Ginny estava sentada na grande cadeira em frente à lareira da sala pensando em Harry e escutava vagamente a Joanne, que relatava os acontecimentos dos últimos dias. Eram eventos que Ginny tinha perdido por estar cativa no quarto de seu marido, escrava de todos os seus caprichos. Ela sorriu ao recordar a expressão dele quando o acusou daquilo. Então se ruborizou ao pensar no que ele havia feito a seguir.
Inclinou a cabeça para trás e sorriu para o fogo. Foram quatro dias de puro êxtase. Tinham deixado o quarto só para usar o banheiro ou esgueirar-se até as ameias para passear. Ela teve Harry completamente para si. E como ele amava! Seus joelhos fraquejavam só de pensar. E ai, que arrogante era a respeito de tudo. Nunca cessava de agradá-la para que fizesse alarde de suas habilidades. Não tinha outra opção, mas sinceramente concordava com ele.
— Ginny, você não está escutando. — Joanne repreendeu.
Ginny sorriu para a menina sentada no banquinho frente a ela.
— Desculpe, querida. Você estava falando sobre o nosso livro?
Joanne suspirou da maneira como fazem os adolescentes quando tratam de serem pacientes com pessoas mais velhas não muito inteligentes.
— Terminamos de falar disso há muito tempo. Estava me perguntando se podia chamá-la de "mamãe".
Pela primeira vez Ginny notou o brilhante rubor nas bochechas de Joanne. Ficou tão comovida pela pergunta que as lágrimas se juntaram nos olhos. Abraçou Joanne com força e pressionou um beijo gentil em sua testa.
— Claro que pode, coração. Adoraria ter você como filha.
Joanne rompeu em soluços e se agarrou a ela.
— Eu estava com tanto medo que me dissesse nay.
— Minha doce Joanne, por que eu iria dizer que não?
Harry entrou na câmara, no momento em que as lágrimas de Joanne se reduziam em meras fungadelas. Levantou uma sobrancelha questionando e Ginny sorriu. Ele cruzou o quarto, pôs Joanne de pé e, em seguida, se inclinou e suavemente limpou as lágrimas de seu rosto com o polegar.
— O que é isto? — ele perguntou sério. — Porque estas lágrimas, pequenina? Não conhece o conto da menina que chorou tanto que suas lágrimas encheram a câmara e se perdeu flutuando junto com todos seus móveis?
Joanne abraçou a cintura de Harry.
— Ginny disse que eu podia chamá-la de mamãe. Estou apenas feliz.
— Hrumm, — disse Harry, franzindo o cenho pensativamente. — Entendo. — esfregou o queixo com sua mão livre e seu olhar se perdeu no espaço. — E se você a escolheu para sua mãe, isso quer dizer que também deve precisar escolher um progenitor. Não é assim?
Ginny observou como a menina olhava Harry tristemente, com muito medo na voz para expressar sua frágil esperança. Ginny rezou para que Harry escolhesse suas palavras com cuidado. Quando o viu procurando com o olhar uma cadeira, ela se levantou e fez um gesto para que se sentasse.
Harry o fez e aconchegou Joanne em seus braços.
— Vamos falar um pouco sobre esse progenitor que você deve escolher. Ele deve ser forte, aye?
Joanne assentiu.
— Talvez Laird de um poderoso clã. — Harry acrescentou. — É obvio que deve ser bem respeitado, para que possa escolher entre vários um marido para você. Embora, sem dúvida, ele encontrará um homem de sua própria casa para isso. Um rapaz que se assemelhe a ele, um pouco.
— Você acha? — Joanne perguntou timidamente
Harry grunhiu.
— Vamos ver o que faz o rapaz por sua conta. Atrevo-me a dizer que este Laird vai ser muito seletivo na hora de escolher. Tem alguma outra preferência a respeito de seu pai? Talvez ele devesse ser áspero e resmungão, e certamente deve bater em você com regularidade para mantê-la obediente. E, obviamente, vai esperar que você o chame de papai e que lhe leve cerveja quando pedir. — tamborilou seus dedos no braço da cadeira. — Me atrevo a dizer que ele espera que continue aprendendo suas letras e que tome uma hora ocasionalmente para desenhar, ou o que seja que escuto que rabisca por horas em seu quarto. — ele a olhou com arrogância. — Considerando tudo, eu diria que sou sua melhor opção. Você concorda, é obvio.
Harry gritou involuntariamente quando Joanne se jogou em seus braços e o abraçou com todas suas forças. Ginny sorriu. Harry era tão doce.
— Eu te amo, Harry. — disse Joanne, com a voz trêmula.
— Papai. — Harry a corrigiu.
— Papai. — disse Joanne reverentemente, apoiando sua cabeça no ombro dele. Ela sorriu olhando para Ginny. — Não é ótimo?
Ginny sorriu e chegou a dar um leve puxão no vestido de Joanne.
— Sim, querida, é.
— Será que podemos mostrar o livro para ele agora? — perguntou Joanne ansiosamente.
Ginny assentiu e sorriu para Harry enquanto Joanne descia de seu colo.
— Eu te amo. — ela falou movendo apenas os lábios.
Ele tentou parecer duro, mas falhou miseravelmente. Ginny sabia que o pedido de Joanne o tinha emocionado mais do que ele tratou de admitir. Harry expressou genuína admiração pelo livro, emitindo vários "ooh" e "aah" à medida que passava as páginas. Então ele fez Joanne guardar o livro no baú e lhe mostrou onde a chave foi escondida. Depois de um último grande abraço, ele emitiu sua primeira ordem como pai, pedindo que o deixasse em paz. Joanne partiu alegremente após vários abraços e beijos da parte de cada um de seus recém-adquiridos pais.
Uma vez que ela se foi, Harry puxou Ginny para seu colo.
— Olá, esposa. — ele sorriu. — Senti saudades suas esta manhã. Por acaso meu beijo de despedida não deixou nada a desejar?
Seu beijo de despedida podia ser mais adequadamente descrito como um apaixonado momento que a deixou sem fôlego por uma boa hora depois que ele vestiu suas roupas e saiu do quarto.
— Sim, deixou. — disse ela solenemente.
Ele imediatamente se ofendeu.
— O quê?
— Só mais do mesmo. — ela murmurou, enquanto pressionava seus lábios contra a orelha dele.
Seu grunhido arrogante a fez sorrir abertamente. Céus, que ego tinha seu Laird.
— Na realidade, eu vim buscá-la para outro propósito, além de saquear seu doce corpo.
Ela se afastou e olhou para ele.
— E que é…?
— Decidi que você tem que aprender a se defender. — sua expressão se tornou séria. — Relutei e me preocupei muito com esta decisão, e por mais que me desgoste forçar a perda de sua inocência, creio que é necessário. Planejei que você nunca esteja sem os homens ao seu lado, mas há certas ocasiões que isso pode ocorrer, e não vou deixar você indefesa.
— Harry, eu não sou estúpida, — disse ela suavemente. — Cresci com cinco irmãos, lembra-se?
— Eles nunca chegaram perto de você com um punhal? Ou uma espada?
Ela suspirou.
— Você sabe que não.
— Então, talvez o seu mundo seja menos violento que o meu. Mas, como estes são meus tempos você deve se endurecer para o seu bem; aqui estão os perigos que deve aprender a enfrentar. Eu não vou tê-la a mercê de alguém de quem gostaria de escapar, mas se você tiver conhecimento... Aproveitaremos o que você aprendeu com seus irmãos e melhoraremos a partir disso. — ele sorriu com tristeza. — Não tem idéia de como isso me desgosta, Ginny. Se houvesse outra maneira…
Ginny sabia que seria considerada uma idiota se não concordasse. O mundo de Harry era de longe, muito diferente do dela.
— Tudo bem. — disse suspirando — O que quer que eu faça?
— Vista-se com as polainas de lã e a túnica que encontrará em nossa cama. E coloque suas botas. Vou esperar você descer.
Meia hora depois ela estava frente a Ian no jardim, segurando uma adaga na mão e observando o punhal na dele. O que ela queria era sair dali. A expressão de determinação no rosto de Harry era o que a mantinha em seu lugar.
Depois do que lhe pareceu horas de aprendizagem para evitar os ataques de Ian, ela teve o suficiente. Ela podia se defender bem o suficiente, mas não podia, por sua vida, tirar a adaga da mão de Ian. Finalmente, seu sorriso zombeteiro a fez tão furiosa que começou a aproximar-se dele usando cada um dos truques que tinha aprendido em sua aula de autodefesa. Não foi um combate bonito, mas uma luta de rua, e Ian não tinha idéia de como reagir. Antes dele saber, estava estendido no chão com o joelho dela encravado desconfortavelmente em sua virilha e seus dedos pressionando o canto interno de seus olhos.
— Você, menina sem honra! — Ian suspirou. — Será que ninguém lhe ensinou que há linhas que não são atravessadas?
Ela rolou para longe dele e se sentou de pernas cruzadas no chão, olhando para Harry com cansaço.
— Não posso mais por hoje. Por favor, Harry.
O rosto de Harry era inexpressivo.
— Não foi uma má exibição. Trabalharemos novamente amanhã.
— Não foi uma má exibição? — repetiu Ian, profundamente ofendido. — Eu jamais recebi um elogio tão florido. — sentou-se e lançou um olhar de irritação para Ginny. — Eu o deixo abusar de minha boa forma a cada dia, só por esporte, e nem sequer recebo um "obrigado" de sua parte.
Ginny sorriu com cansaço.
— Eu acho que ele me ama, Ian.
— E eu acho que você o enfeitiçou. — disse uma voz cáustica por trás de Harry.
Ginny levantou o rosto e encontrou os olhos duros de Tom Riddle. Havia mais que ódio neles; havia luxúria. Sua pele começou a picar. Era muito ruim que todos os convidados para o casamento ainda não tivessem partido. Ver Tom Riddle novamente era algo que Ginny poderia ter evitado.
Ian se levantou de imediato e colocou Ginny atrás dele, protegendo-a. Ela espiou por sobre seu braço musculoso e rezou por não ver espadas desembainhadas. Ela agarrou-se ao plaid de Ian para manter-se em pé, quando viu o olhar no rosto de Harry.
— Eu assumo que seja um gracejo infeliz. — disse Harry calmamente, o seu tom suave e agradável.
— É a pura verdade. — atacou Tom. — Ela é uma bruxa, Potter, e tenciono vê-la queimar.
A mudança de expressão de Harry foi assustadora, na sua rapidez. Ele cuspiu nos pés de Riddle.
— Nenhum homem falará assim de mim nem dos meus e escapará incólume.
Ginny reparou que o irmão de Tom, Richard, estava a um passo ou dois atrás dele, junto com uma dúzia de homens do clã Riddle. Viu algo pelo canto dos olhos, e percebeu que o resto do jardim tinha se tornado subitamente cheio de homens Potter, os quais levavam o mesmo olhar de fúria que seu Laird.
O forte som de metal contra metal a fez abrir os olhos desmesuradamente.
— Não. — disse com um suspiro, mas Ian a empurrou para trás antes que ela pudesse sequer dar meio passo a frente.
— Quieta. — ele murmurou. — Você vai dificultar a luta se ele tiver que se preocupar com você. Em vez disso, observe como o melhor guerreiro das Highlands derrota ao homem que a acusou e, portanto ao resto de seu clã, injustamente. Sinta-se orgulhosa, Ginny, e lembre-se de quem você é esposa.
Foi tão primitivo. Mas ela se ergueu e obrigou a manter a compostura. Que mais ela podia fazer? Não tinha qualquer esperança de deter o que estava prestes a acontecer. Tudo o que podia fazer era rezar, e assim o fez fervorosamente.
Ela não queria olhar, mas não conseguia evitar. Ian não iria permitir que ela ficasse ao seu lado, então ela olhou por sobre seu braço o melhor que pôde. Tentou não estremecer a cada vez que as espadas de Harry e Tom se chocavam com tão alto tinido.
Ginny nunca tinha visto tal olhar de fúria no rosto de Harry. Não era de admirar o porquê de não haver um homem em quilômetros que não o temesse. Ela teria se desmanchado em lágrimas apenas ao ver aquela expressão.
Ou Riddle era corajoso ou mais estúpido do que ela, porque não se acovardou por nada. Ele estava tão zangado quanto Harry, mas a sua raiva o tornou descuidado. Os movimentos de Harry eram limpos e controlados; os de Tom, selvagens e aleatórios.
De repente, a espada de Tom saiu voando. Ela ofegou ao ver que muitos dos dedos de Tom a seguiam. Tom sustentou sua mão e se lançou contra Harry com uma adaga na mão esquerda. Com um gesto casual, Harry lançou sua espada para Ian, que a agarrou da mesma maneira. Riddle logo foi despojado de sua adaga, que foi arremetida por Harry para o irmão dele, Richard, dando um olhar que o deixou pálido. Infelizmente a sensatez da família não estava no comando. O grito de fúria de Tom a fez saltar e ela observou, ainda horrorizada, quando investiu contra seu marido. Harry o evitou facilmente, e Tom saiu rodando. Logo se pôs em pé enquanto Harry aguardava com os braços cruzados. Harry esperou pacientemente até que Tom se arremeteu contra ele novamente antes de atacá-lo, com seu punho apontando diretamente para seu rosto. Ginny deixou de contar os golpes trocados depois disso. Tudo o que sabia era que Tom estava tendo, provavelmente, a pior surra de toda sua vida, e ela não sentia a mínima pena dele. Harry o surrou até que suas próprias mãos estavam em carne viva e ensangüentadas. Quando Tom não era mais que uma massa disforme que mal podia respirar caído aos seus pés, Harry virou-se para Richard.
— Leve-o para fora de minhas terras. Deixamos de ser aliados.
Richard não se moveu de onde estava.
— Não compartilho das opiniões de meu irmão, Harry. Você sabe disso.
— Enquanto ele viver, sem dúvida que o faz. — replicou Harry. — E, enquanto ele viver, qualquer Riddle que colocar os pés em terra Potter será devolvido à seu castelo em pedaços. Seu irmão é quem está associado com o Diabo, não eu, ou os meus. Falaremos de pôr um fim a esta disputa que seu Laird começou, quando chegar o dia em que ele estiver morto e enterrado.
Richard não podia dizer mais nada. Seus homens reuniram a espada de Tom, seus dedos cortados e seu corpo contundido. Harry observava friamente enquanto eles abandonavam o jardim. Os homens Potter imediatamente os escoltá-los até o limite de suas terras.
O feitiço se rompeu. Ginny empurrou Ian para o lado e se lançou nos braços de seu ensangüentado guerreiro.
Ele se manteve impassível apenas por um breve momento. Então a envolveu com seus braços e segurou firmemente.
— Agora vê por que um homem é um idiota ao falar contra mim?
Ela assentiu, sua cabeça sacudindo-se espasmodicamente.
— Sim. — ela lutava para manter seus dentes sem bater. — Eu sinto muito por ter forçado você a fazer isso.
Ele se afastou dela.
— Defendo o que é meu.
Ela nunca o viu em um humor tão duro antes e dificilmente saberia como lidar com ele. Bem, elogios não poderiam dar errado. E ela se sentia sobressaltada pelo fato de que ele arriscara sua vida para defendê-la. Neville a teria entregue à Tom, sem pensar duas vezes.
Ela deu um corajoso passo para frente e colocou as mãos em seu peito, levantando o olhar para seu endurecido e furioso rosto sem pestanejar.
— Perdoe minhas palavras. — disse ela com calma. — Eu disse algo que não queria dizer, porque me senti aflita. Você arriscou sua vida para me defender, Harry, e isso é algo que ninguém jamais fez por mim. Você foi magnífico. Riddle foi um tolo ao sequer pensar em levantar sua espada contra você.
Harry grunhiu e colocou seus braços ensangüentados ao redor de Ginny.
— Agora você começa a falar como a esposa de um Laird. — ele lhe deu tapinhas nas costas, sem ter consciência de que podia quebrar seus ossos. — Vá pedir que me preparem um banho. Há elogios bem merecidos que eu gostaria de ouvir de seus lábios antes da noite cair.
Ela assentiu e se afastou, mais do que disposta a pensar em centenas de elogios para fazer a seu marido antes de terminar a tarde. Malcolm e outro de seus companheiros a ladearam enquanto Ginny caminhava de volta para o castelo.
— Ele é muito esperto. — disse Malcolm em voz baixa.
Ginny olhou para ele com desaprovação.
— Ele é o Potter, Malcolm, — disse ela, sentindo o orgulho preencher cada centímetro de seu corpo por ser esposa de um highlander. — Você realmente acha que ele seria nada menos que invencível?
— Nay, milady. Não há ninguém igual a ele, pode estar certa.
Ginny sorriu para si. Ela estava começando a soar como Harry, e de alguma maneira aquele pensamento a fez parar, se endireitar e franzir o cenho ligeiramente, só para assegurar que Malcolm a levava a sério.
Havia apenas uma coisa que a perturbava no subconsciente, e era o que Tom Riddle faria quando se recuperasse da surra. Existira vingança, disso estava segura. Sua intuição dizia que essa vingança seria dirigida exclusivamente a Harry. Harry era realmente experiente com a espada, mas não possuía olhos nas costas. Talvez aprender a usar a espada e a adaga valeriam a pena o esforço, depois de tudo. Ao menos, ela poderia defender suas costas até que ele pudesse girar-se e fazê-lo sozinho.
Colocando de lado seus pensamentos caminhou com segurança de volta ao castelo. Seu Laird queria um banho, e maldito fosse Hugh se não providenciasse um imediatamente e sem se queixar. Seu rosto era intimidador e seu porte de realeza. Seu pai ficaria orgulhoso.
Um mês após lançar a um silencioso Tom Riddle de suas terras, Harry estava sentado, em sua câmara, pensando. O quarto de Joanne havia sido concluído na semana anterior, e ele se deu conta que sentia saudades de suas idas e vindas ao quarto em busca deste ou daquele objeto. A pequena sapeca se instalou em seu coração tão firmemente como Ginny o fez. Era impotente contra a força combinada de sua doçura.
Não que ele pretendesse lutar contra. Grunhia com Joanne apenas para ouvi-la rir. Ela era uma menina angelical, necessitava poucas reprimendas para ser obediente. Uma boa conversa era tudo o que precisava para fazê-la se arrepender profundamente de qualquer ação que o desagradasse, mas ele raramente tinha essas conversas.
Quanto a Ginny, ele só grunhia com ela para lembrá-la quem era o Laird. Para isso, e para vê-la sorrir, por trás das costas. Ela estava convencida de que o tinha domesticado. Talvez ele estivesse. Encontrava a si próprio fazendo coisas ridículas para agradá-la. Mas reclamava ruidosamente sobre cada punhado de flores que colhia para ela, cada baú de roupa que tirava de seu caminho, cada passeio sem propósito apenas para tê-la perto. Ela ignorava suas queixas e aceitava cada um de seus gestos com a mesma surpresa, encantadora e temerosa expressão que ela tinha usado pela primeira vez quando ele empurrou um punhado de ervas para ela.
Claro, nem tudo era paz e tranquilidade. Só na noite anterior, ela havia jogado seu travesseiro para o corredor, logo o seu manto, para terminar seu discurso ordenou-lhe que saísse de sua própria câmara. Nem sequer seus beijos melhoraram seu humor. Se não se sentisse tão culpado por ter gritado com ela sem razão aparente, ele não teria ido. Mas se foi. E se sentou ao lado da porta e cantou melodias desafinadas até bem entrada a noite. Joshua logo teve piedade dele e sentando-se no degrau mais alto, tocou seu alaúde alto o suficiente para abafar a voz de Harry.
Ao chegar da aurora, Ginny se rendeu. Abriu a porta e ouviu suas desculpas e, em seguida, graciosamente permitiu que ele voltasse para sua própria cama. Ele a amou docemente, só para mostrar a ela que não guardava nenhum rancor. Ela aceitou seu amor da mesma maneira.
Não quer dizer que ela não errava. Embora ele tivesse um temperamento forte, o dela era igualmente forte e apaixonado. Talvez não fosse algo ruim. As desculpas de ambos os lados geralmente conduziam a sua câmara e, uma vez lá, a cama estava apenas um ou dois passos de distância. Ele sorriu. Era uma maneira de restabelecer a paz entre eles, e ele esperava que sempre fosse assim.
Harry apoiou o queixo sobre suas mãos e contemplou a parede, deixando o seu pensamento fluir livremente através de sua mente. Imediatamente a imagem de Riddle o assaltou, mas ele a colocou de lado. O que estava feito, feito estava. Quando Tom fosse capaz de sair de sua cama, haveria retaliação, mas Harry duvidava seriamente que Tom encontrasse muitos familiares dispostos a arriscar suas vidas pelas acusações tolas de seu Laird. Entretanto, não podia perdê-lo de vista.
O que chamou e captou a atenção de Harry foram as coisas que leu no diário de Ginny, ou seja lá como ela o chamasse. Ela contava sobre sua estranha viagem e do tempo passado na casa dele. Suas descrições sobre ele eram ao mesmo tempo lisonjeiras e humilhantes. Ele andava de forma tão arrogante? Suspeitava que sim, mas por agora já era um habito desesperadamente arraigado nele.
As descrições que Ginny fazia do tempo dele o intrigavam muito. Ela sabia muito dos acontecimentos do passado, e ele a interrogou intensamente sobre seus conhecimentos da Escócia. Uma pena que ela tivesse esquecido as palavras que lera a respeito de seu clã e de outros highlanders de seu dia. Sabia que ela não estava mentindo. Ela estava tão intrigada com tudo aquilo quanto ele.
Talvez tinha que ser assim. Caso possuísse conhecimento do futuro, sem dúvida ele teria prejudicado um ou outro. Mas seria muito bom saber de antemão para que lado sopraria o vento nas guerras onde participasse sua família. Ou um acidente iminente com sua amada.
Mas, como podia ser isso? Como podiam os homens do futuro terem escrito sobre Ginny, quando ela era do futuro também? O simples esforço de tentar compreender as ações do tempo deu-lhe uma forte dor de cabeça e fez o quarto começar a girar. Aye¸ talvez fosse melhor deixar certos mistérios em paz.
Uma pena, no entanto. Conhecer o futuro teria sido na verdade uma grande coisa.
