-Atrações, Brigas e Conversas-

-Rachel, acorda, criatura.

-Deixe ela dormir... Não é a melhor semana dela, você sabe, Lils – Alice abriu a porta do dormitório, pronta para sair. – Bom, até logo, meninas.

-Até – eu e Lene murmuramos juntas.

-Leans! – Marlene jogou seu travesseiro com toda a falta de delicadeza do mundo em cima da amiga.

-Ah, por Merlin, Lene – Rachel cobriu o rosto com o edredom e virou para o outro lado.

-Temos aula hoje, sabia?

Os resmungos foram abafados pelas cobertas, impossíveis de serem decifrados.

-Rachel, hoje já é terça, a desculpa da noite em claro já não vale mais – usei um tom de mãe.

-O que significa que o Remus já saiu da enfermaria – dessa vez seu manifesto foi ouvido.

-Ah, fala sério, Rachel! O que aconteceu com você, hein? – Marlene puxou bruscamente o edredom dela.

-Merlin, essa não é a minha amiga. A Rachel que eu conheço jamais fugiria de seus problemas.

-Se eu esbarrar com ele, eu vou brigar. Eu não quero brigar, Lils – ela finalmente se levantou e foi para o banheiro se arrumar.

Brigar... Por que pessoas que se atraem acabam sempre em brigas? Marlene e Sirius são a prova viva disso... Eu e Tiago estamos começando a entrar nessa... e, agora, Rachel e Remus também.

-Você me decepciona, sabia, Leans? – Marlene revirou os olhos. – Que falta de atitude, humpf.

-A Lene tem razão, ficar se escondendo não vai ajudar em nada.

-Vai ser mais difícil depois, acredite.

-Vocês vão se afastar cada vez mais.

-E eu irei lhe deserdar pela sua fraqueza, Leans.

-Tá, já chega, eu já acordei! – Rachel berrou através da porta, ligando o chuveiro em seguida.

Embora eu estivesse crente de que alguma alma depressiva tivesse tomado conta de minha amiga, ela tinha um ponto. Sei lá, brigar era algo que eu também queria evitar desesperadamente... A minha última briga com Tiago tinha me machucado muito.

-Pronto, conselheiras hipócritas, podemos descer – Rachel surgiu exalando um humor impecável e com um sorriso vulpino no rosto.

-Hipócritas... – murmurei, balançando a cabeça, enquanto saíamos do dormitório feminino. – Você vai falar com ele?

-Eu sempre falo.

Franzi a testa, não entendendo muito bem a súbita volta ao normal daquela garota.

Quando eu e Marlene paramos no meio da mesa da Grifinória, prontas para sentar, Rachel deu alguns passos a mais, só depois olhando para trás. Ela fez uma expressão de "o que vocês estão fazendo?" e, com a cabeça, indicou para que continuássemos a andar. Para minha surpresa, ela parou exatamente onde os marotos estavam, sentando-se ao lado de Sirius. Eu a segui e Marlene, que estava do outro lado da mesa, sentou-se ao lado de Tiago, com Remus mais adiante.

-Bom dia – Rachel cumprimentou-os animadamente, fazendo com que eu e Marlene trocássemos um olhar extremamente confuso.

-Bom dia, meninas – eles responderam em uníssono. Eu tive a impressão, no entanto, que só Sirius completou com "meninas", mas, bom, isso não tem relevância alguma.

O café da manhã foi estranho, obviamente. Isso porque Remus e Rachel não sentavam juntos desde sexta-feira e Tiago parecia mais preocupado com o próprio prato do que com a conversa.

-Lily – Tiago me puxou durante a primeira troca de aulas.

-Que foi? – respondi secamente.

-Você não está brava, está?

-Sim, eu estou brava, chateada e revoltada – peguei minhas coisas e comecei a andar.

-Lily...

-Escuta, Tiago, eu não quero brigar, ok? – Parei no meio do corredor no momento em que ele segurou meu pulso. Quando fuzilei sua mão, ele me largou.

-Eu sei, eu também não quero... Podemos conversar?

-Bom, você tem o tempo de o sino tocar e nada mais.

-É o suficiente.

-Diga – suspirei, tentando me acalmar.

-Eu sei que eu agi errado...

-Que bom que reconhece.

-Posso terminar? – Quando eu assenti, ele prosseguiu. – Desculpa se eu falei mais do que devia, ontem. É que, desde setembro, muita coisa mudou... É difícil entender, você tem razão.

Merlin... Por acaso Tiago estava me dizendo que também estava confuso? Eu podia jurar que eu era a única estranha naquele castelo.

-Se isso acabar com nossas brigas, sim, eu posso te desculpar, Tiago.

-É complicado dizer, mas espero que acabe sim – ele deu um meio-sorriso. – Amigos?

-Óbvio – revirei os olhos, rindo, e comecei a andar. Ele me seguiu. – O que é difícil de entender?

-Ahn? Ah, sim... O que há entre nós.

-Ah – engoli em seco. – De fato.

-Não, você não pegou a idéia. Eu não consigo entender a sua parte da história.

-A sua você entende? – Levantei uma sobrancelha.

-Agora, depois de pelo menos dois anos, sim – ele parou no meio do caminho e me segurou suavemente pelos ombros. – Lily, eu te—

-Não – apressei-me a colocar a mão em sua boca, tirando-a em seguida. – Não diga, por favor...

Será que ele ia dizer o que eu pensei? Ah, Merlin... Mesmo depois de tê-lo impedido de prosseguir, meu coração disparou.

-Tudo bem, eu não vou pressioná-la – ele sorriu e nós voltamos a andar.

Pouco antes de adentrarmos a sala de aula, ele adiantou-se e parou em minha frente, quase provocando uma colisão.

-Ainda assim... adorei saber que gosta de mim – ele sorriu marotamente e adentrou a sala.

-Besta – murmurei, mas não consegui evitar um sorriso.

Por mais idiota que eu tenha sido ao revelar meus sentimentos a Tiago Potter, foi como ter tirado um peso de minhas costas. Bom, isso depois desta última conversa, claro, porque antes... Senti que nossa amizade seria mais sincera, transparente, próxima do ideal. Talvez esse fosse o caminho correto para que meus sentimentos se desenvolvessem... não importando para que lado.

-Vai devolver meu pergaminho ou eu terei de usar a força? – Marlene lançou um olhar ameaçador para Sirius, no final da tarde.

-Hmm, acho que eu gosto da força – Sirius sorriu maliciosamente e Marlene voou em cima dele. – Ahn-ahn, nem pensar – ele ergueu o rolo de pergaminho de forma que Lene, mesmo na ponta dos pés, não alcançasse. Os dois estavam tão próximos que era meio constrangedor olhar a cena... assim deveria pensar também o resto dos estudantes.

-Se é assim – Lene sacou a varinha e encostou sua ponta no queixo de Sirius. – Devolve.

-Oh-ho, calminha aí.

-Anda logo, Black.

-Com pressa, Lene? Ouch – Marlene empurrou a varinha na garganta do grifinório. – Extremamente sutil, McKinnon. Aqui está – ele abaixou o pergaminho e Marlene fez o mesmo com a varinha. Neste momento, Sirius raptou a arma da morena. – E agora, como fica?

-Maldito.

Não preciso nem dizer que a perseguição mais famosa da história de Hogwarts aconteceu novamente. Enquanto isso, Remus lia um livro, encostado na árvore, Tiago desenhava alguma coisa, debruçado na grama, e Rachel, deitada, brincava de jogar uma bolinha para o céu com toda a força, capturando-a em seguida. Obviamente, para reparar nisso tudo, eu não estava fazendo nada.

-O que você tanto desenha aí? – Perguntei a Tiago.

-Você – ele respondeu sem tirar os olhos do pergaminho. Bom, aquela não foi a resposta mais confortável que ele podia dar... Eu corei.

-Deixa eu ver.

-Não, espera – ele sentou e sacou a varinha, murmurando algum feitiço no desenho. – Pronto, pode ver.

Eu raptei o pergaminho sem titubear, já esperando um momento embaraçoso. Pois é, eu estava errada. Levantei uma sobrancelha... Então era isso que ele estava desenhando? Tiago desabou em gargalhadas.

-Desgraçado – amassei o pergaminho e taquei na cabeça dele.

-É um momento memorável, o que eu posso fazer?

Revirei os olhos, pois o desenho animado dele mostrava o momento mais tenebroso de minha vida: aquele em que eu estiquei a mão, levei um balaço na cabeça, engoli o pomo e sai rodopiando pelo ar.

Quando as risadas de Tiago cessaram, Rachel capturou a bolinha em um movimento rápido e barulhento, pondo-se sentada. Eu pude sentir o ar impaciência em torno dela.

-Lily, Lily, você amassou minha obra-prima!

-Ah, e o que você vai fazer? Vou ter que treinar a semana inteira sozinha, é? – Caçoei dele, rindo.

-Na verdade, você me deu uma idéia – ele sorriu marotamente.

Instintivamente, lancei um olhar questionador a Rachel, pois tive a certeza de que Tiago me arrastaria para longe dali. Ela deu de ombros a abriu um meio-sorriso.

-Vem – Tiago pôs-se em pé e começou a me puxar pela mão. Minha espinha formigou.

-Tiago! – Encarei mais uma vez minha amiga e movimentei os lábios para dizer-lhe um "calma" sem som. Ela respondeu com um aceno discreto de cabeça.

Depois de ser praticamente arrastada para longe deles, olhei para trás, percebendo que Remus levantara os olhos de seu livro em uma expressão ligeiramente alarmada, enquanto Rachel mantinha a expressão firme em sua direção.

-Dá pra parar de olhar? – Tiago apressou o passo, ainda segurando minha mão.

-Será que eles se acertam?

-Se voltarão a conversar? Com certeza - ele respondeu com descaso, sem me encarar.

-Não foi isso que eu perguntei...

-Nesse caso, não hoje.

-Por que não?

-Ah, Lily, é complicado... O Aluado quer pelo menos tentar afastar os sentimentos de Rachel... e os dele também.

-Ele não vai conseguir.

-Eu sei que não, mas, se ele quer tentar, vai demorar alguns dias pra perceber que não dá certo.

-Isso foi um desabafo? – Ergui a sobrancelha, praticamente cambaleando com os passos rápidos de Tiago.

-Digamos que eu tenha demorado algum tempo – ele riu.

-Pra onde estamos indo?

-Para a Sala Precisa.

-Quê? – Parei repentinamente, quase me estatelando no chão.

-Calma, ruiva, eu não vou te beijar – ele tornou a andar e eu revirei os olhos.

-Você não é o centro do universo, sabia?

-Do seu às vezes pareço – ele virou o rosto apenas para sorrir rapidamente.

-Convencido.

-Obrigado.

-Ah, espera... – eu parei novamente. – Você não tinha marcado com a Lene e o Sirius...

-Sim, um treino físico para batedores.

-Ai.


Foram dias desesperadores, esses que se passaram... Além dos treinos leves de quarta e da maratona dos finais de semana, Tiago começou a marcar encontros na Sala Precisa com todo o time, já que não era um lugar muito conhecido entre os alunos e, portanto, normalmente desocupado. Lá, fazíamos treinos físicos e alguns ensaios táticos, sempre sem vassouras e usando objetos como bolinhas de borracha, bastões de madeira... Era o treino que eu mais odiava, uma vez que a única coisa que me unia ao quadribol era a vassoura.

Sabe pra que tudo isso? O próximo jogo, em março, é contra a Sonserina... É, eu sei, tava estupidamente longe, mas é que Tiago é meio apressadinho.

Rachel e Remus começaram a me dar raiva... Eles simplesmente voltaram a se falar como os melhores amigos que Merlin já criou, sem brigar nem nada. Obviamente, demorou muitos dias pra isso acontecer, mas, mesmo assim! Eles estão separados, caramba! Humpf.

De qualquer forma, em uma quinta-feira anterior à lua cheia, Tiago e Sirius tiveram a brilhante idéia de fazer um "passeio" a Hogsmeade, aproveitando o humor do ex-casalzinho para tentar juntá-los novamente. Ah, Hogsmeade e seu ar afrodisíaco... O grande problema deste plano genial? Estava frio... muito frio.


Curto, eu sei, sorry xD

Para os desocup-- digo, curiosos, postarei uma versão reduzida e modificada do término do namoro de Rachel e Remus em Contos Hogwartianos, da mesma maneira que fiz com a versão modificada do aniversário de Sirius e Marlene... ah, deixem-me brincar, vai rss

A previsão para o próximo é na sexta que vem, mas tudo pode mudar xD