Episódio 21- Anjos e Demônios
Sinopse: Meses se passaram, a comunidade está crescendo e se modernizando. Mas as intrigas continuam. Ana-Lucia sofre um princípio de aborto e Jack descobre que alguém a está envenenando. Debbie, uma das sobreviventes, se aproveita da fraqueza de Ana-Lucia para tentar seduzir Sawyer que acaba caindo em uma perigosa armadilha.
Censura: T.
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Alguns meses se passaram, as manhãs ensolaradas haviam sido substituídas por tardes chuvosas. Pedro adaptou-se rápido à comunidade, montando sua barraca e recebendo roupas e objetos pessoais doados pelas pessoas, o suficiente para que ficasse bem. Jack ficou profundamente chateado com Locke, e os dois passaram a falar-se muito pouco, só o estritamente necessário, embora ainda dividissem o turno na escotilha de vez em quando, de acordo com a escala. No acampamento, o clima entre todos era de cooperação, as idéias de Michael e Sayid para a construção de casas mais seguras e confortáveis, onde pudessem se abrigar melhor estava indo de vento em popa.
Naquele manhã de outubro, Sawyer, Sayid e Jin trabalhavam na construção de mais um telhado, feito com armações de bambu e revestido com palha. A última chuva havia caído a pouco mais de meia hora, deixando o bambu escorregadio fazendo com que Sawyer deslizasse vez por outra enquanto trançava a palha no bambu sob o olhar atento de Michael. Walt estava morrendo de rir observando o esforço sobre-humano de Sawyer para conseguir ficar de pé no telhado.
- Ô moleque, não tem nada melhor pra fazer não?
- Walt, por que não vai dar uma volta com o Vincent?- pediu Michael antes que Sawyer se aborrecesse de verdade e desistisse de ajudar.
- Acho que está bem preso.- anunciou Sawyer, finalizando sua tarefa.
- Você não tem que achar tem que ter certeza!- disse Sayid martelando o chão, colocando as tábuas.
- Eu tenho certeza!- afirmou Sawyer, mas nem bem terminou de dizer isso, a palha se abriu espalhando os canos de bambu que foram caindo por toda a parte. – Son of a bitch! Cuidado aí embaixo!.- Sawyer avisou.
Sayid, Jin e Michael correram para longe, evitando que o estouro dos bambus fizesse alguma vítima, que com certeza iria dar muito trabalho a Jack.
- Sawyer, louco!- xingou Jin.
- Desculpe, Chewie, foi sem querer!- falou Sawyer.
- Ah, mas que droga! Vamos ter que fazer tudo de novo.- queixou-se Michael.
- Vamos é?- indagou Sawyer. – Me "inclua" fora disso, eu vou dar um tempo.- desceu devagar pelas cordas que estavam amarradas em uma árvore próxima, imitando o ruído do Tarzan. Os outros riram.
Michael constatou:
- Com esse espírito, só vamos terminar essas casas no ano 3.000.
- Eu não quero mais estar aqui no ano 3000.- disse Pedro que vinha chegando, trazendo água para o grupo.
- Não se preocupe Pedro, no ano 3000 não estaremos mais aqui porque vamos estar mortos, mas nossos tataranetos provavelmente estarão. Estamos construindo essas casas para eles.- disse Sayid.
- Então acreditam mesmo que nunca sairemos daqui?- Pedro indagou.
Sawyer balançou a cabeça enquanto jogava água no rosto, escorrendo pelo peito nu: - Acho que você deve saber disso melhor do que nós, Stephen King. Qual foi o desfecho que traçou em seu livro para nós, pobres sobreviventes presos em uma ilha deserta mal assombrada?
Pedro limitou-se a sorrir.
- Hey, brothas!- saudou Desmond que vinha acompanhado por Debbie e Tina, trazendo três pratos de comida. – Hora do almoço!
Michael, Sayid e Jin pegaram os pratos oferecidos e procuraram um lugar para comer, estendendo um plástico sobre a areia molhada pela chuva, onde sentaram escorados em uma árvore.
- Onde está Shannon?- perguntou Sayid.
- Ela disse que ia dar uma volta e me pediu para trazer o seu almoço.- respondeu Tina.
Ele pareceu ficar um pouco triste ao ouvir aquilo, mas nada disse, apenas começou a comer.
- Como será que Charlie, Eko e Craig estão se saindo?- perguntou Michael olhando para a outra casa que estava sendo construída um pouco mais adiante.
- Eles estão indo bem, brotha, acabei de vir de lá. O Eko já tem experiência com construção e o Charlie se tornou um verdadeiro arquiteto. Quanto ao Craig, ele faz o serviço pesado.
- Mas onde raios está o meu almoço?- disse Sawyer, faminto quando Ana-Lucia apareceu segurando o prato dele, feito pessoalmente por ela, com muito capricho.
- Está aqui cariño, como te gusta. (Está aqui, carinho, do jeito que você gosta).
Ele sorriu e beijou-a levemente nos lábios, pegando o prato das mãos dela.
- Barriga bonita!- acrescentou enquanto se sentava ao lado de Sayid para comer.
Ela esboçou um sorriso e tocou o próprio ventre, que estava enorme, seis meses de gravidez, nem podia acreditar. Sayid olhou para ela e em seu íntimo lamentou por Shannon. Sua esposa definhava a cada dia mais, consumida por uma depressão inexplicável. Ele tinha medo de perdê-la.
A chuva voltou a cair, espantando todo mundo, fazendo com que buscassem abrigo embaixo das árvores e até na casa em construção.
- Ah não, só faltava essa, mais chuva.- esbravejou Michael, zangado.
- Estamos no inverno brotha, que se há de fazer.- comentou Desmond.
O barulho de um corpo caindo ao chão na construção ao lado assustou-os, seguido de um grito desesperado.
- Pessoal, o Charlie caiu do telhado, acho que quebrou alguma coisa.- anunciou Craig.
Claire, que viu a cena de sua barraca, entregou Aaron para Rose que almoçava com ela e correu até a construção. Sayid, Desmond, Jin, Michael e Pedro também correram.
- Charlie, Charlie!- gritou Claire.
Eko estava agachado ao lado dele.
- Charlie, você está me ouvindo?
Ele não respondeu. Eko insistiu.
- Charlie?
- Não sinto minhas pernas!- ele falou, com cara de pânico.
- Acalme-se Charlie, não se mexa!- advertiu Eko examinando a fratura.
- Como foi isso?- indagou Sayid.
- Ele escorregou, o bambu tava liso.- explicou Craig.
- Precisamos avisar ao Jack!- disse Claire, muito angustiada.
- Ele está na escotilha.- falou Desmond.
- Eu vou até lá!- disse Craig já saindo.
- Não devemos tocar nele até que o Jack chegue.- disse Michael. – Não sabemos o quão grave foi a fratura.
- Ai não, o osso está exposto!- disse Tina que se aproximara para ver o ocorrido.
- Exposto?- indagou Charlie assustado, seu rosto ficando pálido. Claire acariciou os cabelos dele tentando acalmá-lo.
- Vai ficar tudo bem Charlie, Craig foi chamar o Jack.
A chuva afinou, Sawyer, Ana-Lucia e Debbie também correram para lá. O ferimento estava terrível, Sawyer franziu a testa ao vê-lo.
- Lu, é melhor você não olhar!- ele advertiu.
- Deixe de bobagem, já vi coisa pior.- ela declarou e se aproximou para olhar. Debbie levou as mãos à boca, sentindo pena de Charlie.
- Vai ser preciso fazer uma tala.- avisou Ana-Lucia, disposta a socorrer Charlie da melhor forma possível até que Jack chegasse. Porém, não conseguiu dar nem mais um passo.
Sentiu uma dor aguda no abdômen, e instintivamente levou a mão à barriga afastando-se para trás. Sawyer notou o desconforto dela, e falou irritado:
- Eu te falei que não era para olhar.
Ela gemeu de dor, se encostando em uma árvore.
- Sawyer!- chamou-o, uma expressão de desespero tomando-lhe a face. Olhou para as pernas, um fio de sangue escorria além do vestido.
- Ana, o que foi? O que você tem baby?- perguntou Sawyer amparando-a com os braços.
Os olhos azuis preocupados dele foi a última coisa que vislumbrou antes de perder completamente os sentidos.
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Jack estava voltando para a escotilha depois de um bom mergulho na cachoeira, adquirira o hábito de fazer isso todos os dias, sentia-se sempre muito bem e relaxado depois disso. Às vezes convidava Kate para ir com ele, mas quando ela ia a única coisa que não fazia era descansar. Entravam na água com o pretexto de se banhar e voltar logo para suas tarefas, mas não conseguiam, sempre acabavam se amando.
Ele estava contente porque no caminho achara umas sementes de flores, pareciam de girassol. Sabia que Kate e Sun iriam gostar para pôr no jardim. Caminhava pela floresta tranqüilamente, tudo o que queria era almoçar e tirar um cochilo, mais tarde iria para a praia, pretendia convidar Kate para uma partida de golfe.
Craig corria sem parar pelo meio da floresta, rumo à escotilha. Já estava sem fôlego quando encontrou Jack em uma clareira.
- Jack, que bom que te encontrei.- disse Craig, arfando.
- O que houve Craig?- indagou, preocupado. – Aconteceu alguma coisa com a Kate?
- Com a Kate, que eu saiba não. Mas o Charlie pegou uma queda lá na construção. Tá muito mal!
- Como foi isso?- Jack perguntou.
- Escorregou do telhado, a chuva deixou o bambu escorregadio.
- Craig, me ouça. Vá até a escotilha e peça ao Locke que te entregue a minha maleta, esterilize os meus instrumentos e prepare uma das camas com lençóis limpos.
- Ok!- assentiu Craig e saiu correndo para a escotilha.
Jack apressou-se em ir para a praia, amaldiçoando a falta de cuidado de Charlie. Ele já tinha avisado aos construtores que deveriam ser mais precavidos. Para chegar mais rápido ao local, cortou caminho pela horta de Sun. Ela e Kate estavam lá arrumando algumas mudas que tinham sido arrasadas pelas últimas chuvas.
- Pronto, preciso cavar mais?- perguntou Kate a Sun. – Acho que essa profundidade está boa!
- Não, está ótimo Kate. Oh, é o Jack!- disse Sun ao vê-lo.
- Jack?- Kate sorriu.
Ele fez um gesto com a mão indicando que estava com muita pressa. Kate percebeu que havia algo estranho.
- Jack, o que foi?
- Não posso falar agora Kate, é uma emergência na construção.
- Alguém se feriu? Jin?- Sun indagou.
Jack não respondeu, já estava correndo bem mais adiante. Kate e Sun largaram tudo o que estavam fazendo e correram atrás dele. Na construção, todos estavam muito preocupados, além do problema com Charlie, Ana-Lucia também não estava bem. Desmaiara do nada, deixando Sawyer atônito.
Ele estava sentado no chão, a cabeça dela apoiada sobre seu colo, passava as mãos pelos cabelos dela em silêncio, esperando que Jack chegasse logo e pudesse ajudá-la. Debbie estava ao seu lado, segurava a mão de Ana-Lucia.
- O que será que aconteceu com ela?
Desmond checou-lhe o pulso:
- Está forte, ela vai ficar bem, brotha.
- Mas e o sangue?- Sawyer indagou. – Será que ela está...- teve medo de terminar a frase. No começo, quando ela lhe contara sobre a gravidez, ele entrara em pânico, achava que jamais serviria para ser pai de alguém. Mas aos poucos se acostumou com a idéia, e sem perceber começou a fazer planos para quando o filho nascesse, por isso estava ajudando na construção das casas, queria ter um lar para viver com Ana-Lucia e o bebê.
- Eu não sei brotha, vamos esperar o Jack chegar.- Desmond disse tocando-lhe o ombro em apoio. Debbie soltou a mão de Ana-Lucia e o abraçou.
- Claire, e se o Jack tiver que amputar a minha perna?- perguntou Charlie, com medo.
- Não querido, isso não vai acontecer.- ela disse beijando a testa dele.
Sayid andava de um lado para o outro, agoniado.
- O Jack está demorando demais!- disse.
- Aí vem ele!- anunciou Michael.
- Saíam todos de cima dele, por favor!- pediu Jack. Ele olhou para o lado e viu Sawyer com Ana-Lucia. – Mas o que houve com ela?- perguntou.
- Eu não sei!- Sawyer respondeu. – Ela ficou estranha de repente e depois apagou.
Sun e Kate chegaram logo atrás dele.
- Jin! Jin!- Sun o chamou, achando que tivesse acontecido algo com ele.
- Aqui!- ele disse. – Charlie, muito mal!
Os olhos de Kate alargaram-se ao ver a fratura exposta.
- Jack, por que você...-ela ia indagar o por que dele não estar já providenciando uma tala para Charlie quando o viu agachado ao lado de Ana-Lucia tomando-lhe o pulso.
- O que ela tem, Jack?
- Eu ainda não sei Kate. Será que todos aqui poderiam me dar espaço! Ana, você está me ouvindo? È o Jack.
Ela piscou os olhos levemente, mas não os abriu.
- Sawyer...- ela buscou a mão dele.
- Eu estou aqui, meu dengo.- ele disse entrelaçando seus dedos aos dela.
- Vamos ter que removê-la daqui, urgente. Sawyer consegue carregá-la até a escotilha?
- Mas é claro, doutor.- ele respondeu.
- Temos que levantá-la com cuidado, isso...- disse Jack ajudando Sawyer a erguê-la em seus braços.
- Sawyer, eu vou com você, pra te ajudar.- ofereceu-se Debbie.
- Se quer me ajudar Batgirl, vá até a barraca da Ana e pegue roupas limpas pra ela.
Debbie assentiu. Saywer respirou fundo e procurou buscar em si todas as forças que pudesse para carregá-la até a escotilha.
- Estarei logo lá, Sawyer.- Jack avisou. – Vamos ter que remover o Charlie também. Eko posso contar com você?
- Sim.- ele respondeu.
- Charlie, antes de fazer a tala, preciso pôr o osso no lugar.
- Vai doer?- ele indagou choroso. – Porque já está doendo um bocado...
Claire segurou as mãos dele, apreensiva. Sun pegou um pedaço de pano e deu para ele morder.
- Acho que isso responde a minha pergunta.- Charlie constatou, triste.
Jack posicionou-se: - Eu vou contar até três.
- Ok!- concordou Charlie, colocando o pano em sua boca.
- 1, 2...- ele pegou a perna e colocou o osso no lugar, fazendo um estalo. Tina virou o rosto para o lado, estava sentindo a dor de Charlie na própria perna.
Charlie gritou desesperado, o pano caindo de sua boca.
- Você não disse 3, não disse!
- Você vai ficar bem Charlie.- Jack sorriu.
- A tala, Jack.- disse Sayid entregando o objeto que apoiaria a perna de Charlie.
- Está ótimo Sayid.- Jack ajeitou a tala sobre a perna de Charlie. – Eko, pode levantá-lo, mas com cuidado.
Eko começou a levantar Charlie, que gemia de dor a cada movimento que o padre fazia.
- Aiaiaiaiaiai!
- Calma Charlie, o pior já passou.- falou Claire.
- Jack, a sua maleta!- disse Craig que vinha chegando.
- Ótimo, agora carregue-a de volta pra escotilha, estamos indo para lá.
- Sun, diga a Rose pra ficar tomando conta do Aaron pra mim.
- Sim, mas onde está o meu filho? Eu o tinha deixado com você.
- Está com a Aline.- Claire disse seguindo Eko para a escotilha.
Jack já estava indo também. O restante permaneceu na construção. Kate seguiu-o, Pedro também. Ela sentiu-se um pouco tonta no caminho, escorou-se em uma árvore. Jack não percebeu, estava mais adiante.
- Kate, você está bem?- indagou Pedro segurando-a.
- Eu estou ótima!- Kate disse afastando as mãos dele. – Jack, espere por mim!- gritou.
Pedro deixou-a ir, resolveu voltar para a praia, talvez já tivesse gente demais para ajudar na escotilha.
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- Mas o que houve James? O que aconteceu com ela?- indagou Locke quando Sawyer chegou com Ana-Lucia desacordada na escotilha.
- Eu já estou cansado de responder a essa pergunta!- Sawyer falou irritado. – Eu não sei, simplesmente está acontecendo.
Locke percebeu o quanto Sawyer estava cansado de carregá-la e tomou Ana-Lucia dos braços dele, carregando-a com muita dificuldade até a cama.
- Craig me disse que o Charlie havia se acidentado.
- Sim, ele caiu do telhado da construção.
- E onde ele está? Jack está com ele?
Mal acabou de perguntar, Eko entrou na escotilha carregando Charlie, seguido de perto por Claire, Jack, Kate e Craig, que trazia a maleta de volta.
- Charlie, como você está?- perguntou Locke.
- Péssimo John, não está vendo?
- Vamos colocá-lo ali no sofá.- disse Jack.
Eko o depositou cuidadosamente no sofá. Jack voltou a examinar o ferimento.
- A fratura está estabilizada, mas o corte vai precisar de alguns pontos. Kate, limpe o ferimento dele com álcool, por favor. Eu preciso ver a Ana-Lucia.
Kate concordou e abriu a maleta procurando o algodão da Dharma Initiative. Pôs-se a limpar o ferimento devagar, Charlie mordeu os lábios e segurou na mão de Claire.
- O pior já passou, não, acho que só estava começando.- queixou-se Charlie.
- Eu vou voltar pra praia!- avisou Craig, todo aquele sangue estava fazendo o estômago dele embrulhar.
Jack examinava Ana-Lucia atentamente, tentando entender o que acontecera. Embebeu um pano em álcool e aproximou do nariz dela, para fazê-la voltar a si. Sawyer limpava com um pano molhado o sangue que escorrera pelas pernas dela.
- O meu bebê...- ela murmurou.
Sawyer olhou para Jack com o semblante triste.
- O que vai acontecer Jack?
Ele passou as mãos pela cabeça:
- Eu não sei Sawyer, a gravidez dela era complicada desde o início. Você sabia disso não sabia?
- Não, eu não sabia. O que está dizendo? Ana me disse que não podia ter filhos, mas nunca me explicou a razão. Então depois ela veio me dizendo que estava grávida, eu nem parei pra pensar em nada, fiquei tão surpreso que...
- Ela foi baleada em serviço, os tiros perfuraram seu útero. Se conseguisse conceber uma criança, seria quase impossível que viesse a tê-la. Mas por um milagre, a gravidez dela estava indo bem, cinco meses já.
- Seis.- Sawyer corrigiu, acariciando a barriga dela. – Por que ela não me disse? Eu teria cuidado mais dela, isso não estaria acontecendo agora.
- Não é sua culpa Sawyer, estou te dizendo que desde o início ela sabia dos riscos.
- Meu bebê...- ela murmurou outra vez.
Sawyer sentiu o coração apertar, mas manteve-se firme. Ana-Lucia começou a tossir, abriu os olhos, assustada, tentando se sentar na cama. Sawyer e Jack a seguraram. Kate parou de limpar o ferimento de Charlie para olhar. Eko, Claire e o próprio Charlie também prestaram atenção.
Ela tinha lágrimas de dor e desespero em seus olhos:
- Não, eu estou perdendo o meu bebê...não posso perdê-lo. O meu filho!
Sawyer não sabia o que dizer para ela. Ana-Lucia tocou o ventre, sentindo os espasmos do aborto. Gritou. Jack preocupou-se, sabia que mesmo que ela perdesse o bebê, o risco de vida para ela também era muito grande. Um aborto no sexto mês de gravidez era muito perigoso. O computador começou a apitar, Locke que tinha se mantido sentado à mesa das refeições correu para lá para digitar o código.
- Está doendo muito, Sawyer. Não posso perdê-lo.- ela disse chorando.
Ele apertou os olhos, tentando inutilmente não chorar. Eko puxou o terço do bolso, rezando em voz alta para que aquela hora de agonia acabasse. Claire também começou a chorar. Kate parou de limpar o ferimento de Charlie, ele já tinha até esquecido um pouco de sua própria dor ao ouvir o pranto de Ana-Lucia. Kate sentiu um tremor por dentro, aquilo era muito terrível de se ver. Começou a ficar pálida, o estômago dando voltas. Levantou-se do lado de Charlie e correu para o banheiro, fechando a porta atrás de si. Chorava também. No momento seguinte, o vômito foi inevitável, fazendo-a contorcer-se incomodamente.
- Oh Deus!- exclamou. Jogou água no rosto e na boca. Olhou-se no espelho.Levantou a camiseta e tocou o ventre, dizendo consigo mesma: - Preciso contar logo ao Jack.
Lá fora, a situação começou a ficar ainda pior. Ana-Lucia perdia muito sangue, que manchava o lençol branco. Sawyer estava pálido, branco como um papel, segurava a mão dela se sentindo um inútil. Jack procurava desesperadamente entre os remédios algo que pudesse ajudá-la. Encontrou um medicamento muito forte, que seria capaz de conter a hemorragia, mas isso não iria garantir que o desenvolvimento do bebê não seria afetado ou que ela não poderia ter muito mais problemas nos próximos meses. Mas precisava arriscar, e foi o que fez. Encheu um copo com água e correu até ela.
Olhou para Sawyer, puxando uma respiração profunda:
- Não garanto que isso vá...
- Mas existe uma chance de salvar o meu filho?- ele indagou numa voz abafada pela vontade de chorar, um soluço.
Jack assentiu balançando a cabeça. Sawyer apressou-se então em dar o remédio a ela:
- Baby, me escuta. Toma isso e vai ficar tudo bem. Não vamos perdê-lo. Eu estou aqui com você, nunca vou te deixar.
Ela gritou outra vez, a dor era insuportável. Chorava sem controle.
- Ana, vamos, tome isso, por favor.- ela engoliu o comprimido com muita dificuldade, cuspindo um pouco da água de volta no copo.
O líquido cuspido por ela era de uma estranha substância verde, algo que dava a impressão de ser ácido. Jack pegou o copo das mãos de Sawyer e o examinou.
- Vai passar, cariño. Vai ficar tudo bem. Eu te amo.- Sawyer sussurrou próximo ao ouvido dela, sem soltar sua mão, enquanto ela ainda tremia. Admitia isso pela primeira vez em público. Estava com medo de perdê-la, só de imaginar isso, sentia como se o seu coração fosse ser esmagado em milhões de pedacinhos. – Eu te amo.- repetiu mais uma vez, sentindo que ela se acalmava ao som da voz dele.
- Isso é veneno!- esbravejou Jack.
- Do que está falando?- perguntou Kate ao vê-lo dizer aquilo exaltado quando saiu do banheiro.
- Veneno?- indagou Sawyer, nervoso.
- Alguém está tentando fazê-la abortar.- Jack concluiu.
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Na barraca de Ana-Lucia, Debbie já tinha separado as roupas para levar há mais de vinte minutos, mas não conseguiu conter a curiosidade e começou a vasculhar os pertences da ex-policial. Não sabia ao certo o que estava procurando, talvez qualquer coisa que pudesse lhe dar uma visão sobre o que realmente era o relacionamento dela com Sawyer, algo que denunciasse como Ana-Lucia conseguira fisgar o "Bad Boy" e prendê-lo por tanto tempo.
Finalmente, depois de muito olhar em meio às roupas, maquiagem, sapatos e outros objetos pessoais encontrou uma camisa de Sawyer. Pegou-a e abraçou o objeto junto de si, aspirando o cheiro masculino na camisa. Sentiu vontade de surrupiá-la, para poder se inebriar com o perfume dele todas as noites em sua barraca, mas achou melhor deixar lá, Ana-Lucia ou o próprio Sawyer com certeza daria por falta. Olhou mais um pouco, não encontrou nada de interessante.
Ficou lá sentada uns segundos, frustrada até que resolveu levantar-se pegando a mochila onde tinha colocado as roupas que levaria quando viu dobrada sobre a cômoda feita de tábuas, a jaqueta de Ana-Lucia, a mesma que ela vestia no dia em que chegara ao acampamento.
Colocou a mochila no chão e pegou a jaqueta de cima da cômoda, checando os bolsos. Um sorriso maldoso formou-se em seus lábios quando ela encontrou um pedaço de papel dobrado, mas seu sorriso logo se desvaneceu quando ela percebeu do que se tratava. Era uma folha de papel timbrado com o logotipo da Dharma Initiative. No papel, estavam escritos versos à mão de caneta preta, em uma caligrafia bastante caprichada, não tinha data:
"Ana, teus lábios são labirintos...
Ana...que atraem os meus instintos mais sacanas...
Teu olhar sempre distante quase que me engana.
Estou viciado em você cada dia mais."
Do seu Cowboy, vulgo " Caipira dos infernos".
Sawyer.
Sentiu vontade de esmigalhar o papel em pedacinhos. O que aquela mulher tinha de tão especial? Não era sequer bonita com aquele jeito grosso de ser, a postura antipática. Mas Sawyer sentia-se viciado nela, o que fazer? Guardou o papel no mesmo lugar e saiu da barraca, ainda tinha que levar as roupas até a escotilha.
Assim que saiu, deu de cara com Libby e assustou-se deixando a mochila cair no chão. Abaixou-se para pegá-la. Libby indagou:
- O que estava fazendo na barraca da Ana, Debbie?
- Eu só estava pegando umas roupas pra ela, Sawyer me pediu. Ela passou mal.
- Eu sei, Craig acabou de me dizer. Eu vinha justamente fazer isso. Pode deixar que eu levarei as roupas.
- Não Libby, eu levo. Já disse ao Sawyer que faria isso.
Libby tomou a mochila das mãos dela:
- Debbie, cuidado para não colocar o seu braço onde não pode alcançar.
- Do que está falando?- ela indagou séria.
- Talvez você saiba melhor do que eu. Pode deixar que eu irei levar as roupas para minha amiga.
Debbie não teve outro remédio senão aceitar. Fechou a cara e saiu caminhando em direção à barraca de Rose e Bernard. Libby apressou-se em ir para a escotilha, queria muito saber como Ana estava.
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Jack estava sentado à mesa de refeições, analisando o líquido verde no copo. Kate de frente para ele na outra cadeira, sentindo-se muito enjoada, mas sem comentar nada com ninguém. Charlie dormia com Claire ao seu lado, Jack já havia terminado de cuidar de sua perna e lhe dera alguns antibióticos, ficaria bem. Ana-Lucia também adormecera. Sawyer estava sentado em uma cadeira de frente para a cama, vigiando o sono dela. Com a ajuda de Kate trocara os lençóis sujos de sangue e a despira, enrolando-a em um cobertor limpo. Se perguntava por que Debbie estava demorando tanto para trazer as roupas para ela. No entanto, aquele certamente era o último pensamento que o afligia. Veneno? Aquilo era absurdo a pensar que as regras criadas por Jack jamais iriam funcionar ali. A única coisa que realmente daria certo, algo que ele conhecia muito bem, era a lei da selva. Estavam tentando matar sua mulher e seu filho. Não importava quem fosse o desgraçado responsável por aquilo, assim que descobrisse o mataria sem dó nem piedade.
Diante da situação tão absurda de Ana-Lucia, Locke tivera a idéia de chamar Sun, não era segredo para ninguém o quanto ela entendia sobre plantas. Ela com certeza poderia indicar o tipo de veneno e suas complicações. Jack estava preocupado, não sabia como e quanto já tinha sido dado do veneno para ela. Seria uma substância mortal? Não queria nem pensar nisso. E o bebê, já estaria prejudicado?
Kate também estava perdida em seus pensamentos, inquieta. Tudo o que estava acontecendo ao seu redor a afetava, mas não conseguia deixar de pensar em algo que já vinha desconfiando há três semanas. Sabia que era perfeitamente possível que isso acontecesse, achava até que demorou um tempo para acontecer devido à forma como vinha levando o seu relacionamento com Jack. Porém, se suas suspeitas estivessem corretas, qual seria a reação de Jack? Ele se mostrara muitas vezes preocupado com essa possibilidade, a ilha não oferecia estrutura para isso, dizia. Mas como evitar? Não conseguia ficar uma noite sem estar nos braços dele.
- Não, isso não pode ser!- Jack murmurou.
- O quê, Jack?- Kate preocupou-se momentaneamente. Estaria pensando em voz alta?
- Eu pensei em uma coisa.- ele disse baixinho, fazendo um gesto para que ela se aproximasse mais dele.
- No quê?
- Você acha que existe a possibilidade de Shannon ter feito isso com Ana-Lucia? Meses atrás ela tentou matá-la.
Kate arregalou os olhos, chocada. Ainda não tinha pensado nessa possibilidade. Shannon havia mudado bastante, e seu ataque a Ana-Lucia a faziam a suspeita número 1. Mas ela teria mesmo sido capaz?
- Jack, se ela fez isso...oh, meu Deus. Se algo ainda pior acontecer com a Ana, Sawyer vai...
- Shiiii!- Jack pediu fazendo um gesto com o dedo para que ela se calasse. – Eu vou até a construção falar com o Sayid, volto logo. Quando a Sun chegar, mostre o copo a ela.
- Sim.- Kate assentiu.
Sawyer percebeu que Jack estava de saída e perguntou:
- Aonde vai doutor? Hoje é dia de dar plantão no Pronto-Socorro, esqueceu?
- Não se preocupe Sawyer, ela não vai acordar agora. O remédio vai mantê-la adormecida por algum tempo. Fique de olho em qualquer sintoma que ela apresentar, e observe se a hemorragia foi contida, isso já seria um bom sinal. Volto logo.
- E o Charlie?- indagou Claire.
- O Charlie ainda vai dormir bastante também. Fique tranqüila.
Jack finalmente saiu, acenando para Eko que estava sentado de frente para o computador, na outra sala. Em seu íntimo estava preocupado. Como contar a Sayid sobre sua desconfiança? Na porta da escotilha esbarrou em Libby que chegava com a mochila de Ana.
- Hey Jack, como ela está? O bebê está bem?
- Ainda é cedo para afirmar qualquer coisa Libby.
- Posso vê-la? Eu trouxe as roupas.
- Sim claro, Sawyer está com ela agora.
- Aonde você vai?
- Tirar uma coisa a limpo.- ele respondeu determinado.
Ele saiu andando quando ouviu Kate chamá-lo. Voltou-se, ela encostou a porta da escotilha e caminhou até ele.
- O que houve Kate? Quer me dizer alguma coisa?- ele percebeu uma certa ansiedade em seu olhar. Notara isso desde quando se encontraram logo cedo na horta, mas ainda não tivera tempo de perguntar o que era.
Kate tocou o rosto dele, fitando-o com os olhos. Jack sorriu:
- O que foi amor? È saudade do seu Jack? – abraçou-a. – Com toda essa confusão hoje mal nos falamos, e sinto que não vamos conseguir hoje. Estou muito preocupado com o que está acontecendo.
- Jack...
Ela o beijou, um selinho. Jack a beijou de volta, da mesma forma. Kate voltou a beijá-lo, três beijinhos seguidos que foram aprofundados por Jack, enlaçando-a pela cintura. Ele parou de beijá-la, precisava mesmo falar com Sayid.
- Meu amor, eu preciso ir.
- Eu sei.- o que ela tinha para dizer estava preso na garganta, sabia que aquela talvez não fosse uma boa hora, mas para que continuar omitindo suas suspeitas dele. Disparou: - Acho que estou grávida.
Jack sentiu o chão faltar-lhe debaixo dos pés, a garganta ficou seca de repente, uma enorme dificuldade em respirar. Passou as mãos pela cabeça.
- Jack?- Kate disse, apreensiva. Não conseguia decifrar o significado da expressão dele.
- Você está...?
- Tenho quase certeza.- ela respondeu, a insegurança crescendo dentro de si.
- Ai meu Deus!- ele disse, passando as mãos na cabeça outra vez. – Nós tomamos alguns cuidados pra isso não acontecer, como...?
Kate irritou-se, não estava entendendo as reações dele:
- Sim, nós tomamos. Mas você como médico deveria saber que "isso" não é garantia de funcionar. O único jeito teria sido não nos vermos mais.- uma lágrima caiu dos olhos dela.
- Kate, eu sinto muito, não quis...
- Você sente muito? Que ótimo!- ela saiu correndo em direção à floresta, Jack correu atrás dela e segurou-a firme.
Ela se debateu.
- Kate, Kate, Kate!- ele repetiu tentando fazê-la olhar pra ele. – Por que quer fugir de mim? Sempre que uma coisa importante acontece você foge? Não meu bem, você não vai fugir.
Kate gritou:
- Não, me deixa ir! Não quero escutar o que você tem pra me dizer.
- E por que não? Você não sabe nem o que vou te dizer, fica tentando prever as minhas reações. Me escuta por favor!
Ela parou de se debater e ficou olhando para ele.
- Kate, meu amor.- uma lágrima espontânea rolou dos olhos castanho-esverdeados dele. – Essa é a melhor notícia que já recebi na minha vida.
Kate sentiu o coração palpitar com as palavras dele, mas nada disse, deixou-o terminar de falar.
- Eu sempre quis ter um filho, mas acabou não acontecendo. E ter um filho com você? Nossa!.- ele sorriu. – Talvez seja mais do que eu mereço.
Ela o abraçou bem apertado. Jack beijou o topo da cabeça dela, embalando-a em seus braços.
- Eu te amo.- ela murmurou.
Jack acariciou os cabelos dela e fez com que olhasse pra ele outra vez, encostando sua testa na dela, respirando fundo: - De quanto tempo acha que está?
- Não sei ao certo, mas minha menstruação está atrasada a várias semanas. Além disso, tenho sentido muito sono, enjôo e mais fome do que antes. Me sinto enorme, inchada!
- Oh! Como eu não percebi? Você está muito gorda, vamos ter que aumentar a porta da escotilha pra você passar!- ele gracejou.
Kate deu um tapinha no ombro dele e riu.
- Eu posso?- ele pediu tocando a barriga dela. Kate balançou a cabeça afirmativamente, e ele ergueu a camiseta dela, vislumbrando-lhe o ventre, que ainda não mostrava sinais claros da gravidez.
Jack abaixou-se e acariciou a barriga dela, beijando-a em seguida. As lágrimas escorriam sem parar dos olhos de Kate, estava emocionada, era o momento mais intenso de sua vida.
- Eu tenho medo, Kate.- ele admitiu enquanto se levantava. – Se estivéssemos em qualquer outro lugar, eu poderia cuidar melhor de você, te dar toda a assistência pro nosso filho nascer bem e saudável. Mas aqui? Não há muito o que fazer. Veja o que está acontecendo com a Ana? Sei que há mais por trás disso do que parece, mas se pudéssemos levá-la a um hospital seria muito melhor do que ficar especulando. Não é só a vida do bebê que está em jogo, a dela também. Tivemos sorte com a Claire e a Sun, mas temo por você Kate.
Ela beijou uma lágrima que rolou do olho dele, sentindo o gosto salgado em seus lábios.
- Não importa, eu confio em você. Nesse mundo de estranhos onde estamos sendo obrigados a viver, você é o único que eu realmente conheço. E eu não poderia estar mais feliz por carregar um filho seu. Minha vida finalmente está começando a fazer sentido. Antes, eu vivia fugindo, sem rumo, sem saber o que esperar do dia seguinte. Agora, isso acabou. Eu vou ter um filho pra tomar conta, pra colocar meus pés no chão, e a cada vez que eu olhar pra ele, vou estar vislumbrando seus olhos nos dele, e então minha felicidade será completa.
Jack já não conseguia se controlar chorava, mas não era de tristeza. Tomou as mãos dela:
- Nós vamos enfrentar isso juntos, vou estar ao seu lado sempre. Nada de ruim vai acontecer. Vamos ter um filho!
Kate sorriu, extasiada. Beijou-o. Jack a levantou do chão enquanto ela entrelaçava as pernas ao redor do corpo dele. Beijavam-se sem parar.
- Cara!- disse Hurley, embaraçado por pegá-los naquele momento tão íntimo. – Desculpe, eu não queria interromper...
- Mas já interrompendo...- disse Jack colocando Kate no chão.
Kate enxugou as lágrimas com as costas das mãos.
- Eu vim ver como está o Charlie. A Libby está na escotilha?
- Está sim. Veio trazer roupas para a Ana.- respondeu Jack.
- E ela, como está? O Craig disse que ela teve um peripaque sinistro.
- Ainda não sei Hurley...
- Jack?- chamou Sun, vinha chegando com Locke e Sayid.
- Sun, que bom que está aqui. John disse do que se tratava?
- Sim.- ela assentiu.
- Jack, tomei a liberdade de trazer o Sayid até aqui. Imaginei que devido às circunstâncias você ia querer falar com ele.
- Bem pensado John.- Jack falou. – Sayid?
- Posso imaginar o que seja.- ele disse com seriedade.
O clima ficou tenso de repente. Locke chegou na praia e encontrou Sun na construção, contou a ela o que estava acontecendo com Ana-Lucia. Tiveram o mesmo pensamento. Shannon estaria envenenando-a de alguma forma? Locke resolvera contar a Sayid sobre a desconfiança do grupo, afinal ela era sua esposa. O árabe mostrara-se apreensivo, mas concordou com Locke quando este propôs que ele fosse falar com Jack.
- Não espero que pense que eu...-começou Jack, tentando amenizar as coisas. Mas Sayid interviu.
- Ainda não estou pensando nada, apenas quero ouvir o que você tem pra me dizer.
Os dois afastaram-se, caminhando um pouco mais adiante na floresta. Os demais entraram na escotilha, Sun precisava tirar suas conclusões. Lá dentro, Eko lia um dos livros da biblioteca, concentrado. Levantou os olhos do livro quando viu Sun, Locke, Kate e Hurley entrarem. Ao ouvir os passos deles, Claire levantou de onde estava sentada e foi ver quem era.
- Sun, e o Aaron?
- Ele ainda está com a Rose, dormindo agora. Está tudo bem. E o Charlie?
- Está descansando.- ela respondeu.
- Vem Sun, está aqui na mesa.- Kate disse se referindo ao copo onde Ana-Lucia tomara água antes.
Sawyer e Libby haviam acabado de vestir Ana, ela ainda dormia, sua aparência apesar de debilitada parecia mais tranqüila.
- Então Sun, o que é isso?- indagou Sawyer ao vê-la examinando o copo atentamente.
- È veneno, tenho certeza. Parece digitalis, mas não é só isso, se fosse apenas digitalis ela já estaria morta. Está combinado com um outro tipo de planta, como se fosse para cortar parte do efeito nocivo do digitalis, levando-a apenas a abortar ao invés de matá-la também.
Sun se aproximou da cama e observou Ana-Lucia.
- Mas a hemorragia parou. Jack deu um antibiótico a ela.- disse Sawyer.
- Eu sinto muito Sawyer, mas mesmo que ela não aborte, as possibilidades do seu filho ter sido afetado pelo consumo do veneno são grandes.
- E você não pode fazer nada, sei lá? Preparar um dos seus chás milagrosos para reverter a situação?
Sun respirou fundo, resignada, enquanto os outros a observavam com olhares esperançosos, esperando que ela pudesse fazer alguma coisa.
- O único jeito de ajudá-la, seria descobrindo mais ou menos quanto do veneno foi dado a ela. Eu poderia preparar um chá que ajudaria a eliminar a substância da corrente sanguínea dela. Mas isso não seria garantia de nada.
- Não importa!- Sawyer frisou. – Sun, faça tudo que for possível, mas faça. Salve a Ana e o meu filho, por favor...
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- Sayid, o que eu vou te dizer não vai ser fácil...
- Jack, por favor, vá direto ao ponto. O Locke me adiantou algumas coisas, mas como já disse quero ouvir você.
Jack estava apreensivo, Sayid porém, mais ainda. Era um assunto delicado, mas que precisava ser discutido.
- Pois bem, descobri que Ana-Lucia está sendo envenenada. Alguém está tentando fazê-la abortar. Por isso te pergunto, conhece realmente sua esposa? Até onde acha que ela seria capaz de ir para descarregar suas frustrações?
Sayid o encarou com olhar compenetrado, apesar do tempo em que estavam na ilha ainda não havia perdido a postura de militar.
- Jack, se estão fazendo algo dessa natureza com Ana-Lucia, te digo que Shannon não é responsável. Se ela seria capaz, não sei te dizer. Estamos há mais de um ano nessa ilha e posso te dizer com certeza que não sei o que cada de um nós é capaz. Tomemos o Michael como exemplo, Walt foi levado e ele nos traiu, quase nos matou, mas o aceitamos de volta porque é um dos nossos.
- Onde está querendo chegar Sayid?- indagou Jack. – Está dizendo que se a Shannon estiver envenenando a Ana-Lucia, e ela e o bebê morrerem devemos esquecer e perdoá-la, é isso?
- Não Jack ,estou dizendo para não tomarmos conclusões precipitadas. Não concordo com você tampouco, se Shannon tiver enlouquecido a ponto de ser capaz de envenenar uma mulher grávida, ela deverá ser punida. Mas e depois o que farei com ela? Devo trancafiá-la em uma jaula? Por Alá, ela é minha esposa e eu a amo. Não posso tirar o direito dela de ficar frustrada por não poder conceber uma criança, direito esse que lhe foi tirado pelas mãos de Ana-Lucia, que agora está sofrendo como se fosse uma punição.
- Sayid, Ana-Lucia não está sendo punida, ela está sendo envenenada, é bem diferente. Estou tentando compreender você, sei que a ama. Mas me diga, o que vamos fazer? O que você pretende fazer? Se Shannon tiver mesmo feito isso num momento de loucura, já seria de grande ajuda se ela dissesse que tipo de veneno usou, como usou e quanto usou. Isso pode salvar a vida de Ana-Lucia e do bebê que ela espera.
- Você fala como se já tivesse certeza de que foi ela quem fez isso. Jack, posso não saber tudo sobre ela, mas sei que Shannon não entende nada de plantas, não dá a mínima para elas. Se formos por esse raciocínio, a culpada seria a Sun, porque ela é quem detém conhecimento acerca de ervas, e coincidentemente tem um jardim plantado com suas próprias mãos aqui na ilha.
- Certo, você tem razão. Talvez eu esteja sendo precipitado, pensei nisso por causa do ataque que ela fez a Ana-Lucia no dia da festa.
- Shannon se arrependeu amargamente daquilo, não foi fácil convencê-la a retomar o convívio social na ilha depois. Ela ainda sofre, chora todas as noites e sou eu quem está ao lado dela para saber o que se passa.
Jack passou as mãos pela cabeça:
- Acredito em você. Mesmo assim, preciso tomar providências, não posso ficar de braços cruzados vendo a família que o Sawyer formou ser destruída.
- E não vai ficar. Eu vou conversar com a Shannon, se ela estiver mentindo eu saberei. Mas se não for ela, te prometo que vou descobrir quem foi.
- Como?- questionou Jack.
- Eu sou um torturador meu amigo, ainda não perdi o jeito.
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Shannon havia voltado de sua longa caminhada. Sentia-se muito tranqüila, tivera tempo para pensar em muitas coisas. Aqueles últimos meses tinham sido difíceis, mas ela sentia que conseguira superar muita coisa. Se o destino a encarcerara ali naquela ilha, e lhe tirara o direito de ser mãe, ele havia lhe dado Sayid em seu lugar. Não poderia ter escolhido um marido mais atencioso e amoroso do que ele. Alguém com quem sempre poderia contar. E ela, ao contrário dele não vinha sendo uma boa esposa. Sempre taciturna no seu canto, lamentando por sua má sorte. Resolveu que era hora de mudar, voltar a ser aquela Shannon alegre de sempre e receber seu marido na barraca todas as noites de braços abertos, se deixar ser amada outra vez. Quanto a Ana-Lucia, já chegava de odiá-la, não iria ganhar nada com isso. Que ela fosse feliz ao lado de Saywer, se é que isso era possível! Sawyer era um homem muito irritante, pensou, mas gosto era gosto, e não cabia a ela discutir isso.
Avistou Aaron brincando, arrancando plantinhas do chão e colocando-as na boca. Aline estava ao seu lado, porém distraída conversando com Debbie, que parecia muito zangada.
- Não, eu nunca gostei dela. Sempre se achando tão superior.
- Ai Debbie, acho que você está exagerando, a Libby é uma pessoa tão gentil, tão prestativa aqui na comunidade.
- Aaron!- disse Shannon. – O que você está pondo na boca?- correu até o garoto, chamando a atenção das outras duas.
Pegou-o no colo: - Mostra meu amor, o que é isso que você tem na boca?
Retirou assustada alguns carocinhos vermelhos da boca da criança, sabia que eram de uma planta venenosa.
- O que ele comeu?- indagou Aline, preocupada.
Shannon jogou os carocinhos fora.
- Felizmente, ele não chegou a comer nenhum. Mas foi por pouco, se estão tomando conta dele, deveriam prestar mais atenção.
Debbie tirou Aaron do colo dela:
- Mas olha só quem fala, "a louca" querendo dar lição de moral na gente, Aline.
- Calma aí Debbie!- advertiu Aline.
- "Louca" é? Posso até ser, mas pelo menos não sou fura-olho que nem você, que passa as vinte e quatro horas do seu dia cobiçando o homem da próxima, e ainda fica posando de santinha para a Rose e o Bernard!
- Eu vou quebrar a sua cara, sua idiota!- gritou Debbie. Aaron começou a chorar, assustado com o grito dela.
Shannon fez cara de "pouco caso" e se afastou, não valia a pena perder tempo com uma fedelha de dezesseis anos. Aaron estendeu os braços pedindo colo para Aline, ela o pegou de Debbie.
- Você é maluca mesmo, sabe que a Shannon é esposa do "xerife", não devia se meter com ela.
- Eu já estou cansada desse bando de idiotas. Queria ir embora dessa maldita ilha.
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Depois da conversa com Sayid, Jack retornou para a escotilha, queria saber o que Sun havia descoberto. Mas ficou um pouco frustrado quando ela lhe contou que não tinha como saber realmente que tipo de veneno era aquele.
Sawyer estava muito nervoso, não saía nenhum minuto do lado de Ana-Lucia. Kate apiedou-se dele. Puxou uma cadeira e sentou-se ao seu lado enquanto Sun e Jack conversavam. Locke estava na sala do computador com Eko. Hurley conversava com Charlie que tinha acordado. Claire voltara para a praia para ver como estava o filho.
- Sawyer, você já comeu alguma coisa?- indagou Kate.
- Comecei a almoçar antes do Charlie cair do telhado, depois disso não. A Ana passou mal e eu larguei o meu prato sabe-se lá por onde.
- Então você devia comer alguma coisa agora.
- Obrigado pela preocupação, mas não estou com fome, sardenta. Já vi tanto sangue hoje que me fez perder o apetite pelos próximos três dias.
- Pois eu acho que você devia comer alguma coisa, tomar um banho...
- Eu estou bem.
- Sawyer você está sem camisa e sujo de areia. Vai se cuidar. Jack está aqui, eu também. Tomamos conta dela.
Sawyer pareceu ponderar um pouco. Talvez Kate tivesse razão, provavelmente Ana-Lucia passaria a noite inteira ali, e ele precisava estar preparado. Decidiu por fim seguir o conselho dela voltaria para a praia, tomaria um banho, comeria umas frutas e depois retornaria para a cabeceira da cama de sua amada.
- Tá legal sardenta, eu vou indo até a praia. Se ela acordar, diga pra ela que eu volto logo.
- Pode deixar, papai!- ela gracejou vendo o zelo de Sawyer para com Ana.
Ele sorriu. Olhou para Jack:
- E então doutor pode me adiantar algum diagnóstico?
- Bem, a hemorragia parou então pelo menos conseguimos evitar o aborto. Sun irá preparar agora o chá para ajudar a eliminar o veneno. Vamos ver como as coisas ficam.
Sawyer tocou o ombro de Jack:
- Obrigado, doutor. Você também Sunshine, se a Ana e o pequeno saírem dessa, jamais vamos esquecer o que fizeram por nós. Eu vou indo, volto daqui a pouco.
- Até mais Sawyer.- disse Charlie, imobilizado no sofá.
- Até!
- Ei Sawyer, eu vou com você. A Libby já voltou pra praia faz tempo. Tchau Charlie, te cuida,cara.
- Eu vou também, vou passar na horta para pegar as ervas que preciso para o chá.
Os três saíram. Charlie tentou dormir novamente. Jack olhou para Kate, ainda estava extasiado com a notícia de que em breve seria pai. Ela sorriu ao perceber que estava sendo observada.
- Hey, mamãe.
- Hey, papai.
Ele sentou ao lado dela, na cadeira que antes fora ocupada por Sawyer. Pegou sua mão e entrelaçou seus dedos nos dela.
- Jack, acha que ela vai ficar bem? Sawyer está muito angustiado, não gosto de vê-lo assim.
- Eu não sei Kate. Conversei com Sayid.
- O que ele disse?
- Que a Shannon não faria uma coisa dessas, e sinceramente concordo com ele.
- Mas então, quem poderá ter sido?
- Não faço a menor idéia. Mas só pode ter sido alguém com predisposição para a maldade.
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No caminho de volta para a praia, Sawyer separou-se de Sun e Hurley. Resolveu ir tomar seu banho na cachoeira, a tarde estava muito quente. Seria muito bom ficar sozinho um pouco também, pensar nas coisas.
Não pôde conter um suspiro de prazer ao sentir a água fria em seu corpo. Sabia que àquela hora provavelmente ninguém iria aparecer, por isso tomou a liberdade de tomar banho completamente despido.
- Ana...que eu vou fazer sem você?- falou para si mesmo. – Já estou até sentindo falta dos seus resmungos, dos seus lábios, dos seus murmúrios, do calor do seu corpo...
Seu devaneio foi interrompido pelo barulho de passos. Quem poderia ser?
- Olá?- chamou, nenhuma resposta.
Saiu da água e apressou-se em vestir a cueca boxer preta.
- Quem está aí? Pode aparecer agora mesmo.
Debbie surgiu diante dele, o olhar malicioso.
- Desculpe, não sabia que estava aqui...
- Mas agora que já sabe, então rapa fora! Estou zangado com você, não foi levar as roupas pra Ana. Só um século depois a Libby apareceu com a mochila lá. O que foi? Ficou brincando de pique-esconde e esqueceu?
- Não Sawyer, nada disso. A Libby que não me deixou levar as roupas, aquela antipática! E eu que estou tão preocupada com a Ana.
Sawyer deu de ombros.
- Acho melhor você voltar pra praia, como já disse quero ficar sozinho. Tomar meu banho em paz.
- Talvez queira companhia...- ela disse despindo o vestido, ficando totalmente nua diante dele.
Sawyer de um sorriso cínico para Debbie quando a viu nua.
- O que você está querendo, Lolita?
Ela se aproximou dele caminhando sensualmente, o olhar insinuante.
- O que você acha?
Ele a media dos pés a cabeça, não tinha como evitar. Debbie era muito bonita, o corpo desenvolvido e um jeito muito seguro para uma garota de dezesseis anos. E Sawyer sentiu-se tentado, observando aquele corpo esguio, a pele muito branca, contrastando com os longos cabelos negros.
- Vai ficar me olhando sem fazer nada, Sawyer? Eu não te agrado?
Sawyer mordeu os lábios:
- Benzinho, você é uma delícia. Mas por incrível que pareça, ninfetas não fazem o meu estilo, gosto das mais experientes. Por isso é melhor você se vestir.
- Como a Ana-Lucia?- ela indagou irritada, vestindo a calcinha. – O que ela sabe fazer que eu não saberia?
Ele deu uma risada debochada:
- Querida, sei que está cheia de amor pra dar, mas você não faz idéia do que a Ana sabe fazer!
- Sawyer!.- ela insistiu se aproximando dele. Estava tão perto que seus seios rosados tocavam levemente o peito dele. – Eu não quero mais ser a única virgem dessa ilha!
Sawyer olhou bem fundo nos olhos verdes dela, aproximou seus lábios dos dela. Debbie sentiu o coração acelerar percebendo que ele iria beijá-la. Ele roçou de leve seus lábios no pescoço dela, deixando-a arrepiada. Quando Debbie achou que finalmente iria provar dos lábios de Sawyer, ele a surpreendeu dando-lhe um inocente beijo no rosto.
- Foi bom pra você?
Se afastou dela, fazendo-a se sentir frustrada e humilhada.
- Onde você vai, Sawyer?
Ele vestiu rapidamente a calça jeans e começou a calçar os sapatos.
- Vou pra minha barraca trocar de roupa, comer alguma coisa e voltar pra escotilha. Ana precisa de mim.
Debbie pegou o resto de suas roupas do chão ,vestindo-se também. Sentia vontade de chorar de tanto ódio.
- Por que Sawyer?
- Por que o quê?
- Por que a Ana-Lucia?
Sawyer respirou fundo:
- Talvez você não tenha maturidade suficiente pra entender.
- Maturidade? Eu não sou nenhuma criança!
- Ah não?- ele retorquiu. – Então porque se comporta como uma, vindo até mim desse jeito achando que eu vou transar com você. Sei que tenho reputação de canalha no acampamento, mas te garanto que pedófilo eu não sou. E além disso, Ana é a única mulher pra mim nessa ilha, está esperando um filho meu, sofrendo em uma cama e você acha que eu tenho cabeça pra sexo? Você não me conhece Deborah, não sabe absolutamente nada sobre mim. Eu só quero a Ana, ninguém mais! Volte pros seus brinquedos.
- Você vai se arrepender...-ela disse baixinho, já vestida. Os olhos cheios de lágrimas.
- Como é?- ele se voltou antes de ir embora.
- Eu disse que você vai se arrepender!- ela gritou.
- Ah claro, já estou começando a me desesperar.- ele debochou. – È melhor voltar logo para a praia, não é seguro ficar andando sozinha pelo meio da floresta.
Se afastou depressa, caminhando o mais rápido que podia, queria se afastar logo de Debbie, seu pensamento totalmente voltado para Ana-Lucia relembrando as lágrimas de desespero dela diante do medo de perder o filho. Sawyer também estava com medo e sabia o que o medo era capaz de fazer com ele. Se ficasse mais um minuto lá com Debbie, sabia o que faria. Transaria com ela, só para odiar-se depois tentando inutilmente fugir do próprio sofrimento. Era mais fácil ser odiado do que ser amado e principalmente do que se permitir amar. Ele detestava se sentir vulnerável, mas dessa vez não conseguiu dar uma de garanhão, estava completamente apaixonado por Ana-Lucia, a amava como nunca amara ninguém. Se perdesse a ela e o filho, seria como estar debaixo da cama outra vez, ouvindo os gritos do pai antes de atirar em sua mãe e se matar em seguida.
- Não, isso não vai acontecer. Não vou perder minha família pela segunda vez.- e determinado voltou até a praia, disposto a não demorar mais que vinte minutos para estar de volta à escotilha, e poder cuidar de Ana.
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Sayid estava com o coração pesado. E se Shannon tivesse realmente sido capaz de envenenar Ana-Lucia? Apesar de ter afirmado a Jack que isso seria impossível, ele tinha suas dúvidas. Se fosse mesmo culpada, o que ele faria com ela? Torturá-la? Jamais. Estava parado diante da barraca, sabia que ela estava lá dentro, mas precisava reunir forças para entrar e questioná-la com seriedade. Não podia deixar com que o jeito manhoso dela afetasse seu julgamento. Era seu marido, mas tinha que ser imparcial, a situação pedia isso.
- Sayid, você está aí?
Ele pensou duas vezes se deveria responder, mas por fim disse:
- Estou.
- E por que não entra? Eu quero falar com você.
Sayid respirou fundo e entrou na barraca, havia chegado a hora de confrontar a esposa, descobrir se as suspeitas de Jack eram infundadas ou não.
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- Sawyer? Onde está o Sawyer?- indagou Ana-Lucia despertando de repente, chamando a atenção de Jack, Kate e Sun que estavam na cozinha.
. Locke e Eko não estavam mais lá, resolveram ir até a praia para ver como estavam as coisas. Kate foi até Ana-Lucia, seguida por Jack. Sun permaneceu na cozinha preparando o chá que poderia ajudá-la enquanto Charlie dormia profundamente.
- Sawyer?- Ana-Lucia insistiu, nervosa.
- Calma Ana, Sawyer não está aqui, mas vai voltar logo, não se preocupe.
A situação pela qual ela estava passando a havia deixado extremamente sensível, e ela não hesitava em demonstrar seus sentimentos, coisa que não teria feito se o problema fosse outro.
- Eu quero o Sawyer! Preciso dele!- ela choramingou, o rosto muito pálido.
Jack tocou a barriga dela, pressionando-a de leve.
- Ainda está sentindo dor?
- Yeah, um pouco. Eu me sinto zonza, desconfortável.- ela parou de falar por alguns instantes e encarou Jack, apreensiva. – O meu bebê está bem?
Ele não sabia realmente, e sentiu-se mal por isso. Se estivesse no hospital onde trabalhava e Ana-Lucia fosse sua paciente, ele provavelmente lhe diria a verdade, que as chances do bebê estar bem eram mínimas. Mas a situação ali era outra, Jack ainda era o médico, mas não estava em um hospital convencional. Por isso tinha que ter muito cuidado com que o ia dizer, para não deixá-la mais nervosa.
- Você teve uma hemorragia, que conseguimos conter com um antibiótico muito forte.
Ana-Lucia tocou a barriga:
- Mas o meu filho...
- Eu realmente não posso afirmar nada, mas eu estou fazendo tudo o que é possível pra te ajudar, tente não ficar tensa isso pode trazer a hemorragia de volta.- Jack concluiu, não teve coragem de dizer à ela sobre o envenenamento, isso poderia piorar mais as coisas.
Ela tentou sentar-se na cama.
- Ana, é melhor você continuar deitada.- Jack advertiu. – Sun está preparando um chá pra você.
- Mas eu preciso ir ao banheiro.- ela disse.
- Eu te ajudo.- falou Kate apoiando-a enquanto ela se levantava com dificuldade. – Calma, devagar, vem...
Enquanto a ajudava, Kate ficou observando o quanto Ana-Lucia parecia vulnerável naquele momento. Nem de longe lembrava a mulher que chegara ao acampamento meses antes botando banca. Pensou em si mesma, em como estaria dali a alguns meses. Teria problemas com sua gravidez? Ficaria tão dependente de Jack quanto Ana-Lucia estava de Sawyer? Esperava que não, isso seria terrível. Não gostava de precisar de ninguém.
- Consegue ir sozinha?- Kate indagou à porta do banheiro.
- Ainda estou viva...- Ana-Lucia disse com um meio sorriso no rosto pálido, entrando no banheiro e fechando a porta atrás de si.
- O chá está pronto!- disse Sun segurando uma caneca.
O computador apitou. Jack se levantou da cama onde estava sentado e correu para a sala do computador, mas não sem antes dizer a Kate:
- Se ela demorar muito, entre e veja se ela está bem Kate.
- Ok.- Kate assentiu ficando parada na porta do banheiro.
- 4, 8, 15, 16...- Jack digitava os números quando Sawyer entrou na escotilha. O contador zerou novamente, retornando para 108. - Já de volta, Sawyer? Você realmente não demorou. – disse Jack ao vê-lo.
- E a Lu? Ela acordou?
- Sim.- disse Jack.
Sawyer correu até a cozinha, Ana-Lucia acabava de sair do banheiro, estava ainda mais pálida. Sun apressou-se em dar o chá a ela.
- Ana?- Sawyer falou, apoiando-a.
- Onde você estava, cowboy?- ela indagou se segurando nele.
- Ana, beba isso devagar. Não está muito quente.
- Me dá aqui, Sun.
Kate pegou a caneca das mãos de Sun, enquanto Sawyer a ajudava a voltar para a cama, Ana-Lucia mal se agüentava em pé. Não conseguiu chegar até a cama, Sawyer teve de carregá-la.
- Pronto docinho.- ele disse. – vai ficar tudo bem, eu estou aqui com você. Agora bebe o chá, vamos.
Ela começou a beber, o gosto não era agradável. Queixou-se:
- Está amargo.- disse devolvendo a caneca para Sawyer.
- Seja uma boa menina e beba, anda.
Ana-Lucia terminou de beber, mesmo fazendo careta. Sawyer acariciava seu cabelo, com um jeito muito paciente que estava deixando Kate impressionada. Ela sorriu e os deixou sozinhos indo até a sala do computador ficar com Jack.
- O que está acontecendo Sawyer? Por que tudo isso?
- Você vai ficar bem, não se preocupe. Temos o melhor médico da ilha cuidando de você.
- Mas se só existe um...-ela disse, sorrindo.
- Então, por isso ele é o melhor. Dr. Jackass Shephard!
- Acha que algum dia vamos sair dessa ilha e ter uma casa com um quintal bem grande pro nosso filho brincar e um cachorro…
- E a sua mãe nos visitando aos domingos, tentando persuadir você a se separar do cara mais idiota que já conheceu, mesmo ela sendo obrigada a admitir que apesar de idiota esse cara é o genro mais bonito que ela já teve.
Ana-Lucia riu, e tocou o rosto dele carinhosamente:
- Sim, o mais bonito. Eu estou completamente louca por você, James.- ela confessou.
- Então você está encrencada, Ana.- ele beijou a mão dela. – E já que estamos fazendo planos pro futuro, andei pensando em umas coisas.
- No quê?- ela indagou curiosa.
- Quando formos resgatados.- ele começou a falar bem baixinho. – Vamos nos casar, e ir morar em Los Angeles. Você vai entrar pra S.W.A.T e eu vou ficar em casa tomando conta do bebê e das coisas. E todas as noites quando você chegar em casa eu vou estar te esperando e faremos amor numa cama redonda, com espelhos no teto...
- E você não vai trabalhar?
- Não meu bem, meu único trabalho vai ser enlouquecer você de prazer todas as noites...
- Dios, mal posso esperar!
Eles riram descontraídos, a tensão desanuviando um pouco. Sun foi até a sala do computador:
- Eu vou voltar para a praia, daqui a pouco vai escurecer. Se precisarem de algo, não hesitem em me chamar, virei correndo.
- Tudo bem, Sun.- concordou Jack que estava sentado de frente para o computador.
Quando Sun saiu, Kate sentou-se em seu colo, beijando-o.
- Ei, eu estou de serviço.- ele gracejou.
- Mas você é o chefe, pode fazer uma pausa quando quiser. – Kate disse, beijando-o de novo.
- Enfermeira! Enfermeira!- chamou Charlie do sofá da biblioteca. – Eu estou com fome!
- Anda enfermeira.- disse Jack. – Vá levar o jantar do paciente, essa é a sua função. Pra que eu te pago?
- Você me pagar?- ela ergueu uma sobrancelha.
- Sim, te encho de beijos todos os dias. È o seu salário.- ele completou.
- Então acho que estou ganhando muito bem.- ela disse dando-lhe um selinho.
- Nada de adiantamentos, vá ver o paciente.
Kate riu, e gritou: - Já estou indo, Charlie.
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Bernard estava organizando os sacos de lixo que seriam levados por Craig e Steve para serem enterrados do outro lado da praia quando viu Debbie se aproximar. Estava muito pálida, os olhos vermelhos de tanto chorar, a alça do vestido rasgada, e alguns hematomas visíveis pelo corpo.
- Oh meu Deus, Debbie. O que aconteceu?- ele disse segurando-a, antes que ela caísse na areia.
- Sawyer.- ela respondeu num murmúrio, perdendo a consciência nos braços dele.
- Rose! Rose!- gritou Bernard para a esposa, que não estava muito longe. Preparava o jantar na despensa com a ajuda de Tina e da Sra. Lewis.
Ao ouvir os gritos dele, Rose largou tudo o que estava fazendo e correu até onde ele estava. Ainda segurava uma panela em suas mãos que deixou cair ao ver o marido segurando Debbie desacordada em seus braços.
- Ah não, a minha menina. O que aconteceu Bernard?
- Eu não sei, ela surgiu assim de repente. Dana, traga um pouco de água pra ela.- Bernard pediu à sra. Lewis.
- Debbie, fale comigo querida, por favor!- pediu Rose tocando o rosto dela.
Debbie piscou os olhos e os abriu bem devagar, sentou-se com um pouco de dificuldade e em seguida atirou-se nos braços de Rose, chorando muito.
- Aqui está a água.- disse a Sra. Lewis entregando o copo para Debbie que o bebeu rapidamente.
- Mas diga Debbie, por favor. O que aconteceu?- perguntou Bernard, exasperado com as condições em que ela se encontrava.
- Eu fui dar uma volta sozinha pela floresta.- contava entre soluços. – Daí resolvi me refrescar na cachoeira, quando o Sawyer apareceu. Ele veio com uma conversa estranha pra cima de mim, dizendo que a Ana-Lucia já não servia mais pra nada com aquela barriga enorme...disse que eu era linda, que ele ia me mostrar o que era bom que eu não ia me arrepender.
A cada palavra que ela dizia, Bernard, Rose e a Sra. Lewis arregalavam mais os olhos. Tina se aproximou também ao perceber que Debbie estava chorando.
- Eu disse que não estava interessada, e saí correndo, mas ele veio atrás de mim, me jogou no chão...- ela começou a chorar ainda mais. – Ele fez...me sufocou...me machucou...
- Oh meu Deus!- exclamou a Sra. Lewis. Que coisa mais horrível, temos que contar ao Sayid.
- Não!- disse Bernard. – O Sayid não vai fazer nada, quem vai resolver isso sou eu.- e saiu caminhando em direção à escotilha.
- Não sei não, é melhor chamarmos o Sayid.- insistiu Tina.
Rose concordou e Tina correu para chamá-lo.
- Debbie, não se preocupe querida. Sawyer vai pagar pelo que fez, o Sayid vai botá-lo no lugar dele. Aquele bandido, nunca engoli ele. Mesmo com essa história de ser pai. Ficava por aí pelos cantos fazendo coisas ilícitas com a Ana-Lucia, eu os peguei mais de uma vez se querem saber. Aqueles sodomitas! Só lamento por essa criança que vai nascer, que Deus proteja o coitadinho.- falou a Sra. Lewis com seu jeito de beata.
Debbie ainda soluçava nos braços de Rose. Ela não podia acreditar no que tinha acontecido, desse jeito a comunidade estava perdida, não podiam confiar uns nos outros, todo mundo era capaz de cometer um desatino. Mas agredir uma criança? Pensou. Era terrível demais. E Bernard, por que fora sozinho atrás de Sawyer? Rose esperava que Sayid pudesse resolver tudo e impedir mais uma desgraça.
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Tudo estava tranqüilo na escotilha. Kate tinha preparado o jantar, sopinha para os doentes e macarrão à bolonhesa para Jack. Sawyer comera um pouco do macarrão também enquanto dava sopa na boca de Ana-Lucia, bem devagar. Ela já estava bem mais calma, o chá de alguma forma a tranqüilizara.
- Ai meu Deus, Sawyer.- ela disse enquanto ele servia mais uma colherada de sopa pra ela.
- O que foi Baby, tá sentindo alguma coisa?- ele indagou preocupado.
- Não baby, ele está mexendo.- ela não conseguia conter o sorriso de felicidade.
Sawyer colocou a mão na barriga de Ana-Lucia, e sentiu os chutes do bebê. Seu coração acelerou, ao que tudo indicava seu filho estava bem.
- Doutor! Doutor!- gritou para Jack que jantava na sala do computador com Kate.
Jack largou o prato e correu para lá com Kate.
- O que houve Sawyer?
- O meu filho, ele está bem!- Sawyer tinha lágrimas discretas nos olhos.
Kate abriu um largo sorriso e foi até Ana, tocando sua barriga.
- Está sentindo? Ele mexeu de novo.
- Sim eu estou, acho que esse é o pé dele. Oh meu Deus!
Sawyer e Jack puseram a mão na barriga dela também, sentindo a mesma coisa. Todos estavam muito emocionados, era mais uma vida que estava lutando para sua sobrevivência. Jack sentia-se realizado por ter podido fazer alguma coisa para salvá-lo, mas no fundo acreditava que o mérito era de Sun.
- Nossa, ele chuta muito!- exclamou Kate.
- Ele é tão inquieto quanto o pai dele!- Ana-Lucia comentou sorrindo.
- Eu te amo Ana.- disse Sawyer, se aproximando dela com o intuito de beijá-la.
Jack e Kate se afastaram para que ele pudesse fazer isso. Charlie sorria vendo toda aquela cena, havia acabado de terminar sua sopa. Sawyer a olhou profundamente e colocou a mão em sua nuca trazendo seus lábios para os dele, e beijando-os amorosamente.
Kate olhou para Jack e o abraçou apertado, ele não parava de sorrir e também a beijou. Estava tão feliz que deixou escapar:
- Sawyer, eu também vou ser pai.
Sawyer parou de beijar Ana-Lucia e riu, gracejando: - Não perdeu tempo também, não é doutor?
- Kate você está grávida?- Ana-Lucia indagou surpresa.
- Eu estou.- Kate confirmou.
- Que é isso? Epidemia?- divertiu-se Charlie.
Jack e Sawyer ficaram se olhando e sorrindo.
- Doutor, eu acho que seremos dois pais babões.
- Sim, pode apostar.- disse Jack.
Os dois apertaram as mãos, mas acabaram se abraçando, estavam muito empolgados. Kate e Ana-Lucia também confraternizavam, se sentiam mais próximas.
- Sawyer! Onde está você seu desgraçado!- gritou Bernard entrando na escotilha, pisando duro.
Sawyer fez cara de dúvida: - Mas o que inferno está acontecendo?
Bernard entrou na cozinha e despejou:
- Como você pode ter tido coragem de estuprar a Debbie?
- Como é que é?- indagou Sawyer, espantado com a acusação.
- O Sawyer fez o quê?- disse Ana-Lucia sentando-se na cama.
- Violentou uma menina!- Bernard esbravejou, indo para cima de Sawyer, estava muito irritado.
- Bernard!- gritou Jack impedindo Bernard de agredir Sawyer. – È melhor explicar essa história direito.
- Eu também acho.- disse Ana-Lucia, séria.
- Só existe uma explicação.- falou Sawyer. – A comida da Dharma Initiative está começando a afetar o cérebro dele. Que história é essa de que eu agredi a Deborah? Eu não fiz nada, ela que veio pra cima de mim...
- O quê?- esbravejou Ana-Lucia. – Então aconteceu alguma coisa entre vocês? Que merda é essa?
- Calma Ana.- pediu Kate vendo que ela se exaltava, as mãos começando a tremer ligeiramente.
- Ela foi pra cima de você? Por favor Sawyer, ela é uma criança. E todos nós sabemos aqui que tipo de homem você é. Como pôde ter feito isso com a Debbie? E a Ana, ela está esperando um filho seu, não pensou nela?
- Não tente falar por mim Bernard, eu só quero entender o que está acontecendo.- disse Ana-Lucia.
- Bernard, essa é uma acusação muito séria, que provas você tem?- indagou Jack.
- Debbie é a prova. Está agora lá na praia, coberta de hematomas, as roupas rasgadas. Só um homem muito doente seria capaz de fazer uma coisa dessas. Eu perguntei a ela quem tinha feito isso, e ela não hesitou em dizer o nome do Sawyer.
- Então eu sou doente? Doente é essa garota. Se alguém a violentou, esse alguém não fui eu. Passei o dia inteiro aqui tomando conta da Ana.
- È, mas você saiu pra...- começou Charlie, se metendo na conversa.
Kate interviu, irritada:
- Cala a boca Charlie, Sawyer saiu daqui para tomar um banho e trocar de roupa, demorou menos de uma hora para voltar.
- Tempo suficiente!- bradou Bernard.
Nesse momento, Sayid adentrou a escotilha seguido por Locke. Ambos tinham uma expressão de horror em seus rostos.
- Sawyer!- chamou Sayid.
- Ora vejam, o delegado chegou. Parece que vou precisar de um advogado.
- Não estou para brincadeiras Sawyer, temos uma garota ferida na praia dizendo ter sido agredida por você.
- Aquela vadia!- exclamou Saywer. – Estava a fim de dar para o primeiro que aparecesse.
Ao ouvir as palavras de Sawyer, Bernard se descontrolou ainda mais e acertou um soco em cheio na boca dele, fazendo um fio de sangue escorrer de seus lábios. Uma raiva enorme começou a se apoderar de Sawyer, aquilo não podia estar acontecendo, era muito vil, muito baixo. Ele nunca a tocara, Deborah não lhe interessava. Sempre achara que a presunção dela se sobrepunha à sua beleza. Instintivamente revidou pra cima de Bernard, mas foi impedido por Sayid que o segurou.
Ana-Lucia estava chocada com aquelas acusações, não podia acreditar que Sawyer fora capaz de fazer uma coisa daquelas, tinha que ter uma outra explicação. Olhou para Kate, como que buscando algum apoio. Kate balançou a cabeça negativamente para ela, também não acreditava que aquilo fosse verdade.
Jack segurava Bernard firmemente, que estava tentando outra vez bater em Sawyer. Sayid ainda segurava Sawyer, mas ao contrário de Bernard, ele não se debatia.
- Acho melhor acalmarmos os ânimos!- pediu Locke. – Há muita coisa que precisa ser esclarecida. Jack, Debbie está mesmo muita ferida, você deveria ir vê-la, enquanto eu e o Sayid conversamos com o James, para esclarecer as coisas.
Sawyer limpou o sangue dos lábios:
- Eu não tenho nada pra esclarecer, não toquei num fio de cabelo daquela fedelha. Ela se ofereceu pra mim hoje à tarde e eu a dispensei. E já que ela está sendo tão mentirosa, imagino que ela seja capaz de outras coisas também, como envenenar a Ana.
- Me envenenar?- perguntou Ana-Lucia, sem entender.
- O Jack descobriu que você estava perdendo o bebê porque alguém te envenenou.- confessou Kate.
- E quando pretendiam me contar isso?- ela gritou, sentindo o ódio tomar conta dela.
- Sawyer, você está dizendo asneiras. Debbie é uma criança, jamais envenenaria alguém, ela nem saberia como fazer isso.
- Criança? Ora, me poupe Bernard! De criança ela não tem nada, isso eu posso te garantir.
Bernard partiu pra cima dele de novo, que dessa vez apenas se defendeu. Ana-Lucia levantou-se da cama de um salto, o esforço a fez sentir-se zonza, mas ela manteve-se de pé e gritou com Bernard:
- Se você tentar socar a cara do meu homem de novo, esqueço a nossa amizade e quebro todos os seus dentes.
Bernard recuou diante da ameaça dela, sabia que ela era mesmo capaz disso.
- Agora já chega!- falou Jack, tentando pôr ordem à situação. – Iremos até a praia, eu vou examinar Debbie, constatar se ela está dizendo a verdade ou não.
- E quanto ao Sawyer? Ele deveria ser preso.- disse Bernard.
- Nesse ponto concordo com o Bernard, com todo o enxame que a Debbie fez lá na praia, as pessoas estão revoltadas, exigindo que tomemos providências.- falou Sayid, tirando um par de algemas do bolso. Essas algemas haviam sido encontradas em uma outra escotilha que descobriram na ilha, a quilômetros do Cisne.
- Não!- disse Ana-Lucia percebendo que Sayid iria algemá-lo.
- Deixe Ana.- falou Sawyer resignado. – È melhor eu fazer o que eles querem, logo irão descobrir que Debbie está mentindo, e vai ficar tudo bem.
Ela se abraçou a ele, sentida. Sawyer envolveu os braços em volta do corpo dela.
- Ana, você acha que eu seria capaz de fazer uma coisa dessas?
Ana-Lucia fitou os olhos azuis dele:
- Não, baby.
- Então isso é tudo o que importa.- ele respondeu. Sayid pegou os braços dele e os colocou para trás algemando-o. – Bem, acho que agora tudo o que eu disser será usado contra mim no tribunal.
- Vamos Sawyer.- pediu Sayid, educadamente. Os dois saíram andando, seguidos por Locke.
- Eu espero que dessa vez algo sério seja realmente feito, para que não tenhamos mais que conviver com esse tipo de ameaça.- falou Bernard.
- Ah, cala a boca!- disse Jack. – Kate, pegue a minha maleta.
- Bernard, eu acho que você está se precipitando, todo mundo sabe que a Debbie não é nenhuma santinha.- debochou Charlie. – Só o Steve que é cego, porque é louco por ela.
- Ótimo, agora eu vou ouvir a opinião de um viciado em heroína!
- Ex-viciado!- Charlie enfatizou.
Kate trouxe a maleta de Jack. Ele a puxou para perto de si e encostou sua testa na dela: - Vou pra praia resolver isso, cuide dos dois. Volto logo.
- Jack, não deixe fazerem nada com o Sawyer, eu acredito que ele é inocente.
- Eu também Kate, mas preciso investigar isso a fundo.
Olhou para Ana-Lucia, a palidez havia voltado ao seu rosto. Ela sentiu-se mais zonza e apoiou-se na pia, a vista escurecendo. Bernard foi até ela, tentando ajudá-la.
- Não me toque!- ela disse ríspida.
Kate segurou no braço dela.
- Vem, vou te ajudar a voltar pra cama.
- È melhor irmos!- disse Jack chamando Bernard.
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Retrocesso. Essa era a melhor palavra para definir a reação das pessoas diante do que supostamente acontecera a Debbie. Todos estavam revoltados, comentando sobre todas as coisas ruins que Sawyer fizera no acampamento desde a queda do avião, as coisas boas tinham sido esquecidas.
Quando Sayid chegou à praia trazendo Sawyer algemado, a multidão ficou ensandecida, gritando toda sorte de desaforos para Sawyer. Ele se sentiu muito mal com tudo aquilo, mas tentou fechar os olhos e pensar em coisas boas. Sayid o amarrou em uma árvore, longe das pessoas. Não fez o nó muito apertado, não considerava Sawyer uma ameaça, tinha suas dúvidas sobre Debbie estar falando a verdade.
- Outra vez você me amarrando em uma árvore, Bin Laden.
- Se você não for culpado, não vai ficar muito tempo preso nela.- respondeu Sayid com seriedade.
- Tudo bem, não estou levando pro lado pessoal. Sei que só está fazendo o seu "trabalho".
- Certo Sawyer, preciso que você conte a mim e ao Locke tudo o que aconteceu, detalhe por detalhe. – disse Sayid.
- Queremos te ajudar James.- falou Locke.
- Eu já contei o que aconteceu, lá na escotilha. Não vou repetir de novo. E querem saber de uma coisa, se não sou culpado agora, provavelmente serei assim que for solto, porque eu vou esmagar a cabeça daquela vadia. Tenho certeza que ela estava envenenando a minha Ana.
- Talvez você tenha razão.- falou Sayid à boca pequena. – Mas pra descobrirmos isso, precisamos pegá-la de jeito. Por isso, peço que você colabore. Não faça nada. Vamos ver o que Jack descobre. Agora conte Sawyer, conte tudo.
Sawyer narrou para Sayd e Locke sua conversa com Debbie na cachoeira, enfatizando a todo momento da narrativa que a tinha dispensado, que ela provavelmente deveria ter sérios problemas mentais para ser capaz de machucar a si própria somente para acusá-lo, se vingando por ter sido rejeitada.
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Jack não demorou muito para chegar até a praia. Foi direto para a barraca de Rose onde Debbie estava, ainda em prantos. Encarou os olhos verdes dela, procurando algum fundo de verdade naquela história toda, mas não encontrou uma só emoção visível. Debbie na sua opinião parecia estar interpretando.
- Me conte Debbie.- ele disse examinando os hematomas dela. – Detalhe por detalhe do que aconteceu.
Continua...
