Profecia

— Parece que não vai parar de chover hoje.

Realmente o céu ameaçava despencar a qualquer momento. Uma tempestade de chuva e neve. Mantínhamos todas as janelas fechadas, mas Sirius gostava de ficar encostado à vidraça, observando o movimento da natureza do lado de fora. Eu preferia ficar na poltrona em frente à lareira, lendo um livro, como fazia naquele momento.

— A parte boa é que não temos trabalho para a Ordem esta noite — eu disse despreocupado, sem tirar os olhos do livro.

— É bom, eu estou mesmo querendo passar mais tempo com você.

Decidi, então, que meu livro não era mais tão interessante, e larguei-o na poltrona. Era muito melhor ficar abraçado ao Sirius, olhando a chuva.

— Sabia que eu te amo? — eu disse de repente, como eu sempre fazia quando não podia mais me conter; Geralmente eu sentia vontade de dizer "eu te amo" ao Sirius a todo o momento.

— Acho que não — brincou — seria coincidência se eu dissesse que te amo também?

Nós rimos, e Sirius me beijou. Nick latia, e nós o ignorávamos. Entretanto, o latido não era o mesmo latido de ciúmes de sempre, era mais intenso, mais nervoso. Foi Sirius quem percebeu.

— O que foi, Nick? — ele indagou preocupado, analisando a porta, que era para onde Nick olhava enquanto ladrava.

— Será que tem alguém lá fora?

— Eu vou ver, Remmy, você fica aí.

— Não, Sirius, eu vou com você.

— Remmy, por favor.

Era realmente inútil discutir com Sirius. Ele apanhou uma capa no cabide, saiu e fechou a porta atrás de si, enquanto eu acompanhava pela janela. Sirius olhou para todos os lados e deu de ombros. Ele já virava as costas para entrar em casa de novo, quando eles apareceram: Os três Comensais da Morte: Bellatrix, Dolohov e Greyback. Estavam todos encapuzados, mas eu jamais confundiria o modo descontrolado de como se mexia a víbora. Minha respiração começou a falhar, eu tinha de fazer alguma coisa, mas o que? Vi Sirius tatear os bolsos internos da capa e encontrar a sua varinha, mas ainda assim, ele era apenas um contra três. Eu realmente precisava fazer alguma coisa. Tentei me concentrar para lembrar onde deixara a varinha, e quando passava os olhos pela sala, felizmente localizei-a sobre a lareira, onde eu a usara para acender o fogo um pouco mais cedo. Peguei-a imediatamente e me cobri com a primeira capa que encontrei no cabide. Provavelmente era de Sirius, visto que era mais comprida e tinha o seu cheiro. Olhei novamente pela janela, e Sirius ainda discutia com a prima, rindo e desdenhando sempre. Ela já arrancara o capuz, e seu rosto parecia deformado em uma máscara de ódio. Era a hora de intervir, eu já era um auror, afinal, não apenas o garotinho fraco que fora na infância e adolescência. Abri a porta com cautela, mas quando fui me adiantar, a varinha em punho, Bellatrix agarrou o braço de Sirius e forçou-o a aparatar.

— SIRIUS!

Ele havia aparatado com os Comensais, e eu não tinha ideia para onde haviam ido. O desespero me tomou por inteiro, visto que eu estava completamente impotente, e só poderia esperar que ele retornasse — ou não.

Entrei novamente em casa e fiquei rodando pela sala, pensando em um meio de fazer qualquer coisa. As lágrimas insistentes caíam, e não me permitiam raciocinar. Foi então que me lembrei dela, a maldita cigana e sua última profecia. "Eles vão buscar o menino na noite sem estrelas, apenas com água caindo do céu" — foi o que ela dissera há tanto tempo. Ela estava certa, a maldita cigana estava certa! Pensei que ia sucumbir ao desespero, mas acabei por lembrar o restante da profecia: "A salvação está na morada perpétua de quem mais se ama". Tentei me acalmar, o que era quase impossível, e sintonizar os pensamentos. Então uma luz, vinda não sei de onde, fez-me considerar que a morada perpétua talvez fosse um túmulo, mas que túmulo? O túmulo de quem mais se ama. Sirius estava vivo — ao menos era o que eu esperava. Quem eu mais amava, além dele? É claro, os meus pais! Não precisaria distinguir a qual dos dois a cigana se referira, porque estavam enterrados no mesmo túmulo. Podia ser uma loucura sem fundamento, mas era a minha única esperança, e eu iria para lá.

Tranquei a porta de casa com magia e aparatei da rua deserta, ignorando a chuva e a neve que me faziam tremer. Logo, eu estava no cemitério. Eu não gostava daquele lugar, mas era necessário estar ali. Olhei à minha volta tentando me recordar onde ficava o túmulo dos Lupin. A neve tornava a visibilidade mais difícil, mas eu me esforçava para divisar o grande anjo de bronze em meio a todas aquelas esculturas pálidas, que à noite pareciam fantasmas. Eu não tinha tempo para ficar parado, então decidi me embrenhar por qualquer caminho, o que me levou a ficar totalmente perdido. Eu estava com frio, fome e desesperado por Sirius, não podia conter as lágrimas de medo e angústia.

— Eu não vou deixá-lo morrer — eu disse para mim mesmo, engasgando com as palavras — Eu não vou perdê-lo também, Sirius.

Não sei explicar como aquilo se deu, mas de repente eu sabia para onde ir. Não que relembrasse ou visualizasse o caminho, mas fui impelido por uma força maior. Em cerca de dez minutos, eu estava em frente ao túmulo de meus pais. Olhei cada detalhe da lápide, dos ladrilhos e do anjo de bronze. Onde estaria a salvação? Eu não entendera a profecia? Deixei-me cair de joelhos ao chão e acomodei a cabeça entre meus braços, sobre o túmulo baixo. Ali, sob a terra, estavam as pessoas que me criaram, as únicas pessoas que eu tinha, fora Sirius. Eu não podia permitir que ele também morresse. Chorei alto, desesperado, quase aos gritos. O som ruidoso da chuva se confundia com o meu choro, e de repente, um som mais alto e mais intenso cobriu os outros dois. Era um canto agourento, que, ao erguer a cabeça, eu pude perceber, vinha de uma ave mais tenebrosa ainda. Eu nunca havia visto nada igual. Assemelhava-se a uma fênix, mas era muito maior e negra. Eu nunca vira um pássaro tão grande. Ela fincara as enormes patas sobre o ombro do anjo de bronze e olhava para o céu, emitindo o seu canto dramático. De repente, ela desceu até onde eu estava e colocou-se a meus pés, de cabeça baixa. Parecia esperar uma ordem, e eu não tinha tempo para pensar se aquilo era sensato ou não.

— Encontre Sirius Black e salve-o — eu disse de uma vez.

Não transcorreram mais que dois segundos, e ela levantou voo e sumiu no céu escuro. Eu tremia da cabeça aos pés, mas parecia mais calmo, seguro. Que animal era aquele, e porque eu sentia tanta confiança, a ponto de querer voltar para casa? Sentei-me sobre o túmulo, tentando me acalmar um pouco mais. A presença de meus pais era evidente, fosse ou não fruto de minha imaginação. Dentro de meu coração, eu os ouvia pedir que me acalmasse, porque já estava tudo bem. Deixei-me ficar ali por cerca de um quarto de hora, permitindo que a chuva molhasse o meu rosto e tirasse um pouco de meu cansaço. Desaparatei apenas quando me senti à vontade para isso, e ao me ver novamente à porta de casa, eu estava sossegado. Abri a porta com cautela, e então a minha certeza se confirmou: Lá estava Sirius, completamente bem, parado em frente à lareira. Ele me ouviu apenas quando eu fechei a porta.

— Oh, Remus! — exclamou, correndo ao meu encontro.

Eu o abracei forte, sentindo o alívio de tê-lo ali comigo a salvo.

— Onde você estava? — ele indagou às lágrimas, e eu sabia, Sirius raramente chorava — Eu fiquei desesperado.

— É uma longa história — respondi — antes quero saber se você está bem, se eles te machucaram. Eu vi pela janela quando o obrigaram a aparatar.

— Não — ele disse, meio confuso — eles não me obrigaram, eu fui por vontade própria.

— O que? — indignei-me.

— Eles não se importariam de duelar aqui, mas eu não queria colocar a sua segurança em risco, então sugeri que fôssemos para outro lugar, e eles me levaram para um bosque, que não sei onde fica.

— Sirius, você não deveria...

— Deveria sim — interrompeu-me — julgo um dever sagrado proteger a pessoa que mais amo na vida. Mas eu estou bem, Remus, apenas trocamos alguns feitiços.

— Que feitiços?

— Nada muito grave, quer dizer, era para uma Avada Kedavra ter me acertado diretamente no peito, mas um pássaro enorme imobilizou Bellatrix, e o feitiço foi pelos ares. Eu só consegui rir de sua expressão desvairada, tentando bater no tal pássaro, que puxava seus cabelos de vassoura. Cara, que pássaro era aquele? Greyback lançou um feitiço estuporante sobre ele, que ao tocar sua pele, ricocheteou e voltou para o lobisomem.

— Fui eu que mandei aquela ave, Sirius.

— Você? Espera, não entendo.

Enquanto retirava a capa encharcada de Sirius e a minha própria, e acendia a lareira, eu contei a minha aventura, desde quando me lembrara da profecia da cigana. Sirius ficou perplexo.

— Então ela estava certa? — indagou inconformado.

— Sim — respondi — também custei a acreditar.

— Bom, pelo menos correu tudo bem.

— Mas agora ela sabe onde moramos, Sirius. E se voltar?

— Ela não volta. Ouvi quando Greyback disse que "deveriam abandonar essa causa, já que ela é inútil ao Lorde". Dolohov ainda complementou, dizendo que o Mestre estava aborrecido com ela, porque colocava a segurança de dois de seus melhores Comensais em risco por um capricho. Creio que Bellatrix não tenha coragem de desafiar o seu Mestre, mas de qualquer forma, podemos contar com um guardião.

Sirius apontou para a janela, de onde pude ver a enorme ave à frente, a zelar pela nossa casa.

— E quando amanhecer? — indaguei — Os trouxas não poderão vê-la.

— Creio que ela ficará à espreita em algum canto escondido. Mas não devemos nos preocupar com isso, está tudo bem agora.

Realmente estava, mas eu não sabia por quanto tempo. Não tinha importância, eu estava em paz nos braços de Sirius, conseguira salvá-lo, e já podia voltar a respirar.