficou denso.

Aquele peso na atmosfera já era conhecido assíduo de Deidara, e fez o loiro grunhir pela lembrança da tortura que aquela densidade pesada previa. Seus olhos ainda olhavam fixamente para Ino sem conseguir distinguir o que a loira estava fazendo, o peso na atmosfera fazia seus músculos e pulmões travarem. Em sua mente fragilizada a divisão entre o medo que aquele mudança no ar lhe trazia e o desejo de tirar Ino do local em que com certeza nada de bom aconteceria faziam com seus grunhidos e lamúrias fossem ouvidos pelas demais pessoas no local.

Os olhos azuis de Ino fugiam sua concentração de Gaara para Deidara de minuto em minuto. O desespero expresso no roso de um e a feliz expectativa no rosto do outro. Precisava de mais tempo para pensar, mas a ideia imutável de fracasso no final de cada estratégia tornava seu raciocínio cada vez mais condicionado ao desespero.

Gaara não parecia impressionado, apesar de se mostrar ligeiramente surpreso pelo kagemane. A arrogância em seu sorriso contido apenas lhe fortalecia a certeza de que estar imóvel não o impediria de usar a areia mortal. O medo expresso por Deidara tornando a expectativa do que viria a seguir muito mais intensa.

Dos olhos franzidos e a densidade do ar veio a vibração intensa que pode ser sentida pela sola de seus pés no chão. Todos os demais jarros que estavam em torno da grande sala vibraram em igual intensidade, cada vez mais forte até que a intensidade em sua base passou a fazer com que a fina tampa arredondada no alto de cada um tremesse severamente, acrescentando o som da cerâmica se chocando contra si mesma ao som da vibração.

Até que a intensidade foi demais para a capacidade da estruturas frágeis de cada jarro que se quebrou um a um espalhando areia por todo o chão do local. Em um primeiro momento Shikamaru se assustou, mas no momento seguinte a brecha que tanto esperava se formou.

Toda a areia se elevou do solo à vontade de Gaara, mas em sua ira o ruivo não percebeu que tanta areia unida e elevada formava no chão além de muito pó, muita sombra. Uma grande e contínua área de sombra; ironicamente, sua possível luz no fim do túnel.

Poderia envolver Deidara sob a proteção de sua sombra enquanto pensava em armadilhas. Se o Iwa estivesse em segurança poderia pesar somente em si contra Gaara, e mais nada.

Mas fazer isto seria arriscado, pois teria que desfazer o kagemane. Mesmo que Gaara não precisasse exclusivamente de movimentos para controlar a areia, a restrição ainda limitava o que ele podia fazer com ela e como a conduziria contra si.

Entretanto não encontrou alternativa melhor. Não demorou para que a areia o cercasse como um redemoinho a ponto de quase cegá-lo.

Desfez a prisão pela sombra de Gaara e se focou em lançar o jutsu na direção em que acreditava acertar Deidara. Entretanto Gaara foi muito mais rápido. Fora do controle do kagemane suas mãos trabalharam rapidamente para conduzir a areia e formar o caixão de areia sobre Shikamaru.

Ao perceber a mudança no fluxo dos grãos Shikamaru recuou. Conhecia aquele movimento que Gaara fazia com as mãos. Não tinha o visto muitas vezes, mas era realmente um movimento muito parecido com o movimento que fazia para conduzir a sombra. Isto mais o terror do efeito daquele comendo o fez decorar os sutis movimentos do que o homem do deserto intitulava Sabaku Kyuu.

Do lado oposto parecia que os movimentos de Shikamaru era que estavam sendo ditados pelo Sabaku; os movimentos do seu kageyose no jutsu eram quase gêmeos aos do caixão de areia. E em uma tentativa desesperada o Nara passou a procurar por vestígios dos grandes jarros para arremessar contra o ruivo enquanto corria às cegas contra os grãos cortantes de areia. Fosse para distraí-lo até conseguir pegar Deidara ou apenas para que os objetos sem vida fossem atingidos em seu lugar.

A quantidade de sombra que tinha devido a areia lhe era suficiente para agir de qualquer ponto da sala, precisava apenas de um momento adequado para um clone assumir seu lugar e o ajudar a montar suas armadilhas. Entretanto algo inesperado aconteceu antes que a primeira estratégia com final positivo que ascendeu em sua cabeça pudesse começar a ser colocada em prática.

A movimentação às cegas por dentro da sala o fez perder a orientação. O que tinha para usar contra Gaara foi consumido pela areia e como tal virou pó. Não sabia mais para onde correr e nem o que usar, fez um selo rápido e a barriga ampla e falsa de gestante se desmanchou liberando aos seus pés bombas e kunais.

Mas sem saber onde Deidara estava seria arriscado demais apenas lançar armas ao além. O desgaste físico do loiro era tanto que nem sua energia vital podia ser sentida no meio de tanta bagunça.

Teria que para analisar a cena como um todo para descobrir através da orientação de início e de ponto de impacto de cada ataque de Gaara para descobrir onde o ruivo estava. Sem muita escolha fez um clone das sombras e fez o mesmo correr pela sala para atrair a atenção de Gaara enquanto ele próprio se abaixou e ficou próximo do solo para analisar a cena como um todo.

Como espectador sua tática deu certo em um primeiro momento. A sequencia de ataques de Gaara lhe dizia mais ou menos onde o ruivo estava e uma a uma, bombas foram sorrateiramente roladas pelo chão na direção do ruivo. Implodi-las ainda era um grande risco, Gaara podia estar perto o bastante de Deidara para que qualquer ataque amplo ferisse o renegado da Pedra também.

Quase totalmente de mãos atadas Shikamaru se permitiu sorrir ironicamente; Em que momento Ino tinha conseguido deixar sua vida tão complexadamente problemática.

Sentia pela sombra do seu clone em movimento onde o mesmo estava, mas sua réplica também não era capaz de encontrar Deidara. Tinha apenas mais duas bombas para armar completamente a armadilha, mas ao rolar a primeira delas foi que rapidamente tudo saiu de seu controle.

O som baixo da armadilha sendo rolada era audível aos ouvidos de Nara por treinamento; tinha que saber a distância em que cada uma parou para calcular o local da seguinte. Mas aquela em especial havia parado em um momento em que o barulho que fazia indicava ainda uma velocidade muito rápida para simplesmente parar.

A situação em questão lhe indicava que a pequena esfera havia sido parada, provavelmente havia batido em Gaara ou em Deidara. A resposta veio quando os ataques do Sabaku simplesmente pararam e por dois segundos houve um quase silêncio dentro da sala.

No momento seguinte houve apenas a visão de areia e arenito lhe atacando de cima pata baixo, unindo-se em uma areia pegajosa ao último comando de seu mestre:

– Sabaku Soso! – Foi o comando dito em voz alta e clara.

Shikamaru chegou a passar a mão por uma kunai para sua única chance de armar a armadilha e se livrar do jutsu letal, mas não teria tempo. A areia de Gaara era obediente e traiçoeiramente rápida. Ainda assim, o escuro que encobriu os olhos de Shikamaru não vieram acompanhados pela dor da morte.

Apenas um grito alto de dor foi ouvido. Apenas um grito alto de dor foi preciso para acabar com tudo.

Os grãos de areia que cegava caíram todos ao mesmo tempo no chão, o peso no ar sumiu. Aquele único grito cumpriu a promessa Sabaku de unir outro sangue à sua areia naquele dia.

Sem toda a areia Shikamaru finalmente teve sua visão completamente recuperada. Ainda agachado de joelhos no chão ele imediatamente buscou com os olhos aquela barreira que bloqueou o jutsu de Gaara.

Nenhum orgulho ou satisfação lhe atingiu ao visualizar o grande leque de Temari cravado no chão à sua frente.

Tocou o mesmo como se o toque pudesse o dar algum sentido extra sobre o que aquilo significava. Ao perceber o ato em vão Shikamaru se ergueu e caminhou até ser capaz de ver além da proteção da grande arma de Temari.

E mais uma vez a visão não lhe trouxe nenhum tipo de satisfação. Pois no chão, quase totalmente encoberta pela areia dura, o rosto forte e belo de Temari se destacava dando cor à areia branca.

O fim dos ataques Shikamaru pôde perceber ter acontecido apenas pelo choque expresso no rosto de Gaara. Sua fúria havia o deixado tão cego quanto toda aquela areia que havia no ar até momentos atrás.

Imóvel com os orbes quase lhe saltando da face, o Sabaku foi incapaz de mover-se ou expressar qualquer tipo de sentimento com relação à morte da fiel irmã. Apenas ficou olhando seu corpo sem vida como um auto castigo enquanto seu corpo tremia no mesmo lugar.

A situação despertou por fim a ira de Shikamaru, o Konoha nem prestou atenção na pequena piscina de areia que havia engolido Deidara quase completamente. Apenas a mão do loiro se mantinha para fora da superfície.

Temari morreu no seu lugar, colocou-se à frente do jutsu letal do irmão mesmo sendo a pessoa que melhor conhecia Gaara e suas habilidades. Já havia amado Temari, não foi um sentimento leviano apesar de ter tido fim. Por isso olhar nos olhos claros estáticos em sua direção magoava seu coração.

Não sabia se podia ou devia sentir aquela dor, apenas sentia. Para si era impossível apagar todo o bem de uma pessoa com o mal. Mesmo que as coisas ruins feitas por aquela pessoa tenha se sobreposto à quantidade de coisas boas, as boas memórias jamais deixariam de existir para lembrar que nem todo ser humano vive apenas de luz ou de sombras.

Em sua ira magoada, tudo o que Shikamaru viu foi oportunidade de terminar com aquilo. Gaara estava disperso demais. O ruivo se quer notou ser capturado pelas sombras do moreno, ou ouviu o comando com o nome de cada arte ninja usada.

Um grito de dor o trouxe de volta à realidade quando já era tarde demais, já estava preso pela já técnica secreta já revelada do Kage Nui. Já havia vingado uma morte com ajuda com esta técnica de agressão física, mas o corpo ainda quente de Temari ao seu lado lhe dava mais desejo de ferir.

Uma a uma as linhas compridas que saiam de sua própria sombra alterada feriram o corpo esguio de Gaara em diferentes pontos até deixar o ruivo completamente imóvel e a mercê de sua maleficência. Até que sua sombra se modificou mais uma vez, só mais uma.

– Shin Kage Kuri no Jutsu. – Anunciou sentindo certo prazer ao sentir sua sombra e sua treva consumir o corpo de Gaara até que pudesse sentir sua mão contra o pescoço do ruivo para poder quebra-lo.

Contudo, o que sua mão esmagou foi uma espessa viga de madeira. Sem entender muita coisa Shikamaru olhou para os lados e encontrou Yamato, Sai e Sakura.

Rapidamente uma proteção de madeira se fez em torno do Kazekage interrompendo os jutsus de Shikamaru. Sai e Sakura estavam dando algum jeito de livrar dos muitos guardas que os seguiram em sua invasão.

– Sakura! Sakura! – Shikamaru chamou e repetiu o chamado repetidas vezes enquanto se esquecia momentaneamente de Gaara e corria até Temari.

Sakura ao ouvir o chamado olhou imediatamente na direção em Ino estava ajoelhada atrás da cabeça e ombros de Temari. Era evidente mesmo à distância que nada poderia fazer pela loira soterrada na areia do irmão.

Olhou a situação como um todo. Sai e Yamato estavam conseguindo conter os guardas de Suna sem iniciar uma grande batalha que terminaria em muitos feridos e mortos. Gaara também parecia momentaneamente controlado pelos ferimentos e por Yamato.

A última peça que faltava deveria estar dentro da pequena piscina de areia apenas com a mão para fora. Ele devia estar morto igual Temari, mas precisava ter certeza. O simples fato de Temari ter morrido implicava mais importância na garantia de morte do Iwa.

Por causa da morte de Temari teria se certificar para poder garantir à Tsunade que Deidara realmente estava morto.

– Yamato-san eu tenho uma missão extra resignada, mas para vocês dois esta ainda é uma missão diplomática. – Avisou antes de se adiantar para o local em que acreditava encontrar o corpo de Deidara.

– Hai. – O capitão apenas concordou mantendo uma contenção para que mais guardas não entrassem ali.

Sakura soltou a respiração duas vezes e se alongou rapidamente antes de se certificar que as luvas de borracha estavam muito bem aderidas às suas mãos. Um ato de repetição inconsciente que sempre fazia antes de agir. A poça de areia não era muito grande, então não precisaria de muito impulso para puxar o corpo do Iwa ali de dentro.

Em um trote nem rápido e nem lento, correu na direção do local. Saltou antes que ficasse igualmente pesa na areia e puxou o corpo pesado pela mão exposta. O barulho do corpo dele sendo jogado no chão chamou a atenção de Shikamaru que virou o rosto na direção dos dois.

Para surpresa de Sakura o Akatsuki não estava morto e isto era um problema. E mesmo nas condições inacreditáveis em que seu corpo estava ele ainda ignorou a kunoichi de cabelos cor de rosa para se virar com dificuldade de barriga para baixo e poder ver que ele acreditava ser Ino.

Sakura percebeu que além de todas as feridas e fraturas, ele não podia usar nenhum dos braços. Já tinha visto o efeito do caixão de areia uma vez, Deidara estava se mostrando tão teimoso em sobreviver quanto Rock Lee.

Por não poder usar os braços, seu corpo ficou os esmagando em uma posição estranha. Mas ele podia ver Ino e aquilo pareceu lhe dar forças. Por um minuto aquela cena de devoção e o brilho teimoso nos já quase sem vida de Deidara deixou a missão de Sakura mais difícil de ser cumprida.

Mas antes que a cena tocante pudesse convencer seu coração, a mente racional puxou o Iwa pelo ombro para que ele voltasse a ficar de barriga para cima e olhando para si. Precisava ser feito, a vida infelizmente não era um conto de fadas. Cada ação gera uma reação, cada escolha trás uma consequência e consequentemente uma renúncia.

Um amplo pergaminho foi aberto sobre o abdome do loiro ao mesmo tempo em que a rosada tirou uma kunai longa de seu suporte. Outro pergaminho foi aberto e rolado na direção de onde estava Shikamaru. Em seu ombro a pequena lesma enviada por Tsunade apenas observava os atos da Haruno.

Não entendeu muito bem os planos dela quando reconheceu a sequencia de selos feito por Sakura até que a aprendiz de Tsunade falasse algo em meio aos movimentos.

– A morte de Temari pode trazer complicações. Por favor avalie a situação dela e passe para Shishou para que ela me oriente. – Disse e ao terminar a sequencia um desenho se formou no pergaminho.

A lesminha pulou no centro do mesmo indo reaparecer no centro do outro pergaminho que Sakura tinha rolado para perto de onde estava o corpo da loira na areia. Parecia uma ação desnecessária para uma distância tão curta, mas cada segundo era crucial na situação de Temari.

Sozinha com o Iwa, Sakura voltou sua atenção para a kunai em suas mãos. Segurar uma arma com intenção de agir com tamanha frieza lhe era desconfortável em nível de fazer a rosada sentir como se fosse ferir a si mesma. As lamurias e resmungos carregados de sofrimento do loiro chamando desesperadamente pelo nome da amiga não facilitava a escolha da decisão nem um pouco.

Era visível nos olhos dele que Deidara tinha entendido seu propósito ali. Talvez estivesse explicito nas próprias esmeraldas sua intensão maldosa. Era difícil, simplesmente olhar nos olhos de uma pessoa e mata-la a sangue frio.

Suas mãos tremeram, não era uma luta justa.

Mas seu futuro, o de Shikamaru e de Ino dependiam daquela escolha.

Olhou uma última vez na direção em que as costas finas de Ino prestavam atenção em tudo o que a pequena lesma dizia. Sabia exatamente o que tinha que fazer, mas não conseguiria com Shikamaru ali.

Aquela era a sua escolha pessoal para corrigir o curso do passado. A consequência por suas escolhas pessoais viria depois.

Os dedos rápidos repetiram a mesma sequencia de selos, porém mais longa. Todos estavam ocupados demais com suas próprias tarefas para impedi-la e ao terminar a sequência longa e elaborada suas duas mãos afundaram o pergaminho contra o abdome de Deidara e ambos simplesmente sumiram daquele lugar.

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– Baa-chan você devia ter falado comigo antes. – Disse Naruto em um suspiro. – Eu admito que pensei que mandar Ino para aquela missão talvez fizesse ela se lembrar do sentimento que ela e Gaara dividiam, e então voltassem. Mas eu percebi que as coisas não eram bem assim quando ela voltou.

– E você não pretende tomar nenhuma ação contra os atos de Gaara? – Perguntou a loira.

– Eu não pensei eu fosse tão sério. Confesso que me assustei com Gaara no dia em que ele, Ino, Sakura, Shikamaru e eu conversamos em minha sala depois do atentado de Temari. Achei que ele estivesse confuso... deprimido sabe. Pensei que o tempo colocaria a cabeça dele no lugar.

– Agora isto atingiu outro nível político. – Disse a loira.

– Mas o que Shikamaru foi fazer? Ele não é o tipo de pessoa que age antes de pensar. Já faz tanto tempo. Por que ele deixaria Ino no final da gestação para buscar algum tipo de justiça?

– Eu não sei. – Respondeu Tsunade olhando para a paisagem colorida da vila além da janela.

Sabia sim a resposta, apenas não podia dar à Naruto. Pelo menos não até a comitiva voltar com a falsa missão de trazer Shikamaru de volta e ela ter certeza das atitudes de Ino.

– Shikamaru não devia ter ido. Mesmo que as atitudes de Gaara sejam condenáveis, fazer justiça com as próprias mãos é um crime também. – O loiro disse com pesar.

– Por isto mandei Sakura em missão de busca. Mostraremos à Suna que Konoha puni crimes, Gaara não deve sair ileso apenas por seu alto cargo. Qualquer um de Suna ou Konoha já estaria preso por este histórico de agressões.

– Tão impensado e sem propósito. Tão avessa à personalidade de Shikamaru a sua atitude. – Repetiu o loiro.

– Não adianta remoer isto agora Naruto. A mensagem de que a atitude de Shikamaru não foi aprovada está sendo passada, nós só teremos que usar questões diplomáticas com Suna.

– Repita, por favor, Baa-chan sobre o que você e Gaara estavam negociando exatamente antes de você me passar o bastão?

– Ampliação de comarca. Junto ao senhor feudal Gaara queria a garantia de Konoha de que Suna tinha capacitação para uma ampliação.

– O senhor feudal lhe concedeu isto?

– Não. Foi apenas uma reunião. O senhor feudal irá deliberar na presença de todos os kages, acho que a instabilidade emocional do Kazekage deve ser colocada à posta.

– Seria uma declaração de inimizade com Suna. É rompimento certo da aliança.

– Então você terá que fazer com que a menção seja discreta e precisa. Vai ter que colocar as palavras de forma a colocar a sua opinião e deixar que o peso da quebra da aliança recaia somente sobre Suna.

– Veremos Tsunade-baa.

– Da última vez que você disse isto, soube que deixou a kunoichi que invadiu meu hospital para agredir um paciente, ir livremente para casa.

– Já disse. Acreditei que o tempo faria Gaara recobrar a razão. De qualquer forma teremos que esperar Sakura trazer Shikamaru de volta para proceder, não adianta queimar neurônios agora.

– Sim. Mas ficou claro para nós que Gaara não pode ter mais domínio sobre o país do fogo. Você vai ter que lidar com isto, Naruto.

– Na hora certa. Etto.. baa-chan você disse que Ino teve seu bebê em um procedimento de emergência, não deveria estar monitorando ela?

Ao ouvir o comentário de Naruto, Tsunade suspirou. A loira pegou de cima da mesa do Hokage um punhado de folhas que havia trazido consigo do hospital, separando uma em especial para entregar ao loiro.

– Mas que merda! – Foi a frase instintiva do loiro.

Palavras ditas sem a ênfase calorosa de Uzumaki Naruto, mas com pesar.

– Tsunade-hime. – Uma voz aguda surgiu entre os dois e uma pequena lesma escorregou pelo tecido do jaleco de Tsunade bolço acima. – Nós temos um problema.

– Ah eu preciso ir, Naruto. Até mais.

– Tsunade! – Chamou o loiro sem entender muita coisa. – Está tudo bem?

– Claro. Alguma ocorrência que exige minha perícia, nada fora da rotina. – Respondeu a mais velha saindo da sala.

Já longe o bastante para ter certeza que ninguém ao redor a ouviria, a loira voltou a conversar com a pequena informante:

– Me passe tudo o que lhe foi relatado pela lesma que está com Sakura. – Pediu.

.:.

– O nome da técnica é funeral do deserto. – A voz aguda de Ino disse à lesma.

– O nome é diferente da técnica cujo tratamento Tsunade já lidou. – Avisou a pequena lesma.

– Eu sei, mas ela é a grande sannin... se alguém pode encontrar um meio...

– Tsunade-hime disse que precisaria de tempo para encontrar um meio. Tempo que este jutsu claramente não nos dará.

– Droga Temari! Por que fez isso? – Explodiu em frustração.

Os olhos claros, reluzentes como vidro límpido não se moviam. A loira forte de rosto bonito se recusaria até seu último suspiro de desistir de procurar pelo castanho escuro dentro daqueles olhos azuis de mentira; encontrava-o nas feições. Podia ser Ino nas características, mas naquele momento ficou claro cada traço de feição e cacoetes singelos que faziam parte da personalidade de Shikamaru.

Gaara estava certo, não devia nunca entrar ali. Mas o caso do irmão era com Ino, Shikamaru era seu. Única e exclusivamente seu, e seria somente seu pelo tempo de uma vida. Nada e nem ninguém o tiraria de si.

Como queria que seus braços não estivessem soterrados, ele finalmente estava tão perto de si. Olhando em seus olhos da maneira como se lembrava com perfeição; com era seu em suas memórias. Queria também que o peso da areia sólida não estivesse levando embora todo o seu ar, respirar era difícil. Fazia Shikamaru ficar cada vez mais distante, uma imagem apagada em um túnel escuro.

Pelo menos havia o ar gélido que tanto lhe agradava. Sem se preocupar com a certeza de que seria seu último suspiro, respirou fundo tentando se apegar ao aroma do orvalho. Ah se fechasse os olhos agora com certeza se veria uma linda e verde floresta. Com o clima frio e úmido, sentindo o cheiro das pinhas se misturarem ao capim sob as grandes e belas araucárias.

Sem que percebesse, era exatamente onde estava. Recostada contra o tronco cascudo, sentindo com prazer o ar puro tomar conta de seu corpo. O clima ameno com um céu azul bem decorado com gordas nuvens e um veado solitário pastando nas sombras das grandes árvores. Gostava dali, era muito diferente do ar pesado e salgado do deserto.

Tão preso nos olhos vidrados Shikamaru sequer percebeu que Gaara havia encontrado um meio de burlar a barreira imposta por Yamato. Sem ligar para a pequena lesma que subia por sua roupa ou o aviso desta para que se afastassem dali o quanto antes.

Ao ver o corpo da irmã soterrado na areia, perdendo o último suspiro de vida, uma única e solitária lágrima deixou um dos olhos verdes claro, desceu pelo rosto de porcelana sem que Gaara demonstrasse senti-la e parou no limite de seu queixo por alguns segundos antes de ceder à força da gravidade e cair. A gota cristalina deixou de ser líquida em algum ponto de seu caminho em queda livre e tocou o chão como pequenos e finos grãos de areia clara.

Ao lado do corpo em inercia de Ino ou Shikamaru os dedos das mãos do Kazekage começaram a se desmanchar formando um pequeno monte de areia. Sem perceber a Yamanaka ficou no mesmo lugar, apenas sentada sobre as pernas atrás da cabeleira loira de Temari.

Seus olhos pareciam querer se fixar nos dela à força, deixando-os arregalados. Não se chora pela morte de um shinobi, muito menos um que morreu por você. A morte de um shinobi deve ser sempre honrosa, apenas com os bons feitos de sua vida em mente.

Temari era uma shinobi de bons feitos que em algum momento de sua vida se perdeu. Naquele momento Shikamaru preferiu silenciar a parte de sua cabeça que acusava aquela bela mulher de expressões fortes por seus erros. Não fecharia seus olhos até que os dela se fechassem primeiro, mesmo que soubesse que já não havia mais vida naquele corpo e que seus olhos deveriam ser fechados.

– Shikamaru! – A voz de Sakura lhe soou longe com urgência, mas não deu bola.

Sem que percebesse ao seu lado já havia uma versão em tamanho de Gaara do mostro que já não habitava o ruivo; Shukaku.

O susto por ter seu corpo puxado para longe o fez fechar os olhos por meio segundo e quando os abriu novamente pode vislumbrar toda a areia se unir novamente formando uma versão menos e mais pomposa jutsu chamado pelo ruivo de funeral imperial sobre o corpo de Temari. Não sabia dizer o que acontecia dentro da pirâmide de areia, Gaara não era visto no local.

– Vamos sair daqui! – Anunciou Sakura ainda com seu braço em torno do corpo de Ino. – Nós temos que sair daqui, não podemos atacar o Kazekage. – Avisou sem deixar de conduzir Shikamaru em momento algum.

– O Iwa... – Murmurou ao não conseguir localizar Deidara dentro da sala.

– Shh.. Sai e Yamato não sabem o motivo para você ter vindo para cá.

– Shikamaru? – Sai se aproximou com Yamato.

– Hn.. – A loira assentiu com a cabeça.

– Pode andar? – Perguntou Yamato.

– Posso. – Respondeu o moreno se concentrando no fuuin que o mantinha com a fisionomia de Ino para desfazê-lo ao mesmo tempo em que soltava os cabelos para se livrar dos fios aloirados que lhe garantiam a assinatura de chakra dela.

– Me deixe dar uma olhada em você. – Anunciou a rosada.

– Sakura, a morte de Temari não vai nos acarretar problemas?

– Foi Gaara quem a matou, mas não é possível prever como ele vai interpretar isso. Nós vamos voltar e concluir nossa missão, a parte diplomática fica por conta do Hokage.

– Hn. Concordou Sai trazendo algemas na direção de Shikamaru.

– O que você está fazendo? – Quis saber o Nara sem entender.

– Nara Shikamaru, você deixou Konoha sem a permissão do Hokage para uma missão pessoal de vingança. Nós fomos enviados para levar você de volta, Sai irá algemá-lo como determina o procedimento. – Sakura disse de forma autoritária.

Shikamaru queria questionar cada palavra dita pela rosada, mas seu campo de visão foi tomado pelos guardas de Suna que ao conseguirem finalmente invadir o local, ficaram divididos entre tentar entender o que aquele grupo de Konoha estava fazendo ali e a cena mais ao fundo da sala. Finalmente ao ver Sai algemando um dos seus o líder daquele grupo se adiantou até os seus conterrâneos e líderes.

– Desculpem-nos por qualquer mal entendido. Esta é uma explicação junto com um pedido formal de desculpas do Hokage para o Kazekage sobre esta missão não autorizada pela vila da folha. – Disse Sakura educadamente.

– Temari-sama está morta. Concordo que ele deva ser preso, mas aqui.

– Shikamaru é de Konoha e o preço por suas escolhas será pago lá. Olhe em volta, só há areia em torno de Temari, não foi nenhum de nós que a matou. – Disse a rosada. – A perda de Sabaku Temari é lastimável, tenho certeza que meu Hokage em pessoa virá prestar seus sentimentos pela grande perda de Suna. Mas eu vim até aqui com uma missão definida e irei concluí-la.

Naquele momento outro soldado se aproximou e cochichou algo próximo de sua orelha. Olhou rapidamente para a ninja de cabelos cor de rosa antes de recuar e por sua expressão, Sakura achou que ele tinha dito algo ao companheiro que condizia com sua explanação.

– Suna estará em luto por seu mais destemido general. Quando o luto passar o Kazekage nos conduzirá, se descobrir que mentiu medi-nin de Konoha, eu mesmo irei vingar a morte de nossa líder de batalhas. – Foi o que ele disse, e em silêncio a Haruno apenas concordou com uma reverência completa.

– Vamos logo. – Cochichou para o pequeno grupo, e foi seguida pelos três.

Correram. Mas nem mesmo a pressa de Sakura e a confusão que se instaurou no cenário que eles rapidamente iam deixando para trás foi capaz de levar as dúvidas da cabeça de Shikamaru.

A forma estranha com que Sakura estava falando, sem citar Ino e nem Deidara em nenhum momento. Deidara. Tinha ido até ali em uma promessa muda feita para Ino, mas Deidara tinha desaparecido.

– Sakura para onde você levou... – Ele começou, mas a rosada apenas lhe lançou um olhar mudo para que se calasse.

– Mais rápido. Tivemos sorte de eles terem preferido nos deixar ir no período de luto deles, Gaara ainda pode recobrar a consciência e mudar de ideia.

Foi somente quando já estavam longe o bastante de Suna que Sai fez novamente seus grandes pássaros de desenho para seguirem viagem. Um para si, outro para Yamato e outro para Sakura. O prisioneiro teve a liberdade de escolher com quem iria e subiu no pássaro de Sakura dois passos depois dela.

– Voe alto e rápido, Sai. – Ordenou Sakura.

– Será que agora você pode me dar algumas respostas? – Shikamaru perguntou enquanto subiam alto.

Em silêncio a rosada apenas fez que não com a cabeça e indicou o pássaro sob seus pés. Com certeza querendo relembrar que os desenhos de Sai eram constantemente usados para investigação, e a melhor forma de garantirem que estariam realmente safos era definitivamente ninguém saber da verdade por trãs daquele resgate disfarçado de missão.

– Eu fiquei tão preocupada com você. – Foi o que ela disse em resposta, não era uma mentira.

A preocupação foi o que fez com que ela usasse as armas que tinha e os meios que estavam abertos aos seus pés para poder ir até onde Shikamaru estava. E sem mais palavras apenas se aproximou do moreno com a clara intenção de tomar-lhe os lábios em um beijo que foi rapidamente correspondido.

Com o tempo havia aprendido a decifrar o Nara, sabia de todas as dúvidas que estavam explodindo em sua cabeça. Mas duas versões de uma mesma história para que suas vidas mudassem de forma drástica, então para si era claro que apenas sua versão ensaiada deveria ser levada à frente.

Era difícil colocar na figura gentil e benevolente de Naruto a imagem alguém que não perdoasse, mas acobertar a traição de Ino seria arriscar demais. Seguia em frente crente que o loiro pegaria leve com Shikamaru sabendo apenas do histórico completo das agressões sofridas por Ino e o tal desejo de fazer justiça com as próprias mãos de Shikamaru.

Quando discutiu com Ino e se viu obrigada a pedir por aquela missão para Tsunade, Sakura ainda não podia compreender os motivos de Shikamaru. Compreendia o elo fraternal que o namorado tinha pela florista, mas aquilo já era demais; sair daquele jeito despreparado tendo com base apenas um sonho e as lágrimas de Ino.

Compreendeu quando viu o tal Akatsuki. Ela foi uma das ninjas que enfrentou Deidara em socorro à Suna, lembrava-se daquele homem no auge de sua glória. Temido; o tal capaz derrotar alguém que julgava imbatível.

O homem magro e desfalecido que encontrou no chão daquela sala, coberto de sangue seco e feridas abertas entupidas de areia não lembrava em nada aquele homem do passado. Sinceramente, não estava em si ter pena de um Akatsuki. Secretamente, Sakura já havia se convencido que se não fosse Gaara e sim Konoha que o tivesse pegado, talvez fosse coagida a não ver aquela cena com maus olhos.

Se não fosse tamanha loucura de Gaara e o nível de suas torturas ou o tempo que aquele homem já estivesse sendo feito de brinquedo, veria apenas o Akatsuki e não o ser humano. Como era sua missão.

E foi revoltante para si constatar tal certeza. Se não fosse seu inimigo que estivesse torturando e brincando com o corpo fraco e incapaz, não teria dado tempo suficiente para o loiro se quer mover seus lábios na primeira vez em que os pulmões vazios tentaram em vão chamar desesperadamente pelo nome de Ino.

Se não fosse a distração de Temari não teria lhe dado este tempo nem mesmo ali.

Era sua missão. Shikamaru tinha que entender que fez o que pode dentro do que era melhor para ele. Shikamaru foi o auge de suas escolhas mais difíceis em cada momento desde que ele assumiu um filho que não era seu. Desde que descobriram que a identidade do pai daquela criança deveria ser mantida tão secretamente que melhor seria se fosse apagada.

Shikamaru teria que entender de alguma forma. E ela torcia sofridamente que após entender, ele aceitasse. Com este pensamento finalizou o beijo morno com a omissão de suas lágrimas, era a kunoichi mais forte da aldeia e não fraquejaria agora.

– Eu amo você. – Disse baixo assim que as bocas se separaram, deixando para trás um pequeno e imperceptível selo sobre a superfície na língua no moreno.

A sua tinha que ser a única e verdadeira história. Shikamaru teria que entender.

Notas: Fazendo isso enquanto escrevo então:

- Eu muito ruim de luta, principalmente com Shikamaru. Desculpem-me por isto.

- Até porque eu faria o Gaara vencer isto em dois segundos.

- Considerem que Shikamaru está debilitado fisicamente e com certeza mais fraco do que estaria em condições normais. Deidara aí no meio do circo só pra atrapalhar, se ele não estivesse ali eu meio que já tinha achado um jeito do Shika achar que poderia ganhar, mas não adiante todos os meus planos terminam com "e o Gaara a funda a bosta toda na areia; fim" mas enfim...

- Sim. Na minha cabeça o único meio de 'parar Gaara era esse' e sim o fim da Tema é a morte e do Gaara não. Ponto.

- Fiquei com medo de usar o jutsu Shin Kage Kuri, pois ele só existe no jogo. E é tipo... a sombra do Shika se modifica vi até o adversário fica uma mão bem grande e esmaga o pescoço do adversário. E já que o jutsu mais ofensivo do Shika já foi usado para vingar a morte do Asuma eu achei que seria legal incluir este já que o princípio é o mesmo de sombra se modificando e tals... sei lá.

- Ah por falar nisso eu acho bem legal a relação entre a forma como Deidara domina a argila e Gaara a areia, e os movimentos de mão para controle da areia e da sombra serem bem parecidos. Não foi intencional, mas eu achei legal.