Relíquias e Rádios

Quando acabaram de montar o novo acampamento, e quando estavam lá dentro, a discussão começou. Harry se sentiu particularmente surpreso, porque, desta vez, as duplas estavam completamente invertidas. Ele e Ron argumentavam contra Hermione e Sarah.

Sarah achava um absurdo. Desde sempre fora ensinada que a morte era algo imutável. E nada nem ninguém poderiam anulá – la. Por mais que ela quisesse, com todas as forças. Sentia-se irritada, quando mais uma lembrança voltou à sua mente.

Era uma de suas primeiras noites da mansão. Narcissa tinha saído com Lucius e Draco, e Bellatrix não estava em lugar nenhum, e ela tampouco sabia andar pelos terrenos. Limitou – se a ficar no quarto, sozinha. Na última semana, não tinha parado para lembrar-se de sua mãe. Não acreditava que ela estivesse morta, a ideia era simplesmente estranha. Mas naquela tarde chuvosa ela pensou em Marlene.

Acostumara – se a ter a mãe ali, vinte e quatro horas. Mais tarde, pensaria em como era dependente dela. Gostava de vê – la irritada, mas era só para espantar o tédio. A mãe nunca ficava irritada. E ela sempre acabava fazendo coisas deliciosas na janta. Mas agora estava sozinha.

Não se lembrava bem quando as lágrimas começaram. Talvez fosse porque ela olhava para a janela sendo riscada pela chuva, ou pelo simples fato dela não estar prestando atenção em nada específico, mas só reparou no choro quando sentiu o gosto salgado na boca. Ia esfrega – las para longe quando ouviu o rangido da porta se abrindo, e os barulhos da bota de Bellatrix no chão.

- Porque está olhando a chuva, menina? – perguntou ela, seca. Tentando conter as lágrimas, Sarah virou – se, e sentou na cama.

- Nada, só me senti sozinha.

A bruxa suspirou e sentou na cama. Sarah reparou que havia marcas de cansaço em seu rosto, como se ficar presa em casa estivesse matando a prima, aos poucos.

Lentamente, sentou – se ao lado dela, que perguntou:

- Porque está chorando?

- Nada... Só estava pensando na minha mãe.

O rosto de Bellatrix, antes cansado e abatido, se tornou duro.

- Ela morreu. Gente que morre não deve ser lamentada. Eu mesma não lembro mais da minha mãe.

- Não?

- Não.

Era impossível. Quando se deu conta, Harry e os outros olhavam para ela, indagadores.

- Desculpem. – disse Sarah, voltando seu olhar para eles – Vocês disseram algo?

- Sim. Qual relíquia você escolheria? – perguntou Harry - Se elas existissem.

Sarah pensou um pouco e Hermione disse:

- A varinha para poder matar Bellatrix?

- A capa para poder fugir? – Ron perguntou, olhando ansioso para ela. Sarah começou a sentir um bolo se formar em sua garganta. Levantou e olhou os três.

- A Pedra. – e saiu.

O silêncio que se seguiu foi chocado, e Harry virou a cabeça, olhando a garota se arrastar até o beliche e se jogar na cama debaixo. Ron, ainda silencioso, começou a falar do Observatório Potter, conectando no rádio.

Enquanto isso, Sarah fechou os olhos, sentindo a respiração ficar mais calma. Admitir que queria ter aquela pedra era humilhante. Ela queria desejar outra coisa, mas a varinha lhe parecia instável demais, e a capa era inútil. A pedra resolveria seus problemas, mas ela não queria pensar nisso. Não agora. Ainda de olhos fechados, abriu um sorriso, escutando a voz reconfortante de Fred no rádio, e mais uma vez uma lembrança aflorou, mas dessa vez, ela não fez nada para impedir...

Estava sozinha, sentada na grama molhada do jardim da Toca, quando sentiu um vento varrer seus cabelos. Logo, os gêmeos, sorrindo, sentaram – se cada um em um lado, Fred começou:

- E aí, gostando?

- Nada mal. Sua casa é diferente.

George riu.

- De onde você vem não existem pessoas com uma orelha só?

Curiosa, ela virou para o gêmeo.

- Você é estranho. Não pela orelha. Como conseguem rir numa situação dessas?

- Preocupada com a situação, Black? – Fred perguntou – Pessoas morrendo, destruição...

- Não. Só acho que está tudo muito tenso.

- Achamos que as pessoas tem que rir mais. – George argumentou. – Em tempos difíceis, a risada ajuda. Você não acha?

- Não sei. Não estou acostumada a rir.

- Gosta? – Fred perguntou. Com um sorriso de lado.

- Gosto. – admitiu a garota, com outro sorriso para o ruivo. Estava começando a gostar deles.

- Então ótimo. Vamos contar uma piada.

- Tentem,

- Era uma vez um duende, um inferi e uma mandrágora, que estavam num bar e...

- O que estão fazendo? – escutou – se uma voz grossa de trás deles. Quando os três viraram e se depararam com Charlie, curioso.

- Estamos tentando fazer ela rir. – George disse, sorrindo. – Tente.

Charlie sorriu para Sarah, que sentiu algo estranho no estômago, como se tivesse vomitado várias vezes seguidas. Sem jeito, a garota olhou para Charlie, levantando as sobrancelhas:

- Há muito tempo não rio.

- Então tome cuidado, Sarah. Fred e George vão acabar matando você. Às vezes eles conseguem. – terminou sarcástico. Sarah sorriu, sem saber por que, e ele disse:

- Mas devia sorrir mais vezes, fica bem em você.

Ela mal reparou, mas ainda sorria quando a transmissão acabou, e escutou alguns pedaços da conversa, para depois cair no sono. Não lembrava quanto tempo dormira, mas acordou com gritos e confusão, sentindo um saco preto ser colocado na sua cabeça, e então, tudo apagou.