Cisne & Fênix – A Série
Capítulo 21: Tão perto; tão longe...
2 meses depois...
Acordei sentindo um cheiro gostoso vindo da cozinha. Espreguicei-me vagarosamente, terminando de despertar. Abri os olhos e senti a brisa suave da manhã entrando pela janela, balançando suavemente as cortinas. Sorrio ao me recordar da discussão sobre a necessidade ou não de colocar cortinas ali, mas Hyoga acabou me convencendo de que ficariam bem e deixariam meu quarto com um aspecto mais agradável e acolhedor. E ele estava certo; aliás, como sempre. Discussões parecidas ocorreram em relação a tapetes, almofadas, plantas e uma porção de outras coisas que, ao longo desses cinco meses, o loiro vinha comprando para decorar o meu apartamento. Era engraçado e divertido, pois a verdade era que eu sempre buscava discutir quando ele decidia comprar algo porque, em primeiro lugar... discutir com o pato era sempre uma diversão à parte. E, em segundo lugar, porque eu simplesmente adorava vê-lo argumentando sobre os mil e um motivos para eu adquirir determinado objeto de decoração para a minha sala. Eu achava graça de vê-lo assim. Hyoga ficava simplesmente adorável quando queria comprar algo para mim e ele vinha querendo comprar coisas para minha casa com frequência. Por sinal, ele vinha se preocupando em decorar mais o meu espaço que o dele.
Fazia sentido, se eu parasse pra pensar. O russo passava cada vez mais tempo comigo e meu apartamento tinha se tornado o nosso lugar, o lugar onde podíamos nos refugiar do mundo. Felizmente, o fato de eu ser uma pessoa isolada e deixar claro para todos o quanto odeio ser incomodado fez com que este lugar fosse realmente nosso recanto de paz, já que, aqui, nunca somos perturbados.
E precisávamos disso, porque, lá fora, a nossa realidade era bem diferente. Em frente às pessoas que conhecíamos, tínhamos que esconder o que se passava. Para essas pessoas, continuávamos sendo o Ikki e o Hyoga que se odiavam, que não podiam suportar muito tempo perto um do outro, que logo começavam a brigar...
Aliás, Shun é uma das pessoas para quem tem sido mais difícil esconder o que acontece entre nós dois. Sendo meu irmão e muito amigo de Hyoga, ele nos conhece bem o suficiente para saber que algo está errado. Por isso mesmo, tanto eu quanto o loiro acabamos nos distanciando um pouco dele. Quanto menor nosso contato com Shun, menor a probabilidade de ele descobrir o que se passa. É chato, eu reconheço. Mas não há muito o que fazer. Contar a ele a verdade? Não, isso está fora de cogitação. Primeiro, porque não queremos que esse segredo vire um fardo para também ele carregar... e, depois, ambos sabemos que Shun reprovaria nosso modo de agir. E já nos bastava que a nossa própria consciência se fizesse notar, vez ou outra, acusando-nos de atitudes erradas. Não precisávamos de mais alguém nos dizendo isso.
Meu irmão ficou, durante algum tempo, pensando que eu estava fugindo de uma conversa por conta do ocorrido na sua Paint Party. Por isso, quando ele cansou de esperar que eu fosse atrás dele para nos entendermos a respeito daquele dia, Shun decidiu aparecer de surpresa em meu apartamento, em um dia que, ainda bem, Hyoga não estava. Não saberia explicar a presença do loiro ali. De toda forma, Shun me encontrou muito bem, feliz e com um apartamento decorado de um modo como ele nunca imaginou ver. Eu disse que estava pegando dicas com colegas de trabalho, mas o meu irmão fez brincadeiras maliciosas a respeito desses colegas. Na cabeça dele, estou saindo com alguém. Foi a única explicação que ele encontrou para tantas mudanças em meu comportamento, que ele percebeu no simples ato de olhar para mim e para minha casa.
Não neguei nem confirmei. Até porque, ele estava mesmo certo. Em parte, claro. Eu não estava saindo com ninguém do meu trabalho. Mas todas as mudanças percebidas por ele foram causadas por uma pessoa, sim. Porém, Shun ainda não podia saber que essa pessoa era o Hyoga.
Quanto ao loiro, o afastamento entre eles foi justificado por Hyoga como sendo por conta de muito trabalho acumulado. Pior desculpa não existe, mas Shun não insistiu em busca de outro argumento, porque o meu irmão julgou que o culpado por isso fosse Isaac. Shun me confidenciou isso e eu não disse nada para tirar essa ideia de sua cabeça. Ora, o que eu iria falar para ele? Que não tinha nada a ver com o finlandês? Que, na verdade, Hyoga estava afastado porque tinha pouco tempo livre, já que trabalhava, cuidava do Isaac e todo o resto de seu tempo passava comigo?
Aliás, é preciso que se diga... eu não fico com o resto do tempo dele. Pelo contrário; sinto-me como uma prioridade em sua vida. Até dois meses atrás, sei que reclamava bastante e, por vezes, discutia com o loiro alegando que eu era uma sobra em sua vida, apesar de saber bem o quanto o russo se matava para nunca me fazer sentir assim. Mas é que nossos três primeiros meses foram difíceis. Eu amo Hyoga, eu o amo tanto que chega a doer e nunca tive dúvidas quanto a isso. Talvez, por isso mesmo, o meu sofrimento estivesse no mesmo nível do amor que eu sentia por ele. Não foram poucas as vezes em que o loiro teve de me abandonar para ir socorrer Isaac. O finlandês estava sempre fazendo alguma besteira, bebendo demais, se drogando demais... e, quando a coisa ficava feia, ele sempre ligava para Hyoga, pedindo que fosse ajudá-lo, ou buscando-o na casa de um amigo, ou levando-o para o hospital, ou até mesmo indo pagar a fiança para tirá-lo da cadeia. Isso me revoltava. Enquanto eu buscava, o tempo inteiro, fazer o certo para que o loiro nunca me abandonasse, como se eu precisasse provar para ele, todo o tempo, que estar comigo valia a pena... Aquele maldito ex-marina só fazia merda e tinha Hyoga em seu encalço todo o tempo. Sim, eu compreendia... era justamente por conta dessas atitudes auto-destrutivas que o russo precisava ficar com Isaac. Racionalmente, eu compreendia. Mas era difícil aceitar e, hoje, percebo como nossa relação vinha se desgastando com isso. É verdade, nos três meses iniciais, eu vivi uma verdadeira montanha-russa. Eu amava e era feliz, ao mesmo tempo em que me sentia miserável.
Todavia, Hyoga percebeu e, uma vez mais, deu provas de que eu era a prioridade em sua vida. Depois que tivemos aquela conversa séria no bar, o loiro decidiu que daria um basta em algumas coisas. Até então, ele estivera tentando respeitar o ritmo de Isaac, tentando fazê-lo ver que precisava do tratamento, tentando com isso que o próprio finlandês fosse atrás do que seria melhor para ele mesmo. Mas Isaac parecia se recusar a melhorar. Nessa hora, Hyoga deixou claro o quanto se preocupava comigo. Temendo que eu me sentisse cada vez pior, ele colocou Isaac contra a parede e, até onde sei, eles tiveram uma conversa tão séria que Isaac finalmente compreendeu que precisava mudar. E, incrivelmente, ele mudou. Claro que não inteiramente; ele continuava saindo com aqueles amigos idiotas e fazendo idiotices, mas em menor quantidade. E o simples fato de ele aceitar dar início a um tratamento novo que Hyoga tinha buscado para ele foi uma vitória. Mas o que fez mesmo a diferença é que o Isaac parou de chamar o russo a cada besteira cometida. Ele parou de pedir que Hyoga fosse sempre arrumar seus erros. Porque nós sabíamos que ele continuava fazendo coisas que o loiro reprovava, porém, ao menos, ele se virava quando se metia em encrenca. Isso rendeu a mim e ao meu Cisne um tempo muito maior. Agora, nem sempre Hyoga precisava sair para socorrer o outro. E, como se tempo ainda nos fosse muito escasso, o loiro decidiu que, podendo trabalhar em casa, ele opta, sempre que possível, em vir trabalhar aqui no meu apartamento. Às vezes, estamos ambos muito ocupados; ele construindo algum site e eu revelando minhas fotos. Mas ficamos os dois no meu apartamento e o simples ato de nos cruzarmos no corredor, ou de pararmos quinze minutos para tomarmos um café juntos é o suficiente para nos sentirmos bem.
De todo modo, permito que meu irmão fique pensando o que quiser de Isaac. Não é como se uma grande injustiça estivesse sendo feita. O ex-marina não é a pessoa mais agradável do mundo e não soube ganhar simpatias para si. Se ele fosse uma pessoa melhor, Shun e os outros não pensariam logo de cara as piores coisas dele. Enfim, a culpa é toda do finlandês...
Ah, a quem eu quero enganar... no fundo, sei que talvez eu devesse esclarecer algumas coisas para Shun. Mas não quero. Minha relação com Hyoga ainda não é tão fácil de se levar e ter de esconder tanta coisa me revolta. Compreendo os motivos do russo para continuar com aquele cara. Entretanto, não consigo deixar de sentir algum ciúme toda vez que vejo o loiro saindo do meu apartamento para encontrar Isaac. Porque, afinal, isso continua acontecendo, mesmo que em menor quantidade. Afinal, eles ainda são namorados.
Sim; eu sei muito bem que Hyoga me ama e que os sentimentos dele pelo ex-marina são muito mais de amizade. Sei que eu não precisaria sentir ciúme ou inveja, mas... ainda assim... é difícil controlar. Eu pensava que minha necessidade de estar com esse loiro, com o tempo, fosse diminuir ou, ao menos, ser mais fácil de controlar. Todavia, o contrário é que acontece. Cada vez mais, eu quero esse pato perto de mim. E uma raiva irracional se apossa de mim toda vez que o russo precisa me abandonar para estar com ele.
Nesses cinco meses, nossa relação não foi sempre um mar de rosas. Discutimos várias vezes, sempre por causa do meu ciúme. Às vezes, eu explodia... Oras, não sou de ferro. E também, por conta do meu jeito impulsivo de ser, acabava fazendo besteiras. Não foram poucas as vezes em que Esmeralda foi usada como forma de eu fazer ciúmes no loiro também. Ridículo, eu sei. Até porque a minha amiga não merece esse tratamento. Se bem que ela sempre vem atrás de mim, possibilitando-me formas variadas de eu provocar ciúmes no loiro... Aí, eu acabo cedendo e fazendo um jogo do qual sempre me arrependo muito no final.
De todo modo, mesmo que aos trancos e barrancos... estamos seguindo e eu sinto que nossa relação vai se fortalecendo cada vez mais. Por isso, não posso evitar de despertar com um enorme sorriso estampado no rosto. Sinto o aroma delicioso que vem da cozinha, chamando-me para me juntar ao loiro, que, para variar, deve ter preparado um maravilhoso desjejum; essa é a forma como ele costuma me despertar aos sábados...
Levanto-me, vou até o banheiro fazer minha higiene pessoal e sigo para a cozinha, vestindo uma calça de algodão preta e uma camiseta cinza. Encontro o loiro virando panquecas no ar e sorrio: - Exibindo-se logo cedo, pato? – vou até a geladeira e pego uma caixa de suco de laranja, virando-a diretamente na boca, apesar de saber que o russo detesta quando faço isso.
- Estou inspirado hoje. Você dormiu bem? - viro-me para Ikki e logo lanço-lhe um olhar de repreensão. - Quer um copo? - pergunto sarcasticamente.
- Eu dormi muito bem. E não preciso de um copo, não. - sorrio, fazendo-me de desentendido. Aproximo-me dele, coloco a caixa de suco sobre o balcão e o abraço pelas costas, enlaçando sua cintura e dando um beijo em seu pescoço: - Você acordou cedo demais hoje. Pensei que ontem eu tivesse conseguido te cansar. - falo, próximo de seu ouvido e dando uma mordida de leve em sua orelha. Ele vira seu rosto para mim, roubo um beijo rápido de sua boca e pego uma das panquecas que ele já tinha preparado, que estava em uma pilha sobre um prato, perto do fogão. Enrolo-a e começo a comer, sentando-me de volta ao balcão, bebendo um gole de suco em seguida.
- Nunca estou tão cansado, a ponto de não te fazer um café da manhã especial. Ainda mais depois de uma noite maravilhosa... - respondo cheio de malícia. Termino de preparar as panquecas e levo o prato para a mesa, juntamente com um pouco de calda de chocolate. - Hmm, eu quero fazer um brinde. - disse, erguendo o copo de suco.
- Brinde? - sigo até a mesa com ele e me sento à sua frente. - Bom, tudo bem... posso brindar com a caixa mesmo? - provoco, de leve.
- Não, desta vez você vai usar o copo, frango! É importante... - minha empolgação é tanta, que eu mesmo pego um copo no armário, encho de suco e entrego a ele, voltando a me sentar logo depois. - Bom, eu sei que esses meses não têm sido fáceis pra você, e garanto que também não foram pra mim, muito menos para o Isaac. Eu nunca me imaginei numa posição dessas e, embora não me arrependa, minha consciência não me deu sossego durante este tempo. - mantenho o copo erguido e meus olhos presos aos de Ikki. - Você sabe que não foi fácil convencer o Isaac a fazer o tratamento. Foi preciso aquele ultimato que, felizmente, pareceu funcionar bem. Mas isto não é o mais importante. O importante é que o médico disse que a cura dele está próxima. Em menos de um mês, o Isaac poderá ter uma vida sexual normal, como antes. Ele me ligou hoje cedo, depois da consulta. Ele está tão empolgado, Ikki. O problema dele está sendo resolvido, e acho que ele conseguirá voltar a ser o Isaac de antigamente... Você sabe o que isto significa?
Eram tantas informações aparecendo de uma vez que eu sentia alguma dificuldade para absorver tudo. Eu segurava o copo com o suco, mas não me movia. Pisquei os olhos algumas vezes, finalmente, e saí do meu estado de torpor: - Isso... Isso quer dizer que você... e o Isaac... quer dizer que... - eu gaguejava e não conseguia terminar a frase. Eu sabia muito bem o que aquilo poderia significar. Era simplesmente o que eu mais desejei em todos esses meses, em que tivemos de manter a nossa relação em segredo! Era claro que eu sabia o que aquilo poderia significar, mas estava receoso de estar entendendo errado e eu não queria sonhar alto demais, para logo depois sofrer uma terrível queda. - Por favor, Hyoga. Me diz você o que isso significa, porque eu tenho medo de estar me iludindo agora... - consigo soltar, com a voz tensa.
- A nossa liberdade, frango! É isto o que significa. Não precisaremos nos esconder mais, ou nos sentirmos culpados, porque eu vou terminar com o Isaac. Ele está bem agora, já pode caminhar com as próprias pernas. Eu o convenci a se tratar, permaneci ao seu lado durante o tratamento... Agora eu sou todo seu. Somente seu. Então eu quero brindar à nossa felicidade. Quero brindar aos momentos lindos que estão por vir...
Coloquei meu copo sobre a mesa e me recostei mais à cadeira. Apoiei as duas mãos na mesa, como se me sentisse atordoado, e olhei para baixo, quebrando o forte contato visual que vinha tendo com o loiro. - Repete isso. - falei, com a voz trêmula. - Repete, por favor. - Levanto o rosto e meus olhos escuros demonstram o quanto eu ainda não consigo acreditar. Quanto tempo eu esperei por essa frase! Hyoga talvez não perceba e talvez ele nunca saiba, mas em momentos de desespero, cheguei a pensar que essa frase jamais fosse ser proferida por ele. "Vou terminar com o Isaac"... Tão simples e, ainda assim, sempre me pareceu a frase mais distante e inalcançável. E como eu quis ouvi-la ao longo desses meses... Contudo, descubro agora que existem palavras que são capazes de me agradar ainda mais. E eu quero ouvi-las de novo. Quero me certificar que não estou sonhando: - Fala de novo, Hyoga... Diz que você vai ser todo meu a partir de agora. - eu me levanto da minha cadeira e paro de frente para ele, que continua sentado.
Sorrio, também emocionado com o momento. Acaricio a face de Ikki e, olhando em seus olhos, digo o que ele tanto quer ouvir. - Eu sou todo seu, a partir de agora. Você não terá mais que me esperar, nem fingir ou esconder o que sente. Eu sou apenas seu, Ikki.
Acabo me ajoelhando ao seu lado, abraçando sua cintura com força. Era como se meu corpo desfalecesse diante de um baque tão forte que deixasse minhas pernas sem forças para me manter em pé. Escondo meu rosto em seu peito e não consigo dizer uma palavra. Sinto que algumas lágrimas silenciosas escaparam dos meus olhos e me sinto embaraçado... mas não pude evitá-las. Eram lágrimas de alívio, de felicidade, que choravam as tristezas que passaram, as alegrias que se anunciavam... era o alívio de podermos, enfim, nos livrar daquele fardo que se fazia pesado demais e que eu carregava com cada vez mais desespero, porque, em tantos momentos, eu senti que não conseguiria suportar mais aquilo. O único motivo que me fez aguentar foi o fato de amar esse loiro com uma intensidade tão grande que, mesmo sem compreender, eu me via sendo capaz de fazer o impossível, só para continuar ao lado dele. E creio que estaria disposto a continuar com isso pelo resto da vida, porque, por mais terrível que fosse... meu amor por ele parecia tornar tudo suportável, ainda que no limite. Entretanto, Hyoga vinha agora me dizer que esse período tinha findado? Que poderíamos estar juntos, simplesmente? Sem ter de esconder, sem ter de sentir culpa? Era tão bom que eu precisava de alguns segundos para assimilar que a felicidade finalmente batia à minha porta. Não havia armadilhas agora. Eu poderia ser feliz; simples assim. E nunca imaginei o quanto isso pudesse ser bom...
Agarrado à cintura de Hyoga, sento sobre meus calcanhares e me mantenho em silêncio assim. Meu rosto permanece mergulhado em seu peito e abafava aquelas lágrimas quentes. Eu sentia que o mundo podia acabar agora e eu me diria a pessoa mais feliz sobre a face da Terra...
Apesar do momento tão doce, meu coração se aperta quando percebo o choro dele. Agora eu vejo, ainda mais claramente, o quanto a nossa situação era dolorosa para Ikki, quão difícil era permanecer ao meu lado como um mero amante, mesmo que eu tenha me esforçado para ser presente e amoroso por todo o tempo. Ergo sua cabeça e enxugo suas lágrimas com os dedos, sorrindo durante todo o tempo. - Sinto muito, eu não sabia que estava te fazendo tão mal... - sou sincero, e logo noto que meus olhos estão marejados. - Mas agora eu vou te recompensar, vou ser o melhor namorado do mundo, Ikki!
- Não, você não precisa pedir desculpas por nada. - sacudo a cabeça de leve, secando rápido os meus olhos. Não quero mostrar tanta fragilidade, ainda mais no momento em que o loiro finalmente diz que eu sou o único homem com quem ele ficará agora. - Você já fez muito por mim nesses últimos meses. Eu não posso me queixar de nada. - essa parte foi visivelmente uma mentira e o próprio Hyoga sabia disso, já que, por vezes, eu me queixei de não poder ficar com ele como queria. Contudo, era verdade que os últimos meses, com todos os pesares, foram os melhores da minha vida. - E a melhor recompensa que eu poderia ganhar, você acabou de me dar. - sorrio amplamente e então vejo uma lágrima escorrer pelo rosto dele. Colho essa lágrima com a ponta do dedo e faço uma carícia em sua face: - Não, por favor, pato... Não chora. Desculpa, eu não queria ter tido essa reação. - levanto-me e o abraço. - Não devíamos estar chorando, certo? Esse dia começou tão bem... - fico parado assim, acariciando os cabelos dele, por alguns segundos, em silêncio. E então, pergunto o que estava ansioso para saber:
- E... quando pretende falar com Isaac? - pergunto apreensivo.
- Agora à tarde. Eu só espero que ele não surte. Sabe, não é como se ele não percebesse que há algo errado. Não acho que será uma surpresa tão grande assim... Torço para que não seja. Ainda não sei se jogo todas as cartas na mesa, tenho muito medo de como ele vai reagir ao saber da gente... - confesso, tentando esboçar um sorriso.
Eu volto a me sentar na cadeira e seguro sua mão entre as minhas. Isaac realmente tem um gênio difícil e um pouco imprevisível. Complicado saber como ele irá reagir... - Então você pretende contar da gente? - isso me faz sorrir de leve. Não queria que começássemos já escondendo de Isaac o fato de termos um passado. Ao mesmo tempo, eu me sinto tão apreensivo quanto Hyoga. - Eu posso ir junto? Quando você for falar com o Isaac? Não quero que enfrente isso sozinho. - aperto um pouco sua mão.
- Ele tem o direito de saber tudo, Ikki. E também não tenho qualquer intenção de esconder você, nem do Isaac e nem de ninguém. - retribuo o sorriso. - Mas eu acho que a sua presença tornaria tudo pior. O Isaac veria isso como uma afronta, e nem sei o que seria capaz de fazer. Eu vou, converso com ele, e volto correndo pra cá, pode ser?
Compreendo o pedido dele. Faz sentido; se eu for, Isaac pode achar que o estou provocando, debochando dele... e isso só pioraria tudo. Entretanto, sinto um aperto no peito. Realmente, não queria o loiro enfrentando isso sozinho. Mas vou ter de acatar ao pedido dele. E digo para mim mesmo que será só dessa vez. Depois, todo o resto, enfrentaremos lado a lado. As reprovações, os olhares atravessados... não me importo. Com o loiro ao meu lado, eu enfrento o inferno de novo. - Está bem. - falo em um tom resignado. - Mas você vai realmente voltar correndo pra cá, assim que terminar de falar com ele. - olho de forma firme para o russo. E então, pego algumas panquecas e coloco em meu prato, jogando a calda de chocolate por cima. - Que horas você pretende ir lá falar com ele? - por mais que tente, não consigo não ficar ansioso.
- Vou passar no trabalho dele, depois do almoço. - quando penso na conversa que terei com Isaac, perco completamente o apetite. A apreensão começa a tomar conta de mim, embora tente não demonstrar, para não deixar Ikki preocupado. A reação de Isaac não será das melhores, não restam dúvidas disso, e eu só espero que possa lidar com ele da melhor forma possível. Afasto meu prato, desistindo de me forçar a comer as panquecas. Separo uma mecha do meu cabelo e a enrolo entre os dedos, distraído.
- Ei. - sorrio para ele. - Vai dar tudo certo. Não precisa ficar nervoso. - procuro usar o tom de voz mais tranquilo que me é possível, buscando assim acalmar o loiro. Vejo que ele me olha curioso. - Sempre que fica nervoso, você começa a mexer assim no seu cabelo. Nada contra, você fica lindo desse jeito. Mas não quero que fique nervoso, pato. - olho para as panquecas no prato dele. - Perdeu a fome?
- É, acho que não vou conseguir comer nada até resolver isto. - tento sorrir novamente. - Como acha que vai ser, depois que assumirmos pra todo mundo?
Percebo que o loiro está muito mais tenso que o normal. E, tendo em vista que essa conversa será muito difícil, não quero ficar antecipando problemas. Deixo meus talheres sobre o prato e me levanto da cadeira, pegando o russo pela mão. - Vem comigo. - eu o guio até em frente à parede da minha sala que, há cinco meses, tem sua pintura inacabada. Foi algo interessante... sempre que encontrávamos um tempo, pintávamos um pouco... não tínhamos pressa para terminar. Quando começamos essa nossa estranha relação, pra valer, foi quando começamos a pintura... E, de certa forma, tê-la inacabada era uma estranha forma de manter nosso compromisso de continuar o que tínhamos. Sempre quando brigávamos, ou sentíamos medo de que não conseguíssemos levar nosso sentimento adiante... Sempre que isso ocorria, a forma como costumávamos fazer as pazes, o modo como encontrávamos de simplesmente dizer um ao outro que seguiríamos em frente, não importasse o que viesse... era quando fazíamos a simples pergunta: "Vamos continuar a pintura hoje?" ou "Vamos pintar a parede mais tarde?". De algum modo, isso ganhou um significado muito além para nós dois.
Entretanto... hoje, não precisaríamos mais ter medo. A partir de agora, não haverá mais o que esconder, nossa relação se transformará enfim em um namoro de verdade e não será preciso que a gente se esconda; não mais. A estranha relação chegava ao fim e uma nova, ainda mais forte, começará. Por isso, acho que finalmente havia chegado a hora de dizer: - Vamos terminar de pintar a minha parede, pato. – eu falo, já entregando um pincel a ele. – À noite, depois que você voltar, vamos sentar no chão e apreciar nossa pintura... e brindar devidamente a uma nova fase das nossas vidas. – eu sorrio, tentando mostrar uma imensa segurança nessas palavras. - Aliás, como você está sem fome agora, pode deixar que vou preparar um jantar incrível para hoje à noite. – rio ao perceber sua expressão incrédula diante desse anúncio. – Ora, russo... alguma coisa eu tinha que aprender com você durante esses meses. – brinco, tentando melhorar a tensão que paira no ar.
As palavras dele e o significado deste nosso momento me acalmam imediatamente. Sinto-me seguro o suficiente para pensar que tudo ficará bem e que esta noite eu estarei com Ikki sem o peso da culpa em meus ombros. Sorrio para ele e aceito o pincel, voltando-me para a pintura inacabada. Passamos o restante da manhã pintando a parede e finalmente terminamos. Depois do almoço, já de banho tomado e pronto para sair, encontro Ikki sentado no sofá, esperando que eu saísse do banheiro. - Eu já estou indo, frango.
Aperto o botão "mute" da TV e olho para o loiro. Estava lindo, como sempre. Mas hoje, eu não precisaria ficar enciumado. Levanto-me até ele e sorrio, tentando acalmar em mim mesmo as batidas descompassadas do meu coração. Deito um beijo suave em seus lábios e não digo nada. Não sei o que dizer. Estamos nervosos, ambos, e as palavras parecem não surgir agora. Por isso, em uma despedida muda, são meus olhos que dizem o quanto eu o amo.
Sorrio, e também não pronuncio palavra alguma. Saio de seu apartamento com aqueles olhos amorosos em minha mente, mas, a cada passo que dou, meu coração se aperta mais. Entro no elevador com aquela angústia crescente em meu peito, uma sensação de tristeza repentina, muito maior do que em todas as vezes que me despeço de Ikki. Quando o elevador chega ao térreo, eu sinto vontade de chorar e a dor em meu peito aumenta, como se eu não fosse voltar mais ali. Neste momento, eu sei que preciso vê-lo novamente. Não sei explicar de onde vem a sensação, apenas sei que tenho de voltar lá. E, sem ignorar meus instintos, eu volto. Subo novamente e abro a porta do apartamento de Ikki afobadamente, procurando por ele. Ainda no sofá, ele me olha com espanto, mas eu não espero que me pergunte absolutamente nada. Ajoelho-me em sua frente e tomo sua boca num beijo necessitado, que dura longos minutos. Assim que nos afastamos, eu suplico, ofegante: - Diz até logo. Por favor, diz que a gente vai se ver logo, meu amor.
Fico inicialmente sem reação, mas os olhos suplicantes de Hyoga me fazem responder imediatamente ao seu pedido: - Até logo. - eu sorrio, e acaricio seu rosto. - A gente vai se ver logo. Muito antes do que você imagina. - volto a beijá-lo, tentando acalmá-lo com esse gesto. Pareço ter cumprido meu objetivo, porque depois de alguns minutos assim ele finalmente se levanta e, lançando-me um último olhar da porta, ele parte.
No trabalho de Isaac, não demorei a avistá-lo, trabalhando num carro com o capô levantado. Aproximei-me e o chamei, logo depois de cumprimentar os poucos rostos conhecidos que havia ali. - Isaac?
- Hyoga? - ele fecha o capô do carro e faz uma expressão desconfiada. - Que surpresa ver você aqui. Aconteceu alguma coisa? - Isaac se aproxima, limpando as mãos em um pano.
- Eu preciso conversar com você... Está ocupado? - digo seriamente.
- Estava, mas já que você veio até aqui, eu faço um intervalo. - vejo-o fazendo um sinal para algumas pessoas e logo nos encaminhamos para fora da oficina em que alguns carros estavam sendo reparados. - E então? Sobre o que quer falar?
Conhecendo o temperamento de Isaac, sei que a possibilidade dele armar um escândalo é grande. Apesar de estar prestes a terminar com ele, temo por seu emprego. Pensando nisto, imagino que seja melhor nos afastarmos dali. - Na verdade, eu não queria conversar aqui. Acha que podemos tomar um café, ou algo assim?
- Café? Tudo bem, mas... a cafeteria mais perto daqui fica a uns quinze minutos de carro. - ele fica pensativo alguns segundos e depois dá de ombros. - Ah, dane-se. Estou no meu intervalo e esses idiotas nem me pagam bem o bastante pra me impedir de dar uma saída agora. Vamos, meu carro está bem ali.
Prevendo que depois de tomarmos o café, ele não estará tão disposto a me manter por perto, não me sinto à vontade com o comentário dele. - Na verdade, eu prefiro ir no meu carro, enquanto você vai no seu. - esclareço, escondendo certo nervosismo.
- Ir no seu carro enquanto eu vou no meu? Que besteira, amor! Vamos no meu logo de uma vez, que está aqui perto. - ele aponta para seu carro, demonstrando não estar disposto a argumentar mais quanto a isso. - Vamos? - Isaac abre a porta do carro, já decidindo por mim.
Não vejo outra alternativa, senão aceitar. Resignado, eu entro no carro. No trajeto, não conversamos muito. Fui monossilábico ao responder às perguntas dele, sem dar muita atenção ao que falava. Estava ocupado, pensando na melhor forma de dizer que não o queria mais. Chegamos à cafeteria, e eu fiz questão de selecionar uma mesa mais ao fundo, um pouco isolada. Logo depois de pedirmos, fui logo falando: - Isaac, a razão de eu te pedir pra virmos aqui é que eu realmente preciso falar com você. Eu não trago notícias boas, digamos assim...
Ele silenciou por alguns segundos, antes de começar a dizer: - É, pela sua cara e pelo seu modo de agir até agora, já tinha dado pra perceber que tinha alguma coisa errada. - ele não me encara, mas sua voz não é agressiva. - O que foi que eu fiz de errado dessa vez? É porque ontem eu saí com o pessoal? Poxa, Hyoga, eu estou mudando e tentando fazer as coisas que você me pede, mas mudar radicalmente é complicado. Você tem que me dar só mais um tempo, até eu ficar completamente bem...
Minha garganta fica seca. Não sou do tipo que faz rodeios, sei que devo dizer de uma vez, mas é difícil me sentir confortável para fazê-lo. - Eu me envolvi com outra pessoa, Isaac. - digo, interrompendo o que ele diz.
- Como é? - ele para o que dizia e me olha nos olhos, com a expressão aturdida. - Você fez o quê? - seu tom de voz não denota raiva. Parece estar mesmo surpreso. - Você se envolveu com outra pessoa? - Isaac repete minhas palavras como se assim pudesse assimilá-las. – Eu... eu realmente não esperava por isso. - ele balança a cabeça, visivelmente confuso. - Achei que você não quisesse aceitar a minha proposta. Você sempre disse que não estava sentindo falta do sexo. Eu realmente acreditei, mas... tudo bem. Você fez o que eu disse que podia fazer. Tudo bem. Reconheço que eu dei a ideia. Tudo bem. - Isaac passa a mão pelos cabelos, nervoso. - Ainda bem que agora não teremos mais esse problema. Como eu te disse, meu médico falou que, em um mês, eu já poderei começar a tentar de novo. E aí, vamos voltar a transar como antes e pronto, tudo resolvido. Então... tudo bem. - apesar do que ele dizia, sua voz denotava o nervosismo que era visível em seus gestos.
A situação desconfortável é interrompida quando a garçonete traz nossas bebidas. Isaac bebe um largo gole do suco que havia pedido e então abre um sorriso sem-graça: - Aliás, eu posso te perdoar por ter cedido aos seus instintos. Isso acontece. Já que você está sendo honesto o bastante pra me contar isso acho que posso fazer o mesmo. Eu também te traí algumas vezes, Hyoga. Antes do acidente, claro. Não significaram nada, óbvio, você é a pessoa que eu amo e nunca tive dúvidas disso, mas... Às vezes, não dá pra segurar, certo? Então, eu te entendo. E te perdoo. Vamos considerar que estamos quites, está bem assim?
Embora tenha ficado surpreso com a revelação, saber que fui traído não altera nada; já não me importo com isto, na verdade. Sinto minha garganta secar mais ainda e tomo um gole do meu café. Olho para Isaac e é óbvio que ele não compreende o que eu realmente quero. É frustrante fazer isto com alguém, mas não consigo suportar por mais tempo a situação em que estamos vivendo. - Isaac, eu quero terminar o nosso relacionamento.
Agora sim, ele parece entender o que estou dizendo: - Terminar? Como assim terminar? - Isaac fala aumentando muito o tom de voz. - Por que você quer terminar? Eu já disse que está tudo bem! Hyoga, está tudo bem agora! - ele segura minhas mãos por sobre a mesa, com força. - Eu não ligo se você foi atrás de alguém porque precisava que te dessem o que eu não podia, mas agora tudo vai mudar! Eu vou me curar!
- Sim, você vai se curar e isto é maravilhoso, Isaac. Mas, da mesma forma que o seu problema não foi a razão pela qual eu me envolvi com outra pessoa, a sua cura não me fará manter o nosso namoro. Olha, eu permaneci ao seu lado, e você pode continuar contando comigo, mas apenas como amigo. - tento soltar minhas mãos, e ele as segura com mais força.
- Como... Como você pode dizer uma coisa dessas, Hyoga? Eu mudei por sua causa! Você não pode estar interessado em outra pessoa por algo mais que sexo, porque, fora o sexo, eu te dei tudo! Eu fiz tudo por você! Eu aceitei fazer esse tratamento mais por você que por mim! Eu comecei a me afastar dos meus amigos, só porque você não os suporta! Estou virando um cara chato e certinho só pra te agradar! Como pode me dizer que precisou buscar algo além de uma transa fora da nossa relação? - ele balança a cabeça negativamente. - Não, Hyoga. Eu não sei o que te deu, mas você não tá pensando direito. Eu te amo, você me ama, a gente vai ficar junto. - Isaac ri nervoso. - Não faz sentido você querer acabar tudo comigo justo agora que eu estou ficando bem. Olha, vamos fingir que essa conversa não aconteceu, está bem? Vamos embora daqui, vamos pra casa. Vou ligar pro meu chefe e dizer que não volto mais hoje. - ele faz um sinal para a garçonete trazer a conta e é prontamente atendido.
- Isaac, você não tem que fazer as coisas por mim. Faça por você mesmo, pela sua felicidade! Eu falo sério quando digo que quero terminar, não ignore isto. Não há necessidade de entrar nestes detalhes, mas não quero insistir no nosso namoro, não vejo qualquer futuro pra nós dois. - ele paga a conta e sai, um tanto quanto transtornado.
- Está bem, Hyoga. Está bem. - Isaac fala em um tom de voz repentinamente tranquilo. Finalmente, ele olha para trás e me vê procurando por algum táxi ou ônibus que me leve de volta. - O que está fazendo? - ele pergunta, aproximando-se de mim. - Você vai voltar comigo, no meu carro. - ele me olha sério, mas depois sorri. - Ok, Hyoga. Eu já entendi o que você disse. Mas vamos agir como adultos agora. Não é porque vamos terminar que não podemos mais dividir o mesmo espaço. Eu te trouxe aqui, eu te levo embora. Está bem?
Sinto um arrepio no corpo, uma angústia repentina, da mesma forma que senti no elevador. O rosto de Ikki vem a minha mente, e por um instante penso em não entrar no carro. Mas, como qualquer pessoa civilizada, eu quero ter uma convivência tranquila com Isaac. E o primeiro passo é deixar que ele me leve até o meu carro. - Eu aceito a carona, nesse caso. Você está bem mesmo, Isaac? - estranho sua passividade e questiono, enquanto entro no carro e prendo o cinto de segurança.
- Claro. Estou ótimo. - a resposta dele vem num tom neutro até demais. Ele então começa a dirigir e permanecemos em silêncio assim por alguns breves minutos, até que, subitamente, ele indaga, sem tirar os olhos da pista, com as duas mãos no volante: - Já que vamos ser adultos e amigos, então você pode me dizer quem é o cara com quem você se envolveu? - sua voz permanece calma.
Eu hesito por um momento, mas sua reação está tão tranquila, que não vejo problema em assumir absolutamente tudo de uma vez. Eu prometi a Ikki que seríamos livres, e cumprirei minha promessa. - Eu me apaixonei pelo Ikki. - digo sem olhá-lo.
As mãos de Isaac apertam o volante com mais força e, em um gesto brusco, ele joga o carro no acostamento, freando bruscamente e me encarando em seguida, enfurecido: - O Amamiya? Você se apaixonou por ele, Hyoga? Pelo maldito Fênix? - em sua voz já não há mais qualquer traço de calma. - Espera um pouco! Vocês transaram? Não mente pra mim agora, Hyoga!
Disposto a ser verdadeiro em tudo, eu não nego. - Sim, eu fiz amor com o Ikki. - respondo, deixando claro com minhas palavras que Ikki não é apenas uma aventura.
- AMOR? - Isaac agora gritava. - Que merda de amor, o quê! Quer dizer que vocês andaram trepando esse tempo todo? Nas minhas costas? E ele ainda me disse que só pegava mulher! Filho de uma puta! - ele fala, estupefato, agitando as mãos nervosamente. - Hyoga, esse cara te usou! Como você deixou? O Amamiya não presta, aquele lá é um... um... Que porra, esse cara vai ver só o que vai acontecer quando ele cruzar o meu caminho! Ah, ele vai se arrepender de ter mexido com você! Isso não vai ficar barato! - Isaac fala mais consigo mesmo e eu já me pergunto se não é melhor sair do carro. Como se percebesse minha intenção, ele volta a olhar pra mim: - Hyoga, você não vai ficar com esse idiota! Eu não vou deixar! Não sei o que te deu, mas você não sabe o que tá dizendo! E o maldito do Fênix deve ter te falado muita merda e prometido um bando de coisa que ele nunca vai cumprir! Só que eu não vou deixar ele fazer isso com você. Entendeu? - antes que eu pudesse abrir a porta do carro, ele arranca com o veículo, dirigindo perigosamente pela pista.
- Para o carro, Isaac! Vamos conversar, como você mesmo disse! Pessoas civilizadas, lembra? - tento acalmá-lo, mas a urgência em minha voz não ajuda muito e ele acelera ainda mais. - Para esta porra de carro agora, Isaac!- explodo.
- Para quê? Para você sair correndo atrás desse merda? Não mesmo! Você não vai falar com o Amamiya até que eu me acerte com ele, tá me entendendo? - Isaac vai alucinadamente acelerando mais e seu rosto tem uma expressão de alguém que está fora de si: - O que foi? Não confia em mim? Eu dirijo muito bem, amor! Ou melhor, eu piloto muito bem! Pode ficar despreocupado! - suas mãos apertam o volante cada vez mais. - Mas se estou te incomodando, eu paro! Eu faço tudo por você, amor! -sua voz era muito agressiva. - É só falar que vai abandonar o Amamiya! Me fala agora que nunca mais você vai ver o Ikki! Anda, Hyoga! FALA! - ele grita, de forma insana.
Eu me calo, não digo o que ele quer. Estupidez de minha parte, eu sei, mas não vou jogar o jogo dele. - Eu amo o Ikki e você não pode fazer nada quanto a isso, Isaac. Eu realmente sinto muito, mas você pode ameaçar me matar o quanto quiser, eu vou continuar proferindo o meu amor por ele aos quatro ventos! – solto, quando ele faz uma manobra mais arriscada.
Ele não diz nada de imediato. Apenas continua dirigindo loucamente pelas ruas, cortando os carros, fazendo manobras cada vez mais suicidas. Talvez estivesse tentando me assustar, para ver se eu dizia o que ele queria ouvir. Porém, ao ver que isso não surtia o efeito desejado, ele acabou olhando para mim de forma sombria: - Então muito bem, Hyoga. Se você quer morrer por causa dele, vou realizar o seu pedido. - arregalei os olhos, mas não houve tempo de dizer absolutamente nada. - Se você não quer ficar comigo, então não vai ficar com mais ninguém. - dito isso, Isaac simplesmente joga o carro, de uma vez, contra uma árvore que estava ali perto.
Foi rápido demais, não havia o que fazer. Com o impacto, o carro abraçou a árvore, mas eu não senti a pancada; não senti dor, talvez pelo choque. Eu ouvi o som de uma sirene, bem distante, e acho que algumas pessoas gritando, mas não tenho certeza. A última coisa de que me lembro antes de perder completamente a consciência é de ver o rosto de Ikki em minha frente e pensar que jamais o verei novamente...
Em casa, eu simplesmente não conseguia parar e relaxar. Estava tenso, ficava a todo instante olhando para o meu gato Félix na parede, desejando a cada minuto que o tempo passasse mais rápido.
Entretanto, o contrário é que parecia ocorrer.
Por isso, desisti de ficar em meu apartamento, tentando trabalhar. Eu sabia que tinha muito serviço pendente, mas não conseguiria colocar minha cabeça para pensar em qualquer outra coisa agora, que não fosse em Hyoga. Por isso, decidi sair e fazer compras. Afinal, eu havia prometido um jantar caprichado para o russo. Exatamente, essa noite seria especial. Poderíamos enfim comemorar o fim de um período de angústias. Uma nova fase se iniciaria para nós dois.
Com esse pensamento em mente, rio de mim mesmo. Por que me sentia tão ansioso, tão nervoso? Hoje seria um dia maravilhoso.
- Eu e essa minha mania de sempre procurar por problemas... – pego a chave do meu jipe e saio de meu apartamento. – Aprenda, Ikki Amamiya. A partir de agora, você terá o direito de ser feliz. – falo, para mim mesmo, permitindo-me sorrir, enquanto vou descendo as escadas do meu edifício. Estava agitado demais para pegar o elevador.
Já no mercado em que usualmente faço compras, normalmente acompanhado de Hyoga, sinto-me mais tranquilo. Vou caminhando devagar por entre as prateleiras, guiando meu carrinho, enquanto meus olhos vão analisando os produtos expostos. Tinha já em mente o prato que planejava preparar para aquela noite e ficava imaginando a cara do loiro quando visse o que aprendi a cozinhar com ele.
Parei na seção de vinhos e estava com um vinho tinto nas mãos. Analisava o rótulo, em busca de algumas informações que Hyoga me ensinara a procurar na hora de comprar um bom vinho, quando escuto meu celular tocar. Rapidamente, tiro o aparelho do bolso de minha calça, esperando que fosse o russo. Contudo, vi que era apenas uma chamada de meu irmão:
- Oi, Shun. – atendo enquanto volto a analisar o vinho que estou segurando.
- Ikki...? Oi, irmão... tudo bom? – a voz de Shun é fraca e me parece que ele esteve chorando.
- Tudo ótimo, Shun. E com você? – respondo demonstrando minha preocupação. Sei que meu irmão é muito frágil e que costuma, muitas vezes, chorar à toa. Mesmo assim, eu sempre me preocupo com ele. – Aconteceu alguma coisa?
- Aconteceu... – ele agora começa a mostrar mais claramente que chora, sem se conter. – Ikki... aconteceu uma tragédia...
- Shun, você já conseguiu me deixar preocupado. O que foi? Fizeram algo com você? Quem foi?
- Não, Ikki... – a voz chorosa de meu irmão me fazia sentir o coração dando pulos nervosos no meu peito. – Não aconteceu nada comigo... Foi com o Hyoga... – a garrafa de vinho que estava em minha mão espatifou-se no chão, estilhaçando-se em vários cacos. – Por favor, irmão... sei que vocês não se dão bem, mas... ele é meu amigo... e foi um cavaleiro como nós... – enquanto uma mão segurava o celular com toda a força, junto ao meu ouvido, a outra se apoiava no carrinho. Do contrário, eu já teria ido ao chão, já que minhas pernas estavam trêmulas. – Ikki, eu preciso que você venha. Eu não vou aguentar se você não estiver aqui, irmão. E... o Hyoga também precisa que venha. Ele precisa que todos estejamos aqui por ele agora.
Shun não precisaria ter dito mais nada. Com o pouco de força que me restava, perguntei em que hospital eles estavam e, assim que desliguei o aparelho, saí desbaratinado do mercado, entrei em meu jipe e corri para lá. Nem sei ao certo como consegui chegar ao hospital. Eu não estava pensando, eu não estava vendo, eu estava em choque. Não entendia, não sabia o que estava acontecendo. Como assim, Hyoga havia se acidentado? Não, aquilo não era possível! Há poucas horas, ele estava comigo! Estávamos juntos, em meu apartamento... eu ainda sinto o perfume dele impregnado nas minhas roupas. Ainda sinto o calor de seu abraço me envolvendo antes de partir... ainda tenho o gosto dos seus lábios na minha boca...
Então eu me lembro. Céus! Aquilo que ele disse antes de ir embora... "- Diz até logo. Por favor, diz que a gente vai se ver logo, meu amor"...
Não. NÃO! Isso é cruel demais! Aquilo não pode ter sido uma despedida! Não pode ter sido a nossa despedida! Não! A vida não pode ser cruel assim comigo, não de novo! Não! Eu me recuso a aceitar, isso não está acontecendo, eu estou sonhando, é um pesadelo, eu vou acordar, sei que vou...
... A qualquer momento eu vou despertar e o loiro vai estar ao meu lado, observando meu sono. Ele adora fazer isso. Quando não me acorda com um delicioso café na cama, ele está deitado ao meu lado, já bem desperto, mas vigiando meu sono. Sim, é isso. Eu vou abrir os olhos e vou encontrar o céu de seu olhar, que me fará sorrir. E então contarei o sonho absurdo que tive minutos antes de despertar para encontrá-lo. Riremos disso e depois eu beijarei sua boca, dizendo ter sentido sua falta. E ele irá me abraçar. E eu não permitirei que ele se afaste de mim...
Súbito, eu me dou conta de que estou em um elevador. Nem vi como cheguei aqui. Mas um irritante barulho me avisa que cheguei ao andar referente ao botão que eu havia pressionado, assim que entrei ali. E agora as portas do elevador se abrem e...
... e então eu vejo. Shun, Shiryu, Seiya e vários outros cavaleiros; muitos rostos conhecidos já estavam ali presentes, praticamente dominando toda a sala de espera. Olho para todas aquelas pessoas, sentindo-me desnorteado. E percebo que fui a última pessoa a ser chamada.
Saio do elevador a passos incertos, procurando por algo. Procurando um meio de fugir dali. Aquilo era apenas um sonho! Por que não acordo logo? Hyoga, por favor... me desperte desse pesadelo...
- Irmão! – assim que Shun me vê, corre até onde estou. – Ikki, que bom que veio... – ele me agarra em um abraço choroso e afunda seu rosto banhado de lágrimas em meu peito.
Enquanto meu irmão chora copiosamente, eu não digo nada. Não consigo. Eu o acolho em um abraço fraternal, mecanicamente. Continuo com um olhar perdido, que vaga sem rumo por aquela pequena sala. Então, Shiryu e Seiya se aproximam de mim:
- Obrigado por ter vindo, Ikki. – o Dragão se manifesta. – Shun estava precisando muito de você.
- É, cara. – Seiya, parado ao lado do chinês, começa a falar. – Ainda bem que você sabe deixar as diferenças de lado e priorizar o que é importante agora. O teu irmão tá inconsolável...
Por que esses dois estão falando de Shun? Eu quero saber do Hyoga! Será que eles pensam que eu odeio tanto o russo, a ponto de não me preocupar o bastante para eles me darem qualquer informação sobre como ele está?
- Como está o Hyoga? – a pergunta sai de supetão. Mas eu quase não tive forças para pronunciar essas palavras. Não conseguiria fazer muitos rodeios. Além disso, eu necessitava de uma resposta rápida.
- Ele está sendo operado agora. Isaac também. Depois que saírem da sala de cirurgia, os médicos poderão nos dizer se... – Shiryu começou a falar, mas foi interrompido por mim:
- O Isaac? O Isaac estava junto com ele?
- Sim, foi uma tragédia. – Seiya me responde. – Os dois estavam juntos, no carro, quando ocorreu a batida. Os dois foram trazidos para cá, gravemente feridos... – nesse momento, ele para de falar, como se fosse doloroso demais continuar a explicar o que tinha havido. Ambos, Seiya e Shiryu, pareciam querer poupar o meu irmão, evitando falar novamente sobre o acidente, como se ele não pudesse suportar ouvir tudo isso de novo.
É nesse instante que meu celular começa a tocar. Todas as pessoas ali presentes olham para mim, de forma repreensiva. Entretanto, ignoro-as e retiro o aparelho do bolso. Vejo no visor que é uma ligação da revista "Quadros". Afasto meu irmão um pouco, o suficiente para que eu possa olhar em seus olhos verdes, tão molhados:
- Shun, é do meu trabalho. Eu preciso atender.
- Mas... – as esmeraldas de meu irmão tornam-se ainda mais úmidas. – Mas... Ikki...
- Eles só me ligam quando é coisa urgente. – eu digo, já me afastando um pouco.
- Ikki, o Hyoga acabou de sofrer um acidente grave! – Seiya começa a falar, nervoso. – Não acredito que o seu trabalho seja mais importante agora!
Faço um gesto com a mão, pedindo que parem de falar, enquanto atendo o celular:
- Alô? Oi, Nina. Sim, pode falar. – começo a dizer, enquanto vou me afastando. Ainda sou capaz de escutar comentários que me acusam de insensível e uma série de outros qualificadores depreciativos. Mas não me importo. Viro no corredor e vou caminhando a passos largos, afastando-me o mais rápido que posso. Aliás, tão logo me vejo fora da vista dos outros, eu finalizo a ligação na cara da Nina, sem nem me despedir, pouco me importando o que ela pensaria disso. Em seguida, desligo o celular e volto a colocá-lo no bolso. Meus pés caminham por conta própria e parecem encontrar sozinhos o banheiro masculino.
Entro apressado e, para minha sorte, não há mais ninguém lá dentro. Caminho até o espelho e paro quando me vejo diante dele. Olho para o meu próprio rosto e não me reconheço.
A possível ausência de Hyoga nesse mundo faz com que tudo perca sentido. Faz com que eu me perca de mim mesmo e não seja mais capaz de me reconhecer.
A imagem diante de mim me é tão estranha que, por um segundo, parece-me irreal. Ergo a mão e encosto-a no vidro do espelho. O vidro é tão frio que esse contraste consegue, enfim, despertar-me para a realidade:
Eu estava em um hospital.
Lá fora, todos que conheciam Hyoga esperavam por notícias dele.
Hyoga tinha sofrido um acidente.
Um grave acidente.
Corria risco de não sobreviver.
Ele podia morrer.
Ele podia morrer hoje.
Nessa noite.
Não jantaríamos juntos hoje.
E, talvez, nunca mais.
- Meu Deus! – um soluço escapa de minha boca, enquanto sinto minhas pernas fraquejarem de vez. – Meu Deus, Hyoga! – caio sobre minhas pernas, sem conseguir conter as lágrimas que explodem de meus olhos. Levo a mão à minha boca, tentando abafar meu choro, mas não consigo. As lágrimas caem, ardentes, queimando a minha face. Não consigo respirar e meus pulmões buscam desesperadamente por ar enquanto abraço meu próprio corpo, sentindo uma dor que machuca demais, de uma forma como eu nunca havia experimentado antes.
E ali, ajoelhado sobre o chão do banheiro, chorei sozinho toda a minha dor, até sentir-me completamente esvaziado, tanto de lágrimas quanto da vida que pulsou forte em meu peito nos últimos meses.
Já faz quatro semanas desde que o acidente aconteceu. Naquele fatídico dia, após horas esperando para saber o estado de Hyoga, os médicos enfim apareceram para dizer que tanto o loiro quanto Isaac estavam estabilizados, mas inconscientes. Eles não souberam nos dizer quando ou se despertariam.
Como havia uma melhora significativa e mais rápida do que os médicos esperavam, ambos foram logo levados para ficarem em quartos privados. A partir de então, começaram a permitir visitas. Todos os dias, meu irmão, Shiryu e Seiya vinham ficar ao lado de Hyoga durante as duas horas liberadas para as visitas.
Eu nunca os acompanhava nessas visitas.
Não conseguiria permanecer ao lado deles, sem poder demonstrar o que sinto por Hyoga. Porque eu optei por não falar a respeito. Não sabia se o loiro tinha conseguido conversar com Isaac. E não achava que seria correto falar sobre nossa relação com os outros sem o consentimento do russo. Não, eu esperaria que ele despertasse para que então, juntos, fizéssemos isso.
Porque eu tinha certeza de que ele acordaria. Mesmo os médicos dizendo não saber quando isso aconteceria, eu sabia que Hyoga despertaria em breve. Não só por ter o espírito de um cavaleiro, mas principalmente porque eu o conheço e sei que ele não desistiria tão facilmente.
Venho visitar Hyoga todos os dias, ou melhor, todas as noites. Consegui fugir do horário restrito de visitas. Isso aconteceu graças a uma enfermeira bondosa, que me viu aparecer por aqui nas primeiras noites e ficar sentado na sala de espera vazia, com os olhos presos à porta do quarto de Hyoga.
Um dia, a boa senhora veio me perguntar porque eu não vinha visitar o paciente de dia, no horário apropriado. Eu respondi que não podia. E não me alonguei explicando-me mais. Contudo, ela pareceu entender muito do que eu não disse e, com um sorriso, perguntou-me se eu não gostaria de entrar um pouco, para ajudá-la a fazer os seus trabalhos. Com um sorriso discreto, aceitei prontamente.
Dentro do quarto, ela não me pediu ajuda. Enquanto ela tirava a pressão dele, checava seu soro, trocava os curativos e passava um algodão úmido pela sua face, eu apenas observava, como se algo muito importante estivesse sendo feito e eu pudesse apenas assistir, de longe, a tudo aquilo, respeitosamente e à distância.
A enfermeira percebeu meu acanhamento em me aproximar. Por isso, quando terminou suas tarefas, ela me disse que teria de sair. Entendi isso como um aviso de que eu teria de ir embora também. Contudo, ela falou que precisava visitar outros pacientes e que sua ronda era longa. Acrescentou que só regressaria para ver o loiro de novo quando estivesse amanhecendo e que esse era o horário em que mais enfermeiros apareceriam por ali. Portanto, se alguém estivesse com vontade de ficar por lá, era bom saber que só poderia ficar até quando amanhecesse.
Dito isso, ela saiu. E, se não tivesse saído, eu a teria enchido de beijos. Assim que ela fechou a porta, eu puxei um banco e fiquei sentado ao lado do loiro. Demorou para que eu criasse coragem e acariciasse seu rosto. Ele estava muito machucado, com tantos hematomas... tive medo de feri-lo. Assim, nessa primeira noite, eu fiz uma breve carícia em sua face, movido pela saudade, mas não ousei tocá-lo novamente.
Todavia, nas noites seguintes, isso mudou. Primeiro, porque a enfermeira me permitiu auxiliá-la e eu já trocava os curativos, checava o soro e passava o algodão em seu rosto por conta própria, enquanto ela me supervisionava. Eu gostava de cuidar dele. Sentia-me um pouco mais útil e isso me reconfortava. Ela sabia disso, porque sempre me assistia fazer isso com um bonito sorriso no rosto.
E, depois de finalizar essas tarefas, a boa enfermeira sempre me deixava a sós com Hyoga. E eu passava toda a noite a seu lado, saindo de meu posto apenas quando começava a amanhecer.
Acabei voltando a trabalhar. Não por medo do meu chefe, ou por medo de perder minha reputação. Eu o fazia apenas para ocupar meus dias, ansioso pela chegada da noite. Quando estava com Hyoga é que me sentia vivo. E conversava com ele a madrugada inteira. Contava sobre meu trabalho, falava sobre notícias de jornais que ele gostaria de saber, lia um trecho de algum de nossos livros favoritos, comentava sobre a estreia de um filme que gostaríamos de assistir...
Assim foram passando os dias. Durante todo esse tempo, evitei meu irmão e meus antigos companheiros de batalhas. Afinal, além de me encher de trabalho para ocupar meu tempo durante o dia, eu precisava tirar um cochilo para estar bem desperto à noite. Desse modo, não me sobrava tempo para ficar com Shun. Isso, por sinal, era bom. Eu não saberia omitir o que estava sentindo para ele e, como não queria ter de mentir para o meu irmão, era preferível simplesmente não vê-lo.
Entretanto, Shun se zangou. Achou que eu estava fazendo pouco caso de você, Hyoga. Faz sentido; na cabeça dele, eu nunca vim te ver. Nos horários de visita, eu nunca apareço. Mal sabe ele que é porque já fico com você à noite toda...
Porém, hoje, Shun brigou comigo e obrigou-me a vir vê-lo, junto com ele e os outros. Por isso vim mais cedo. Mas não se preocupe; hoje à noite, como sempre, eu virei te ver.
Não é ruim estar aqui agora. Ao menos, posso vê-lo e você sabe que sempre gosto de vê-lo. O que está me martirizando, no entanto, é não poder falar em voz alta com você agora. Devo guardar todos esses pensamentos apenas para mim e isso me traz angústia. Faz com que eu me sinta tão perto e, ao mesmo tempo, tão longe de você...
Olho em meu relógio de pulso. O horário de visitas está prestes a acabar. Estou aqui, em pé, encostado à parede que fica de frente para a sua cama. Shun está sentado ao seu lado e o observa tristemente. Shiryu e Seiya estão próximos à cama, também em pé, com os olhos entristecidos direcionados para você.
Suspiro. Isso já vai acabar. E logo mais, à noite, seremos só nós dois, novamente...
- Seiya! Shiryu! Vocês viram isso? – meu irmão pronuncia-se, agitado, chamando minha atenção para você. O que ele viu?
- O Hyoga! Ele se mexeu! Eu juro! Eu vi! – Shun aponta para você enquanto olha para Seiya e Shiryu, que nada respondem. Ambos apenas o observam atentos, assim como eu, tentando ver se os olhos de Shun não lhe pregaram uma peça.
- Shun, acho que você está cansado... Ele não se moveu... Vai ver... – Seiya começa a dizer, mas subitamente para.
E meu coração para também. Com meu olhar preso à cama em que está deitado, eu vejo seus dedos se contraírem levemente. E, logo em seguida...
... Logo em seguida são seus olhos que vão, vagarosamente, abrindo-se. E é como se eu visse o dia raiar a partir de suas orbes celestiais.
Lentamente, as pálpebras vão permitindo que seus olhos tão azuis analisem o que há ao seu redor. Você pisca, algumas vezes, como quem desperta de um longo sono.
Shun, Seiya e Shiryu ficam extremamente animados. Eu, mais que rápido, aperto o botão para chamar algum enfermeiro, a fim de examiná-lo e ver se está tudo bem. Enquanto isso, os três falam com você ao mesmo tempo, demonstrando suas saudades, seu alívio, sua alegria...
Tudo que também eu sentia.
Porém, o fato de eles tentarem falar todos ao mesmo tempo, entre si e com você, me irrita. Compreendo que eles apenas comemoravam, animados, a sua retomada de consciência, mas eu não queria comemorar.
Eu queria apenas ouvir você. Queria que me olhasse com esses olhos, dos quais senti tanta falta, e me lançasse aquele olhar que eu tanto amo.
Queria ouvir sua boca dizer meu nome. Queria vê-lo sorrir para mim.
Por tudo isso, não me segurei:
- CALEM A BOCA! – eu falo, muito alto, assustando os três e, possivelmente, você também, já que o vejo abrir mais os olhos para me encarar, confuso. – Desculpe, Hyoga. É que eles não paravam de falar e eu queria perguntar se você está bem. – abro o meu melhor sorriso para você. E desejo, de todo o coração, que me sorria de volta, daquele jeito que só você sabe fazer. Daquele modo que faz meu mundo parar. Daquela maneira que faz a minha vida ganhar sentido em um único instante.
- Hyoga? – você olha para mim, interrogativo. Depois olha para meu irmão e os outros, mostrando-se mais confuso: - Quem é Hyoga? – e, então, voltando a pousar seus olhos cheios de dúvidas sobre mim, indaga, encarando-me com olhos frios e impessoais: - E quem são vocês?...
E é nesse preciso mesmo instante que eu sinto que meu mundo desmorona, uma vez mais...
Continua...
N/A (Lua Prateada e Mamba Negra):
Bom, pessoas... essa dobradinha de capítulos (20 e 21 de uma vez só!) veio apenas para compensar o fato de que ficaremos agora um mês sem atualizar. Eu (Lua) vou viajar e a fic ficará paradinha por esses dias. Aliás, a Mamba e eu comentamos que, como o propósito dessa fic é justamente o de ser uma espécie de seriado, então é normal que ela seja dividida em temporadas. A cada temporada, uma história é o centro. E, no final da temporada, sempre há aquele capítulo que serve de gancho, para prender a atenção das pessoas, certo? É o capítulo responsável por fazer as pessoas continuarem acompanhando, quando o seriado regressar das suas "férias". Bem, como devem ter percebido, esse capítulo 21 foi o nosso "final de temporada". Acho que deu pra pegar qual será a trama que nós iremos trabalhar na segunda temporada dessa série, correto? Pois é, a ideia é bem legal – e, só pra constar... a ideia veio todinha da Mamba – e já temos em mente como ela deverá prosseguir. Resta saber se esses dois vão nos obedecer, já que eles têm vida própria.
Enfim... é isso. Esperamos que tenham curtido!
Obrigada, de coração, a todo mundo que se dispõe a ler e nos deixa um comentário. Isso realmente significa muito para nós. Precisamos desse feedback e foi esse retorno fantástico que nos impulsionou a chegar até aqui!
Sei que estamos demorando a responder, mas podem ter certeza de que vamos responder a todos. A gente demora, mas não falha.
Então... Feliz Ano Novo, pessoas!
A gente se vê de novo em 2011.
Beijo grande!
Lua e Mamba.
