Capítulo Vinte e Um – O fantasma das sombras

Já era madrugada alta quando um vulto utilizando uma capa negra e um capuz que lhe cobria o rosto por completo adentrou o recinto escurecido, utilizando-se das sombras para se ocultar de olhares indesejados. A pessoa, seja lá quem fosse, caminhava o mais silenciosamente que seus pés permitiam. Sua respiração era lenta e comedida, para não chamar atenção, por mais que sentisse um peso no peito pelo que estava prestes a fazer.

Não tinha volta. Estava decidido.

Apenas uma luz fraca da lua invadia o recinto, pela janela alta que dava vista para os jardins do castelo. Estava tanto silêncio que era quase como se fosse possível ouvir o som daquelas paredes antigas palpitando, como se fossem um ser vivo, pulsante.

A pessoa examinou o lugar. Não havia ninguém ali, exceto um rapaz deitado imóvel em um leito, coberto por um lençol branco impecável, que contrastava de maneira desagradável com o tom de sua pele. Ao se aproximar, notou, ao examinar as mãos do rapaz, que a pele dele estava mais enegrecida do que da última vez que viera vê-lo. Não era efeito das sombras. Sua pele clara realmente escurecia a cada dia, a cada instante, como um pergaminho cansado sendo queimado por uma tocha impiedosa, o papel sendo consumido pelo fogo, lentamente, enrugando, tornando-se cinzas.

Aproximando-se da morte inevitável.

Ou quase.

A pessoa segurou a mão do rapaz. Sabia que não podia tocar nele, ninguém podia. Mesmo com luvas. Mas não havia escolha, era isso que tinha que fazer. Sentiu um arrepio na espinha, como se um fio invisível e mágico estivesse subindo pelas suas costas, uma eletricidade – como diziam os trouxas – correndo por suas veias e indo de encontro onde o tocara.

Mas aquilo não era suficiente.

Então largou a mão dele depressa, recuando alguns passos.

Repassou mentalmente o que sabia que iria acontecer depois que fizesse aquilo. Nunca mais... nunca. Observou a sala ao redor, as paredes, pulsantes. Não pertenceria mais àquele lugar. Não seria mais igual àquelas pessoas que viviam ali.

Talvez nunca tivesse sido. Talvez toda sua vida, todos seus passos tenham lhe conduzido até ali, para acabar assim. Por isso era diferente. Por isso aquela maldição, que sempre foi sua companheira, por toda a vida.

Ainda assim, era difícil deixar tudo para trás.

Tirou a varinha do bolso. Gostava dela. Faia. Corda de coração de dragão. Doze centímetros e meio. Razoavelmente flexível.

Teria que guardá-la em uma caixa. Ou talvez quebrá-la fosse mais adequado?

Não, não tinha coragem para tanto.

Fez um gesto no ar com a varinha e surgiu uma única tulipa vermelha. Parecia meio murcha. Ou será que era impressão? Nunca tivera o mínimo de talento para fazer aparecerem aquelas coisas do nada. Ou será que já era efeito do que estava prestes a fazer?

Não importava. Com certeza se lembraria desse último gesto da varinha com carinho.

Colocou a tulipa em um vaso em uma mesinha ao lado da cama. Estava perto dos óculos redondos do rapaz. Será que ele iria notar a flor? Ela parecia solitária ali. Fechada e sozinha, um tanto cabisbaixa.

Rolou os olhos para dar uma olhada no rapaz ali deitado. Ele dormia, mas com certeza não era um sono tranqüilo. Mal conseguia respirar. Era visível que tinha pesadelos e dores horríveis. Seu rosto estava mais magro do que de costume, encovado, a pele flácida e enegrecida, dando-lhe a aparência de um cadáver. Percebia-se que estava vivo porque suava muito, e se remexia lentamente, murmurando palavras incompreensíveis com a boca seca.

Talvez mais um dia e não agüentasse.

Vê-lo ali, daquela maneira, trazia segurança à sua decisão. Fazia valer a pena o que estava abandonando. Guardou a varinha. Não precisaria dela para aquilo que iria fazer. Não precisaria dela nunca mais...

Retirou as luvas, colocou-as sobre a mesa. Retirou o capuz, e seus cabelos estavam soltos, caindo ao redor do rosto. A capa escorregou para o chão, revelando o corpo nu. Respirou fundo, sentindo o ar frio penetrar nos ossos, o chão gelado de pedra congelando seus pés descalços.

Olhou para as próprias mãos nuas como jamais mostrava, nem para si. Olhou bem para as marcas. Guardou-as na memória. Talvez elas sumissem com o tempo depois disso. Ao menos uma compensação pelo preço alto que pagaria...

Fechou as mãos com força, sentindo o coração bater mais forte. Não podia desistir. Não podia recuar.

Olhou o rapaz novamente. Sorriu levemente. Somente aquela visão lhe trazia força, e talvez, paz.

Tirou o lençol dele, rasgou as roupas molhadas de suor que vestia. O pouco que se encostava a ele trazia novamente na espinha aquele choque elétrico, aquela sensação de um fio mágico deixando seu corpo.

Deitou-se sobre ele, encostando sua pele o máximo que podia em seu corpo gelado e magro, com tão pouco de vida. Por alguns instantes, apenas encostou a cabeça em seu peito, fechando os olhos, sentindo dor, frio e tristeza, sentindo aqueles fios invisíveis abandonando seu corpo, tornando-lhe frágil, incapaz. Teve vontade de chorar, mas não o fez.

Ergueu o rosto, sentindo os membros fracos. Ele tinha aberto os olhos. Talvez achasse que aquilo era um sonho. Melhor assim. Seus olhos se encontraram.

Encostou as mãos espalmadas em seu rosto, tocando-lhe de maneira firme e ao mesmo tempo, com delicadeza, sabendo que aquilo era o fim.

Não precisava fazê-lo para terminar aquilo...

...mas o beijou.


De um lugar muito distante, talvez entre os sonhos, os pesadelos e a realidade, Harry ouvia barulhos, vozes, conversas. Era como se estivesse um túnel, e muito, muito longe, ouvisse o som. Só que esse som ficava cada vez mais distante, restando a ele apenas o silêncio como companhia. Ele tentava correr, se aproximar do som, mas era como se o chão se movesse para trás, e ele ficasse mais distante. Harry corria, corria sem parar, não podia ficar para trás. Então o som começou a ficar mais alto, o chão parou de correr para trás. Ele viu uma luz no meio da escuridão, a sombra de uma pessoa que o esperava...

Alguém estava chorando.

- Shhh... não fica assim, Mione. Ele vai ficar bem.

- Não, vai, Rony. Ele não vai!

Silêncio.

Harry abriu os olhos bem devagar. A claridade ofuscava seus olhos. A primeira coisa que ele viu foram borrões, e pensou de maneira automática que deveria estar sem óculos. Lentamente levou seu braço para o lado, procurando os óculos. Sempre costumava deixá-los do seu lado direito depois de dormir. Acabou derrubando algo no chão. O barulho chamou a atenção de quem estava na sala.

- Harry?

Ele ouviu a voz chorosa de Hermione, e viu o borrão dos seus cabelos cheios perto da cama, e atrás dela um borrão vermelho que deveria ser Rony.

- Meus óculos...

Então sentiu a amiga colocando os óculos em sua mão, mas ela ainda não o tocara.

Mas ele se lembrava de alguém o tocando... ou teria sido sonho?

O rosto molhado e preocupado de Hermione entrou em foco. Rony estava mais atrás, com a testa franzida, com medo de pegar uma doença contagiosa. Bem, aquilo não era mentira.

- Como você está...? – Hermione perguntou com a voz fraca.

Foi Rony que falou antes que Harry, e ele parecia espantado com o que dizia.

- Ele parece com uma cara melhor.

Os dois ficaram olhando para Harry esperando uma resposta.

- Eu só estou sentindo o corpo meio doendo. Não agüento mais ficar nessa mesma posição...

Era verdade. Aliás, ele nem lembrava há quanto tempo estava ali. Os dias tinham passado como um borrão, ele não saberia dizer se estava ali há dois dias ou dois meses.

Hermione se sentou ao seu lado na cama. Ela levou a mão à testa de Harry. Rony tentou protestar "Você não pode tocá-lo, Hermione!", mas a garota não lhe deu ouvidos, tinha aquele olhar determinado no rosto. Foi estranho, parecia que fazia tanto tempo que Harry não sentia o toque de uma pessoa, o calor de uma pessoa. Tinha sentido tanta falta disso, que tinha até sonhado que alguém tinha vindo lhe visitar e o tocado, deitado sobre ele, até se lembrava de alguém o beijando...

- Tem razão, Rony. – Hermione disse arregalando os olhos. – Ele parece estar com a temperatura normal. – ela pegou a mão de Harry entre as suas. – E a pele dele está voltando à cor de sempre.

- Eu disse pra você, Mione! – Harry tinha certeza de que ele estava querendo provar algo a Hermione, mas o amigo também parecia sinceramente feliz, pelo sorriso que dava. Já Hermione não parava de mexer em Harry para ver se o amigo estava ali mesmo, sorrindo e chorando ao mesmo tempo.

Harry não prestou muita atenção, porque nada daquilo parecia lhe fazer sentido algum. Tentou se mexer, mas o corpo ainda estava muito dolorido.

- Alguém esteve por aqui... esses dias?

Ele não saberia dizer se o que tinha sonhado (será que era sonho mesmo?) tinha sido na noite anterior, ou há, sei lá, uma semana, ou um mês. Harry tinha perdido totalmente a noção do tempo.

- Várias pessoas. – Hermione respondeu distraída. Ela reparou em algo no chão e murmurou "Reparo", e Harry percebeu que quando tentou pegar os óculos tinha derrubado um vaso no chão. Hermione o recuperou e colocou de volta dentro dele uma única tulipa, vermelha, que ainda estava fechada, um pouco inclinada, como se estivesse triste. Triste, não, ela estava meio murcha mesmo. – Nós dois, Sirius, o Prof. Dumbledore, o Hagrid, a Profª. McGonagall, Madame Pomfrey...

- Gina. – Rony disse mais como se cuspisse o nome e cruzou os braços irritado. Harry achou aquilo estranho, será que ele e a irmã tinham brigado enquanto ele estava apagado?

- Não sei por que você anda implicando tanto com a sua irmã, Rony, francamente. – Hermione resmungou, medindo a temperatura de Harry novamente. – Ela só veio visitar o Harry porque estava sendo legal, oras. Vocês dois parecem duas crianças às vezes, eu nem acredito...

- Vocês trouxeram essa flor aí? – Harry perguntou, resolvendo mudar de assunto.

- Eu não, você é meu amigo, cara, mas eu não dou flores a caras... – Rony se esquivou e tirou um sorriso tanto de Harry quanto de Hermione.

- Eu também não fui, Harry. – a amiga disse, observando a flor. – De repente foi a própria Madame Pomfrey que colocou aqui para enfeitar a cabeceira. Para ver se você se animava... – a amiga o observou e sorriu. – E olha, acho que deu certo, né? Aliás, eu vou chamar Madame Pomfrey para dar uma olhada em você, Harry. Temos que ter certeza que você está bem.

E a amiga saiu quase correndo. Rony ficou olhando-a partir e depois puxou uma cadeira para perto de Harry.

- Foi mal, cara, eu gostaria de te dar um abraço por ainda estar vivo, mas vou esperar a Madame Pomfrey confirmar, só por precaução. – o amigo disse, mas sorria quase aliviado.

- Rony, por que vocês não podem me tocar? O que aconteceu comigo? – ele fez uma pausa, lembrando de uma conversa entre Sirius e Dumbledore que ouvira às escondidas, fingindo que estava dormindo. – Sirius disse que eu estava morrendo...

Rony olhou para os lados para se certificar que estavam sozinhos, mas quando falou, abaixou o tom de voz.

- Bem, não precisa sair dizendo pro Sirius ou pro Dumbledore... ou para a Hermione, principalmente, que eu estou te contando isso. Era para esperar você se recuperar totalmente para contar... se você se recuperasse. – Rony fez a mesma cara que Hagrid fazia quando dizia algo que não deveria estar falando. – Você estava morrendo, cara... Você estava definhando na frente de nossos olhos.

- Mas o que aconteceu? – Harry perguntou desesperado. – Alguém sabe como foi isso, o que eu tive?

- Olha, eu não sei direito. Tudo o que eu e Hermione sabemos foi mais por causa de ouvirmos por trás de portas e pesquisas à biblioteca... – Rony revirou os olhos. – E Dumbledore disse que poderia ser algo contagioso, e mandou que ninguém tocasse em você até que estivesse curado... nem Madame Pomfrey. E não podiam transferi-lo para o St. Mungus, você não resistiria a qualquer transporte, mágico ou trouxa. Mas eu e Hermione temos certeza que você estava amaldiçoado. E não era qualquer tipo de maldição.

Harry ficou ali, parado, sentindo seu corpo doer e tentando aceitar aquilo. O que ele sabia sobre maldições e pragas era que eram magia das trevas, quase sempre, especialmente se causassem dor ou fossem para matar. E se eram lançadas de longe, eram sempre mais complicadas e precisavam de mais magia e conhecimento para isso. A única pessoa no momento que ele conseguia pensar que faria aquilo com ele era com certeza Voldemort.

- Voldemort fez isso?

Rony se arrepiou um pouco, mas não comentou nada sobre o nome.

- Eu não sei, Harry. Mas acho que é o mais óbvio não? – e em seguida completou. – Mas Hermione acha que não foi bem ele quem fez. Quero dizer, alguém pode ter feito a mando dele, não é? Isso quer dizer que existe outra pessoa...

Rony parou de falar e olhou para trás. Parecia que Hermione tinha dado a boa notícia a Madame Pomfrey, e eles ouviram os passos apressados das duas. Antes que chegassem, Harry perguntou ao amigo com urgência, pois sabia que só podia perguntar isso a ele:

- Rony...? Você sabe se a... Katherine... veio me ver?

Rony torceu o nariz mas não fez nenhum comentário ofensivo dessa vez.

- Não sei, Harry... Que eu saiba, não. Ela nem veio perguntar nada para mim ou para Hermione quando nos encontramos nas aulas do Snape ou de duelos. Ela anda praticando sozinha na aula de duelos, mas ultimamente está uma porcaria, se você quer saber. É uma injustiça, porque a gente vê que ela não faz nada direito, e Snape nem para tirar pontos dela, só porque é da Sonserina. Ela não tem conseguido nem estuporar o Neville. E vamos concordar que isso não é muito difícil.


Harry só pôde deixar a ala hospitalar uma semana depois, e nem Rony ou Hermione puderam acompanhá-lo, pois os dois estavam em aulas naquele momento. Ele saiu da ala pouco depois do almoço, o que foi um pouco frustrante, porque estava cansado da comidinha sem graça que Madame Pomfrey lhe servia, e queria era um bom almoço no Salão Principal. Mas se conformou em esperar o jantar, mesmo porque ainda não estava com muita vontade de ver toda a escola lhe encarando quando sentasse à mesa da Grifinória.

Sirius tinha ficado de folga até o dia anterior, do lado da cama de Harry quase todo o tempo. Ele parecia ao mesmo tempo, aliviado, feliz e por incrível que possa parecer, descrente da recuperação de Harry, que segundo Madame Pomfrey, foi assustadoramente rápida.

Na verdade, quem veio vê-lo antes que tivesse finalmente alta de uma desconfiada Madame Pomfrey, foi Dumbledore. Harry tinha acabado de se arrumar com roupas normais (não iria para aulas àquela tarde, só no dia seguinte). O garoto terminou de amarrar os cadarços do tênis quando reparou na tulipa vermelha que estava desde aquela manhã que acordara, com Rony e Hermione ao seu lado. A flor, na verdade, parecia a mesma coisa: vermelha, fechada e meio murcha. Sem entender direito porque, Harry a apanhou do vaso e ficou segurando-a e alisando suas pétalas. Foi nesse momento que o diretor chegou dizendo que estava representando, além dele, Hagrid, que queria muito ter vindo ver Harry, mas estava viajando para resolver alguns assuntos da escola.

- E você está melhor, Harry? Pronto para recuperar todos esses dias perdidos na escola?

- Estou melhor sim. – o garoto respondeu com um sorrisinho de lado. – Mas não estou pronto para estudar.

Dumbledore sorriu até os olhos.

- Tenho certeza que Srta. Granger vai se encarregar de ajudá-lo com isso.

- Ah, tenho certeza que ela vai sim, senhor. Ela já o faz normalmente.

Dessa vez, Dumbledore sorriu ainda mais, fechando os olhos por alguns segundos como se estivesse saboreando aquele momento. Mas Harry não planejava continuar com a conversa fiada por muito tempo; o diretor tinha evitado visitá-lo desde que se recuperou, mesmo que viesse conversar com Madame Pomfrey e Sirius, pois tinha escutado algumas vezes atrás das portas. E se havia alguém que deveria saber – ou pelo menos ter uma boa idéia – do que realmente tinha acontecido com Harry, era Dumbledore.

- Professor?

- Sim...

- O que aconteceu comigo... todo esse tempo? De verdade?

- Você ficou doente, Harry. – e como o garoto já ia protestar, Dumbledore ergueu a mão. – Você foi amaldiçoado, eu sei que sabe disso. E não foi uma praga qualquer, Harry, não foi mesmo. Eu justamente não vim falar com você antes, porque sabia que ia me perguntar isso, e eu queria entender melhor o que tinha acontecido antes de lhe dar informações imprecisas...

Harry apenas ficou observando Dumbledore atentamente, enquanto o diretor limpava os óculos na manga da capa.

- A maldição que o atingiu, estou quase certo disso, é conhecida pela expressão Mors omnia solvit. Significa "A morte solve tudo" ou "A morte resolve tudo". Tenho certeza que a sua amiga Hermione Granger vai insistir para que você e o Sr. Weasley façam uma consulta à ala reservada da nossa biblioteca, mas já posso adiantar que isso é magia negra avançada, Harry. Nem os mais assustadores livros de nossa biblioteca explicam como realizar essa maldição, apenas dão uma idéia sobre ela. É algo, que digamos, se passa pelo conhecimento oral, e obviamente são bruxos das trevas que passam a informação uns aos outros. Eu mesmo não sei como ela é realizada, passo a passo, apenas sei que é um ritual realizado à meia-noite, em uma noite específica do ano, utilizando oferendas...

- Oferendas? Como assim, professor?

- Existe todo tipo de oferendas, Harry. Objetos da pessoa que será amaldiçoada... fios de cabelo... sangue. Na verdade, podem ter usado qualquer coisa sua. Ou várias coisas ao mesmo tempo. Eu diria que várias, por causa da intensidade da maldição, de como você se abateu em poucos dias. Isso porque, essa maldição, ela é intencionada a causar a morte de alguém, mas não necessariamente em dias... podem ser meses, até anos. Não é uma maneira rápida de matar. Mas, no seu caso, tudo aconteceu muito rápido.

- Então... alguém tentou me matar. Voldemort, com certeza.

- Sim. E não.

- Como assim, professor?

Dumbledore hesitou apenas um segundo antes de responder.

- Não tenho dúvidas que isso tenha sido feito a mando de Voldemort, com informações passadas por ele, com o consentimento dele. Não, isso certamente ocorreu. – então o diretor abaixou um pouco o tom da voz, e se aproximou de Harry sobre a cama, onde os dois estavam sentados lado a lado. – Acontece que... Bem, Harry, acontece que essa maldição só pode ser feita aqui nesse lugar.

- Aqui? Em Hogwarts?

- Sim. Ela só pode ser feita aqui, em nossos terrenos, ou não surte efeito algum. – Dumbledore suspirou. – Essa maldição foi inventada por um de nossos fundadores...

Harry nem precisava perguntar. Óbvio que o diretor se referia a Salazar Slytherin.

- ...junto com outro de nossos fundadores. – Dumbledore continuou e captou o que se passava na cabeça de Harry, como se pudesse ler pensamentos. – Eu sei, Harry, que você deve estar com o nome de Salazar Slytherin na sua cabeça agora. Mas ele não inventou essa maldição sozinho. Ele a inventou junto com Godric Gryffindor.

- Como assim? Isso... não é...

- Harry... – Dumbledore começou lentamente. – Nós já conversamos sobre esses dois fundadores uma vez.

Harry se lembrava. Foi quando contou a Dumbledore os seus sonhos com Gryffindor e Slytherin. Especificamente o sonho em que Gryffindor matava Slytherin, e Harry ainda tinha certeza – como teve naquele sonho, como apenas sentia que Godric Gryffindor não tivera a intenção de fazer o que fez. Que não queria o antigo amigo morto.

- Eu sei, professor...

- Pois então... – Dumbledore coçou o nariz. – Como eu lhe disse àquele tempo, nós não conhecemos nenhum dos dois, apenas através de quadros, que são uma imitação pobre das pessoas. E nós não podemos julgar as motivações e o que cada um dos dois era por causa disso. Nós sabemos que os dois eram amigos, Slytherin e Gryffindor. Que eles se desentenderam depois de alguns anos, por conta de Slytherin querer só admitir sangues-puros na escola, e por outros motivos também, é o diz a História da Magia, aula que, na minha sincera opinião, ninguém presta muita atenção aqui na escola...

Harry se lembrou do Professor Binns e de como realmente ninguém dava a mínima para a aula dele. Todo mundo, exceto, talvez, Hermione. Se bem que até ela não prestava atenção às vezes, já que essa era a aula que ela, Rony e Harry usavam para cochichar segredos.

- O que importa é que os dois eram amigos, Harry, e sonhavam em descobrir os segredos da magia juntos. Todos os fundadores tinham essa fome de conhecimento, eu diria que principalmente Rowena Ravenclaw, apesar de que Helga Hufflepuff fez várias descobertas muito úteis, principalmente no que diz respeito à alimentação... Enfim, estou divagando aqui, Harry. Os dois, Slytherin e Gryffindor, inventaram muitas magias e feitiços juntos, e alguns deles, só podem ser realizados aqui nos terrenos de Hogwarts, talvez pelas propriedades mágicas poderosas que estão impregnadas nessas terras. E essa maldição, Harry, essa maldição só pode ser feita aqui, e foi criada pelos dois.

E antes que Harry dissesse alguma coisa, Dumbledore encerrou a história dizendo que tinha absoluta certeza que Lord Voldemort não tinha colocado os pés em Hogwarts. Que ele não tinha como colocar os pés em Hogwarts, pelo menos não ainda.

- Então, foi alguém daqui de dentro. – Harry concluiu. – Ou que entrou na escola, que foi permitida sua entrada...

- Exatamente.

- Um aluno, professor? – Harry perguntou, sua cabeça se enchendo de desconfianças. – Um professor?

- Harry, é melhor tomar cuidado com suas suspeitas. Você pode atingir gente inocente. – Dumbledore sentenciou os olhos muito sérios por cima dos óculos de meia-lua. – E isso pode ser um caminho sem volta.

- Mas o senhor não está desconfiando de ninguém, professor? Não está procurando...

- Ora, Harry, assim você até me ofende. – ele retrucou em tom de brincadeira, mas Harry teve a sensação de que falava sério. – Eu estou procurando o culpado, certamente que estou. Eu e outros professores, que tenho total confiança.

Harry nem queria perguntar em quem Dumbledore confiava. Não queria se desagradar quando ele dissesse que confiava em Snape, por exemplo.

- E um aluno, então?

- Eu já disse, Harry. Estou procurando, pensando em todas as possibilidades. Agora, falar, acusar alguém, já é bem diferente.

Harry teve uma vontade súbita de sair dali. Quando Dumbledore começava a falar desse jeito, era certo que a conversa não ia dar em mais nada. Mas antes que o diretor encerrasse de vez a conversa, ele perguntou outra coisa que o afligia:

- E como eu consegui me salvar, professor? Como eu me recuperei?

Dumbledore se retesou e evitou olhar para Harry. Parecia muito interessado em uma borboleta azulada que pousou no parapeito da janela. Harry tinha ficado tantos dias no hospital, que o tempo já estava abrindo, e aquele dia, por exemplo, era um belo dia fresco de sol.

- Está um dia muito bonito lá fora, Harry. Eu sugiro que aproveite a tarde livre hoje e dê uma volta pelo terreno, talvez roubar alguns doces na cozinha, os elfos-domésticos com certeza vão ser muito prestativos, principalmente aquele seu amigo, Dobby.

- Professor!

- Harry, eu preciso ir andando. Tenho muitas coisas para fazer. – ele se levantou, e com passos rápidos, alcançou a porta. – Fico feliz que esteja bem, Harry. Até logo.

E foi embora sem responder à pergunta.

O que não significava que Harry não fosse procurar a resposta. Esperaria Hermione e Rony saírem das aulas, e contaria tudo a eles. Isso renderia várias visitas à biblioteca, mas o próprio Dumbledore lhe dera a dica do que fazer. Ele até tinha contado bastante coisa sobre a maldição, apenas tinha omitido como Harry se recuperou de algo que, aparentemente, não tinha como se recuperar, ou Dumbledore teria feito algo. Ou Sirius. Ou alguém teria feito algo antes.

Não precisava ser um gênio para saber que Dumbledore sabia como, aliás, sabia perfeitamente como Harry tinha se recuperado, apenas não queria contar.

Ou queria que Harry descobrisse sozinho.


Naquela noite, Harry não foi jantar no salão comunal. Não foi preciso, pois grande parte dos grifinórios também não foram jantar. Apesar de não terem ido buscá-lo quando Harry foi liberado, Rony e Hermione sabiam que ele iria sair da ala hospitalar àquele dia, e junto com Neville, Simas e Dino, roubaram comida das cozinhas (ou melhor, os elfos se desmancharam em preparar salgados, doces e bebidas para eles), e prepararam uma pequena festinha na sala comunal para o garoto. Havia até algumas cervejas amanteigadas, que depois de várias garrafas, Harry soube que foram Rony e Dino que escapuliram pela saída da bruxa de um olho só, e contrabandearam algumas garrafas de Hogsmeade.

Harry até esqueceu sua conversa com Dumbledore e suas preocupações com toda aquela animação e principalmente, comida boa, já que não agüentava mais a sopa rala servida na ala hospitalar. Rony disse que os gêmeos lhe contavam que a sopa da ala hospitalar era feita com o xixi da Madame Nor-r-ra, o que fez Harry cuspir toda a cerveja amanteiga que estava em sua boca naquele momento.

Foi só no final da noite, quando todos já tinham ido se deitar, sonolentos e de barriga cheia, e Hermione estava reclamando com Rony, pedindo que a ajudasse a limpar a bagunça da sala comunal ("Hermione, os elfos domésticos vão ficar felizes em limpar tudo mais tarde" – o amigo disse, mas como sempre a garota não queria se aproveitar da boa-vontade dos elfos, e estava usando feitiços de limpeza com muita habilidade, praguejando contra Rony de vez em quando), que Harry, meio tonto por causa da cerveja e cheio de sono, comentou por acaso:

- Dumbledore foi falar comigo hoje quando eu tive alta.

Hermione parou o que estava fazendo na mesma hora e se virou para olhar o amigo, e Harry achou que tivesse visto suas orelhas se erguerem para ouvir melhor, como fazia seu gato, Bichento.

Rony continuou arrotando e se afundando mais na cadeira. Seus olhos estavam turvos.

- E o que ele disse, Harry? – Hermione perguntou.

- Ah... – o garoto já tinha se arrependido de ter começado a conversa. Agora Hermione ia querer saber tudo, e ele estava morrendo de sono. – Ele falou sobre a maldição que eu tinha... – a amiga se sentou à frente de Harry, sua tarefa de limpar a sala comunal completamente esquecida. Até Rony abriu mais o olho e parecia estar escutando. Então Harry desistiu e acabou contando toda a conversa que teve com Dumbledore àquela tarde.

No final, Hermione já estava enumerando quais livros da biblioteca poderiam ajudá-la, mas Rony se deteve em outro detalhe:

- Mas se Dumbledore diz que com certeza a pessoa que lhe colocou a maldição foi alguém aqui de dentro... Quem poderia ter sido? – os três ficaram em silêncio por alguns instantes, pensando. Hermione se remexeu incomodada na cadeira, e tinha aquela expressão de quem tinha acabado de ter uma idéia inadequada. – Malfoy?

- Ah, Rony, você sempre pensa em Malfoy! – Hermione retrucou irritada. – Até parece que ele tem intelecto para fazer uma coisa dessas. Ou habilidade para tanto.

- Então quem você acha que pode ter sido, garota detetive? – Rony ironizou.

Hermione se remexeu na cadeira de novo, como se estivesse sentada em uma batata quente, e cruzou os braços, evitando olhar para Harry.

- Pode falar, Hermione. – o garoto disse, e começou a suspeitar do nome que estava rondando a cabeça da amiga. Sabia que era por isso que ela não queria falar quem era.

- Ah... não é óbvio? – Hermione perguntou com aquela voz de sabe-tudo que usava desde o primeiro ano. – A sua amiga, Harry. Katherine Williams.

Involuntariamente, Harry sentiu duas coisas: o estômago borbulhar de indignação e o rosto aquecer ligeiramente. Rony sentou direito na cadeira pela primeira vez, e olhou boquiaberto para Hermione, que agora batucava o pé no chão, mas encarava Harry com firmeza. É claro, Hermione não era nenhuma idiota. Ela já sabia há muito tempo do envolvimento de Harry com Kate, e ninguém tinha contado para ela. Rony não tinha contado, Harry tinha certeza disso. Ninguém precisava contar, aliás. Mas o que deixava Harry mais irritado, mais indignado do que Hermione saber de tudo, sempre, ou da amiga ter acusado Kate era que...

Era que provavelmente, Hermione tinha bons argumentos para pensar aquilo e, possivelmente, ela até pudesse ter razão.

Mesmo assim, Harry disparou:

- E por quê você acha isso, Hermione? Você não tem provas.

Mesmo sem querer, Harry se lembrou de Dumbledore dizendo que não poderia falar sobre suas suspeitas ao garoto, pois não tinha provas.

A amiga olhou de Harry para Rony, e de Rony para Harry, quase bufando.

- Não pensem que não fiquei magoada pelos dois ficarem de segredinhos comigo todo esse tempo. Principalmente você! – ela apontou para Rony, que se encolheu um pouco, mas conseguiu responder com dignidade:

- Era um segredo do Harry, Hermione! Pelas cuecas de Merlin, eu não podia contar a você!

E soltou um palavrão, cruzando os braços, indignado com aquela injustiça de levar a culpa por ter protegido o amigo.

- Eu pedi a ele que não contasse, Hermione. Porque eu sabia que você ficaria assim, com essa cara, e ia querer me dar um sermão.

Hermione suspirou e descruzou os braços. Harry insistiu.

- Você não respondeu por que acha que ela é a culpada, Hermione. – então Harry se encheu de coragem para colocar em palavras o que não queria nem pensar. – Você acha que ela seria capaz de fazer isso comigo? De tentar me matar?

- Harry... – Hermione começou lentamente, agora como se falasse a uma criança teimosa, mas que precisasse de jeito para compreender aquilo. – Harry, ela passou muito tempo perto de você... Ela tinha a oportunidade perfeita de pegar algo seu para fazer a maldição! E ela não é burra que nem o primo dela. – a garota disparou um olhar duro para Rony, que xingou em voz alta de novo. – Eu acho que ela seria capaz sim de fazer isso. Talvez seja por isso que se aproximou de você desde o começo, Harry.

Hermione finalizou todo aquele discurso, que ela provavelmente já tinha pensado em dizer a ele desde que ele contou o que Dumbledore falou, com um tom quase penalizado. Mas nem isso, nem o olhar confuso que Rony lhe lançou eram capazes de consolá-lo depois daquilo.

Todo esse tempo, tudo o que tinha acontecido entre ele e Kate... As lágrimas, os abraços, as palavras, os segredos, beijos roubados... Será que eram apenas mentira? Será que tudo o que ela queria, desde o início, era um meio de matá-lo?


Harry não sabia dizer se seu retorno às aulas, à vida normal, tinha sido um alívio ou apenas uma sucessão de más notícias.

A primeira coisa tinha sido enfrentar a escola toda no salão comunal para tomar o café da manhã. Algumas pessoas vinham falar com ele, dizer que estavam felizes por vê-lo de volta, outros apenas pareciam surpresos por ele estar vivo, talvez até furiosos – como Draco Malfoy, por exemplo, e Snape, que tinha uma expressão de que tinha acabado de chupar um limão inteiro. Mas todos que falavam com Harry tinham algo em comum: enchiam-no de perguntas irritantes sobre o que tinha acontecido e como ele tinha sobrevivido – outra vez.

Os mais diversos boatos tinham circulado durante as seis semanas que Harry ficou na ala hospitalar. Alguns se aproximavam assustadoramente da verdade, enquanto outros eram tão absurdos que pareciam até piada, mesmo que as pessoas que os contassem dissessem aquilo com os olhos arregalados em choque, as bocas tapadas e um tom sombrio. Rony se dobrou de rir no chão quando um primeiranista corajoso da Lufa-Lufa veio perguntar se Harry não tinha sofrido do Mal de Taddeus Thurkell. Depois de se recuperar do ataque de riso, Rony explicou que aquela era uma história inventada pelas famílias bruxas para apavorar as crianças, quando ainda eram pequenas, para que demonstrassem sua magia. O bruxo que dava nome à maldição tinha tido seis filhos abortos, e transformou a todos em porcos-espinho. Os pais diziam aos filhos que eles virariam porcos-espinhos caso não demonstrassem sua magia até os onze anos de idade. Dizia-se que a pessoa sofresse do Mal de Taddeus Thurkell, depois de demonstrada a magia, perderia seus poderes e viraria um porco-espinho para sempre.

Além disso, Harry descobriu que perdeu muita matéria, então tinha que correr para alcançar os colegas, e Hermione já estava cuidando disso, passando todas as aulas para Harry nas horas de folga, até mesmo durante o almoço, repetindo o tempo todo que eles estavam atrasados para o estudo dos N.I.E.M.s, que seriam dali a dois meses. Rony fingia que não ouvia quando ela dizia essas coisas, e dizia a Harry que era a vez dele ouvir Hermione, pois ele tinha feito isso por quase dois meses sozinho. Harry retrucava dizendo que Hermione era namorada de Ron, e não dele. E ainda tinha o fato de que, depois de passar tanto tempo na ala hospitalar, Harry achava que estava morando na biblioteca, pois quando não estava revisando matéria antiga, Hermione estava arrastando os dois para lá, procurando livros na ala reservada que pudessem ajudá-los a descobrir mais sobre a maldição, e que pudessem dar pistas sobre como Harry tinha sido amaldiçoado e por quem.

E por falar em quem, nos dois primeiros dias que Harry voltou, ele não viu Katherine nem nos corredores, nem no salão principal e nem na aula de Poções, que dividiam com a turma da Sonserina. Foi durante uma aula de Herbologia, na qual Harry aproveitou que Hermione estava distraída, que ele perguntou a Rony:

- Ei, desde que eu saí da ala hospitalar eu não vi a Kate, Rony... Você não disse que a tinha visto enquanto eu estava internado, nas aulas de duelo, e tudo mais?

Rony verificou se Hermione estava distraída mesmo, mas a garota parecia muito concentrada em ler o seu livro de plantas mágicas e separar os adubos.

- Eu a vi sim antes de você sair de lá da ala, Harry... Mas, depois, eu não vi mais. Também não fiquei procurando, né, você que está interessado na garota.

E deu de ombros, como se Harry tivesse perdido um parafuso da cabeça no meio da terra.

- Mas não é estranho? – Harry insistiu. – Será que ela ficou doente também?

- Isso seria realmente estranho, não acha? – Hermione perguntou, e Rony deixou cair seu vaso no chão tamanho foi o susto, praguejando e perguntando de onde ela tinha surgido. – Eu ainda estou aqui, meninos. – ela disse observando Rony recolher os cacos do vaso e sujar as mãos de terra, xingando baixinho. – Harry, você deveria tirar essa garota da cabeça. Não acha estranho ela não estar aparecendo justo logo depois que você saiu da ala hospitalar?

Harry enfiou a raiz que segurava com força no meio da terra e disse à amiga que era melhor voltarem à aula de uma vez, e que o assunto estava encerrado.

Mas depois das aulas do dia, Harry conseguiu se desvencilhar dos amigos na sala comunal, e foi direto à ala hospitalar.

- Oh por Merlin, mas você já está de volta? – Madame Pomfrey perguntou com um ar exausto. – O que foi dessa vez, menino?

- Não, não é nada comigo... É só que...

E ele perguntou se por acaso Katherine Williams tinha dado entrada ali. Resposta negativa.

Harry saiu dali e começou a andar a esmo pelo castelo, cansado e abatido, tentando encontrar uma razão justa para Katherine não ter aparecido em lugar nenhum esses dias. Mas as palavras de Hermione ficavam martelando em sua cabeça como ferrões de abelhas, e ele sempre voltava àquela conversa que teve com os amigos, quando Hermione declarou abertamente suas suspeitas. Rony não tinha dito nada, nem a favor, nem contra, mas Harry sabia que ele não achava legal Harry se encontrar às escondidas com uma "sonserina-prima-do-Malfoy". Ele costumava falar que Harry parecia que gostava de viver perigosamente.

Na verdade, seus pés o tinham levado sozinho ao corredor onde sabia estar a gárgula que protegia a entrada da sala de Dumbledore quando ouviu passos na direção oposta. Tanto ele, quanto a outra pessoa, pararam de andar e ficaram se encarando.

- Kate?

A voz de Harry não saiu como ele tinha planejado quando a reencontrasse; estava pastosa, confusa, quase surpresa. A garota mordeu os lábios, desviando o olhar rapidamente. Ela tinha olheiras grandes em torno dos olhos e (seria a imaginação de Harry), parecia ter emagrecido e estar mais pálida do que o normal. Seus cabelos estavam bagunçados e ela torcia as mãos enluvadas, como se não soubesse o que fazer com elas, como se as luvas a incomodassem.

- Oi, Harry.

Ele registrou o uso do primeiro nome dele. Da última vez que tinha falado com a garota, ela tinha brigado com ele, sem nem ao menos deixá-lo se explicar, e depois disso eles mal trocavam palavras, e quando o faziam, ela fazia questão em chamá-lo pelo sobrenome com o máximo de desprezo que conseguia juntar.

Ela pigarreou, mas ainda não o olhava nos olhos.

- Então você melhorou.

- Você soube que eu estava mal?

Harry gostaria que ela dissesse que sim. Que tinha se preocupado. Que apenas não fora visitá-lo porque não queria chamar a atenção. Que o tinha visto às escondidas. Que tinha se importado com ele.

- Correram boatos pela escola. – ela deu de ombros. – Que bom que está recuperado.

Nenhum sinal. Nenhuma pequena ou minúscula demonstração de preocupação com ele. Harry tinha quase morrido, e tudo o que Katherine sabia sobre isso eram os estúpidos boatos que corriam pela escola.

Sem que Harry percebesse, um monstro começou a se formar no seu estômago e as palavras de Hermione não pareciam mais tão absurdas – aliás, nunca tinham sido. Talvez a amiga estivesse certa, afinal. Talvez não fosse apenas uma implicância preconceituosa dela e de Rony.

- Você sumiu esses dias. Desde que eu saí da ala hospitalar.

Seria a intenção de Harry soar tão acusador assim?

Katherine o olhou por um breve instante, então desviou o olhar de novo.

- Eu estive fora de Hogwarts esses dias. – ela disse com uma voz quase casual. – Eu sou a única herdeira da minha avó. Precisei resolver uns problemas sobre isso. Pedi licença ao Professor Dumbledore para fazer o que precisava fazer.

Não importava como ela dizia aquilo, ou o quanto tinha ensaiado aquelas palavras; Harry não as comprava. Ele só conseguia sentir seu sangue borbulhar mais e mais, e o monstro crescer dentro dele com mais intensidade.

- É mesmo? Foi isso mesmo, Katherine?

Ela ergueu os olhos e o encarou pela primeira vez.

- O que você está querendo dizer, Potter?

- Que você está mentindo para mim. É isso que eu estou dizendo.

Ela respirou fundo e engoliu várias palavras que lhe vieram à boca.

- O que eu faço da minha vida não lhe diz respeito. Eu já fui muito legal lhe dizendo o que eu fui fazer. Se não acredita, problema seu. – a voz dela tremia, e Harry notou que ela fechou os punhos, e que eles tremiam também.

- Mas se me diz respeito, se me atinge... É problema meu sim.

- Você está insinuando que...? Fale de uma vez.

- Eu quase morri, sabe. Alguém jogou uma maldição em mim. Até hoje não sei como escapei. Ninguém sabe me dizer.

Katherine caminhou sem pressa até chegar ao lado de Harry e dizer, sem olhar para ele:

- Então agora eu tenho certeza que foi um desperdício você continuar vivo.


Notas da autora: Sabem, eu nem sei como começar. Eu fiquei... três anos sem atualizar a fic. Um monte de coisa aconteceu nesse meio tempo, mas o maior motivo foi que eu simplesmente desanimei com ela. Ela virou para mim algo incoerente, e eu acabei me distanciando cada vez mais dela todo esse tempo. Mas sempre via as reviews que deixavam aqui, e ficava feliz e chateada, feliz por vocês ainda lerem algo que eu considerava perdido, e chateada por não saber se iria ou não continuar. Eu tinha um sentimento ruim em abandonar a fic, e ao mesmo tempo não sabia se conseguiria continuar.

Há algum tempo, voltei a escrever (originais, na verdade) e voltei aqui ao profile e perguntei se os leitores não se importavam que eu postasse apenas os rascunhos e a trilha da história, para vocês saberem o que aconteceu. Acabou que eu recebi mensagens bem legais, dizendo para não fazer isso, para dar um fim digno à história. Voltei a escrever apenas por causa disso, e terminando esse capítulo que, aliás, eu nem acredito que terminei, eu posso dizer que estou satisfeita por ter voltado a escrever. Não está sendo fácil, porque eu esqueci muita coisa, e estou morrendo de medo de deixar pontas soltas. Estou procurando minhas anotações antigas (algumas eu escrevi em papel, então...), e estou relendo aos poucos a história, pegando as partes importantes, montando o quebra-cabeça que eu mesma preparei.

Aliás, eu estou reformulando alguns pontos na história, tanto que vão perceber que a sinopse que eu geralmente faço para o próximo capítulo não condiz com o que eu postei. Aquilo que eu tinha postado vou deixar para depois na fic...

Então vou pedir um favor a vocês (quem ainda leia a fic, que ainda acompanhe, que ainda tenha paciência comigo e não tenha me amaldiçoado por 30 gerações bruxas uhahauhahuauhaha). Vou pedir a vocês que comentem o que estão curiosos para saber a resposta, os segredos que querem descobrir, as coisas que aconteceram que lhe deixaram curiosos. Basicamente é falar que perguntas vocês têm que desejam que eu responda. Isso me ajudou no final da minha outra fic (a Nena), porque os comentários me faziam refletir, analisar e juntar todas as pontas soltas que criei (e algumas eu criei sem querer rs). E devo dizer que pelo meu planejamento, a fic está perto do final. Acho que se eu escrevesse há três anos, eu enrolaria muito mais, mas agora que já passei da minha "escrita-enrolação", eu vou deixar a história mais ágil e direta ao ponto – mas sem perder o romance, o humor e as reviravoltas, claro.

Acho que é isso, gente. Eu não consegui responder às reviews, mas saibam que eu leio e acompanho todas, e cada palavra é importante, tanto que estou pedindo esse grande favor a vocês. Agradeço a todos por terem acompanhado a fic até aqui, terem tido paciência e sido maravilhosos. Obrigada!

Ah, e para quem não sabe, eu tenho um blog que falo sobre escrita, e lá eu também falo das fics, posto trechos da CdE etc. Se quiserem visitar, aí vai o endereço: .com/

Até a próxima e espero que seja breve! (vou cuidar para que seja)